Ensaio sobre a idade do bronze em Portugal



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Ensaio sobre a idade do bronze em Portugal

DO princípio da idade do bronze (J) há no nosso território algumas estações, em que se no­tam uma certa continuidade cultural com as fases anteriores e, pelo menos nas do sul do país, algumas analogias com a civilização da idade do bronze inicial do sudeste espanhol—civiliza­ção designada por argárica,'termo derivado do nome da estação mais típica, a necrópole de El Argar. Esta civilização ter-se-ia estendido também ao N. E. de Espanha (Catalunha) e às Baleares (grutas de Mallorca) (2).

O emprego do silex entra em decadência, ao passo que abundam os objectos de cobre e sur­gem os de bronze, pobre ainda em estanho, aparecendo também objectos de adorno, de prata



  1. Este ensaio'è um excerto dum trabalho em
    preparação sobre os povos primitivos da Lusitânia.
    Nesse trabalho dou um especial desenvolvimento ao
    capitulo sobre o eneolitico, que, de acordo com a maior
    parte dos autores modernos, destaco da idade do bronze.
    Apenas em algumas passagens do presente artigo se
    alude, pois, ao eneolitico.

  2. Bosch—Prehistôria catalana, Barcelona, 1919>
    pàg. 154.

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e de ouro. A cerâmica perde os ornatos do eneo-lítico: é, escreve Bosch (x), «qualquer coisa de inconfundível, com a sua superfície de cor par­dacenta, polida e sem ornatos e com as suas for­mas clássicas—o vaso esférico, o vaso de pare­des cónicas e fundo convexo, a taça com pé alto e a grande talha de forma mais ou menos esfé­rica».

Em El Argar, onde as explorações dos irmãos Siret incidiram sobre muitos centenares de sepul­turas de inumação, o mobiliário funerário metá­lico compreende, como nas estações próximas, de El Oficio, Fuente Álamo, Ifre, Zapata, etc., machados de cobre achatados do tipo primitivo, punhais triangulares de bronze ou-prata, ala-bardas, braceletes singelos, anéis, etc. Em El Ofi­cio apareceu um altar de cornos simbólicos, em que Dechelette viu mais uma prova de influên­cias egeas, dada a sua semelhança com um tipo de Cnossos. As sepulturas são de vários tipos: as mais frequentes são cistas, com os cadáveres dobrados, e sobretudo grandes urnas cerâmicas com um aspecto de ovos truncados (2).

Em Portugal, algumas cistas algarvias são do tipo argârico, outras cistas têem afinidades com as construções megalíticas do eneolítico que atingem o seu termo. Pertencem ao segundo

(1) Bosch — Arqueologia preromana hispânica,
(apêndice à versão espanhola da Hispania, de Schulten),
pâg. 162.

(2) Dechelette — Manuel d'Archèoloçjie Préhisi.,


Celt. et Callo-Rom.,
Paris, 1910, t. II, pág. 80 e segs.

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grupo as sepulturas de Odemira, algumas do Algarve, e as de Ancora e da Quinta da Água Branca, a que já fizemos referência (1).

As sepulturas trapezoidais de Odemira e Vila Nova de Milfontes continham alguns machados e enxós de pedra polida, machados de cobre, ossos, cerâmica, uma flecha de cobre, etc. Nas sepulturas da idade do bronze inicial do Algarve predomina a forma 'de caixas quadrangulares, mesmo quási quadradas (cistos) e em algumas encontram-se urnas com ossos no género dos de El Argar, como, por exemplo, em Odiaxere, Alçaria, Vale da Lama, etc., no S. õ. do Algarve. Mas as cistas argáricas são sobretudo frequen­tes a S. E., nos concelhos de Castro Marim e de Vila Real de Santo António. Entretanto há tam­bém construções sepulcrais, que, como as de Odemira, já referidas, se podem considerar uma última etapa evolutiva das construções megalí­ticas, em especial das galerias cobertas (2). É preciso, porém, notar que poucas destas sepul­turas foram exploradas devidamente, basean­do-se o seu conhecimento em informes de leigos.

A sistematização dos documentos de fases mais adiantadas da idade do bronze na Penín­sula não está ainda feita. São numerosos os achados isolados, sobretudo no nosso país, mas

(l) Bosch—Op. e pág. cit.

(2). Cartailhac—Lês ages préhistoriqaes de l'Espa-cjne ei du Portugal, Paris, 1886, pàg. 209 e segs.; Estàcio da Veiga—Antiguidades monumentais do Algarve, t. IV, pàg. 36, 74, etc.

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parece' ainda cedo para sistematizar com por­menor.

Em Portugal as condições de jazida do maior número desses achados são mal conhecidas e faltam explorações metódicas. No resto da Penín­sula observa-se o mesmo facto ou até uma com­pleta carência de documentos. Apenas nas Balea­res temos os talaiots e nauetas, do fim da idade do bronze.

No entanto, sobre aqueles achados'avulsos parece encontrar-se uma certa uniformidade cul­tural com as outras regiões do ocidente da Eu­ropa.

• Á província ocidental da idade do bronze aplica Dechelette a seguinte classificação crono­lógica (*), naturalmente diversa das classifica­ções baseadas nas descobertas do oriente medi­terrâneo (Micenas, Creta, etc.):

Idade do bronze I—(compreendendo o eneo-litico na fase inicial de machados chatos e punhais de cobre) de 2500 a 1900 a. c., aproxi­madamente.

Ainda numerosos instrumentos de pedra, sobretudo pontas de flechas. Armas e utensílios em cobre ou em bronze pobre em estanho. Ma­chados chatos sem rebordos. Pequenos punhais triangulares, com uma lingueta ou espigão basi­lar ou com orifícios para pregos de ponta revi-

(i) Dechelette—Manuel, etc., op. cit., II, pàg. 105 e segs.

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rada. No final do período, punhais de cabo de bronze (tipo itálico). Machados-punhais. Alfine­tes com- anel terminal e outros. Sovelas para tatuagem, losângicas. Tubos ou bastonetes de pasta vítrea, numa série de pérolas juxtapostas. Ossos trabalhados com a mesma forma. Pérolas em ouro, bronze e calaite. Crescentes ou golas de ouro (110 fim do período). Pequenas placas de diversas substâncias, chamadas «braçais de bes­teiros». Vasos caliciformes. Pequeno vaso de aza em cotovelo. As sepulturas são de inumação, excepto na Bretanha, onde domina a incineração. A ocidente, construções megalíticas e grutas na­turais. A leste, cistas, túmulos, etc. (Vimos já como este primeiro período do bronze de Deche-lette se pode decompor em várias fases do eneo-lítico e da idade do bronze inicial).

Idade do bronze II (de 1900 a 1600). Bronze já rico em estanho. Machados com rebordo plano pouco elevado. Machados-espátulas com gume semi-circular. /Punhais triangulares de base arredondada e de orifícios para pregos, quási sempre ornados com filetes ou reforçados com uma larga nervura mediana. No final do período, a lâmina dos punhais alonga-se e sur­gem as espadas. Alfinetes de cabeça esférica perfurada obliquamente. Braceletes abertos, de extremidades ponteagudas (alguns já no período anterior). Vasos armoricanos com quatro asas (idem); são vasos de 0,m10 a 0,m30, com uma forma bicónica,- e com as asas fixadas duma parte ao bordo do bocal e da outra à aresta do

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bojo devida à união dos dois troncos do cone, dos quaes o superior é com frequência mais curto do que o inferior. Alguns vasos do mesmo tipo teem apenas duas asas. Os ritos funerários e tipos de sepulturas são análogos aos da fase anterior.

Idade do bronze III (de 1600 a 1300)—Ma­chados de rebordos planos, mas muito espessos. Machados de talão. Alguns, chamados de tipo ibérico, teem o talão e dois anéis. Machados com aurículas medianas. Punhais delgados e alonga­dos com dois orifícios para pregos. Espadas afi­ladas, não pistiliformes. Conteiras de bainha e facas com punho de bronze do tipo de Courta-vant. Alfinetes de cabeça costada. Alfinetes com cabeça rodada. Braceletes abertos com as extre­midades obtusas. Braceletes em fita, de volutas terminais. Vasos com incisões profundas (alguns já no período anterior). Vasos ornados com caneluras e com mamilos. A maior parte das sepulturas são de inumação. Túmulos na região céltica, sepulturas razas na região lígure.

Idade do bronze IV—(de 1300 a 900)—Ma­chados de aurículas quási na extremidade. Ma­chados de alvado. Espadas de espigão chato perfurado para cravação de pregos ou com uma fçnda longitudinal. Espadas de botão de punho oval, do tipo chamado de Ronzano. Espadas com punho de antenas (alguns punhos incrus­tados de ferro). Todas as espadas são pistili­formes. Conteiras da bainha com diversos tipos. Punhais com o espigão chato com orifícios para

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pregos. Punhais de alvado e com orifícios. Pon­tas de flecha de alvado e de pedúnculo mono-barbelado. Facas de alvado. Facas com o punho fundido tendo um estrangulamento em arco de círculo. Capacete itálico do tipo chamado de Falaise. Braceletes ocos com aurículas. Bracele­tes torcidos duplos. Braceletes reniformes. Alfi­netes com grande cabeça esférica, oca. Alfinete» de cabeça vasiforme. Algumas fibulas em arco de violino, de arco simples, de arco creneladp, de arco serpentiforme. Agrafes de cinturão com garras. Navalhas semi-circulares, duplas de pe­dúnculo, etc. Trancheis com espigão. Esferoides. Freios de cavalos. Vasos de várias formas: dos

mais típicos são os de bojo cónico com gargalo cilíndrico ou evasado com rebordo. Biberons sem pés ou de quatro pés. Rito funerário predo­minante: incineração.

O primeiro, período está largamente repre­sentado no nosso território pelas estações eneo-líticas e da idade do bronze inicial, j á. referidas. Alguns achados, na maioria avulsos, de bron­ze, correspondem ainda a uma fase avançada deste período ou mesmo porventura já aos se­guintes.

São desse número muitos machados chatos (Gruta de Ferreiros, S.to Adrião, Vimioso; Bu-jões e Abaça, Vila Real; Boa Vista, Celorico da Beira; Cesareda; Salvaterra; Évora; Extremoz; região fronteira a Badajoz; Panoias de Ourique; Mina da Juliana, Beja; Odemira; Foya, Monchi-

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que; Bensafrim, Algarve; Estombar, idem; Pa-derne, idem; Silves; etc.) (')

Do período II propriamente, escasseiam as aquisições. É possível que alguns machados correspondam ainda a esta fase, como naturais sobrevivências da época anterior. Lembram for­mas do período II, de gume semi-circular e com extremidades reviradas, os discutidos machados insculpidos em lages sepulcrais dos concelhos de Ourique (Panoias), Beja (Santa Vitória, Be-ringel, Mombeja) e S. Tiago de Cacem (Defesa). Representados com espadas, boldriés e outros objectos, esses machados teriam dimensões ex-

(J ) A estes achados e seguinte» se referem : Està-

cio da Veiga nas Antiguidades, etc., op. cit., t. IV; Filipe Simões—Introdução á Archeologia da Península Ibé­rica— Lisboa, 1878; Cartailhac—Lês ages, etc., op. eit.; Leite de Vasconcelos, Possidònio da Silva, Alves Pereira, José Fortes, Henrique Botelho, Albino Lopo, Santos Ro­cha, etc., em vários trabalhos, publicados especialmente na Portiigàlia e no Arqueólogo Português.



È duvidosa a inclusão na idade do bronze de bra­celetes de bronze e vasos de cerâmica encontrados em Alpiarça. (Mendes Correia—Objectos protoistòricos e lusitano-romanos sobretudo de Alpiarça e Silva — «Arqueol. Port.», t. XI, Lisboa, 1917). Trata-se de restos muito heterogéneos e possivelmente de épocas diferen­tes. Um vaso caliciforme lembra outras formas da idade do bronze, bem como dois biberons, mas outros vasos letnbram, pela sua imperfeição e ornatos incisos, tipos eneoliticos. Alguns há também que poderiam incluir-se na idade do ferro. A verdade è que os objectos foram recolhidos sem indicações sobre as condições de depó­sito. Encontram-se no Museu Antropológico da Facul­dade de Sciências do Porto.

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cepcionais, o que Dechelette atribuía a uma signi­ficação votiva e não, como A. de Mortillet, a tratar-se de objectos de outra qualquer natu­reza (!). O Dr. Leits de Vasconcelos, a quem se deve o estudo de tão curiosos documentos-(2), compara tais insculturas a dois machados cha­tos, encontrados em Barcelos e Estremoz. A ce­râmica, rara, recolhida em algumas dessas sepulturas parece muito primitiva, lembrando alguns ornatos os do vaso campaniforme eneo-litico. Mas as espadas representadas nas. lousas não pertencem evidentemente ao período I de Dechelette; a da lousa da Defesa sobretudo re­corda um tipo da idade do bronze II, de Chey-

lounet (Alto Loire) (8), mas o Dr. Leite de Vas­concelos aproxima antes a insculpida numa lousa sepulcral do Museu de Beja duma espada de Forel (Suíssa), da transição da idade do bronze para a do ferro. Quer-me parecer entre­tanto que esta última cronologia está em oposi­ção com os tipos de machados e cerâmica, mas não é forçoso que se trate de estações sincróni-cas, a pesar das suas grandes analogias.

Dos machados do período III da cronologia


  1. Dechelette—Op. cit., pàgs. 490 e 491.

  2. Leite de Vasconcelos—Estudos sobre a época
    do bronze em Portugal—
    «Arqueólogo Português» tt. XI
    c XIII, Lisboa, 1903 e 1908.

  3. Fig. 8, pi. II, de Dechelette. A analogia preten­
    dida por Dechelette com uma espada da idade do bronze
    IV de Penhouêt, não è admissível. Basta notar a dife­
    rença profunda na fornia da lâmina.

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Dechelette aparecem os de talão, com ura anel lateral (Vidual e Justes ou Linhares, Vila Real; Barcelos; Famalicão; Corvite, Guimarães; Ama-rante; Sabugal; Fonte Santa, Alcobaça; região Ironteira a Badajoz), ou com duplo anel (Castro de Medeiros, Montalegre; Torre de D. Chama; Vila Pouca d'Aguiar; Viatodos, Barcelos; Paredes de Coura; Caminha; Espozende; Roriz, Minho; Abelheira, Bougudo; Távora, Arcos de Vai de Vez; Monte do Sino, Guimarães; Ponte da Barca; Sâtão; Castendo; Ferreira d'Aves, Pinhel; Serra da Caveira, Grândola). Não aparecem os macha­dos com aurículas medianas, de transição para os de aurículas "terminais e para os de alvado do período IV. Os machados de talão e duplo anel são chamados do tipo ibérico, porque são raros fora de Espanha e Portugal. Também são chamados do tipo do Minho, mas é talvez prefe­rível, dada a sua frequência igualmente na Ga­liza, chamarem-se do tipo-galaico-portngiiês (J). Do ocidente da Península este tipo propagar--se-ia para leste, sobretudo às Astúrias, Extre-madura espanhola e Andaluzia. Em Torre de D. Chama, Távora, etc., o tipo ibérico aparece ao lado de machados chatos, que se não extin­guiram, pois, com o fim do período I. A carta junta mostra a sua frequência ao norte do Mondego.

(!) H. Obermaier—Impresionen de im viaje prelns-torico por Galicia—«Boi. Arqueol. de Ia Comision Pro­vincial de Monumentos Hist. y Artísticos de Orense», t. VII, Orense, 1923, pàg. -27 do extr.

8

O D D f-


X Machados chatos.

M^ Machados de anéis e talão.

*** Machados de alvado.

-f , • ' .

® Lapides insculturadas com machados chatos

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Aos tipos do período IV pertencem alguns machados avulsos de alvado. O alvado parece constituir o termo da evolução das aurículas, que se tornam terminais e se fecham, mas a falta de machados de aurículas no território faz crer que essa evolução se não desenrolou aqui. Alguns têem um anel (Alijo), outros dois (Roriz, Minho; Abrigada, Estremadura). Na Galiza aparecem também alguns machados de alvado. Em Portugal registemos ainda exemplares de Sabroso (Minho), Arroios (Vila Real) e Santa Justa (Valongo).

Outros objectos de bronze não facultam uma sistematização tão clara. A espada de Eivas, des­crita por Estácio da Veiga (!), é muito s.eme-Ihante a uma de Hio (perto de Vigo) (2), que apareceu junto de machados de talão e de al­vado, bem como junto de braceletes, pontas de lança, etc. Deve, pois, atribuir-se a uma fase adeantada da idade do bronze, talvez ao período IV. Mas a classificação de outras espadas, ada­gas, etc. é mais difícil (8), e de alguns objectos


  1. Estácio da Veiga—Antiguidades, etc., op. cit.,
    IV, ext. XXIII, n.» 9.

  2. Obermaier—Impresiones, etc., op. cit. pàg. 31,
    ext. B.

  3. Em Cartailhac (Lês ages, etc., op. cit., pàg. 222)
    vem representada uma espada de Porto de Moz, com
    eàpigão largo e orifícios para pregos. Santos Rocha
    (Vestígios da época do brojizc. em Alvaiázere—«Portu-
    galia», t. I, pàg. 135) refere-se a uma espada de bronze de
    Alvaiazere, com o espigão partido, a qual seria, a sett
    ver, antes uma simples adaga, produto da evolução do
    .punhal. Devem ser espécimes do período II, ou, o mais

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avulsos de- bronze pode mesmo supôr-sfe" uWfa-cronologia mais avançada, a idade do ferro ou mesmo já a época luso-romana. Como muito bem diz o Dr. Leite de Vasconcelos, uma vez descoberto o bronze, nunca mais até hoje deixou de ser empregado.

Alguns esconderijos de fundidores mercan­tes têem sido encontrados em Portugal, como os de Viatodos (Barcelos), de Carpinteira (Melgaco) e de Ganfei (Valença (J), provindo vários ma­chados de bronze já citados, de esconderijos dessa ordem. Em Ferreira de Aves (Pinhel) registaram-se 19. Não deve deixar dê se mencio­nar, como prova da actividade metalúrgica no território, a descoberta dum molde de fouces de bronze em Casal de-Rocannes (Cacem) (2). No Museu Etnológico Português existem quatro fou­ces de bronze, uma das quais de Mértola (s).

tardar, do III, sendo para notar as analogias dos seus espigões com os das espadas deste último período repre­sentadas por Dechelette. Mas trata-se duma cronologia pouco segura, dada a escassez dos achados e o se.u ca­racter avulso.

1l) José Fortes —Esconderijo morgeano de Carpin­
teira (Melgaço), «Portugália», t. II, pàg. 435;id.—Escon­
derijo morgeano de Ganfei (Valença), «Portug,», t. II,
pàg. 661; id.—O tesouro de Viatodos, «Portug.», t. II,
pàg. 110. •


  1. Joaquim Fontes—S«r wn moule pour faucilles
    de bronze provenant da Casal de Rocannes
    —«Buli. de
    Ia Soe. Portug. dês Sc. Naturelles», t. VII, Lisbonnè, 1916.

  2. Ibid., pàg. 6 do extr.; e também Leite de Vas­
    concelos—Histôi-ia do Museu Etnológico Poi-tiigués, Lis­
    boa, 1916, pàg. 359, fig. 31.

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Vários machados, já referidos,, demonstram pelas rugosidades da sua superfície e pela impureza do metal e por alguns rebordos ou pontas salien­tes, a sua moldagem em pedra, a má qualidade da matéria prima, a imperfeição da técnica e dum modo geral as condições do seu fabrico. Muitos outros objectos de bronze, como a oeiiochoé descoberta em Rio Maior (!), o touro da Biblioteca Nacional de Lisboa (2)., o javali do Museu de Évora (s), as cabrinhas do Alentejo (4), o carneirinlio de Roios (Vila Flor) (5), o ex-voto do Castelo de Moreira, Celorico de Basto (6), outro de Costa Figueira, Paredes (7), etc., per­tencem crivelmente a épocas posteriores â idade do b.ronze. Alguns serão mesmo da época roma­na. Talvez sejam também posteriores à idade do

1i) Joaquim Fontes — Une oenoclioè en bronze ren-
contrèe à Rio Maior—«Arq. da Univ. de Lisboa», vol.
III, Lisbomie, 1916.


  1. Pierre Paris—Essai sur 1'art et 1'industrie de
    l'Espagne primitive (et du Portugal)—II, Paris, 1903,
    pàg. 223. Leite de Vasconcelos—Religiões da Lusitânia,
    t. II, pàg. 285. Gabriel Pereira, in «Arqueólogo Portu­
    guês», t. I, 1895, pàg. 298.

  2. Estâcio da Veiga—Antiguidades, etc., op. e t.
    cit., pàg. 124.

(i) Leite de Vasconcelos—Op. e t. cit:, pàg. 283; id. também «Arqueólogo Português», t. I, 1895, pàg. 296.

  1. Albino Lopo—Uma excursão archeologica a
    Roios—«Arqueólogo Português», t. XVI, 1911, pàg. 48.

  2. «Portugalia», t. I, p. 325; Leite de Vasconcelos,
    op. e t. cit., p. 289.

(?) Eduardo de Freitas—Estudo sobre cZois bron-zes arqueológicos, Porto, 1923.

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bronze as esculturas de animais, em bronze, encontradas em Monte de Pedralva, (Vila do Bispo), apesar do seu aspecto muito tosco (!). Um cavalinho de bronze da mina de S. Domin­gos è, ao que parece, da época romana (2), bem como uma vaquinha de bronze do Castro de Sacoias (Trás-os-Montes).

Traçando numa carta de Portugal duas linhas rectas, ambas de direcção NO.-SE., uma da foz do Leça até à serra das Mesas, ao sul de Sabu-gal, e outra do N. de Leiria ao N. de Eivas, ne­las vemos os limites duma área na qual se não teern encontrado vestígios da idade do bronze. Essa área abrange o S. do distrito do Porto, o S. e O. dos distritos de Vizeu e Guarda, os dis­tritos de Aveiro, Coimbra e Castelo Branco, e o N. dos distritos de Leiria, Santarém e Portalegre. As populações da idade do bronze do território português espalharam-se, pois, de preferência no Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes, N. E. da Beira interior, granúe parte da Extremadura, Alentejo e Algarve. Além disso, aparte, a espada e outros achados de Eivas, o machado do tipo ibérico de Grândola e poucos mais objectos, na região sul encontram-se quási exclusivamente restos dos primeiros períodos do bronze, ao passo que no norte do país abundam os macha­dos dos períodos III e IV. O sul, que no fim do eneolítico assumira um desenvolvimento cultural



  1. Estàcio da ^7eiga—Op. e t. cit., pág. 115.

  2. Leite de Vasconcelos — Op. cit., t. III, pàg. 519.

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maior do que o do norte, e que na idade do bronze inicial recebera a influência da cultura argárica, que não atingiu o norte, parece ter continuado bastante isolado deste na idade do bronze avançada. No entanto, não é possível afirmar um seu relativo atrazo cultural no íim dessa idade, dada a sua vizinhança de Tartessos que então começa a ser visitado pelos Fenícios. No fim da idade do bronze manifesta-se nas Baleares a cultura dos talaiots e nauetas, povoa­dos, monumentos e recintos fortificados, que teem afinidades com os nuraghes da Sardenha, e que foram nos últimos oito anos objecto de estudo da secção arqueológica do Instituto de Estudos Catalães, sob a direcção de Bosch (O-Estas explorações metódicas permitiram desfazer as antigas teorias sobre a inclusão dessas esta­ções na civilização megalítica, muito anterior, e além disso, revelaram reduzidas influências egêas, já apontadas por Vives e que, segundo Bosch, marcariam o extremo limite ocidental a que durante o eneolítico e a idade do bronze, teriam porventura alastrado as formas culturais do oriente mediterrâneo.

Durante muito tempo prevaleceram os pontos

de vista favoráveis á tese orientalista. Siret,

especialmente baseado nas suas explorações do

; sudeste espanhol, atribuía à influência oriental

(i ) Investigacions Ai-queològiques de l'Institui d'Es-iadis Catalanfs Memória deis Ti-eballs de 1915-1919 — Barcelona, 1921.

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as fornias culturais não só do bronze mas até do eneolítico, da Península. Os Fenícios e Egeus seriam os portadores dessas influências í1). Ò nosso ilustre Martins Sarmento, Melida e outros portugueses e espanhóis falaram de influências micénicas a propósito das mais variadas mani­festações da cultura peninsular e das mais dis­tantes fases dessa cultura. Dechelette não só aproximou as criptas alcalarenses dos túmulos reais da Acrópole de Micenas, mas também pro­clamou a filiação egea de muitos aspectos da cultura argárica -(2). S chuchar dt (3) e Schul-ten (4) afirmam relações entre a Península e o Egeu, desde remotas datas da idade dos metais, e quer os Egeus viessem aqui buscar os metais, quer os Tartessios lhos levassem, tráficos im­portantes entre uns e outros deveriam ter exis­tido, na opinião daqueles autores. Desde o ter­ceiro milenário antes de Cristo—data em que o bronze se encontra no Égito—teriam, segundo Schulten, as gentes orientais de vir à Península Ibérica e à Inglaterra buscar o estanho para a preparação do bronze, e bem assim o cobre e a

(') L. Siret—Orientaux et occidentaux en Espagnc; aux temps préhistoriqaes — «Revue dês Questiona Scien-tifiques», Bruxelles, 1901.



  1. Dechelette—Op. cit., II,

  2. Citado em Bosch (Ensayo de una z-econstnic-
    ciòn de Ia etnologia prehisiôrica de Ia Península Ibérica
    —«Boi. de Ia Bibl. Mcnèndez'Pelayo» Santander, 1922,
    pág. 49).

(i) Schulten—Jíispania, op. cit. p. 111 e 112.

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prata, sendo Tartessos o objectivo principal das suas navegações. Para o autor alemão, depen­deriam da arte micénica a cerâmica ibérica do S. e de E., as esteias com ornatos de Ampurias e da Citania de Briteiros, o adorno de ouro de Jávea, o culto do touro, o duplo machado cre­tense, o altar com cornos, etc., e porventura ainda a escrita ibérica.

O nosso infatigável Estácio da Veiga foi um dos que mais ardentemente teem afirmado a autonomia cultural da Península Ibérica nas primeiras idades dos metais. Havia muito cobre e estanho no território, não era preciso importá--los; há vestígios de explorações mineiras da ,época, há vestígios de actividade metalúrgica indígena ('). Recentemente Bosch, apoiando-se sobretudo em Schmidt, salienta o anacronismo que se encerra nalgumas das asserções orienta-listas. Os túmulos de cúpula de Alcalar e de Los Millares são mais antigos do que os micénicos: como poderiam ser produtos da influência des­tes? Pelo contrário, a cerâmica ibérica é muito posterior à micénica. A cultura argárica é inde­pendente do oriente. «Os touros de Costig, as pombas, de bronze, as psças de chumbo (pre­tensos altares com cornos de consagração ou cabeça de touro), verificou-se por excavações metódicas pertencerem à época romana»... Em Espanha nada se encontrou, afirma, de origem egea. A origem espanhola de objectos egeus

(!) Estacio da Veiga — Op. cit., sobretudo no vai, III.

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também está por demonstrar; se a prata egea è de origem espanhola, isso não provaria, porém, relações directas. Chegaria lá através de muitos intermediários, assim como o âmbar do Báltico e do mar do Norte chegou à Península no eneo-litico e a Micenas na idade do bronze C1)-

Num trabalho sobre a preistória galega (2), Obermaier acaba de acentuar também o facto de ser abundante o estanho na Galiza, como nas Astúrias e noutros pontos da Espanha.

É evidente que, como diz o mesmo autor, se tem exagerado as relações e influência s culturais do oriente mediterrâneo na Península Ibérica para as primeiras idades dos metais e mesmo mais tarde. Vimos já que é duvidosa a referên­cia à Península no texto duma inscrição assíria, mencionada por Schulten e datada de cerca de 2200 a. C. São flagrantes os anacronismos apon­tados por Bosch em relação à pretendida influên­cia micénica no eneolítico ou na cerâmica ibé­rica. Está provada a existência duma metalurgia indígena e de extracções mineiras no território.

(1) Bosch — Arq. prev. hisp., op. cit., p. 176 e 127; '


e Ensaijo, etc., op. cit., p. 49-52.

(2) H. Obermaier—Impresiones de un viaje pre-


historico por Galicla, p. 34 e seg. do extr. Para o mesmo
autor as ilhas Cassitèrides (ilhas do estanho), «hay que
buscarias... en Galicia* (pàg. 45 do ext.) e não na Lusi­
tânia, nas ilhas do Cabo de Santa Maria, na Bètica ou
noutro qualquer ponto meridional. Quando mais tarde
se encontraram outras «ilhas do estanho, mais a norte,
na Bretanha francesa e no S. da Inglaterra, os- antigos
chamaram-lhes também Cassitèrides».

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 43

A tipologia dos 'objectos de bronze oferece mais semelhanças com a do resto da província oci­dental dessa idade do que com a. do oriente egeu. Torna-se flagrante a sugestão poderosa que sobre muitos espíritos exerceram as brilhantes explo­rações de Micenas, de Creta, de Chipre, do Egito, da Ásia Anterior. Mas o que resta provar é que a independência cultural do ocidente peninsular foi absoluta e que nem mesmo os processos me­talúrgicos foram ensinados pelos orientais, que aliás parecem tê-los conhecido mais cedo do que os ocidentais. Pelo menos, devem admitir-se re­lações mútuas através de maior ou menor quan­tidade de intermediários. As longas navegações directas do Egeu para Tartessos devem datar de remota era, mas não tão remota como o neolí­tico, o eneolítico ou o começo do bronze.

Apesar da presença do âmbar, não é mais verosímil a existência de relações com o norte do que com o oriente mediterrâneo. Entretanto estas últimas foram indevidamente exageradas quer na sua antiguidade quer na sua importância. Verificou-se que na Península existiam, pelo contrário, desde longes eras, núcleos de cultura com individualidade marcada e autonomia indis­cutível. Remontarão a uma data distante os trá­ficos—primeiro indirectos, depois directos—dos metais extraídos das minas peninsulares, terá havido iniciações na técnica metalúrgica e rela­ções comerciais, mas a verdade é que esses con­tactos não se traduziram em toda a idade do bronze, como nas fases imediatamente anterio-

44 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

rés, pela mais ligeira diminuição daquela indi­vidualidade e autonomia. Pelo menos, assim o atesta, no seu estado actual, o pecúlio arqueoló­gico peninsular.

Segundo Bosch, a etnologia da Península durante a idade do bronze estabiliza-se. Ao epi­sódio da penetração africana de Almeria sucede ' durante aquela idade uma unificação progressiva de cultura e de populações com o resto do oci­dente da Europa, em especial com a França ('). Os povos de Almeria seriam talvez, na sua opinião, os Iberos, que assim, desde o eneolítico, teriam começado a passar à Península. Atri­buindo-lhes o tipo dolicocéfalo mediterrâneo, o

ilustre professor de Barcelona vê nos restos osteológicos das estações de Almeria represen­tantes desse tipo, que se encontraria também no ocidente (Portugal) e a nordeste (Catalunha).

Temos de confessar que, aparecendo os Ibe­ros na história apenas no século VI a. C., tais pontos de vista são em- extremo conjecturais.

Os Lígures seriam, a seu turno, para Bosch (2) compreendidos já nos povos do capsiense, e, segundo muitos autores, a idade do bronze é a «época ligúrica por excelência» devendo atri­buir-se aos Lígures a cultura homogénea do ocidente. Afirmando-se como. negociantes e via­jantes, indo a longes paragens do norte no trá-

(!) Bosch — Ensayo, etc., op. cit., pág. 91 e segs., pàgs. 116 e 112.

(2) Ibid., pag. 115. -

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fico do âmbar, os Lígures surgem também, na opinião de Dechelette, como agricultores, e a repartição de fouces de bronze no território fran­cês marca para aquele arqueólogo a extensão da área ligúrica ('). O depoimento das fouces de bronze, como vimos, é quâsi negativo entre nós para o efeito de se incluir o nosso território em tal área, e a cultura ocidental da idade do bronze não é tão homogénea como se tem afirmado. Os antigos Lígures teem sido considerados braqui-céfalos (Broca, Hervé, Schulten), mas há quem os considere dolicocéfalos, do tipo de Cro-Magnon ou do tipo mediterrâneo (2). Nada de positivo se pode dar como estabelecido a tal respeito.

A verdade é que, os Lígures aparecem pela primeira vez na história no sêc. VII a. C. com Hesíodo. Já tinha então decorrido na Europa ocidental a idade do bronze, e esta na Península continua a pôr-nos, como já as anteriores, em pre­sença de populações antropològicament3 mixtas.

(Conclui no próximo número.)

mendes corrêa.

(1) Dechelette—Manuel, etc., op. cit., t. II, pâg. 13.

(2) O ligure actual, segundo Nicolucci, è braquicè­


íalo. Maurice Piroutet (Quelques reflexions snr Ia ques-
tion ligure—«L'Aiithrop.», t. XXVI, Paris, 1915, pág. 69 e
segs.) inclina-se a que os antigos Ligures, não sendo
homogéneos e sendo de difícil definição, teem como re­
presentante mais p tipo braquicèíalo alpino do que qual­
quer outro.

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