Ensinar a condiçÃo humana: a inclusão e a diversidade no ensino superior a partir de um relato de experiência



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ENSINAR A CONDIÇÃO HUMANA: A INCLUSÃO E A DIVERSIDADE NO ENSINO SUPERIOR A PARTIR DE UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Agesilau Silva de Carvalho Neto (UNIFOR) agecarvalho@hotmail.com, Fabíola Cristina dos Santos Silveira (UNIFOR) fabiolac_@hotmail.com, Terezinha Teixeira Joca (UNIFOR) terezinhajoca@unifor.br.

RESUMO
O presente artigo trata-se de um relato de experiência de estágio em psicologia, desenvolvido em um programa de apoio aos estudantes da Universidade de Fortaleza. Assim, este trabalho possui como objetivo principal problematizar a inclusão e a diversidade em um programa de apoio psicopedagógico no ensino superior. Para isto, também objetivou-se discutir o papel da educação referente a inclusão numa IES; investigar como ocorre a acessibilidade na IES; analisar as contribuições da prática psicológica em um programa de apoio ao aluno. Com relação a coleta de dados, paralelamente a descrição das atividades desenvolvidas foi realizada uma revisão de literatura especializada que se deteve nas temáticas de inclusão e educação. Nesta conjuntura, percebe-se que para além de uma mudança estrutural que promova a acessibilidade faz-se necessário o ensino da condição humana, proposto por Edgar Morin, o qual apreende a diversidade e a singularidade humana. A experiência acrescida deste programa revelou-se de suma importância na formação de psicólogos mais conscientes sobre a diversidade humana, além de perceber a proposta como um canal de exercício à cidadania da comunidade acadêmica de educação e inclusão.
Palavras-chave: inclusão; diversidade; acessibilidade; ensino superior; educação.
Introdução

O presente artigo é fruto da experiência de estágio na disciplina de Processos Educativos e Sociais I, que consta no fluxograma do 8º semestre do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza. Portanto, este trabalho caracteriza-se como um relato de experiência, isto é, trata-se da descrição de uma vivência, o que contribuiu a posteriori para a discussão, a troca e a proposição de novas ideias para a melhoria da realidade da inclusão no contexto do ensino superior.

O referente estágio foi realizado no Programa de Apoio Psicopedagógico (PAP) da Universidade de Fortaleza, o qual consiste numa unidade da Vice-Reitoria de Ensino de Graduação. Instituído por uma resolução interna, o PAP é um núcleo de ação orientadora e integradora que tem a diversidade como princípio norteador. Assim, assume uma prática inclusiva, considerando o atendimento e a orientação referente às necessidades específicas da vida acadêmica dos sujeitos.

O PAP tem natureza psicopedagógica e possui a função de garantir a inclusão e acessibilidade na instituição de ensino superior (IES). Compreende-se, neste estudo, a inclusão e a acessibilidade como uma forma de aceitação da diversidade humana e a busca de atitudes e recursos para atender às necessidades específicas de cada um que se insira na Universidade.

Assim, o presente artigo possui como objetivo principal: problematizar a inclusão e a diversidade em um programa de apoio psicopedagógico no ensino superior. Para isso, também objetivou-se: discutir o papel da educação referente a inclusão numa IES; investigar como ocorre a acessibilidade na IES; analisar as contribuições da prática psicológica em um programa de apoio ao aluno.

Com relação à metodologia, a coleta de dados para a realização deste estudo, houve juntamente ao relato de experiência uma revisão de literatura especializada, para que assim ocorresse um diálogo com outras da área da educação. Esta última foi realizada entre os meses de fevereiro e março de 2016, no qual se utilizou a consulta de livros, fruto das obras de autores ligados ao tema da inclusão e da diversidade no ensino superior, bem como em artigos científicos selecionados a partir de bancos de dados eletrônicos, como Scielo, e que se relacionavam às questões relevantes à pesquisa.

Para atender o objetivo proposto, partindo da ideia de uma educação para todos, pensa-se na diversidade e na inclusão como questões que se estendem ao ensino superior e por isso precisam ser problematizadas.

Utilizaram-se referencialmente as ideias de Morin (2000) presentes em seu livro “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, o qual fundamenta claramente a proposta deste estudo, quando este autor se remete ao ensino da condição humana. Conjuntamente com obra foram empregadas as contribuições de Joca (2010) e colaboradores no seu trabalho “A Educação Inclusiva em IES através de um Programa de Apoio Psicopedagógico”, o qual já traz o programa que serve como contexto para este relato de experiência. O artigo também teve como tripé conceitual as obras de Pavão (2015) e Rodrigues e Quadros (2015).

No artigo, ora apresentado, seguir-se-ão as seguintes seções: a educação inclusiva e o direito à cidadania; a inclusão e a diversidade numa instituição de ensino superior; e, a inclusão e a prática psicológica. Nestas, se farão presentes o relato de experiência, a análise da inclusão e da diversidade no ensino superior, em elaboração paralela com a educação para a condição humana referida por Morin (2000), e a contribuição da prática psicológica no programa de apoio psicopedagógico. Para finalizar, encontra-se as considerações finais, no respeito as últimas ponderações perante o que já foi apresentado.


  • A Educação Inclusiva e o Direito à Cidadania

O direito de todos à educação foi proclamado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 e está presente na Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL, 1988) como “direito de todos e dever do Estado e da família”, sendo também um princípio presente na Lei 9.394/96 das Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996). Com isso, o direito à educação não deve ser negado a nenhum cidadão, mesmo que este apresente algum tipo de limitação física, cognitiva ou psicológica, entretanto, muitos são os desafios para que ocorra essa inclusão.

A inserção das pessoas com deficiência no ensino superior cresce a cada ano, e para atendê-los de forma equânime, faz-se necessário que a educação em todos os níveis crie políticas de acessibilidade e respeito à diversidade, posto que “por acessibilidade entende-se as condições necessárias para o acesso” (PAVÃO, 2015, p. 15), isto é, promover uma possibilidade de encontro com algo que era antes inacessível. Neste sentido, abrange não só as pessoas com deficiências, mas todas as pessoas que precisam de condições diferenciadas para poderem aceder e usufruir aquele serviço ou espaço ora antes inviável.

De acordo com Pavão (2015, p. 16): “Para que exista a promoção da acessibilidade é necessário que sejam extintos todos os tipos de obstáculos e empecilhos que prejudiquem essa ação”, neste sentido, deve-se garantir nos espaços físicos e na comunicação (aprendizagem) a acessibilidade para as pessoas com alguma necessidade educacional específica, contribuindo para a sua inserção no meio universitário e acesso à informação e ao conhecimento.

De maneira oposta, não oportunizar essas possibilidades a estes sujeitos acarretaria no fortalecimento da desigualdade, da discriminação, promovendo assim a segregação desses sujeitos ao não garantir condições que o permitam ter acesso aos espaços no ensino superior como afirma Pavão (2015).

Especialmente no que toca à inclusão de pessoas com deficiência na universidade, percebe-se uma trajetória que está para além da construção de caminhos físicos acessíveis, no qual é preciso a modificação de uma mentalidade que limita a olhar para esse sujeito como alguém inferior. Neste sentido, faz-se necessário a quebra das barreiras atitudinais. Percebemos assim que para além de uma transformação estrutural há que se fazer presente uma mudança cultural, em que se entendam as diferenças.

Aqui, faz-se um adendo para a própria nomenclatura de algumas diferenças, pois segundo Rodrigues e Quadros (2015) as diferenças junto a diversidade constituem o ser humano, não equivalendo assim ao conceito de deficiência. Esta redução de compreensão contribui para uma visão estigmatizada que temos referentes às pessoas surdas ou às que possuam outras necessidades especiais.

Dentro desse contexto, o PAP oferece o apoio necessário à comunidade acadêmica da universidade que apresenta alguma necessidade específica, como deficiências auditivas, motoras, visuais, problemas emocionais e de aprendizagem. Deste modo, o PAP:

Constitui-se como um Programa de ação orientadora compartilhada, voltado para o atendimento e acompanhamento de discentes da UNIFOR que apresentem necessidades educacionais especiais ou deficiências caracterizadas, bem como suporte a docentes, funcionários e pais de discentes no desenvolvimento de competência para praticar a inclusão educacional no ensino superior (JOCA et al, 2010, p. 02).

O referido programa alcançou uma década de existência e, na atual conjuntura, percebe-se que houve uma ampliação do mesmo, pois para além dos alunos que apresentam alguma deficiência ou dificuldade de aprendizagem, os funcionários e familiares também foram contemplados no contexto da universidade.

Neste aspecto, Joca e (2010) defendem que a proposta do estágio em psicologia no PAP busca acolher esses sujeitos, intervir, acompanhar e/ou encaminhar para outros serviços mais adequados de acordo com a situação e demanda na qual se encontram. Desta forma, o diferencial que o PAP possui, em relação a outros programas de apoio ao aluno em IES, refere-se ao acréscimo do prefixo “psi”, pois presta a realização de atendimentos psicológicos, diferentemente dos demais programas que visam somente questões relacionadas ao processo da inclusão acadêmica. Desta maneira, existe um olhar para o sujeito que se encontra em sofrimento psíquico, o que sugere uma ação para além dos problemas relacionados exclusivamente à aprendizagem.

Assim, iniciar as atividades como psicólogo em formação nesse programa propicia uma experiência de escuta clínica e de atuação educacional, bem como o exercício de promover a inclusão e a acessibilidade no espaço da instituição de ensino superior. Nesse sentido, o estagiário de psicologia possui como objetivo principal a realização de atendimentos psicológicos que visam diminuir o sofrimento psíquico dos sujeitos que procuram este programa de apoio, como também acompanhar o seu processo acadêmico aparando as arestas que possam vir a criar barreiras em sua ascensão.

Em nossa experiência de psicólogos em formação, realizamos: plantão psicoeducativo, que objetiva atender alunos em emergência emocional e/ou educativa; atendimentos individuais, para a orientação dos professores no âmbito do atendimento de alunos com demandas específicas e a realização de possíveis encaminhamentos; como também, participamos da organização de ciclos de palestra e eventos voltados à discussão do tema da inclusão e da acessibilidade, a fim de apresentar um contexto educacional possível de perceber e respeitar a diversidade humana.

A relevância desse tema se deve a importância da discussão acerca dos desafios e das dificuldades enfrentadas pelos estudantes com alguma necessidade específica por parte de educadores e profissionais que percebem a educação como espaço de diálogos, respeito e possibilidades para exercer a cidadania.


  • Inclusão e Diversidade numa Instituição de Ensino Superior (IES)

Pensar a inclusão ainda é um desafio para a educação, e estender esse pensamento ao ensino superior é algo mais complexo ainda. Neste contexto, entender as diferenças presente nos espaços universitários é de fundamental importância para que novas posturas inclusivas se construam. Assim, uma educação inclusiva perpassa hoje por diferentes formas, fundamentando a igualdade e a diferença como valores indissociáveis.

Nesse sentido, os profissionais da educação devem olhar a inclusão não somente pelo viés da deficiência, mas sim, como forma de acatar todos que estão inseridos na universidade que apresentam qualquer tipo de dificuldade, contemplando com isso, suas individualidades e potencialidades.

Dentro dessa conjuntura, destacamos que para ingressar no ensino superior, diferentemente do que ocorre em relação ao nível fundamental e médio, o aluno precisa ser aprovado num sistema de avaliação. Neste, especificamente em relação ao acesso de pessoas com deficiência, Mazzoni e colaboradores (2001) relata que, atendendo a requerimentos realizados pelos familiares desses candidatos ou pelos próprios candidatos, algumas ações foram sendo tomadas gradativamente, de forma a possibilitar o acesso com igualdade de direitos ao processo seletivo, no caso de universidades públicas. Frisamos aqui que este processo também ocorre nesta universidade, cenário da pesquisa, que no seu vestibular de ingresso busca atender a demanda de cada candidato e acolhê-lo.

No caso da Universidade em questão, ocorre o vestibular regular e o vestibular de medicina, e os estagiários de psicologia são convocados a prestar um auxílio nas salas de aula para os estudantes que precisassem de algum suporte especial, seja o tempo um pouco maior, uma sala com menos alunos ou até mesmo uma sala individual, no qual se fazia somente a presença do fiscal e do estudante. Observa-se que nesse vestibular já denota esse olhar diferenciado para a inclusão e para a acessibilidade, visto que a necessidade específica de cada aluno é respeitada.

Morin (2000), na sua obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, faz alusão a uma educação para as diferenças, para a diversidade humana, no qual encontramos relações que se aproximam da temática da inclusão e acessibilidade no contexto do ensino superior. Vale ressaltar, que a inclusão só se faz presente e necessária porque existem sujeitos que de algum modo são excluídos perante a sociedade.

Percebe-se que alguns dos fatores que contribuem para a construção de contextos que excluem e segregam os ditos “diferentes” estão relacionados a falta de uma educação que ensine a condição humana, isto é, uma educação no qual os homens “devem reconhecer-se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano” (MORIN, 2000, p. 47). Desta maneira, ensinar à condição humana é apreender a unicidade do homem na sua diversidade, e a sua diversidade no uno.

Deste modo, para Morin (2000), há uma unidade e uma diversidade humana, no qual ambas se referem a aspectos biológicos, psicológicos, culturais, sociais, sendo que cabe à “educação do futuro cuidar para que a ideia de unidade da espécie humana não apague a ideia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade” (MORIN, 2000, P. 55). Segundo Morin (2000), seria papel da educação retratar este princípio da unidade/diversidade em todos os âmbitos e campos.

Para Morin (2000), somos seres singulares e múltiplos ao mesmo tempo no que se refere tanto as esferas afetiva, psicológica, individual, subjetiva, como também a cerebral, mental, pois trazemos a unidualidade originária, isto é, “o homem é um ser a um só tempo plenamente biológico e plenamente cultural.” (MORIN, p. 52), no qual em sua unidade traz o princípio das múltiplas diversidades.

Morin (2000) pontua ainda que a diversidade não se restringe somente aos traços psicológicos, culturais e sociais do homem, pois ele ressalta que nas mais distintas culturas é possível encontrar sociedades que possuem princípios geradores e organizacionais em comum.

Outro importante ponto acerca da inclusão no ensino superior reafirma a necessidade das instituições estarem preparadas para receber adequadamente estes estudantes. Portanto, são necessárias adaptações físicas e culturais.

Para Macedo (2005), ao lidar com as diferenças há duas possibilidades, algumas vezes “utiliza-se como estratégia excluir, ignorar, converter; outras vezes, aprende-se pouco a pouco a respeitar e, por isso, a conviver com as diferenças”. Ao construir uma cultura das diferenças a universidade deve dar visibilidade aos seus diversos estudantes e respeitar a singularidade de cada um.

Para finalizar, salientamos o pensamento de Santos (1999, p.44), quando este afirma: “Temos o direito de ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza; temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”, ou seja, compreendemos que a igualdade sobre certos aspectos (cidadania e direitos humanos) deve se fazer presente no tratamento dos sujeitos ao mesmo tempo que deve ser levado em consideração as diferenças que os caracterizam e distinguem dos demais.



  • Inclusão e a Prática Psicológica

A principal atividade realizada no PAP, pelos psicólogos em formação, corresponde aos atendimentos psicológicos, que são previamente agendados, bem como os emergenciais (demanda espontânea). Vale ressaltar que os atendimentos no programa envolvem a inclusão social e educacional, e, através desta prática, como afirma Saraiva e Joca (2012, p. 65):

Não se busca unicamente que a pessoa com deficiência seja vista com os mesmos direitos dos demais, sem considerar que pode haver sentimento de inferioridade ou posição de desrespeito com os colegas, como também, o programa, incide em demandas de necessidades educacionais específicas e de alunos que passam por algum sofrimento psíquico.

É interessante ressaltar que, com relação aos sujeitos atendidos, encontramos dados no trabalho de Joca e colaboradores (2010), realizado durante os anos de Agosto de 2008 a Junho de 2010, que durante o atendimento psicológico de 324 pessoas no PAP, 66% apresentavam demanda emocional. Sendo assim, pode se perceber que para além da dificuldade de aprendizagem havia aspectos da sua história de vida que estavam causando sofrimento psíquico, interferindo em seu processo acadêmico.

Ressalta-se ainda que alguns estudantes possuem necessidades específicas que geram baixa autoestima e fragilidade em seu autoconhecimento, além de não conquistarem resultados acadêmicos satisfatórios. Por esta razão, evidencia-se o quanto é importante cuidar do aspecto psicológico dos estudantes que chegam ao programa.

Além das frequentes dificuldades encontradas pelos demais estudantes, esses sujeitos que apresentam alguma deficiência ou necessidade educacional específica, também, são vítimas da discriminação social, sem contar as limitações impostas pela própria deficiência. Deste modo, como já foi dito, o acompanhamento psicológico contribui para a minimização do sofrimento psíquico, nesse novo contexto educacional, no qual estão inseridos.

Sendo assim, faz-se mister a reflexão sobre essas questões, como pontuava Morin (2002) no seu livro “A cabeça bem-feita: repensar a reformar, reformar o pensamento”, sem uma reforma do pensamento é impossível aplicar novas ideias. O ser humano é reducionista por natureza e, por isso, é preciso esforçar-se para compreender a complexidade e combater a simplificação.

Em consonância ao que foi dito, observa-se que essa experiência propicia um maior bem-estar para o estudante, por meio da escuta clínica e das intervenções realizadas. Assim, o estágio se configura como um caminho que contribui tanto para a instituição educacional, através do adequado desempenho das atividades dos estagiários, no qual se consegue colocar em prática o que havia estudado durante seu curso da graduação; como para comunidade atendida que se beneficia através das intervenções durante o período de acompanhamento; e, por conseguinte, o estagiário que estabelece a dialógica entre o saber e a práxis.

Além disso, percebe-se que o estagiário de Psicologia agrega valores, em relação a aceitação e respeito à diversidade humana, pois, para além de uma escuta clínico, o PAP promove entrada ao mundo da inclusão e acessibilidade, como psicólogos educacionais em um espaço de Ensino Superior.

Visto que a educação do futuro ao qual se refere Morin (2000) também seria responsável pela extinção da exclusão, ou seja, ao se admitir o caráter da diversidade humana e as suas mais variadas formas de expressão, também estaríamos contribuindo para inclusão dos ditos “diferentes”, para a sua inserção e integração junto à sociedade com os direitos e deveres de um cidadão.

Segundo Morin (2000, p. 61) essa educação tem que apresentar o destino plurifacetado do ser humano: “o destino da espécie humana, o destino individual, o destino social, o destino histórico, todos entrelaçados e inseparáveis”. Neste sentido, encaminharia para uma tomada de consciência das condições que são comuns a todos os seres humanos e da riqueza necessária da diversidade dos sujeitos, dos povos, das culturas, enquanto cidadãos da Terra (MORIN, 2000). Essa tomada de consciência perante o destino do homem também promoveria uma cooperação para a naturalização das diferenças.
Considerações Finais

Diante do que vem sendo discutido, pode-se afirmar que a perspectiva dos psicólogos em formação referente à inclusão e à diversidade, por meio do estágio desenvolvido no PAP, sofreu mudanças, pois foi através deste programa que foi possível presenciar e observar na prática a vida dos sujeitos que possuem alguma necessidade específica dentro de uma instituição de ensino superior, bem como constatou-se que é possível contribuir para que sejam incluídos dentro da universidade, ofertando serviços de apoio para que possam ascender a condições pessoais e sociais antes inacessíveis.

A experiência dos autores propiciada pela inserção no programa resultou em inúmeros ganhos e compreendeu-se que os sujeitos atendidos no PAP são vistos para além de seus aspectos meramente acadêmicos, pois o modo como ocorre a inclusão na universidade, englobando a atitude dos outros alunos e da sua família que podem ser fatores geradores de sofrimento psíquico para estes, como constatados nos relatos que traziam a demanda de aspectos emocionais, relacionados as suas histórias de vida.

Em síntese, é possível dizer que o exercício de buscar, cada vez mais, promover a acessibilidade e a inclusão dos estudantes em IES agrega uma mudança de conscientização da comunidade acadêmica. Em outras palavras, gera transformação nos valores absorvidos socialmente, propiciando condições para se repensar o que viriam a ser os ditos “diferentes”, no qual se deve admitir o caráter universal e singular presente em todos os seres humanos.

Por fim, nota-se que é papel da educação promover maiores possibilidades para que se efetue essa inclusão de iguais e diferentes, sendo esta responsável pelo ensino da condição humana, isto é, uma educação que se faça compreender e respeitar as diferenças, tendo a diversidade como um princípio intrínseco do ser humano. Assim, o homem poderá ser percebido em sua singularidade, mas também em suas condições que lhe fazem semelhantes ao outro, contribuindo deste modo para a formação de uma consciência cidadã.


REFERÊNCIAS

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