Em nome de Deus



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entretanto cerca de 80 mil judeus partiram para Portugal e 50 mil fugiram para o novo Império Otomano, onde tiveram calo- rosa acolhida.(1) O terceiro fato refere-se a uma das figuras presentes á ocupação cristã de Granada. Em agosto Cristóvão Colombo, protegido de Fernando e Isabel, zarpou da Espanha com o objetivo de encontrar uma nova rota comercial para a índia e descobriu a América.



Esses acontecimentos refletem a glória e a desolação dos primeiros tempos do período moderno. Como a viagem de Colombo demonstrou, os europeus estavam prestes a ingressar num mundo novo. Estavam ampliando seus horizontes e aventurando-se cm territórios até então desconhecidos do ponto de vista geográfico. Intelectual, social, econômico e político. Com suas conquistas dominariam o planeta. No entanto a modernidade tinha um lado mais sombrio. A Espanha cristã era um dos reinos mais poderosos e avançados da Europa. Fernando e Isabel estavam criando um dos Estados centralizados modernos que surgiam também cm outras partes da cristandade. Tal reino não toleraria as velhas instituições autônomas, como a guilda, a corporação, a comunidade judaica, que caracterizaram o período medieval. Á unificação da Espanha, concluída com a conquista de Granada, seguiu-se uma limpeza étnica quê desalojou judeus e muçulmanos. A modernidade foi, para algumas, fortalecedoras, libertadoras, fascinantes. Para outros significou - e continuaria significando - coerção, invasão, destruição. A situação se manteria com a difusão da modernidade ocidental a outros pontos do globo. O programa de modernizado era progressista e acaba- ria por promover valores humanos, mas também era agressivo. No século XX algumas das pessoas que vivenciaram a modernidade basicamente como um ataque se tornaria fundamentalistas.

Mas isso ainda era um futuro muito distante. No final do século XV os europeus não poderiam prever a enormidade da mudança que haviam iniciado. No decorrer dos trezentos anos seguintes a Europa não só transformaria sua sociedade em termos políticos e econômicos, como reataria uma revolução intelectual. O racionalismo científico se imporia e pouco a pouco eliminaria hábitos mais antigos de pensar e sentir. No capítulo 3 veremos mais detalhadamente esse período, denominado Grande Transformação Ocidental. Antes de examinarmos suas implicações, precisamos nos deter na visão de mundo dos pré-modernos. Nas universidades espanholas, estudantes e professores discutiam acaloradamente as novas idéias do Renascimento italiano. A viagem de Colombo teria sido impossível

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sem descobertas científicas como a bússola magnética ou as observações mais recentes da astronomia. Em 1492 o racionalismo científico ocidental estava alcançando notável eficiência. Explorava-se como nunca o potencial do que os gregos chamavam de lagos, sempre cm busca de novidades. Graças á ciência moderna, os europeus descobriram um mundo totalmente novo e estavam adquirindo um controle inaudito sobre o meio ambiente. Não haviam, contudo, descartado o mythos. Colombo entendia de ciência, mas ainda se sentia á vontade no velho universo mitológico. Parece que pertencia a uma família de judeus conversos e continuava interessada na Cabala, a tradução mística do judaísmo, porém era cristão fervoroso e queria conquistar o mundo para Cristo. Esperava estabelecer na índia uma base cristã para a conquista militar de Jerusalém.(2) Os europeus tinham começado sua viagem rumo á modernidade, mas ainda não eram plenamente modernos cm nossa acepção. Os mitos do cristianismo ainda davam um sentido a suas investigações racionais e científicas.



Não obstante o cristianismo estava mudando. Os espanhóis liderariam a Contra-Reforma inaugurada pelo Concilio de Trento (1545-63), um movimento modernizador que adequaria o velho catolicismo á eficiência da nova Europa. A Igreja, assim como o Estado moderno, tornou-se mais centralizada. 0 concílio reforçou o poder do papa e dos bispos; pela primeira vez publicou-se um catecismo para todos os fiéis, a fim de assegurar a conformidade doutrinal. 0 clero deve- ria receber maior instrução para pregar com maior eficácia. Racionalizaram-se a liturgia e as práticas religiosas dos leigos, e aboliram-se rituais que, coerentes um século antes, não funcionavam na nova era. Muitos católicos espanhóis se inspiravam nos escritos de Erasmo de Roterdã (1466-1536), o humanista holandês que queria revitalizar o cristianismo retornando ao fundamental e tinha como lema a o "adfontes", "rumo ás fontes". Erasmo acreditava que a verdadeira fé cristã da Igreja primitiva fora soterrada pela teologia medieval. Removendo esses acréscimos e voltando ás fontes - a Bíblia e os textos dos Padres da Igreja -, os cristãos recuperariam a essência viva dos Evangelhos e renasceriam.

A principal contribuição dos espanhóis para a Contra-Reforma foi mística. Os místicos ibéricos exploravam o mundo espiritual, mais ou menos como os grandes navegantes descobriam novas regiões do mundo físico. O misticismo pertencia ao domínio do mythos; atuava no âmbito do inconsciente, inacessível á faculdade racional e experimentável através de outras técnicas. Entretanto os reformadores místicos da Espanha queriam tornar essa forma de espiritualidade menos caótica

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e excêntrica, menos dependente dos caprichos de conselheiros inadequados. João da Cruz (1552-91) baniu as devoções mais dúbias e supersticiosas e tornou o processo místico mais sistemático. Os místicos da nova eram decerto sabiam - o que os esperava cm sua passagem de um estágio a outro; tinham de aprender a lidar com as armadilhas e os perigos da vida interior e administrar de maneira produtiva suas energias espirituais.

Mais moderna, indício do que estava por vir, foi a Companhia de Jesus, que, fundada pelo ex-soldado Inácio de Loyola (1491-1555), encarnava a eficiência que viria a ser a marca registrada do Ocidente moderno. Lináceo estava decidido a explorar o poder do mythos na prática. Seus jesuítas não perderiam tempo com as longas disciplinas contemplativas de João da Cruz. Seus Exercícios espirituais proponham um retiro sistemático de trinta dias que proporcionava a cada jesuíta um curso intensivo de misticismo. Assim que se convertesse plenamente a Cristo, o cristão devia ter suas prioridades definidas e estar pronto para entrar em ação. Essa ênfase em método, disciplina e organização assemelhavam-se á da nova ciência. Deus era uma forja dinâmica que impelia os jesuítas ao mundo inteiro, mais ou menos como fazia com os exploradores. Francisco Xavier (1506-52) evangelizou o Japão; Roberto di Nobili (1577-1656), a índia; e Matteo Ricci (1552-1610), a China. A religião ainda não fora deixada de lado na Espanha moderna. Podia reformar-se e explorar os achados da modernidade incipiente para ampliar seu alcance e sua visão.

A Espanha estava, pois, na vanguarda da modernidade. Entretanto Fernando e Isabel tinham de conter toda essa energia. Empenhavam-se em consolidar a união de reinos até então independentes. Em 1483 instituíram a Inquisição espanhola para impor a conformidade ideológica cm seus domínios. Estavam criando um Estado moderno absoluto, mas ainda não podiam permitir que seus súditos tivessem plena liberdade intelectual. Os inquisidores cagavam dissidentes e os obrigavam a abjurar sua "heresia", palavra que cm grego significa "escolha". Os monarcas utilizavam a Inquisição espanhola -uma instituição modernizadora, e não uma tentativa arcaica de preservar um mundo do passado -para forjar a unidade nacional.(3) Sabia muito bem que a religião podia ser uma forja explosiva e revolucionária. Em países como a Inglaterra seus colegas protestantes também foram implacáveis com os "dissidentes" católicos, tidos igualmente como inimigos do Estado. Veremos que esse tipo de coerção muitas vezes fazia parte do processo de modernização. Na Espanha as principais vítimas da Inquisição foram os judeus,

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cuja reação a essa modernidade agressiva examinaremos neste capítulo. Sua experiência ilustra muita das reações á modernização em outros pontos do planeta.



A Reconquista dos antigos territórios muçulmanos de al-Andalus constituiu uma catástrofe para os judeus da Ibéria. No Estado islâmico as três religiões - judaísmo, cristianismo e islamismo - conviveram cm relativa harmonia por mais de seiscentos anos. Os judeus em particular viveram na Espanha uma renascença cultural e espiritual e não sofreram os pogroms que atormentavam seu povo no restante da Europa.(4) Contudo, á medida que avançava pela península, conquistando mais e mais territórios ao Islã, o exército dos Reis Católicos levava junto seu anti-semitismo. Em 1378 e 1391 os cristãos atacaram as comunidades judaicas de Aragão e Castela, arrastaram seus moradores até a pia batismal e, ameaçando matá-los, obrigaram-nos a converter-se ao cristianismo. Em Aragão os sermões do dominicano Vincent Ferrer (1350-1419) freqüentemente inspiravam desordens anti-semitas; e o frade ainda organizava debates públicos entre rabinos e cristãos com o objetivo de desacreditar o judaísmo. Alguns judeus tentaram evitar a perseguição abrasando voluntariamente o cristianismo. Oficialmente denominados conversos, eram chamados pelos cristãos de marranos (“porcos"), designação ofensiva que alguns deles assumiram com orgulho. Os rabinos condenavam a conversão, mas a principio os cristãos - novos conquistaram fortuna e sucesso. Alguns galgaram altas posições no clero; outros se casaram com membros de ótimas famílias; e muitos enriqueceram no comércio. Com isso criaram novos problemas, pois os cristãos - velhos se revoltavam com sua mobilidade ascendente. Entre 1449 e 1474 investiram muitas vezes contra os marranos, matando-os, destruindo suas propriedades ou expulsando-os da cidade.(5)

Tal situação alarmava Fernando e Isabel. Ao invés de manter seu reino unido, a conversão dos judeus estava provocando outras divisões. Também preocupavam os soberanos as notícias de que alguns cristãos - novos retornavam à antiga crença e a professavam secretamente. Dizia-se que compunham um movimento clandestino empenhado cm reconduzir outros conversos ao rebanho judaico. Os inquisidores receberam ordens de prender esses judeus, que, acreditava-se, seriam identificados por abster-se de comer carnes de porco ou de trabalhar aos sábados. Os suspeitos sofriam torturas até confessar sua infidelidade e denunciar outros "judaizantes" clandestinos. Assim a Inquisição matou cerca de treze mil conversos nos doze primeiros anos de sua existência. Na verdade muitos dos que foram mortos ou presos ou tiveram suas propriedades confiscadas eram católicos fervorosos,

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sem nenhuma tendência judaizante. Diante disso muitos conversos se tornaram cínicos e cépticos cm relação a sua nova fé.(6)

Quando conquistaram Granada, cm 1492, Fernando e Isabel herdaram a enorme população judaica da cidade. Considerando a situação incontrolável, assinaram o Edito da Expulsão para resolver de uma vez por todas o problema dos judeus na Espanha. Cerca de 70 mil se converteram ao cristianismo e permaneceram no país para padecer nas mãos da lnquisição; os outros 130 mil, como vimos, partiram para o exílio. Os judeus do mundo inteiro choraram o desaparecimento da população judaica espanhola como a maior catástrofe que se abatera sobre eles desde a destruição do Templo de Jerusalém, cm 70 d.C., quando perderam sua terra e foram obrigados a exilar-se em comunidades dispersas, fora da Palestina, conhecidas coletivamente como Diáspora. A partir de então o exílio se tornou um tema constante e doloroso cm sua vida. A expulsão da Espanha cm 1492 ocorreu no final de um século cm que os judeus foram rechaçados de vários locais da Europa: de Viena e Linz cm 1421; de Colônia cm 1424; de Augsburg cm 1439; da Baviera cm 1442; da Morávia cm 1454; de Perugia cm 1485; de Vicenza cm 1486; de Parma cm 1488; de Milão e Lucca cm 1489; da Toscana cm 1494. Pouco a pouco eles se dirigiram para o leste criando na Polônia o que acreditavam ser um lugar seguro.' 0 exílio parecia agora uma parte endêmica e inevitável de sua condição.

Certamente era o que pensavam os judeus espanhóis que, apos a expulsão, refugiaram-se nas províncias otomanas do norte da África e dos Bálcãs. Estavam habituados com a sociedade muçulmana, mas sofriam profundamente com a perda da Espanha - ou Sefarad, como diziam. Para esses sefardins tudo - inclusive eles mesmos - estava fora de lugar.(8) O exílio é um deslocamento físico e espiritual. Seu mundo é inteiramente desconhecido e, portanto, não tem significado. Umas extirpações violentas, que nos priva de todos os nossos esteios normais, despedaçam nosso mundo, arranca-nos de lugares repletos de lembranças cruciais para nossa identidade e nos joga para sempre num ambiente estranho, pode nos dar a sensação de que toda a nossa existência corre perigo. Quando ao exílio se acrescenta a crueldade humana, surgem perguntas sobre o problema do mal num mundo supostamente criado por um Deus justo e bondoso.

A experiência dos sefardins constituiu uma forma extrema de extirparão e deslocamento que outros povos sofreriam mais tarde, cm virtude de um agressivo processo de modernização. Veremos que, ao deitar raízes cm outro meio, a moderna civilização ocidental transformou a cultura de modo tão drástico que muita

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gente se sentiu alienada e desorientada. O Velho Mundo desaparecerá, e o novo era tão estranho que ambientes familiares se tornavam irreconhecíveis e a vida perdia o sentido. Muitos indivíduos, como os sefardins, pensaram que sua própria existência estava ameaçada. Temiam a extinção. Confusos e aflitos faziam o que alguns dos exilados espanhóis fizeram: recorriam á religião. Porém, como sua vida mudara tanto, tinham de inventar novas formas de fé para que suas velhas tradições se adequassem a suas circunstancias radicalmente modificadas.

Esse processo seria lento. No começo do século XVI os judeus exilados constataram que o judaísmo tradicional não os ajudava cm nada. Achavam que, diante desse desastre sem precedentes, as velhas devoções não funcionavam. Alguns se voltaram para o messianismo. Durante séculos os judeus esperaram um Messias, um rei ungido da casa de Davi, que poria fim a seu longo exílio e os reconduziria á Terra Prometida. Certas tradições judaicas falavam de um período de tribulações imediatamente anterior ao advento do Messias, e para alguns dos sefardins refugiados nos Bálcãs o sofrimento e a perseguido que se abateram sobre eles e sobre muitos de seus correligionários na Europa só podia significar uma coisa: a época de provações predita pelos profetas e sábios e denominada "dores do parto do Messias", porque dessa angústia resultaria uma vida nova.(9) Outras pessoas que viram seu mundo destruído pela modernidade também passaram a acalentar tais esperanças. Mas o messianismo é problemático, porque até hoje todos os movimentos messiânicos que esperavam um Redentor iminente se frustraram. Os sefardins encontraram uma solução mais satisfatória: criaram um novo mythos.

Um grupo de sefardins partira dos Bálcãs para a Palestina e se estabeleceu cm Safed, na Galiléia. Rezava a tradição local que, por ocasião de sua vinda, o Messias se revelaria na Galiléia, e os exilados espanhóis queriam ser os primeiros a saudá-lo.(10) Alguns o identificaram como o ashkenazi Isaac Luria (1 534-72), homem santo e doente que se instalara cm Safed e foi o primeiro a enunciar o novo mito, inaugurando uma forma de Cabala que ainda leva seu nome. Hoje diríamos que Luria criou esse mito; que estava tão sintonizado com os desejos e medos inconscientes de seu povo que conseguiu elaborar uma imaginosa ficção capaz de levar conforto e esperança não só aos exilados de Safed, como aos judeus do mundo inteiro. Mas diríamos isso porque pensamos basicamente cm termos racionais e achamos difícil assumir a visão de mundo pré-moderna e mítica. Para seus discípulos Luria não “inventou" seu mito da criação; o mito é que se apresentou a ele. Essa historia da criação parece bizarra a quem não está envolvido com os rituais e as práticas da

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Cabala luriânica. F, não tem nenhuma semelhança com a história da criação narrada no Livro do Gênesis. Contudo era perfeitamente coerente para os cabalista de Safed - imersos nos ritos e exercícios de meditação prescritos por Luria e ainda, uma geração depois, abalados com o exílio. Revelava ou "desvelava" uma verdade que já se evidenciara, mas que se relacionava tão intensamente com a situação dos judeus no início da era moderna, que adquiriu autoridade imediata. Lançava luz sobre seu mundo sombrio e tornava a vida não sé tolerável como prazerosa.

Ao deparar-se com o mito luriânico da criação, um individuo moderno perguntará: "Isso acontecem realmente?". Considerando que os fatos parecem improváveis e não podem mesmo ser comprovado, descartaremos o mito como demonstravelmente falso. Assim procederemos porque sé aceita uma versão racional da verdade e perdermos a noção de que pode existir outra versão. Temos, por exemplo, uma visão científica da história, que para nós consiste numa sucessão de fatos únicos. Já o mundo pré-moderno via os fatos históricos não como acontecimentos singulares, e sim como exemplos de leis eternas, revelações de uma realidade intemporal e constante. Um acontecimento histórico podia repetir-se várias vezes, porque tudo que tinha lugar na terra expressava as leis fundamentais da existência. Na Bíblia, por exemplo, um rio se abre miraculosamente em pelo menos duas ocasiões para que os israelitas realizem um rito de passagem; os Filhos de Israel com freqüência "descem" ao Egito e voltam á Terra Prometida. Um dos temas bíblicos mais recorrentes é o do exílio, que, depois da catástrofe espanhola, parecia permear toda a existência dos judeus e refletir um desequilíbrio na própria razão de ser. A Cabala luriânica abordou esse problema ao debruçar-se sobre as origens - como toda mitologia - a fim de examinar o exílio, que parecia uma dessas leis fundamentais, e de revelar plenamente seu significado.

No mito de Luria o processo da criação se inicia com um ato de exílio voluntário. Começa por perguntar como o mundo poderia existir se Deus é onipresente. A resposta está na doutrina do Zimzum ("retirada"): a divindade infinita e inacessível, que os cabalista chamam de Ein Sof ("Sem Fim"), teve de se encolher, liberando, por assim dizer, uma região dentro de si mesma para dar lugar ao mundo. Portanto a criação teve início com um ato de crueldade divina: cm seu piedoso desejo de se revelar a suas criaturas, Ein Sof impôs o exílio a uma parte de si mesmo. Ao contrario da criação ordenada e pacífica descrita no primeiro capítulo do Gênesis, esse foi um processo violento de explosões primordiais, desastres e fracassos que aos olhos dos sefardins exilados parecia mais compatível com o mundo

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em que viviam. Num primeiro estágio do processo luriânico Ein Sof tentou preencher o vazio resultante do Zimzum com luz divina, mas os "recipientes" ou “canos" que deviam conduzi-la não resistiram á pressão e se despedaçaram. Centelhas da luz divina se precipitaram no abismo de tudo que não era Deus. Depois desse "despedaçamento dos recipientes" algumas voltaram para o Ser Supremo, mas outras permaneceram retidas no reino sem Deus, onde prevalecia o mau potencial que Ein Sof retirara de si mesmo no ato do Zimzum. Depois desse desastre a criação se desvirtuou; todas as coisas saíram do devido lugar. Adão poderia sanar o mal - nesse caso o exílio divino terminaria no primeiro Shabat. Mas Adão pecou, e, assim, as centelhas divinas ficaram presas cm objetos materiais, e a Shekhinah - a Presença, que é o mais perto que chegamos de uma apreensão da divindade na Terra - vaga pelo mundo cm perpétuo exílio, ansiando por se reunir ao Ser Supremo.(11)

É uma história fantástica, mas, se perguntássemos aos cabalista de Safed se acreditavam que isso realmente ocorreu, eles achariam a pergunta descabida. 0 fato primordial narrado no mito não é simplesmente algo que acontecem no passado remoto; é também algo que acontece o tempo todo. Não temos um conceito ou uma palavra para esse fato, porque nossa sociedade racional vê o tempo de um prisma estritamente. Cronológico. Se perguntássemos aos devotos de Elêusis, na antiga Grécia, se podiam provar que Perséfone fora aprisionada por Hades no mundo dos mortos e que sua mãe, Deméter, vagara pela terra chorando a perda da filha, a pergunta provavelmente os deixaria perplexos. Por que tinham tanta certeza de que Perséfone voltara á terra, como diz o mito? Porque o ritmo fundamental da vida, revelado por esse mythos, era real. Havia a colheita, a semeadura na época certa e o crescimento da planta.(12) O mythos e o fenômeno da colheita indicavam algo fundamental e universal acerca do mundo, mais ou menos como as palavras "barco" cm português e "bateau" em francês indicam uma realidade extrínseca e independente delas. Os sefardins provavelmente dariam uma resposta semelhante. O exílio era uma lei fundamental da existência. Por toda parte os judeus eram estrangeiros. Até os gentios sofriam perdas e decepções e não se sentiam muito á vontade no mundo - conforme atestam os mitos universais sobre os primeiros seres humanos sendo expulsos de um paraíso primordial. A complexa historia da criação de Luria revelava e esclarecia isso de um modo totalmente novo. O exílio da Shekhinah e a própria vida dos judeus como criaturas deslocadas constituíam a

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mesma e única realidade. O Zimzum mostrava que o exílio estava inscrito na própria razão de ser.



Luria não era escritor, e cm sua época pouca gente conhecia suas idéias.(13) Entretanto seus discípulos registraram seus ensinamentos para a posteridade e outros os difundiram pela Europa. Em 1650 a Cabala luriânica já se transformara num movimento de massa, no único sistema teológico amplamente aceito pelos judeus contemporâneos.(14) Conseguiu tal proeza não por ser passível de demonstração racional ou científica, o que evidentemente não era. Contradizia o Gênesis cm quase todos os detalhes. Mas uma leitura literal da Bíblia é, como veremos, uma preocupação moderna, resultante do predomínio do racional sobre a consciência mítica. Antes do período moderno, judeus, cristãos e muçulmanos gostavam de interpretações alegóricas, simbólicas e.esotéricas de seus textos sagrados. Por ser infinita, a Palavra de Deus encerra uma infinidade de significados. Assim, ao contrário de muitos religiosos modernos, os judeus não se afligiam com a divergência entre Luria e o sentido elementar da Bíblia. Eles acatavam o mito luriânico porque, explicava e dava sentida a sua vida. Fazia com que se vissem não como um povo marginalizado, expulso do mundo moderno em formação, mas sintonizados, em sua experiência, com as leis fundamentais da existência. Até Deus sofrera o exílio; tudo que existe na criação foi deslocado desde a origem; centelhas divinas ficaram aprisionadas na Matéria, e a divindade teve de lutar com o mal - um fato onipresente da vida. Os judeus não eram refugos ou párias, mas protagonistas do processo da redenção. Observando zelosamente os mandamentos da Tora, a Lei de Moisés e os ritos especiais criados cm Safed, podiam acabar com esse exílio universal. Podiam ajudar a efetuar a "restauração" (tikkun) da Shekhinah à Divindade, do povo hebreu á Terra Prometida e do resto do mundo á ordem correta.(15)

Esse mito ainda é importante para eles. Depois da tragédia do Holocausto, alguns só conseguem conceber Deus como a divindade sofredora e impotente do Zimzum, sem controle sobre a criação.(16) As imagens das centelhas divinas presas na matéria e da missão restauradora da tikkun ainda inspiram movimentos modernos e fundamentalistas. Como todo mito verdadeiro, a Cabala luriânica constituiu uma revelação, mostrando aos judeus a natureza e o significado de sua vida. 0 mito continha; sua própria verdade e, num nível profundo, era evidente por si mesmo. Não comportava nem requeria demonstração racional. Hoje clamaríamos o mito luriânico de símbolo ou metáfora, mas isso também equivale a racionalizá-lo. Em grego a palavra "símbolo" significa juntar duas coisas de modo a torná-las inseparáveis.

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Tão logo os ocidentais passaram a dizer que um rito ou um ícone era "apenas símbolo", surgiu à consciência moderna, que insiste em tais separações.



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