Ernesto Bozzano Gemas, Amuletos e Talismãs



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Ernesto Bozzano

Relação cronológica de


suas principais obras


por Carlos Bernardo Loureiro
Ernesto Bozzano nasceu em Savona, província de Gênova, na Itália, no ano de 1861, e desencarnou em Gênova a 7 de julho de 1943.

Desde cedo interessou-se viva e precocemente por assuntos ligados à Filosofia, à Psicologia, à Astronomia, às Ciências Naturais e à Parapsicologia.

Após o estudo do livro de Aksakof 3 principiam verdadeiramente as suas investigações metódicas no campo da “ciência da alma”.

Compreende imediatamente a sua grande complexidade e sente a necessidade de penetrá-la até aos seus alicerces, de esquadrinhar as suas origens, estudá-la na história dos povos civilizados e na dos povos selvagens e proceder pessoalmente a experiências com numerosos médiuns.

A lógica irresistível dos fatos fará dele um dos defensores mais ardentes, mais autorizados, mais prestigiosos da tese espírita.

Lê primeiro as obras de Allan Kardec, Gabriel Delanne, Léon Denis, Eugène Nus, William Crookes, A. Russel Wallace, D. D. Home, Du Prel, e adquire as principais obras inglesas e americanas publicadas desde a origem do movimento.

Vai catalogando o conteúdo dessas obras por meio de um classificador alfabético, método precioso e prático que empregará durante toda sua vida.

Adquire assim uma cultura sólida e só depois considera que chegou o momento de pôr frente a frente os seus conhecimentos teóricos com as pesquisas experimentais.

Com alguns amigos, funda em Gênova a primeira Sociedade de Estudos Psíquicos: o Círculo Científico Minerva, onde faz experiências desde 1891 a 1906. Esse Círculo promove, durante quatro anos, magníficas pesquisas, nas quais os experimentadores registram manifestações de toda espécie: pancadas, movimento de objetos, transportes em plena luz e, além disso, provas de identificação espírita.

Também durante três anos faz experiências com a médium Eusápia Paladino. Obtém, especialmente, em companhia dos professores Morselli e Porro, materializações completas de fantasmas em plena luz e estando, ainda, o médium visível ao mesmo tempo.

Durante toda a sua vida, Bozzano prossegue nas suas numerosas experiências e leituras.

Durante meio século de investigações severas, nada parece indigno de uma análise atenta a esse homem de inteligência prodigiosa.

Lê os livros e revistas publicadas em todo o mundo, que versam o assunto que o apaixona. Anota todos os casos interessantes, classifica todos os fatos, dividindo-os em categorias, grupos, subgrupos, e mantém cuidadosamente em dia um quadro geral das matérias.

Esse homem infatigável dispôs assim de uma antologia extraordinária – única, porque só ele efetuou trabalho semelhante – de 1.200 classificações de fatos produzidos em todo o mundo; antologia na qual se encontram registrados todos os fenômenos supranormais e rigorosamente controlados, obtidos experimentalmente ou espontaneamente produzidos desde o início do movimento espírita até os nossos dias, isto é, durante 100 anos.

Essa coleção compreende também todas as teorias, todas as hipóteses imaginadas para explicar os fatos, todas as argumentações, quer sejam excelentes, boas, medíocres, absurdas ou voluntariamente falsas para induzir em erro, que foram formuladas para sustentar essas hipóteses.

Como todo investigador de determinado ramo da ciência, qualquer que seja, Bozzano empregou o processo de análise comparada e fê-la seguir imediatamente de uma síntese.

Nunca se aventurou a emitir conclusões de natureza geral relativamente à origem provável de certa categoria de fatos, sem primeiro ter passado em revista, analisado, comparado, todos os casos conhecidos e todas as hipóteses formuladas.

O escrúpulo que emprega na análise racional dos fatos – diz o Doutor Francesco Leti na revista italiana Mondo Occulto – corta e divide com precisão miraculosa, separando o substancial do acessório, realçando com justeza os pontos que, à primeira vista, não têm qualquer importância para ser submetidos a uma crítica mais minuciosa e a um exame mais rigoroso.

Graças a esse método, que o conduzirá à convergência das provas, critérios de toda a investigação científica; graças a essa prodigiosa massa de fatos inteligentemente reunidos, Bozzano pronuncia-se com autoridade. Rebate as hipóteses dos seus contraditores em todos os domínios do pensamento: filosófico, científico e teológico.

A sua lógica cerrada e o seu raciocínio verdadeiramente matemático tornam-no temível lutador. Sob fogo dos seus argumentos sutis, os adversários emudecem.

Cria renome cada vez maior: depressa é considerado um mestre. Mais de 200 cartas por mês, provenientes de investigadores curiosos de todas as partes do mundo, vêm interromper-lhe as meditações e o trabalho – a delicadeza mais elementar exige uma resposta para essas cartas –; colabora em numerosas revistas italianas e estrangeiras, entre as quais La Revue Spirite.

A parte essencial da sua obra consiste na publicação ininterrupta de monografias poderosas, profundas, das quais só algumas foram traduzidas em francês e inglês. Nelas reúne os fatos mais importantes de cada categoria.

Não elimina a priori qualquer hipótese, porque só tem um objetivo: o conhecimento da verdade. Não emprega frases impressionantes e vazias de sentido. Demonstra com fatos. Fatos mais importantes de cada categoria.

Vamos citar, por ordem cronológica, os seus trabalhos mais importantes e percorrer assim, muito rapidamente, o vasto campo da fenomenologia anímica e espírita.

Em 1903, na Hipótese Espírita e Teorias Científicas, relata-nos Bozzano as suas experiências com a médium Eusápia Paladino. Discute e elimina as hipóteses de fraude, de alucinação e sugestão, passa em revista as teorias explicativas e consagra um capítulo aos fenômenos de interferência, isto é, as diversas causas susceptíveis de alterar as comunicações. Termina pelas provas de identidade fornecidas no decurso dessas sessões. Conclui que tudo concorre para demonstrar que inteligências espirituais, autônomas, estranhas ao médium e aos assistentes presidem realmente à manifestação dos fenômenos mediúnicos.

Em 1909, no estudo intitulado Casos de Identificação Espírita, relata as provas dadas por mortos que viveram obscuramente e desconhecidos do médium e dos assistentes.

Em 1911 (e 1937), nos Fenômenos de Bilocação, comenta os diversos graus de produção dessas manifestações, graus que se completam e reforçam uns aos outros:


  • fenômenos ditos de sensação de integridade nos amputados; os membros fluídicos são vistos pelos sensitivos e revelados por fotografias;

  • desdobramento apenas esboçado, no qual o indivíduo vê, à distância, o seu duplo, embora conserve plena consciência de si próprio (autoscopia);

  • desdobramento completo: a consciência pessoal é transferida para o duplo, que vê, à distância, o seu próprio corpo inanimado;

  • desdobramento durante o sono normal, o sono magnético, a síncope, etc.;

  • casos em que o duplo de um vivo adormecido é visto por outras pessoas;

  • desdobramento fluídico no leito de morte, perceptível aos sensitivos ou aos assistentes;

  • descrição de videntes sobre o processo da separação, nos moribundos, do corpo etéreo e do corpo físico, com a intervenção de entidades espirituais.

Os fenômenos de bilocação, por si sós, bastam para demonstrar experimentalmente a existência e a sobrevivência da alma humana. Provam a existência do corpo etéreo, que pode afastar-se temporariamente do corpo físico, durante a existência terrena. Por conseqüência, logo que dele se separa definitivamente na crise da morte, o espírito individualizado continua a sua existência num meio apropriado.

Em 1915 (e 1928) aparece o estudo sobre Os Fenômenos Premonitórios (clarividência do futuro). A análise desses fenômenos concorre para demonstrar que, se é verdade que o destino humano está previamente traçado nas linhas principais do seu desenvolvimento, é igualmente verdade que se deixou ao indivíduo certa liberdade de ação, maior ou menor, segundo o grau da sua maturidade espiritual.

Não há, portanto, livre arbítrio absoluto, nem determinismo absoluto; trata-se, antes, de liberdade condicionada que governa a existência encarnada do espírito.

Em 1919 (e 1929), nos Fenômenos de Obsessão, comenta alguns dos 532 casos que recolheu: estudo extremamente profundo, de uma amplitude impressionante, onde o autor é sempre claro, apesar da complexidade do problema.

É o clássico do Espiritismo contemporâneo e a melhor obra sobre o assunto.

Notamos que os fenômenos de obsessão e os fenômenos mediúnicos são transformáveis, convertíveis e impermutáveis. Isso quer dizer que:



  • as manifestações mediúnicas experimentais transformaram-se em fenômenos de obsessão;

  • os fenômenos de obsessão transformaram-se em manifestações mediúnicas experimentais;

  • os fenômenos de obsessão cessaram após uma sessão mediúnica realizada com esse objetivo no local assombrado, ou após o cumprimento de promessa feita no leito de morte e não cumprida.

Em 1920 é publicada a monografia Aparições de Defuntos no Leito de Morte.

No decorrer do período que precede a agonia, os moribundos vêem por vezes pessoas já falecidas. Essas aparições são vistas:



  • pelo moribundo;

  • coletivamente, pelo moribundo e pelos assistentes;

  • apenas pelos assistentes, o que é muito raro.

Acrescentemos ainda o importantíssimo grupo das aparições no leito de morte que foram antecipadamente anunciadas e mediunicamente confirmadas.

Em 1920 e 1921 apareceram sucessivamente Os Fenômenos de Telestesia, que aborda a faculdade de experimentar sensações à distância sem o concurso dos sentidos físicos – é a clarividência no presente –, e Os Enigmas da Psicometria, que analisa a faculdade de se pôr em comunicação com uma pessoa (viva ou morta) ou um grupo de pessoas, por meio de um objeto. O contato pode estabelecer-se igualmente com animais, organismos vegetais, matéria inanimada ou determinado meio ligado ao objeto.

Bozzano faz-nos admirar, nesta última obra, o mecanismo completo de faculdade tão desconcertante, que é uma das formas da clarividência.

Em 1922: Os Fenômenos de Telecinesia em Relação com os Acontecimentos de Morte. Trata-se de fenômenos espontâneos; como regra geral, são retratos ou quadros que caem sem qualquer causa natural; ou então relógios que param ou recomeçam a trabalhar; levitação de camas, espelhos partidos, ruídos, toques de campainhas, etc.

Exerce-se, portanto, uma ação física à distância, o que necessita de uma vontade dirigente.

Esses fenômenos podem verificar-se:



  • no momento da morte;

  • no instante em que a família recebe a notícia;

  • no momento em que se evoca a recordação do falecido.

Resultam muitas vezes de promessa feita em vida pelo defunto aos seus amigos.

Repetem-se, em certos casos, até que tenha sido satisfeito o desejo expresso pelo morto antes do trespasse.

Em 1922, em Fenômenos de Música Transcendental,4 Bozzano classifica as seguintes categorias:


  • a música transcendental verificada objetivamente (isto é, nos casos em que há percepção acústica de ondas sonoras) por meio do médium:

1. sem instrumentos musicais (como W. Stainton Moses);

2. com instrumentos musicais (sem contato direto do médium – Home; por intermédio direto do médium, mas de maneira automática – como o pianista Aubert);



  • há também manifestações de origem telepática, nas quais o fenômeno de audição musical coincide com um acontecimento de morte à distância; são relativamente raras; é necessário, com efeito, que o agente seja dotado de certa cultura musical;

  • audição musical com o caráter de obsessão, ou seja, tendo lugar em locais assombrados;

  • música transcendental apercebida por um indivíduo em estado sonambúlico, ou por um sensitivo em vigília, mas sem coincidência de morte;

  • audição musical no leito de morte, atuando como percipientes ou somente o moribundo, ou os assistentes, ou todos coletivamente;

  • audição musical após a morte, caso em que o fenômeno tem valor como prova de identidade espírita.

Em 1923 Bozzano estuda As Comunicações Mediúnicas entre os Vivos.

As diferentes categorias dessa classe são longamente estudadas. O autor conclui que o fato de poder considerar simultaneamente a causa e o efeito lança uma luz sobre as causas de erros, as interferências e as personificações subconscientes.

No mesmo ano, no estudo de As Manifestações Metafísicas e os Animais, faz a pergunta: os animais têm alma? O autor apóia-se em 150 casos muito curiosos, que comportam as seguintes manifestações:


  • episódios telepáticos em que os animais são percipientes ou agentes;

  • os animais vêem fantasmas e outras manifestações supranormais, antes do homem ou ao mesmo tempo em que o homem, ou mesmo sós, fora de toda a coincidência telepática;

  • de animais e premonições de morte;

  • os animais vêem coletivamente como o homem as manifestações que se realizam nos locais assombrados;

  • as materializações de fantasmas de animais obtidas experimentalmente;

  • as aparições, após a morte, de fantasmas de animais identificados.

Bozzano conclui que tudo contribui para provar a realidade da existência e da sobrevivência da psique animal.

Termina esse livro por uma discussão da maior importância a respeito do problema da vida e da evolução dos seres.

Em 1925 aparecem Povos Primitivos e as Manifestações Supranormais.

Todos os fenômenos que estudamos tem o seu paralelo nos povos primitivos, com as mesmas modalidades de realização.

Essa monografia cita e comenta numerosos testemunhos sobre as crenças e as práticas mágicas dos selvagens.

Em 1926 o autor pulveriza no livro A Propósito da “Introdução à Metapsíquica Humana” de René Sudre os argumentos antiespíritas de Sudre, bem como as hipóteses acrobáticas formuladas por este para se libertar da tese espírita.

Em 1927 escreve A Propósito de Revelações Transcendentais, ensaio constituído por um estudo comparado extremamente severo quanto à seleção de mensagens em que os espíritos descrevem as condições e os estados da sua existência espiritual, condições e estados que diferem segundo o grau da sua evolução.

Em 1929 aparece, entre outras, a monografia Pensamento e Vontade.

Estudando as formas abstratas e as formas concretas do pensamento, a fotografia transcendental e as materializações, Bozzano demonstra experimentalmente que o pensamento e a vontade – essas duas chaves do universo – são forças plasticizantes e organizadoras.

Esse pequeno livro com uma centena de páginas é um monumento, um verdadeiro clássico do Espiritismo. É a demonstração de todo o poder da idéia, do espírito, que condiciona a matéria.

Ainda em 1929 Bozzano publica A Crise da Morte segundo as descrições dos defuntos que se comunicam. Nessa obra, que não é mais do que um ensaio, estuda as fases que os defuntos atravessam na crise da morte e as circunstâncias da sua entrada no meio espiritual.

Bozzano operou uma seleção severa das mensagens obtidas mediunicamente. Classificou-as, comparou-as, tendo o cuidado de se informar previamente sobre os conhecimentos especiais de cada indivíduo a respeito da doutrina espírita.

Relaciona doze pormenores a respeito dos quais todos os espíritos que se comunicam estão de acordo e que constituem um quadro esquemático dos acontecimentos que nos esperam.

Em 1930, em Literatura de Além-túmulo, estuda uma das formas que revestem as manifestações mediúnicas de natureza inteligente: a produção de obras literárias ditadas por entidades.

Tratam-se de obras de grande interesse, que não podem ser atribuídas a uma elaboração subconsciente da cultura geral – muito limitada –, reconhecida aos médiuns que as escreveram materialmente.

Provêm de entidades estranhas a esses médiuns, sendo as provas constituídas pela forma, o estilo, a técnica da obra, independentemente da caligrafia e outras provas complementares importantes.

Aparecem em seguida (1930) Algumas Variedades Teoricamente Interessantes de Casos de Identificação Espírita.

Em 1931 Bozzano classifica os Fenômenos de Transporte, que consistem na penetração de qualquer objeto numa sala hermeticamente fechada.

Bozzano eliminou completamente todos os fenômenos obtidos em obscuridade completa, com exceção dos obtidos a pedido ou cuja natureza excepcional do objeto transportado tornasse impossível qualquer prática fraudulenta.

Com dois amigos médiuns estudou esses fenômenos durante dez anos, estudo que se prolongou por mais onze meses com Eusápia Paladino.

Destaca as duas seguintes características de enorme importância teórica:


  • os objetivos transportados nunca têm valor comercial;

  • governam os fenômenos de transporte severas restrições de ordem moral (por exemplo, transporte correto a respeito da propriedade de outrem).

Em 1931, em Marcas e Impressões de Mãos em Fogo, Bozzano reúne dois fenômenos em que as aparições deixam sobre os objetos (tecidos e roupas) traços semelhantes aos das mãos de fogo, vestígios de queimaduras.

A tonalidade vibratória dos fluidos espirituais é mais intensa do que a da substância viva ou dos tecidos vegetais. Logo que as vibrações intensas da substância espiritual encontram as mais fracas da substância viva ou dos tecidos vegetais, estes são destruídos, como se fossem queimados.

Ainda em 1931 publica Investigações sobre as Manifestações Supranormais, onde reúne diferentes estudos, entre os quais citamos:


  • Da visão panorâmica ou memória sintética na eminência da morte;

  • As crianças e as aparições dos mortos;

  • Reminiscência de uma vida anterior;

  • Psicologia da razão humana;

  • A significação filosófica da dúvida;

  • As materializações de fantasmas em proporções minúsculas;5

  • Gemas, amuletos e talismãs;

  • Casos de reencarnação, de identificação espírita, de premonição, etc.

Em 1932, em Mediunidade Poliglota,6 cita impressionantes casos de médiuns que falam e escrevem em línguas antigas e modernas, que desconhecem no seu estado normal. Em certos casos, os demais presentes ignoram igualmente essas línguas.

Em 1934, em Telepatia, Telestesia e a Lei da Relação Psíquica, Bozzano mostra que uma lei inexorável de “sintonização” governa essas comunicações psíquicas: é a lei da relação psíquica, que não é mais do que uma manifestação da grande lei cósmica que rege o universo físico e psíquico – a lei da afinidade.

De 1935 a 1937 são publicadas as seguintes obras:


  • Os fenômenos de transfiguração (consiste na mudança de aspecto de um corpo vivo);

  • História dos “raps”;7

  • Fenômenos olfativos de natureza patológica, telepática e supranormal;

  • Perfumes espíritas;

  • A reprodução da crise que precede a agonia nos defuntos que se comunicam.

Em 1937 o Comitê Organizador do Congresso Espírita Internacional de Glasgow fez a seguinte pergunta a Bozzano: “Animismo ou Espiritismo? Qual destas duas teses explica os fatos?

De certo modo, era pedir ao mestre para resumir o seu trabalho de meio século. A resposta é constituída por uma obra de síntese geral, “A influência dos desencarnados na vida humana”, onde o autor elimina toda a possibilidade de crítica por parte dos seus contraditores.8

Nela demonstra que as faculdades supranormais do homem são independentes das leis de evolução biológica das espécies e passa em revista as categorias de fenômenos absolutamente inexplicáveis por outras teorias.

A sua conclusão base é a seguinte:

“Nem o animismo nem o espiritismo podem, individualmente, explicar o conjunto dos fenômenos supranormais. Ambos são indispensáveis para esse fim, pois ambos são os efeitos da mesma causa.

Essa causa é o espírito humano, que, quando se manifesta sob formas passageiras durante a encarnação, determina os fenômenos anímicos e, quando se manifesta mediunicamente na condição de desencarnado, determina os fenômenos espíritas.

Daqui resulta que os fenômenos metapsíquicos podem ser anímicos ou espíritas, segundo as circunstâncias.

Devemos analisá-los constantemente, caso por caso, antes de nos pronunciarmos quanto à sua origem anímica ou espírita. O que equivale a reconhecer que o erro mais grave em que pode cair um investigador é o de se apressar a generalizar, estendendo a um grupo inteiro de fenômenos as conclusões legitimamente aplicáveis a um só fato examinado.”

Em todas as suas obras, Bozzano foi o campeão da tese: o animismo (manifestação da alma no seu estado de encarnação) prova o espiritismo (manifestação da alma no seu estado de desencarnação).

Afirmar isto, diz ele, é demolir a objeção segundo a qual o Espiritismo tende a explicar “o desconhecimento pelo desconhecido”. É sustentar que, para chegar à demonstração científica da tese espírita, passa-se por uma graduação admirável de causas conhecidas a outras menos conhecidas, mais solidamente baseadas nas que precedem.

As numerosas provas cumulativas que decorrem dos fenômenos anímicos e espíritas convergem todos – quer queiram, quer não – para a demonstração experimental da existência e da sobrevivência do espírito humano.

Quem leu Bozzano com atenção – a menos que de antemão lhe seja hostil e com opinião preconcebida a respeito da tese espírita – deve acabar por admitir que esta se impõe pela sua evidência e amplitude.

Em julho de 1945 o jornal brasileiro “A Luz do Futuro” afirma que Bozzano ultrapassou a sua época. Para ele a hora foi de trabalho. A glória virá amanhã.

Não queremos terminar este trabalho sem sublinhar que os fenômenos mediúnicos, se têm o mérito de ser a base do edifício espírita, não são, contudo, mais do que os meios utilizados para vencer a incredulidade, a dúvida e a indiferença.

Os princípios filosóficos e morais que resultam desses fenômenos são-lhes muitíssimo superiores.

O Espiritismo quer que o homem rejeite todos os sentimentos inferiores, que têm o seu princípio no orgulho e no egoísmo.

Quer que a justiça, a caridade, a solidariedade, a benevolência sejam realidades vivas no seio da humanidade que ponha em prática estes dois grandes princípios: respeito por si próprio e amor ao próximo.

Quer, enfim, que a vida material se organize com fins espirituais.

Conseguirá atingir esses objetivos?

Sem dúvida que sim.

No dia 10 de setembro de 1937 Ernesto Bozzano aparece e defende a seguinte tese no Congresso Espiritista de Glasgow (Escócia), resumindo todo o gigantesco trabalho de pesquisa que realizou ao longo dos anos, sobre as mais importantes manifestações supranormais:

(O texto a seguir foi transcrito do capítulo “Conclusões” da obra Animismo ou Espiritismo?, de Ernesto Bozzano, editado em português pela Federação Espírita Brasileira.)


O presente trabalho, embora seja apenas um resumo substancial de numerosas publicações minhas sobre o tema que me sugeriu o Conselho Diretor do Congresso Espírita de Glasgow, não deixa de revestir notável valor teórico, porquanto, da síntese de múltiplas publicações condensadas num livro de pequeno porte, faz ressaltar longa série de importantes conclusões secundárias, ou de categoria, tiradas das manifestações supranormais – anímicas e espiríticas – em todas as suas graduações. Conquanto de ordem particular, essas conclusões convergem, em imponente massa cumulativa, para uma conclusão solene, de ordem geral: a solução espírita da formidável questão pesquisada pela nova ciência que se chama Metapsíquica.

Não me parecendo oportuno repetir aqui todas as conclusões de ordem secundária a que cheguei, limitar-me-ei a recordar apenas três delas, de importância fundamental.

Em primeiro lugar, lembro haver demonstrado que as faculdades supranormais subconscientes não podem ser os germens de novos sentidos destinados a surgir e fixar-se de forma permanente na humanidade do futuro e isso pelas múltiplas razões que aduzi baseado nos fatos, mas principalmente porque tudo concorre a provar que a posse de sentidos supranormais não se conciliaria com a natureza humana, de modo que as instituições civis, sociais, morais, longe de retirarem daí qualquer vantagem, seriam abaladas em seus fundamentos, anuladas, demolidas, dando em resultado que a evolução psíquica da espécie pararia, degenerando, por não mais funcionar a grande lei biológica da “luta pela vida”.

Uma vez conseguida essa demonstração, aplanado estava o caminho para o conhecimento da verdadeira natureza das faculdades supranormais em apreço, faculdades que são os “sentidos espirituais” da personalidade integral subconsciente, os quais existem pré-formados, em estado latente, nos recessos da subconsciência, aguardando o momento de emergir e atuar no meio espiritual, depois da crise da morte, do mesmo modo que os sentidos terrenos existem pré-formados, em estado latente, no embrião, esperando o momento de emergir e atuar no meio terreno, depois da crise do nascimento.

Por outras palavras: se for indispensável que o embrião humano, destinado a viver e a atuar no meio terreno, tem de aí chegar provido de sentidos apropriados e pré-formados, prontos a exercitar-se depois da crise do nascimento, igualmente indispensável há de ser que o Espírito desencarnado tenha de chegar ao meio espiritual provido de sentidos apropriados e pré-formados, prontos a ser utilizados depois da crise da morte, porquanto não é possível que os sentidos espirituais sejam criados do nada no instante da morte. Segue-se que, se o Espírito sobrevive, tem que os possuir pré-formados, em estado latente, prontos a entrar em relação com o novo meio que o acolhe. Se assim não fosse, o Espírito não sobreviveria à morte do corpo. Daí se depreende que os fenômenos anímicos são os que facultam ao homem a prova mais solene e incontestável da sobrevivência.

Em segundo lugar, lembro que ficou demonstrado já ser possível circunscrever-se dentro de limites bem definidos os poderes supranormais da subconsciência, poderes designados pelos nomes de “clarividência no espaço e no tempo”, “telepatia”, “psicometria”, “telemnesia” (esta última no sentido de leitura nas subconsciências de outros, sem limites de distância), demonstração cuja conseqüência é privar os opositores da hipótese espírita da mais formidável arma de que dispunham para combatê-la e de que se prevaleciam até ao absurdo.

Em terceiro lugar, lembro que também ficou demonstrado que, mesmo quando se admita – a título de concepção teórica – que as faculdades subconscientes possuem o atributo divino da onisciência, não se conseguiria neutralizar a possibilidade de obter-se um dia a prova científica da sobrevivência humana, possibilidade solidamente firmada no conjunto inteiro das manifestações supranormais – anímicas e espiríticas – e não apenas sobre provas de identificação espírita fundada nas informações pessoais dadas pelos defuntos que se comunicam, conforme presumem constantemente os opositores.

Evidente, portanto, se faz que a solução, no sentido aqui indicado, das três questões fundamentais em apreço equivale à solução do problema do Ser, em sentido espiritualista, donde se segue que o Animismo prova o Espiritismo e de tal modo que, sem o Animismo, o Espiritismo careceria de base.

Ao mesmo tempo e como complemento das conclusões a que cheguei, discuti a fundo, em dois capítulos extensos, os casos das comunicações mediúnicas entre vivos e os fenômenos de “bilocação”, duas categorias de manifestações teoricamente importantíssimas por corroborarem as referidas conclusões, em sentido espiritualista.

No capítulo sobre casos de “comunicações mediúnicas entre vivos”, comecei por explicar que, produzindo-se por processos idênticos àqueles pelos quais se produzem as comunicações mediúnicas de defuntos, aquelas outras ofereciam a possibilidade de apreender-se melhor a gênese destas últimas, lançando luz nova sobre as causas dos erros, das interferências, das mistificações subconscientes que nelas se deparam e, sobretudo, contribuindo a provar com rara eficácia a realidade das comunicações mediúnicas com os defuntos, pela consideração de que, nas comunicações entre vivos, se pode verificar a realidade integral do fenômeno, interrogando as pessoas colocadas “nas duas extremidades do fio” e comprovando que os fatos se desenrolam conforme o diálogo supranormal o fazia supor. Daí a sugestiva dedução de que, quando “na outra extremidade do fio” se acha uma personalidade mediúnica que afirma ser um “Espírito de defunto” e o prova dando informações biográficas que todos os presentes ignoram, racionalmente se deve concluir que “do outro lado do fio” está o “Espírito de defunto” que se declara presente, do mesmo modo que nas comunicações entre vivos é positivamente certo que “no outro extremo do fio” está o vivo que se manifesta mediunicamente.

Uma vez posta a questão a resolver sobre bases, de fato, positivas, restava dissipar uma dúvida relativa às modalidades sob as quais se produzem as duas ordens de fenômenos, dúvida que consiste na aplicação da hipótese telepática como faculdade selecionadora de informações pessoais nas subconsciências de terceiros, sem limites de distância (telemnesia), hipótese esta em que se escudavam os opositores para afirmar que, quando uma personalidade mediúnica dá informações biográficas que todos os presentes ignoram, isso não demonstra que o Espírito de um certo defunto esteja com efeito presente, uma vez que, não se podendo pôr limites às faculdades telepáticas, é sempre de supor-se que o médium haja extraído da subconsciência de pessoas distantes as informações que tenha prestado. Vimos, porém, que essa arbitrária hipótese está em erro na sua primeira proposição, porquanto demonstramos que se podem circunscrever, dentro de limites bem definidos, as faculdades investigadoras da telemnesia. Em seguida, analisando as comunicações mediúnicas entre vivos, chegamos igualmente a demonstrar que a referida hipótese erra também na sua segunda proposição, porquanto tais comunicações, longe de consistirem num processo fantástico da natureza citada, consistem numa verdadeira conversação entre duas personalidades subconscientes, o que equivale a colocar a questão em bases radicalmente diversas, uma vez que se tem de inferir que, se esta última circunstância de fato transforma as comunicações mediúnicas entre vivos em provas resolutivas de identificação pessoal dos vivos que se comunicam, forçosos será concluir-se no mesmo sentido, relativamente às comunicações mediúnicas com os defuntos, transformando-se estas, a seu turno, em provas resolutivas de identificação dos defuntos que se comunicam, tudo isso, bem entendido, sob a condição de que, num caso como no outro, se comprove que as conversações são da natureza indicada.

Firmado isto, segue-se que a solução, no sentido apontado, da importante questão referente às modalidades sob as quais se desenvolvem as relações supranormais entre “dois psiquismos de vivos” assume notabilíssimo valor teórico. Não será, pois, ocioso informar que o Dr Eugène Osty já chegara às mesmas conclusões, investigando os fenômenos de “metagnomia” (lucidez sonambúlica), com respeito aos quais assinalara que, longe de tratar-se de faculdades supranormais capazes de selecionar informações na subconsciência de terceiros, o que há é uma conversação entre dois psiquismos postos em relação entre si. Eis como ele se exprime:

“... Na realidade, é-se vítima de uma ilusão quando, fundado em aparências, se imagina que o sensitivo tira de uma mentalidade latente as informações que fornece. Semelhante ilusão o observador a perde, desde que peça à prática a explicação ao fenômeno. Só então ele apreenderá de que modo o fenômeno se produz, verificando que, quando um sensitivo se propõe a revelar a outros informações sobre vidas vividas, o seu psiquismo se torna o incitador que provoca a atividade do psiquismo de revelar. É, pois, por uma espécie de conversação subconsciente e atual que a reprodução mental elabora esses conhecimentos supranormais. Daí decorre que não se tem de pedir ao sensitivo que revele o que, no momento da experiência, pense uma pessoa distante, porém que se comporte como se essa pessoa se achasse na sua presença. Só desse modo se consegue fazer que duas subconsciências conversem uma com a outra e o resultado de tal colaboração entre dois psiquismos se traduz pelas indicações que o sensitivo ministra sobre a personalidade distante e sobre as vicissitudes da sua vida.” (Revista Metapsíquica, 1926, págs. 14-15).

Assim se exprimiu o Dr. Osty, que é a maior autoridade em pesquisas dessa ordem. Como se vê, não fiz mais do que trazer uma contribuição de fatos excepcionalmente eficazes à confirmação e à corroboração de tudo quanto já ele assinalara, por sua conta, acerca do assunto.

Observarei agora que essa importantíssima solução teórica vale pela condenação definitiva da absurda hipótese segundo a qual as indicações que os médiuns fornecem com relação aos defuntos, e que muito freqüentemente todos os presentes ignoram, são tiradas pelos mesmos médiuns às subconsciências de pessoas distantes que se conheceram em vida, selecionando-as prodigiosamente no imenso emaranhado de impressões mnemônicas aí existentes em estado de latência (telemnesia).

Nenhuma dúvida tenho, portanto, de que a preciosa comprovação em apreço sirva a simplificar admiravelmente a questão das provas de identificação espirítica, restituindo todo o seu valor teórico às manifestações dos defuntos que forneçam indicações pessoais ignoradas de todos os presentes, sobretudo, portanto, em se tratando de defuntos que todos os presentes desconheçam, caso em que o exemplo das “comunicações mediúnicas entre vivos”, por meio das quais se demonstra ser impossível estabelecer-se a relação psíquica com pessoas desconhecidas, tornaria incontestável a interpretação espírita das aludidas manifestações.

A fim de não ser mal compreendido, lembro tudo quanto oportunamente expliquei a esse respeito, isto é, que dos casos de comunicações entre vivos também ressalta a possibilidade de estabelecer-se a relação psíquica com pessoas distantes, desconhecidas de todos os presentes, mas só sob a condição de apresentar-se ao sensitivo um objeto que haja trazido consigo por longo tempo o indivíduo distante com quem se deseje entrar em comunicação (psicometria). É uma “exceção que confirma a regra”, visto que não muda por isso a base indispensável a toda relação psíquica, que consiste na “sintonização entre vibrações específicas”, sintonização que existe entre pessoas que se conhecem e que se pode conseguir indiretamente por meio de um objeto que tenha absorvido as “vibrações específicas” do indivíduo em questão. Ao mesmo tempo, faço notar que esse método indireto de conseguir-se a relação psíquica corrobora tudo o que se dá nas “comunicações mediúnicas com os mortos”, nas quais é analogamente possível estabelecer-se a relação psíquica com defuntos que todos os presentes desconheçam, sob a condição de apresentar-se ao médium um objeto que o defunto desconhecido, com quem se deseja comunicar, haja trazido durante longo tempo consigo. Lembro que esse fenômeno se produzia ordinariamente com a mediunidade da Sra. Piper, como de regra se produz com qualquer médium que genuinamente o seja. Faço notar ainda, a esse propósito, que a analogia da “telegrafia sem fio” ajudará a compreensão de como se dá e fenômeno da “sintonização” – se assim me posso exprimir – entre vivos que não se conhecem e entre defuntos e vivos em condições idênticas. Quer dizer que o objeto saturado de fluidos vitalizados (ou vibrações específicas) do vivo ou do defunto desconhecidos do médium atua à maneira de uma “estação emissora” e outra “receptora”, sintonizadas sobre o mesmo comprimento de onda, entre as quais as mensagens expedidas pela primeira chegam infalivelmente à meta, porquanto as ondas elétricas se expandem globalmente ao infinito.

Passando a falar de outro capítulo em que tratei resumidamente dos fenômenos de “bilocação”, capítulo que, do ponto de vista teórico, é sobremodo importante, limitar-me-ei a observar que tive de insistir muito particularmente sobre os fenômenos dessa natureza, quando se dão no leito de morte, evidenciando que esta última modalidade sob as quais se opera o “animismo” bastaria por si só a demonstrar, com os fatos, a sobrevivência humana. E bastará, sobretudo, se se considerar que, com essa modalidade, se passa, sem solução de continuidade, dos fenômenos “anímicos”, quando tomam a forma de fantasmas de vivos exteriorizados na crise pré-agônica, aos fenômenos “espíritas”, quando tomam forma de “fantasmas de defuntos que se manifestam pouco depois da morte”, ou de “aparições de defuntos junto ao leito dos moribundos”, sem levar em conta as outras sugestivas modalidades sob as quais se manifestam os defuntos, modalidades referidas e comentadas amplamente no capítulo quinto.

Esse capítulo é o mais importante do presente livro,9 porquanto nele se demonstra, baseada em fatos, a evidência de que, embora se concedesse a onisciência divina à subconsciência humana, não se chegaria a anular a possibilidade de provar-se cientificamente a sobrevivência. Ora, assim sendo, lícito se torna afirmar que o material de fatos por mim reunido e comentado nesse capítulo derroca todas as hipóteses e todas as objeções legítimas ou sofísticas de que dispõem os opositores, fazendo triunfar a causa da verdade, por maneira teoricamente resolutiva. Digo teoricamente, porque, praticamente, haverá sempre os grupos dos irredutíveis, que descrevi nas conclusões do aludido capítulo, os quais, embora não consigam refutar o que ali se contém, se manterão do mesmo modo recalcitrantes ou cépticos, devido à existência bastante conhecida de uma forma de idiossincrasia psíquica que torna impermeáveis a verdades novas as vias cerebrais (misoneísmo).

Mesmo que se pusesse em plena claridade a verdade simples que aqui se propugna, manifesto se faz que a objeção acerca da presumível existência de uma “criptestesia onisciente” constituirá sempre a arma não só preferida dos opositores, como até reconhecida legítima por alguns dos mais eminentes propugnadores da hipótese espírita, os quais se esforçam por lhe anular a eficiência demolidora, invocando as razões do “bom senso”, que, segundo esses propugnadores, deveram bastar para excluir uma hipótese com que se conferem poderes divinos às faculdades subconscientes. Tinham eles razão de apelar para o bom senso contra as audácias inverossímeis da fantasia adversa; mas, as invocações desse gênero eram impotentes para demolir as afirmações dos que se faziam fortes com uma objeção irrefutável, porque indemonstrável. Era necessário, antes, demonstrar-lhes o enorme erro metapsíquico em que incorriam, pretendendo que as provas experimentais da sobrevivência assentavam exclusivamente nos casos de identificação espirítica, fundados em informações pessoais fornecidas pelos defuntos que se comunicam, quando, na realidade, se fundam solidamente no conjunto inteiro da fenomenologia supranormal – anímica e espírita – em que todas as manifestações convergem para a demonstração da existência e da sobrevivência do espírito humano. Ora, é esta última verdade que se acha demonstrada no presente trabalho, baseando-se a demonstração em exemplos tomados às várias categorias de manifestações supranormais, reunidas e comentadas no capítulo quinto.

É realmente curioso que até hoje a ninguém houvesse ocorrido mostrar aos opositores o erro enorme em que caíram e persistiam, bem como que ninguém haja pensado em apontar a alguns eminentes propugnadores da hipótese espírita o erro deplorável em que, a seu turno, haviam incorrido, reconhecendo por justificada a hipótese dos adversários. Entre eles contava-se o genial propugnador de um espiritismo cientificamente compreendido, o Dr. Gustave Geley, que considerou legítima a objeção de que se trata, reconhecendo-lhe a eficácia neutralizante e declarando-a, por enquanto, impossível de ser eliminada, embora fosse ela indubitavelmente fantástica e filosoficamente absurda. Por entender assim é que invocava as razões do “bom senso”. Erro curioso, num pensador da sua força, tanto mais se se ponderar que ele perseverou nesse erro durante toda a sua vida, porquanto, depois de haver admitido a eficácia anulatória de tal objeção, num de seus primeiros livros, admitiu-a francamente ainda no último período da sua nobre existência, dirigindo ao Congresso de Copenhague uma “mensagem”, onde se expressava nestes termos:

“... Por enquanto, seja qual for a prova direta e imediata em favor da sobrevivência, ela corre o risco de ser afastada peremptoriamente pela imensa maioria dos homens de ciência, inclusive os versados em metapsíquica, os quais observam que, a rigor, qualquer fenômeno pode explicar-se por meio das faculdades supranormais da subconsciência. E é manifesto que, se se reconhecerem nos médiuns capacidades multiformes de manifestação, poderes de ideoplastia subconsciente, de criptomnesia, de “leitura do pensamento” e de lucidez, não mais haverá lugar para uma prova segura de identificação espírita. A meu ver, seria inútil negá-lo, para permanecer obstinadamente na senda das identificações pessoais. A demonstração direta da sobrevivência humana, dado seja possível, não constituirá a base, mas o coroamento do edifício metapsíquicos.” (Anais, pág. 38).

Conforme deixei dito, muitos anos antes havia ele externado o mesmo conceito em seu livro: O Ser Subconsciente, deste modo:

“É evidente que, se se admitir um desenvolvimento ilimitado aos fenômenos de “exteriorização” e um poder correlato às faculdades subconscientes, se conseguirá explicar tudo, sem necessidade de recorrer-se à intervenção de entidades espirituais.” (Pág. 103).

Era, portanto, natural que o Dr. Osty colhesse de relance as infelizes declarações do Dr. Geley ao Congresso de Copenhague, para se valer delas como prova de que este último, no derradeiro período de sua vida, renunciara às convicções espíritas. Não perdeu ele a oportunidade para comentar o fato, observando que “a bela inteligência do Dr. Geley, aberta a todas as verdades, não deixara de perceber que tudo em metapsíquica é explicável por meio dos poderes transcendentais dos vivos”, conclusão distanciada da verdade, quer quanto à substância, quer quanto à referência pessoal. Mas, pelo que concerne à referência pessoal, dou-me pressa em acrescentar que o Dr. Osty estava de perfeita boa fé quando assim se exprimia, pois ignorava que o Dr. Geley houvesse formulado o mesmo conceito num dos seus primeiros livros, isto é, quando, incontestavelmente, era espiritualista convicto, qual, aliás, se conservou por toda a sua vida, conforme quem isto escreve o pode atestar, baseado nas últimas cartas que dele recebeu. O que, ao contrário, ressaltava efetivamente dela a reiteração do mesmo erro ao Congresso de Copenhague era isto: o Dr. Geley perseverara toda a sua vida em dar importância à suposição falaz de que não existiam outras manifestações supranormais em favor da sobrevivência, além dos casos de identificação espirítica fundados nas informações pessoais ministradas pelos defuntos que se comunicam.

A este propósito, ocorre acentuar que o erro em que caíram, de um lado, o Dr. Geley e, de outro lado, o Dr. Osty, constitui notável exemplo a confirmar tudo o que afirmei nas conclusões do quinto capítulo, com relação ao fenômeno psicológico referente à grande dificuldade – singularmente generalizada – de terem-se presentes sempre ao critério da razão todos os dados constitutivos da questão a resolver-se, dados perfeitamente conhecidos daquele que os olvida. A conseqüência é que o raciocínio humano quase sempre induz e deduz fundado em processos – às vezes extremamente – parciais de síntese, que levam a lastimáveis conclusões errôneas. Ora, no nosso caso, tanto o Dr. Geley, quanto o Dr. Osty conheciam a fundo todas as categorias de fenômenos que enumerei no capítulo quinto; todavia, em chegando o momento de utilizá-las, antes de concluírem, esqueceram-nas completamente, pelo que foram ambos ter a conclusões erradas, um no empenho de defender, o outro no de destruir as bases da solução espiritualista do problema do Ser!

Tudo isso revigora, de modo eficientíssimo, a seguinte observação de Stanley de Brath:

“É notabilíssimo o fato de que a grande maioria dos espiritualistas e, sobretudo, a grande maioria dos seus opositores dão prova de deplorável incapacidade para firmarem solidamente suas convicções, ou suas opugnações, sobre o conjunto dos fatos pesquisados.”

É precisamente assim e essa comprovação tem o valor de um ensinamento solene, que nunca se deverá esquecer.

*

Concluo epilogando novamente as resultantes obtidas e o faço em forma de resposta à questão que me submeteu o Conselho Diretor do Congresso Espírita Internacional de Glasgow: “Animismo ou Espiritismo? Qual dos dois explica o conjunto dos fatos?”



Respondo: Nem um, nem outro, pois que ambos são indispensáveis à explicação do conjunto dos fenômenos supranormais, cumprindo se observe, a propósito, que eles são efeitos de uma causa única: o espírito humano que, quando se manifesta em momentos fugazes, durante a existência “encarnada”, determina os fenômenos anímicos e, quando se manifesta na condição de “desencarnado” no mundo dos vivos, determina os fenômenos espíritas. Decorre daí um importante ensinamento: que os fenômenos metapsíquicos, considerados em conjunto, a começar pela modestíssima tiptologia da trípode mediúnica e pelos estalidos no âmago da madeira, para terminar nas aparições dos vivos e nas materializações de fantasmas vitalizados e inteligentes, podem ser fenômenos anímicos ou espíritas, conforme as circunstâncias. É racional, com efeito, supor-se que o que um Espírito “desencarnado” pode realizar também deve podê-lo – embora menos bem – um Espírito “encarnado”, sob a condição, porém, de que se ache em fase transitória de diminuição vital, fase que corresponde a um processo incipiente de desencarnação do Espírito (sono fisiológico, sono sonambúlico, sono mediúnico, êxtase, delíquio, narcose, coma).

Segue-se que, em metapsíquica, faz-se necessário constantemente analisar, caso a caso, os fenômenos supranormais, antes de concluir acerca da gênese anímica ou espírita de cada um, o que equivale a reconhecer que o erro mais grave em que pode cair um pesquisador é o de apressar-se a generalizar, estender a todo um grupo de fenômenos supranormais as conclusões legitimamente aplicáveis a um só episódio. E é esse o erro em que muito amiúde incorrem tanto os “animistas totalitários” como os “espiritistas”. Nos primeiros, porém, semelhante erro constitui regra sistemática, pois, se assim não fosse, eles não seriam “animistas totalitários”.


FIM


Notas:

1A expressão trazimento foi criada por Guillon Ribeiro, ex-presidente da Federação Espírita Brasileira, na tentativa de traduzir os fenômenos de “transporte” de objetos ou seres vivos para dentro (apport) ou para fora (asport) de um recinto fechado, respectivamente. O termo genérico “transporte” nos parece mais adequado por melhor abranger o fenômeno, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora de um recinto. (Nota do revisor).

2Bozzano refere-se, certamente, à sua obra Pensiero e Volontà (Pensamento e Vontade), publicada em português pela editora FEB. (N. R.)

3O narrador refere-se à obra Animismo e Espiritismo, publicada em português pela editora FEB. (N. R.)

4As três seguintes monografias de Bozzano, citadas nas últimas páginas, quais sejam: “Aparições de defuntos no leito de morte”, “Fenômenos de telecinesia em relação com acontecimentos de morte” e “Música transcendental”, foram reunidas em um único volume, em língua portuguesa, sob o título Fenômenos psíquicos no momento da morte, pela editora FEB. (N. R.)

5Essa monografia foi publicada em língua portuguesa em um volume denominado As Materializações de Espíritos, pela editora ECO, que contém duas pequenas obras: “As Materializações de fantasmas”, de Paul Gibier, e a descrita acima, “Materializações de fantasmas em proporções minúsculas”, de Ernesto Bozzano. (N. R.)

6Essa obra foi publicada em língua portuguesa sob o título Xenoglossia (mediunidade poliglota), pela editora FEB. (N. R.)

7Esse fenômeno, os raps (pancadas mediúnicas), é abordado na obra denominada O Espiritismo e as manifestações supranormais, publicada em português pela editora O Clarim e que contém duas monografias de Bozzano: “Remontando às origens” e “Breve história dos raps”. (N. R.)

8Essa importante obra foi publicada em língua portuguesa, sob o título original Animismo ou Espiritismo?, pela editora FEB.

9Bozzano se refere à obra Animismo ou Espiritismo?.


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