Ernesto Bozzano Fenomenos de Transporte



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Prefácio


Ernesto Bozzano é ainda, sem a menor dúvida, a maior expressão espírita nos dias que correm. Falecido já há alguns anos, o grande mestre italiano continua a ser o autor citado na literatura espírita contemporânea no campo da fenomenologia.

É verdade que nenhum dos grandes autores espíritas, de Crookes a Bozzano, de Flammarion a Geley, destruiu o cerne da obra de Allan Kardec. Terminologia nova, interpretações mais desenvolvidas até certo ponto, eis o que se tem notado, depois de Kardec, mesmo porque todo ramo de conhecimento recebe enriquecimentos com a marcha dos anos. No fundo, porém, no que diz respeito aos princípios gerais do Espiritismo, nenhum autor, da Terra ou do Além, sobrepujou a codificação de Kardec.

Ernesto Bozzano trouxe inestimável contribuição à ciência espírita. Basta dizer que os trabalhos de Bozzano são sempre uma fonte universal. Não se pode atualmente discutir a ciência espírita, sem, depois de conhecer a obra de Kardec, citar Bozzano. Seus livros são considerados clássicos em matéria espírita.

Fenômenos de “Transporte” é, como os outros livros do grande professor italiano, um trabalho essencialmente científico. O próprio título, aliás, o diz, porque o fenômeno, como se sabe, é o objeto, a razão de ser da ciência espírita. Sem o fenômeno não haveria ciência espírita, não teríamos o Espiritismo, embora o Espiritismo (corpo de doutrina) não seja apenas fenômeno. O fenômeno de transporte é um dos mais objetivos, mais característicos de todos os fenômenos de além túmulo. Bozzano estudou o assunto através de longos anos de experimentação, o que lhe dá autoridade científica. Nas suas muitas páginas cita uma série de fatos, todos eles documentados, comprovados, capazes de enfrentar a crítica mais exigente, mais rigorosa. Consta do livro, como fecho, aliás, bem apropriado, o trecho de uma carta do Dr. Charles Richet, nome consagrado mundialmente nos meios científicos, como médico famoso e professor de Fisiologia na Faculdade de Medicina de Paris, relatando um interessante caso de transporte ocorrido em Buenos Aires, Argentina, no ano de 1891 e que lhe foi comunicado pelo próprio protagonista, o visconde Saul de Vitray.

Este, pois, trata-se de um livro muito curioso e interessante, que deve ser lido por todos os adeptos do Espiritismo.

Deolindo Amorim

Introdução


Percorrendo os numerosos resumos, com relativos comentários e observações, feitos na Itália e no estrangeiro, acerca de nossas experiências em Millesimo, tive ocasião de observar, de modo geral, que as manifestações supranormais que pareciam mais duvidosas a muitos céticos não eram as vozes diretas e sim os fenômenos de transportes,1 e não do ponto de vista particular dos casos por nós obtidos mas sim do genérico e teórico da pressuposta inverossímil científica do fenômeno em si, combinada com a ausência de boas provas em tal ramo das manifestações metapsíquicas. E o que mais me impressionou foi a circunstância de que entre os que se declaravam teoricamente incrédulos se achavam eminentes personalidades científicas pertencentes ao movimento metapsíquico, personalidades que, desde muito, haviam aderido à interpretação espirítica de muitas manifestações mediúnicas.

Era, pois, natural que as observações expostas me levassem a refletir sobre as causas que determinavam tal estado de incipiente ceticismo em torno da existência real de uma categoria de fenômenos supranormais que, longe de serem raros, eram assaz freqüentes na casuística metapsíquica, fenômenos que investiguei durante um decênio com dois médiuns privados notáveis, obtendo, pessoalmente, absoluta certeza de sua realidade.

Ora, eu verifiquei que a causa única desse persistente ceticismo em relação aos casos de transportes residia no fato de que ninguém jamais pensou em recolhê-los, classificá-los e analisá-los em uma monografia especial, pois, embora existissem numerosos casos do gênero, obtidos nas condições de manifestação incontestável, esses se achavam de tal forma dispersos em livros e revistas que ficaram ignorados à grande maioria dos cultores das pesquisas psíquicas.

Foram essas considerações que me induziram a publicar uma primeira monografia de ensaio sobre os Fenomeni di apporto ed asporto, da qual fossem excluídos – e isto a fim de eliminar todas as possibilidades de fraude – todos os casos obtidos em plena obscuridade, com exceção dos em que os objetos transportados tivessem sido pedidos e designados, no momento, pelos experimentadores ou que, por outros motivos, bem definidos, excluíssem, igualmente, toda prática fraudulenta, casos todos que reuni na primeira categoria dos fenômenos em exame, para depois passar a uma segunda categoria em que se contivessem os casos de transportes obtidos em plena luz.

Rejubilo-me com essa rigorosa limitação de casos obtidos em condições de excluir qualquer suspeita de fraude, suspeita dificilmente eliminável nos casos conseguidos em plena obscuridade, sem as condições expostas; rejubilo-me, repito, porque assim agindo, deverei chegar a vencer a perplexidade de alguns eminentes homens de ciência, especialmente dos representantes das ciências físicas, os quais, calculando a enorme quantidade de energia necessária à obtenção dos fenômenos da desintegração molecular de um objeto qualquer, achavam impossível que tal soma de energia pudesse ser fornecida pelos médiuns, sem refletir que, aqui, não se trata de energia física mais de energia psíquica, cuja potencialidade todos nós ignoramos; entretanto, querendo ajudar-nos a compreender, recorrendo a provas por analogia, então deveremos reconhecer que, se a vontade é capaz de criar, quase instantaneamente, um fantasma materializado, perfeitamente organizado e vivo, resulta daí que não é o caso de espantar-nos se a mesma vontade chega a rapidamente desintegrar um objeto em seus elementos moleculares, para, em seguida, reintegrá-la, instantaneamente, em outra casa. O primeiro “milagre” parece bem mais estupefaciente do que o segundo.

Por ora não formularei outras considerações teóricas a respeito, mas, antes de passar à exposição dos fenômenos de transportes propriamente ditos, considero oportuno resumir, de modo breve, alguns dentre os mais notáveis episódios do fenômeno de penetração da matéria através da matéria, episódios que, intrinsecamente, se mostram idênticos aos transportes e deles diferem apenas pela modalidade com que se manifestam.

Assim sendo, resulta daí que tal categoria de fenômenos se tornará instrutiva em nosso caso, porquanto parece indicadíssima a predispor o ânimo de profanos e incrédulos para acolher a outra categoria afim dos fenômenos de transportes.

E, para começar, recordarei o clássico episódio narrado por William Crookes na descrição de suas próprias experiências com o médium Daniel Dunglas Home. Escreve ele:

“O segundo caso que vou narrar verificou-se em plena luz, numa noite de domingo e na presença do Sr. Home e de alguns membros de minha família, somente. Eu e minha esposa tínhamos passado o dia no campo e dali trouxe algumas flores que havíamos colhido. Chegados à nossa casa, entregamos à criada para pô-la na água. O Sr. Home chegou logo depois e todos nós nos dirigimos para a sala de jantar. Quando nos sentamos, a criada trouxe as flores que havia posto em um vaso e eu o coloquei no meio da mesa, cuja toalha fora retirada. Era a primeira vez que o Sr. Home via tais flores.

Depois de obtidas várias manifestações, a conversa derivou para certos fatos que parecia não se poderem explicar senão admitindo que a matéria pudesse realmente passar através de uma substância sólida. A esse propósito, a seguinte comunicação nos foi dada alfabeticamente: “É impossível a matéria passar através da matéria, mas vamos mostrar o que podemos fazer.”

Esperamos em silêncio. Uma aparição luminosa foi logo vista pairando sobre o buquê de flores, depois, à vista de todos, um galhinho de erva da China, com 15 polegadas de comprimento e que ornamentava o centro do buquê, elevou-se lentamente do meio das flores e, em seguida, desceu sobre a mesa, defronte do vaso, entre este e o Sr. Home. Chegando à mesa, o raminho não se deteve, mas a atravessou em linha reta e todos nós o vimos muito bem até passar inteiramente.

Logo depois do desaparecimento do galhinho, minha esposa, que estava sentada ao lado do Sr. Home, viu, entre ela e Home, uma estranha mão que vinha debaixo da mesa e que segurava o raminho da erva com o qual lhe bateu duas ou três vezes nos ombros com um ruído que todos ouviram. Depois o depositou no soalho e desapareceu. Apenas duas pessoas viram a mão, porém todos os assistentes perceberam o movimento do raminho. Enquanto isto se dava, todos nós podíamos ver as mãos do Sr. Home pousadas tranqüilamente sobre a mesa que estava diante dele. O lugar em que a erva desapareceu ficava a 18 polegadas daquele onde estavam as suas mãos. A mesa era uma das de sala de jantar, com molas, abrindo-se com um parafuso. Não era elástica e a união das duas partes formava uma estreita fenda no meio; pois foi através dessa fenda que a erva passou e medi-a e observei que tinha apenas 1/8 de polegada de largura. O galhinho da erva era demasiadamente grosso para que pudesse passar através da fenda sem partir e, entretanto, o tínhamos visto passar por ali, sem dificuldade, docemente, e, examinando-a em seguida, ela não mostrou a mais leve marca de pressão ou de arranhão.”

William Crookes
(Experiences sur la force psychique,
pág. 171 da edição francesa).
Vimos, no caso exposto, que a personalidade mediúnica operante dissera ser impossível passar a matéria através da matéria, mas como depois a mesma entidade produziu um fenômeno que demonstrava praticamente o contrário, deve-se entender que, com tal afirmativa, quis referir-se à penetração da matéria sólida através de outra matéria sólida, mas, em igual tempo, demonstrou, com fatos, como era possível fazer passar através da matéria sólida outra matéria desintegrada em estado molecular ou fluídico.

*

Com referência às clássicas experiências do gênero em exame, não posso deixar de tratar das famosas experiências do prof. Zöllner com o médium Slade, no ano de 1877, juntamente com os professores Weber e Fechner, experiências por ele predispostas com modalidades de manifestações incomuns.

Ele havia preparado quatro tiras com 148 centímetros de comprimento e 1 milímetro de diâmetro, cujas extremidades reuniu, atou e cuidadosamente lacrou. No momento de servir-se delas tomou uma das mesmas e a colocou em torno do pescoço e, como os experimentadores se encontrassem em plena luz, ele não perdeu de vista as extremidades das tiras nas quais se achavam os nós lacrados. Após alguns instantes, sem que o médium Slade tocasse as tiras, produziram-se quatro nós numa delas. Em outra experiência, o prof. Zöllner usou tiras chatas, de couro, as dispôs sobre uma tábua de madeira, unindo-as nas pontas e lacrando-as, chegando, desse modo, a formar círculos concêntricos do diâmetro de 5 a 10 centímetros. Logo em seguida colocou sobre elas as suas próprias mãos e bem pronto sentiu um sopro frio e também que as tiras se mexiam debaixo de suas mãos, enquanto as mãos do médium se achavam a 30 centímetros de distância e permaneciam imóveis. Três minutos após, Zöllner retirou as mãos e verificou que as tiras de couro estavam entrelaçadas umas às outras, formando quatro nós.

Uma terceira experiência foi feita com uma corda de violino, na qual ele introduziu duas argolas de madeira e uma terceira argola feita de tripa, tendo os três anéis o mesmo peso. Depois atou as duas pontas da corda de violino e as lacrou. Poucos minutos após, perceberam um leve cheiro de queimado e, ao mesmo tempo, ouviram o ruído como de dois anéis de madeira que se chocassem. Olharam para esse lugar e viram as duas argolas de madeira, que cerca de três minutos antes estavam presas à corda do violino, enfiadas na perna da mesinha. Naturalmente, a penetração não podia efetuar-se de modo normal, nem na parte do disco da mesinha, nem na parte dos três pés em que terminava a única perna central da mesinha. Além disso, na corda do violino haviam se formado dois nós frouxos e o anel de tripa havia penetrado neles.

Nenhuma dúvida padece de que, de um ponto de vista estritamente lógico, as várias experiências acima referidas, feitas em plena luz, com rigor científico e na presença de três homens de ciência, deverão de per si bastar para provar a existência real dos fenômenos da penetração da matéria através da matéria. Mas, se isso é verdade de um ponto de vista estritamente racional, assim não é na prática toda vez que o critério da razão se acha em presença de manifestações que se mostram em franco contraste com as concepções que a humanidade vem formando em torno das leis da natureza (concepções sempre parciais e provisórias, mas constantemente consideradas como definitivas) e então se verifica que o critério humano repele muitas vezes o que é incapaz de assimilar eu exige a reiteração, sob múltiplas formas, das manifestações produzidas, antes de render-se à evidência.

E não se pode negar que, se a primeira forma de acolhimento – a de repelir o que é novo – é deplorável, a segunda, ao contrário, parece legítima e indispensável ao reto desenvolvimento do saber humano, o qual se funda na experiência. Em suma, se pessoalmente é lícito ser lógico conceder pronto e justo valor a fatos bem verificados, embora isolados, não deve ser mais assim quando se trata de consagrar oficialmente o grande alcance dos mesmos. Neste último caso, deve-se esperar que os fatos se acumulem em medida suficiente para se lhes aplicar os processos científicos da análise comparada e da convergência das provas. Daí a necessidade de classificar os fatos.

Quanto ao “leve cheiro de queimado” sentido pelos experimentadores no momento em que se verificava o fenômeno das argolas introduzidas na perna da mesinha, noto como tal observação se liga a outra já por mim referida nos comentários sobre as experiências de Millesimo e a propósito dos transportes em geral, em que objetos transportados, de pedra ou metal, foram muitas vezes encontrados tépidos, quentes ou quentíssimos, segundo a estrutura atômica dos mesmos objetos, o que, na base da lei da transformação das forças físicas, deve justamente produzir-se toda vez em que nos defrontarmos com um fenômeno de desintegração e reintegração rapidíssima da matéria e, assim sendo, então se deveria inferir que, no caso aqui considerado, em que se tratava de argolas de madeira, o incidente do “leve cheiro de queimado” estaria a indicar que a muito rápida desintegração e reintegração molecular das argolas tenha provocado uma reação calórica bastante notável para atacar e queimar, em pequena parte, a celulose da madeira.

*

Prosseguindo na enumeração dos fenômenos em exame, observo que são também instrutivas as notáveis experiências dos doutores Dupouy e Puel com uma jovem posta em estado sonambúlico pelo segundo deles. O Dr. Dupouy, no seu livro Sciences Occultes et Physiologie Psychique (pág. 213), assim escreve:

“Como contribuição pessoal aos fatos da ordem em exame, recordarei as famosas experiências da pulseira, feitas pelo Dr. Puel, experiências a que estive presente uma dezena de vezes, juntamente com outras testemunhas. Trata-se de um bracelete sem abertura ou solda, que se colocava no antebraço da sonâmbula, Sra. L. B. Suas mãos pousavam abertas, em cima da mesa ou eram seguras entre as mãos de um de nós. Em um dado momento, a sonâmbula emitia um grito de dor e logo ouvíamos o bracelete cair ao chão ou em cima de um móvel. Algumas vezes, nas mesmas condições de experimentação, isto é, com as mãos da sonâmbula estendidas sobre a mesa e as mãos de um dos experimentadores em cima delas, assistíamos, ao contrário, à passagem de uma pulseira de um antebraço para outro.”
O Dr. Chazarin, que, por sua vez, teve ocasião de assistir a tais experiências, a elas se refere nos seguintes termos:

“O fenômeno se verificou duas vezes sob o meu controle pessoal e da seguinte maneira: a sonâmbula sentou-se perto da mesa e eu fiquei defronte para vigiar-lhe os movimentos. Por duas vezes eu apanhei o bracelete e o introduzi no seu antebraço direito ao mesmo tempo em que segurava a sua mão correspondente, que mantinha fortemente apertada entre ambas as minhas mãos. Depois de cerca de oito a dez minutos, a sonâmbula proferiu um grito, não sei se de dor ou de medo, despertando de sobressalto. Em outra experiência semelhante, o meu amigo Augusto Reveillac me disse que, tendo apanhado logo a pulseira, verificara estar ela impregnada de um calor escaldante.” (Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, 1905, pág. 347).


Noto que esta última observação do relator, de que o bracelete foi encontrado em um estado de calor escaldante, não só confirma quanto se disse com referência ao caso análogo anterior, mas serve, ao mesmo tempo, para demonstrar a perfeita identidade de manifestação existente entre os fenômenos da penetração da matéria através da matéria e os dos transportes, visto que, nesta última categoria de manifestações, os casos em que se encontram mais ou menos quentes os objetos transportados se mostram assaz freqüentes. Saliento, finalmente, como tão interessante modalidade de manifestação, comum a ambas as categorias de fenômenos, serve, ademais, para provar, indireta mas eficazmente, a sua autenticidade de manifestações supranormais indiscutíveis.

*

Este outro interessante episódio, semelhante ao anterior, é pouquíssimo conhecido e isto porque está contido numa carta particular do Sr. Stainton Moses à Sra. Speer e se refere ao período em que a mediunidade de Moses ainda não se tinha desenvolvido de modo notável, carta em que ele tentava formar certa opinião em torno das novas pesquisas, experimentando com outros médiuns.

Na circunstância aqui considerada, experimentava pela primeira vez com a notável médium Sra. Holmes e obtivera manifestações excepcionais, o que se dava pelo fato de as suas próprias faculdades mediúnicas se harmonizarem com as da médium. Em um dado momento, o espírito-guia “Rosie” lhe disse que, como ele havia levado grande contribuição de força, experimentaria produzir o fenômeno da passagem do arco em redor do braço. Tratava-se do arco de um tamborim de madeira, reforçado com uma faixa de ferro e usado como coleira. Moses o examinara minuciosamente, achando-o normal. Ele assim prossegue:

“Aproximando-me da mesa, tive o cuidado de acertar, com uma das mãos, a exata posição em que se achava o arco ali colocado. Em seguida, a convite de Rosie, apalpei cuidadosamente o braço da médium para assegurar-me de que nele não fora colocado nenhum arco igual, depois do que lhe segurei ambas as mãos e lhe imprimi aos braços uma sacudidela tão forte que, se neles houvesse um arco ou uma coleira, teria caído ao chão. Enfim, apertei-lhe ambas as mãos com uma das minhas e com a outra mão quis ainda certificar-me se o arco se achava em seu primitivo lugar. Inesperadamente verifiquei que se subtraia muita força ao meu organismo e vi formar-se uma “luz espiritual” em cima da mesa. A médium caíra em transe e o seu corpo era sacudido por um tremor convulsivo. Eu olhava a luz mediúnica e, a um dado momento, a vi e senti aproximar-se de mim, enquanto, ao mesmo tempo, verificava que o arco do tamborim estava enrolado ao redor de meu braço. Eu havia sentido meu braço passar literalmente através de um dos lados do arco e a matéria deste último me havia parecido mórbida lanugem que tinha, de súbito, cedido ante o obstáculo encontrado. Mal se produzira o fenômeno, senti que o lado da penetração do arco se tornara madeira dura. E eis que me achei com o arco do tamborim em torno de meu braço, ao passo que, com ambas as mãos, segurava as da médium!.. Esse admirável fenômeno, por mim pessoalmente controlado, auxiliou-me grandemente a compreender como se verifica a passagem da matéria através da matéria.” (Light, 1892, pág. 599).


O caso exposto é interessante e, ao que sei, é também o único episódio do gênero em que o experimentador pôde observar o instante em que se produzia o fenômeno e também o ponto preciso do próprio braço em que penetrava o arco e a modalidade com que isto sucedia. Geralmente tal não acontece e os experimentadores acham um anel, um arco, etc., enfiados no braço, sem notarem, antes, nenhuma sensação correspondente.

Ora, a circunstância exposta é notável do ponto de vista teórico das modalidades com que se produzem os fenômenos do gênero, já que, se Moses notou a passagem do arco do tamborim através do próprio braço, experimentando a sensação de algo de morbidíssimo como lanugem, que logo cedera frente ao obstáculo encontrado, isto faz presumir que a desintegração fluídica da matéria lenhosa e metálica do tamborim não foi levada ao grau máximo de sublimação, mas reduzida a estado de “pastosidade” suficiente para produzir o fenômeno.

Nos casos dos transportes, ao contrário, a desintegração da matéria deverá ser constantemente levada ao grau máximo de sublimação molecular ou fluídica.

*

Querendo enumerar todas as formas com as quais se podem produzir o fenômeno da penetração da matéria através da matéria, mencionarei igualmente a modalidade com que se manifestou nas experiências do Rev. Haraldur Nielsson com o médium Indridi Indridasson. Escreve o prof. Nielsson:

“Tínhamos então feito construir uma casinha que foi exclusivamente destinada às nossas experiências, pois o círculo já aumentara consideravelmente. Havia, às vezes, setenta pessoas presentes na reunião.

A fim de prevenir qualquer possibilidade de compadrio da parte dos assistentes, estendemos uma rede através da sala das experiências, do teto ao chão. Suas malhas eram tão pequenas que se tornava impossível passar uma mão através dela. O médium ficava sentado atrás da rede, com um fiscal, e todos os assistentes permaneciam do outro lado.

Essa disposição não perturbou, de maneira alguma, a produção dos fenômenos.

Objetos soltos, como uma mesa, uma caixa de jogos, uma cítara, duas trombetas, o suporte, etc., foram, como anteriormente, deslocados através da rede.” (Rev. Haraldur Nielsson Mes experiences personelles, etc., pág. 37 da edição francesa).


E, também nas circunstâncias expostas, o fenômeno da penetração da matéria através da matéria não é duvidoso, visto que a mesinha, a cítara e o suporte não poderiam passar normalmente através das malhas de uma rede com diâmetro muito menor do que a largura de uma palma de mão, sem rasgá-la em vários lugares.

Resulta daí que o fenômeno se torna também interessante de um outro ponto de vista e é o caso estupefaciente de uma vontade subconsciente ou extrínseca que chega a desintegrar os fios tesos de uma rede para depois reintegrá-los exatamente nos mesmos lugares.



*

Termino esta breve enumeração dos casos típicos, relativos aos fenômenos em exame, narrando um episódio assaz maravilhoso na aparência, mas, na realidade, não mais extraordinário do que os outros, aparência, porém, que deu causa a uma polêmica instrutiva na revista que o publicou, durante a qual surgiram alguns teoristas que logo adivinharam que o relator se deixara enganar. Tal polêmica se desenrolou em cinco números da revista espírita inglesa Light, a começar do n° 8 de janeiro de 1910. O relator das experiências é o coronel F. R. Begbie, do Exército da Índia, e todos os experimentadores puseram as suas assinaturas de confirmação no relato publicado nessa revista.

O Cel. Begbie declara que o episódio, de que vou tratar, se produziu no próprio círculo privado do qual não fazem parte médiuns profissionais e que o espírito-guia de suas experiências é uma jovem indiana de nome “Susu” e que, certo dia, lhe informara que na Terra gostara muito de chocolate. O Cel. Begbie prossegue nestes termos:

“Comprei meia libra de pastilhas de chocolate e as coloquei dentro de uma caixinha. Escrevi breve cartinha à Susu, cujo conteúdo só por mim era conhecido, e a depositei também dentro da caixinha, que fechei e embrulhei, cuidadosamente, em uma folha de papel escuro, amarrando-a, bem apertada, com um barbante cujas pontas lacrei, aí pondo o meu carimbo. Coloquei a caixinha em cima da mesa, dispondo, em torno da mesma, os cartões de visita dos experimentadores, todos com as respectivas firmas autógrafas. Susu não tardou a incorporar-se na médium para anunciar que experimentaria tirar o chocolate, depois do que, aparentemente, deixou a médium. Seguiram-se golpes na mesa com os quais ordenava: “Acendei a luz.” Assim se fez, verificando-se que faltavam dois cartões de visita, um dos quais era o meu e o outro da senhora vizinha. Apagou-se depois a luz e reiniciou-se o canto de um hino, à meia voz, na expectativa de recebermos uma mensagem escrita nos dois cartões desaparecidos. Perto da segunda estrofe do hino que cantávamos fizeram-se ouvir golpes com os quais foi ditada a frase: “Tirei o chocolate. E acendei a luz.” Executada a ordem, apanhei a caixinha, que estava aparentemente intacta, e, segurando-a na mão, apercebi-me de que ela estava vazia, salvo uma pastilha solitária, que, quando sacudia a caixinha, saltava dentro, entretanto o barbante que a amarrava fortemente, o selo de lacre que imobilizava as pontas do cordão e o papel que a envolvia estavam intactos.

Os meus companheiros queriam que eu a abrisse para verificar se Susu respondera à minha carta, mas eu recusei, visto não querer tocar no envoltório para não destruir uma prova irrefutável da passagem da matéria através da matéria. E eis que, quando se fez a obscuridade, os golpes ditaram: “Abri a caixinha. Acendei a luz.” Com verdadeira relutância decidi-me a cortar o barbante e a retirar o envoltório de papel. Quando abri a caixinha fiquei surpreso ao verificar que o meu cartão de visita, com a minha assinatura, se achava dentro dela o que no mesmo estava escrita uma comunicação de Susu. Ao contrário, a carta, por mim escrita e colocada dentro da caixinha, não foi encontrada nem dentro nem fora. Na minha carta à Susu, eu lhe pedia presentear-me com uma pastilha de chocolate e essa respondia me agradecendo pela lembrança que eu tivera, observando que o chocolate pedido ela o deixara na caixinha. Este era, na verdade, o modo com que Susu interpretara o meu desejo, mas não correspondia às minhas intenções, visto que eu desejava que o chocolate me fosse colocado entre os lábios, como havia feito antes com outro experimentador...

Resumindo: Nesse extraordinário episódio, achamo-nos em face ao caso de uma caixinha contendo meia libra de chocolate, por mim cuidadosamente enrolada numa folha de papel escuro e fortemente amarrada em cruz, com um barbante cujas pontas foram devidamente fixadas, seladas com lacre, timbradas, dentro da qual foram desmaterializados e depois transportados os chocolates, assim como a carta ali colocada. Além disso, no lugar da carta, apareceu o meu cartão de visita, colocado do lado de fora, na mesa, e tudo isso sem se mexer no envoltório, no barbante e no lacre timbrado. O fenômeno parece de tal modo maravilhoso que não há possibilidade de se poder explicá-lo a não ser admitindo-se a intervenção de uma entidade espiritual extrínseca ao médium e aos presentes. Já obtivemos, em nosso círculo, numerosos fenômenos notabilíssimos, mas este supera a todos. Desafio qualquer prestidigitador a tentar produzir o mesmo fenômeno sob as mesmas condições.” (Firmados: o Cel. Begbie e todos os experimentadores).


Esse é o interessante episódio narrado pelo Cel. Begbie. Antes de referir-me às discussões que se seguiram, preciso é recordar que na casuística metapsíquica se contêm outros episódios idênticos, a começar pelos obtidos por Zöllner. Assim, por exemplo, este último colocou algumas moedas dentro de uma caixinha que depois colou e lacrou, o que não impediu que, na presença do médium Slade, as moedas nela contidas atravessassem a caixinha, depois a mesa em que estava colocada, para cair, tilintando, no chão.

No caso de uma outra caixinha, contendo igualmente moedas, o fenômeno se produziu em duplo sentido, visto que foram transportadas as moedas e introduzidas na caixinha duas lascas de ardósia. Já se compreende que, em ambas as circunstâncias, as colas e os lacres foram achados intactos.

Isso explicado, retomo a minha narrativa, notando que, em dois números seguidos da revista Light, apareceram as observações contraditórias de dois críticos: os senhores Mac Callum e C. W. Scarr. Este último perguntou ao Cel. Begbie: “Por que não podemos obter, na claridade, os mesmos resultados? Por que precisamos de um médium para obtê-los?” O caráter ingênuo de tal pergunta basta para demonstrar a profunda ignorância de quem as formulava, por isso não é o caso de nos ocuparmos delas. Quanto ao Sr. Mac Callum, este demonstrou achar-se à altura dos chamados “críticos científicos”, visto que alvejou o Cel. Begbie com uma série de perguntas, abjeções e insinuações das quais me limitarei a enumerar as principais.

Ele começou por objetar que apenas as pontas do barbante estavam fixadas e lacradas, ao passo que deveria fazer outro tanto com o invólucro de papel. Depois objetou que o narrador se esquecera de informar se havia possibilidade de se entrar e sair do aposento sem ser descoberto e ainda que houvesse descurado de fazer saber quantos minutos haviam transcorrido do momento em que se apagou a luz ao instante em que Susu ditara a frase: “Apanhei o chocolate. Acendei a luz.”, enfim, que ele não se preocupara em fazer saber se tinha sempre à vista a caixinha sobre a mesa toda vez que a luz era acesa. O Cel. Begbie se apressou em gentilmente responder, nos seguintes termos, à primeira objeção:

“Experimentamos em um aposento pequeno, que termina diretamente na sala de jantar, sala essa que fica sempre iluminada. A porta do quarto fica sempre fechada à dupla volta de chave, antes de se apagar a luz. Seria, portanto impossível alguém sair sem ser observado, visto que, se abrisse a porta, iluminaria o quarto. Demais, ninguém poderia mover-se sem ser logo descoberto, tanto mais que todos nós estávamos sempre à escuta para não deixarmos de ouvir os golpes que ressoavam muitas vezes bem fracamente. Como o quarto era pequeno, sentávamos em círculo cerrado e bem juntos uns dos outros. Somos quase todos experimentadores de longa data e comprovada experiência, de modo que não seria fácil sermos enganados. Isto dito observo que a nossa médium, que há 11 anos se presta gentilmente a experiências por puro amor à causa, está acima de qualquer suspeita. Vi a caixinha sobre a mesa, quando a luz foi acesa, notando que faltavam dois cartões de visita. Minutos após, obtinha-se a mensagem: “Tirei o chocolate. Acendei a luz.” Nesse brevíssimo espaço de tempo as pastilhas de chocolate, assim como a minha carta, eram transportadas de dentro da caixinha e a minha missiva era respondida com uma mensagem escrita no meu cartão de visita, que estava em cima da mesa e fora introduzido dentro da caixinha. Noto, finalmente, que a circunstância de Susu ter respondido à minha carta demonstra que a leu, em plena escuridão. Também o Sr. Mac Callum seria capaz de ler no escuro?”
O Sr. Mac Callum respondeu reconhecendo que devia excluir-se a possibilidade de alguém ter saído do quarto para ajeitar, em outra parte, a caixinha e repô-la no lugar, acrescentando, porém, que, para ler a carta e respondê-la, não era preciso sair, visto que a médium poderia ter lido no pensamento do Cel. Begbie. Quanto à afirmação acerca de os experimentadores se sentarem em um círculo fechado, ele não estava em posição de comentá-lo, porquanto o relator não havia fornecido o diâmetro do mesmo círculo. Contudo observava que, se dois “compadres” se sentassem ao lado da médium, então seria possível que, durante o hino cantado, os três “confederados” chegassem a executar a sua combinação, sem despertarem a atenção dos outros. Acrescentava que também era coisa facílima escrever regularmente em plena escuridão. Enfim, reconhecia a existência de uma única dificuldade realmente insuperável que era a possibilidade de colocar em seu lugar o envoltório de papel com idênticas dobras de antes e, assim sendo, o Sr. Mac Callum se tirava do impasse lançando a dúvida de que o Cel. Begbie não tivesse observado bem o invólucro da caixinha. Declarava, todavia, sinceramente, que a dificuldade de colocar no lugar o invólucro de papel estava praticamente removida, já que se provara reproduzir, na escuridão, o mesmo fenômeno e aí fora conseguido, salvo o bendito invólucro que ficara mal. Terminava por pedir ao Cel. Begbie que repetisse a experiência com uma caixinha fornecida, preparada e lacrada por ele mesmo.

Reproduzo os trechos principais da réplica do Cel. Begbie:

“Ficamos profundamente surpresos ao ver que, depois de todos os informes por mim ministrados ao Sr. Mac Callum, persiste este em pôr em dúvida a honestidade dos componentes de nosso círculo. Ele observa que a subtração das pastilhas de chocolate da caixinha seria fácil quando dois “comparsas” se sentassem ao lado da médium. É provável, mas eu forneci, a propósito, razões tais que se deveria excluir, para sempre, tão indigna, falsíssima, injustíssima insinuação, cuja sombra se projeta sobre todos os membros de nosso grupo. Se eu, por um só momento, pensasse que a minha relação (escrita por sentimento de dever e no interesse da causa espírita) tivesse por conseqüência engendrar insinuações e acusações sobre a nossa honestidade, não a teria nunca publicado.

Quanto ao envoltório de papel, posso garantir ao Sr. Mac Callum que, antes de resolver-me a desamarrar a caixinha, eu e os outros experimentadores a examinamos diligentemente, minuciosamente, longamente, de todos os lados, achando-a perfeitamente intacta, tal como eu a havia preparado. O Sr. Mac Callum afirma ter conseguido remover o barbante, o invólucro e os chocolates em plena obscuridade. Eu o convido a reproduzir a prova em nosso círculo, assegurando-lhe que ele será recebido com a máxima deferência. Obrigo-me, além disto, a doar 10 libras esterlinas ao Instituto de Beneficência caso ele consiga executar a sua empresa, sem que os outros não se apercebam, condições, porém, pelas quais ele se obriga a doar outro tanto ao mesmo Instituto, em caso de insucesso.

Relativamente à proposta que me faz de repetir a experiência, operando com uma caixinha enviada pelo meu censor, respondo que, se ele possui conhecimentos adequados sobre o assunto, deveria saber que a coisa não é possível com o seu estado de ânimo e que saturaria os objetos empregados na experiência com “magnetismo antagônico”, neutralizando, efetivamente, a produção do fenômeno. Aceito, todavia, o seu desafio, mas com a variante de que eu fornecerei a caixinha, preparando-a na presença de dois amigos do Sr. Mac Callum e lacrando-a com timbre por ele fornecido. Espero os amigos por ele escolhidos para a experiência...”
E com isso termino a polêmica originada pelo episódio exposto. Deve-se deduzir daí que o Sr. Mac Callum não ousou correr o risco de perder 10 libras esterlinas numa tentativa absurda, já que podia ter a palavra numa polêmica, mas não traduzir na prática o que dizia. Quis reproduzir em detalhes a polêmica originada pela relação do Cel. Begbie porque nela se notam pontos de semelhança notabilíssima com a por mim mantida a propósito das experiências de Millesimo, salvo que o Sr. Mac Callum se mostrou sempre correto e leal nas suas críticas e, se resvalou algumas vezes em insinuações genéricas de fraude, essas não exorbitaram nunca dos limites de quanto se deve conceder a um crítico. Viu-se, contudo, que o Cel. Begbie não se ofendeu seriamente e não se pode negar que ele não tivesse boas razões para tal. Bem diversos e muito mais reprováveis foram os métodos com que se desenrolaram as polêmicas em torno das nossas experiências e o Dr. Bernouilli, de Zurich, o notou, exprimindo-se nestes termos ao endereço desses censores que se transformaram em agressores:

“A crítica é uma arma de dois gumes que deve ser manejada com extrema cautela e absoluta retidão, se quiserem evitar conseqüências fatais. Assim, por exemplo, há críticos incautos que obtêm por único resultado ver atirar fora o recém-nascido juntamente com a água do banho...”


Na verdade é esse o nosso caso, mas eu não tenho nenhuma intenção de demorar-me em demonstrá-lo e me satisfarei em aludir indiretamente aos resultados obtidos pelos nossos críticos, repetindo as palavras do Cel. Begbie:

“Se eu, por um só momento, pensasse que a minha relação (escrita por sentimento de dever e no interesse da causa espírita) tivesse por conseqüência engendrar insinuações e acusações sobre a nossa honestidade, não a teria nunca publicado.”





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