Ensaio sobre o Beijo



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Encontro02.12.2017
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Pequeno Ensaio sobre o Beijo

Fisiologicamente, o beijo na boca é uma troca de secreções. Quando duas bocas, ou duas línguas, se tocam, ocorre um intercâmbio de fluidos, que carregam milhões de germes, bactérias ou vírus. Por isso o beijo é o veículo mais comum de disseminação de doenças. Um beijo pode matar.

Para as pessoas ativas e adeptas dos exercícios físicos, saibam que um beijo de língua movimenta 29 músculos, pode acionar um gasto calórico entre 12 e 14 calorias e aumenta os batimentos cardíacos de 70 para 150 b.p.m. Uma academia de ginástica poderia inventar uma rotina específica com o beijo. Ganharia rios de dinheiro. Os obesos poderiam se beneficiar com uma dieta do beijo. Seria um método infalível. Quem conseguiria desistir desta magnífica dieta?

O beijo também é responsável por incitar o nosso corpo a liberar substâncias como: feniletilamina, ligada ao amor, dopamina, relacionada à emoção e endorfinas, conectadas ao sentimento de prazer. Isso quer dizer que se tivéssemos uma plataforma política de valorização do beijo, e incentivássemos a propagação de cidadãos beijoqueiros, viveríamos em uma sociedade mais justa. Sim, porque indivíduos felizes e plenos, com a sensação que a química do beijo provoca, não se preocupariam em roubar, matar, desviar dinheiro público...

Mas qual a origem do beijo e qual o seu significado atual?

Para os evolucionistas, o beijo remonta a rituais primitivos de acasalamento entre macacos, que se mordiam como forma de demonstração de excitação sexual. Entre os homens e as mulheres das cavernas não existia beijo. Aprenderam com os macacos a dar uma mordidinha ali e outra acolá. Não posso imaginar os pares enamorados da Pré-história sem desfrutar de um beijinho carinhoso. Com certeza já sabiam expressar o seu afeto com lambidas ardentes, outra possível origem do beijo. Que, aliás, dizem os filiados à escola de Darwin, seria apenas um meio de sorver o sal do corpo. O beijo, também, poderia ter se originado do hábito das mães de mastigar os alimentos, para depois dar aos bebês, através da própria boca.

Segundo alguns historiadores, o beijo, da forma como o conhecemos hoje, teria surgido por volta de 500 anos antes de Cristo, na Índia, época em que os amantes começaram a ser retratados em esculturas e murais. O Kama Sutra, o antigo livro hindu das artes do amor e do sexo, enumera dicas e tipos de beijo. Porém, não me fio muito na conversa do Kama Sutra. É o livro mais sacana que eu conheço. Sacana porque aquelas 64 posições sexuais, que ele ensina e preconiza como obrigatórias para o bom amante, só servem para quem pratica ioga em nível avançado.

Na época do Império Romano, e em outros períodos da História, o beijo era tido como demonstração de poder. Somente os nobres podiam beijar a boca do Imperador que, cá entre nós, não devia ter um hálito muito agradável. Quem se deu bem foi o pessoal da classe intermediária, que podia beijar as mãos do excelentíssimo. Já os plebeus da ralé só podiam beijar-lhe os pés xexelentos.

Na Idade Média, que nos presenteou com estórias de amantes ardentes, como Tristão e Isolda, Lancelote e Guinevere, Abelardo e Heloíse, o beijo era mais conhecido como forma de selar acordos. Com a chegada da Peste, esse hábito foi sendo abandonado gradativamente. Pode-se imaginar o porquê.

Os psicanalistas entendem o beijo como um resquício da fase oral, onde o bebê tem o seu primeiro contato com o mundo através da boca. Podemos inferir o grau de satisfação de um bebê, ao sentir a sua fome saciada, após sugar os mamilos da mãe, sentindo-se acalentado e protegido. De acordo com os seguidores de Freud, tentamos reproduzir essa mesma sensação a cada beijo.

Quanto aos tipos, existem beijos com língua e sem língua, beijo maternal ou beijo sensual, beijo fraterno ou beijo erótico, com amor e sem amor, com sexo e sem sexo, seco ou molhado, estalado ou silencioso, rápido ou demorado, estático ou de liquidificador, recatado ou escandaloso, roubado ou consentido, frio ou ardente, beijo sem-graça ou de tirar o fôlego, e tantos quantos os verbetes do dicionário possam adjetivar.

Existem, ainda, beijos com significados especiais ou ritualísticos: o primeiro beijo (aquele selinho envergonhado trocado às escondidas), os beijos da brincadeira de salada mista, o beijo da primeira paixão adulta, o beijo dos noivos no casamento,...

Lembremo-nos, também, de beijos emblemáticos, como o que Judas deu em Jesus Cristo. Esse gesto traidor é considerado um dos mais abjetos da História, mas não foi suficiente para manchar a reputação do beijo.

Alguns beijos geraram ícones tão famosos que consolidaram a imagem de carícia sublime dos poetas e apaixonados em geral. Mas, tal qual o beijo de Judas, podem ser enganosos e traiçoeiros. Veja a imagem da célebre fotografia do marinheiro, tascando um ósculo cinematográfico na enfermeira.



Esta foto foi tirada por um repórter que cobria o primeiro desembarque dos soldados americanos, que voltavam da 2ª Guerra Mundial. O rapaz clicado, que provavelmente não beijava uma mulher há meses, mal sai do navio e agarra a primeira mulher que vê pela frente. Um retrato da euforia do pós-guerra. Muitos homens também voltaram do embate sequiosos do contato com o sexo oposto, custe o que custasse. O resultado todo o mundo já conhece: casamentos precipitados e infelizes, e o “baby boom”, a explosão populacional que formou uma geração que, anos mais tarde, seria o símbolo da competição e do consumismo.

E o que dizer dos beijos, nada pudicos, de Scarlett O´Hara e Rhett Butler, no filme “E o Vento Levou”?





Quem olha para a cara de prazer da atriz Vivien Leigh, não imagina o esforço de interpretação que ela teve que fazer diante do notório e terrível bafo de Clark Gable. Ela devia estar perguntando, mentalmente: “Vai uma balinha de menta aí?”. Ganhou o Oscar com razão!

Outro ícone famoso é o quadro “O Beijo” de Gustav Klimt (1862-1918). O artista revolucionou a pintura, com o aspecto de mosaico bizantino que imprimia em suas obras.



À primeira vista, percebemos uma imagem de cunho erótico. Mas, repare na mulher de joelhos, com cara de submissa, e o homem, que parece subjugá-la em um abraço possessivo e um beijo dominador. Acho que se ela o empurrasse, ele apertaria o seu pescoço...

“O Beijo” de Auguste Rodin (1840-1917) é outra obra de arte que povoa o imaginário dos enamorados.

De fato, é uma escultura maravilhosa, mas não é uma visão masculina do beijo. Está mais para a visão de uma mulher, romântica e sensual. Mas como poderia Rodin ter esta sensibilidade feminina? Rodin tinha uma aluna brilhante, Camille Claudel (1864-1943), que também foi sua amante. Ela era muito talentosa e ajudava-o a esculpir partes de suas obras. Alguns biógrafos acreditam que obras inteiras foram feitas por ela e assinadas somente por Rodin. Estaria “O Beijo” entre elas? Camille, porém, afundou-se em um sentimento obsessivo por Rodin, que a abandonara. Ela enlouqueceu, em seu desespero, e destruía tudo o que criava. Morreu na solidão e na miséria, em um hospital psiquiátrico.

Para mim, o caso de beijo enganoso mais alarmante é o da foto do francês Robert Doisneau, intitulada “O beijo do hotel De Ville”. Tenho essa imagem como o símbolo do beijo e até possuo uma reprodução dela em um quadro, pendurado sobre a cabeceira da minha cama.


Quem o vê, pensa tratar-se do flagrante espontâneo de uma bicota romântica de despedida, trocada entre marido e mulher, que passavam, ao acaso, em uma rua de Paris, no ano de 1950. “Tchau, querida, te vejo depois...”. Essa idéia foi impiedosamente destruída, há pouco tempo, quando a tal mulher beijada, da foto, revelou que ela e o parceiro, também retratado, eram apenas namorados, estudantes da Escola de Belas Artes, contratados por Doisneau para posar para suas lentes. Até os personagens, em volta dos dois, foram estrategicamente escolhidos e arranjados na cena. Pouco tempo depois, ela rompeu o namoro e nunca mais o viu. Anos mais tarde, leiloou um original, presenteado pelo famoso fotógrafo, por uma fortuna. Doisneau se defende: “Eu não ousaria retratar um casal assim. Naquele tempo, só os amantes proibidos se beijavam daquele jeito e, por razões óbvias, não gostariam de ser fotografados”.

Atualmente, vivemos a era do “beijo lésbico”. Evoluímos, quebramos barreiras, destruímos preconceitos e, graças a isso, podemos vivenciar a nossa sexualidade com muito mais liberdade do que há trinta anos. O reverso da moeda é que o sexo, agora, vem embalado para consumo e o beijo se tornou uma estratégia de marketing. Com a pretensão de ser obra de arte pós-moderna e libertária, “O Beijo Lésbico” é um retrato da juventude hedonista e uma idéia estampada em camisetas, pôsteres, cadernos, artigos que engordam os cofrinhos da indústria, especializada na transformação de sonhos em produtos descartáveis.




Independente de suas origens ou de ícones desmascarados, o beijo é uma manifestação de afeto única. Nenhum beijo é igual a outro. É quase uma marca da individualidade de cada um. A impressão do primeiro beijo é a que fica. É a carícia mais íntima que podemos trocar de imediato. Porém, sem aquele arrepio no corpo, aquele frio na barriga, nada feito... Mas quando a química é perfeita, caramba, é uma explosão de sensações! Convenhamos: beijar é bom demais!







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