Ensaio sobre uma fotografia



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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE EDUCAÇÃO
BRUNA TAKAKO NAKAMOTO RODRIGUES- 8602569

ENSAIO SOBRE UMA FOTOGRAFIA

SÃO PAULO
2016
Ao longo do semestre, acompanhei diversas discussões e analises de desenhos e fotografias. Nessas conversas em sala de aula foram levantadas diversas questões, dentre elas algumas sobre as cores mais utilizadas pelas crianças em seus desenhos e outras sobre a forma com que as fotografias foram tiradas, por exemplo.

Segundo José de Souza Martins, 2008:


A fotografia é construção social e colaboradora nos diferentes processos sociais. Como tal, inegavelmente, comporta-se como fonte que colabora nas pesquisas sobre as infâncias e aquilo que se encontra a sua volta”.
Pesando nisso, optei por analisar uma fotografia tirada com o auxílio da câmera do celular, buscando assim examinar de qual forma o espaço físico foi ocupado no momento em que a foto foi realizada.

Referente ao auxilio do celular para a o registro de fotos, sabe-se que hoje, dificilmente, as fotografias são reveladas e colocadas em quadros. Pode-se observar que a maioria dos quadros existentes de uma casa são compostos por fotos antigas, pois atualmente as pessoas não têm costume de revelar as fotografias, como as populações mais antigas tinham, como maneira de recordação. Hoje as fotos são, em sua maioria, armazenadas em arquivos no computador ou em redes sociais.

Além disso, o uso da câmera fotográfica está cada vez mais relacionado a fotografia profissional. Hoje, com celulares com potências fotográficas muito melhores que a de algumas câmeras, as pessoas não costumam mais comprar as máquinas e quando a possuem a utilizam para fotografar momentos em viagens ou eventos socais. A imagem do cotidiano é normalmente registrada com o aparelho celular.



No entanto, independente do instrumento que foi utilizado para a realização da foto, ao analisar uma fotografia é necessário atentar-se às suas particularidades e pensar sobre além do que pode ser visto ali. É importante dizer que uma fotografia materializa momentos já vividos, remonta situações, emoções, pessoas e memórias, mas ela também nos fazer pensar sobre o agora. Analisando uma fotografia podemos observar as mudanças que já ocorreram com as pessoas presentes nela e com o ambiente desde o momento em que a fotografia aconteceu, por exemplo.
“Na projeção, ou mesmo na exibição das fotos, de modo ritualístico ou como mera exibição de cenas da vida em sequência, aspectos do cotidiano são recriados e aprende-se com eles numa dinâmica contínua e, ás vezes, pouco percebida por aqueles que estão envolvidos com tais imagens.” (GOBBI, Marcia. 2011, p.1221)




(Foto: Crianças no parque CERET, Zona Leste de São Paulo. 2016)
A imagem fotografada no início de 2016 foi selecionada principalmente por não haver composições posadas que seguem padrões e ser uma foto espontânea, sem a intervenção de um adulto em relação à posição corporal das crianças.

A fotografia foi tirada no parque CERET localizado na zona leste da cidade de São Paulo, no bairro Anália Franco. Esse parque possui uma área com quadras de futebol, basquete, vôlei, tênis, piscinas, parquinhos, além de uma área reservada para as crianças andarem de skate, patins e bicicleta. Durante os fins de semana e principalmente em datas comemorativas, o parque oferece diversas atividades à comunidade. Por conta de sua grande infraestrutura, o local recebe pessoas de diferentes classes sociais e de diversas partes da cidade de São Paulo.

A imagem acima tem como foco três crianças que estão brincando em um dos parquinhos disponíveis no parque, em que há diferentes recursos que as crianças podem utilizar. Um deles é onde as três crianças, um menino e duas meninas, estão e que foi construído com pneus de caminhão, colocados um ao lado do outro para que as crianças possam pular e transitar por cima deles.

Já no segundo plano, podemos ver diversas árvores e grupos de pessoas, além de outras estruturas que também utilizam pneus em sua formação, como os balanços que estão sendo utilizados tanto por crianças, quanto por adultos, e os bancos onde adultos estão sentados enquanto observam as crianças.

A imagem foi fotografa durante um final de semana, o que justifica o número relevante de pessoas presentes no parque. É interessante observar que a maioria das pessoas ali está com os seus familiares, pois encontramos um grande número de adultos e a sua maioria está perto de crianças.

Podemos analisar a fotográfica acima por diferentes perspectivas. O nosso objetivo principal é problematizar o local em que as crianças se encontravam na ocasião em que foi registrada.

Conversando com as famílias que estavam naquele local, conseguimos perceber que cada vez mais os pais ou responsáveis optam por levar as crianças em lugares públicos, porém fechados, a fim de garantir a maior segurança das crianças.

Hoje não é comum ver crianças brincando nas ruas como antigamente. Há muito tempo atrás se viam crianças apropriando-se dos espaços urbanos para brincarem usando a criatividade. Devido às mudanças que ocorreram durante os anos, sobretudo ao longo do século XX, por conta do progresso da população, o aumento da movimentação de automóveis nas ruas e as medidas que foram tomadas para comportar essas transformações, atualmente, é difícil encontrar crianças apropriando-se do espaço da cidade para este fim. Além dessas transformações, outro aspecto que dificulta a brincadeira nos espaços da cidade é a violência.

Segundo Fernanda Muller e Brasilmar Nunes, 2004:


“A segurança garantida pelo núcleo familiar ampliado se rompe na metrópole dada a enorme diferenciação de indivíduos nela presentes. Esta heterogênea composição individual e social transforma a cidade em terreno de incerteza e insegurança.”
Esta insegurança que a população sente diante da violência, influencia na socialização das crianças com o espaço público, pois os adultos têm receio de autoriza-las a brincarem na rua, dificultando assim, a relação com este ambiente.

Cada vez mais a relação com o espaço urbano muda e com isso as brincadeiras que antigamente eram na rua estão mudando de lugar. Ás novas tecnologias e principalmente o grande índice de violência traz diversas perdas para essa nova geração como a falta de atividade física, dificuldade em lidar com o risco, além da pouca socialização com crianças que não estão no seu circulo social.

Hoje, com o desenvolvimento da tecnologia, as crianças possuem uma grande diversidade de brinquedos e recursos. O contato com a natureza diminuiu drasticamente e cada vez mais as crianças deixam de inventar, descobrir e se aventurar, para brincar com algo que é oferecido a elas pronto, sem muitas oportunidades de reinventar.

Além disso, ao fazermos a observação daquele espaço pudemos perceber que há uma escassez de espaços públicos adequados e convidativos para que as crianças possam brincar. Esses ambientes precisam ser acolhedores e prazerosos para que elas possam criar e recriar suas brincadeiras sentindo-se independentes. Segundo Horn, 2004. p. 28:


“É no espaço físico que a criança consegue estabelecer relações entre o mundo e as pessoas, transformando-o em um pano de fundo no qual se inserem emoções [...] nessa dimensão o espaço é entendido como algo conjugado ao ambiente e vice-versa. Todavia é importante esclarecer que essa relação não se constitui de forma linear. Assim sendo, em um mesmo espaço podemos ter ambientes diferentes, pois a semelhança entre eles não significa que sejam iguais. Eles se definem com a relação que as pessoas constroem entre elas e o espaço organizado.”

O parque que observamos oferece brinquedos às crianças, porém em sua maioria são para crianças menores, de 1 a 4 anos, fazendo com que os mais velhos percam um pouco o interesse em ir para esses espaços urbanos, preferindo ficar em casa, normalmente fazendo uso de computadores e tablets.

Outro ponto interessante a se analisar é que atualmente as construtoras têm investido em condomínios com diferentes áreas de lazer o que faz com que os pais e responsáveis prefiram deixar as crianças dentro desse espaço, pois possui mais segurança e está dentro do alcance deles.

Porém, essa facilidade não atinge a maioria da população. Sabemos que a realidade em nossa cidade não é a melhor e a mais ideal, tanto no sentindo de lazer e cultura, quanto no quesito segurança, que já foi descrito acima.

Entretanto, não podemos negar que a cidade tem sido palco de alguns projetos de lazer e cultura, um exemplo é o fechamento da Avenida Paulista aos domingos, porém esses projetos estão em sua maioria localizados no centro da cidade e a locomoção até esses espaços não facilita a chegada dos morados das periferias que talvez sejam os que mais precisam de espaços como esse.

Através da fotografia escolhida refletimos que, com as mudanças ocorridas no meio urbano a partir do século XX, as crianças perdem cada vez mais espaços coletivos e públicos para brincarem e interagirem. A relação com o outro é de extrema importância para seu desenvolvimento.

De acordo com José de Souza Martins 2008:
"A vida complexa, cheia demais, cheia de gente, de edifícios, de coisas sem vida, congestionada de solicitações visuais encontrou na fotografia um meio de registrar e guardar o que "vale a pena", o que queremos que fique." (p. 40)
Isso acontece porque no século XXI as pessoas deixam de lado a interação com o outro para focar nas responsabilidades e deveres do dia a dia.

É importante lembrar que cada criança transmite na fotografia sua maneira de pensar e agir, seja um suspiro durante a brincadeira, um andar ou um olhar diferente. A fotografia está presente na vida dos cidadãos desde o século XIX, porém hoje o olhar sobre a foto é banalizado, está tão naturalizado em nossa cultura e infelizmente, não a olhamos, apenas as vemos. Observar e interpretar fotografias é algo único, cada pessoa a vive de uma maneira diferente e esta é a verdadeira essência: a especificidade de cada momento.


“Em cada caso, estamos em face de uma mentalidade diferente, modos diferentes de ver e fotografar, bem como modos diferentes de “ler” e interpretar a fotografia.” (MARTINS, José, 2008, p.53)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GOBBI, Marcia. Usos sociais das fotografias em espaços escolares destinados à primeira infancia. Educ. Soc. [online]. 2011, vol.32, n.117, pp. 1213-1232. ISSN 0101-7330

MARTINS, José de Souza. A fotografia e a vida cotidiana: ocultações e revelações. In: Sociologia da Fotografia e da Imagem. São Pualo. Editora Contexto, 2008.



Müller, Fernanda e Brasilmar Ferreira Nune. Infância e cidade: um campo de estudo em desenvolvimento, in: Educ. Soc.,Campinas, v. 35, nº 128, p. 629-996, HORN, Maria da Graça de Souza. Sabores, cores, sons, aromas. A organização dos espaços na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2004. 

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