Editora unesp 30 anos



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INTRODUÇÃO

Inaugurada em agosto de 1987, a Editora UNESP, braço editorial da Universidade Estadual Paulista (UNESP), transformou-se, em 1996, por decisão do Conselho Universitário, órgão máximo da instituição, na Fundação Editora da UNESP (FEU). A UNESP foi, portanto, pioneira em sua proposta fundacional exclusiva para uma Editora universitária, estabelecendo um modelo hoje estudado e assumido como exemplo por universidades brasileiras e do exterior.

A construção da Editora teve como objetivo contribuir para a modernização e o alinhamento da UNESP com as grandes universidades brasileiras e internacionais; ser uma vitrine da Universidade perante a sociedade; e exrcer, ao lado da melhor tradição universitária ocidental, a missão de publicar livros e periódicos científicos relevantes para o desenvolvimento da ciência e da cultura universal.

Baseada num catálogo sólido e cuidadosamente construído, a Editora UNESP conquistou um lugar de destaque e de reconhecimento público expresso pela inserção no mundo do livro, pelo julgamento da crítica especializada e dos profissionais de edição, pelos prêmios recebidos (APCA e Jabuti), pela ocupação de postos relevantes na Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU) e na Associação de Editoras Universitárias da América Latina e do Caribe (EULAC) e, especialmente, pela grande aceitação de suas publicações junto aos leitores.

A fase atual é a de aperfeiçoar o que já conquistou, ampliando o catálogo, projetando novos serviços editoriais, estendendo sua distribuição e fomentando a abertura de uma livraria da UNESP em São Paulo, mais um espaço de conhecimento e cultura em São Paulo
CRIAÇÃO

A Editora UNESP surgiu a partir da Divisão de Publicações da Fundação para o Desenvolvimento da UNESP (Fundunesp), em 1987, na gestão do reitor Jorge Nagle. Foi um momento em que, no governo Franco Montoro, o orçamento concedido às universidades teve um aumento considerável. Isso permitiu, entre outras ações, começar com o setor de publicações.

Nagle destaca como a figura do professor Marco Aurélio foi importante naquele momento. “Ele foi o responsável pela matriz inicial do que seria a editora da UNESP. Eu o conheci em Araraquara e ele fazia parte daquele grupo que acabou contribuindo para a minha eleição como reitor da universidade. Fazia parte de um combativo, que estava interessado em mudar as condições da UNESP.”

Como Nogueira estava entrosado na edição de publicações, Nagle o convidou para fazer os estudos iniciais e, em seguida, para ser o diretor da Divisão de Publicações da Fundunesp, uma instituição de apoio financeiro da universidade. “Até então, havia, nos institutos isolados, publicações sendo feitas, mas eram atitudes isoladas em cada unidade. Eles também se serviam de editoras existentes para publicar os trabalhos. Com a diretoria de publicações na Fundunesp, passamos para uma etapa de profissionalismo nas publicações”, comenta o reitor entre 1985 e 1989.

Nagle avalia que o trabalho de Marco Aurélio na diretoria foi um trabalho com grande independência: “Confiávamos nele e, como ele mostrava que tinha condições de arcar com as responsabilidades que o cargo exigia, ele foi ganhando autonomia para fazer o que achava que devia ser feito. Também tínhamos uma condição orçamentária que dava condições para isso.”

Com a Diretoria de Publicações, ficaram caracterizadas algumas diretrizes de atuação. A Editora deveria ser um órgão que começasse a melhorar a identidade da UNESP em relação às demais universidades. Ela deveria contribuir para isso e, portanto, enfrentar a existência de outras editoras universitárias. “Por um lado, essa atitude de publicar autores de fora da universidade gerou uma série de polêmicas. Por outro, houve uma preocupação muito grande com a área de ciências humanas, o que ajudou muito a aperfeiçoar as publicações desta área, com a edição de clássicos e livros importantes”, avalia Nagle.

Em relação à publicação de produções externas à universidade, o professor Marco Aurélio foi firme. Nos primeiros anos, por exemplo, a editora não publicava teses e dissertação de docentes da UNESP. Isso foi mais do que uma questão de princípio.

Era uma uma estratégia para firmar certas posições e começar a criar equipes que avaliam as publicações que devem ou não serem feitas. “Como o Marco Aurélio não transigia, isso criou insatisfação em parte dos docentes. A idéia era simples: se há uma editora da universidade, ela deve publicar as pesquisas de seus docentes. Mas não era esse o projeto”, conta o ex-reitor. “Houve uma evolução e quando se começou a publicar produções de docentes, esse setor já estava bem estruturado, com critérios de seleção, com a existência inclusive de um conselho editorial acadêmico, que emite seus pareceres.”

Marco Aurélio Nogueira, docente da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus de Araraquara, coordenava a Assessoria de Comunicação e Cultura, atual Assessoria de Comunicação e Imprensa (ACI) da Universidade. Entre suas funções, além da criação da Editora, estava a edição do Jornal da UNESP, hoje Jornal UNESP.

A idéia, desde o início, era fundar uma Editora genuinamente unespiana. Sentia-se a necessidade de criação de um veículo próprio que mostrasse e propagasse a real contribuição da Universidade para o pensamento intelectual brasileiro. Dessa iniciativa, participaram, além do reitor Jorge Nagle e de Marco Aurélio Nogueira, os professores Nilo Odália, e Norma Potter, o assessor de imprensa do reitor, José Roberto Ferreira, o docente Fausto Castilho, que viabilizou a vinda de Sartre ao Brasil, e José Aluysio Reis de Andrade, na época vice-diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara.

Esse grupo, exercendo funções formais ou não na Universidade, foi fundamental no processo de constituição da Editora. Dentro d Fundunesp, foram então criadas três diretorias: a de fomento, a de auxílio à pesquisa e a de publicações que mais tarde transformou-se em Editora UNESP, ainda que formalmente vinculada a Fundação.

Foi o professor José Aluysio quem redigiu o primeiro estatuto da Editora, sendo que o primeiro livro publicado foi A virada do século, uma coletânea de conferências pronunciadas na unidade UNESP de Marília. Era o momento de pensar quais seriam as reais funções da Editora nascente, tornando-se clara a sua verdadeira intenção: não ser uma instância de publicação de trabalhos exclusivamente da comunidade acadêmica UNESP, como ocorre freqüentemente na maioria das Editoras universitárias.

Publicar os trabalhos internos seria apenas uma função acessória da Editora, ainda que fossem mantidas coleções especificas de trabalhos da UNESP, já que seu objetivo primeiro era ser um instrumento de divulgação de trabalhos de qualidade. O que se buscava era o cumprimento de seu papel de difusora do pensamento humano atingindo o público em geral.

Essa decisão, segundo José Aluysio, foi a base material e ideológica da Editora. Marco Aurélio Nogueira convidou José Castilho Marques Neto, também docente de Araraquara, para colaborar com a Editora, como editor executivo. Eles se conheceram em Araraquara, onde ambos lecionavam. A escolha deu-se pelo fato de Castilho ter experiência na área editorial como sócio da Editora Kairós.

Castilho, que lembra até hoje o que disse a Marco Aurélio Nogueira sobre o convite para fazer parte da Editora: “Sei fazer livros. Então, eu vou para fazer livros e não para ficar discutindo teoricamente se vamos fazer livros”, convidou para realização do trabalho algumas pessoas de sua integral confiança, que atuaram como editores assistentes: Maria Aparecida Bussoloti, o professor Edvaldo Sintoni e o citado José Aluysio Reis de Andrade.
PRIMEIRAS DECISÕES

Nogueira acredita que o nascimento da Editora foi desbravador, já que a única iniciativa que existia até então na universidade que se aproximava da idéia de uma Editora era uma central bastante informal de edição das revistas da UNESP, que funcionava na Fundunesp. “Havia um consenso, principalmente na área de humanas, de que a UNESP deveria ter uma Editora. Mas a expectativa das pessoas era que essa Editora desse apenas vazão aos trabalhos realizados pelos professores e pesquisadores. Esse é um nó que existe até hoje”, afirma.

No momento em que a Editora foi criada, em agosto de 1987, havia também uma competição, em momentos mais saudáveis, em outros menos, entre UNESP, Unicamp e USP. E, como a USP e a Unicamp já tinham uma Editora, a idéia de criação de criação da Editora UNESP ganhava ainda mais argumentos.

De acordo com Marco Aurélio Nogueira, a criação da Editora vinha combater algo que ele classifica como um “provincianismo excessivo”, ou seja, uma universidade tímida, recolhida e com dificuldade para se projetar. Para ele, “a UNESP se sentia uma irmã menor da USP e da Unicamp, embora isso não fosse admitido publicamente. Isso era sentido muito mais no passado, porque, afinal, a Universidade cresceu, se renovou muito e se ‘desprovincianizou’ bastante.”

Nogueira conta que a criação da Editora buscava ajudar a universidade a sair de uma posição recuada e se projetar mais. Ele lembra que o reitor Nagle causava polêmicas ao fazer críticas a essa postura tímida da universidade. “Ele dizia, por exemplo, que ‘nessa universidade não faltam recursos, mas idéias’”, conta.

A idéia de Marco Aurélio Nogueira era criar uma Editora que fosse essencialmente acadêmica, mas que tivesse uma presença marcante no mercado editorial brasileiro. Era uma oportunidade de fazer livros com qualidade que, embora não fossem necessariamente comerciais, não podiam estar alienados das condições do circuito editorial.

Outro lema que norteou o nascimento da Editora da UNESP foi o de não repetir os erros cometidos em outras Editoras universitárias, que faziam livros bonitos que as pessoas não conheciam, com dívidas até o pescoço e estoques repletos. Buscava-se aprender com os erros alheios, além de não haver recursos ou tempo a serem desperdiçados.
A ESCOLHA DO LOGOTIPO

Como havia a expectativa de que a Editora começasse rapidamente a trazer resultados, um dos primeiros passos da Editora foi ter uma definição visual. A logomarca foi escolhida em um concurso informal com três capistas: Isabel Carvalho, João Batista da Costa Aguiar e Ivone Sarue.

O projeto gráfico escolhido foi o de Isabel. Havia inclusive um entendimento, comum na época, de que as capas deveriam seguir um mesmo padrão estético para criar identidade visual nas prateleiras. A idéia que se tinha era a de repetir alguns padrões gráficos para fixar uma imagem.

Marco Aurélio e uma de suas assistentes, Miriam Goldfeder, tinham escolhido opções diferentes. Naquele momento, o professor José Castilho Marques Neto entrou na sala. Ele estava na Reitoria para buscar apoio e verba para um evento acadêmico em Araraquara e tinha decidido fazer uma visita à assessoria.

“Quando eu cheguei lá, eles estavam debatendo calorosamente como seria a logomarca. Na hora em que eu cheguei, eles decidiram que eu desempataria. Mostraram-me as duas marcas e eu apontei a marca que a Miriam tinha escolhido. Essa passou a ser a primeira marca da Editora UNESP”, lembra.
POLÍTICA EDITORIAL

Quanto à política editorial, a Editora seguia três perspectivas:

1- Atender as necessidades da universidade, mas não em caráter pessoal. Isso significava não publicar teses e textos de professores da UNESP quando esses livros estivessem inseridos apenas na formação acadêmica deles. A proposta da Editora UNESP era mas abrangente, estimulando o nascimento de projetos e coletâneas.

2- Publicar obras de referência, isto é, obras importantes que cobriam uma lacuna no mercado.

3- Fazer os livros em co-edição, como foi feito com a Paz e Terra e com a Brasiliense, entre outras.

Nesses passos iniciais, um nome fundamental é o do filósofo José Aluysio Reis de Andrade, um dos primeiros a pensar sistematicamente a Editora UNESP, criando seu o texto de seu regulamento. Hoje a Editora certamente funciona com inúmeras modificações, todavia, a difusão do pensamento cultural humano continua sendo seu princípio orientador, de suas origens até sua consolidação.

A primeira coleção da Editora foi Seminários e debates e o primeiro livro que saiu foi Artimanhas do Poder. Depois veio o livro Sartre no Brasil, que saiu com o selo Editora UNESP em parceria com a Paz e Terra. A estratégia então era atender a demanda da universidade, freando a pressão pelas teses e tentando desviar esse problema com o incentivo às publicações coletivas. “Imaginávamos que assim evitaríamos o problema de selecionar qual tese nós iríamos publicar, porque já havia uma imensa demanda represada, além da necessidade de constituir uma comissão para avaliar esse imenso material”, explica Nogueira.

Aluysio lembra como foi a publicação do livro do Sartre. Chegou até o gabinete do reitor Nagle uma sugestão, acompanhada de um material para que se reeditasse a Conferência de Jean-Paul Sartre no dia 4 de setembro de 1960, quando ele esteve em Araraquara. O texto havia sido primeiramente publicado pela Paz e Terra em colaboração com a UNESP e, por ocasião do centenário de nascimento do filósofo francês Jean-Paul Sartre, em 2005, a Editora UNESP lançou a segunda edição da obra, em versão bilíngüe.

Foi o professor Fausto Castilho quem providenciou a transcrição da apresentação de Sartre ministrada, segundo José Aluysio, “em um francês empoladíssimo”. “Foi um dos mais notáveis momentos da história da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Assisti ao encontro das primeiras fileiras do anfiteatro”, comenta.

O texto foi depois revisto por especialistas nos escritos do filosofo francês. O material, de importância histórica, mostra o resumo das preocupações que moviam o filósofo existencialista na época. Na ocasião compareceram várias das mais ilustres personalidades do mundo acadêmico e intelectual da década e jovens como o casal Fernando Henrique e Ruth Cardoso.

Nogueira lembra ainda que havia publicações que chegavam à Editora UNESP que eram de “altíssimo risco”. Um exemplo que ele dá é o livro O engenho, do professor Manuel Gradinal. “Quando eu me lembro disso, até hoje eu me pergunto: como é que nós fomos fazer isso? Era um livro enorme, em três volumes, que ninguém conhecia, mas que era considerado importante. Infelizmente a repercussão dele foi muito pequena”, afirma.

Ele explica que o sentimento que fez com esse livro fosse editado era o de que se uma Editora universitária não o publicasse, ninguém o faria. “Hoje, a Editora chamaria o professor Gradinal para dizer: ‘Professor, nós gostaríamos de publicar seu livro, mas não há condições econômicas para que seja em três volumes”, conta Nogueira.

José Aluysio lembra que, no seu segundo ano como reitor, Nagle buscou trabalhar num espírito de colegiado. Lembra que havia um grupo de pessoas que colaboram com ele de maneira formal, ou seja, exercendo funções específicas como os chefes de gabinete, secretários e jornalistas, mas igualmente havia outras pessoas de quem ele freqüentemente solicitava colaboração de maneira informal.

Nagle lembra que, desde o início da editor, empenhou-se pessoalmente para que o setor de publicações fosse uma coisa bem desenvolvida. Ele conta que ai ás livrarias e pedia os livros não pelo autor, mas pelo nome da Editora UNESP, para fixar no mercado a importância delas terem livros da EU. “Fico satisfeito em ver que isso não é necessário, pois marca está bem consolidada”, comenta.

Segundo Aluysio, “a realização concreta da Editora UNESP e de seu princípio diferenciado das demais Editoras universitárias só tomou corpo através do trabalho experiente do professor Castilho. Ele, sem dúvidas, imprimiu um tipo de gestão e orientação inovadoras”.

José Aluysio foi o responsável por vasculhar, no âmbito das publicações internacionais, os livros de maior interesse para que fossem publicados em Português. ”Grande parte de meu trabalho foi de garimpo, dedicado a escolha do material internacional. Lia as principais publicações das Editoras italianas, alemães, francesas, inglesas e americanas.”

O professor comenta a Editora recebia em primeira mão os catálogos que as Editoras internacionais publicariam. Em seguida, a casa editorial comprava os direitos antes das demais interessadas. Com esse tipo de estratégia e cuidadosa seleção dos títulos a serem publicados, a Editora começou a ter ressonância no mercado livreiro.

Castilho aponta que, desde que começou a atuar na Editora, tinha clara a idéia de que a Editora não é uma gráfica. Por isso, até hoje, nem todos os trabalhos realizados pelos professores e pesquisadores são obrigatoriamente publicados. Sem dúvida, o convite para que ele fosse atuar na Editora UNESP estava vinculado ao início de sua carreira profissional.


EXPERIÊNCIA EDITORIAL

Em 1978, quando a disciplina de Filosofia foi extinta do currículo das escolas públicas devido ao sistema ditatorial vigente na época, recém-graduado no curso de filosofia da USP, Castilho, que já estava atuando como editor de livretos nos últimos anos de faculdade, abriu com mais dois amigos a Kairós - livraria e Editora. “Abrir uma pequena Editora e livraria e se sustentar empresarialmente foi uma experiência bastante pesada, intensa e criativa. Foi nesse período que eu aprendi a fazer livro. Como não tínhamos funcionários, fazíamos tudo”, conta ele.

Os dois parceiros de Castilho para a abertura da Kairós foram Magali Soares, que fazia o curso de Ciências Sociais na USP e o Moisés Limonatti, que na época ainda era estudante de Filosofia e era o único que vinha de uma família de editores. A livraria tinha endereço nobre, esquina da Avenida Paulista com a Rua Angélica, e fez muito sucesso apesar de duas grandes adversidades: época política conturbada, com a cultura constantemente cerceada pela ditadura militar e poucos recursos financeiros. “Foram anos difíceis, mas de muito aprendizado”.

A Editora Kairós lançou mais de 70 títulos, nas áreas de política, filosofia, sociologia e cultura. Lembrada até hoje, a livraria também se inseriu na vida cultural da cidade. A idéia inicial era que ela se tornasse uma empresa estável o suficiente para que ele pudesse se dedicar mais a uma pós-graduação. Isso em um período de dois a três anos. Mas foram quase seis anos e Castilho só voltou a freqüentar a universidade como aluno em 1983, na pós-graduação.

Em 1981, os sócios separaram a Editora da livraria e Castilho passou a ter participação apenas na Editora, que era sua incumbência. Mais tarde, os três aceitaram propostas atrativas para a venda da livraria e da Editora. “Essa proposta coincidiu com o esgotamento da militância política, a ditadura já estava num processo de extinção, eu já estava esgotado nesse sentido e queria ter uma carreira universitária”, conta ele.

Abandonando a vida de microempresário, Castilho inicia o mestrado, em 1983, na USP e a partir daí, começa a dar aulas. Primeiro, no colégio Equipe, depois na antiga Fundação Vale Paraibana de Ensino, hoje a Univale. Dava aulas de história da filosofia no primeiro e no segundo ano.

Trabalhou dois anos nas duas instituições e continuou fazendo livros para complementar sua renda. Em 1984, foi aprovado para o cargo de professor assistente na Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Com um salário melhor e com perspectivas de uma carreira promissora na vida acadêmica, ele acreditava que jamais tornaria a fazer livros.

“Aqueles eram os anos da minha vida, os mais tranqüilos. Eu tinha passado pela militância, depois veio a minha vida de pequeno empresário e quando chegou esse período em Araraquara eu me senti muito bem, com um novo ritmo. Eu posso dizer que nesse período em que comecei a dar aula eu praticamente refiz todo o meu curso de filosofia e preenchi minhas lacunas teóricas”, afirma.

Esse período durou de 1984 a 1988. Em Araraquara, Castilho chegou a se envolver com a publicação de revistas, mas algo muito mais simples do que aquilo que já tinha feito anteriormente, bem mais voltado para o ensino, pesquisa e extensão. Em 1987, surge a Editora da UNESP, que efetivou, em agosto, com Marco Aurélio Nogueira à frente da diretoria de publicações.

A relação entre Castilho e Marco Aurélio se deu aos poucos. Ambos eram militantes de esquerda, mas de correntes divergentes. “Éramos inimigos mortais levantando a mesma bandeira”, brinca Castilho. Ele passou a conviver de fato com o professor Nogueira quando este regressou da Itália. “Nos demos muito bem. Outros que também trabalhavam em Araraquara ficaram muito amigos dele e criamos um bom grupo de trabalho”, lembra.

Quando Nogueira criou o grupo que seria responsável pela da Editora, Castilho, gostou da iniciativa, mas não se imaginou fazendo parte dela. Até então, Marco Aurélio, que sabia da Kairós, apenas buscava a opinião de Castilho para alguns assuntos que envolviam a criação da Editora. O setor de publicações era então gerido pela Assessoria de Comunicação e Cultura, que, em agosto de 1987, passou a funcionar em um prédio no Centro de São Paulo, na Praça da Sé.

Era comum que Castilho e Marco Aurélio se encontrassem muitas vezes. Trabalhavam no mesmo campus e lá moravam na mesma república. Viajavam de São Paulo para Araraquara constantemente e, não raras vezes, juntos. O tema “Editora” acabou se tornando recorrente e não tardou muito para que Marco Aurélio visse na experiência de seu colega uma ajuda preciosa para o estabelecimento da Editora UNESP.

No final de 1987, Marco Aurélio convidou Castilho e o professor Ricardo (?) para participar de uma reunião formal em que seriam discutidos assuntos referentes à Editora. Umas das coisas que estavam na pauta de discussões eram as edições, já que até o momento a Editora só tinha feito co-edições.

Houve mais algumas reuniões e, após Miriam Goldfeder ter se desligado da Editora, Castilho começou a receber propostas para trabalhar para a Editora UNESP. “Em março de 1988, Nogueira me fez uma proposta fulminante para trabalhar um dia por semana”, conta. Paralelamente a isso, seu mestrado teve uma peculiaridade: foi passado para doutorado direto. “Por um lado foi bom, mas ao mesmo tempo estendeu o prazo de conclusão. Isso bagunçou um pouco minha rotina e meus planos na época”.

Castilho conta que progressivamente começou a se envolver com o processo de criação da Editora UNESP. “Eu gosto de fazer livros, principalmente porque eu já não era responsável financeiramente e nem pelas relações políticas com a universidade. Eu era um operário do livro, responsável por tornar a Editora tecnicamente viável, aparelhá-la e pensar projetos.”

A primeira tarefa que o Marco Aurélio deu a Castilho foi fazer um projeto para as revistas da UNESP. Com o trabalho na Editora, ele passou a conhecer melhor a universidade como um todo e as especificidades de cada campus. “Isso foi bom porque eu comecei a ver a universidade pela ótica editorial, o que mais tarde influiu na postura da Editora no mercado universitário”, lembra. Sua proposta para as revistas foi voltada à divulgação científica, algo absolutamente acadêmico, princípio que ele defende até hoje.

As revistas da UNESP englobavam as ciências humanas, exatas e biológicas, sendo 19 títulos. A ordem do reitor Nagle e de todos os que vieram na seqüência era que as revistas deviam ser preservadas. Como nessa época a Editora UNESP era recém-implantada, essas publicações tinham o objetivo de fixar o nome, a marca, os autores e fazer a divulgação das pesquisas de uma maneira integrada.

Houve um trabalho intenso de modernização e otimização junto ao comitê de publicações culturais e científicas, um órgão ligado à reitoria e à Editora. Com o tempo, esse órgão transferiu as responsabilidades pela normatização e publicação das revistas para a Editora.

De um lado, havia a necessidade de publicar livros, traduções e entrar no mercado e do outro a prática burocrática transferidas por esse órgão. “Já existiam revistas naquela época com 20 anos de existência, que vinham desde os institutos isolados. Era preciso combinar essa tradição com a idéia nascente e modernizadora que orientava a Editora”.



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