Em 1929 Freud publica, em alemão, a primeira edição de seu Mal-Estar na Civilização



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O PENSAMENTO DE FREUD SOBRE A CIVILIZAÇÃO**

Mara Seliabe*


Resenha da obra O Mal-Estar na Civilização, de Sigmund Freud
No segundo semestre do ano de 1929, Freud escreve O Mal-Estar na Civilização (Das Unbehagenin der Kultur), publicado em 29 de outubro próximo. No prazo de um ano a tiragem de 12.000 exemplares se esgota. Em 1931 o editor publica a segunda edição. A tradução para o inglês é lançada em Londres em 1930 (Civilization and Its Discontents).
Como um livro de Freud, no início do século XX, passada a Primeira Guerra Mundial, pode ter alcançado tantos leitores interessados? O título surge justamente no período da Grande Depressão econômica, com a queda da Bolsa de Valores de Nova York; um tempo conturbado e pleno de ameaças no campo da política européia – as quais vieram a se confirmar na década seguinte fora de qualquer parâmetro jamais imaginado: de Hitler a Hiroshima, dos desdobramentos da Revolução Russa ao stalinismo na União Soviética. E seu pensamento radicalmente analítico, reunido nesse ensaio, dá ao mundo ocidental muito que pensar. Na biografia de Freud, escrita por Peter Gay, lemos:
“A contribuição específica de Freud à reflexão sobre a política consiste [na] idéia das paixões reprimidas pela cultura. Essa perspectiva dá a O Mal-Estar na Civilização sua força e originalidade: trata-se de uma teoria psicanalítica da política, formulada de maneira sucinta. Freud não era teórico político, assim como não era historiador das religiões ou arqueólogo. Era um psicanalista que aplicava os recursos de seu pensamento às diversas manifestações da natureza humana. Os maiores teóricos políticos, desde Platão e Aristóteles, haviam feito exatamente o mesmo. Mas Freud fundou sua análise da vida social e política numa teoria da natureza humana muito própria.”
O nascimento da psicanálise está definitivamente ancorado na descoberta do inconsciente. Segundo Freud – depois de Copérnico nos ensinar que a Terra não ocupa o centro do Universo e depois de Darwin nos mostrar que o homem não é criação divina, mas apenas mais uma espécie entre outras – há ainda uma terceira “ferida narcísica” a nos incomodar: a afirmação do inconsciente implica em reconhecer que o eu não é o senhor nem o centro do psiquismo. Assim sendo, temos de nos haver com exigências pulsionais desde o nascimento; exigências incompatíveis com a organização absolutamente necessária da vida em comum, exigências que se chocam com as condições culturais impostas para que cada um seja incorporado e aceito na comunidade humana, sem a qual não sobrevive. Em O Mal-Estar... Freud trabalha sobre esse conflito entre a natureza humana pulsional e o processo civilizatório. Toda criança deve renunciar e reprimir precocemente seus amores e ódios apaixonados e primários dirigidos a seus pais ou substitutos. Isso só poderá ser levado a cabo através da imposição do interdito do incesto e do parricídio pela cultura, bem como da angústia gerada pelo sentimento de culpa inconsciente diante de tais desejos – por sua vez também inconscientes.
Contudo a renúncia e a repressão não significarão a extinção total e de uma vez por todas seja das demandas por amor seja dos impulsos destrutivos e muito menos significarão que essa espécie de negociação entre a natureza humana pulsional e a cultura esteja para sempre conquistada. O conflito será permanente, variando apenas em grau e intensidade a depender dos arranjos civilizatórios.
Se de uma perspectiva é preciso renunciar e recalcar, de outra está colocada a tarefa identificatória que todo bebê, toda criança, todos nós temos de empreender ao longo de nossas existências. Sem nos identificarmos desde o princípio com os representantes de nossa humanidade civilizatória, com os valores e atitudes reconhecidas, como nos integrarmos, como nos tornarmos parte de um complexo que nos dá suporte e ao qual se espera que venhamos a colaborar? Subjetividade e coletividade se mantêm em relação íntima e conflituosa desde o princípio.
Banhado pela literatura e pela filosofia e mergulhado em sua atividade clínica, Freud, nesse escrito de 1929, buscava retratar a natureza humana, sobre a qual havia se debruçado intensamente nas últimas três décadas. O Mal-Estar... é considerado um texto clássico. Talvez um dos mais conhecidos de Freud entre os não-psicanalistas. Suas proposições foram, e ainda são, motivo de controvérsias. Entretanto, jamais foi refutado definitivamente. Segue sendo estudado e citado diante das questões atuais de nosso mundo Ocidental. Nesse trabalho, como em outros, Freud tem em conta muitos autores com os quais estabelece alguma espécie de diálogo: Goethe, Heine, Romain Rolland, Mark Twain, John Galsworthy, para citar os principais.
Nessa obra – praticamente uma década depois de o Mais além do princípio do prazer (1921), livro capital na postulação de uma pulsão de morte no humano – o fundador da psicanálise afirmará que a vida humana se pauta pela busca do prazer e pela evitação da dor. Ou seja, a busca da satisfação de todos os desejos e a consecução de todos os prazeres. Contudo o homem não é um ser feliz, uma vez que tem de se haver com a infelicidade trazida freqüentemente pelo padecer do corpo, pelas movimentações incontroláveis das forças da natureza e, principalmente, pelas dificuldades perpetradas nos interstícios das relações com outros homens – o que, aliás, lhe barra em muito a satisfação almejada. A infelicidade constatada a cada dia não nos redime da busca incessante pela felicidade, mas pode nos esclarecer de que esta última não vigora como um objetivo do universo e nem a felicidade individual está acima dos interesses dos grupos humanos.
Ainda conforme a visão de Freud, a atitude básica na criação do mundo civilizado está fundada na mudança do lugar do poder: ao invés de estar nas mãos de um indivíduo ele deve estar nas mãos de um grupo unificado. Essa perspectiva indica o nascimento do Direito e da Justiça – a não violação de uma lei instituída em favor de um indivíduo – como requisitos básicos à vida social. É desse modo que o psicanalista entende ocorrerem as condições para as restrições necessárias ao prazer desmesurado desejado pelo indivíduo isoladamente. Aqui nos deparamos com uma das questões mais importantes da nossa civilização democrática: coadunar as liberdades individuais com os direitos coletivos.
A busca da felicidade diante de tantas dificuldades também encontra um terreno de promessas na religião. Contudo, não é bem assim, como ele nos faz ver em sua obra O futuro de uma Ilusão (1927) e rever logo no início de O Ma-Estar...: diante do desamparo infantil que nos acompanhará para sempre na vida, sentiremos uma espécie de nostalgia pelo pai/ adulto protetor. Essa será a origem do sentimento religioso, da busca por um conforto sobre-humano e capaz de nos redimir, de nos restituir um narcisismo ilimitado. Porém, tampouco a religião alcançará essa fantasia e ela se mostrará uma ilusão de caráter paliativo. As drogas, os prazeres mundanos, a yoga, os tantos medicamentos – diríamos nós, hoje – não sustentam a felicidade. As sublimações possíveis à libido pela via do trabalho talvez – quando escolhido, quando arquitetado pelo desejo – pode nos alentar positivamente pela sustentabilidade à realidade que nos proporciona. Entretanto os homens não costumam buscar no trabalho a felicidade, não costumam valorizá-lo nessa direção. E as sublimações têm seus limites... Mesmo que o homem tenha se tornado um tipo de “Deus com próteses”, realizando conquistas inimagináveis nos campos da ciência, as quais lhes possibilitam criações tecnológicas excepcionais,
“Há uma especial dificuldade em ser homem-do-desejo numa civilização que funciona à base do recalque. A felicidade, como a cenoura do burro, é uma isca para continuar puxando o jugo. No fundo estamos imersos no mal-estar da impossibilidade.”
As perguntas e questões ressaltadas nesse estudo de Freud, sempre sob o enfoque psicanalítico, pretendem alcançar toda a humanidade; algumas tentativas de explicações e de respostas estão dirigidas a acontecimentos históricos de cunho sociológico e cultural. O primeiro psicanalista se pergunta que civilização é essa que fizemos emergir?; qual seu alcance na preservação da espécie?; teremos futuro? Se o tivermos, a que preço e sob quais condições? Max Schur ressalta:
O Mal-Estar na Civilização fornece sua mais sucinta apresentação da relação intrincada entre a pulsão destrutiva, o superego e a formação do caráter e do sintoma, assim como a aplicação potencial desse conhecimento à educação, aos problemas sociais e à história.”
Justamente a postulação de uma pulsão destrutiva cria polêmicas entre o autor e alguns de seus mais próximos seguidores e colaboradores. Alguns discordam francamente e outros levantam dúvidas, mesmo estando todos a favor das análises gerais ali apresentadas. Mas Freud não voltará atrás. Numa carta a Pfister escreve:
“Se duvido do destino do homem que ascenda através da civilização até um estado de maior perfeição, se vejo em sua vida uma luta constante entre Eros e o instinto [Trieb, drive] de morte, cujo resultado parece-me indeterminável, acredito que, ao chegar a tais conclusões, não tenha sido eu influenciado por quaisquer dos meus fatores constitucionais ou por atitudes emocionais adquiridas. Não sou nem um auto-flagelador nem um fomentador malicioso de discórdias [Bosnickel]. Gostaria de dar-me a mim mesmo e aos outros algo de bom, e acharia muito mais belo e consolador se pudéssemos contar com um futuro assim cor-de-rosa. Mas isso me parece um outro exemplo de ilusão (uma satisfação de desejos) que se acha em conflito com a verdade. A questão não é saber que espécie de crença é mais confortadora ou mais cômoda ou mais vantajosa para a vida, mas sim qual delas pode aproximar-se mais intimamente da enigmática realidade que, afinal de contas, existe fora de nós. O instinto [Trieb, drive] de morte não é uma exigência do meu coração; parece-me ser tão somente um inevitável pressuposto, tanto do terreno biológico quanto do terreno lógico e psicológico. O resto segue-se dessa constatação. Desta forma, a mim meu pessimismo parece uma conclusão, enquanto que o otimismo dos meus opositores parece uma pressuposição a priori.”
O conflito instaurado desde o princípio da civilização humana encontra sua fonte não apenas na necessidade gregária para subsistência de cada componente. Eros subjaz nas suas bases uma vez que, justamente, a força erótica exige dos seres humanos a busca de objetos sexuais fora de si mesmos; o auto-erotismo não nos é suficiente. O amor erótico sublimado sustenta as relações de amizade sendo imprescindível na fundação de grupos tão importantes quanto a família. Mas, então, para enfrentar a força de destruição não seria simplesmente o caso de seguirmos a máxima “Amas a teu próximo como a ti mesmo”?
No capítulo V do ensaio, Freud nos adverte que um preceito como esse, impossível de ser seguido, é uma espécie de salvaguarda da civilização exatamente em função do oposto – este sim real e constatável cotidianamente. As tendências agressivas universalmente presente nos humanos exige de cada cultura de cada civilização esforços na direção de contê-las e dominá-las por formações reativas psíquicas. Se os humanos tendem a se destruir, a se agredir, é mister que a civilização crie dispositivos psíquicos para que os humanos se identifiquem entre si de tal forma que contrariem sua natureza. É preciso introduzir o amor sublimado, desviado em seu fim sexual, para estabelecer e fortalecer os vínculos de humanidade (“Amai ao próximo como a ti mesmo”). Mesmo assim, ainda que tais esforços sejam absolutamente necessários, eles não garantem que a agressividade e a destruição deixem de vigorar nas relações humanas.
Há ainda uma relação importante e decisiva nesse ensaio freudiano que convoca o leitor a considerar a importância da psicanálise no entendimento e na administração do mal-estar inequivocamente presente na nossa sociedade, cuja base estrutural dirige todo o mundo ocidental. Trata-se do sentimento de culpa, já citado de passagem parágrafos acima. Diferentemente do que postula a religião cristã, o sentimento de culpa não nasce com nenhum pecado original, mas, psicanaliticamente pensando, ele se origina do temor da perda do amor. Toda criança (e quantos de nós, tantas vezes?) tem medo de fazer algo que instigue o castigo do adulto a quem ela atribui, fantasiosamente, a onipotência. E esse castigo poderá ser a perda do amor. Por outro lado, ao longo da construção do psiquismo, o supereu será a instância que interiorizará os poderes da autoridade e que passará a culpar o eu desde cedo e com crueldade (tanto quanto o eu culpa a terceiros).
A intensidade do sentimento de culpa inconsciente será exercida e experimentada conforme a intensidade dos desejos inconscientes proibidos e recalcados. O cerne do mal-estar está situado nesse ponto: o sentimento de culpa é um problema psíquico criado no advento da civilização. A privação do prazer desejado tanto na esfera sexual quanto na esfera da agressividade destrutiva, a exigência de suportar a frustração nessas duas frentes, sustenta a civilização e traz junto a infelicidade pela implementação do sentimento inconsciente de culpa.
Diante dessas afirmações surge uma questão que Freud coloca e responde magistralmente. Se nem a renúncia nem o recalque, sequer a sublimação garantem que as tendências pulsionais da natureza humana se mantenham inoperantes é porque esses impulsos pulsionais sexuais e destrutivos não podem deixar de ser saciados em certa medida. Toda comunidade, toda sociedade, toda tribo, todo agrupamento humano sabe disso. Deve ser mantido um lugar para o exercício prazeroso dessas tendências. A proibição do incesto proíbe o incesto; a proibição do estupro e da pedofilia proíbe o estupro e a pedofilia; mas as relações sexuais são permitidas e estimuladas dentro das construções civilizatórias em questão.
Sobre a renúncia à satisfação dos impulsos destrutivos Freud escreve:
“Sempre se poderá vincular amorosamente entre si o maior número de homens, com a condição de que sobrem outros em quem descarregar os golpes. Em certa ocasião me ocupei do fenômeno de que as comunidades vizinhas, e ainda aparentadas, são precisamente as que mais se combatem e desdenham entre si, como, por exemplo, espanhóis e portugueses, alemães do Norte e do Sul, ingleses e escoceses etc. Denominei a este fenômeno narcisismo das pequenas diferenças (...). Podemos considerá-lo como um meio para satisfazer, cômoda e mais ou menos inofensivamente, as tendências agressivas, facilitando-se assim a coesão entre os membros da comunidade.”
Não podemos deixar de notar que a intolerância tem suas raízes precisamente no narcisismo e, mais especialmente, nesse narcisismo acima descrito. Para tolerar é preciso combater em si a tendência a rejeitar, a desdenhar, a implicar, a querer eliminar a diferença, a converter o outro em nós e atribuir-lhes nossas convicções. E a pequena diferença é aquela com a qual mais nos deparamos no nosso entorno. É com ela que temos de conviver em nós mesmos (nem sempre pensamos em linha reta ou sentimos de acordo com o que esperamos sentir...); não é diverso em casa, entre os amigos, no trabalho, nas relações sociais em geral, nas posturas políticas, éticas e estéticas e nas escolhas sexuais.
Freud entrega a seu editor um material por muitos em sua época considerado pessimista. Naqueles tempos sombrios e nestes tempos de crises constantes, de tantas demonstrações de intolerância e destrutividade, ainda hoje, O Mal-Estar... é aceito e, ao mesmo tempo, criticado por não deixar uma porta aberta de maneira confiante. Sim, o ceticismo é próximo da aceitação. Se o analista Freud precisa ser escutado até o presente tempo que nos cabe, por outro lado, seus críticos também devem ser lidos e considerados. Não se trata de resignação diante das forças da natureza humana nem de substituição do pessimismo pelo idealismo otimista e ingênuo.
Se Freud, há quase um século, mantinha a postura de dúvida diante do destino que nossa espécie forjaria para si, podemos afirmar que ainda estamos vivos e seguimos buscando saídas – sempre pontuais e temporárias, já que parece não haver outra maneira – para inventarmos alternativas mais ou menos equilibradas na direção de conter a auto-agressão e a destruição de que somos todos capazes.

* Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae; membro do Diversitas – Núcleo de Estudos sobre as Diversidades, as Intolerâncias e os Conflitos/ USP. Autora de artigos e do livro Ensaio Clínico sobre o Sentido, EDUSP/ Casa do psicólogo, 2003.


** Esta resenha foi publicada na Revista InTolerância, n.1, 2010, HYPERLINK "http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br" www.rumoatolerancia.fflch.usp.br

Freud, Sigmund, Obras Completas de Sigmund Freud , tomo III; trad. Luis Lopez-Ballesteros. Madri, Biblioteca Nueva, 3ª. Ed., 1973, pp 3017- 67.


Cf. Rodrigué, Emílio, Sigmund Freud.O século da psicanálise: 1895-1995. São Paulo: Escuta, 1995, v.3, p. 234.
Cf. Gay, Peter, Freud: uma vida para nosso tempo; tradução Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 495-6.

Fred, Sigmund, op. cit. p. 3034. (Tradução livre da autora.)


Rodrigé, Emilio, op. cit. p. 239.
Cf. a biografia de Freud escrita por seu médico e amigo.

Schur, Max. Freud: vida e agonia; trad. Marco Aurélio de Moura Matos. Rio de Janeiro, Imago, 1981,

v.3, p. 510.

Carta de 07/02/1930. Cf. Schur, Max, op. cit. p.512.


Cf. Selaibe, Mara. Enlace Libidinal eTtolerância in Percurso – Revista de Psicanálise, Ano XX: junho

de 2008, pp.33-42.



Freud, Sigmund. Op. cit. p. 3048. (Tradução livre da autora).
Cf. Selaibe, Mara, Raízes da Intolerância, no site HYPERLINK "http://www.diversita.fflch.usp.br" www.diversita.fflch.usp.br

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