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Frank Cottrell Boyce
Caiu do Céu
Tradução

Marcelo Mendes



EDITORA NOVA FRONTEIRA
Para Joe, Aidan, Chiara, Gabriella, Benedict, Heloise e Xavier — meu ouro, incenso e mirra.
1
Se estivesse contando esta história, nosso Anthony começa­ria pelo dinheiro. Tudo é uma questão de dinheiro, ele diz, então melhor começar por aí. Anthony provavelmente escre­veria "Era uma vez 229.370 pequeninas libras esterlinas" e continuaria até chegar em "e viveram felizes para sempre, com uma bela poupança no banco". Mas não é ele quem está con­tando a história, sou eu. Pessoalmente, prefiro sempre come­çar pelo santo padroeiro do que quer que seja. Por exemplo, quando tive de fazer uma redação sobre o dia em que muda­mos de casa, escrevi:
Mudando de Casa

Por Damian Cunningham,

Terceira série

Acabamos de mudar de casa. Nosso novo ende­reço é rua Cromarty, número 7. A padroeira das mudanças é Sant’Ana (século I). Ela era a mãe de Nossa Senhora. Nossa Senhora não morreu, mas flutuou para o céu, ainda jovem. Sant’Ana ficou muito triste. Para alegrá-la, quatro anjos carregaram a casa dela até a costa da Itália, onde está até hoje. Quem for mudar de casa pode pedir ajuda a Sant’Ana. Ela vai dar proteção, mas não vai carregar nada. Sant’Ana também é a padroeira dos mineradores, dos cavaleiros, dos marceneiros e da cidade de Norwich. Quando estava viva, realizou muitos milagres.
O padroeiro desta história é são Francisco de Assis (1181-1226), pois, de certa forma, tudo começou com um roube. E a primeira coisa de santo que são Francisco fez foi roubar umas roupas do próprio pai para dar aos pobres. Existe um padroei­ro dos ladrões de verdade — São Dimas (século I) —, mas não sou um ladrão de verdade. Só estava tentando fazer o bem.

Era o nosso primeiro dia na escola. A placa do lado de fora dizia "Escola Fundamental Great Ditton — Criando excelência para uma nova comunidade".
Estão vendo aquilo? disse papai, ao nos deixar no portão. Nesta escola, ser bom não é suficiente. Excelência é o que eles querem! Portanto, minha recomendação do dia é: "sejam excelentes!" Quanto às recomendações para o jan­tar, vou deixar um bilhete na porta da geladeira.

De uma coisa ninguém pode reclamar: sempre tento fi­zer exatamente o que papai diz. Não que eu ache que ele vá nos abandonar se a gente não se comportar, mas por que arriscar? Então fui excelente logo no primeiro dia. Na aula de artes, o sr. Quinn disse que nossa tarefa era desenhar alguém que a gente admirasse. Um garoto enorme, com sardas no pescoço, escolheu Sir Alex Ferguson e relatou todos os cam­peonatos que o técnico do Manchester já havia conquistado. Um garoto chamado Jake disse que jogadores eram mais im­portantes que técnicos e escolheu Wayne Rooney, por causa das jogadas individuais dele. O sr. Quinn olhava em torno da sala. Em termos puramente pedagógicos, o futebol não lhe servia de nada. Levantei a mão. Ele chamou uma garota.

Não conheço nenhum jogador de futebol, senhor.

Não precisa ser jogador de futebol.

Ah, então não sei, senhor.



Usei minha outra mão para levantar a primeira ainda mais alto.

Damian, quem você admira?



A essa altura, a turma inteira debatia sobre técnicos e jogadores.

Eu disse:

  • São Roque, senhor.

Os outros se calaram.

  • Em que time ele joga?

  • Em nenhum, senhor. É um santo de verdade.

E meus colegas voltaram para o futebol.

  • Ele foi vítima da peste e se escondeu na floresta pra não contagiar ninguém, e um cachorro levava comida pra ele todos os dias. Então começou a fazer curas miraculosas, e as pessoas, centenas e centenas de pessoas, começaram a procurá-lo na floresta. Ele tinha tanto medo de dizer alguma coisa errada pra alguém que resolveu ficar calado durante os dez anos seguintes da vida dele.

  • Um ótimo exemplo para algumas pessoas desta tur­ma. Muito obrigado, Damian.

  • Ele é o santo padroeiro das pestes, da cólera e dos problemas de pele. Quando era vivo, realizou muitos milagres.

  • Bem, vivendo e aprendendo.

O sr. Quinn queria ouvir outro aluno, mas eu estava achando o máximo ser excelente. Então me lembrei de Catarina de Alexandria (século IV).

  • Queriam que ela se casasse com um rei, mas ela disse que já estava casada com Jesus Cristo. Então tentaram torturá-la numa roda de madeira enorme, mas a roda se partiu em milhares de lascas, enormes e pontudas, que depois caíram sobre a multidão, matando e cegando muita gente.

  • Que horror! Um caso antigo de "danos colaterais", eu diria! Bem, muito obrigado, Damian.

A essa altura, ninguém mais falava de técnicos e jogado­res. Todos me ouviam com atenção.

Depois disso, cortaram a cabeça dela. E então a Catarina de Alexandria morreu mesmo, mas só que, em vez de sangue, começou a jorrar leite do pescoço dela. Esse foi um de seus muitos milagres.

Muito obrigado, Damian.

Ela é a padroeira dos enfermeiros, dos fogos de artifí­cio, dos construtores de rodas e da cidade de Dunstable. Den­tro do relógio tem uma roda dentada que se chama "catarina", em homenagem à santa. Ela foi uma virgem mártir. Há ou­tras virgens mártires, também muito famosas. Por exemplo, santa Sexburga, a abadessa de Elia (670-700).



Todo mundo caiu na gargalhada. Todo mundo sempre acha graça no nome da santa. Aposto que todo mundo acha­va graça no nome dela no século VII também.

Sexburga era a rainha de Kent. Tinha quatro irmãs, que também viraram santas. Elas se chamavam...



Antes que eu pudesse dizer Etelburga e Vilburga, o sr. Quinn disse:

Damian, já agradeci a sua participação.



Na verdade, ele havia agradecido três vezes. Se isso não é excelência, então não sei o que é.

Minha história também serviu como inspiração artísti­ca, pois quase todos os garotos desenharam os danos colate­rais durante a execução de santa Catarina. Muitas lascas voa­doras e muitos pescoços jorrando leite. Jake desenhou Wayne Rooney, mas foi o único.

No refeitório, um garoto saiu da fila de sanduíches quentes e se aproximou da mesa onde eu estava; depois balançou um hambúrguer diante do meu nariz e disse:

Sexyburger, sexyburger!



Todo mundo na mesa riu.

Achei aquilo extremamente mundano e já abria a boca para dizer isso a eles quando Anthony chegou e sentou-se ao meu lado. Todos pararam de rir.

Nosso lanche era sanduíche de presunto com tomate e dois tubos pequenos de batatinhas Pringles.

Eu fui excelente, e você? — perguntei a ele. Anthony sussurrou:



  • Você tá chamando a atenção das pessoas. Tá todo mundo rindo!

  • Não me importo que riam de mim. A perseguição é uma coisa boa. Todo mundo ria de José de Cupertino até ele aprender, a levitar.

O garoto enorme com sardas no pescoço apareceu e sen­tou-se à nossa frente. O barrigão dele esbarrou na mesa, fazen­do com que o tampo se inclinasse e que meu tubo de Pringles rolasse na direção dele. O gorducho pegou as batatinhas e abriu.

As batatinhas são dele — disse Anthony, apontando para mim.



  • E você, quem é? — perguntou o Pescoço Sardento.

  • Sou o irmão maior dele.

Mas não é tão maior assim. Todas as Pringles perten­cem a mim. — Farelos de batata escorriam da boca do gor­ducho enquanto ele falava. — Regras da escola.

Você não pode pegar as batatinhas do meu irmão. Ele não tem mãe.



  • Como assim, não tem mãe? Todo mundo tem mãe. Mesmo gente que não tem pai, tem mãe. As batatinhas estão deliciosas, por falar nisso.

  • Ela morreu — disse Anthony.

O Pescoço Sardento parou imediatamente de mastigar e devolveu o tubo de Pringles. Disse que se chamava Barry.

Muito prazer, Barry. Anthony estendeu a mão para cumprimentá-lo, pois acreditava em fazer amizades. — Onde você mora?

Do outro lado da ponte, próximo à loja de conveniência. —Uma área muito valorizada — disse Anthony. — Real­mente muito valorizada.

Meu irmão é muito, muito interessado em imóveis. No caminho para o playground, ele me disse:

Funciona sempre. É só falar que a nossa mãe morreu, - e as pessoas nos dão as coisas.


No turno da tarde, por algum motivo, resolvi dar uma de são Roque. Resisti a todas as tentações de falar durante a aula de matemática — não levantei a mão nenhuma vez, nem respondi a uma pergunta de tabuada ao ser chamado. Quando o sr. Quinn perguntou se eu estava passando bem, fiquei tentado a responder, mas apenas fiz que sim com a cabeça. Em­bora não contribuísse em nada com a aula, eu estava sendo excelente de outra maneira, menos óbvia. Continuei assim até chegar em casa. Papai havia deixado um bilhete pregado com ímã sobre a porta da geladeira; eram as recomendações para o jantar:
Meus queridos,

Empadão de frango com aspargos. O empadão está na gaveta de cima do freezer . Acendam o forna a 190º. Vão para a televisão e assistam a alguma coisa. Depois de 10 minutos, o forno já vai estar quente. Coloquem o empadão para assar. Tirem os uniformes e deixem tudo bem dobradinho sobre a cama. Vistam um moletom. Depois ponham algumas batatas para assar no forno, junto com o empadão. Vou chegar antes que elas estejam prontas.

P.
Achei legal ser chamado de "querido".
Quando papai chegou em casa, comemos o empadão de frango; depois, para hidratar nossos fígados, comemos cin­co pedaços de fruta e tomamos um copo d'água cada um. Fígados hidratados, fizemos os deveres de casa. Mas então o telefone tocou, e eu acidentalmente atendi. Não sei como são Roque agüentou por dez anos, mas uma coisa é certa: deve ter sido muito mais fácil para ele ficar calado numa época em que ainda não existia o telefone. Bem, era o sr. Quinn. O professor em pessoa ligou para a nossa casa! Isso é que é excelência!

Mais tarde, papai sentou-se na beira da minha cama e disse:

Você está caladinho hoje. O que foi? O gato comeu a sua língua?



Fiz que não com a cabeça.

Fiquei sabendo que você estava muito quieto na esco­la também.



Fiz que sim com a cabeça.

  • Não quer me contar nada?

Fiz que não com a cabeça.

  • Tudo bem. Hora de dormir.

Papai fechava a porta do quarto quando fui vencido pela tentação de falar.

O que o sr. Quinn queria?



  • Bem, queria conversar, só isso. Foi ele quem contou que você estava muito quieto na escola hoje.

  • Ele disse "muito obrigado" três vezes. Isso significa que eu fui mesmo muito excelente. Ele disse que eu fui exce­lente?

  • Disse que... Sim, ele disse que você foi excelente. — Depois papai se aproximou e fez um carinho nos meus cabe­los. — Um dos meus clientes falou de um lugar hoje, chama­do Nevódromo. Dá pra andar de trenó e até esquiar na neve. Gostaria de ir comigo até lá?

Fiquei na dúvida.

  • É uma recompensa. Por você ter sido excelente.

  • Então eu vou.

Muito bem. A gente vai amanhã, logo depois da esco­la. Porque você é um filho muito excelente.
O Nevódromo era o máximo. Tinha neve de verdade, feita de cristais de gelo e espalhada por um ventilador gigante. Eles nos deram uma roupa especial para vestir assim que entra­mos. Não era permitido que duas pessoas descessem a pista no mesmo trenó, mas Anthony falou com o homem que nos­sa mãe tinha morrido, e ele deixou que a gente fizesse do nosso jeito. Descemos quatro vezes juntos, uma vez de bruços e três vezes de costas.
Na manhã seguinte, na escola, todo mundo queria saber como era o Nevódromo. Expliquei como funcionava o ventilador gigante e, enquanto demonstrava como andar de trenó de costas, topei com o sr. Quinn, que tinha acabado de aparecer na porta.

Cuidado! Cuidado! ele berrou, deixando cair to­dos os nossos livros.



Ajudei a recolhê-los. Entre eles estava o meu, com a re­dação sobre a vida de Sant'Ana. Tinha um bilhete dentro, mas o sr. Quinn guardou-o no bolso antes de me devolver o livro.

  • Que diabos você estava fazendo, garoto?

  • É que ontem nós fomos ao Nevódromo, senhor. Foi muito legal.

De repente, o sr. Quinn ficou todo animado.

Então, que tal escrever uma redação sobre o passeio? ele disse. Não é uma boa idéia? Conte como foi diverti­do e inclua todos os detalhes. Aposto que não existe um san­to padroeiro dos Nevódromos.


O Nevódromo

Por Damian Cunningham,

Turma do Sr. Quinn
O Nevódromo é o máximo. A gente pode patinar no gelo e andar de trenó. A santa padroeira do esqui é Lidwina (virgem mártir, 1380-1433), que teve um aci­dente enquanto patinava e passou o resto da vida acamada. Ela suportou seu sofrimento com muita resignação e realizou vários milagres: por exemplo, comeu apenas hóstias sagradas durante sete anos. Para maiores informações, consulte o site:

www.totallysaints.com/lidwina.html.
A verdade é que existe um santo padroeiro para tudo. Como Santa Clara de Assis (1194-1253) uma vez me disse: "Os santos são como os aparelhos de televisão. Estão por toda parte. Mas é preciso ter uma antena."
2
Anthony mal pode acreditar que cheguei até aqui sem falar da União Monetária Européia.
A União Monetária Européia

Por Anthony Cunningham,



Quarta série
O dinheiro foi inventado na China em 1.100 a.C. An­tes disso, os mercadores chineses usavam, facas, e espadas como moeda de troca. Mas elas eram muito pesadas, então os chineses passaram a usar facas e espadas miniatu­ras. Elas eram feitas de bronze, e foram as primeiras moe­das. Em pouco tempo, todos os países tinham suas pró­prias moedas. Na Europa, por exemplo, havia o robusto mar­co alemão, a extravagante lira Italiana, o sofisticado fran­co francês e, é claro, a extraordinária libra britânica. A libra foi inventada em 1489, quando era chamada de so­berano. No dia 17 de dezembro, a libra será substituída pelo euro.

Quando a gente deposita uma libra no banco, eles co­locam o dinheiro em um trem especial, que depois o trans­porta até um lugar secreto para ser sucateado. Na manhã seguinte, o trem volta com o dinheiro novo. Portanto, nes­te exato momento, quase todo o dinheiro da Europa está viajando de trem.

Nossas velhas moedas devem ser colocadas, em vidros de geléia separados-, um vidro para as moedas de 5 centa­vos, outro para as de 10, outro para as de 20, e assim, por diante. Quando os vidros estiverem cheios, devem ser le­vados ao banco para que as moedas sejam, trocadas. Dia 17 de dezembro será o "dia do euro", o dia em que daremos Tchau para a velha Libra.


Anthony dava tchau para a velha libra quase todos os dias. No caminho da escola para casa, costumava correr como um louco até a passarela de pedestres e ficar ali, esperando até que um trem passasse rugindo sob nós. Depois, como no cinema, acenava e gritava até ver o trem desaparecer. "Adeus! Adeus, libras velhas!", ele berrava.

Anthony falava como se cada cédula de dez libras fosse uma amiga pessoal dele. Às vezes cheguei a pensar que ele fosse chorar. "Incrível", ele dizia, "quase quinhentos anos de história virando fumaça!".

Outras vezes, parecia bastante feliz com a mudança. "Incrível", ele dizia, "depois do Natal, todo mundo, da Irlanda até a Grécia, vai usar o mesmo dinheiro!".

Todas as noites, antes de irmos para a cama, Anthony, papai e eu jogávamos todas as moedas que tínhamos dentro de uma garrafa de uísque enorme que ficava ao pé da escada. Antes de subir para o quarto, Anthony quase chorava ao se desfazer de suas moedinhas de cinco centavos. E quando descia para tomar o café da manhã, dava um tapinha na garra­fa e dizia: "Impressionante como ela está se enchendo rápido!"

Quanto a mim, eu pensava: e daí? Dinheiro é só uma coisa, e as coisas mudam. Isso foi o que vim a descobrir. Uma hora a coisa está lá, bem debaixo do nosso nariz; a gente pode tocar e cheirar. E depois a coisa derrete, como uma barra de chocolate.

3
Mudando de casa

Por Anthonyy Cunningham,



Quarta série
Acabamos de nos mudar para uma nova casa, na rua Cromarty, número 7. É um imóvel de três quartos, sem vizinhos de frente. Custou 180.000 libras, mas não deve se depreciar; pelo contrário, acho até que vai valorizar! Tem placas de aquecimento solar no telhado e um sistema de calefação bastante econômico. Tem dois banheiros, incluindo o do quarto principal. Amplos jardins, na frente e atrás, completam o cenário. Fica em um novo condomínio, numa área semi-rural. Finalmente tenho um quarto só para mim. O papel de parede tem jogadores de futebol; fui eu mesmo que escolhi.
Em termos puramente arquitetônicos, fiquei decepcio­nado com a nova casa.

Lembro da rua Cromarty quando ela ainda era de terra. Papai um dia nos levou até um campo grande, perto da fer­rovia, todo coberto de sarças e urtigas. Um homem de cami­sa xadrez e prancheta na mão nos conduziu até uma área onde as sarças e as urtigas tinham sido arrancadas, e o mato, aparado. Era toda entrecortada de ruas de terra.

  • Rua Dogger disse o homem, apontando para uma delas. Depois caminhou até a esquina da rua seguinte e disse: — Rua Finnisterre. — Por fim, apontou para a esquerda e disse: — Rua Cromarty.

  • O que vocês acham? — perguntou papai. — Querem se mudar pra cá?

Queremos sim! — respondi, muito entusiasmado. E então nos mudamos.

Na verdade, fiquei entusiasmado por causa de um mal-entendido. Achei que papai tivesse sugerido que nos mudássemos para o campo do jeito que ele estava, com ruas de ter­ra e tudo mais. Muitos santos viveram em lugares esquisitos. Santa Úrsula (século IV) viveu em um navio com 11 mil com­panheiros santos. São Simeão (390-459) tentou se livrar das tentações do mundo vivendo no topo de uma coluna de três metros de altura. Quando os curiosos começaram a se juntar em torno da coluna, ele se mudou para outra, de dez metros, para não ouvir o barulho. E quando as pessoas começaram a gritar (em 449), ele se mudou para uma terceira coluna, de vinte metros de altura, onde terminou seus dias em perfeito estado de contemplação.

Comparado a isso, viver em um campo de sarças e ruas de terra parecia bastante sensato e agradável. Eu estava ansio­so. Quando voltamos, todas as sarças haviam sido arranca­das; uma placa havia sido colocada, e nela se lia: "Condomí­nio Portland Meadows — exclusividade, privacidade e modernidade"; e quatro fileiras de casas, com telhados pontudos e janelas esquisitas, haviam sido construídas. A de nú­mero 7, na rua Cromarty, tinha três quartos, amplos jardins e painéis de energia solar. Ao contrário de muitas outras, não era contígua às construções vizinhas.

As casas isoladas depreciam menos, e as de três quar­tos têm uma demanda maior — Anthony comentou. — Ah, e os painéis de energia solar valorizam o imóvel.


Comparada a um navio com 11 mil companheiros santos ou a uma coluna de mármore de vinte metros de altura, nossa casa parecia um tanto quanto mundana. Então resolvi cons­truir um eremitério.

Papai queria colocar tudo no lugar. Quando abrimos as caixas de papelão, encontramos um milhão de coisas das quais a gente nem se lembrava mais. Uma das caixas estava cheia de vasos. Outra, cheia de roupas de cama. Uma terceira tinha enfeites de Natal e uma pista de autorama (que armamos ali mesmo, no depósito de caixas). Também encontramos as roupas e as maquiagens da nossa mãe.

Quando terminamos, levei as caixas vazias até a ferrovia, encaixei uma na outra, e pronto, lá estava o meu eremitério. Ele tinha a forma de um túnel e, nas extremidades, as abas serviam de janelas. Quando os trens passavam, toda a construção tremia, e nas noites escuras, os faróis iluminavam o lado de dentro por alguns segundos. Uma cerca de azevinhos, entre os jardins do condomínio e a ferrovia, tornava o eremitério quase invisível para quem estivesse nas casas. Levei algumas coisas para lá como o meu marcador de livros de são Francisco de Assis e uma bisnaga de hidrabase —, mas não exagerei, pois minha intenção era justamente levar uma vida mais simples. Não o tempo todo, é claro, por causa da escola. Mas sempre que possível. Minha pele se arranhou um pouco quando tive de atravessar a cerca de azevinho, mas não me importei, pois sei que o sofrimento é bom (o nome disso é "mortificação").


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