educaçÃo musical X viola caipira



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2.4 EDUCAÇÃO MUSICAL X VIOLA CAIPIRA- (

Esta orquestra é ao mesmo tempo um espaço de lazer, convívio social e educação musical. Entendemos que se caracteriza como um espaço de educação musical por ocorrer tanto a prática como o ensino coletivo da viola caipira. Rabaioli (2009) destaca a importância da prática musical coletiva para a educação musical:


A natureza da experiência musical desdobra-se nas dimensões básicas, da apreciação, execução e composição, e que cada uma contribui a seu modo para a plenitude dessa experiência [...] pensamos que uma experiência do fazer musical coletivo pode acenar com contribuições vivazes para a formação do ser humano, do profissional de música e do educador musical (id., p. 74).
Os processos de ensino e aprendizagem que ocorrem na orquestra se dão de forma coletiva. Porém, a educação musical no grupo não ocorre nos mesmos moldes da educação musical em escolas regulares, objeto mais comum de pesquisas da área de educação musical. Esse espaço é caracterizado por processos de ensino “não formais, informais e não escolares” (WILLE, 2005, p. 40). Para Arroyo (2000, p. 78, apud WILLE, 2005, p. 40), estes processos ocorrem como:
Prática social e cultural que é mais ampla que a escolarização. Significa considerar não somente os espaços escolares e o que acontece neles, mas também considerar que o fazer musical das diversas culturas, tempos e sociedades traz tacitamente o ensino e aprendizagem desse fazer musical.
A autora define assim o processo de educação não formal:
A educação não formal seria aquelas atividades que possuem caráter de intencionalidade, mas pouco estruturas e sistematizadas, onde ocorrem relações pedagógicas, mas que não são formalizadas” (id., p. 40).
A orquestra de viola é um espaço não escolar que possui sua intencionalidade do ensino e aprendizagem por meio da prática do instrumento que ocorre de diferentes maneiras, caracterizando assim um processo de ensino musical não formal. A importância desta pesquisa para educação musical se dá por diferentes aspectos. Podemos, por exemplo, justificar nossa pesquisa pela diversidade musical brasileira, onde as pessoas têm contato musical em diferentes espaços do cotidiano. Porém, nem todas têm acesso a um “estudo formal de educação musical, isto é, na escola regular ou em instituição especializada, de preferência por um professor especialista”. (ILARI, 2007, p.36)

Quando ocorrem dúvidas sobre a identificação de um acorde ou não assimilação de uma passagem musical, o participante procura o parceiro ou o regente durante os intervalos do ensaio para saná-las. Esta pratica também é bastante comum entre os participantes da orquestra de viola, e também se caracteriza como um processo não formal de ensino, pois há intencionalidade sem sistematização.

Através destas trocas, o ensino, o aprendizado e a prática da viola caipira e da música sertaneja entre os participantes dá continuidade à cultura caipira. Além disso, ocorre também um fortalecimento dos vínculos entre os participantes, como membros do grupo e violeiros. Nesse grupo, a música é um veículo de regulação de emoções, práticas sociais, identificação dos seus pares e desenvolve competências, tais como auto-estima, (ILARI, 2007, p.38). A autora ainda acrescenta:
Foi possível perceber um fortalecimento das relações interpessoais entre os membros dos diversos grupos. As experiências musicais coletivas parecem ter fortalecido não apenas as relações de um para um, mas também a identificação dos indivíduos com o grupo, atendendo aquilo que Maslow (1970) chamou de necessidades sociais, ou, àquelas relativas às necessidades de associação, de participação em um grupo social, de aceitação por parte dos companheiros e de troca de amizade (ILARI, 2007, p. 40).

Outra forma de aprendizagem musical ocorre já dentro dos ensaios, quando os participantes tocam e, ao se olharem, identificam movimentos e posições dos parceiros e/ou do regente e assimilam estes movimentos e posições à sua execução. Sobre a aprendizagem musical por observação de movimentos, Bertho (2008) diz:

Os gestos [observados] podem ser avaliados de inúmeras formas dentro da perspectiva da cultura oral. Todavia, sua contribuição para transmissão do conhecimento é singular, e possibilita uma situação de vivência corporal onde o processo educativo faz uso de movimentos para assimilação e posterior expressão (...) (BERTHO, 2008, p.12).1
A prática da observação e imitação de movimentos é uma das características da educação informal. Portanto, além de processos não formais, ocorrem nos ensaios da Orquestra de Violeiros processos informais de ensino musical (não intencionais e não sistematizados).

JUSTIFICATIVA

Observamos, então, que o pertencimento a um grupo intitulado como caipira retoma pontos importantes para a construção da identidade do sujeito. Com a globalização, os processos de identidade e identificação com a nação ficam fragmentados, por conta deste sujeito ter acesso a diferentes formas, valores e identidades culturais em seu entorno. As identidades não são fixas como eram outrora. Este sujeito então busca, dentro de seus valores individuais, grupos condizentes com seus valores. No caso da pesquisa que pretendemos realizar, a orquestra de viola.


Investigar aspectos da identidade relacionados à viola caipira com base no tópicos discutidos anteriormente se apresenta como relevante tanto para a área de etnomusicologia quanto para a área de educação musical. Em relação à primeira, pretende-se focar não os aspectos musicológicos da viola caipira, mas sim os aspectos sociológicos, onde o sujeito e sua relação com o universo caipira de uma forma mais ampla é o foco principal. Em relação à educação musical, diversos autores (GALIZIA; KRUGER; KORSOKOVAS, 2009; ILARI, 2007) já apontam a necessidade da área levar em consideração espaços alternativos onde ocorrem práticas musicais e pedagógico-musicais, como as que ocorrem na Orquestra Amigos Violeiros de São Carlos.

A importância desta pesquisa para educação musical se dá por diferentes aspectos. Louro (2004), ao justificar sua tese de doutorado sobre identidades de professores universitários de instrumento musical, define a pesquisa em educação musical pelo fato de existir uma relação de pessoas com música nos processos de construção de identidades musicais. Esse fato também faz do presente trabalho uma pesquisa em educação musical.



Além disso, podemos justificar nossa pesquisa pela diversidade musical brasileira, onde as pessoas têm contato musical em diferentes espaços do cotidiano. Porém, nem todas têm acesso a um “estudo formal de educação musical, isto é, na escola regular ou em instituição especializada, de preferência por um professor especialista”. (ILARI, 2007, p.36)
Porém, muitas crianças e jovens da América Latina aprendem música no cotidiano, em contextos “extra-oficiais” [...] muito embora estas práticas não sejam reconhecidas por todos como sendo práticas da educação musical propriamente dita (ILARI, 2007, p. 36).
Neste cenário, cabe à educação musical conhecer, pesquisar e compreender estes espaços como sendo de ensino e aprendizagem musical, além do ensino regular. Com isso, a área pode contribuir com e para a potencialização destes espaços e, conseqüentemente, dos indivíduos que nele co-participam. Segundo Ilari (2007):
Reconhecer que a educação musical, não apenas no Brasil, mas na América Latina como um todo, precisa mesmo assumir suas múltiplas faces é mais do que necessário, já que estas refletem a enorme pluralidade cultural, social e econômica de nosso continente mestiço. Nós, latino-americanos, precisamos urgentemente reconhecer que há múltiplas concepções de educação musical na América Latina que são igualmente importantes. Somente através da minimização das hierarquias existentes na área da educação musical e do reconhecimento da música como competência humana que assume inúmeras funções da música na vida dos indivíduos, é que teremos uma educação musical forte e libertária em nosso continente (ILARI, 2OO7, p. 42-43).
Diante do exposto, neste trabalho nos propomos a investigar a identidade dos violeiros e violeiras da Orquestra Amigos Violeiros da Cidade de São Carlos, focando os seguintes aspectos: o sentimento de pertencimento à cultura caipira; a influência da viola caipira no cotidiano dos violeiros pesquisados e o processo de continuidade da cultura caipira. Acreditamos, assim como Louro (2004), que esses dados são relevantes para área de conhecimento da educação musical, mesmo que sejam oriundos de outras áreas das ciências humanas.


1 Para maiores informações sobre educação musical e movimento, vide BERTHO (2008).


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