Ernesto Bozzano Fenômenos de Bilocação (Desdobramento)



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Ernesto Bozzano
Fenômenos de Bilocação

(Desdobramento)
Título do original italiano:

Considérations et hypothéses sur les phénomènes de bilocation

1911



Conteúdo resumido


O termo “bilocação” é utilizado para denominar o fenômeno supranormal em que um mesmo indivíduo aparece simultaneamente em dois lugares distintos. Na realidade, o que ocorre nesse fenômeno é a separação temporária, nos seres encarnados, entre o espírito e o seu corpo físico.

Nesta obra Ernesto Bozzano expõe, classifica e comenta os vários tipos de fenômenos de bilocação. O autor demonstra que o ser humano possui um corpo etéreo que pode, em certas circunstâncias, afastar-se do corpo físico e retornar após realizar alguma tarefa ou apenas ter feito um pequeno passeio.

O autor procura demonstrar que o fenômeno de bilocação é um dos mais propícios a evidenciar a independência da alma em relação ao corpo físico. Provado que o Espírito não está definitivamente preso ao organismo, fácil é compreender que esse espírito possa, no final da vida, desligar-se para sempre do seu envoltório carnal, para continuar a viver fora dele, nessa fase intérmina da existência, a que chamamos morte, mas que, na verdade, é simplesmente a continuação da vida e da evolução infinitas.

Sumário


Algumas palavras 4

Introdução 10

Primeira categoria

Das “sensações de integridade” nos amputados


e das impressões de “desdobramento” nos hemiplégicos 13

Segunda categoria

Casos em que o sujet percebe seu próprio duplo,
conservando plena consciência (autoscopia) 26

Terceira categoria

Casos em que a consciência pessoal
se acha transferida para o fantasma 35

Quarta categoria

Casos em que o fantasma desdobrado
só é percebido por terceiros 79

Conclusões 146





Algumas palavras


Em tempos idos, jovem ainda, com encargos nas revistas espíritas, julguei que essas revistas deviam transmitir aos seus leitores o que se passava pelo mundo com referência aos fatos espíritas. Era preciso que estivéssemos a par de todo o movimento que dizia respeito à doutrina que perfilhamos e aceitamos, diante da imponência de suas provas.

Era necessário, porém, mostrar que essas provas existiam, dar uma idéia do que é o Espiritismo, visto como a grande maioria de nossos periódicos deixavam de tomar conhecimento das duas partes componentes do grandioso edifício, para ocupar-se quase exclusivamente da terceira, embrenhando-se nos textos escriturísticos; uns procuravam comentá-los de maneira a aproximá-los das lições dos Espíritos, outros procuravam ajeitá-los de qualquer modo, dentro dessas lições, quando eles muito se afastavam delas.

Por maneira que, como ainda hoje vemos, a doutrina espírita dir-se-ia simplesmente, um ramo do Cristianismo, a par das Igrejas Católica e Protestante, ficando à mercê da exegese pessoal, produto de opiniões e fantasias, onde os elementos de prova, que convencem, e os de filosofia, que esclarecem, iam sendo postos à margem.

Nada havia que admirar, pois que viemos todos de um passado em que essas religiões dominavam e deveríamos ter sido seus apaixonados prosélitos.

Foi nessa ocasião que encontrei prestimoso rapaz, estudioso e ainda estudante, na flor de uma operosa juventude, hábil, conhecedor de vários idiomas, de cativante simplicidade e extraordinária simpatia, com idéias muito lúcidas, liberto de quaisquer fanatismos, e rodeado de revistas estrangeiras, o que me deixou estarrecido. Na ocasião fazia traduções para um de nossos periódicos. Esse moço era Francisco Klörs Werneck.

Pouco conhecido, apesar de sua grande atividade e do que tem feito pela doutrina, justo é que digamos alguma coisa a seu respeito.

Fluminense, nascido em Icaraí, na cidade de Niterói, aí completou todos os seus estudos, formando-se em Direito. Ingressou no Espiritismo em 1929, com 25 anos de idade. Foi por essa época que eu o trouxe para o Reformador, e nessa revista ele fez a crônica estrangeira até 1934, sendo muito apreciado e estimado pelo então diretor do citado periódico e da Federação Espírita Brasileira, o Dr. Luís Olímpio Guillon Ribeiro.

Mudando-se para o Rio de Janeiro, depois Estado da Guanabara, foi convidado pelo Comandante João Torres para secretariar a Revista Espírita do Brasil, de que também foi diretor pelo licenciamento do Comandante Torres.

Pertenceu às diretorias da Liga Espírita do Brasil, da Confederação Espírita Pan-Americana, quando sediada no Rio de Janeiro, e faz parte atualmente da Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro.

Foi membro da Comissão Organizadora do I Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, da do II Congresso da Confederação Espírita Pan-Americana, ambos realizados no Rio de Janeiro, da I Exposição Estadual de Jornais, Revistas e Obras Espíritas, em Porto Alegre.

Atualmente pertence à Ordem dos Advogados do Brasil, seção da Guanabara, é conselheiro do Instituto Genealógico Brasileiro, sediado em São Paulo, correspondente da Seção de História da Associação dos Arqueólogos Portugueses, com sede em Lisboa, e Benemérito do C. E. Paz, Amor e Caridade, de São Paulo.

É autor de vários trabalhos, entre os quais podemos destacar as “Crônicas Espíritas”, a “História e Genealogia Fluminense”, e de traduções em alemão, italiano, inglês e francês de obras como as de Ernesto Bozzano, Oliver Lodge, Paulo Bodier, José l’Homme, Louis Jacolliot, Haraldur Nielsson, para só falar nas principais.

Eis o nosso apresentado, com os pouquíssimos dados que consegui apanhar.

Como se vê, durante muito tempo, o jovem Werneck prestou desinteressadamente os seus serviços à Federação Espírita Brasileira, como veio prestar a várias entidades e várias revistas, sempre sem qualquer idéia de recompensa.

Creio que, por sentimento de amizade, selada pelo tempo, é que ele se lembrou de pedir-me este prefácio, para uma das mais importantes obras de Ernesto Bozzano, direi mesmo, uma das mais úteis, senão a mais proveitosa que o inesquecível e saudoso filósofo legou à posteridade.

O fenômeno de bilocação é um dos mais prestantes em matéria psíquica, porque evidencia a independência da alma em relação ao corpo. Provado que o Espírito não está servilmente preso ao organismo, que não é um simples escravo das funções orgânicas, que tem seus momentos de fuga, desprendendo-se ou libertando-se, ainda que momentaneamente, das amarras físicas, fácil é compreender que esse espírito possa, no final da vida, desligar-se para sempre do seu envoltório carnal, para continuar a viver fora dele, nessa fase intérmina da existência, fase a que chamamos morte.

Da importância do fenômeno, dizíamos há pouco ao Professor Henrique Rodrigues, quando ele, como diretor de um programa de televisão, interrogava uma jovem que se apresentara ao mesmo programa, voluntariamente. Narrava ela, sem achar explicação para o fato, o que lhe sucedia, isto é, o sentir-se fora do corpo, o de flutuar acima dele, vendo-o afastado, inerte, como se estivesse morto, no leito em que se achava.

Não é um caso insólito, antes um fato ameudado, com as mesmas características, que se reproduz em pessoas de religiões diversas, sem nenhum conhecimento de psiquismo. Essa uniformidade, como acentua Bozzano, é de grande valor teórico e prático, é a demonstração da regularidade e autenticidade do fenômeno, que se apresenta, provando patentemente a dualidade corpo e espírito, e ainda mais, de que não se trata de duas partes indissoluvelmente ligadas, perecendo uma quando a outra perece.

Se pouco se conhece do fenômeno, se não o vemos constantemente divulgado, é pelo receio que têm os pacientes de passar por desequilibrados. Disso fui especialmente testemunha, quando durante dez anos lidei com pessoas que procuravam o tratamento espiritual para as suas enfermidades de ordem mental, para esses desequilíbrios que têm levado tanta gente aos sanatórios, porque a causa da moléstia ou do fenômeno ainda não foi percebida pela Academia.

Tive ocasião de ouvir a descrição de casos semelhantes ao da moça televisionada. Os doentes, que como tal se supunham, contavam os seus casos muito em segredo, confiantes em minha discrição, porque até da família escondiam o que com eles se passava. Temiam ser tidos por malucos, receavam as medidas paternas ou de seus familiares, mas o caso é que se viam separados do corpo, eles num ponto, o corpo noutro; às vezes supunham-se mortos, o que lhes causava indescritível terror. Eu lhes explicava então o fenômeno, mostrava-lhes a naturalidade do fato, convencia-os de que não havia por que temer.

Às vezes, os passes mediúnicos, as preces, o desenvolvimento do mediunismo por parte do sensitivo, ou o autodomínio, punham termo ao fenômeno. E quando ele não se extinguia, a nossa exposição do que se tratava era bastante para acalmar a pessoa; ela encarava o desprendimento com serenidade e em vez de impedi-lo, procurava examiná-lo com curiosidade. Em geral, tais fatos não são renitentes. Tendem a esvanecer com o tempo, com a força de vontade do paciente, com o seu desejo para que ele não se reproduza e até com o revigoramento do corpo, revigoramento esse que contribui para melhorar a situação dos desequilibrados.

Há poucos dias, ainda, tivemos a visita de uma jovem, cujo nome não apresentamos, apesar de sua autorização, por não saber se isso agradaria à família, mas temos aqui os dados à disposição do estudioso ou do duvidoso que os quiser examinar.

É a senhorita E. B. A., moradora nesta cidade de Niterói, onde eu moro e onde nasceu Werneck; sua residência fica à rua Marquês de Olinda. Tem ela 27 anos de idade. Possuía grande desequilíbrio nervoso, que a Medicina chama neurose de angústia. Fora submetida ao processo terapêutico dos choques e nessas ocasiões via-se subitamente fora do organismo; não mais sentia qualquer abalo físico ou mental e percebia o corpo imóvel, estendido no leito, como se estivesse desacordada. Percebia as pessoas que lhe estavam perto e o que se fazia ao redor. Ficava excessivamente surpresa e tomava o corpo cheia de temores.

Como não conhecia o fenômeno, narrava-o muito admirada e tomava-o como conseqüência de sua doença. Tive que explicar-lhe não haver propriamente uma relação entre o fenômeno e a doença, senão o desprendimento de seu espírito, devido talvez aos choques. Expliquei-lhe ainda que existiam vários casos dessa natureza, sem que os pacientes sofressem de abalos nervosos. Ela possuiria apenas o dom de abandonar a casca, isto é, de afastar-se do corpo físico, e ao contrário de outros e outras, percebia o fenômeno e recordava-o.

Lembro-me ainda que, na minha infância, ouvia o Professor Amaro Barreto, um genial pianista, contar, admirado, que depois de certa doença, ou durante a mesma, via-se no espaço a contemplar o que se passava no quarto, e o mais interessante é que notava achar-se ele também na cama. “Eram dois Amaros”, explicava ele a meu pai, que era médico, isto rindo-se muito do jocoso incidente. Não me recordo das explicações que meu pai apresentou, que não poderiam diferir muito das conhecidas alucinações.

Deixei de registrar os casos semelhantes, observados na FEB, porque era princípio naquela instituição não tomarmos anotações, visto que, diziam os dirigentes, não só não nos compete esse registro de casos particulares, como porque não temos aqui fins de estudo, senão simplesmente o da caridade, além do que o interesse da observação e da pesquisa poderá desvirtuar nosso verdadeiro alvo.

Não concordei lá muito com a prescrição, mas, disciplinado, submeti-me e assim perdeu-se um substancioso manancial ou um grande acervo de provas.

É uma série de fenômenos dessa natureza que Ernesto Bozzano relata em sua monografia, estudando o assunto ab ovo e encarando-o pelas diversas fases em que ele se apresenta.

Bozzano parte da idéia de integridade nos amputados, que têm a sensação perfeita da existência da parte do corpo que lhes foi retirada; a dos hemiplégicos, que percebem no lado paralisado a seção correspondente do duplo, isto é, do corpo etéreo ou perispírito, com a integridade sensorial subtraída; o desdobramento autoscópico em que o indivíduo vê o segundo eu, que é o seu duplo, o seu fantasma. Essa visão pode estar no corpo, e dele vê-se o fantasma, ou estar no fantasma, o duplo, e dele vê-se o corpo.

Há casos mais amplos em que o indivíduo se transporta a grandes distâncias e finalmente o desprendimento do leito mortuário, onde o Espírito vai deixando lentamente o corpo até o seu completo desenlace, que é a inteira liberdade pela morte.

Tais fenômenos se realizam em momentos de crise física e podem acontecer no sono comum, na hipnose, na síncope, na letargia, nas intoxicações e até no coma.

Tal é o vigoroso estudo que Francisco Klörs Werneck traduziu, aumentando destarte a sua já extensa bagagem literária. É um inestimável serviço prestado à Causa, visto que os livros de Bozzano são pouco conhecidos, dificilmente encontrados em nossas livrarias, estando já esgotadas as obras originais. Acresce que a importação do livro estrangeiro é hoje problema de difícil solução, pois que atinge a proporções astronômicas o seu preço.

Em suma, o trabalho do companheiro e velho amigo, sem nenhuma lisonja, vem fazê-lo subir mais um degrau na longa escada da espiritualidade.

Niterói, 10/01/1969.

Carlos Imbassahy



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