Em busca do tempo perdido



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MARCEL PROUST
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO



EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

NO CAMINHO DE SWANN - COMBRAY

volume 1

Autor: MARCEL PROUST

ISBN 8571107572

Livro em português

Tradução Fernando Py

Título original: ''Du côté de chez Swann''

ANO: 1913



http://groups.google.com.br/group/digitalsource

SINOPSE:

''Em Busca Do Tempo Perdido'' não se enquadra em qualquer escola ou corrente literária, muito embora sua escrita mantenha traços de Impressionismo e haja na obra pontos de contato com o Simbolismo. São sete livros originais que compõe a obra completa. São dezenas de personagens que se cruzam em histórias de amor, ciúmes e inveja, na França da Belle Époque. A narrativa vai passando do detalhe ao painel e do painel ao detalhe sem projeções definidas, num constante reajuste de tudo aquilo que nunca será perfeitamente ajustado. A obra é um retrato da sociedade de uma época, um mergulho no universo da burguesia francesa que permite que o leitor sinta as divergências entre nobres e burgueses. Os sete volumes dividem-se em:

  • volume I - 'No Caminho de Swann', Ano 1913

  • volume II - 'À Sombra das Moças em Flor'; Ano 1918

  • volume III - 'O Caminho de Guermantes', Ano 1920

  • volume IV - 'Sodoma e Gomorra', Ano 1921

  • volume V - 'A Prisioneira'; Ano 1925

  • volume VI - 'A Fugitiva', Ano 1925

  • v
    olume VII - 'O Tempo Recuperado'. Ano 1927


SOBRE O AUTOR

Marcel Proust: Dados Bibliográficos (1871-1922)

Marcel Proust, filho do médico Dr. Adrien Proust, e de sua esposa Jeanne Weil, de origem judia, nasceu em Paris a 10 de julho de 1871. De compleição frágil, asmático desde os nove anos, a mãe o cercou de cuidados excessivos na infância. Fez seus estudos no Liceu Condorcet, entre 1882 e 1889, e depois estudou Direito e Ciências Políticas. Colaborou no jornal do liceu, La Revue Lilas (A Revista Lilás), e principiou a freqüentar os salões da Sra. Émile Straus e da Sra. Madeleine Lemaire à mesma época.

Publicou seus primeiros trabalhos literários nas revista Le banquet (O Banquete), de que foi um dos fundadores, e Littérature et critique (Literatura e Crítica), no ano de 1892.

Estreou em livro em 1896 com Les Plaisirs et les jours (Os Prazeres e os Dias). O volume foi prefaciado pelo escritor Anatole France, com ilustrações de Madeleine Lemaire e música de Reynaldo Hahn. Era uma miscelânea de crônicas, contos, poemas em verso e prosa; embora as peças já mostrassem algo do futuro escritor de Em Busca do Tempo Perdido, revelavam sobretudo a influência de Anatole France e um certo simbolismo decadentista, próprio da época.

De qualquer modo, a questão do tempo e das inversões sexuais já se tornam suas principais preocupações. Entre 1895 e 1899, Proust escreveu um longo romance, Jean Santeuil, que deixou inacabado e só foi publicado em 1952. Neste esboço de Em Busca do Tempo Perdido, já estão delineados não só aspectos de sua obra-prima como até cenas inteiras retomadas posteriormente. Mas Proust ainda não é o analista profundo que se revelará depois. Está apenas tateando o assunto e a linguagem. O descobrimento da obra do ensaísta e esteta inglês John Ruskin (1819-1900) foi fundamental: Proust traduziu a Bíblia de Amiens deste, e assumiu o gosto de Ruskin pelas catedrais góticas-cuja arquitetura basicamente simétrica lhe dará a estrutura de sua obra-prima.

Mas ainda está experimentando: entre 1905 e 1907, escreveu outro livro, mais fragmentário e igualmente inacabado, Contre Sainte-Beuve (publicado apenas em 1954). Este já é um esboço mais parecido com a futura obra-prima. A análise se aprofunda, embora muitas vezes só indicada, sem desenvolvimento. Proust já adquiriu o sentido maior de sua obra, faltando-lhe um todo coeso e que desse um tom de linguagem própria ao conjunto. Em 1907, iniciou por fim a feitura da obra máxima, Em Busca do Tempo Perdido. Deve ter trabalhado no romance de forma

bem exaustiva até 1911, quando possivelmente deu por definitivo o primeiro da série, ''No Caminho de Swann''. Nesse meio tempo publicou na imprensa uma série de pastichos e, a partir de 1909, cessou toda a vida social para se consagrar exclusivamente à sua obra-prima.

''No Caminho de Swann'' foi publicado em 1913, após ter sido recusado por quatro editoras. O êxito intelectual foi grande. Porém, a irrupção da Primeira Guerra Mundial, em 1914, interrompeu a possibilidade de novas edições. Durante a guerra, Proust remanejou a obra e lhe fez acréscimos consideráveis. Nesse ano de 1914, morre seu secretário Alfred Agostinelli, por quem Proust nutria uma paixão homossexual. A morte de Agostinelli lhe serviu de modelo para a morte da personagem Albertine em ''A Fugitiva''.

Finda a guerra, publica-se 'À Sombra das Moças em Flor' (1918). O romance obteve o Prêmio Goncourt de 1919, única áurea conseguida pelo romancista em vida. Em 1920, é publicado ''No Caminho de Guermantes-l'' e, no ano seguinte, sai ''No Caminho de Guermantes-lI'' e ''Sodoma e Gomorra-l'', em um volume. Recluso em casa, quase não deixando seu quarto forrado de cortiça para abafar os ruídos da rua, Proust enfraquece e adoece, mal tendo forças, no último ano de sua vida, para continuar a escrever e corrigir as provas de seus livros. Em abril de 1922, publica-se ''Sodoma e Gomorra-lI'', em três volumes. Proust está revendo as provas de ''A Prisioneira'' e sua saúde se complica com uma bronquite seguida de pneumonia. Marcel Proust morre às quatro e meia da manhã de 17 de novembro de 1922. Poucos dias antes, 14 de novembro, terminara-se a impressão de ''Sodoma e Gomorra-lII'' -''A Prisioneira''- ''A Fugitiva'', com o título de ''Albertina Desaparecida'', publicou-se em 1925, e ''O Tempo Recuperado'' foi dado ao público em 1927.

Fernando Py
Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos deficientes visuais a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano...

O extraordinário ciclo ficcional de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, abre com o romance No Caminho de Swann. Sendo o primeiro da série, apresenta desde o início, em suas três partes, os principais temas de todo o conjunto: a descoberta da "memória involuntária", as relações conflituosas entre os apaixonados, e principalmente a noção da passagem do Tempo que avilta e destrói todos os sentimentos, inclusive o amor. Na primeira parte, "Combray", temos a infância do Narrador, suas recordações da cidade de Combray, despertadas pelo sabor de um biscoito, a "madeleine", sua aflição noturna à espera do beijo de despedida da mãe, a descoberta dos dois lados (ou "caminhos") da cidade, lados que, para ele, além de opostos são irreconciliáveis: o caminho de Swann e o caminho de Guermantes. Na segunda parte, "Um amor de Swann", Proust analisa um amor, ou melhor, o ciúme masculino, através da história da ligação entre Charles Swann e Odette de Crécy. Na terceira parte, "Nomes de lugares: o nome", o Narrador começa a descobrir a magia que se oculta para trás dos nomes de pessoas e de cidades. Vemos os brinquedos do Narrador com Gilberte, filha de Swann e Odette, e, depois, a sua admiração pelos pais dela, sobretudo a Sra. Swann.

Em À sombra das moças em flor, o lirismo é a tônica. O Narrador, já adolescente, conhece as moças do “pequeno grupo", na estância balneária Balbec, onde passa as férias. E, apaixonado por uma delas, Albertine, integra-se ao grupo. Aqui, Proust esboça os temas subseqüentes de sua rua, casa, aromas que aparecerão nos futuros livros do ciclo.

FERNANDO PY
MARCEL PROUST

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO VOLUME 1
Primeira Parte: Combray

Segunda Parte: Um Amor de Swann

Terceira Parte: Nomes de Lugares: o Nome
PREFÁCIO

por Fernando Py

Introdução

O longo romance de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, representa na verdade a sua obra única. Tanto nos contos do livro de estréia, Os Prazeres e os Dias (1896), como na narrativa fragmentária de Contra Sainte-Beuve ou no romance Jean Santeud, estes últimos deixados incompletos e publicados muitos anos após a morte do escritor, ocorre a abordagem de alguns temas fundamentais de sua obra máxima, de tal modo que são, em certa medida, simples esboços do que viria a ser Em Busca do Tempo Perdido; neles, já estão presentes, por exemplo, a análise do ciúme masculino e das perversões sexuais, assuntos que ganharão enorme relevo e aprofundamento mais tarde. Sua obra equivale não apenas à suma de um escritor inteiramente dedicado à literatura e à escrita em toda a sua vida - a tal ponto que dele se poderia dizer que foi se deixando morrer aos poucos, à medida que passava para o papel toda a sua experiência vital-, mas igualmente a uma visão de conjunto da sociedade francesa do fim do século XIX.

Nos sete romances que compõem este monumento literário (conforme os títulos desta edição: 1-No Caminho de Swann, 2-À Sombra das Moças em Flor, 3-O Caminho de Guermantes, 4-Sodoma e Gomorra, 5-A Prisioneira, 6-A Fugitiva e 7-O Tempo Recuperado), perpassa não somente a vida exterior, episódica e histórica de personagens e da própria França, com alguns ecos de fatos ocorridos na Europa e no resto do mundo, como, principalmente, a vida interior, as sensações, as paixões, sentimentos e emoções do Narrador e demais personagens, todos envoltos numa atmosfera de análises psicológicas, minuciosas e implacáveis.

Embora escrito na primeira pessoa por um Narrador cujo nome (Marcél) só aparece em duas ocasiões, ambas em A Prisioneira não convém enxergar no romance de Proust uma autobiografia ou um livro de memórias. Isto porque, em primeiro lugar, o Marcel narrador não se confunde com o Marcel autor, sendo como os demais apenas uma personagem de ficção; e é nessa qualidade que assume a função de protagonista, em torno ao qual gira todo o universo ficcional da obra proustiana. Além disso, o conhecimento, da parte do Narrador, de fatos e locais que se ligam à vida de Proust contribui para aprimorar as relações do leitor com o Marcel narrador, tornando mais fácil para aquele assimilar a transfiguração da realidade em ficção no âmbito do romance.

A realidade do romance é fundada na realidade objetiva, topográfica, geográfica, histórica, etc., da vida de Proust. Porém, a transposição dessa realidade para o romance obedece a leis internas da narrativa e sobretudo à imaginação criadora do autor. Assim, lugares e pessoas que pertencem ao universo de Em Busca do Tempo Perdido não correspondem mecanicamente a lugares e pessoas da vida real. Para descrever Combray ou Balbec, por exemplo, Proust tomou emprestadas características próprias de cidadezinhas francesas que conhecia e visitou várias vezes. O mesmo quanto aos personagens. Por exemplo, os traços de Charles Swann derivam de duas ou mais pessoas da vida real, além de aspectos da personalidade do mesmo Proust. Vinteuil e sua obra musical contêm vestígios da vida e da obra de Debussy, Saint-Saens e outros compositores eruditos que Proust admirava. E assim por diante.

Outras vezes ocorre o contrário. Uma mesma pessoa da vida real empresta seus traços e características a duas ou mais personagens. Uma amiga de Proust, Louisa de Mornand, por exemplo, forneceu traços à composição tanto de Albertine como de Rachel. Desse modo, no romance a não ser nos casos da mãe e da avó do Narrador (que representam de modo muito próximo a mãe e a avó materna de Proust) e no de algumas personagens secundárias-, uma pessoa A não corresponde jamais apenas a um dado personagem B, mas também tem seus traços disseminados nos personagens C, D, E, etc.




Tempo e memória

Os principais temas de Em Busca do Tempo Perdido são o Tempo e a Memória. Proust era um obcecado pelas questões relativas ao tempo. Preocupava-o o passar dos anos que leva tudo de arrasto, modificando, transformando, vencendo e extinguindo todos os sentimentos, paixões, amores, idéias, opiniões e até os corpos. Com o passar do tempo, o esquecimento e a indiferença sobem das profundezas do indivíduo para destruir tudo aquilo que o ser humano julgara eterno e inamovível. Nem mesmo aquele núcleo invariável do espírito, que a filosofia clássica acreditava formar a nossa personalidade, resiste à ação do tempo. Submerso no tempo, o homem se desagrega por dentro e nada mais subsiste, no velho, daquele jovem que um dia amou, fez uma revolução, ocupou altos cargos na vida pública ou na iniciativa privada. E é em função do transcurso do tempo que as personagens de Proust apresentam aspectos diversos no decorrer da narrativa, mudando de idéias, de sentimentos, de gostos, como também mudam o seu físico, envelhecem. Ou desenvolvem nova personalidade mais criativa, mais madura. O pintor que no grupo dos Verdurin era denominado, por zombaria, "Sr. Biche", em No Caminho de Swann, revela-se mais tarde, já maduro, como o famoso pintor Elstir, de À Sombra das Moças em Flor.

Mas o tempo prossegue em sua tarefa destruidora; e como recuperá-lo? É nesse ponto que intervém a Memória, outro tema básico da obra de Proust. Não a memória comum, produto da nossa inteligência, e que a um mínimo esforço nos restitui fatos já passados. Pois esta memória, que depende da nossa vontade, é como um simples arquivo: fornece apenas fatos, datas, números e nomes. Mas não as sensações que experimentamos outrora e que não habitam a nossa consciência. Tais sensações jazem mais fundo e só são despertadas pelo que Proust denominou memória involuntária: é a que não depende do nosso esforço consciente de recordar, que está adormecida em nós e que um fato qualquer pode fazer subir à consciência.

Significativa sob este aspecto é a lembrança, pelo Narrador já adulto, da cidadezinha de Combray, onde passava as férias quando criança. Saboreando um biscoito molhado no chá, sente uma alegria inexplicável e, de súbito, recorda não só momentos similares da infância remota, como toda a Combray daquele tempo e todo o período de seu passado que o gosto do biscoito (chamado madeleine) fizera aflorar à sua consciência. Naquele instante dava-se o reencontro do Tempo e o passado se recuperava.

Como esse, muitos outros episódios, disseminados por toda a obra, atestam a importância do processo da memória involuntária para a recuperação do Tempo Perdido. Tempo que não existe mais em nós, mas continua a viver oculto num sabor, numa flor, numa árvore, num calçamento irregular ou nas torres de uma igreja, etc. A repetição de tais episódios, longe de indicar monotonia ou pobreza criadora, é fundamental para estabelecer e cimentar relações existentes entre sensações e lembranças. Acima de tudo, tais momentos de reencontro do Tempo dão ao artista o sentimento de haver conquistado a eternidade. Muitos escritores antes de Proust já haviam esboçado tais instantes em suas obras, mas foi Proust o primeiro a fazer do duplo sensação/lembrança a matéria mesma de sua obra. Portanto, no fundo, o tema central de Em Busca do Tempo Perdido não é propriamente o retrato da sociedade francesa do fim do século XIX, nem a análise mais acurada do amor e dos sentimentos a ele relacionados, e sim a luta do espírito, da atividade criadora, contra o tempo, diante da impossibilidade de se encontrar na vida real um ponto fixo de referência ao qual o nosso eu possa se prender. O tema essencial de Proust é o encontro desse ponto de referência na obra de arte.
Estrutura, técnica e estilo

Grande apaixonado por igrejas e catedrais góticas, Marcel Proust concebeu Em Busca do Tempo Perdido como uma construção catedralesca. A principal característica da igreja gótica é a constante simetria que se observa nos menores detalhes. Assim, a um altar corresponde outro altar simétrico, a um transepto outro transepto, a uma ogiva outra ogiva, a um vitral outro vitral, etc., sempre simétricos no plano geral do edifício. E, à medida que a igreja se eleva, suas partes mais opostas vão convergindo, sem abandonarem a sua simetria, até se juntarem no alto da torre.

Desse modo, Proust procurou erguer sua catedral, cuidando de redigir seu enorme romance com extremo rigor de simetria, desenvolvendo episódios e acontecimentos de forma igualmente simétrica, onde o fim remete ao começo numa construção cíclica. O romance que só ao final de O Tempo Recuperado o Narrador se julga apto a escrever é justamente o que acabou de ser escrito... Tal simetria minuciosa e obsessiva atinge inclusive os diversos títulos de livros, partes e até capítulos que compõem Em Busca do Tempo Perdido.

Assim, o que o escritor pretendeu, com tal simetria, terá sido ressaltar determinados aspectos de fatos e personagens, além de conferir maior coesão interna a todo o ciclo. Esses aspectos diversos acabam-se tornando motivos recorrentes no livro, o que, à primeira vista, é um procedimento que poderá iludir o leitor desavisado, fazendo-o crer numa repetição gratuita. Mas, como já dissemos, tais repetições terminam por alertar o leitor para algo mais profundo, e o encaixe dos episódios é tão perfeito que, pelo contrário, a sua ausência é que destoaria de conjunto. Pois a técnica de Marcel Proust subverteu tudo quanto, à época do lançamento do primeiro volume da série (No Caminho de Swann, 1913), era considerado romance. Para os que estavam acostumados com o realismo naturalista, o realismo psicológico de Proust surgiu como algo absurdamente diverso e inclassificável. (Como toda obra de gênio, Em Busca do Tempo Perdido não se enquadra em qualquer escola ou corrente literária, muito embora sua escrita mantenha traços de Impressionismo e haja na obra pontos de contato com o Simbolismo.)

Além de técnicas narrativas já conhecidas anteriormente, como a do flash back (que praticamente inicia todo o ciclo), Proust emprega uma técnica de comparações inusitadas, pontilhadas de longas frases e períodos imensos, onde se desenvolve exaustivamente toda a sua prospecção psicológica. Usando amiúde metáforas, muitas vezes ligadas à pintura e à música, estabelece intencionais relações insuspeitadas entre os mais diferentes objetos, extraindo das comparações (aliás superabundantes em toda a sua obra) um verdadeiro universo de conexões de que nunca alguém se lembrara antes. Tais comparações percorrem o variado espectro das sensações dos cinco sentidos, estabelecendo uma firme ligação entre o espírito e o corpo, o profundo e o superficial. É até bem comum, em Proust, a ocorrência de sinestesias, ou seja, as relações subjetivas que se verificam entre sentidos diferentes, como um som que evoca uma cor, ou um sabor que lembra uma imagem, etc. E a única maneira de colocar diante do leitor essas relações subjetivas será pelo emprego da imagem, da metáfora, a qual, segundo o próprio autor, toma "emprestada, de uma coisa estranha, uma imagem natural e sensível da verdade". A metáfora, portanto, ajuda o autor, e também o leitor, a evocar algo desconhecido, ou um sentimento difícil de descrever, recorrendo à sua semelhança com objetos conhecidos. E para que a imagem metafórica surta efeito é preciso que não seja gasta, que não se trate de um clichê muito batido. Em Proust, as metáforas e comparações são novas, surpreendem justo pelo inusitado. Daí advém outro encanto de Em Busca do Tempo Perdido.

Quanto ao estilo, Proust baseia sua obra num movimento de idas e vindas, de avanços e recuos alternados e simétricos a que já se deu o nome de "rosácea de Proust".

O estilo de Em Busca do Tempo Perdido é uma conquista árdua e deliberada do autor. De certa forma tem raízes autobiográficas. Sendo asmático desde criança, Proust concebeu, como dissemos, um estilo de frases e períodos longuíssimos, os quais, de certa maneira, correspondem aos impulsos de uma respiração que luta para vencer o fôlego. O período proustiano é enorme e compacto a fim de que nele caiba grande diversidade de significados e sintaxe, e cada frase deve ser lida mais de uma vez para bem penetrarmos suas múltiplas acepções. Além disso, as frases de Proust têm uma construção grandemente musical, num fluir redondo e harmonioso de vogais e consoantes, trabalho de um ourives que conhecia como poucos o material de que se utilizava: a língua francesa. Seus parágrafos gigantescos excedem o tamanho das páginas e se espraiam pelos capítulos, transportando em seu corpo o próprio pensamento que exprimem. Em suma, a frase proustiana é igualmente "atemporal", não pode ser localizada num tempo específico: ela o transcende, enquanto mecanismo criado pelo autor, não para marcar determinado tempo e sim para reconstituí-lo em todos os pormenores.

Resumo de enredo

Por todas as razões acima expostas, o enredo tem uma importância secundária na obra máxima de Proust. A história propriamente narrada de Em Busca do Tempo Perdido pode ser resumida em poucas páginas e terá interesse maior apenas para quem não possui qualquer noção da obra. Pois na verdade o que interessa não são os encadeamentos narrativos e episódicos e sim a análise psicológica, as conexões estabelecidas e, acima de tudo, aquela transcendental peleja do espírito criador, que luta para se afirmar e deixar a marca da sua genialidade, contra o tempo que tudo arrasta e destrói. Aliás, Proust surgiu na literatura quando diversos escritores (e não só franceses) já haviam observado a questão do tempo e buscavam minimizar a importância do enredo. Era um caminho a trilhar para evitar a todo custo as histórias "certinhas", com princípio, meio e fim, caminho que muito se diversificou desde então. Em todo caso, convém dar uma idéia geral do enredo de Em Busca do Tempo Perdido.



No Caminho de Swann dispõe-se em três partes: na primeira, "Combray", vemos a infância do Narrador, suas recordações de Combray despertadas pela madeleine, sua aflição noturna à esperado beijo de despedida da mãe, a descoberta que faz da existência de dois lados (ou caminhos) de Combray, a partir das duas saídas diversas de casa-o lado que segue pela casa de Swann e o lado de Guermantes, seu oposto-, para ele igualmente opostos e irreconciliáveis; e a descrição de ambos. Em "Um Amor de Swann", a análise de um amor, e sobretudo do ciúme masculino, através da história da ligação amorosa de Charles Swann e Odette de Crécy. E em "Nomes de Lugares: o Nome", o Narrador vai descobrindo tudo o que se esconde sob a magia dos nomes de pessoas e cidades. Vemos seus jogos com Gilberte, filha de Charles e Odette, nos Champs-Elysées; depois, sua admiração pelos pais dela, principalmente pela Sra. Swann. E a constatação da impossibilidade de recuperar o tempo já passado, quando regressa, adulto, certa ocasião, ao Bois de Boulogne onde tantas vezes vira a Sra. Swann a passear na sua carruagem.

''À Sombra das Moças em Flor'' divide-se em duas partes. Em "Ao Redor da Sra. Swann" mostra-se o Narrador já íntimo dos Swann, porém Gilberte não o ama. E ele, depois de muito sofrer, acaba esquecendo-a. A segunda parte, "Nomes de Lugares: o Lugar", já pelo título aponta para uma conexão com a parte final do livro anterior. Os nomes voltam a encantar o Narrador, mas são os lugares que o fascinam, notadamente o balneário de Balbec, onde passa uma temporada de verão. Ali conhece Albertine e as outras "moças em flor" do seu grupo. Prefere Albertine, porém só muito mais tarde se apaixonará por ela. Em ''O Caminho de Guermantes'', o Narrador começa a freqüentar salões aristocráticos e da alta burguesia. Ama a duquesa de Germantes mas não é correspondido. Sofre a mágoa enorme de perder sua avó materna, mas com o tempo vai se esquecendo dela devido ao fenômeno que denomina "intermitências do coração", ou seja, os períodos cada vez mais longos de esquecimento que atravessa, preocupado com desfrutar apenas o momento presente. Percebe todavia que o mundo da alta-roda é vaidoso, cruel e egoísta, e sente-se decepcionado.

Tudo aquilo em que havia acreditado e que amara se desfaz e se degrada. Em ''Sodoma e Gomorra'', o Narrador penetra no universo infernal da inversão sexual, tanto masculina (Sodoma) quanto feminina (Gomorra). Embora haja pensado em livrar-se de Albertine, passa a amar a moça e decide impedir que seja contagiada por esse mundo de depravações, mantendo-a seqüestrada em sua companhia. Em ''A Prisioneira'', vemos o amor exclusivista e egocêntrico do Narrador, que é, acima de tudo, pura morbidez. Cada vez mais ele se convence de que o amor, como qualquer sentimento, se degrada e destrói com o passar do tempo. E para tentar interromper esse fluxo corrosivo, acaba chegando à conclusão de que é absolutamente necessário abandonar Albertine justo no momento em que é avisado que a moça acabara de fugir de sua casa.

''A Fugitiva'' (título simétrico de 'A Prisioneira') narra não propriamente a fuga de Albertine e sim, primeiro, a mágoa do Narrador pelo abandono, mágoa que se transforma em luto e pesar quando sabe da morte dela pouco depois. Mas sobrevém o esquecimento progressivo e Albertine acaba sendo lembrança apenas, como a avó do Narrador.

O livro se encerra com um novo encontro do Narrador com Gilberte, já então casada com Robert de Saint-Loup, grande amigo dele.

Em ''O Tempo Recuperado'', temos um retrato da corrupção trágica de todas as coisas. As pessoas que o Narrador julgara amar voltaram a ser simplesmente nomes, como outrora; os objetivos que buscara tinham-se desfeito; a vida não passa de tempo já desaparecido. Numa recepção matinal em casa da Princesa de Guermantes, ele encontra, envelhecidas, pessoas que admirara na juventude, e ele próprio já é um senhor de meia-idade. Mediante uma série de ocorrências do duplo sensação/lembrança, somos transportados ao começo do ciclo. Por fim, o Narrador conhece a Srta. de Saint-Loup, filha de Gilberte e Robert. Nela, reúnem-se os dois caminhos (o de Swann, dos ricos burgueses) e o de Guermantes (dos aristocratas), pois Saint-Loup descende dos Guermantes. Está completa a catedral gótica de Proust. Então o Narrador percebe o que significava o apelo dos vários duplos sensação/lembrança que tivera em toda a vida. Seu papel de artista, portanto, será o de estancar o fluxo do Tempo, fixando aqueles momentos e tudo aquilo que eles contêm. A vida vivida não passa de Tempo Perdido, mas tudo se pode recuperar, transfigurar e apresentar "sob o aspecto de eternidade, que é também o da arte".

''O Tempo Recuperado'', pois de modo algum se trata de uma redescoberta. De outra parte, Du côté de chez Swann, se traduzido literalmente, daria “A respeito do lado da casa de Swann”, ou, se forçarmos um pouco, “Para os lados da casa de Swann”. Preferimos adotar o título já consagrado no Brasil, pois o termo "caminho" indica melhor em português a situação do côté francês: o que, para Proust, era um "lado" irreconciliável com outro, fica melhor como "caminho", pois indica todo um trajeto a percorrer, uma distância a vencer, uma tarefa a cumprir. O mesmo, portanto, para Le Côté de Guermantes -''O Caminho de Guermantes'' é toda a trajetória do Narrador nos salões da alta-roda.

Resta o caso de ''A Fugitiva''. Fiel à construção simétrica de sua obra, Proust batizou os dois romances seguintes a ''Sodoma e Gomorra'' de ''A Prisioneira'' e ''A Fugitiva''. Entretanto, em 1922, publicou-se na França uma tradução de poemas de Tagore intitulada precisamente ''A Fugitiva''. Diante disso, para evitar mal-entendidos, Proust desistiu do título e o romance apareceu postumamente como Albertine disparue (''Albertina Desaparecida''). Ainda hoje se discute qual título caberia melhor ao livro; e assim, atendendo ao caráter rigorosamente simétrico de Em Busca do Tempo Perdido, e considerando já não haver motivos para evitar a identidade de título com uma coletânea da qual ninguém se lembraria não fosse esse episódio, adotamos ''A Fugitiva'', que certamente Marcel Proust preferia e teria escolhido com o tempo se tivesse vivido o suficiente para ver toda a obra publicada em livro.



Conclusão: critérios desta tradução

Não é tarefa tranqüila traduzir uma obra de vulto como a de Proust. Ainda mais quando já existem outras em português. Mas não há dúvida de que é uma aventura intelectual largamente compensadora, um trabalho altamente gratificante. Desde que se adotem critérios seguros e sejam obedecidas o mais fielmente possível as peculiaridades essenciais do autor. No caso, a fluência musical da frase, a por vezes enorme extensão desta e dos parágrafos, sem dividi-los em blocos retalhados, o movimento ondulatório dos períodos, etc. E mais, tratando-se de uma edição brasileira, construir frases e períodos à nossa maneira, sem lusitanismos nem regionalismo de qualquer espécie.

Devemos, todavia, esclarecer o leitor quanto aos critérios adotados para traduzir os títulos dos romances do ciclo, sobretudo devido ao caráter de simetria que oferecem.

Em dois casos, a transposição é literal e não sofre problemas: Sodome et Gomorrhe é 'Sodoma e Gomorra', e La Prisonniere é 'A Prisioneira'. Em À L'ombre des jeunes-filles en fleurs preferimos verter jeunes-filles para moças, vocábulo de uso corrente no Brasil. Em Le temps retrouvé, julgamos mais acertado o título 'A Sombra das Moças em Flor'.





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