Ensaios de economia sraffiana



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A Acumulação e o Gasto Improdutivo na Economia do Desenvolvimento*

Franklin Serrano**


[ versão de 15.4.2001]


  1. Introdução


O objetivo deste trabalho é discutir o papel jogado nas teorias do desenvolvimento e acumulação dos níveis e taxas de crescimento do que a economia política clássica chamava de ‘gasto improdutivo’ . A característica marcante deste tipo de gasto é que ele não cria capacidade produtiva e , ao mesmo tempo, não é financiado pela folha de salários da economia.

O termo ‘gasto improdutivo’ será usado neste trabalho para designar todas as despesas que ajudam a realizar (vender) o produto da economia mas não criam capacidade produtiva,

menos a parte da folha salarial que retorna “automaticamente” ao conjunto das empresas e que representa o consumo induzido dos trabalhadores.1

Como estamos interessados no papel macroeconômico do gasto improdutivo, vamos interpretar esta categoria de gastos num sentido amplo, independente de sua forma específica ou do agente ou instituição que o efetue.2

Iremos examinar o papel desta noção de gasto improdutivo nas teorias do desenvolvimento em que a acumulação de capital é a principal restrição (interna) ao crescimento à longo prazo. Veremos como que, no âmbito destas teorias do desenvolvimento , desde Prebisch (1949) tem havido uma tendência majoritária de encarar o gasto improdutivo como um desperdício, que acaba por ter consequencias negativas, seja para a taxa de acumulação de capital da economia ou então sobre a distribuição funcional da renda e a inflação.

Tentaremos mostrar que este tipo de visão decorre de um enraizado viés normativo das teorias do desenvolvimento e sua tendência a analisar como se fossem economias planejadas racionalmente o processo de desenvolvimento em economias que na realidade são economias capitalistas.

Argumentaremos que a economia do desenvolvimento só conseguiu se libertar deste tipo de visão quando os economistas que fundaram a escola da Unicamp passaram a analisar a economia em desenvolvimento como um certo tipo de economia capitalista, utilizando a teoria com a qual Kalecki analisava as economias desenvolvidas em vez de pensar as economias periféricas como se estas fossem economias planejadas. Só então foi possível perceber a importância que a expansão do gasto improdutivo como estímulo (e não impedimento) à acumulação de fato tem tido no capitalismo em geral e historicamente teve na expansão do mercado interno de países em desenvolvimento com distribuição desigual da renda como o Brasil.

Veremos que mais tarde a própria escola de Campinas se voltou para um outro tipo de análise, onde a ênfase está nos possíveis determinantes financeiros e tecnológicos do investimento autônomo , deixando a questão do papel do gasto improdutivo em superar o “problema de realização dinâmica” em segundo plano.

Neste trabalho , escrito da perspectiva da abordagem clássica do excedente retomada por Sraffa3, que reforça teóricamente o ponto de vista de Kalecki sobre a importância da demanda efetiva à longo prazo, reafirmaremos o papel central que o gasto improdutivo desempenha como estímulo à acumulação, através de uma análise baseada num modelo do supermultiplicador clássico ou Sraffiano, um esquema onde a distribuição é exógena ao processo de acumulação e a economia cresce puxada pelo efeitos acelerador e multiplicador da expansão do consumo improdutivo.4

O artigo está organizado da seguinte forma. Na seção II apresentamos um esquema analítico simples que nos permita comparar as diversas teorias da acumulação e distribuição. A seguir examinamos criticamente a visão Ricardiana e análise da CEPAL sobre a relação negativa entre gasto improdutivo e a acumulação de capital e o crescimento do produto , que ocorreria através da redução da poupança (seção III).

Em seguida, discutiremos uma outra visão, originada pelo próprio Kalecki quando tratava de economias em desenvolvimento ou “mistas” e também por Kaldor em sua “teoria da distribuição de Cambridge”, de que o gasto improdutivo numa economia em desenvolvimento eleva a inflação e leva à concentração da renda pelo mecanismo de extração de “poupança forçada” dos trabalhadores . Esta visão era também presente no pensamento da CEPAL e foi recentemente retomada por pesquisadores ligados a UNCTAD para explicar as diferentes performances das economias Asiáticas e Latino Americanas (seção IV).

Apresentamos então a visão sobre o papel dinâmico que a expansão do gasto improdutivo tem no processo de acumulação liderado pela demanda efetiva e a análise original da Unicamp (seção V).

A discussão prossegue (na seção VI) com a análise crítica de visões onde o investimento é autônomo à longo prazo, como a que predomina nas análises mais recentes da escola da Unicamp, com sua ênfase nos limites financeiros ao investimento agregado à longo prazo. A seção VII completa a critica, discutindo a idéia de investimento autônomo baseado em inovações e apresenta o mecanismo do investimento induzido e do supermultiplicador como esquema teórico mais adequado para analisar o efeito da expansão do gasto improdutivo autônomo sobre o processo de acumulação. Na seção VIII acrescentamos uma breve observação conclusiva.

II Teorias da Acumulação e Distribuição : Um Esquema Simples


Nossa análise será desenvolvida em um alto grau de abstração sob a hipótese simplificadora de economia fechada. A justificativa para esta hipótese, que retira da discussão o que na prática é de longe a restrição mais importante ao desenvolvimento econômico, está no fato de que queremos discutir aqui apenas o papel do gasto improdutivo sobre a acumulação de capital e a restrição interna ao crescimento , independentemente da forma de inserção externa e severidade das restrições da balança de pagamentos. Até por sua grande importância, a questão externa certamente merece um tratamento próprio em separado (ver a respeito Medeiros e Serrano (1999) e Medeiros & Serrano (2001), neste volume).

Além disso , é importante enfatizar que as diversas teorias da acumulação e desenvolvimento discutidas abaixo estão em acordo que o gasto improdutivo , se for atendido por importações, certamente será deletério ao crescimento da economia. Deste ponto de vista, de fato o gasto improdutivo importado se configura como mero desperdício de divisas, que não apenas poderiam ser usadas de outra forma como também, ao criar ou agravar problemas de balança de pagamentos, pode impor altos custos à economia, seja em termos inflacionários, distributivos ou de diminuição do seu ritmo de crescimento. 5

O elemento central das teorias neoclássicas ou marginalistas do crescimento é idéia de que a distribuição funcional da renda é determinada pelo equilíbrio entre oferta e demanda dos fatores de produção. Nestas teorias a força de trabalho é considerada escassa e tende , em condições competitivas, a ser plenamente empregada.6

As teorias não-neoclássicas do crescimento , ao abandonarem a determinação da distribuição da abordagem ortodoxa, permitem tratar o fato de que no capitalismo a expansão da força de trabalho à longo prazo acompanha endogenamente o crescimento da economia e das oportunidades de emprego. Isso se dá por diversos caminhos , seja por imigração internacional ou absorção de mão-de-obra dos setores atrasados e/ou informal , por mudanças na taxa de participação, etc. Esta tendência secular de adaptação do tamanho da força de trabalho às oportunidades de emprego , somadas ao progresso técnico, que continuamente tende a reduzir a quantidade de mão-de-obra requerida por unidade de produto, fazem com que , ao contrário da teoria neoclássica do crescimento, nestas teorias a expansão da força de trabalho não se constitua num obstáculo fundamental para a expansão da economia capitalista. Nas teorias não-neoclássicas a força de trabalho simplesmente não é escassa. Assim, o fator interno que acaba limitando o nível do produto potencial é o estoque de capital disponível. Desta maneira, a velocidade do crescimento à longo prazo do produto potencial fica dependendo do ritmo de acumulação de capital. Por isto podemos chamar o conjunto de teorias que tem esta característica genericamente de teorias da acumulação.

Nas teorias da acumulação, a expansão da capacidade produtiva depende do montante de investimento e da tecnologia , representada pela relação produto-capital.7

Para ilustrarmos as diversas teorias da acumulação e distribuição vamos partir do esquema abaixo8 que mostra de um lado os componentes da renda e de outro os componentes do gasto de nossa hipotética economia capitalista fechada.



renda (produto) gasto (demanda)

salários+lucros = consumo induzido + investimento +gasto improdutivo

dos trabalhadores

Vamos fazer mais uma hipótese simplificadora, a de que os trabalhadores consomem todos os seus salários . Assim a relação acima se reduz a :



lucros = investimento + gasto improdutivo

que simplesmente mostra que necessariamente no agregado, quando os trabalhadores gastam o que ganham, o que os capitalistas ganham e o que gastam tem necessariamente o mesmo valor.

Para completarmos nosso esquema simples basta ver que os lucros realizados podem sempre ser escritos, por definição, como o produto da parcela dos lucros pelo nível de produto assim ficamos com a seguinte relação :

produto x parcela dos lucros = investimento + gasto improdutivo [1]

Podemos agora analisar as diversas teorias da acumulação e distribuição como visões alternativas sobre como ler a expressão [1] acima em termos de causalidade. Nas próximas seções apresentaremos as diversas teorias da acumulação e da distribuição, assim como sua relação com as teorias do desenvolvimento, a partir deste esquema.


III. A ‘Lei de Say’ e a CEPAL


Uma primeira leitura da relação [1] acima talvez pudesse ser chamada de ‘Ricardiana’. Nesta versão, a parcela dos lucros no produto é dada exogenamente pela tecnologia e por um salário real determinado pelo custo de reprodução socialmente determinado da força de trabalho , de acordo com a abordagem clássica do excedente.

O nível de produto efetivo é visto como determinado diretamente pelo produto potencial já existente. Este passo crucial é feito de forma bastante arbitrária através da chamada “Lei de Say” que postula , mas não explica porque nem como , que “a oferta cria sua própria procura” e que portanto, subtraindo o consumo agregado dos dois termos da frase anterior, “a poupança determina o investimento”.9

Nesta visão, todo o excedente potencial sempre é automaticamente realizado e não existem problemas de demanda efetiva. Assim, dado os lucros potenciais , o investimento será aquilo que sobrar do gasto improdutivo. Em outras palavras, a poupança (potencial) determina diretamente o investimento. Neste caso lemos nossa relação [1] como:

investimento = (produto x parcela dos lucros) - gasto improdutivo

Quanto maior o nível do gasto improdutivo, menor será o nível de investimento e a taxa de crescimento da capacidade produtiva da economia à longo prazo.

Sob este ponto de vista , é evidente que o gasto improdutivo é um entrave ao crescimento da economia, pois trata-se de um uso estéril de um excedente que de outra forma seria (automaticamente, por hipótese) investido na ampliação da capacidade produtiva futura da economia.

Esta visão teve (e ainda tem) forte influência na economia do desenvolvimento. Prebisch (1949, p. 76-77) em seu manifesto estruturalista, logo depois de afirmar a necessidade de um aumento na acumulação de capital e dizer que para isto “..não parece indispensável refrear o consumo das grandes massas, que em geral é extremamente baixo”, argumenta que “ ...a formação de capital tem que lutar contra uma tendência muito acentuada a certas modalidades de consumo , que muitas vezes se mostram incompatíveis com um grau elevado de capitalização” e que o esforço de acelerar a acumulação “..em geral não se compatibiliza com o tipo de consumo de alguns setores da coletividade” .

Prebisch insiste que este consumo excessivo de “alguns setores da coletividade” (gasto improdutivo em nosso esquema) “é uma manifestação do conflito latente entre o propósito de assimilar às pressas certos estilos devida que os países de técnica mais avançada forma alcançando progressivamente , graças ao aumento de sua produtividade , a as exigências de uma capitalização sem a qual não nos será possível conseguir um aumento semelhante”.10

Prebisch portanto vê o gasto improdutivo como reduzindo a poupança e a partir daí o investimento e o crescimento à longo prazo da capacidade produtiva nas economias latino-americanas. De forma mais geral, a crítica ao gasto improdutivo e a idéia de falta de poupança como principal restrição interna ao crescimento sempre foi a visão dominante (mas não unânime, como veremos) na CEPAL . Celso Furtado teve importante papel no desenvolvimento e difusão deste ponto de vista. Para Furtado "... na medida em que o consumo da minoria de altas rendas deve acompanhar a evolução do consumo dos grupos de rendas médias e altas de países muito mais ricos - processo que é facilitado pela posição dominante das firmas internacionais na introdução de novos produtos e na direção da proppaganda- os limitados recursos disponíveis para investimento tenderão a ser absorvidos na diversificação do consumo da referida minoria, em prejuízo do referido processo de difusão. Em consequência, a aceleração do crescimento do consumo dos grupos de altas rendas terá como contrapartida a agravação do subdesenvolvimento, na medida em que este significa disparidade entre os níveis de consumo de grupos significativos da população de um país." (1972, p.31).11

Um exemplo importante da força da idéia da insuficiência de poupança , agravada pelo gasto improdutivo excessivo resultante da imitação de padrões consumo de países mais avançados, no pensamento da CEPAL aparece décadas mais tarde, quando Fernando Fajnzylber (1992) propõe a idéia de “crescimento com equidade” (ver Bielschowsky(2000)).

Fajnzylber(1992) então se depara com um problema de difícil solução. De um lado crê que a poupança determina o investimento e aceita o fato de que, dada a relação técnica produto-capital , o montante de investimento determina o aumento do produto potencial.12

Fajnzylber(1992) sabe que os trabalhadores poupam menos que os capitalistas mas quer reduzir a parcela dos lucros na renda por motivos de equidade. No entanto não quer diminuir o investimento para não prejudicar o crescimento. Argumenta que é possível em parte reduzir o efeito da queda da parcela dos lucros sobre a poupança e o investimento se forem adotadas políticas de desestímulo ao consumo de luxo (gasto improdutivo).

Porém, sabe que não há como fugir do fato de que a propensão a consumir dos capitalistas é menor do que a dos trabalhadores e que portanto a redistribuição de renda fatalmente, em seu esquema “Ricardiano” (como o descrito acima), vai ter como efeito líquido a redução do investimento.

Apela então em ultima instância para o argumento de que como o padrão de consumo dos trabalhadores seria diferente dos capitalistas, as tecnologias produtoras dos bens consumidos pelos últimos seriam menos intensivas em capital , energia e recursos naturais escassos .

Sob esta hipótese arbitrária , que Fajnzylber(1992, p. 9) admite não ser de difícil comprovação empírica (ver também Bielschowsky(2000, p. 61)), a relação produto-capital agregada após a redistribuição seria maior e assim, felizmente, seria possível compatibilizar uma parcela menor dos lucros e da poupança e do investimento no produto com um crescimento idêntico (ou maior) da capacidade produtiva à longo prazo.

A dificuldade de conciliar uma louvável visão redistributiva com o apego da CEPAL à “Lei de Say” fica neste caso bem patente.

A visão dominante na CEPAL sobre o gasto improdutivo capitalista era que este era um desperdício que reduzia a capacidade de poupança e o investimento das economias em desenvolvimento. 13

Dado que a crítica Keynesiana à “Lei de Say” era bastante conhecida pelos técnicos da CEPAL , nos parece que o apego à idéia de insuficiência de poupança e a crítica ao gasto improdutivo só podem ser resultado de um viés normativo no qual não se analisava o processo de acumulação do capitalismo latino americano em si e sim se discutia como planejar racionalmente este processo com fins de desenvolvimento. Neste caso, se o governo controla diretamente os níveis agregados de consumo e investimento evidentemente o consumo de luxo ou capitalista se torna apenas um “desperdício” a ser evitado em nome da acumulação.

IV. Kalecki, Cambridge, CEPAL e UNCTAD


Fora da economia planejada, o apelo à arbitrária “lei de Say” na qual a poupança potencial determina o investimento implica ignorar a principal contribuição teórica de Keynes (e Kalecki) que se traduz no principio da demanda efetiva a partir do qual, mesmo à longo prazo , numa economia monetária, é o montante de investimento que determina a poupança agregada da economia , através de variações da renda (nominal e/ou real).14

As teorias da acumulação desenvolvidas depois da contribuição Keynesiana incorporam a validade do princípio da demanda efetiva à longo prazo em suas análises.

Existem no entanto, basicamente duas versões deste principio através do qual os gastos em investimento geram, à longo prazo, um montante agregado equivalente de poupança. Estas duas versões dão origem a teorias da acumulação e distribuição bastante diversas.

A primeira versão supõe que a longo prazo poupança requerida é gerada pela inflação e pelas mudanças por ela induzidas na distribuição funcional da renda. A segunda versão argumenta que à longo prazo o investimento gera poupança através de variações do produto, através do conhecido mecanismo do multiplicador. Na primeira versão, baseada na distribuição, a renda real não varia com um aumento do investimento, apenas a sua distribuição se altera em favor da classe que poupa maior fração de seus rendimentos. Na segunda versão, a distribuição não se altera e a produto e renda real é que são a variável de ajuste.15

Vejamos agora o papel do gasto improdutivo na teoria da acumulação baseada na versão de longo prazo do princípio da demanda efetiva na qual o investimento gera poupança através de mudanças na distribuição. Esta teoria , chamada de teoria Keynesiana da distribuição , pois teria sido formulada originalmente por Keynes ao analisar uma situação de economia de guerra dos anos 4016, também ficou conhecida como ou teoria da distribuição de Cambridge, por ter sido proposta na década de 50 como teoria válida em condições normais do capitalismo por alguns economistas ligados a aquela escola como Nicholas Kaldor, Joan Robinson e Luigi Pasinetti (entre outros).

De acordo com esta teoria, o produto à longo prazo também se ajusta a um nível pré-determinado do produto potencial existente . A idéia aqui é que , por exemplo, um aumento autônomo das decisões de investir, partindo de uma situação de plena capacidade, geraria um desequilíbrio entre oferta e demanda agregada , um excesso de demanda que faria os preços aumentarem em relação aos salários nominais. Esta inflação de demanda, ao gerar a mudança na distribuição , transferiria renda de uma classe que poupa menos (ou nada) para a classe que poupa mais , permitindo o aumento da poupança através da chamada “poupança forçada dos trabalhadores”. Ao diminuir o salário real a inflação reduziria o consumo dos trabalhadores e compatibilizaria assim o maior investimento com o produto potencial dado.

De maneira absolutamente simétrica, se o investimento se reduzir, cria-se um excesso de oferta agregada à longo prazo e supõe-se que os preços caiam em relação aos salários . Isto gera um aumento dos salários reais e do consumo dos trabalhadores que preenche o espaço aberto pela queda do investimento.

Nesta teoria, a parcela dos lucros no produto será determinada pela fração do produto potencial que os capitalistas desejam gastar seja em gasto improdutivo e em investimento. Como os capitalistas tem riqueza acumulada e acesso a crédito e os trabalhadores recebem rendas contratuais , a inflação é usada para compatibilizar os gastos capitalistas desejados com o produto potencial pré-determinado.

Em termos do nosso esquema temos que as variáveis independentes nesta visão são as decisões de investimento , o nível de produto efetivo (dado pelo potencial) e o gasto improdutivo, enquanto a variável dependente é a parcela dos lucros no produto. Para representar esta teoria nossa relação [1] deve ser lida como:

parcela dos lucros = investimento + gasto improdutivo

------------------------------------------

produto

Nesta teoria de Cambridge, o gasto improdutivo não afeta negativamente a acumulação de capital, pois o investimento é determinado independentemente . O que ocorre é que, dadas as decisões de investir, quanto maior for o gasto improdutivo maior terá de ser a parcela dos lucros no produto para acomodar tanto o investimento quanto o gasto improdutivo.

Desta maneira um aumento do gasto improdutivo , embora não atrapalhe nem ajude a acumulação, torna-se um fardo para os trabalhadores pois gera inflação e uma maior desigualdade da distribuição de renda . Quanto maior o gasto improdutivo menor será o consumo induzido dos trabalhadores à longo prazo.

Esta visão também foi muito influente no pensamento desenvolvimentista. Na realidade, esta teoria é o que está por trás de um certo fatalismo a respeito da tendência à inflação e à concentração de renda (vistas como inevitáveis durante o processo de desenvolvimento) que encontramos em boa parte desta literatura.

Comecemos pelo próprio Kalecki . Kalecki reiteradas vezes afirmou que não aceitava a teoria da distribuição de Cambridge ( a qual vários autores inclusive lhe atribuiam a autoria) no que diz respeito as economias capitalistas maduras , sujeitas à longo prazo a uma restrição de demanda efetiva.

No entanto no que diz respeito as economias em desenvolvimento que ele chamava de “mistas” e considerava sujeitas a uma restrição de oferta de capacidade produtiva, Kalecki(1953) em conferência apresentada no México seguia exatamente o raciocínio descrito acima para uma situação de excesso de demanda. Achava que a inflação é que gerava, via mudanças na distribuição, a poupança correspondente ao nível de investimento.

Na mesma linha, insistia no combate ao gasto improdutivo nas economias mistas que, se não fosse reduzido, tornava necessária mais inflação e mais concentração de renda para um dado nível de investimento e além do mais se fazia às custas do consumo dos trabalhadores.

As mesmas idéias foram defendidas por Kaldor(1956) após sua visita ao Chile (Palma (1989)) . Combinando sua teoria da distribuição com a idéia Cepalina do gasto improdutivo na América Latina ser desproporcionalmente elevado e suntuoso imitando os padrões de consumo dos países ricos, Kaldor passou a argumentar que o gasto improdutivo era responsável na economia latino americana não por um lento ritmo de acumulação, mas pela tendência a concentração de renda e inflação.

A partir de então, esta idéia se difundiu entre alguns autores ligados à CEPAL, particularmente através da influência de Anibal Pinto. De acordo com Anibal Pinto a inflação cumpria o papel de gerar poupança forçada pois a poupança voluntária “...não foi suficiente para reunir todos os recursos exigidos pelo investimento privado e pelo crescente gasto público...por essa maneira se criaram forçosamente as ‘poupanças’ necessárias aos agentes públicos e privados para financiar parte importante dos seus investimentos”( Pinto(1978), p. 24, citado por Bastos(2001)). Alguns outros economistas da CEPAL como, por exemplo, Lessa(1983) e até Tavares(1967), passaram a utilizar argumentos semelhantes.

O investimento não seria limitado por falta de poupança, pois sempre haveria a poupança forçada dos trabalhadores que em última instância resolveria o problema . As dificuldades de conseguir uma quantidade e o tipo de investimento desejados, mesmo quando de natureza financeira , nada tinham a ver com uma insuficiência de poupança agregada. Além disso, diversos autores estruturalistas ou neo-estruturalistas também criticaram o caráter inflacionário e concentrador de renda do consumo capitalista excessivo das elites latino-americanas (Bacha & Taylor(1976)).

Recentemente, no âmbito de pesquisas da UNCTAD, Palma (1996) (retomando um argumento de Marcel & Palma(1989)) relembrou a visita de Kaldor ao Chile e propôs a explicação para a melhor performance em termos de investimento com uma menor parcela dos lucros na renda e menos inflação na Ásia comparada à América Latina dos anos 80 e 90 a partir do fato de que na Ásia, por uma série de motivos culturais e políticos, o padrão de consumo suntuoso e excessivo latino americano não era seguido pelas elites locais e portanto o consumo capitalista nestas economias era proporcionalmente melhor. Outros autores ligados a UNCTAD como Akyuz & Gore(1994) compartilham deste ponto de vista e argumentam que o combate ao gasto improdutivo melhora o que chamam “investment–profit nexus” pois permite conciliar o mesmo investimento com uma menor parcela dos lucros.

O problema com este tipo de argumento vem da grande implausibilidade do mecanismo pelo qual a demanda efetiva determina a distribuição na teoria de Cambridge.17

No caso de um excesso de oferta agregada , é absolutamente improvável que à longo prazo os preços caiam em relação aos salários nominais da forma descrita pela teoria. Faz muito mais sentido, diante de uma redução da demanda agregada, uma economia capitalista reduzir a produção até o ponto em que essa se iguale à demanda efetiva aos preços de oferta que preenchem os requisitos mínimos de rentabilidade.

A idéia de que as firmas reduziriam seus preços até enriquecer os trabalhadores o suficiente para estes restabelecerem com seu consumo um nível de demanda agregada de plena capacidade só faria sentido se o objetivo das firmas fosse maximizar a produção e venda em vez de buscar o lucro.18

No caso oposto, de um excesso de demanda agregada , é verdade que é provável que, se este excesso chegar a exaurir as margens de capacidade ociosa planejada das empresas, os preços acabem por subir em relação aos salários. No entanto, seria um fenômeno de curto prazo que aliás gera um forte incentivo ao investimento e à ampliação da capacidade produtiva.

A teoria de Cambridge só pode ser aproximadamente válida à longo prazo, quando o efeito de criação de capacidade do investimento tem que ser levado em conta, se se postula que a economia tem uma tendência estrutural e crônica a ficar em situações de excesso de demanda agregada, se de alguma forma a demanda agregada sempre está um passo adiante da capacidade produtiva.

Kalecki por exemplo acreditava que isso era altamente improvável nas economias capitalistas maduras e sempre argumentou que o mecanismo de “poupança forçada” da teoria de Cambridge só fazia sentido para estas economias no curto prazo, quando poderiam haver gargalos devido a restrições temporárias na oferta de bens-salários.

No entanto, como vimos acima, o próprio Kalecki utilizava a teoria de Cambridge para as economias mistas em desenvolvimento.

O motivo mais uma vez parece ser o viés normativo. Kalecki está pensando em situações onde o governo tem o desejo e a capacidade de planejar o investimento agregado (público e privado) e deseja aumentar substancialmente a taxa de investimento da economia. Assim a hipótese de excesso de demanda agregada crônico passa a fazer sentido pois se supõe que o governo de fato deseja gerar este excesso no contexto de acelerar drasticamente a acumulação de capital através do planejamento econômico.

Fica difícil no entanto supor como Kaldor, Kalecki e tantos outros que, nos países capitalistas em desenvolvimento por eles analisados através desta teoria, os governos tenham tido tamanho controle sobre da taxa de investimento e tão grande vontade de investir. Certamente nem as economia latino-americanas e asiáticas nos anos 80 e 90 nem a chilena nos anos 50 e também dificilmente a brasileira dos anos 50 a 70 podiam ser caracterizadas como economias planejadas com excesso de demanda agregada crônico, onde o governo controla inteiramente a taxa de investimento e a aumenta drasticamente às custas da parcela salarial.

Neste caso, novamente surge uma certa confusão entre uma análise normativa do que ocorreria se a economia em desenvolvimento fosse planejada e o que de fato ocorre no processo de desenvolvimento das economias capitalistas periféricas, onde a participação do Estado pode grande mas que não se configuram de forma alguma enquanto economias “mistas” planejadas .

Vemos que a conclusão de que o gasto improdutivo é o responsável pela má distribuição de renda e pela tendência à inflação, assim como a idéia da tendência inevitável a que o crescimento venha associado com inflação e queda na parcela salarial, depende inteiramente da aplicação inadequada de uma teoria normativa do planejamento a uma realidade onde a acumulação não segue um plano racional.19


V. “O Problema da Realização Dinâmica” e a UNICAMP I


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