Efeitos da complementaçÃo de lisina e de vitaminas hidrossolúveis no crescimento de potros mangalarga marchador



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EFEITOS DA COMPLEMENTAÇÃO DE LISINA E DE VITAMINAS HIDROSSOLÚVEIS NO CRESCIMENTO DE POTROS MANGALARGA MARCHADOR

Matéria publicada na

Revista ‘O Cavalo Marchador’


Ano II – No. 15

Agosto de 1988
J.B. Cotta1, M.P. Muri2 e R. Bongiovani3
Avaliaram-se os efeitos de uma complementação em lisina e vitaminas B sobre o desenvolvimento de potros com acesso à pastagens de Brachiaria humidicola, Hyparrhenia rufa e Panicum maximum. O ganho de peso do grupo suplementado foi claramente mais elevado do que o do grupo - testemunha. A suplementação foi também favorável em relação a todos os demais parâmetros zootécnicos medidos durante o ensaio, como o crescimento em altura e o perímetro toráxico.

INTRODUÇÃO

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

MATERIAL E MÉTODOS

RESULTADOS E DISCUSSÃO

CONCLUSÕES

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
I – INTRODUÇÃO
A eqüideocultura vem se desenvolvendo no Brasil de uma maneira regular, ocupando no país uma posição de destaque, logo após a China e os Estados Unidos, com um plantel em torno de 6,3 milhões de cabeças (FAO, 1950-1981, Anuário da Produção). Este número garante ao país o primeiro lugar na produção de cavalos na América Latina.
Dentre os fatores de produção, a alimentação ocupa posição de destaque, permitindo aos animais exteriorizar o seu potencial genético, nos seus diferentes estados fisiológicos.
Sendo o cavalo um herbívoro monogástrico, sua dieta deve ser constituída principalmente de alimentos volumosos.
Estes têm uma composição muito variada, em função do estádio de vegetação, da espécie, da adubação. Especialmente as proteínas e seus aminoácidos essenciais são de extrema importância na fase de crescimento dos potros. Entretanto, a utilização digestiva desses alimentos é muito pouco estudada no país. Isto leva à conclusão de que um complemento deve ser acrescentado à dieta, para se evitar riscos de uma sub - alimentação desses animais, sobretudo neste período em que, fisiologicamente, eles são muito exigidos.

II – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA


O feto se desenvolve rapidamente a partir do 8º mês de gestação. Este crescimento continua após a parição, só cessando quando o animal atinge seu peso adulto. Este processo metabólico é contínuo e utiliza os aminoácidos fornecidos pelas proteínas alimentares, pelo anabolismo e catabolismo orgânicos.
A quantidade e a qualidade das proteínas corporais precisam ser adequadas para que o animal possa construir os seus tecidos, sejam eles as fibras musculares, o epitélio intestinal, a pele... (Jarige e Tisserand, 1984)
É a partir dos aminoácidos livres, presentes em todos os tecidos e em todos os líquidos do organismo, que a síntese protéica é realizada. Assim, o teor em aminoácidos essenciais reflete a qualidade das proteínas dietéticas, a qual é substancialmente melhorada com uma suplementação de lisina à alimentação (Reitnour e Salbury, 1976).
A carência de proteínas, ou em certos aminoácidos indispensáveis, causa problemas gerais de saúde, como perda de apetite.
Esta leva, por sua vez, a uma subnutrição energética, aparecendo, em conseqüência, uma diminuição de peso e da vitalidade dos potros recém-nascidos e uma redução na velocidade do desenvolvimento corporal.
Ora, as pastagens naturais são pobres em proteínas de boa qualidade e é uma medida prudente oferecer aos animais os aminoácidos essenciais, principalmente a lisina, para evitar problemas zootécnicos na criação. Segundo vários trabalhos publicados (Jordan e Myers, 1972; Ott et al., 1979, 1981), este aminoácido tem uma grande importância nos primeiros meses após o desmame, influenciando principalmente o ganho de peso diário, graças ao melhor apetite provocado nos animais.
Segundo as observações de Brever e Golden (1971), o crescimento de potros desmamados passa de 370 g/dia para 730 g/dia quando o teor de lisina na ração sobe de 0,3% para 0,6%.
Quando a lisina é administrada a potros, recebendo na sua dieta torta de algodão, milho, sorgo, eles têm um melhor ganho de peso; e mesmo o farelo de soja leva desvantagem em relação ao leite em pó desnatado, mais rico em lisina, nos potros muito jovens (Jarrige e Tisserand, 1984; Hintz et al., 1971; Ott et al., 1979).
Entretanto, as recomendações alimentares são bastante divergentes entre os autores. Por exemplo, a quantidade de lisina a ser administrada diariamente pode variar de 29 g (Brever e Golden, 1971) a 48 g (Ott et al., 1981). Isso deve ocorrer, sem dúvida, porque o conjunto dos fatores em causa é mal controlado.
As pesquisas relativas às necessidades vitamínicas do cavalo são hoje mais ou menos hipotéticas. Em condições normais, o cavalo adulto parece não sofrer nenhuma carência nessas vitaminas, graças à síntese intestinal. Esta, entretanto, pode ser pouco desenvolvida nos animais muito jovens ou que estejam sendo submetidos a um trabalho intenso. Assim, a vitamina B1 tem um papel primordial no trabalho muscular, e sua necessidade estaria em torno de 3mg/kg de alimento. (Carrol et al., 1950).
Sua carência estaria comprometida no quadro da mioglobinúria paroxística e na hemiplegia da laringe (Loew, 1973).
A carência em B2 provocaria uma conjuntivite cataral, acompanhado de fotofobia e de lacrimejamento, comprometendo o cristalino e a retina (Jones, 1942). Sua exigência se situa em tono de 2,2 mg/kg de alimento, para a manutenção do organismo (Pearson et al., 1944).
Quanto à recomendação alimentar das outras vitaminas, embora imprecisa, ela pode variar em função da idade, do clima e da qualidade da dieta (Wolter, 1975; NRC, 1978).

III – MATERIAL E MÉTODOS


Um ensaio foi conduzido no Instituto de Zootecnia da UFRRJ com potros da raça Mangalarga Marchador, desmamados e vermifugados, com a idade de 12 +/- 6 meses, separados por sexo, com 3 repetições por tratamento.
A alimentação foi constituída de pastagens de Brachiaria humidicola, Hyparrhenia rufa (capim jaraguá) e Panicum maximum (colonião). A metade dos machos e das fêmeas recebeu um complemento de lisina (15 g) e de vitaminas hidrossolúveis4, a outra metade constituindo-se nos lotes -testemunhas.
Período experimental estendeu-se de 28 de Setembro de 1987 a 2 de Fevereiro de 1988. Os animais forma pesados mensalmente e medidos quanto à altura (costados, garupa, dorso, cernelha), comprimento (corpo, pescoço, dorso - lombo, cabeça, espádua, garupa), largura (ancas, peito, cabeça) e perímetros toráxico e da canela.
IV – RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela 1 apresenta os resultados de ganho de peso durante os primeiros meses do ensaio. Como se pode ali observar, o ganho médio diário, tanto dos machos (653 g/d) quanto das fêmeas (520 g/d), que receberam o produto, foi nitidamente superior ao dos grupos sem complementação.
No caso das fêmeas, o ganho de peso é de cerca de 90% superior ao do grupo sem produto.
TABELA 1 – EFEITOS DA COMPLEMENTAÇÃO SOBRE O GANHO DE PESO (KG) DOS POTROS


TRATAMENTOS




MESES DE TRATAMENTO




GANHO MÉDIO DIÁRIO (g)




1

2

3




MACHOS +

22

38

64

653

MACHOS -

17

35

51

520

FÊMEAS +

20

43

51

520

FÊMEAS -

11

22

27

275


Obs: + Com complemento

  • Sem complemento

Estes resultados mostram claramente as vantagens de uma complementação de lisina e de vitaminas na dieta dos potros, com nítidos reflexos sobre a aparência geral dos animais. Estes resultados concordam com vários autores (Jarrige e Tisserand, 1984) que afirmam que o ganho de peso diário cresce com o aumento do teor de nitrogênio protéico na ração. Isso acontece, seja porque ocorre um aumento no aproveitamento dos alimentos ingeridos, seja porque o apetite melhora, levando a uma maior ingestão de matéria seca por parte do animal.


Os outros parâmetros zootécnicos são apresentados na Tabela 2.
Como se pode ali observar, todos os itens relacionados com a altura se beneficiam com a complementação do produto. Também o perímetro toráxico se amplia de maneira considerável, sobretudo o dos machos. Tanto o comprimento do corpo quanto a largura das ancas crescem mais no grupo de machos tratados, nenhum efeito tendo sido observado nas fêmeas. O comprimento do pescoço, o da cabeça, o dorso - lombar, o das espáduas, o da garupa; a largura do peito, a da cabeça e o perímetro da canela não foram de nenhuma forma afetados pelos tratamentos.
TABELA 2 – EFEITOS DA COMPLEMENTAÇÃO SOBRE O DESEMPENHO DOS POTROS


MEDIDAS

MACHOS

FÊMEAS

ALTURA DOS COSTADOS

+ 76,5 %

+ 44,4%

ALTURA DA GARUPA

+ 59,2%

+ 194,1%

ALTURA DO DORSO

+ 43,3%

+ 107,7%

ALTURA DA CERNELHA

+ 51,5%

+ 21,2%

COMPRIMENTO DO CORPO

+ 43,2%

-

COMPRIMENTO DO PESCOÇO

-

-

COMPRIMENTO DO DORSO-LOMBO

-

-

COMPRIMENTO DA CABEÇA

-

-

COMPRIMENTO DAS ESPÁDUAS

-

-

COMPRIMENTO DA GARUPA

-

-

LARGURA DAS ANCAS

+ 85,0%

-

LARGURA DO PEITO

-

-

LARGURA DA CABEÇA

-

-

PERÍMETRO TORÁXICO

+ 106,0%

+ 44,3%

PERÍMETRO DA CANELA

-

-

Os resultados são expressos em acréscimos percentuais dos animais tratados em relação aos testemunhos de cada sexo.

V – CONCLUSÕES
O potro tem necessidades protéicas elevadas, sobretudo durante sua fase de crescimento. Quando a lisina é administrada a potros recebendo pastagens naturais, seus desempenhos zootécnicos melhoram acentuadamente. Assim, apesar das recomendações alimentares serem bastante divergentes, indo de 29 g a 48 g por dia, a lisina tem um valor incontestável na alimentação dos potros, mesmo em dosagens menores. Este aminoácido seria o primeiro fator limitante na alimentação desses animais, e mesmo o único até hoje demonstrado como sendo primordial na complementação alimentar dos eqüinos.
Por outro lado, as pesquisas relativas à necessidades vitamínicas do cavalo continuam relativamente raras. Apesar das impressões ainda inexistentes, pode-se concluir que a facilidade de sua complementação e o seu custo relativamente baixo conduzem a sugerir uma complementação para os potros em crescimento, com amplas margens de segurança. As propriedades farmacodinâmicas das vitaminas administradas podem ser de valor para o potro em crescimento.5

VI – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BREVER, L.H., GOLDEN, D.L., 1971. Lysine requiriments of the immaure equine. J. Anim Sci.: 33:227;
CARROL, F.D., GOSS H., HOWELL. C.E., 1950. Teneur vitaminique B dnas le muscles du cheval recevant des rations pauvres en vitamine B. J. Anim Sci. 8:290;
HINTS, H.F., SCARYVER, H.F., LOWE, J.E., 1971. Comparison of a blend of milk products and linseedmeal as protein supplements for young growing horses. J.Anim. Sci, 33: 1274-1277;
JARRIGE, R, TISSERAND. J.L., 1984, Metabolisme, besoins et alimentation azotés du cheval in Le Cheval – Reproduction, sélection, alimentation, exploitation – INRA, Paris;
JONES, T.C., 1942 – Ophtalmie périodique du cheval. Am. J. Vet Res. 3:45;
JORDAN, R.M., MYERS, V., 1972. Effect of protein levels on the growth of wean earling and yearling ponies. J.Anm. Sci, 34:578-581;
LOEW, F.M., 1973. Thiamine e hémiplégie laryngée du cheval. Vet Rec., Avril, 372-373;
NATIONAL RESEARCH COUNCIL, 1978. Nutrient requirements of domestica animals; n. 6 Nutrient requirementes of Horses, 4th revised edition. National Academy of Sciences. Washington, D.C.;
OTT, E.A., ASQUITH, R.L., FEASTER, J.P., MARTIN, F.G., 1979, Influence of protein level and quality on the growth and develoment of yearling foals. J. Anim. Sci., 49: 620-628;

OTT, E.A., ASQUITH, R.L., FEASTER, J.P., 1981. Lysine supplementation of diets for yearling horses. J. Anim. Sci., 53: 1496:1503;


PEARSON, P.B., SHEYBANI, M.K., SCHMIDT, H., 1944. Riboflavine dans la nutrition du cheval. Arch Biochem., 3:467;
REITNOUR, C.M., SALBURY, R.L., Utilization of proteins by the equine species, Am. J. Vet. Res., 37:1065-1067;
WOLTER, R., 1975, L´alimentation du cheval, Ed. Vigot-Frères, Paris.


1 Médico - Veterinário, com doutorado pela Universidade de Montpelier (França), do Instituto de Zootecnia da UFRRJ, Rio de Janeiro, BRASIL.

2 Zootecnista do Instituto de Zootecnia da UFRRJ, Rio de Janeiro, BRASIL.

3 Médico – Veterinário, do Laboratório BRAVET Ltda., Rio de Janeiro, BRASIL.

4 EQUINERGI- L , Laboratório BRAVET, Rio de Janeiro

5 Publicado também na Revista Hora Veterinária – ano 8, no. 44, Julho /Agosto 1988





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