EducaçÃo ambiental, literatura e identidade latino americana – uma pesquisa através da obra do poeta e ensaísta mexicano octávio paz



Baixar 12.92 Kb.
Encontro27.07.2018
Tamanho12.92 Kb.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL, LITERATURA E IDENTIDADE LATINO AMERICANA – UMA PESQUISA ATRAVÉS DA OBRA DO POETA E ENSAÍSTA MEXICANO OCTÁVIO PAZ

Valdo Barcelos

Esta pesquisa teve como objetivo refletir sobre a contribuição das idéias do poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz (1914-1998) para o entendimento das complexas origens das questões ambientais contemporâneas. Intelectuais e cidadãos(ãs) do mundo inteiro estão sendo desafiados a tomarem posição sobre essas questões que são, sem sombra de dúvida, transnacionais, exigindo, assim, a atenção de todos aqueles(as) que ainda creditam em um mundo mais saudável ecologicamente e mais justo socialmente. Enfim, um mundo onde a tolerância e a paz se sobreponham a intransigência e a guerra.

Alguns pensadores assumiram em suas produções intelectuais a dianteira em relação aos grandes problemas de sua época e da sua cultura. Dentre os intelectuais latino americanos que se destacaram como pensadores de seu tempo e de sua gente Octávio Paz é um exemplo inquestionável. Sua produção poética e ensaística transbordou as fronteiras de seu país (México) e de seu continente (Americano). Conquistou o mundo.

Buscarei, neste ensaio, através da análise da produção ensaística de Paz, estabelecer um diálogo entre literatura e ecologia, tendo, como pressuposto, também, a idéia de que a literatura constitui-se, sim, em mais uma possibilidade de produção de conhecimento, na medida em que existe um permanente diálogo entre autor(a), texto, leitor(a) e sociedade. Como alertava Paz a vida se constitui como um tecido. Quase um texto. Ou, melhor dizendo: um texto que é um tecido feito não apenas de palavras mas, também, de experiências e representações imaginárias.

Para o desenvolvimento desta pesquisa tomei como referencial de análise a teoria das Representações Sociais de origem moscoviciana. Nessa pesquisa a Teoria das Representações Sociais foi tomada como uma teoria “orientadora do olhar” e não como “decifradora de mundos” e de imaginários sociais. O texto escrito é aqui tomado como uma construção capaz de informar e comunicar representações sociais presentes no imaginário de pessoas ou grupos sociais. Ao comentar a relação existente entre a obra literária e a sociedade Candido (2000), diz que a mesma passa por avaliações que vão de um extremo a outro. Para o autor no século passado, por exemplo, a literatura chegou a ser vista como chave para entender a sociedade. Noutro momento, no entanto, foi totalmente desconsiderada a possibilidade de condicionamento entre literatura/sociedade/literatura. Há, portanto, segundo este autor, que se buscar um ponto de equilíbrio entre estes dois extremos. Para Deleuze (2000) a escrita, passa pelos povos, pelas questões étnicas, pelos grupos tribais. Para ele a escrita pode significar a invenção de um povo. Seria uma forma de escrever por este povo que falta, sem querer ocupar o lugar deste. Derrida (1991) lembra que se escreve com o objetivo de comunicar alguma coisa para alguém.

Já na opinião de Jacques Leenhardt (1998), o texto literário teria sua significância social, entre outras justificativas, pelo fato de constituir-se em um dos principais meios de que dispõe o indivíduo, para que possa estabelecer as suas relações imaginárias com os demais componentes do grupo ao qual pertence. Sobre esta relação entre sociedade e literatura Octávio Paz, quando este afirma existir uma relação que é ao mesmo tempo muito forte e complexa entre obra e história. Paz (1994) vê também como fundamental o entendimento da relação existente entre o leitor, o texto literário e sobre o autor, pois, na sua opinião existe em todas as sociedades um sistema de regras e de proibições. Residiria aí o domínio daquilo que se pode ou não fazer. Ao nos voltarmos para o que é produzido pelo autor veremos que, segundo Paz, existe uma outra esfera de regulação que nos diz aquilo que pode ou não ser dito e/ou escrito.O sistema de repressão que existe em cada sociedade repousa sobre esse conjunto de inibições que em muitos casos nem sequer são percebidas de forma consciente.

É neste sentido que podemos afirmar que a literatura ao ser entendida como um discurso que acontece na e pela sociedade, não pode ser vista de forma apartada, isolada da cultura desta sociedade na qual está inserida e onde a estamos analisando.

Uma das conclusões dessa pesquisa foi que o texto literário se constitui, sim, em mais uma importante fonte para o estudo e pesquisa do imaginário social. A abordagem da obra literária paziana, via teoria das representações sociais, mostrou-se de grande pertinência para a produção de conhecimento em educação em geral e, em educação ambiental em particular. Foi possível, através dessa abordagem acercar-me de conceitos e representações do imaginário latino americano, presentes na obra analisada. Conceitos e representações, essas, que tem uma grande importância simbólica na construção das identidades dos povos e nações desse continente. Alguns exemplos dessa estreita vinculação entre literatura, questões ecológicas e construção das identidades latino americanas podem ser muito bem representadas, por exemplo, em representações sobre o que é “primeiro mundo”; “terceiro mundo”; representação de natureza; “mundo desenvolvido”; “mundo subdesenvolvido”; “países do norte”; “países do sul”. Percebe-se que tais representações imaginarias passaram a ser aceitas como conceitos científicos hegemônicos em campos da maior importância para a construção da democracia, das relações econômicas e culturais tanto dentro do continente latino americano, quanto desse com os demais povos e nações.

Tais representações tiveram, e ainda têm, uma influência bastante grande nos modelos de desenvolvimento adotados pelos países do continente em geral e, em particular no Brasil. Uma das demonstrações disso é o fato das elites latino americanas terem, historicamente e sistematicamente, desprezado a possibilidade de buscar construir alternativas aos problemas locais a partir de seu patrimônio cultural. Não por acaso os modelos aqui implementados foram, via de regra, os já em exaustão em outras regiões do dito mundo “desenvolvido ou industrializado”. As conseqüências dessa opção tiveram - e têm - uma repercussão dramática sobre as diferentes formas de degradação que atualmente estamos assistindo na sociedade latino americana. São processos de destruição, silenciamentos e aniquilamento de culturas, de saberes. Enfim, de formas e modos de vida seculares, quando não milenares. E o que é ainda mais dramático: em nome de uma ideologia do progresso a qualquer custo e sem limites; de um total desprezo pelos saberes das comunidades locais; de não reconhecimento de suas sociedades como culturas legítimas em sua especificidade e diversidade. É a esse amplo e radical processo de não reconhecimento da legitimidade do outro que denomino de degradações ecológicas no sentido político e social que essa expressão têm. São degradações que envolvem o ambiente natural, o ambiente psicológico e o ambiente social. Ou seja, a produção de subjetividades e identidades no continente latino americano.



O grande desafio, e, talvez, a possibilidade de criação de alternativas para uma sociedade social e ecologicamente mais justa em nosso continente, reside, a meu ver, em enfrentar aquilo que Paz tanto criticou no decorrer de suas reflexões: a incapacidade das elites dirigentes em desafiar os poderes tradicionais, tanto internos quanto externos; a facilidade com que se copiam os modelos externos mesmo já em exaustão - isto não significa, pelo menos na opinião de Paz, a defesa de xenofobismos arcaicos, muito menos se alimentarem ódios étnicos e/ou religiosos - ; a opção pelo caminho político aparentemente mais fácil da estabilidade proporcionada pela “ordem” autoritária à instabilidade e incertezas do processo de debate e crítica democrática e, por último, e não de menor importância, a uma certa aceitação de algumas “verdades” meramente economicistas para classificar a situação dos países latino-americanos frente as demais nações do planeta.

Acredito que existe uma intrínseca relação entre a idéia de sociedade democrática para a América Latina, a construção livre e autônoma de suas identidades defendida no pensamento de Paz, e as possíveis alternativas de intervenção sobre os problemas ecológicos contemporâneos neste continente e no planeta. Mais ainda, vejo uma profunda relação entre a idéia de educação ambiental para a cidadania planetária e os conceitos de democracia, liberdade, tolerância, necessidade de criatividade, de valorização da cultura, dos saberes, costumes, crenças dos povos. Enfim, de uma aposta no diálogo entre os diferentes segmentos sociais como forma radical de respeito ao outro. Todos estes, valores fundadoras do pensamento ecologista na sua vertente libertária da década de 60.

Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal