Ensaio de uma paixão eterna Georgia Bockoven



Baixar 0.83 Mb.
Página1/9
Encontro20.12.2017
Tamanho0.83 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9


Ensaio de uma Paixão Eterna

(The long road home)

Georgia Bockoven

Como sustentar um amor quando toda a vida se baseava numa mentira?

O suave desnudar da natureza,iluminada por fins de tarde tingidos de escarlate, anunciava o outono. Craig contemplava a paisagem, pálido reflexo de sua própria transformação. Quem era ele, afinal? Como poderia, de um dia para outro, esquecer o nome e a família para assumir outra identidade? E havia Jennifer... O sentimento de culpa assaltou-o. Ela não merecia ser usada apenas para resolver uma perigosa brincadeira do destino. No entanto, precisava deixar a culpa de lado dessa vez.

Em casa, Jennifer experimentava uma felicidade que há muito lhe havia sido negada. Estava amando! Faltava pouco para o anoitecer e então deixaria Craig entrar em sua vida, transformando-a irrevogavelmente.



Digitalização: Tinna

Revisão: Márcia Goto

Título original: The long road home

Copyright © by Georgia Bockoven

Publicado originalmente em 1986 pela

Harlequin Books, Toronto, Canadá

Tradução: Fernando Simão Vugman

Copyright para a língua portuguesa: 1987

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3.° andar

CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil

Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Gráfica Ltda e impressa na Artes Gráficas Guaru S.A.

Capítulo I

Chocado, Craig Templeton deixou o recorte de jornal amarelado cair-lhe dos dedos. O pedaço de papel flutuou no ar e foi pousar no tampo da escrivaninha, iluminado pelos raios de sol matutino. A brisa de verão invadiu o cômodo pela janela e soprou-o para junto da pequena pilha de outros recortes que ali jaziam.

Passado o primeiro impacto, ele focalizou uma vez mais a manchete: "Nota de Pedido de Resgate Não Fornece Pistas no Caso Mitchell". Apesar do desejo desesperado de negar a inesperada revelação, era-lhe impossível ignorar aquelas palavras. Devagar, seus dedos longos levantaram o papel diante dos olhos. Obrigou-se a ler. Consumiu, numa ânsia febril, cada palavra, cada linha daqueles recortes amarelados. Mal respirava. Mas foi com a última folha que sentiu o coração apertar-se dentro do peito. A agonia da descoberta impedindo-o de soltar o ar dos pulmões. Com os olhos vidrados ficou admirando a fotografia impressa de uma criança de menos de um ano, de cabelos pretos caindo em cachos sedosos em torno de um rostinho onde se destacavam grandes olhos atentos. E ele sabia, tão certo como o dia segue a noite, que aquele bebê do recorte era ele.

Tudo o que ele era, tudo em que acreditava, estava baseado numa mentira. O laço de sangue que o ligava àquela terra não existia. Ele não representava a última geração dos Templeton, mas o homem a quem costumava chamar de "pai". Sempre haviam-lhe dito que herdara seu amor por ,Oklahoma, um sentimento que tinha sido cultivado ao longo de cinco gerações de homens lutando para domar aquele chão.

Droga! Como era possível sentir tais laços se ele não fosse um legítimo Templeton? Aqueles recortes, aqueles jornais escritos há quase vinte e cinco anos. . . estavam errados. Tinham que estar!

Buscando um detalhe, uma evidência qualquer que lhe permitisse duvidar dos fatos a sua frente, Craig releu o artigo que acompanhava a fotografia da criança.

"Lexington, Kentucky: investigadores federais estão avaliando uma dúzia de possibilidades de solucionar o rapto da criança dos Mitchell. Quando pedida uma opinião sobre as chances de encontrar o bebê vivo após duas semanas sem notícias dos raptores, Felix Dempster, chefe de investigação encarregado do caso, disse que não temos nenhuma razão para crer que a criança não esteja mais viva, portanto vamos continuar investigando a partir desse pressuposto'.

Perguntado sobre a possibilidade de os raptores pertencerem ao mercado negro de venda de bebês, Dempster discordou:Vendedores de crianças seqüestradas agem sobre outra faixa sócio-econômica. Quando lembrado que a criança tinha sido levada da casa de um parente, numa região mais pobre de Lexington, Dempster não fez nenhum comentário.

Mais cedo, de manhã, foi anunciado que os pais do menino raptado iriam se isolar e que não haveria mais nenhuma entrevista coletiva em sua casa, na Fazenda Mitchell, a menos que algum fato novo surgisse. Agnes Mitchell, a mãe da vítima, está sob os cuidados do médico da família, desde seu colapso, ocorrido ontem, durante o apelo fortemente emocional que ela fez aos raptores em cadeia nacional de rádio."

Craig desviou sua atenção para uma outra foto, acima do bebê. Retratava um grupo de pessoas de expressões tristes e cansadas. Mesmo através da imprecisão da fotografia do jornal amarelecido, ele podia distinguir alguns traços naqueles rostos que se assemelhavam aos seus. Esse tipo de identificação tinha sido impossível com o homem e a mulher que sempre o haviam chamado do filho.

Com brusquidão, saiu de perto da escrivaninha e foi até a janela. Afastou a cortina e deixou-se ficar, distraído com o tom dourado que tingia o horizonte naquele começo de manhã. As imagens do pai e da mãe formaram-se tão vivas em sua mente como se estivessem ali. Como poderia acusá-los de algo tão medonho como o rapto de uma criança, quando eles já nem estavam mais vivos?

Perguntas atormentavam-no. Por que teriam ficado com ele? Que instinto perverso levara sua "mãe" a guardar aqueles recortes? Devia saber que um dia acabaria por descobri-los. Teria sido essa a sua intenção desde o princípio? Tantas perguntas... e nenhuma resposta.

Correu a vista pela imensa propriedade: milhares de acres de terra, boa para a criação de gado, e poços para a extração de gás natural. Nunca, até aquela manhã, havia lhe passado pela cabeça que dali se pudesse tirar mais do que o bastante para uma vida confortável, embora sem luxo. Mas não foi preciso um exame muito apurado das listas de títulos e do rebanho, junto com o advogado, para que se desse conta de que possuía uma razoável fortuna. Por que então haviam sempre vivido como se o dinheiro fosse algo raro e precioso?

A mão de Craig se fechou com força, amarrotando a delicada cortina entre os dedos. Que bem faria reviver o passado, agora? Mesmo que encontrasse respostas, nada mudaria. Por mais óbvia que fosse a herança recebida de seus pais biológicos, como a altura, as feições do rosto e a constituição física, de seus pais adotivos trazia as marcas mais profundas, tudo aquilo que o tinha transformado no que era hoje.

Voltou para a escrivaninha. Com cuidado, tornou a dobrar os frágeis papéis no seu vinco original, guardando-os no envelope que tinha no fundo do cofre do rancho. O pequeno volume lhe pareceu pesado nas mãos. Quando, depois de ter devolvido o envelope ao fundo do cofre, girou a combinação, seus dedos tremeram. A imagem de um homem e uma mulher de rostos abatidos na fotografia cinzenta de um jornal perpassou-lhe a mente. Craig praguejou baixinho. Ao que parecia, os fantasmas de seu passado não poderiam ser esquecidos com tanta facilidade ...

Capítulo II

Com um começo sutil, de dias mais curtos e frescos, mas avançando de forma resoluta, o outono foi se fazendo anunciar no interior do Kentucky, berço da música country. Nos fins de tarde o céu se tingia de ouro e escarlate. O ritmo frenético da temporada das corridas, das vendas de irrequietos potros de um ano e das festas promovidas por todo e qualquer motivo imaginável ia aos poucos cedendo lugar à calmaria do inverno que se aproximava. Criadores ainda lançavam olhares ansiosos para suas éguas premiadas recém-cobertas, na esperança de que seus ventres carregassem futuros filhotes milionários.

Enquanto a maioria das pessoas acolhia com satisfação a entrada mansa do outono, Jennifer Langley se colocava arredia. Isso porque depois do desnudar da natureza viriam os dias frios do inverno. E, com o inverno, as dolorosas lembranças de férias e neve, alegria e desespero.

Sozinha nos escritórios da Fazenda Mitchell, enquanto Lynn, sua secretária, resolvia alguns assuntos na cidade, Jennifer se sentiu oprimida pelo silêncio. Nessa época de pouca atividade teria tempo demais para pensar. Com os cotovelos apoiados sobre a escrivaninha, pôs-se a massagear as têmporas, interrompendo p movimento justo onde um discreto sinal indicava que o osso fraturado se consolidara.

Quando saiu do hospital pela primeira vez logo descobriu que as cicatrizes em seu corpo, quando tocadas, traziam as más lembranças de volta. O cuidado de não se olhar diretamente no espelho foi algo que veio mais tarde, após a última cirurgia plástica. Mesmo passados dois anos, ainda sentia um choque ao ver refletida uma imagem diferente da que esperava. Não que as diferenças fossem tão gritantes, a curvatura das sobrancelhas, um nariz mais estreito... Os médicos haviam realizado um verdadeiro milagre, considerando-se a gravidade dos ferimentos. Tinham até, diziam as pessoas, deixado-a mais bonita. Sim, talvez isso fosse verdade, mas... aquele não era o seu rosto. E incomodava-a essa sensação de desconforto dentro do próprio corpo.

A tarefa de cuidar dos livros de contabilidade da fazenda foi aceita como uma bênção. No último ano vinha gastando horas por dia para colocar em ordem todos os livros e registros de negócios. Um trabalho difícil e complexo, capaz de manter sua mente ocupada por muito tempo. O seu escritório separava-se do vestíbulo e da sala de Lynn por uma sólida porta cinza, com uma placa onde se lia: "Privado". Com isso, mantinha-se isolada do fluxo de pessoas que vinham visitar a fazenda ao longo de todo o verão. Em seu escritório, apenas os familiares, velhos amigos e pessoas que viviam e trabalhavam na fazenda tinham o privilégio de entrar. Jennifer achava melhor assim. Estranhos, cedo ou tarde, não importa suai intenção, acabavam fazendo perguntas, levantando assuntos que ela só queria esquecer.

Depois de instalar-se numa das casas para empregados da Fazenda Mitchell, passou a levar uma vida de eremita. Mesmo as idas a Lexington haviam cessado, quando os médicos lhe disseram que não havia mais nada que pudessem fazer quanto às suas dores de cabeça, a menos que se submetesse a uma nova cirurgia. E essa experiência de modo algum desejava reviver. Agora, aos vinte e três anos, Jennifer contava o passar do tempo como um prisioneiro trancafiado para sempre: hoje, amanhã, o dia seguinte... cada dia como nada mais do que um período de vinte e quatro horas que devia atravessar com resignada indiferença.

Um automóvel se aproximava. O ruído seco de folhas estalando sob pneus chamou-lhe a atenção. Ergueu a cabeça e consultou o relógio de parede, no lado oposto do escritório. Onze e meia... muito cedo para o mensageiro do contador ou para a encomenda que Lynn estava aguardando. Num gesto automático, abriu a gaveta esquerda da escrivaninha e retirou um vidro grande de aspirinas. Exibia apenas metade de seu conteúdo. Com movimentos que sugeriam um ritual há muito repetido, tirou três comprimidos com uma das mãos, e com a outra alcançou uma xícara de café morno que jazia ao lado de um sanduíche meio comido. Fez uma careta de desgosto ao engolir a desagradável combinação.

A careta foi substituída por uma expressão confusa, quando ouviu o carro estacionar junto à janela. O motor silenciou. Uma porta abriu-se com um rangido metálico e em seguida se fechou com um baque surdo. Ouviu-se o ruído de botas no cimento da calçada. Pelo som pesado e compassado, só podia se tratar de um homem. Jennifer tentou visualizar o visitante contornando a casa. Imaginou-o chegando ao vestíbulo, onde ficava a mesa de Lynn... deu-lhe tempo para ler o aviso de que o escritório estava fechado até as três da tarde... podia vê-lo dando um suspiro conformado e voltando...

Surpreendeu-se ao ouvir o pequeno sino que indicava a entrada de alguém. Lynn devia ter se esquecido de trancar a porta, ou talvez julgasse aquilo desnecessário naquela época do ano. Resignada, abandonou a escrivaninha e foi atender à porta. Tinha acertado, era um homem. Estava de costas para ela, observando a estante de troféus. Usava jeans, camisa de flanela xadrez e botas de couro. Parecia à vontade num traje que em muitos daria a impressão de rudeza.

— Posso ajudá-lo? — Levou um susto quando ele se virou, atraído por sua voz. Conhecia-o. . . ainda que tivesse a certeza de jamais tê-lo visto antes. Havia algo de familiar nele... nos cabelos pretos e rebeldes, no rosto anguloso e o queixo quadrado, nos olhos profundamente negros...

— Estou aqui para a excursão — disse numa voz grave e profunda.

— Excursão? — ela ecoou, ainda presa à sensação de já conhecê-lo.

— Uma visita pela fazenda. Foi-me dito que estivesse aqui a uma da tarde — explicou. Consultou o relógio. — Estou um pouco adiantado.

Graças ao movimento ainda intenso na fazenda, os grandes portões da entrada principal se mantinham abertos o dia inteiro.

— Receio que haja um engano. A Fazenda Mitchell não promove visitas, exceto em casos especiais. E, mesmo assim, só no verão.

Com um "quê" de teimosia, ele enfiou as mãos nos bolsos da calça.

— Eu sei. No entanto, quando expliquei à senhorita Colson que o único propósito da minha vinda a Lexington se resumia a visitar a Fazenda Mitchell... eu tenho algumas éguas que gostaria que fossem cobertas por garanhões de primeira linha no ano que vem. Bem, quando eu expliquei isso, ela disse que poderia fugir um pouco às regras.

— Este é seu primeiro contato com a fazenda? — Dependendo da resposta ela saberia até que ponto era séria sua intenção de usar os reprodutores Mitchell. No procedimento usual as combinações se faziam com bastante antecedência, permitindo ao responsável pelo programa de reprodução providenciar o exame de cada animal.

— Eu sei que devia ter escrito para marcar um encontro antes de vir, mas estava a caminho de casa, puxando três das éguas que gostaria que fossem cobertas... e achei que valia a pena tentar uma visita. — Encarou-a na expectativa de ver se sua desculpa havia passado, ou se precisaria enfeitar ainda mais a história.

Jennifer, por sua vez, estudava-o. Não era difícil imaginar Lynn sucumbindo ao charme daquela voz grave ao telefone, mas duvidava que a secretária cometesse um erro tão crasso quanto ao horário da entrevista.

— Tem certeza de que veio no dia certo? — perguntou. E, sem esperar pela resposta, foi consultar a agenda de Lynn. Ali estava, escrito em vermelho, uma reserva das treze às quatorze e trinta para Craig Templeton. — Você é Craig Templeton?

— Eu mesmo.

Bem, não adiantava nada se preocupar com o horário da entrevista; discutiria isso com Lynn mais tarde. Prática, correu o dedo pela lista de pessoas que normalmente guiavam os visitantes pela fazenda. Com o fim do verão, a maioria tinha sido deslocada para outros setores. E ela não estava disposta a chamar um acompanhante apenas para alguém surgido em circunstâncias tão inesperadas. Resolveu ligar para o estábulo e descobrir se havia alguém disponível por lá.

— Vou ver se tem algum cavalariço que possa acompanhá-lo — disse, enquanto discava.

— Muito obrigado. É muita gentileza sua.

Após a oitava chamada sem resposta, ela desligou.

— Estou certa de que Lynn explicou que não nos preparamos para receber visitantes nessa época do ano. — As aspirinas não só não tinham aliviado sua dor de cabeça, como estavam lhe causando uma queimação horrível no estômago. A continuar assim, o resto do seu dia estaria perdido. — Como eu não sei o que Lynn planejava, e desde que essa não é a minha especialidade, estou certa de que você poderá aproveitar muito melhor a sua visita se concordar em voltar aqui amanhã. Dou a minha palavra de que haverá uma pessoa pronta para recebê-lo e responder a todas as suas dúvidas. — E, na esperança de que ele concordasse com o novo arranjo, forçou um sorriso profissional.

— Se não for abusar muito — ele retrucou num tom simpático, mas determinado —, gostaria de esperar até depois da hora do almoço para ver se aparece alguém que possa me ajudar.

Frustrada, Jennifer cruzou os braços e lançou-lhe um olhar intimidador. Já que ele não queria respeitar as regras, ela também se via desobrigada.

— Por quê? O que há de tão especial no dia de hoje?

Surpreendido pela súbita agressividade, ele hesitou esboçando um meio sorriso.

— Acho que pertenço à geração da televisão: incapaz de ser paciente.

Jennifer reprimiu um grito de ódio. Aquele teimoso estava conseguindo cercá-la. Suspirou, conformada.

— Espere um pouco... vou pegar o meu suéter. Eu mesma vou acompanhá-lo. — Ao erguer-se da mesa de Lynn, uma dor aguda atravessou-lhe o cérebro, turvando-lhe a visão e roubando-lhe o equilíbrio. Buscou apoio na mesa. Craig estendeu a mão e segurou-a pelo braço.

— Você está bem?

— Vou estar... em um minuto. — Devagar a visão voltou ao normal e ela arriscou um sorriso confiante. — Acho que me levantei muito depressa — disse, tentando ocultar a dor lancinante que conhecia tão bem. De modo involuntário, levou a mão à testa.

— Venha, sente-se. — Ele orientou-a até a cadeira. Agachando-se diante dela, tomou-lhe o queixo e estudou sua expressão abatida. — Você está mentindo — disse. — Ninguém fica desse jeito só por se levantar depressa.

— Eu estou com dor de cabeça. Não é nada dramático. Acontece toda hora. — Mas, apesar do forçado tom de pouco-caso, ela foi traída por uma expressão de dor quando virou o rosto para livrar o queixo da mão dele.

— Onde guarda as aspirinas? Pego-as para você.

— Eu já tomei algumas — disse.

— Faz quanto tempo?

— Uns quinze minutos.

Depois de observá-la por mais um instante, levantou-se e deu a volta, pondo-se atrás dela. Sem mais, começou a massagear-lhe os ombros.

— Eu estou bem — objetou, numa fraca tentativa de ficar de pé.

— Mas que coisa, fique quieta! Eu não vou te atacar.

— Isso é fácil para você dizer. Não é você quem está com as mãos de um estranho em volta da garganta.

— Estranho? E eu que pensava que essa fosse a minha tática mais charmosa! — Com suavidade e firmeza, trabalhou os músculos tensos dos ombros e pescoço dela. Reparou no contraste de suas mãos fortes sobre a constituição delicada daquele corpo protegido apenas pelo fino tecido da blusa. Nos últimos dois dias, havia sentido um contraste igualmente forte ao comparar as ondulantes e suaves colinas do Kentucky com as áridas planícies da sua velha Oklahoma.

Craig tinha levado meses numa batalha íntima, até poder aplacar suas emoções desde a descoberta daquela fatídica manhã. O resultado de tal embate pessoal foi a decisão repentina de ir para o Kentucky. Calculou que devia antes tentar descobrir tudo o que fosse possível sobre as pessoas a quem acabara aceitando considerar como seus verdadeiros pais. Assim, poderia avaliar os efeitos e possíveis conseqüências da sua aparição, bem como prevenir-se no caso de eles serem o tipo de gente que não vale a pena conhecer.

Parecera tão simples. Ir a Lexington, fazer algumas perguntas, tomar uma decisão. Mas as únicas informações de que dispunha a respeito de Agnes e Frank Mitchell desde a sua chegada se relacionavam à criação de cavalos. Quando tentava obter informações mais pessoais, esbarrava em algo que mais parecia uma conspiração de silêncio. Por fim, tomado de frustração, decidiu ele mesmo ir até a fazenda para descobrir o que desejava.

— Não posso acreditar que esteja deixando você fazer isso — Jennifer murmurou, inclinando a cabeça para a frente em resposta a uma pressão na nuca. Suas palavras interromperam os pensamentos de Craig.

— Está dizendo que isso não faz parte da visita?

Ela conseguiu achar graça.

— A partir de hoje, acho que vou incluir sessões de massagem no programa.

Com movimentos precisos de um verdadeiro profissional, ele foi avançando os dedos em formas circulares, massageando a cabeça com cuidado para não puxar os cabelos. Quando chegou perto das têmporas, ela se retraiu.

— Não toque no meu rosto — ela disse num tom que revelava tanto uma ordem quanto uma súplica.

— Tudo bem — ele concordou confuso, mas não querendo insistir. Recuou para a nuca e os ombros. Ele estava ali por uma única razão; se havia algum problema quanto a ser tocada no rosto, não era de sua conta. Passados mais uns minutos, ela correu os dedos pelos cabelos castanhos e sedosos.

— Estou me sentindo bem melhor, agora. — E, diante do olhar cético de Craig, reafirmou com um sorriso sincero: — Verdade, não está doendo nem um décimo do que doía antes.

— E isso significa que minha visita está de pé?

— Depois do que você acaba de fazer por mim, como eu poderia recusar? — Ela desapareceu pela porta do escritório para logo depois ressurgir vestindo um bonito suéter vermelho. Craig achou-a bonita e disse isso a ela, surpreendendo a ambos.

— Obrigada... outra vez. Está pronto?

Já do lado de fora, Jennifer conduziu-o pelo relvado que levava aos estábulos onde ficavam os mais famosos garanhões da Fazenda Mitchell. Caminharam em silêncio, ouvindo o estalido das folhas secas sob seus pés. O calor do sol compensava a brisa fria que soprava em suas faces.

Embora tentasse não se desviar de seu verdadeiro objetivo, Craig não resistiu em comentar a beleza do Kentucky no outono, do capricho das cercas pintadas de branco e da grama aparada bem rente. Jennifer contou-lhe que uma vez um visitante havia-lhe perguntado como era viver num lugar onde cada vista e paisagem merecia constar num postal.

— Eu disse a ele que, tendo passado toda a minha vida aqui, sempre julguei que o resto do mundo também fosse assim.

— Deve ser necessário um pequeno exército só para conservar essas cercas bem pintadas — ele observou.

Jennifer fez uma careta dramática antes de anunciar:

— Temos 147 empregados fixos, mais trinta extras que trabalham apenas durante o verão. A fazenda se estende ao longo de 3.900 acres; há 38 casas para empregados na fazenda e mais doze na cidade; 160 quilômetros de cerca acompanham todos os limites da propriedade e são necessários 65 quilômetros de estrada asfaltada para contornar a fazenda toda. — Concluído o "relatório", virou-se para ele com ar sapeca: — Não pensou que eu pudesse dar todo esse tipo de informação, não é?

— Faz tempo que aprendi que não vale a pena responder a esse tipo de pergunta — retrucou bem-humorado.

— Muito bem, vá em frente. Pergunte-me qualquer outra coisa. — Ela não resistiu em espalhar um monte de folhas secas empilhadas. Mas assustou-se com a própria atitude; há tanto tempo não agia com espontaneidade, e já havia esquecido o quanto isso podia ser gostoso.

— Quantos cavalos vocês têm aqui?

— Ah... que é isso? Vamos, pergunte uma coisa difícil.

Craig estava se sentindo tão à vontade com aquela moça bonita e alegre que teve a tentação de parar de bancar o espião. Nunca fora de seu feitio dissimular ou usar as pessoas. Mas acabou considerando que não havia outro modo. Assim, arriscou sua primeira pergunta a respeito de sua suposta família:

— Fale-me um pouco dos Mitchell — pediu. — Que tipo de gente possui uma propriedade tão grandiosa? — tentou soar casual, e não interessado em fofocas.

— Eles são... — Ela procurou a palavra certa. — Eles são maravilhosos. Bons e simples. — Deu de ombros. — Admito que sou suspeita, mas não vejo outro modo de defini-los; são o tipo de gente dedicada e sincera...

Ele deu risada.

— Acabou de definir um bom escoteiro.

— Bem, como descreveria duas pessoas que pagam os altos salários de médicos e enfermeiras para ajudar alguém que jamais teria todo esse dinheiro? Ou pessoas que dão mais crédito à sua palavra do que ao seu currículo? Eles acreditam tão firmemente que a educação é o caminho para sair da pobreza que todo ano compram toneladas de material escolar para doar às regiões mais pobres do Estado. Quando houve uma redução da verba federal para a merenda escolar...

— Ei, está bem, eu acredito em você. — Ouvindo aquilo, um estranho sentimento de orgulho encheu o peito de Craig.

— Acho que, para mim, não é tanto o que eles fazem, mas como fazem — ela retomou, mais pausada. — Não muitas pessoas sabem o que eu acabei de lhe contar. Os Mitchell fazem sua caridade de modo que os beneficiados possam manter sua dignidade. Eu mesma só sei das doações porque cuido da contabilidade da fazenda. — Contraiu-se com uma súbita rajada de vento frio. — E não vou conservar esse emprego por muito tempo se continuar abrindo a minha boca desse jeito.

Ele tinha mil perguntas a fazer, mas compreendeu que seria um erro tático insistir. Desviou um pouco o rumo da conversa:

— Agora é a sua vez. Fale-me de você — pediu. Jennifer puxou para cima a gola do suéter e se encolheu contra o frio.

— Há uma coisa que deve entender antes que a gente continue. — Todo o calor de há pouco havia desaparecido de sua voz. — Eu não faço parte da excursão.

Tal mudança de atitude intrigou-o. Se pelo menos ele tivesse tentado uma "cantada", mas tinha certeza de não ter dado nenhuma margem para más interpretações. Precisava recuperar a descontração de antes, ou suas chances de extrair mais informações sobre os Mitchell estariam reduzidas a nada. Com todo o cuidado, removeu uma folhinha do ombro dela. Retomaram o passo em silêncio.

Fico muito,feliz por não me encher com as histórias da sua infância — ele recomeçou com leve ironia. — Compreendo mesmo que não queira me dar os detalhes dos seus tempos de ginásio. Só acho pouco simpático de sua parte não querer nem mesmo me dizer o seu nome. Imagine se eu precisar chamá-la mais tarde. "Ei, você" é muito impessoal, e "senhorita" também me soa um tanto...

— Jennifer Langley.

Ele ofereceu a mão.

— Tenho muito prazer em conhecê-la, Jennifer Langley.

Ela ainda deu alguns passos antes de parar e arriscar uma olhada por sobre o ombro. Viu-o sorrindo e correspondeu ao sorriso. Céus, quando é que voltaria a ter um comportamento normal com estranhos? Deu meia-volta e foi até ele, aceitando a mão estendida. Quando o aperto de mão se prolongou mais do que ela esperava, interrompeu-o.

— Agora podemos continuar com a visita? Tenho milhões de coisas para fazer essa tarde — disse como desculpa, já que tinha muito pouco a fazer. Craig continuou a encará-la.

— Eu poderia voltar amanhã — sugeriu, torcendo para que ela recusasse.

— Oh, está tudo bem — ela disse para sua própria surpresa. Tentou consertar sua incoerência: — O meu trabalho vai estar no mesmo lugar amanhã de manhã. Sempre está.

Continuaram caminhando pelo longo relvado onde se viam pilhas e pilhas de folhas secas varridas. Tudo parecia tomado pelas cores marrom avermelhadas do outono. Acabaram chegando a uma porteira. A partir dali o caminho se dividia em dois. Um seguia paralelo à cerca; o outro ia para os estábulos. Jennifer hesitou, lançando um olhar para o paddock situado depois do estábulo. Os nove cavalos ali guardados eram os garanhões que ficavam em exposição para os turistas. Todos campeões já aposentados. Seu preço, como reprodutores, variava de sessenta mil a meio milhão de dólares. Todos que trabalhavam na fazenda passavam por ali de vez em quando para se certificar de que estavam bem.

— Aquele ali não é Morgan's Pride? — Craig perguntou, apontando para um cavalo. Reconheceu-o pelas fotografias de revistas que andara estudando nos últimos dias.

— E aquele é Lady's Man — ela indicou um potro num outro cercado. — Está com dois anos e se saiu muito bem no último verão — explicou orgulhosa. — Se no ano que vem tivermos outra leva de potrinhos como essa, vamos ter o maior rebanho da história da Fazenda Mitchell.

— Eu não sabia que Lady's Man pertencia à Fazenda Mitchell.

— É filhote dos nossos reprodutores.

Um homem surgiu, dirigindo uma caminhonete com o nome da fazenda pintado na carroceria. Jennifer sorriu e acenou enquanto o veículo passava ao largo.

— No inverno passado, quase perdemos Lady's Man por causa da forte reação que ele teve a um remédio — ela disse, retomando seu papel de guia. — Um dos donos voou direto da Flórida com uma equipe completa de veterinários. E quase deixou todo mundo doido enquanto não se certificou que seu investimento estava a salvo.

Craig tentou se imaginar participando de um mundo onde um só cavalo valia mais do que o hospital de Claby Station, cidade da sua velha Oklahoma. Admirou as cercas brancas que se estendiam até se perderem de vista. Impressionou-se com tanta riqueza.

— Há quanto tempo os Mitchell possuem este lugar?

— Está na família há seis gerações. Desde 1853.

Isso significava uma geração a mais de Mitchell no Kentucky do que dos Templeton em Oklahoma. Esse pensamento trouxe-lhe outro, mais doloroso. Não eram cinco, mas quatro gerações de Templeton, ele próprio excluído.

— Quer dizer que ainda é da família, então?

— Ha, ha. E, no que depender de Frank, sempre vai ser.

— Isso quer dizer que existem filhos para continuar tocando a fazenda? — Seu coração bateu mais forte. Quantas vezes não tinha sonhado em ter irmãos e irmãs? Como seria encontrá-los agora, depois de ter se tornado adulto?

— Três. — Ela se encostou na cerca e olhou para a estrada que cortava a fazenda. — E por falar nisso, Andrew deve chegar a qualquer momento, agora. Ele foi buscar um potrinho que compramos no verão e que estava de quarentena em Maryland. Por tradição, a responsabilidade pela fazenda passa para o filho mais velho e, portanto, é ele quem vai acabar assumindo isso tudo. Posso apresentá-los, se quiser.

Seguindo-lhe o olhar pela estrada, ele torceu para que ninguém aparecesse. Não se sentia preparado para encontrar o seu irmão, ainda. De fato, precisava de tempo para decidir se queria ou não entrar na vida de Andrew Mitchell.

— Se não se importa, prefiro continuar com a visita. Estou certo de que terei muitas oportunidades de conhecer os Mitchell mais tarde, caso venhamos a fazer negócio.

— Por que não vamos direto ao estábulo principal, então? Se quiser ver mais de perto algum cavalo daqui, podemos fazer isso na volta. — Mais uma vez olhou para a estrada, consultando o relógio em seguida. Pensou que, se aparecesse alguma das caminhonetes da fazenda, poderiam pegar uma carona. — Se está com pressa, por que não voltamos ao escritório e pegamos um carro?

— Se for mais conveniente para você.

Jennifer percebeu que ele se referia aos "milhões de coisas a fazer" a que ela havia se referido antes.

— Para falar a verdade, uma caminhada seria muito bem-vinda. É tão bom andar ao ar livre de vez em quando.

De vez em quando? Ele poderia jurar que ela era do tipo que não agüenta ficar trancada em casa. Mas, como já observara a si mesmo, o dia-a-dia de Jennifer Langley nada tinha a ver com os motivos de sua visita. Tratou de reconduzir a conversa para o seu verdadeiro interesse.

— Como já deve ter percebido, eu sou meio verde nesse tipo de negócio. A Fazenda Mitchell é a primeira que visito à procura de garanhões de qualidade. Quem sabe você não poderia me dizer o que eu devo procurar?

Ela o encarou incrédula. Ou ele era muito rico, ou muito estúpido. Duvidava da segunda possibilidade, mas não via naquele jeito simples nenhum sinal de grande riqueza. O que estaria procurando, afinal?

— Bem, por que não me diz por que escolheu a Fazenda Mitchell para procurar garanhões, em primeiro lugar?

Craig não contava em ser colocado na defensiva tão cedo.

— Li alguns artigos e me interessei pelo lugar.

— Que artigos?

Ele hesitou. Enfiou as mãos nos bolsos de trás e quando tornou a falar aparentava calma.

— Receio que não seja capaz de lhe responder dessa vez. Quando li esses artigos, não imaginava que seria interrogado sobre o seu conteúdo mais tarde.

— Me desculpe. Eu não queria parecer...

— Não se desculpe — objetou num tom mais simpático. — Afinal, você não me conhece. — Mal tinha terminado de pronunciar essas palavras e arrependeu-se de abrir a guarda de modo tão estúpido. Mas, por sorte, ela não se interessou por sua vida particular.

— É, você tem que admitir que a sua aproximação não foi lá muito convencional. — Exibiu um sorriso amigável. — Por que não me fala sobre as éguas que comprou? — Seria loucura usar os reprodutores dos Mitchell em éguas que não fossem da mais fina linhagem.

Por esse tipo de pergunta ele já esperava. Assim, tinha passado a manhã estudando o assunto, e foi capaz de dar os nomes de dois haras conhecidos de Maryland e da Califórnia. Afirmou ter comprado sete éguas nessas duas fazendas, e, antes que Jennifer tivesse a chance de perguntar a que linhagens pertenciam, disse os altos preços que supostamente havia pago. Imaginou que, pelo alto custo e pela origem de haras de tradição, ela tiraria suas próprias conclusões. E pelo jeito funcionou, pois a pergunta seguinte nada tinha a ver com cavalos.

— Por que não me fala de você?

Ele sorriu para amenizar o efeito da resposta que daria:

— Deixe-me ver se entendi direito. Você não faz parte da visita, mas eu faço? — Odiou-se por ter que se fechar assim.

Jennifer corou com intensidade. Pensou em lhe explicar que só estava interessada no seu passado como criador, mas desistiu de se defender.

— Ponto para você — acabou dizendo numa delicadeza forçada.

— Por que não voltamos a um território neutro e falamos sobre os Mitchell? — ele propôs. — Você me dizia que Andrew é o primogênito.

— Não o primogênito, o mais velho. Havia um outro filho, Eric.

Ele aguardou que prosseguisse e, quando ela se calou, insistiu com bastante tato:

— E o que aconteceu a esse Eric? — perguntou no tom mais natural que pôde.

— Morreu quando era um bebê — Jennifer respondeu em voz baixa. — Às vezes acho que os Mitchell jamais chegaram a aceitar a sua morte. Mas, considerando as circunstâncias, quem pode culpá-los?

Como era estranho ouvir aquilo. Como seus verdadeiros pais reagiriam se soubessem que ele não havia morrido? Mas não teria ele, de certa forma, morrido? Os Mitchell tinham perdido uma, criança, um bebê. Poderiam, agora, aceitar o homem em que ele havia se transformado?




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal