EducaçÃo a distância como possibilidade de igualdade: educaçÃo e democracia



Baixar 29.38 Kb.
Encontro14.07.2018
Tamanho29.38 Kb.

1EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA COMO POSSIBILIDADE DE IGUALDADE: EDUCAÇÃO, SAÚDE E DEMOCRACIA

Marcos Augusto Moraes ARCOVERDE 1

1) Docente. Mestre em Enfermagem. Unioeste – Campus Foz do Iguaçu. Membro do Grupo de Pesquisa em Saúde Coletiva.

Palavras-chaves: Educação a distância; Igualdade; Democracia

INTRODUÇÃO
A educação sempre foi uma ação humana, e como tal passou por mudanças ao mesmo tempo em que a humanidade construía a sua história. Assim, toda alteração do modo de vida humano reflete mudança na educação. A evolução tecnológica e a globalização trouxeram contribuições significativas para a educação, no entanto, faz-se necessário pensar em qual o modelo de educação que estamos produzindo, ou reproduzindo.

Ao pensar em educação e globalização, faz-se necessário mencionar o direito de acesso ao conhecimento, o que me leva a acreditar que um cidadão brasileiro morador em regiões ermas tem os mesmos direitos ao acesso e produção do conhecimento, quando comparado ao que vive em grandes centros urbanos. Contudo, residir nesses centros urbanos também não seja a garantia de que o direito de igualdade ao acesso esteja confirmado.

Quanto a esse aspecto, Luckesi (2001) ressalta que essa limitação a acesso dos bens culturais dificulta as possibilidades de uma vivência crítica e construtiva de cada cidadão.

As desigualdades de acesso, ao longo da história da educação brasileira, sempre se mostraram presentes e são reflexos da desigualdade econômica e distribuição de renda. Geralmente, cidades onde se concentra a produção econômica, também, concentram-se o acesso e produção de conhecimento. Assim, a sina de muitos brasileiros passa pelo êxodo, quer movidos pelas necessidades econômicas, quer pelo desejo de uma educação melhor para si ou para seus familiares.

É possível perceber que não temos universidade e escolas técnicas gratuitas distribuídas de igual forma em nosso país, o que também contribui para a desigualdade do acesso a educação e produção de conhecimento.

Na visão contemporânea, a educação a distância surge como possibilidade de acesso à educação e produção de conhecimento para todos. São vários os fatores que contribuem para que isso possa se efetivar, e muitas ferramentas estão à disposição dos gestores, coordenadores e tutores/professores para que a democratização da educação realmente ocorra.

Isso se deve ao fato de que a educação a distância elimina as fronteiras espaço-temporais e tem como base alcançar estudantes dispersos geograficamente (ARETIO, 2006). Só pela imensidão do território brasileiro, esse seria um motivo relevante para pensarmos na educação a distância como processo educativo real e de qualidade em nossa história.

A educação a distância sofreu as alterações advindas da globalização, que por sua vez, foi possibilitada mediante o desenvolvimento das tecnologias de informação, tais como a internet. Nessa perspectiva, Beloni (2006, p. 3) salienta que “a intensificação do processo de globalização gera mudanças em todos os níveis e esferas da sociedade” (e não apenas de mercado), “criando novos estilos de vida, de consumo, e novas maneiras de ver o mundo e de aprender”.

Se por um lado a globalização, de certa forma, é resposta do desenvolvimento da ciência, mediado pelas novas tecnologias; por outro, ela só ocorre pela educação, a qual se beneficia da globalização para expandir seu espaço físico de local para regional, nacional e global. Ou seja, a globalização só tornou-se possível devido a educação, e hoje a educação pode se beneficiar da globalização. Digo isso ao referir-me as novas tecnologias de informação, que possibilitam o avanço dos mercados e mundos globalizados, e por que não pensar em uma educação que avance também neste sentido?
OBJETIVO
Em um contexto atual, este trabalho tem a pretensão de discutir a modalidade educação a distância como possibilidade de igualdade e democratização da educação mediante um ensaio teórico, no qual alguns conceitos clássicos e contemporâneos são apresentados e discutidos, levando a refletir sobre os conceitos que oportunizem pensar a educação a distância como possibilidade de igualdade.

DESENVOLVIMENTO


A tecnologia está presente em nosso dia a dia desde os objetos mais simples até os mais complexos. E na educação isso também se repete. Falar em tecnologia na educação é discutir desde a utilização do giz branco até a videoconferência.

A ênfase da tecnologia na educação surge no Brasil por volta da década de 50 do século passado, baseada na tendência pedagógica tecnicista. Essa tendência recebeu maior apoio na década seguinte, passando a ser imposto às escolas pelos órgãos oficiais, por ser compatível ao contexto político, econômico e ideológico do regime militar (LIBÂNEO, 1994).

O objetivo dessa tendência era projetar o país no mercado econômico mundial, e dessa forma, a educação se traduzia “na defesa de um modelo tecnicista, preconizando o uso das tecnologias como fator de modernização da prática pedagógica e solução de todos os seus problemas” (LEITE et al., 2003, p. 12).

Essa pedagogia, ou tendência pedagógica percebia a educação como um universo fechado, o qual não interagia com questões sociais, dessa forma, surge a tecnologia educacional, que na visão tecnicista, dá maior ênfase aos meios utilizados para o processo educativo que a sua finalidade.

A partir da década de 80 ocorre o crescimento de um pensamento mais crítico quanto a tecnologia educacional, que passou a ser compreendida como uma opção de se realizar uma educação contextualizada com as questões sociais (LEITE et al., 2003). Nessa perspectiva, entende-se que seja necessário ao professor “dominar a utilização pedagógica das tecnologias, de forma que elas facilitem a aprendizagem”, e que a tecnologia educacional seja “objeto de conhecimento a ser democratizado e instrumento para construção de conhecimento” (LEITE et al., 2003, p. 14). Esses autores defendem que a utilização da tecnologia educacional é fruto da produção humana, parte de uma sociedade, e assim, devem ter seu acesso democratizado.

A menção a tendência tecnicista da educação tem a finalidade de apenas mostrar o percurso que a tecnologia educacional fez na educação brasileira, o que não quer dizer que ainda trabalhamos nessa tendência, contudo, ainda carregados resquícios desse momento histórico educacional, e de algum modo a história da educação a distância passou por esse momento. Entendemos, então, o porquê algumas instituições ou professores valorizam tanto a tecnologia em detrimento a outros aspectos da prática pedagógica.

Pensar em educação a distância, de certa forma, é pensar em tecnologias educacionais, ou melhor, tecnologias de informação. Nesse sentido, o nosso objetivo, como educadores, deve ser de procurar formar cidadãos que sejam críticos ao aprenderem a conviver, ler e entender melhor os significados dos meios de comunicação em suas vidas e na sociedade que os cerca. Isso permite pensarmos em que tipo de cidadão queremos construir.

Nessa perspectiva, a elaboração de uma proposta pedagógica que incentive a leitura crítica dos meios de comunicação significa reconhecer o papel da mídia na formação e crescimento de educando e educador. Assim, educar para a comunicação visa construir indivíduos capazes de desvendar a realidade, ajudando a elaborá-la mais democraticamente a partir da participação social e do exercício pleno da cidadania (LEITE et al., 2003).

Essa nova maneira de pensar a tecnologia educacional possibilita que a educação a distância ofereça a todos as oportunidades de aquisição de instrumentos para um novo aprender, no qual o conteúdo aprendido terá intensa relação com o meio social do educando. Nesse sentido, Luckesi (2001, p. 42) ressalta que o ensino a distância apresenta-se “como uma alternativa para a mediação na construção de uma sociedade culta crítica e civilizada”. Para esse autor, a democratização da educação significa acesso, permanência e qualidade. Assim, pensar em educação democratizada é pensar em acesso de todo cidadão a ela.

Cabe também salientar que não se trata de acesso a qualquer coisa, devemos, como educadores e gestores da educação, garantir e exigir acesso e permanência a algo de qualidade satisfatória. Garantir isso significa desenvolver no educando suas capacidades cognitivas e a formação de suas convicções (LIBÂNEO, 1994).

Outra questão a ser discutida deve-se a característica da educação que queremos, ou melhor, qual indivíduo que queremos educar? e para que educar?

A educação é um fenômeno que se realiza na sociedade e seu objetivo é o processo de construção do indivíduo e da sociedade. Dessa forma, um projeto educativo trata da verdade de um projeto de sociedade, e assim, assumindo o papel de um fenômeno político, e por isso não podemos pensar em um projeto pedagógico que não seja político (LOBO NETO, 2001). Para esse autor, o centro da questão da educação a distância não se encontra na superação da distância, mas sim no estabelecimento da relação educativa.

Nessa perspectiva, estamos falando de elementos didáticos pedagógicos, e que precisam ser compreendidos tanto para efetivação da educação a distância, quanto para a presencial.

Na educação a distância a interação, ou melhor, a relação professor aluno, é mediatizada por tecnologia, por vezes, desconhecida por alguns professores, e aí surgem as críticas, visto que a compreensão estaria no fato de que é a tecnologia que educa, o que, na verdade, é um equívoco. Não será o computador que educará, mas sim, a relação tutor, máquina e educando. Pois é assim que ocorre no modelo presencial, visto que nunca será o quadro negro, ou o livro didático que educa, mas sim, a relação professor, material, e educando.

Entendo que o desenvolvimento da informática e comunicação nos possibilita atualmente criarmos novos métodos ou materiais, entretanto, os elementos pedagógicos continuam existindo e tendo a mesma função. O que cabe a nós é fazermos escolhas adequadas quanto ao modelo pedagógico no qual queremos trabalhar e no qual será possível.

Dessa forma, compreendo que educação a distância não é sinônimo de alta tecnologia, e nem o oposto é verdadeiro. Assim, como o uso de tecnologia não é garantia de pedagogia inovadora. E novamente, esbarramos na escolha pedagógica.

A educação a distância, não é uma pedagogia, os elementos pedagógicos é que desenharão essa educação a distância. Ou seja, a escolha que faço quanto ao modelo pedagógico, metodologia adotada e concepções da prática educativa serão os elementos que definirão a finalidade do meu ato educativo.

Na história da educação brasileira, como já mencionado, a educação a distância foi entendida como um reflexo de novas tecnologias em sala da aula ou em outros ambientes, no entanto, era tão reprodutora quanto o modelo tradicional ora questionado. Superado esse momento, em partes, proponhõe-se atualmente uma educação a distância que transforme o educando em um ser crítico e reflexivo, e não mais passivo e somente consumidor de uma tecnologia ou um produto educativo. Esse deveria ser o desafio de todo e qualquer modelo educativo.

O modelo de trabalho e metodologia adotada pelo educador (tutor) e gestores dos cursos de educação a distância é que fará a diferença na educação. Não adiante pensarmos em teleconferências ou outros métodos utilizados pela educação a distância, se o modelo pedagógico continuará sendo tradicional e transmissor.

Por tratar-se de uma prática pedagógica, devemos levar em conta a interação educando e educador (tutor), o ambiente de aprendizagem, o contexto social onde o educando está inserido e como esse conteúdo aprendido poderá ser vivido em sua realidade.

Nessa perspectiva, o educando não é mais passivo, como aluno, ele precisa aprender a aprender, ou seja, aprender com o educador (tutor) conceitos e princípios básicos, e ao pensar em sua realidade social, colocá-los em prática. Essa possibilidade permite abandonarmos um ensino bancário, no qual muitas vezes não fica claro para o aluno para que o conteúdo ensinado lhe servirá, em sua vida. Como educando é natural que tenha dificuldade para atingir essa compreensão sempre, cabendo ao educador proporcionar esse entendimento. Assim, o educador deve instigar seus educando a relacionarem os conteúdos aos seus contextos sociais.

Dessa forma, conteúdo e método devem propor a superação das necessidades do educando, o que possibilita que eles façam diferença em sua vida. Assim, poderemos começar a falar de um verdadeiro acesso com intenção de diminuir as desigualdades.

Como educadores devemos dominar muito bem os métodos e conceitos fundamentais para daí orientar os educandos a encontrarem as soluções de seus problemas. Não defendo a postura de um educador distante, mas um que perceba a necessidade do educando e o auxilie a conhecer a sua realidade e interagir com e sobre ela.

Nesse sentido, fica mais fácil entender que a tecnologia apresenta-se a disposição do homem para facilitar-lhe a educação. Ela constitui parte do acervo cultural humano, e que se constitui espaço de sua educação, comunicação com outros, e seu desenvolvimento como ser humano em relação. A reinvidacação desse espaço é dever de cada um, por ser direito de todos. O direito de superar a ausência física, pela presença mediatizada e pela eliminação da distância. Então, entenderemos que o sentido real da educação a distância se dá pela “potencialização do acesso aos meios de educar-se, de tornar-se participante do bem social, econômico e político” (LOBO NETO, 2001, p. 57).

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo do território brasileiro encontramos inúmeras necessidades de educação, saúde e desenvolvimento, das quais, algumas são reflexos da falta de capacitação e atualização profissional, ou melhor, dificuldade de acesso à educação. Acredito, pelo exposto neste texto, que a educação a distância apresenta-se como uma das formas para suprir essas necessidades.

A educação a distância possibilita pensarmos, de uma forma geral, na educação, seja por qual for o método ou a modalidade. Educação será sempre educação, ou seja, processo capaz de trazer mudanças no homem e na sociedade. Assim, como educadores precisamos pensar no modelo de educação que queremos, ou melhor, qual o modelo de educação a distância desejamos executar e qual mudança queremos trazer para a sociedade atual.

Atualmente, a vida cotidiana construiu a necessidade de aprendizagem ao longo da vida, o que também pode ser suprido com a educação a distância. Embora isso seja verdade, não devemos pensá-la como solução radical para os problemas da educação brasileira. Todavia, ela apresenta-se como uma possibilidade real e presente para a educação brasileira.

Não podemos pensar que a educação a distância é algo futuresco, muito pelo contrário. Ela é o presente, e como tal deve ser aproveitada em todas as suas possibilidades.

Ao voltar ao tema do texto, democracia e educação, verificamos que isso é possível e traz benefícios quando aumenta-se o número de ofertas de cursos e vagas para a educação e qualificação profissional, ou seja, atende-se a uma demanda de educandos dispersos geograficamente, oferece-se uma nova oportunidade a pessoas que abandonaram o estudo presencial por dificuldade a acesso e garante-se a continuidade de estudos no próprio meio cultural e social dos educandos, evitando problemas referentes aos êxodos, e promovendo desenvolvimento local.

Em fim, volto a salientar que, como educadores mais importante que o método ou modelo escolhido precisamos garantir a qualidade da educação.

REFERÊNCIAS
ARETIO, L. G. La educación a distancia: de la teoria a la practica. Barcelona: Ariel Educación, 2006.

BELLONI, M. L. Educação a distância. 4. Ed. Campinas, SP: Editora Autores Associados, 2006.

LEITE, L. S. et al. Tecnologia educacional: descubra suas possibilidades na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 2003.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

LOBO NETO, F. J. S. Educação a distância: função social. In: NETO, F. J. S. L. Educação a distância: referencias & trajetórias. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Tecnologia Educacional. Brasília: Plano Editora, 2001. p. 57-72.

LUCKESI, C. C. Democratização da educação: educação a distância como alternativa. In: NETO, F. J. S. L. Educação a distância: referencias & trajetórias. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Tecnologia Educacional. Brasília: Plano Editora, 2001. p. 37-43.




 Material produzido durante a participação do docente em uma disciplina do Curso de Especialização em educação a Distância promovido pela Universidade de Brasília (UnB).
Contato: marcosarcoverde@bol.com.br


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal