Editora Ática 1985 ano internacional da juventude



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Lúcia Machado de Almeida

O ESCARAVELHO DO DIABO




editora Ática 1985 - ANO INTERNACIONAL DA JUVENTUDE

12.a edição


SÉRIE VAGA-LUME
Ilustrações: Mário Cafiero

Capa: "Layout" de Ary Almeida Normanha

Suplemento de Trabalho: Jiro Takahashi
CIP-Brasil. Catalogação-na-Publicação

Câmara Brasileira do Livro, SP

Almeida, Lúcia Machado de.

A448e O escaravelho do Diabo / Lúcia Machado de

12.ed, Almeida. — 12. ed. — São Paulo : Ática, 1985.

(Vaga-lume)

1. Literatura infanto-juvenil I. Título.

84-1919 CDD—028.5


Índices para catálogo sistemático:

Literatura infanto-juvenil 028.5

Literatura juvenil 028.5
QUEM É A AUTORA
Lúcia Machado de Almeida nasceu na Fazenda Nova Granja, município de Santa Luzia, Minas Gerais. Ainda criança, mudou--se para Belo Horizonte, onde fez o curso primário e o secundário no Colégio Santa Maria, de religiosas dominicanas. Estudou inglês, francês, história da arte e da literatura, piano e canto.

Pertence a uma família de intelectuais. É irmã dos escritores Aníbal Machado, Paulo Machado e Carolina Machado, já falecidos; é casada com Antônio Joaquim de Almeida, irmão do poeta Guilherme de Almeida.

Seu primeiro trabalho literário foi o poema Desencanto, publicado no Estado de Minas, quando tinha 14 anos. Seu primeiro livro — No Fundo do Mar — foi publicado alguns anos depois. A partir daí, todas as suas obras têm obtido grande sucesso e seu nome figura hoje com destaque em nossa literatura infanto-juvenil. Referindo-se a ela, disse Rachel de Queiroz: "É uma imaginação precisa, delicadíssima. Sua contribuição à nossa parca literatura infantil merece o maior respeito."

Entre os vários prêmios que conquistou, destacam-se: Medalha de Ouro da Bienal do Livro, de São Paulo; Prêmio Othon Bezerra de Mello, da Academia Mineira de Letras; além da condecoração Stella delia Solidarietá (medalha de mérito cultural do Governo Italiano) e de Chevalier des Arts et des Lettres, do Governo Francês.

Lúcia Machado de Almeida é jornalista profissional, tendo se iniciado nessa carreira quando adolescente.

OBRAS DA AUTORA
Estórias do Fundo do Mar (Prêmio da Fundação Cultural de Brasília)

Lendas da Terra do Ouro

O Caso da Borboleta Atíria

Viagens Maravilhosas de Marco Pólo

O Escaravelho do Diabo

Passeio a Sabará

Passeio a Diamantina

Aventuras de Xisto

Xisto no Espaço (Prêmio Jabuti)

Xisto e o Pássaro Cósmico (nova versão de Xisto e o Saca-Rolha)

Passeio a Ouro Preto

Passeio ao Alto Minho

A Vida é Fantástica

Roteiro das Cidades Históricas de Minas

Spharion — Aventuras de Dico Saburó (Prêmio da Fundação Cultural de Brasília)
Capítulo I
O MENSAGEIRO DA MORTE

Hugo, um pacote para você! gritou Alberto, recebendo um pequeno embrulho das mãos do carteiro. Assinou o nome do irmão no papelzinho e foi levar-lhe a encomenda.

Hugo, que acabara de fazer a barba, mirava-se no espelho, ensaiando olhares longos e fatais para lançar às garotas na primeira oportunidade. O cristal refletia um rosto sardento de dezoito anos, extremamente simpático e sadio, aureolado por cabelos tão vermelhos que o moço era conhecido por "Foguinho".

— Deve ser presente de alguma admiradora, disse ele, alegremente, examinando o endereço escrito à máquina.

O barbante foi desatado, o embrulho desfeito e apareceu uma pequena caixa de forma retangular.

— Oba! Que é isso? Que coisa esquisita! Um bicho... gritou "Foguinho", tirando de dentro um grande besouro negro com uma espécie de chifre na testa.

A carapaça do inseto tinha reflexos azulados e seu corpo media cerca de quatro centímetros. Um comprido alfinete entomológico fixava-o a um pedaço de rolha, o que provava ter ele sido retirado de alguma coleção.

Os dois rapazes aproximaram-se da janela aberta a fim de melhor examinarem o estranho besouro.

— Veja se isto é cara que se apresente em público! disse Hugo, um tanto desapontado. Queria saber qual foi o camarada que me pregou essa peça...

— Jogue fora o estuporzinho logo, de uma vez! aconselhou Alberto.

Hugo examinou o inseto ainda por algum tempo e depois disse pensativamente:

— Nada disso. Estou desconfiado de que foi Carlos o autor da brincadeira. Ele gosta muito de pregar peças nos outros. Vou averiguar a coisa e, conforme for, mandarei o escaravelho de volta para ele, dentro da mesma caixa e embrulhado no mesmo papel.

Assim dizendo, "Foguinho" colocou o besouro em cima de uma estante de livros e procurou não pensar mais no caso.

— Como é, vamos ao baile hoje?

— Claro. Vai ser uma curtição.

— Quero ser o primeiro a chegar e o último a sair.

— Então você fica e eu volto. O exame é depois de amanhã e ainda quero repassar uns pontos. Essa tal de anatomopatologia é um caso sério!

— Ai, ai, disse Hugo, irônico. Eu só quero ver o doutorzinho de anel com pedra verde no dedo...

— Ainda faltam dois anos para isso, seu bobo!

— Dois anos! Que chateação! repetiu Alberto, aproximando-se da folhinha dependurada na parede e arrancando a folha que marcava o dia da véspera.

— Que bom! Só falta uma semana para os "velhos" chegarem da América! exclamou Hugo. Pedi a papai que desse uns beijinhos por mim na Brooke Shields. Puxa! Aquilo é que é mulher!

— Fan-tás-ti-ca! tornou Alberto pronunciando demorada-mente cada sílaba.

Os dois irmãos conversaram ainda algum tempo e depois cada qual tomou seu rumo.


* * *

— Dez horas e Seu Hugo ainda não se levantou, disse a arrumadeira. A gente desde cedo no batente e o mocinho no bem-bom... Isso até é desaforo.

— Deixe o rapaz dormir, falou o jardineiro. Com certeza chegou tarde esta noite.

— Não chegou não. O baile foi antes de ontem. Você protege o menino um bocado, hem? tornou a moça passando a enceradeira elétrica no chão da sala.

— Quem sabe se está doente?

— Ele que se arrume!...

Pouco depois do meio-dia Alberto chegou da Faculdade de Medicina e foi diretamente para o quarto do irmão a fim de comentar com ele a prova que acabara de fazer.

Estranhando encontrar a porta fechada por dentro, deu nela duas pancadas e chamou:

— Hugo! Hugo! insistiu ele, vagamente inquieto.

— Hugo! Hugo! Abra, sou eu, Alberto. Ninguém respondeu.

— Ele não se levantou até agora, disse a arrumadeira, aproximando-se.

Aflito, Alberto afastou-se da porta, e, num forte impulso, atirou-se violentamente contra ela. A madeira cedeu e... um quadro horrível apresentou-se diante daqueles dois olhos assustados: Hugo estava deitado no leito, com uma comprida espada fincada no peito, do lado esquerdo!


Sem se incomodar com a arrumadeira, que soltara um grito agudo e caíra no chão desacordada, Alberto correu para o irmão, procurando encontrar-lhe o pulso. Em vão: o corpo estava frio; Hugo já era cadáver. Sem se conter, Alberto caiu de joelhos e se pôs a soluçar.

— O que foi? O que é isso? perguntavam a um tempo o copeiro, a cozinheira, e o jardineiro que vieram correndo.

Alberto olhou-os sem responder, e depois, num esforço violento, levantou-se e saiu do quarto, dizendo com voz trêmula:

— Não toquem em nada. Deixem tudo como está.

Correu para o telefone e agitadamente se pôs a procurar um número.

— Está bem, respondeu o Delegado de plantão. Vou requisitar imediatamente a Polícia Técnica e avisar o serviço de Medicina Legal.

Em poucos instantes a casa ficou cheia de parentes e vizinhos. O que mais intrigava a todos era aquela enorme espada cravada no peito do morto. Por que teria sido deixada ali?

Minutos depois chegavam os dois peritos da Polícia Técnica, um médico e um enfermeiro. Ninguém, além deles e de Alberto, entrou mais no quarto.

— Hum... fez o médico, depois de examinar o corpo com minúcia. Hemorragia interna... E o óbito deve ter ocorrido há umas doze horas, mais ou menos. À meia-noite, provavelmente.

— É estranho, observou um dos peritos. Não há o menor sinal de luta.

O médico ficou pensativo, inspirou lenta e profundamente, e depois disse:

— Vocês não estão sentindo um leve cheiro de clorofórmio?

De fato. Um odor discreto, ligeiramente enjoativo e adocicado se fazia sentir, confirmando a suposição do médico.

— Vocês querem dizer que meu irmão morreu narcotizado?

— Sim e não. O assassino provavelmente encontrou-o dormindo, aplicou-lhe um lenço embebido em clorofórmio e em seguida cravou-lhe a espada no peito. E o sujeito tinha boa pontaria, pois o golpe foi direitinho no coração.

— Não é possível morrer assim, estupidamente, à toa!... exclamou Alberto angustiado. Meu irmão não tinha inimigos, todo o mundo gostava dele! O que não posso absolutamente compreender é a razão pela qual o criminoso usou essa espécie de arma, fazendo questão de deixá-la assim junto da vítima. Seria algum louco o assassino? E que espada é essa?

Um dos peritos abriu com cuidado o pano branco onde a lâmina estava depositada e examinou detidamente o punho esculpido com arte.

— É uma espada espanhola, provavelmente fabricada em Toledo, em princípios do século dezessete, disse ele. Venho fazendo muitos estudos nesse sentido. Acabei de ler um livro onde vi uma fotografia igualzinha a ela.

— Duvido que o assassino tenha deixado impressões digitais, comentou o médico.

— Com certeza foi bem precavido e usou luvas, disse o enfermeiro.

Alberto saiu do quarto a fim de tentar uma ligação telefônica para Washington onde seus pais se achavam. Como contar-lhes um acontecimento tão trágico e tão... estranho?

Os peritos terminaram o levantamento topográfico do quarto e retiraram-se.

A casa era térrea — uma arrojada e confortável construção de linhas modernas — e o apartamento dos rapazes ficava na parte de trás, em frente a uma piscina. Hugo dormia de janelas abertas, sem se preocupar com o perigo que isso representava. Fácil deveria ter sido a qualquer pessoa entrar no quarto dele, portanto.

As coisas seguiram o seu rumo normal. O médico deu o atestado de óbito e o Inspetor Pimentel tomou conta do caso. Sua primeira providência foi reunir todos os empregados da casa. A cozinheira servia a família havia já quinze anos e adorava Hugo. O jardineiro — o único que dormia fora — num bairro distante — também gostava muito do rapaz. Quanto à arrumadeira e Pedro, o copeiro, eram indiferentes, cumpriam mecanicamente as suas obrigações sem afeição especial aos patrões. Todos tinham, ou melhor, não tinham álibis, pois à hora do crime dormiam sossegadamente nos respectivos quartos. Ninguém tinha visto ou ouvido coisa alguma.


  • Eu estava até sonhando com cobras, disse Elza.

Pedro disfarçadamente puxou um lápis e anotou o fato num caderninho, a fim de aproveitar o palpite na loteria.

Era perfeitamente lógico o que os criados diziam, entretanto nada disso afastava as suspeitas de cada um. Por outro lado, no colégio onde estudava e na sociedade que freqüentava, Hugo era querido por todos. Jamais se envolvera em brigas, jamais prejudicara quem quer que fosse.

— Havia mulheres na vida dele? perguntou o Inspetor.

— Muitas em geral, nenhuma em particular, disse Alberto. Hugo fazia bastante sucesso entre as meninas. Era alegre, esportivo, dançava bem, flertava sem compromissos.

— Esse caso é muito estranho, tornou o Inspetor. Quem sabe se o assassino assustou-se com algum ruído inesperado e abandonou rapidamente a vítima, sem tempo nem de retirar a arma? De qualquer modo vou percorrer os antiquários da cidade para ver se descobrimos de onde saiu a tal velharia. Talvez surja daí alguma pista.

Três dias depois chegaram os desolados genitores de Hugo. Seu pai era um físico de fama mundial e iniciava uma série de viagens de estudo pelo estrangeiro.

Um prêmio de cinqüenta milhões de cruzeiros foi prometido a quem descobrisse o assassino. Alberto não se conformava. Tinha emagrecido e seus olhos azuis, ligeiramente oblíquos, ainda mais longos pareciam no rosto moreno, formoso e grave.

Jurara a si mesmo tentar o impossível para esclarecer a morte de Hugo. De uma coisa ele nem de leve suspeitava: aquilo era apenas o começo. O começo de uma série de fatos terríveis e absurdos que iriam encher de pânico Vista Alegre, até então uma das mais lindas e pacatas cidades do Brasil.

Capítulo II
OS HÓSPEDES DA IRLANDESA
one... two... one... (*) dizia Cora O'Shea, levantando e abaixando os braços, em frente à janela aberta, enquanto o rádio transmitia a "Hora da Ginástica".

(*) Um... dois... um...


A música era sempre a mesma, uma espécie de marcha bem ritmada. Quando chegava a hora do refrão, Mrs. O'Shea começava a dar palmadinhas estrepitosas na barriga, voltando a flexionar os braços tão logo terminava aquele. Que coisa cacete, meu Deus! Mas a gorda irlandesa não desistia. Todo o sacrifício era pouco para afastar aquele "middleage fat"(**) que a aborrecia tanto. Se não fosse isso, ninguém diria que já fizera cinqüenta anos. Seu rosto era liso e tão rosado que a gente tinha a impressão de estar vendo milhares de glóbulos vermelhos, gordíssimos e agitados, circulando de um lado para outro. Ainda bem que tinha saúde de ferro!...

(**) gordura da meia-idade.


Morrera-lhe o marido havia dez anos, deixando-a com o pequeno Clarence para criar.

Quanto a Marmaduke, o filho mais velho, estava na Inglaterra aperfeiçoando os seus estudos de Química.

Sua casa era confortável, quase no centro da cidade, e tinha vários quartos independentes. Veio-lhe então a idéia de aceitar alguns poucos inquilinos a fim de ter mais uma fonte de renda.

Mr. Graz, o velho suíço professor de Francês num colégio de rapazes, já lá estava havia nove anos; Mr. Gedeon, representante de uma firma norte-americana de artigos ortopédicos, havia chegado tempos atrás, e a pequena Verônica morava naquela casa desde os quinze anos, quando viera do interior estudar música no Conservatório da cidade.

Cora O'Shea meteu-se num chuveiro depois da ginástica e em seguida foi tomar a sua refeição, em companhia dos hóspedes. Viviam ali como numa pequena família, entendendo-se às mil maravilhas. Apenas Clarence quebrava um pouco aquela harmonia. Era um rapazinho pretensioso e arrogante, sempre dizendo coisas desagradáveis, sempre achando tudo ruim...

Havia presunto com ovos, chá, torradas, geléia e maçãs. "One apple a day keeps the doctor away"(*) repetia sempre Cora. As frutas estavam especialmente belas aquela manhã. Grandes, perfumadas e vermelhas.

Mr. Graz, alto e magro, parecia um pássaro com aquele nariz grande, ligeiramente adunco. Usava constantemente uma pérola acinzentada do tamanho de um bago de milho fincada na gravata e repetia sempre:

— Trata-se de uma jóia de família, meus amigos.

(*) Uma maçã por dia mantém o médico distante.
Sem a menor cerimônia, o suíço apalpou, uma por uma, as maçãs, cutucou-as, olhou-as contra a luz em várias direções e depois cheirou-as detidamente, cada qual por sua vez. Terminada a operação, selecionou duas que mereceram ruidosa cheirada final, e ofereceu uma a Verônica, de quem era muito amigo.

Em seguida se pôs a comer a sua, com mal contido esganamento.

Mr. Gedeon, muito teso, polido e formal, alimentou-se discretamente, passando várias vezes o guardanapo no bigodinho preto e retorcido.

Cora despejou o leite na xícara.

— A senhora não quer geléia? perguntou Verônica delicadamente em voz alta, pois Mrs. O'Shea era um pouco surda.

— Não, querida, isso engorda, tornou a irlandesa, com leve sotaque estrangeiro.

A moça pediu licença e levantou-se antes. Tinha de chegar cedo ao Conservatório, pois iria ter uma prova de contraponto.

— Rezem por mim, disse ela, afastando-se com um sorriso que fez surgir duas graciosas covinhas no rosto.

Do banheiro vinha a voz de Clarence, grossa e desafinada, cantando o último samba do carnaval.

— Esse menino nunca se levanta na hora certa! reclamou Cora O'Shea, disposta a arrancar o filho do chuveiro.

O rapaz iria chegar ao colégio com um atraso de quarenta minutos!...
* * *

Alberto correu como louco para ver se alcançava o ônibus e... alcançou. Entrou resfolegando no carro, exibindo aquele sorriso meio cretino de vitória que a gente involuntariamente esboça em circunstâncias semelhantes. O ônibus estava cheio, mas o rapaz descobriu um lugarzinho no banco de trás ao lado de um menino que mascava chiclete. O garoto parecia absorvido com a leitura de uma revista qualquer e nem reparou em quem tinha sentado ao seu lado. Alberto tinha pressa, pois faltavam apenas cinco minutos para a aula de Anatomia Patológica. Iriam até fazer uma autópsia aquele dia.

O chofer parecia adivinhar isso, e tocava o carro a toda velocidade, aos trancos e barrancos.

Foi indo, foi indo até que numa curva forte jogou o ônibus em cima do poste! As mulheres gritaram, os homens protestaram, ajuntou logo uma porção de gente.

No meio da confusão, Alberto, como que magnetizado, examinava atentamente um desenho de meia página reproduzido na revista que fora atirada a seus pés.

— O senhor é um louco! reclamava em altos brados um cavalheiro gordo de óculos, fazendo menção de avançar para o chofer.

— Maluco! Maluco! Esse homem devia ir para a cadeia! gritava histericamente uma mocinha de cabelos oxigenados.

Alheio a tudo, Alberto saiu vagarosamente do ônibus, com o rosto contraído e os olhos pregados na revista.

Uma senhora idosa fora atirada contra o teto do carro, e gemia queixando-se de violenta dor de cabeça.

— Pega! Pega!

— Lá vai o bandido! gritou alguém. Aproveitando-se da confusão, o chofer acabava de dobrar a esquina.

— Portador de espada... Portador de espada... repetia Alberto mentalmente com a fisionomia um tanto alterada.

Diante de seus olhos, numa das páginas da revista, achava-se a fotografia colorida e em tamanho natural de dois grandes besouros. Um deles era negro, ligeiramente azulado, com um chifre na testa. Lia-se em cima: "Insetos Curiosos". E, logo abaixo: Esse escaravelho chama-se "Phanaeus ensifer". Pertence à família Scarabaeidae. Seu nome significa "portador de espada".

— Deus do céu! suspirou Alberto baixinho. Que coincidência... Foi um besouro igual a esse que Hugo recebeu na antevéspera de morrer atravessado por uma espada... Atravessado por uma espada...

Capítulo III
A ESPADA ESPANHOLA
ora, ora! pensou Alberto, ao voltar para casa aquela mesma tarde. Minha imaginação trabalha mais do que é necessário. Tudo não passa de uma coincidência. Uma coincidência, apenas...

O moço prometera a si mesmo esclarecer a morte do irmão e tinha freqüentes encontros com o Inspetor Pimentel. Decidira não falar nada sobre o besouro de chifre na testa. Para quê? O policial iria rir-se dele, com certeza...

Até aquela data, as coisas continuavam na mesma. Não haviam sido encontradas impressões digitais em lugar nenhum. Os criados dormiam realmente na hora do crime, e... como provar o contrário? De qualquer modo as suspeitas ainda não estavam definitivamente afastadas de cada um deles.

As investigações orientaram-se depois noutro sentido. Não teria sido algum louco o criminoso? Vários psiquiatras foram consultados, a fim de informarem se, dentre os seus clientes, haveria por acaso algum que tivesse a mania homicida. Tudo em vão. Os que sofriam de tão grave psicose achavam-se internados em sanatórios e, quanto aos outros... esses andavam soltos pela cidade, cada qual com uma esquisitice diferente, todos inofensivos, porém.

— Senhor Alberto, disse a copeira batendo na porta, o telefone está chamando.

O moço saiu de suas meditações e atendeu. Era o Inspetor Pimentel com algumas notícias. Tinha ido ao Museu da cidade e não havia encontrado notícia alguma sobre a espada espanhola. Aquele objeto jamais fizera parte da famosa coleção de armas antigas da casa. Combinaram uma visita aos antiquados para o dia seguinte, à procura de uma pista qualquer. O policial achou melhor não chamar os negociantes à sua repartição. O seu faro aconselhava-o a resolver esse assunto "in loco".

Ficou decidido que levariam a espada para ser identificada. Quem sabe? Talvez tivesse sido comprada em alguma daquelas lojas de velharias. A Alberto repugnava o fato de tocar no objeto que causara a morte de seu irmão e foi o Inspetor quem carregou o embrulho.

Depois de visitarem dois ou três lugares, sem resultado, chegaram à casa de Jairo Saturnino, o mais rico e afamado antiquário da cidade.

Velhos quadros misturavam-se com lustres de cristal, potiches de porcelana chinesa descansavam em mesas no mais puro estilo D. João V.

— Os senhores desejam alguma coisa? perguntou, sorridente, uma moça de longos e anelados cabelos ruivos, que veio se aproximando.

Era alta, bem feita de corpo e seu rosto possuía o encanto misterioso dos felinos. Ao ver Alberto, fixou nele dois olhos verdes, enviesados — olhos de gata — e deixou que eles ficassem assim longo tempo, presos aos do rapaz.

Jairo Saturnino veio vindo, segurou o braço da moça e apresentou-a:

— Minha filha Rachel, senhores.

O Inspetor Pimentel era seu velho conhecido e o antiquado perguntou-lhe a que devia a honra daquela visita.

Ao ter conhecimento do motivo, prontificou-se a dar todas as informações.

— Eu bem suspeitava que a espada fosse a mesma que eu trouxe da Europa.

— Como? disse o Inspetor interessadíssimo.

— Foi sua essa espada? Diga logo... insistiu Alberto, sem se poder conter.

Jairo Saturnino contou-lhes então que tinha vendido a arma havia quatro meses.

— Quem a comprou? perguntaram os dois homens quase ao mesmo tempo.

— Infelizmente não lhes posso dizer, ou melhor... não sei.

— Como assim?

— Foi meu sócio quem a vendeu, num momento em que eu estava ausente.

— E onde está o tal sócio?

— Desfizemos a sociedade poucos dias depois, e ele se mudou para uma fazenda que comprara.

— Onde fica essa fazenda?

— Vou dar-lhes o endereço do irmão dele que mora aqui perto e que poderá informar melhor.

Os dois homens agradeceram ao homem as indicações e saíram.

— Que bonita moça a filha do homem, hem? comentou Alberto depois que saíram.

— A garota não tirava os olhos de você...

— Que culpa tenho eu de ser simpático? disse Alberto, rindo, fingindo-se de convencido.

Pelo que vejo, teremos um romance dentro em breve.

— Nada disso, continuou Alberto. Há qualquer coisa nela que não me agrada.

— O quê?


— Um certo ar de arrogância, de crueldade talvez.

— Por que tanta prevenção contra a pobre coitada? disse o Inspetor. Sabe lá Deus se ela não é nada disso?!

— Meu sexto sentido não me engana. Quando uma pessoa tem algum traço qualquer de caráter muito pronunciado — seja bondade, inveja ou sensualidade, por exemplo, isso transparece na fisionomia. Há como que uma "emanação" da personalidade, que os "sensíveis" logo percebem.

Os dois homens caminhavam pela calçada, conversando propositadamente sobre outro assunto a fim de disfarçarem uma certa emoção. Dali a poucos instantes iriam saber alguma coisa sobre o homem que tinha a chave do mistério...

O número 307 ficava no meio da rua. Tocaram a campainha e chamaram pelo dono da casa. Minutos depois surgiu--lhes um homem de meia idade, trajando com displicência. Ao saber do que se tratava, a criatura fez um ar compungido, baixou os olhos e apenas disse:



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