Estamos espremidos no tempo e no espa



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EDITORIAL

Estamos espremidos no tempo e no espaço. Entre o que sonhamos ser e o que podemos realizar. Heidegger disse certa vez que "chegamos tarde demais para os deuses e cedo demais para o Ser". O resultado é que acabamos en­golfados pelo que o mundo nos aponta cotidianamente, e passamos a não mais refletir sobre o que somos, sobre o que é o mundo, sobre quem somos nós...

O mundo, diz Merleau-Ponty, "não é o que penso, mas o que vivencio". E Francisco Varela assinala que "o mun- do e eu, existimos em conjunto, nós nos definimos mutu­amente", que o mundo - ao contrário do que críamos an­teriormente - não mais pode ser entendido independente de mim. Somos bombardeados por sucessivas tentativas de descaracterizar nossa responsabilidade, e mesmo nos-sa sanidade, nossa percepção e compreensão do mundo e da mundanidade.

Numa sociedade pautada por premissas absolutamen- te relativistas como apontadas por uma Matrix, nossa re-alidade se torna mesmo um Clube da Luta: uma total in-definição e irrealidade. Num mundo destes, não há ne-cessidade de refletirmos sobre nada, nem mesmo existe papel claro para a educação. É neste ponto que acredita­mos que a Fenomenologia pode vir a ser uma boa respos-ta a nossos anseios.

Reflexão é verbo, é ação, não um substantivo. Como substantivo, prescinde de si mesmo; mas como verbo, se torna. Reflexão é perceber, é perceber-se, é perceber- se percebendo, como aponta a eminente formadora, Dra. Maria Aparecida Viggiani Bicudo. Reflexão é ato. Qualquer educador sabe disto, não qualquer profes-sor (Falo aqui daquele que se preocupa mais em ensi-nar e não em educar. Paulo Freire, creio, me apoiaria). Posto que educar rima com formar, e educação com formação.

Na Fenomenologia, reflexão é ato, é reflexação, ação-reflexa. E é ato composto: primeiro, é perceber, um "olhar" para o vivido, olhar este que é encarnado, na carne. "Olhar é um ato pelo qual o horizonte da visibilidade se amplia e o corpo-próprio estabelece contato com o mundo. Trata-se de um tocar à distância, e é nesse ato que nos abrimos a textura do mundo", nas palavras da Dra.Bicudo.

O olhar fenomenológico remete-nos a este "outro" mundo, coloca-nos em ato de reflexão, onde reflexão é perceber-se, e perceber-se percebendo (em ato). Foi Edmund Husserl, na esteira de uma tradição principiada por Wilhelm Dilthey e organizada por Franz Brentano, quem sistematizou esta perspectiva de um "retorno às coi­sas mesmas": reflexão, na fenomenologia, é um retorno à experiência vivida. Reflexão é ato, percebendo-se.

Neste caminho, educação rima com formação, com construção que, em si, é co-construída, já que o mundo me dá um outro que se me dá a mim mesmo. E, assim,

educar significa formar, mas não em mão única, linear, como superposição ou intromissão, não como negação de um viver que é único, real e autêntico (como a "realida-de" irreal de Matrix), mas como o sentido vivido e trans­cendente de um Amor Além da Vida, que, antes de tudo, transforma. Formação é transcendência, é superação (su-peração), que se dá em mim, a partir de um contato fe­cundo com um outro. É isto que descobre o personagem Seth, no filme Cidade dos Anjos.

É isto que nos faz humano. Este "olhar" para além. Mikel Dufrenne, ao analisar uma tela de Cézanne, ques-tiona: "Cézanne ao pintar a montanha Sainte-Victoire não nos dá uma lição de geografia: mas o que ela expres-sa? A potência de uma natureza mineral? A nudez de um mundo que a luz restitui ao elementar? A cumplicidade secreta que o inerte encontra numa alma que se despoja? Não podemos dizer: somente Cézanne o diz, numa lin-guagem intraduzível que apenas podemos escutar. Mas é certo que nos convida a viver com ele certa experiência do mundo".

Nesta sensibilidade, o artista toca a essência do huma­no: a presença, na qual o sujeito pode captar e apreender a significação do mundo, a partir de uma experiência vi­vida. "É na experiência estética que se manifesta a relação mais profunda do homem com o mundo", diria Dufrenne. E a partir disto, o mundo se dá à reflexão.

O artista, tal qual o fenomenólogo, des-oculta o mun­do, nesta intrínseca relação com um outro, "seu espelho". Para tal, basta retornarmos ao "mundo da vida", diria Husserl. Este mundo de crenças e mentes, perdido entre corpos inertes e calados, mas grávidos de sentidos ocultos a serem des-cobertos, desocultados. Por detrás destas cor­tinas simbólicas encontra-se o significado de um mundo que nada mais é do um sentido.

No fim das contas, o mundo é como Fernando Pessoa destaca: "O único sentido oculto das coisas é elas não te-rem sentido oculto algum".

Este número apresenta uma variedade e uma singulari-dade únicas, contidas num paradoxo e numa complemen-taridade que revelam novos caminhos de reflexões.

Vimos recebendo visitas de estimadas e renomadas figuras da Gestalt americana e européia e - através do inestimável serviço que nos presta (a toda comunidade gestaltista e humanista brasileira) o ITGT - temos podi­do refletir mais profundamente não apenas sobre nossa prática e nossas bases teóricas, mas fundamentalmente sobre nossas perspectivas. E o que temos escutado dessas personalidades é que se faz, aqui no Brasil, uma reflexão tão rigorosa quanto nos mais diversos espaços acadêmi­cos do mundo. Dito em outros termos, temos produzido qualidade suficiente para sermos reconhecidos por nós mesmos.


IX

Revista da Abordagem Gestáltica -XIII(2): ix-x, jul-dez, 2007

Editorial

Esta revista encerra o ano de 2007 com a apresenta-ção de algumas das produções recolhidas entre autores os mais destacados nos campos da Filosofia e da Psicologia. Destaca-se, de início, uma produção vinda das bases da formação em Gestalt, do terreno da própria academia, com um trabalho intitulado Descrição de uma Vivência de Ensino Orientada pela Gestaltpedagogia, de autoria múl­tipla e produto de esforços de estagiárias em Psicologia (Juliana Arrais de Morais Moreira e Ludymila Pimenta Ferreira são graduandas na Universidade Católica de Goiás e foram orientadas por Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa).

Em seguida apresentamos uma reflexão singular sobre o pensamento dialógico de Martin Buber, de autoria do Dr. Marcos Aurélio Fernandes, intitulado "O Que Significa Dizer Tu?"- Meditação Acerca das Palavras-Fundamentais "Eu-Tu" e "Eu-Isso".

A Fenomenologia se faz ainda mais presente neste número, graças a contribuições significativas de pes-quisadores como Ívena Pérola do Amaral Santos, com o texto A Obra Literária como Expressão Existencial das Concepções Ontológicas do Ser do Homem, e Cinthia Dutra Struchiner, com Fenomenologia: De volta ao Mundo-da-Vida.

Cada vez mais reforçando as opiniões recolhidas de nossos visitantes, somos primados com três produções de renome internacional. Da parte do respeitado Dr.Urbano Zilles-tradutorde Edmund Husserl e de Gabriel Marcel, e membro da Sociedade Brasileira de Fenomenologia -temos o texto Fenomenologia e Teoria do Conhecimento em Husserl, e da parte do Dr.William Barbosa Gomes - o mais produtivo e respeitado pesquisador da psicolo- gia fenomenológica brasileira - temos um debate acer- ca da Distinção entre Procedimentos Técnico e Lógico na Análise Fenomenológica. Somos ainda primados com a tradução de um artigo de rara profundidade, onde dois dos mais importantes pensadores na fenomenologia debatem entre si: Albert Michotte e Maurice Merleau- Ponty, intitulado Visão de Causalidade: Merleau-Ponty em Michotte, de autoria do Dr. Lester Embree, profes- sor do Departamento de Filosofia do Florida Atlantic University, em Boca Ratón, Florida (Estados Unidos) e um dos diretores do Center of Advanced Research in Phenomenology.

Por fim, e igualmente produzido no meio acadêmi­co, temos um artigo oriundo de pesquisas sobre psico­logia da religião, numa perspectiva fenomenológica, re­alizadas na Universidade de Brasília, intitulado "Eu Vim Para Que Todos Tenham Vida e Vida Em Abundância". Um estudo Comparativo de Aconselhamento Religioso em Três Vertentes Religiosas Brasileiras (Danielle Soares de Macedo; Camila Mariana Mesquita e Fonseca & Adriano Furtado Holanda).

Na seção Ensaios, destaque para duas reflexões com temas distintos, mas com olhares compartilhados. No primeiro ensaio, Walter da Rosa Ribeiro nos fala sobre a

Gestalt-Terapia no Brasil: Recontando a Nossa História, e no segundo ensaio, Marta Carmo discorre sobre Configurações Familiares - Um novo paradigma.

Apenas o anúncio de todas estas produções já seria suficiente para atestarmos a qualidade deste número. Todavia, ainda podíamos oferecer mais ao leitor. Diante desta possibilidade, estamos publicando o Prólogo da mais importante obra da Psiquiatria Fenomenológica, editada em 1933, por Eugène Minkowski, com o tí­tulo de Le Temps Vécu. Études Phénoménologiques et Psychopathologiques. Esperamos em breve estar publi­cando a totalidade de sua obra em língua portuguesa, permitindo assim que os estudiosos possam se debruçar mais facilmente sobre este fascinante tratado de fenome­nologia psiquiátrica.

Por fim, apresentamos ainda os resumos de importan­tes trabalhos desenvolvidos em mestrado e doutorado no Brasil no ano de 2007.

Agradecemos a todos que contribuíram com este nú­mero, e convidamos o leitor a nos primar com suas con-siderações e colaborações futuras.

Adriano Furtado Holanda - Editor-

Referências Bibliográficas

Bello, A.A. (2000). Edith Stein: os laços intersubjetivos; da empa­tia à solidariedade, Em Ângela Ales Bello, A Fenomenologia do Ser Humano [p. 159-204], Bauru: Edusc.

Dufrenne, M. (1998). Filosofia eEstética, São Paulo: Brasiliense. Husserl, E. (1985). Idées Directrices pour une Phénoménologie et une Philosophie Phénoménologique Pures, Paris: Gallimard.

Husserl, E. (1992). Apparitions d'esprits, intropathie, expérien-ce de l'autre, Études Phénoménologiques, N° 15, pp. 5-24 (Original em alemão de 1924).

Revista da Abordagem Gestáltica -XIII(2): ix-x, jul-dez, 2007

DESCRIÇÃO DE UMA VIVÊNCIA DE ENSINO ORIENTADA PELA GESTALTPEDAGOGIA

Description of a Teaching Experience in Gestaltpedagogy Descripcion de una Vivencia de Enseñanza Orientada por la Gestaltpedagogia

Juliana Aeráis de Moráis Moretra

ludymla plmenta ferreira

Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa

Resumo: O presente artigo relata uma experiência de prática de ensino no curso de Licenciatura em Psicologia, e tem por objeti­vo geral relacionar o exercício da docência em forma de regência em uma Escola-campo com a teoria e a prática da Gestaltpeda-gogia, tendência inovadora da Educação e da Psicologia. A proposta do artigo é apresentar a vivência dos princípios gestálticos aplicados à pedagogia, enfatizando a forma como o contato era estabelecido e mantido no aqui-e-agora, assim como a expansão das fronteiras-de-contato. A prática na escola-campo foi realizada em 22 horas-aula com exposições orais dialogadas, apresen-tação de filmes temáticos, atividades e discussões em grupo. Foi possível experienciar que a aprendizagem dos conteúdos teóri­cos nessa perspectiva exige contato no aqui-e-agora, responsabilidade, atenção frente às necessidades dos alunos, abstenção de juízos e conceitos pré-estabelecido, e a expansão das fronteiras-de-contato, tanto para professores quanto para os alunos, cons-truindo uma relação intersubjetiva. Palavras-chave: Gestaltpedagogia; Aqui-e-agora; Fronteiras-de-contato; Relação Intersubjetiva.

Abstract: The present article tells a teaching experience in the Psychology course and it has the aim to relate the teaching in a school with the theory and practice of Gestaltpedagogy, that is a new tendency in Education and Psychology. The article will present the experience with the gestalt principles applied to the education emphasizing how the contact and the contact frontier expansion were set and kept on here and now. The experience at school was executed by 22 classes with discussions, movie pre-sentations and activities in group. In this perspective, the content learning requires the contact on here and now, the respons-ability, the atention to the students necessities without judgement and prejudice, and the contact frontier expansion of students and teachers, to built an intersubjectiveness relation. Keywords: Gestaltpedagogy; Here and Now; Contact Frontier; Intersubjectiveness Relation.

Resumen: El presente artículo relata una experiencia de la práctica de enseñanza en el curso de Licenciatura en Psicología, y tiene por objetivo primordial relacionar el ejercicio de la docencia en forma de regencia en una Escuela-campo con la teoría y la práctica de la Gestaltpedagogia, una tendencia innovadora de la educación y de la Psicología. La propuesta del artículo es presentar la vivencia de los principios gestálticos aplicados a la Pedagogía, enfatizando la forma como el contacto era es­tablecido y mantenido en lo aquí-y-ahora, así como la expansión de las fronteras de contacto. La práctica en la escuela-campo fue realizada en 22 horas-aula con explanaciones orales dialogadas, presentación de películas temáticas, actividades e dis­cusiones en grupos. Se puedo contactar que el aprendizado de los contenidos teóricos en esta perspectiva exige le contacto e lo aquí-y-ahora, o arcar con responsabilidad, la atención ante las necesidades de los alumnos, sin juicios y conceptos pré­establecidos y la expansión de las fronteras de contacto, tanto de profesores como también de alumnos, construyendo una relación ínter-subjetiva. Palabras-clave: Gestaltpedagogia; Aquí-y-ahora; Fronteras de Contacto; Relación Ínter-subjetiva.



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