Ernesto Bozzano Gemas, Amuletos e Talismãs



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Capítulo III


Farei notar agora que os “transportes” de pedras preciosas, que se realizaram pela mediunidade de Moses, também são teoricamente importantes, no sentido de que se prestam, de modo especial, a pôr em evidência as parcelas de verdade existentes nas superstições tradicionais, relativas às virtudes benfazejas que os amuletos e talismãs contêm. Eles eram constituídos de toda espécie de materiais heterogêneos, mas igualmente consistiam, às vezes, em gemas, consideradas amuletos, tanto pelos povos orientais como pelos gregos, romanos e etruscos. Não esqueçamos tampouco que esses povos são acordes em estabelecer substancial diferença entre os amuletos e os talismãs. Consistia nisto a diferença: enquanto o talismã comunicava àquele que o trazia sobre si um poder que lhe permitia domar as forças da natureza e dos homens, o amuleto possuía, por sua vez, virtudes protetoras e servia para imunizar das enfermidades, do mau-olhado, etc.

Os romanos, com especialidade, alimentaram mais a superstição dos amuletos constituídos de gemas e a transmitiram ao período seguinte, da Idade Média. Ainda existe grande número de obras, geralmente intituladas Liber lapidum (Livro das pedras), em que se explicam as virtudes maravilhosas das pedras preciosas. Excetuava-se, no entanto, a opala, que, entre todas aquelas pedras, era a única tida por funesta ao bem-estar daquele que consigo a trazia, a ponto de retardar a cura das moléstias ou de impedir a cicatrização das feridas. Convém chamar aqui a atenção para uma observação moderna a esse respeito e que dá seriamente que pensar. É que, em 1929, apareceu na revista Le Temps Médical (O Tempo Médico) um artigo do doutor Rieu Villeneuve, dando conta de um caso que pessoalmente observara, o de um indivíduo que sofria de fratura de uma vértebra, da qual jamais conseguira curar-se e que, ao contrário, ia de mal a pior, sem que o Dr. Villeneuve lograsse descobrir a causa das pioras. Ora, o indivíduo em questão trazia no dedo um anel em que se achava montada magnífica opala. Alguém lhe aconselhou que tirasse do dedo o anel. Desde esse dia, rápida melhora se produziu na vértebra fraturada, que não tardou a ficar perfeitamente curada. O Dr. Villeneuve se declara convicto da influência que a opala exercia sobre as fases da cura, mas explica as causas dessa influência por induções rigorosamente científicas, assinalando que a opala é constituída, principalmente, de sílica e, em menores proporções, de minerais diversos, tendentes todos a dissociar-se – como o radium – lançando em todas as direções seus projéteis, ou “electrônios”, assim como seus raios “alfa”, “beta”, etc. Nada de absurdo haveria em supor-se que, no caso da opala, essas irradiações pudessem exercer influências deletérias sobre a cicatrização das feridas ou a cura das enfermidades.

Tais, em resumo, as considerações sensatas e cientificamente legítimas, que o Dr. Villeneuve formulou. É-se levado a deduzir delas que as superstições sobre as propriedades malfazejas da opala continham um fundo de verdade, pois que se baseavam em fatos mal interpretados, conquanto bem estudados.

Observarei com satisfação que já o professor Richet exprimira, de modo geral, idéia análoga à do Dr. Villeneuve. Em seu Tratado de Metapsíquica, pág. 22, 1ª edição, a propósito dos amuletos, fetiches e sortilégios, pondera ele:

“Mas, repito-o, mesmo com relação a essas superstições ridículas, deve-se ser prudente na negação. Se admitirmos, como parece provado, que há, por vezes, nas coisas uma como emanação, que atua sobre a nossa criptestesia, não seria absurdo que uma vibração qualquer se desprendesse das coisas, com a capacidade de atuar, quer sobre a nossa inteligência, quer sobre a dos outros homens. Ao demais, há nos acontecimentos tal emaranhado, que tudo é possível.”

Considero-me, pois, autorizado a concluir que a interpretação do Dr. Villeneuve deve ser tomada em séria consideração, tanto mais quanto é suscetível de grandes generalizações, no que respeita às pedras preciosas funcionando como amuletos. Dever-se-á, entretanto, reconhecer que a interpretação de que se trata não basta para explicar certas “virtudes” atribuídas a amuletos que não são pedras preciosas, nem às próprias pedras, quando servem de amuletos, “virtudes” que, segundo a análise dos fatos, não poderiam ser atiradas para o rol das superstições que se aglomeraram em torno dessa única e insuficiente parcela de verdade, posta em foco pelo Dr. Villeneuve. Com efeito, os “transportes” de pedras-amuletos, que aqui estudamos, apresentaram modalidades de manifestação que levam a supor que alguma outra parcela de verdade, de categoria muito diversa, se deveria encontrar, oculta e disfarçada, no amontoado de superstições que os séculos nos transmitiram.

Dizendo isto, reporto-me à crença tradicional de que as pedrarias, os amuletos e os talismãs, além da virtude que lhes é inerente à constituição físico-química, possuem outras, adquiridas por meio da saturação de influências provenientes da vontade de personalidades que, conforme os casos, poderiam ser personalidades de vivos ou de trespassados.

Querendo proceder gradualmente e limitando-me a só considerar as influências benfazejas ou maléficas, armazenadas nos objetos e nas pedrarias pela vontade dos vivos, farei notar que esse fenômeno é de natureza a não surpreender os que têm conhecimento bastante dos fenômenos metapsíquicos, dado que o fato de uma saturação fluídica dos objetos, alheia aos próprios objetos, está cientificamente provada pelas experiências de “psicometria”, nas quais a absorção da “aura” de um indivíduo, por um objeto qualquer que ele trouxe durante longo tempo consigo, constitui o fundamento das experiências em questão. E estas – repito-o – pertencem, doravante, aos fenômenos metapsíquicos comprovados experimentalmente e renováveis à vontade.

Além disso, as experiências de “psicometria” também demonstram que a matéria, em geral, é suscetível de registrar as vibrações emanantes dos acontecimentos que perto delas se desenrolam, tornando aptos os “sensitivos psicômetras” a revelar a história dos objetos com que eles se põem em contato, isto é, em relação, e sem nenhuma limitação de tempo. É assim que um pequeno fragmento de fóssil da época quaternária pode bastar para nos revelar um episódio da história geológica e paleontológica do seu tempo, tal como se dá no caso de um objeto usado durante muitos anos por um vivo ou um morto, o qual revela ao sensitivo parte dos acontecimentos que o seu dono viveu.

Segue-se que, em princípio, as experiências de “psicometria” provam a existência de uma “virtude” benéfica ou maléfica registrada e conservada nas gemas, amuletos e talismãs, graças à intervenção de uma vontade exterior. Fora, todavia, mister que esta se caracterizasse por um poder excepcional de irradiação, combinado com uma extraordinária energia volitiva, acrescendo que os objetos assim influenciados teriam de ser eficazes unicamente nos casos de percipientes ultra-sensitivos. A grande maioria dos vivos se conservariam insensíveis a essas influências. É, aliás, o que acontece nas experiências de “psicometria”, em que somente alguns raros sensitivos chegam a perceber as influências existentes nos objetos.

Essas circunstâncias são de natureza a reduzir a proporções muito modestas a eficácia benéfica ou maléfica dos objetos utilizados como amuletos e talismãs. Tanto assim que, nas instruções dadas por “Imperator” sobre a maneira pela qual deviam ser empregadas as jóias-amuletos de que ele provera o grupo dos experimentadores, se depara com uma observação que limita, ao sentido que acabo de indicar, a ação taumatúrgica das pedras trazidas. Diz ele, com efeito, que as propriedades curativas da influência contida nas gemas iam mostrar-se muito eficazes para o médium, por ser ele um “sensitivo”, ao passo que o Dr. Speer, cuja “natureza vigorosa, positiva, magnética se afirmava energicamente”, não experimentaria visíveis feitos curativos, mas apenas influências benéficas, de natureza moral ou espiritual. Essas explicações se confirmaram na prática; reforçam, pois, as conclusões a que chegamos, isto é, que para sentir os efeitos benéficos ou maléficos que as jóias, os amuletos e os talismãs encerram e desprendem de si, importa, antes de tudo, que a pessoa seja um “sensitivo” e que, inversamente, para ser apta a carregar de tais influências os objetos, é absolutamente necessário que possua faculdades magnéticas e força de vontade verdadeiramente excepcionais.

Resumindo-se: se, de um lado, se pode negar que haja amuletos e talismãs efetivamente saturados de certa influência benfazeja ou malfazeja, para quem os traga consigo, de outro lado, a extrema raridade dos indivíduos capazes de influenciar assim os objetos, junto à extrema raridade dos “sensitivos” suscetíveis de lhes sofrerem as influências, de molde a restringir significativamente o fenômeno, nos levam a considerar destituídos de toda importância os amuletos e talismãs. Cumpre se excetuem apenas os casos freqüentes, mas de natureza diversa, que têm como causa um fato auto-sugestivo, determinado pela fé cega nas virtudes taumatúrgicas do objeto que se possua, ou na eficácia das práticas religiosas executadas. Esse caso nos faz entrar noutra ordem de fatos, que podem assemelhar-se aos de que aqui tratamos, porém que, realmente, nada de comum apresentam com eles.

Resta-nos falar de uma última graduação dos fenômenos em apreço, segundo a qual esta forma de saturação dos amuletos não tem exclusivamente como causa a vontade dos vivos, podendo também realizar-se pela vontade dos defuntos. Cingindo-nos ao caso com que nos ocupamos, observarei que não se poderia, racionalmente, pôr em dúvida a origem transcendental, espirítica, dos “transportes” de pedras-amuletos obtidos nas experiências com Moses. E isto, primeiramente, em face das considerações que já expusemos, isto é, que não há em nosso mundo pedras preciosas que se embaciem e mudem de cor, quando o respectivo dono está doente, ao mesmo tempo em que, na opinião dos peritos joalheiros, jamais se viram outras de tanta beleza e pureza. Acresce-se que, não se podendo negar, no caso de que tratamos, a existência, nas pedras preciosas, de uma saturação fluídica benfazeja de origem exterior, restaria perguntar qual seria então a origem dessa influência. Se não era devida à vontade das personalidades espirituais que haviam criado as jóias, qual poderia ser o desconhecido vivo que transmitia, à distância, a sua influência taumatúrgica? Não tem resposta essa pergunta, a menos se busque refúgio, ainda uma vez, na cômoda hipótese da subconsciência, que houvera então tirado do nada as pedras preciosas para, em seguida, as saturar de influências benéficas extraídas de si mesma e que serviriam para curar... a si mesma e aos outros. Mas, é evidente que tudo isso equivale a acumular absurdidades. Os que com isso se contentam têm a liberdade de fazê-lo, mas só com a condição de não falarem em nome dos métodos de pesquisa científica, e sim em homenagem ao direito de soltarem os freios à fantasia.

Há ainda a formular a observação mais importante a esse propósito: é que uma regra elementar das pesquisas científicas exige que nunca se chegue a conclusões de ordem geral, com fundamento na análise parcial de um só grupo episódico, destacado do conjunto dos fatos que formam com ele uma coisa indivisível. Ora, o fenômeno do “transporte” de pedras preciosas mais não é do que um grupo episódico pertencente a um conjunto prodigioso de outros grupos episódicos de ordem física e intelectual que, considerados coletivamente, formam um feixe tal de provas indutivas e coletivas, convergentes para uma explicação única – a interpretação espirítica dos fatos –, que nenhuma dúvida fica sobre a legitimidade dessa interpretação. Unicamente, para se chegar a tais conclusões é preciso haver estudado, analisado, comparado o conteúdo de uma enorme documentação concernente às experiências de que se trata.

Poucas pessoas o têm feito até agora, porque, ademais, não é fácil encontrar-se uma boa parte do material indispensável. Assim, por exemplo, os relatos volumosos e muito importantes da Sra. Stanhope Speer, referentes a uma série inteira de sessões experimentais, que duraram nove anos, apareceu no Light no correr dos anos de 1892 e 1893. Nunca foram reunidos em volume, nem mesmo na Inglaterra, e hoje não há como encontrá-los. Quanto a mim, possuo a coleção completa; posso, pois, contar-me entre as raras pessoas que podem, a tal respeito, emitir juízo com conhecimento de causa. Nessas condições, é manifesto que, se houvessem outros pesquisadores que desejassem, a seu turno, julgar desses fatos, pronunciando-se contra a origem espírita das pedras de que temos falado, e se o fizessem, contentando-se com o basear suas afirmações sobre a análise desse fenômeno, mas isolado do conjunto dos fatos, isto é, tirando da análise parcial de um só grupo episódico conclusões de ordem geral, esses tais cometeriam, pelo menos, um erro imperdoável de metodologia científica.

Em conclusão: os famosos “transportes” de gemas-amuletos, que se realizavam com o auxílio da mediunidade do Rev. William Stainton Moses, não contribuem apenas para pôr em foco as parcelas de verdade existentes no amontoado informe de superstições que se aglomeram em torno da história dos amuletos e dos talismãs; não servem unicamente para clarear esse assunto tão obscuro, legitimando-o em pequena parte e fixando-o em limites muito estreitos a possível influência. Concorrem também, de maneira eficaz, para demonstrar a intervenção incontestável de entidades espirituais nas manifestações mediúnicas a que nos referimos, o que equivale a lhe estender o alcance a todas as grandes manifestações do mesmo gênero.


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