Enfermidades somáticas, dor e consequências psíquicas



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PSICANÁLISE E PODER

O Poder do Biológico: o que pode a Psicanálise?” 1


Adalberto A. Goulart2, Aracaju

Resumo: O autor inicia o texto lembrando que Freud sempre sustentou a tese de que a Psicanálise estaria contida no ramo das ciências naturais e que, embora preocupado com a relação entre corpo e psique, tenha privilegiado os aspectos psicológicos do psicossoma. Assim foi também com os principais autores que o sucederam. Nas últimas décadas, pressionados pela predominância de patologias mais primitivas, a dimensão somática tem despertado a atenção de autores mais contemporâneos (Bion, Winnicott, McDougall, Green). Com uma vinheta clinica o autor procura exemplificar a memória corporal (Fontes, 2002) surgida na transferência / contratransferência. O texto é desenvolvido salientando a importância de que os analistas possam compreender o psicossoma como uma unidade integrada que não pode ser dissociada, sob pena de grandes prejuízos para o sistema homem. Diante do poder do biológico, do tempo que o deteriora, apoiado pelas hipóteses de Ferrari, o autor questiona o que poderia a psicanálise em relação a graves doenças e pacientes terminais. Concluindo, reforça que o analista precisa ter uma atitude de respeito diante do inconsciente, mas também de humildade diante da natureza e do tempo. Assim, ainda que seja em situações extremas, quando espaço e tempo se condensam, a psicanálise poderia ser útil no sentido de ajudar estes pacientes a sonharem o que ainda não foi sonhado.

Unitermos: biologia, tempo, memória corporal, psicossoma, doentes terminais, transferência, contratransferência.

O valor da transitoriedade é o valor da escassez do tempo.



Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela”.

(Sigmund Freud, “Sobre a Transitoriedade”, 1915)

Como sabemos, desde o “Projeto para uma Psicologia Científica (1895)” e em todo o seu percurso, até o “Esboço de Psicanálise (1938)”, Freud sempre buscou um embasamento biológico para a sua teoria do aparelho psíquico e até o fim da vida sustentou a sua tese de que a Psicanálise estaria contida no ramo das ciências naturais. Conceituando a pulsão na fronteira entre o somático e o psíquico, pressionando no sentido da descarga e da satisfação, esta imprimiria um registro/representação que estaria nas bases da constituição do aparelho mental. Uma pressão constante, advinda de uma necessidade, que conduz a mente a trabalhar para fazer cessar ou diminuir a excitação através de uma ação sobre o mundo externo. Como também é sabido, Freud, em seus estudos, embora constantemente preocupado com a relação entre corpo e psique, privilegia os aspectos psicológicos do psicossoma. E assim foi com a grande maioria dos pesquisadores que se seguiram a ele.



No entanto, nas últimas décadas, o desenvolvimento do conhecimento teórico e sobretudo da experiência clínica, em psicanálise, tem despertado a atenção para a dimensão somática de nossos analisandos. McDougall (1983), assim como outros importantes autores, questiona se toda a doença não encerraria um aspecto psicogênico. A partir do desenvolvimento dos meus estudos teóricos, do acompanhamento da experiência de outros colegas e particularmente através de observações de minha própria clínica, ao longo de quase vinte anos, tenho chegado à mesma conclusão que, para mim, já não é tão somente um questionamento. Estados de angústia e situações depressivas acarretam também uma depressão no sistema imunológico; estados ansiosos predispõem a acidentes, bem como exposições a riscos de vida em pacientes mobilizados por culpa, ainda que inconsciente; grandes frustrações desencadeando neoplasias e tantas outras associações. A mesma autora nos traz como exemplo nove pacientes por ela acompanhados, em situações clínicas diversas que, num dado momento de suas vidas desenvolveram tuberculose pulmonar, e que tinham em comum o momento em que a doença se manifestou, sempre associado a uma perda objetal importante, “como se o corpo vivesse uma depressão arcaica”, diz ela.

Outro exemplo: recebo um paciente em análise há alguns anos, a quem chamarei de “F”. Este senhor procurou-me, após longa peregrinação por diversas especialidades médicas, por sofrer com terríveis dores fibromiálgicas generalizadas e uma sensação mais ou menos constante de que algo de muito ruim está para acontecer-lhe. É percebido por mim como portador de um transtorno narcísico de personalidade, com traços obsessivos. Tem um discurso linear, cuidadoso, demonstrando grande dificuldade em compreender a linguagem dos afetos e desenvolver o pensamento para além de um modelo ruminativo. Vez por outra questiona os benefícios da análise, ficando bastante perturbado especialmente quando lê algum artigo em jornais ou revistas que elogiam tratamentos farmacológicos e depreciam psicoterapias, em especial a psicanálise. Não percebe emoção em si mesmo e não tem nenhuma capacidade empática. Um de seus maiores temores é o de manter relação sexual com penetração com uma noiva, pela qual não sabe o que sente. O paciente corta as unhas dos dedos das mãos arrancando pedaços e usando como lâmina as unhas de outros dedos e tem por hábito realizar este ritual em algumas sessões, com os braços estendidos para trás do divã, quase a me tocar. Depois de um certo tempo comecei a me flagrar irritado com o barulhinho das unhas atritando e com os pedacinhos de unha caindo entre o divã e a minha poltrona. Tenho fantasias de interferir com este processo irritante – será que este senhor de terno e gravata não teria hora melhor para isso? Obviamente contenho-me e passo a me indagar sobre que espécie de comunicação seria essa. Em sessões mais recentes ele começa a me falar de sua relação com o pai (falecido quando o paciente era adolescente) e do comportamento constantemente irritado deste, muitas vezes violento, de maneira que, quando criança, o paciente vivia uma expectativa permanente de uma agressão vinda do pai. Excessivamente severo e rigoroso, não havia conduta ou postura do filho que fosse compreendida pelo pai como correta e qualquer deslize poderia resultar numa explosão de raiva. Passo a compreender melhor o Sr. F e suas lembranças atuadas na transferência, como também minhas reações contratransferenciais – o menino de terno e gravata buscava reviver na situação analítica suas dores de infância. Em uma de suas últimas sessões, iniciada um tanto monotonamente como tantas outras, após o ritual das unhas, associa suas dores fibromiálgicas (já bastante esporádicas) às freqüentes “surras de cinturão com o lado da fivela” que recebia do pai, muitas vezes sem saber sequer o motivo. Penso nas terríveis dores do Sr. F. como parte de uma memória corporal que começa a ganhar representação através da análise da transferência, baseada na associação de sensações, dentro da experiência analítica (Fontes, 2002). Também Green (1988) nos lembra que, como alternativa à evacuação “os pensamentos (no início pictogramas) poderão ser destruídos criando um ferimento na mente que produzirá uma hemorragia da representação, um estado de vazio, um buraco negro na mente atraindo e destruindo os pensamentos e o aparelho para pensar estará danificado”.

Da mesma forma como se questiona se haveria alguma doença que não contivesse um aspecto psicogênico também se questiona se haveria alguma dor que não fosse psíquica. Ponte entre o soma e a psique, fronteira que não se pode precisar, como expressão física ou psíquica, é a dor o que mobiliza o paciente a procurar ajuda. A medicalização, base da cultura atual que privilegia o não pensar (e se possível o não sentir – dor, especialmente), a busca por soluções concretas, mágicas e instantâneas, faz com que, via de regra, o psicanalista seja dos últimos, senão o último, a ser procurado na escala dos que oferecem ajuda. Ora, o psicanalista é aquele que se dispõe a oferecer ajuda para que o paciente possa sentir e sofrer as suas dores, elaborar as suas perdas e os seus lutos, e assim desenvolver a sua capacidade de pensar e se responsabilizar pelo que sente, pensa e faz, em conexão com as demandas de seu corpo biológico, integrado na cultura em que vive, em harmonia com seu tempo. Neste sentido, parece mesmo que estamos na contramão da cultura contemporânea.

A percepção do tempo que passa, trazendo consigo o envelhecimento, as dores do viver, sejam elas de origem física ou psíquica, não importa, afrontam o homem do século XXI e sua narcísica fantasia de imortalidade, intolerância com as diferenças que fazem a subjetividade e desconsideração pelos seus limites.

O desenvolvimento da tecnologia firmando diagnósticos mais precisos e de um arsenal terapêutico mais eficiente, com destaque para as drogas que atuam no alívio da dor, aliado às melhorias de saneamento e prevenção têm, indubitavelmente prolongado e melhorado a qualidade de vida dos seres humanos. Todavia, o conhecimento médico atual privilegia a razão, se debruçando sobre o corpo maquínico e expurgando os afetos. Desta forma, a medicina se soma ao imaginário social com a possibilidade de se corrigir a falha do corpo, caracterizada pela doença e pela morte, acenando com a ilusão da saúde perfeita e da longevidade. Assim, a medicina ocidental atual termina por reforçar a ambição narcísica de eternidade. Paradoxalmente os inúmeros trabalhos de pesquisa na área, comprovam o que diz a nossa observação, de que a formação médica ainda é centrada na busca ávida pela vitória sobre a doença e sobre a morte. Pesquisas apontam que a procura pela formação médica tem em suas bases mais profundas a negação da dependência, a busca pela onipotência, a defesa contra a doença, o sofrimento e a morte, colocando o futuro médico em contato direto com o que mais teme. Seu ideal de poder, revelador de sua fragilidade faz com que o médico construa um verdadeiro arsenal de defesas para tentar fugir de sua condição humana limitada. Tal situação tem exposto estes profissionais a situações dramáticas de impotência diante dos limites da vida e de duros golpes em sua estrutura narcísica, que enxerga a morte e a finitude como um fracasso pessoal, contribuindo sobremaneira para os altos índices de alcoolismo, drogadição, somatizações e suicídio na classe médica, especialmente naqueles que lidam no dia-a-dia mais diretamente com pacientes terminais (oncologistas, anestesiologistas, intensivistas, psiquiatras). O papel de aliviar o sofrimento, de cuidar dos enfermos, e mesmo o de ajudar um paciente terminal a encerrar o seu ciclo de vida em condições mínimas de dignidade, parece ter se perdido de vista, ou ser percebido como algo de menor valor, visto que decretaria a derrota da arrogância curativa. E se a cultura atual reserva lugar de destaque apenas aos vencedores e vitoriosos, o médico que perdeu para a morte se defronta com perigosos sentimentos depressivos. Observa-se que um dos maiores problemas do profissional médico é entrar em contato com suas próprias emoções.

Voltando a McDougall, de cujas idéias compartilhamos, esta autora nos diz que a própria ausência de sofrimento, tão idealizada e buscada, pode ser enganosa. “Para alguns indivíduos, qualquer representação de sofrimento afetivo, ou do próprio sofrimento físico, é negada e a seguir recalcada, ou mesmo recusada e destruída. A dor passa a inexistir. Essa ausência conduzirá o sujeito a disfunções psíquicas e somáticas importantes, cuja existência é ignorada, na medida em que não existe uma via de acesso para os representantes psíquicos em questão. Dentro desta óptica, podemos até defender a tese de que o homem só conhece a dor psíquica”. Fato é que uma dor psíquica poderá desencadear uma dor somática tanto quanto uma dor física poderá desencadear a dor psíquica, levando em consideração o funcionamento do psicossoma como um todo. No entanto, existem situações envolvendo mecanismos de clivagem, projeção e expulsão para fora da psique, em que o sujeito humano é capaz de destruir todo o vestígio de representação do fenômeno perceptivo da sensação dolorosa, o que desarticulará a unidade psicossomática, com terríveis prejuízos para o sistema, já que a função biológica da dor consiste em fornecer informações importantes à psique. Rompido o elo, o corpo ficaria à deriva e em lugar de uma reestruturação do psiquismo, saído de seu eclipse, tenderá a buscar arranjos biológicos.

Hofer (1995), citado por Andrade (2003), em suas pesquisas neurobiológicas demonstra que pessoas adultas, ao se sentirem excluídas ou rejeitadas, manifestam sentimentos de desvalia ao mesmo tempo em que neurônios do córtex cingulado anterior são ativados, sugerindo que a dor afetiva percebida pode não ser apenas simbólica, uma vez que esta região apresenta o mesmo tipo de reação em presença de dor causada por lesão física.

Pally (2000), também se referindo a recentes estudos neurocientíficos, nos traz que estes apontam no sentido de que a função da emoção é coordenar mente e corpo, organizando a percepção, o pensamento, a memória, a fisiologia, o comportamento e ainda as interações sociais.

Montagna (1996) nos chama a atenção para o risco de algumas escolas psicanalíticas tomarem a mente como desencarnada e psiquiatras tratarem de corpos biológicos não humanizados por uma mente.

É necessário que o corpo esteja onde a mente está, nos diz Ferrari (1996). O homem, por vezes, se esquece que possui um corpo e isto se explica, no mundo ocidental, pelo fato do corpo impor um limite que desafia a onipotência: o corpo morre.

O período histórico em que vivemos, chamado por alguns de pós-modernidade é uma herança direta da revolução industrial e do advento ou incremento do capitalismo, em que o capital surge como a principal força de produção. Assim o vivo, em princípio tudo pode, enquanto o morto, definitivamente, não pode nada, já que teve sua vida produtiva interrompida (Torres, 1983). Nos nossos dias, vivo e produtivo está associado ao vigor da juventude, especialmente a que não sente, não pensa, não questiona e especialmente não adoece, aos vencedores, ainda que isto implique a desconsideração pelo outro. Desenvolve-se o império do narcisismo como força produtiva. A atenção e o interesse para com os idosos e suas experiências acumuladas, passa a ser tão desprezível quanto dar ouvidos ao que sente, pensa, questiona, considera. Por associação concreta com a morte próxima, prevista pela história já vivida, ou simbólica, dada por aquele que sente, pensa, questiona e faz parar a engrenagem para ouvir e se relacionar (seja consigo ou com o outro), visto como tendente ao fracasso ou a derrota. Nesta cultura, em que o homem não pode aceitar a sua própria finitude, a negação dos limites e da morte termina, muitas vezes, por abreviar o seu fim.

Conta-se que certa vez Schopenhauer teria dito que morrer é um absurdo. A morte surge como desilusão para a compreensão cartesiana, iluminista, antropocêntrica de mundo. A busca da eterna juventude e conseqüente imortalidade, ou negação dos limites da finitude, aparece como uma contribuição de importância para as angústias da sociedade contemporânea, quando a fuga da realidade (interna e externa) aparece como meta.

Freud dizia que não se passava um só dia sem que pensasse na própria morte. Alguns atribuem a um traço depressivo de sua personalidade. Poderíamos interpretar também como um exercício de humildade, consciência e responsabilidade. Se não podemos modificar o nosso destino, podemos modificar a maneira como nos relacionamos com ele. E isto significa muito diante da nossa breve existência. Vomero (2005) nos conta que em certas ordens religiosas católicas, os monges, ao se encontrarem nos corredores do mosteiro, costumam dizer uns aos outros: Memento mom, uma expressão latina que significa “lembre-se que vai morrer”, um contraponto ao carpe diem (aproveite o dia), como um exercício constante de desapego e aceitação dos próprios limites e da própria morte.

Também as crenças, e rituais ligados à morte surgem como aliados para o alívio da angústia, suavizando o corte, a cesura, a interrupção, com uma fantasia de continuidade. O homem de Neanderthal já enterrava seus mortos. Existem registros de rituais de morte que datam de 30.000 anos, nas cavernas de Lascaux e Chauvert, na França.

Bonasia (1994), nos faz uma intrigante afirmação: de que os analistas médicos são médicos em fuga do corpo, ou em fuga da morte, eu diria. A literatura psicanalítica que trata de questões relacionadas ao corpo, ao corpo que sofre e às conseqüências psíquicas de tal sofrimento, bem como às relacionadas com a morte e o morrer, é ainda hoje relativamente escassa. Menos escassa é aquela que trata dos chamados fenômenos psicossomáticos, como um transbordamento da psique para o corpo, na contramão do curso natural da evolução, em que a mente surge como um aparelho que anota e registra as demandas que vêm do corpo físico e assim se funda.

Em 1915, portanto em meio à I Grande Guerra, Freud escreve “Considerações da Atualidade sobre a Guerra e a Morte”, em dois capítulos: “Nossa decepção diante da Guerra” e “Nossa atitude diante da morte”. Aqui devemos nos focar com maior atenção ao segundo texto. Neste, Freud nos diz que a atitude com que o homem civilizado tem observado a morte não é sincera. Prossegue: “Deveríamos estar dispostos a sustentar que a morte é o desenlace natural de toda vida, que cada um de nós é devedor de uma morte à Natureza e deveríamos estar preparados para pagar tal dívida, a morte é coisa natural, indiscutível e inevitável. Porém, na realidade, nos conduzimos como se fosse de outro modo. Mostramos uma patente inclinação a prescindirmos da morte, a eliminá-la da vida. Suportar a vida é, e será sempre, o dever primeiro de todos os viventes. Recordamos a antiga sentença ‘Si vis pacem, para bellum’ (Se queres conservar a paz, prepara-te para a guerra). Seria atual modificá-lo assim: ‘Si vis vitam, para morten’ (Se queres suportar a vida, prepara-te para a morte)”.

Bion, entre os autores mais modernos, retoma de forma enfática o interesse pelos matizes corpóreos da subjetividade, centrando sua pesquisa na origem das emoções e do pensamento e desvinculando a relação corpo-mente da atitude cartesiana que a sustentava. A concepção integrada corpo-mente tem se mostrado de enorme importância para o estudo e a compreensão clínica das graves patologias que têm freqüentado os nossos consultórios de maneira cada vez mais assídua nos últimos anos: distúrbios alimentares, pânico, autismo, borderlines, psicoses. Da mesma forma, a integração corpo-mente, em seus vértices harmônicos e desarmônicos se mostra essencial para o trabalho com pacientes fisicamente enfermos e sobretudo para aqueles cujas mentes presenciam, muitas vezes negando, o que contribui para uma maior desarmonia do sistema, a decadência do corpo biológico e a aproximação da morte: os chamados pacientes terminais.

Por outro lado, mas reiterando a mesma tendência, resultado da necessidade que pressiona a evolução, o diálogo entre a psicanálise e as neurociências, já citado acima, tem reaproximado os analistas em relação à biologia, ao corpo físico, como Freud queria e jamais deixou de acreditar.

Partindo do conhecimento trazido por Freud, e especialmente do desenvolvimento dado por Bion e Winnicott, amparado pelos estudos neurocientícos (também sociológicos e antropológicos) Ferrari desenvolve uma teoria (ele prefere chamar de hipótese) que lança uma nova e vigorosa luz para a compreensão de graves transtornos psíquicos, como os já citados, mas também para a compreensão e auxílio psicanalítico a pacientes com importantes enfermidades somáticas, doentes terminais e as repercussões psíquicas de tais experiências, sobretudo no sentido de resgatar a harmonia do sistema psicossoma e proporcionar alguma qualidade de vida para aqueles que já estão próximos de concluir o seu ciclo vital. Um trabalho de solidariedade e respeito pelo sofrimento humano. Mais do que isso, um trabalho de respeito pelo ser humano que sofre.

Para Ferrari, o primeiro objeto a se apresentar ao bebê não é a mãe, ou o seio da mãe, como sugere Klein. Para ele devemos pensar a criança como um “ente que se percebe em termos de corporeidade e, ao mesmo tempo, como simbolicidade. Portanto não é mais o seio que se oferece á boca da criança mas, ao inverso, a condição é radicalmente diferente: é a criança que se oferece, através de sua fisicidade, a si mesma” (Ferrari, 1995). Depois virá a mãe, ou o seio da mãe.

É deste objeto que nasceriam as primeiras representações, um aparelho mental que percebe e anota as sensações provenientes de um corpo físico próprio – Objeto Originário Concreto (O.O.C.), independente de qualquer introjeção. Diz Ferrari: “Sob o brotar das percepções sensoriais marasmáticas e violentas, perigosas para um funcionamento físico harmonioso (ver, por exemplo, a coordenação entre o sistema nervoso-endócrino vascular) e na presença da mente materna na sua importantíssima função de rêverie, o aparato mental inicia a sua função que é, ao mesmo tempo, de registro e contenção”. A partir de então e com o desenvolvimento, “a sombra do mental começa a projetar-se sobre o O.O.C.”. Assim se inicia, não o desaparecimento, mas o eclipse do corpo. Eclipse, porque poderá ressurgir a qualquer momento, exigindo que a mente se ocupe dele prioritariamente, como nas dores e doenças somáticas. O ser humano passa a ser visto como um sistema integrado e complexo, o sistema homem, onde a sintomatologia física, a disposição afetiva, o modo de sentir e tratar o próprio corpo e o pensamento estão vinculados de maneira particular. E particular para cada indivíduo, já que “cada corpo específico produz uma mente específica, e poder encontrá-la será a grande tarefa da relação analítica” (Favilli, 2003).

O corpo físico se constitui então em fonte de vida e ao mesmo tempo de morte. O predomínio de uma das duas traçaria a nossa história e o nosso destino, para a saúde ou para a doença. Com a consciência de um início e de um final inexorável, teria lugar o viver responsavelmente o tempo que os separa, um tempo que não se mede, já que a consciência admite um fim mas não um quando. Assim sendo, o tempo que separa os dois extremos é o tempo do hoje ou o tempo deste momento, o que corrobora a tese de Bion, do “sem memória e sem desejo”, sem prender-se ao passado, sem que a expectativa do futuro obstaculize a experiência do presente, o único tempo que de fato se tem. Ferrari propõe fracionarmos o tempo em unidades cada vez menores para torná-lo visível plenamente em cada instante. Tal concepção ganha o estatuto de técnica quando se lida com pacientes terminais em que não se pode contar com um amanhã, mas sim com “ainda não é amanhã”. Desta forma será possível morrer apenas no momento da morte: o resto é vida que merece atenção e cuidados, dignidade e respeito, verdade como o alimento que harmoniza o sistema.

Ter a consciência da morte próxima ativa percepções sensoriais (estados marasmáticos), cabendo à mente a difícil tarefa de servir de continente para a corporeidade, anotando, registrando e possibilitando o pensar sobre a experiência de vida, seja em qual tempo for, independentemente do quanto de vida ainda existe. O risco que se impõe é a criação de um estado de desarmonia corpo-mente, quando o psiquismo rejeita ou nega a imposição do limite da morte. Tal desarmonia no sistema aumenta a dor e o sofrimento, a solidão, o desamparo, contribuindo para o agravamento da enfermidade somática, abreviando o tempo de vida que resta e a história pode terminar antes que chegue ao seu final.

No trabalho psicanalítico com pacientes terminais, a consciência real e concreta da proximidade inevitável da morte, da doença que impõe um limite ao tempo de vida, produz uma invasão psíquica sem precedentes (Ferrari 2004).

Este autor nos fala da importância premente de resgatarmos o respeito e a dignidade daquele que vive num corpo que morre, questionando com vigor a manutenção de estados vegetativos por máquinas de UTIs, que, se reforçam a negação da presença da morte em médicos e familiares, por outro lado prolonga, fria e egoisticamente, a agonia de um estágio tão delicado quanto o do nascimento, ferindo a dignidade e o respeito daquele que se esforça por completar os seus dias. A obstinação de parentes e médicos que não se rendem, disfarça em amor as razões mais variadas possíveis para manter a presença aparente daquele cuja vida chega ao final. Morrer pode ser um “aspecto extremo de amor e respeito pela própria vida”, (idem).

A morte não deve ser considerada como parte da vida, a vida termina com a morte. O doente terminal enfrenta estados caóticos e marasmáticos, a partir da percepção sensorial do corpo físico que se deteriora, evidenciando sua estrutura psíquica de base, e encontram uma mente, quase sempre, despreparada para enfrentá-los. Tais estados não podem ser definidos como patológicos, mas como uma tentativa de restabelecer o equilíbrio corpo-mente.

No trabalho com pacientes terminais o tempo, escasso, deixa de ser relativo, é tornado absoluto. Deverá ser fragmentado a ponto de que cada momento contenha em si todo o tempo de vida. As coordenadas espaço/tempo se condensam em um plano único. A capacidade do indivíduo se adaptar a essa nova realidade produzida é diretamente proporcional à possibilidade de harmonia em seu sistema corpo-mente.

Um diálogo pessoal interno deverá ser ativado e a proposta seria de ajudar o paciente a aprender a viver a vida que lhe resta. O processo de morrer pode se tornar menos doloroso se houver harmonia no sistema indivíduo. Nos estados em que a vida está em perigo, é a mente quem se dissocia do corpo, por intolerância aos próprios limites, uma reação à dor de uma importante ferida narcísica, resultando em um estado mental de onipotência e onisciência que tende a agravar o quadro patológico e o sofrimento.

O psiquismo se sente impotente diante da concretude da doença que decompõe o corpo, num processo irreversível. Corpo e mente se observam e o pensamento pode surgir como um amortecedor e um integrador do sistema momentaneamente dissociado.

A experiência analítica com estes pacientes poderá durar algumas semanas ou alguns meses. Como analistas deveremos acompanhá-los até o limite que o desejo do próprio paciente impõe. O trabalho analítico precisa ser cuidadoso, no sentido de evitar conluios que poderiam distanciar o analisando dos pensamentos de morte e assim reforçar operações de cisão e negação. Isto colocaria o paciente como mero expectador de si mesmo, aumentando a sua solidão, desamparo, desespero.

A fuga para o passado, anterior à doença, ou para o futuro, para evitar a dor e a angústia, eliminaria a possibilidade de viver a única experiência que pode ser vivida: o tempo presente. Corpo, mente e tempo precisam estar sempre ativos, presentes e integrados, a eliminação de qualquer um destes três elementos colocaria o paciente num desesperado estado de sofrimento solitário e desnecessário.

Introduzindo o paciente em seu microtempo, tornando possível restabelecer alguma harmonia entre corpo e mente, pode-se chegar a uma espécie de adormecimento da doença, permitindo que a vida possa transcorrer em condições suportáveis, aceitáveis, decentes, por um período de tempo maior, desafiando prognósticos. Se, ao contrário, a doença for vivenciada como invasiva, traiçoeira, infiltradora, o tempo poderá encurtar-se e a morte se estabelecer ainda mais rapidamente.

A nossa jovem ciência psicanalítica, com pouco mais de cem anos, tem, inquestionavelmente, um longo caminho ainda a percorrer. O trabalho com pacientes que sofrem com enfermidades somáticas e o trabalho com pacientes terminais é apenas mais um campo em que a ajuda psicanalítica pode ser útil, como mostrado aqui. Concordamos com Bion, quando nos diz que, às vezes o que um paciente mais precisa é de uma vigorosa injeção de verdade, mesmo que isso lhe pareça desagradável. Não deverá ser diferente com os pacientes que vivem os seus últimos dias. A verdade não apenas enriquece, mas liberta a alma. Nosso ofício como psicanalistas deverá estar sempre amparado por uma atitude de respeito pelo inconsciente, mas também, e especialmente, pela humildade diante do poder da natureza e do tempo. Assim, considerando o espaço/tempo como algo condensado e único, a experiência que inquestionavelmente se tem, algo poderá ser oferecido. Ainda que seja uma ajuda para sonhar o que ainda não foi sonhado. E isto pode significar muito.



El poder del biológico: lo que puede el psicoanálisis?
Resumen: El autor inicia el texto recordando que Freud sostuvo siempre la tesis que el psicoanálisis era una fracción de las ciencias naturales y que, aunque preocupado com la relación entre el cuerpo e la mente, haberia privilegiado los aspectos psicológicos del psicossoma. Así fue también con los principales autores que vinieron después. En las ultimas décadas, presionados por la predomináncia de las patologias más primitivas, la dimensión somatica despertó la atención de estudiosos contemporáneos (Bion, Winnicott, MacDougall, Green). Con un fragmento clinico, el autor procura ejemplificar la memoria corporal (Fontes, 2002), surgida en el transferencia y contratransferencia. El texto es desarrollado intentando resaltar la importancia de que los psicoanalistas comprendan el psicossoma como una unidad integrada que no puede ser apartada; tal ruptura conduciria a grandes daños para el sistema hombre. Delante del poder del biológico y del tiempo que lo deteriora, apoyado por las hipóteses de Ferrari, el autor cuestiona cual función teneria el psicoanálisis en relación con las graves enfermidades e con los pacientes terminales. Para concluir, reforza que el analista necesita tener una actitud de respecto frente al inconsciente, pero también humildad frente a la naturaleza e al tiempo. Así, aunque en situaciones extremas, cuando espacio y tiempo se condensan, el psicoanálisis puede ser util en el sentido de ayudar estes pacientes a soñar lo que aún no fue soñado.

Palabras llaves: biologia, tiempo, memoria corporal, psicossoma, enfermos terminales, transferencia, contratransferencia.
The biological power: what can the psychoanalysis?
Summary: The Author begins the text remembering that Freud always sustained the thesis that psychoanalysis was a fraction of the natural sciences and however preoccuped with the relation between body and mind, privileged the psychologic aspects of the psychossoma. So was also with the principal authors that came after. At the last decades, strained by the primitives pathologies most predominance, the somatic dimension has awaked the attention of contemporanies authors (Bion, Winnicott, McDougall, Green). With a clinic fragment this work try to exemplify the body memory (Fontes, 2002) emerged in transference / countertransference phenomenon. The text is developped seeking accentuate the importance that psychoanalysts understand that the unity psychossomatic can not to be divorced, what will result in big damage to the human sistem. In front of the biologic power and the time that destroy it, sustained by the Ferrari’s hypothesis, the author make a question: what could the psychoanalysis do graves sickness and terminal patients? He concludes reinforcing that the analyst needs respect before the unconscius, but too humbleness before the nature and the time. In such case, though extremes situations, when space and time are condensed, the psychoanalysis can be useful to help the patients to dream that not dreamed yet.

Key words: biology, time, body memory, psychossoma, terminal patients, transference, countertransference.

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Adalberto A. Goulart

Av. Anísio Azevedo, 675/304

49020-240 – Aracaju/SE

Telefax: (79) 3246-3070



adalbertogoulart@uol.com.br


1 Trabalho a ser apresentado no XX Congresso Brasileiro de Psicanálise, Brasília, novembro de 2005.

2 Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife e do Núcleo Psicanalítico de Aracaju, Diretor de Publicações da Associação Brasileira de Psicanálise.





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