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Este livro é dedicado:

Aos meus colegas médicos e médicas que cuidam incansavelmente do sofrimento e da dor, por vezes com a mesma coragem demonstrada por seus próprios pacientes. Eu espero mais que tudo que eles o considerem útil. E que tenham, como eu tive, o desejo de incorporar estes enfoques em suas práticas.

E a meu filho Sacha, nascido no meio da tormenta, cujo entusiasmo pela vida é para mim a inspiração de cada dia.



Sempre pensei que o único problema da medici­na científica fosse o fato de ela não ser suficientemente científica. A medicina moderna só se tornará verdadeira­mente científica quando os médicos e seus pacientes ti­verem aprendido a tirar partido das forças do corpo e do espírito que agem através do poder de cura da natureza.”

Prof. René Dubos, Universidade Rockefeller, Nova York, Estados Unidos Descobridor do primeiro antibiótico, 1939 Iniciador da primeira Cúpula da Terra das Nações Unidas, 1972


Sumário



Sumário 6

Advertência 9

Introdução à segunda edição 15

Introdução 20

1 42

Uma história 42



2 47

Fugir das estatísticas 47

3 53

Perigo e oportunidade 53



Tornar-se “paciente” 53

Vulnerabilidade 58

Salvar sua vida, até o final 58

As devastações das células S180 58

O camundongo que resiste ao câncer 58

O misterioso mecanismo 60

Agentes muito especiais contra o câncer 61

Um câncer mantido a distância 62

“A Natureza não leu nossos manuais” 63

Feridas que não curam 66

O círculo vicioso no cerne do câncer 67

A medida da inflamação 68

O estresse: óleo para o fogo 69

Como a vitória de Jukov em Stalingrado 63

A intuição de um cirurgião da Marinha 63

A travessia do deserto 64

Como uma agulha no palheiro 72

Uma descoberta excepcional 73

As defesas naturais que bloqueiam a angiogênese 73

5 75


Anunciar a notícia 75

6 78


O meio ambiente anticâncer 78

A doença dos ricos 84

Um divisor de águas no século XX 88

O câncer se nutre de açúcar 88

A cadeia alimentar em perigo 97

A junk food das vacas e das galinhas 98

A margarina — Muito mais perigosa do que a manteiga 101

Os alimentos industrializados: o surgimento das gorduras trans 101

Uma solução gastronômica simples 104

Desintoxicar a alimentação 105

Produtos químicos em nossos alimentos 123

E os alimentos orgânicos? 126

Quando os epidemiologistas “tiverem certeza”... 128

Obstáculos à mudança 129

Celulares: cuidado 130

Três princípios de desintoxicação 132

“Tudo que chega a terra chega aos filhos da terra” 132

7 116


A lição da recaída 116

8 120


Os alimentos anticâncer 120

Cinquenta pesquisadores e “alicamentos” 132

Um câncer sem estar doente 134

O grão e a terra 135

Alimentos que funcionam como remédios 137

Seria o azeite de oliva o chá verde da dieta mediterrânea? 138

A soja bloqueia os hormônios perigosos 139

O cúrcuma é um poderoso anti-inflamatório 166

Os cogumelos estimulantes do sistema imunológico 168

As frutas vermelhas: amora, framboesa, morango, mirtilo (blueberry)... 169

Os condimentos e as ervas agindo pelo mesmo mecanismo que os remédios 171

A sinergia dos alimentos 171

Um coquetel de legumes contra o câncer 175

“Se fosse verdade, se saberia” 179

Não nos amole com esta sua dieta!" 180

“Os especialistas não estão de acordo entre si” 181

“Aspessoas não querem mudar ” 183

Uma lista de alimentos recomendados 184

Chá verde 184

9 194


Estado de espírito anticâncer 194

As emoções reprimidas 196

Uma personalidade propícia ao câncer? 198

O sentimento de impotência alimenta o câncer 200

A grande calma de Ian Gawler 201

As provas da relação corpo-mente 202

O que é a sensação de impotência? 204

O desejo de viver e as células imunológicas 206

Voltar a si no presente 210

10 242

Desarmar o medo 242

11 249

O corpo anticâncer 249



Um impulso ao humor 248

Acompanhar as forças vitais 250



12 248

Aprender a mudar 248

Conclusão 252

Advertência



Este livro descreve métodos naturais de cuidados que contribuem para prevenir o desenvolvimento do câncer ou para favorecer seu tratamento, como acompanhamento das abordagens convencionais (cirurgia, radioterapia, qui­mioterapia). Seu conteúdo não substitui em nenhum caso a opinião de um médico. Ele não permite nem fazer um diagnóstico nem recomendar um tratamento.

Todos os casos clínicos que exponho nas páginas que se seguem são ti­rados da minha experiência (exceto alguns descritos por colegas na literatura médica, que estão a cada vez indicados como tais). Por razões evidentes, os no­mes e todas as informações que permitam identificar as pessoas mencionadas foram modificados.

Escolhi expor em termos simples nossa compreensão atual do câncer e das defesas naturais. Em certos casos, isso não me permitiu dar conta de toda a complexidade dos fenômenos biológicos ou do detalhe das controvérsias a respeito dos estudos clínicos existentes. Mesmo que eu julgue ter sido fiel a seu espírito, peço perdão aos pesquisadores biólogos e aos cancerologistas por ter desse modo simplificado o que para muitos deles representa o trabalho de uma vida.

Introdução à segunda edição

Há 17 anos, descobri por meio de um experimento de mapeamento do meu próprio cérebro que eu tinha câncer cerebral. Da sala de espera no décimo andar do prédio de oncologia, me lembro de olhar para as pessoas nas ruas — distantes e sem saber, seguindo com a rotina. Eu tinha sido expulso daquela vida, separado da ocupação direcionada aos próprios objetivos e das promessas de alegria pelo prospecto de uma provável morte precoce. Não estando mais enrolado no manto confortável de médico e cientista, eu tinha me tornado um paciente com câncer. Este livro é a história do que aconteceu depois; do retorno à vida e à saúde — na verdade, a um nível de saúde que eu nunca tinha atingi­do antes — mesmo sabendo que tinha câncer. É a história de como usei meus conhecimentos médicos e científicos para descobrir tudo que havia na literatura médica que pudesse me ajudar a mudar o quadro. E o mais importante, ele pro­porciona uma perspectiva nova sobre o câncer, com base na ciência, que oferece a todos nós a chance de nos protegermos melhor contra essa doença.

A publicação de Anticâncer em 2008 iniciou um novo capítulo na mi­nha jornada. Depois de manter a doença em segredo por 14 anos, pude jun­tar aquilo que aprendi e divulgá-lo para pessoas do mundo todo que estavam com medo, deprimidas ou que tinham perdido a esperança. Pude discutir essas ideias com médicos, cientistas, políticos e ativistas e fazer uma comparação direta das minhas observações com as suas experiências. Também conheci um número considerável de pacientes que tinham mudado o curso de suas doenças com os conselhos dados aqui. Depois da publicação em 35 idiomas, em quase cinquenta países, e depois de mais de um milhão de exemplares vendidos, mi­nha convicção de que todos podemos fortalecer as defesas naturais do corpo contra o câncer foi reafirmada. E ainda minha crença de que essa abordagem devia ser parte da prevenção ou do tratamento do câncer para todo mundo. Nos últimos dois anos, as pesquisas também chegaram a novas provas, explica­ções e perspectivas sobre como todos nós podemos aprender a fortalecer nos­sa saúde e melhorar nosso “terreno” criando uma biologia anticâncer dentro do nosso corpo, assim como confirmaram a importância de prestar atenção a como as emoções podem afetar o rumo do câncer.

Então, o que exatamente é novo nessa edição revisada?

Em muitas discussões com meus colegas da área médica — médicos, oncologistas, psiquiatras — e com o público, me dei conta de que a mensagem do livro sobre nutrição foi muito mais facilmente absorvida do que a análise de fatores mente-corpo e do papel crucial que o sentimento de impotência tem em promover o câncer. Se há uma única mensagem clara e enfática que eu gostaria de enviar com esta edição revisada é a de que temos que prestar muita atenção à conexão mente e corpo, principalmente no impacto negativo de sentimentos prolongados de impotência e desespero. Quando não se cuida deles, esses sentimentos — e não os estresses da vida em si — contribuem para os processos inflamatórios que podem ajudar o câncer a crescer. Há métodos simples e que funcionam de fato para domar esses sentimentos, aumentar a satisfação pessoal e, ao mesmo tempo, reduzir a inflamação.

Para tratar disso, revisei completamente o capítulo 9, “Estado de espírito anticâncer”, e também o atualizei com novos estudos que confirmam como é importante tratar sentimentos de impotência e desespero na luta contra o de­senvolvimento do câncer. Aproveitei essa oportunidade para compartilhar com você a história de Kelly, que, em sua luta contra o câncer de mama, pôde contar com amigos para dar a ela o apoio e o amor de que precisava para enfrentar a provação. Estudos recentes mostram que, na verdade, não é só o amor de um marido, esposa ou filhos que permitem que o estado de espírito permaneça for­te e reduza a velocidade de progressão da doença, mas também o simples amor e cuidado de amigos de maneira geral, tanto velhos quanto novos.

Em termos de nutrição, estudos recentes promissores descobriram vários novos alimentos anticâncer. Frutas com caroços grandes, como ameixa e pês­sego, podem agora ser incluídas nessa categoria. Novos dados sobre o azeite de oliva, que já tinha sido fortemente recomendado na primeira edição, agora o tornam um alimento anticâncer completo, agindo contra diversos tipos espe­cíficos de câncer.

Além disso, dois novos estudos mostraram exatamente quantas xícaras de chá verde precisam ser tomadas por dia para reduzir o risco de câncer de mama ou próstata em mais de 50%. Novos adoçantes naturais — mel de acácia e açúcar de coco, caracterizados por um baixo índice glicêmico — apa­recem no mercado, junto com o néctar de agave. Eles são apresentados no capítulo 6.

Novas pesquisas confirmaram a importância da vitamina D3 na preven­ção do câncer, particularmente nos países onde a falta de luz solar faz com que a pele não consiga sintetizar quantidades suficientes dessa vitamina durante o inverno. Por isso dediquei mais atenção a esse assunto e fiz recomendações novas e mais específicas.

Por fim, há informações disponíveis sobre como diferentes métodos de cozimento podem preservar ou, ao contrário, reduzir os benefícios de alimen­tos anticâncer.

Quase toda vez que faço uma palestra, me perguntam se os celulares po­dem causar câncer. Para responder a essas perguntas, em 2008 me reuni com um grupo de especialistas em câncer, toxicologistas, epidemiologistas e um físico. Publicamos um apelo com recomendações de precauções a se fazer para um uso melhor e mais seguro dos celulares, já que eles agora são uma parte inevitável da nossa rotina. O apelo foi rapidamente espalhado pelo mundo, e até levou a uma audiência na Câmara dos Deputados nos Estados Unidos em setembro de 2008 e a uma mesa-redonda pública organizada pelo Ministério do Meio ambiente e pelo Ministério da Saúde na França em abril de 2009. Esta edição traz um resumo da literatura científica sobre esse assunto e repete as precauções que podem ser tomadas para um uso mais seguro do celular.

Estudos com animais identificaram claramente as ligações entre vários produtos químicos presentes em nosso ambiente diário e o avanço de tumores já existentes. Eles incluem o bisfenol A, que está presente em policarbonatos (encontrados em garrafas plásticas reutilizáveis e em mamadeiras, recipientes plásticos que podem ser usados no micro-ondas e em uma grande variedade de recipientes com interior de plástico, tais como latas). Essa substância se difunde em líquidos quando são aquecidos em um laboratório. Quando as células do câncer de mama humano são expostas a doses de bisfenol A (BPA) correspondentes aos níveis frequentemente encontrados no sangue das pessoas, as células não respondem mais à quimioterapia. Dados comparáveis foram ob­tidos em estudos de aditivos alimentares baseados em fosfatos inorgânicos (en­contrados em refrigerantes adoçados, produtos assados processados etc.), que promovem o desenvolvimento de células de câncer de pulmão de células não pequenas. Achei que esses novos dados eram importantes para as pessoas que podem estar sob tratamento para esses cânceres.

No começo de 2009, uma declaração do Instituto Nacional do Câncer da França e um estudo da Oxford University na Inglaterra concluíram que o álcool pode aumentar o risco de se desenvolver câncer com qualquer dose, mes­mo uma taça de vinho tinto. Junto com o professor Béliveau, de Montreal, e o pesquisador Michel de Lorgeril (um cardiologista, nutricionista e pioneiro na dieta mediterrânea), publiquei minha discordância dessas conclusões, e essa posição também está detalhada aqui.

Desde a publicação original de Anticâncer: Prevenir e vencer usando nossas defesas naturais, inúmeros estudos confirmaram a mensagem principal sobre a importância do “terreno” em prevenir ou controlar o câncer. Eu integrei as infor­mações desses estudos nos vários capítulos nessa nova edição. Por exemplo, uma pesquisa publicada no periódico Nature, em 2007, concluiu que o câncer pode ser entendido como um colapso no equilíbrio entre as células cancerígenas que sem­pre estiveram “adormecidas’’ no corpo e as defesas naturais que normalmente as mantêm inertes (veja o capítulo 4). Esse tipo de estudo destaca a importância de se nutrir e fortalecer nosso “terreno”, um tópico revisitado ao longo dc Anticâncer Na minha opinião, as medidas para reforçar o terreno deviam sempre acompanhar os tratamentos convencionais — os quais, é claro, permanecem indispensáveis.

Também houve um grande relatório de 517 páginas publicado em 2007 pelo World Cancer Research Fund que sintetizava dezenas de milhares de estudos. Esse relatório concordou com Anticâncer que pelo menos 40% dos cânceres podem ser prevenidos com simples mudanças na nutrição e no ní­vel de atividades físicas (sem mencionar fatores ambientais).1 Outro relatório, publicado em 2009 pelo Instituto Nacional do Câncer da França, chegou às mesmas conclusões.2

Dois grandes estudos epidemiológicos, um conduzido em 11 países eu­ropeus e com duração de 12 anos (o estudo HALE)3 e o outro em uma única região do Reino Unido (20 mil pessoas observadas ao longo de 11 anos),4 relataram resultados ainda mais drásticos: uma redução de mais de 60% na mor­talidade por câncer durante o período do estudo entre as pessoas que adotaram um estilo de vida mais saudável. O aumento na expectativa de vida não foi o único benefício: os pesquisadores ingleses concluíram que pessoas que praticavam a vida saudável eram 14 anos mais jovens em termos de idade biológica ao longo do estudo. Isso se traduz em mais energia dedicada ao trabalho e à família, uma maior habilidade de concentração, melhor memória e uma redução do des­conforto físico. Na conclusão, os pesquisadores de Cambridge explicam: “As evidências de que fatores comportamentais tais como dieta, fumo e atividade física influenciam na saúde é impressionante.”

A importância de limitar o consumo de açúcar refinado e de farinha branca foi confirmada pelas novas análises do American Womens Health Initiative. Esse estudo demonstrou que a ligação entre obesidade e câncer de mama depende do nível de insulina no sangue, e portanto do nível de açúcar na dieta. O estudo também mostrou que o açúcar pode contribuir mais para o câncer do que terapias de reposição hormonal.

Em novembro de 2008, um artigo de pesquisa no periódico Cancer con­firmou a legitimidade dos conselhos presentes em Anticâncer. As mulheres cujos cânceres de mama tinham se espalhado para os nódulos linfáticos foram acompanhadas por 11 anos depois do tratamento convencional. Ao longo dos anos, as que seguiram, além do tratamento médico, um programa de educação nutricional e de melhor controle do estresse viram o risco de morrer diminuir em 68% em comparação àquelas que receberam apenas o tratamento conven­cional (veja o capítulo 9).

Em outro estudo bem executado, em 2008 o professor Dean Ornish, da Universidade da Califórnia em São Francisco, demonstrou que mudanças no estilo de vida em relação à dieta, exercícios e redução de estresse modificaram a expressão dos genes dentro das células cancerígenas (veja o capítulo 2).

Desde que Anticâncer foi publicado, fiz mais de cem palestras em 15 países diferentes. Ao falar com as pessoas que foram me ouvir, aprendi muito sobre como vivenciamos o medo do câncer e acho que consegui entender o que as pessoas acharam de valioso neste livro. Dizendo de forma simples, estamos acostumados a receber uma mensagem de desespero. O câncer é visto como uma espécie de golpe de azar na grande loteria genética, uma doença que não responde bem à maioria dos tratamentos e da qual todas as esperanças estão confinadas à aventura de uma nova e milagrosa cura — uma que só os grandes laboratórios de pesquisa poderiam desenvolver.

Nesse contexto, percebo que qualquer abordagem que não estiver con­centrada nos tratamentos convencionais corre o risco de ser acusada de desper­tar “falsas esperanças”. Mas eu sei — por ter aprendido quando encarei meu próprio câncer — que esse tipo de pensamento rouba do paciente o poder de agir; e falo isso em termos de poder real, não de ilusão. Promover essa mentali­dade de impotência é psicologicamente aviltante, perigoso em termos médicos e, o mais importante, não é baseado em boa ciência. Nos últimos trinta anos, a ciência fez avanços extraordinários e demonstrou que todos nós temos a habili­dade de nos proteger do câncer e de contribuir com nossos próprios meios para curá-lo. Recusar-se a explicar que temos essa habilidade contribui para uma sensação de falsa desesperança, e é porque elas rejeitam essa falsa desesperança que tantas pessoas acharam Anticâncer interessante.

Fui encorajado pela reação positiva de muitos especialistas em câncer à mensagem do livro. Na Europa, o professor Jean-Marie Andrieu, que chefia o departamento de Oncologia no Georges Pompidou European Hospital, de­clarou para o jornal Le Monde: “Aprendi muito com esse livro. E sabe de uma coisa? Mudei minha dieta. E já perdi 6 quilos.”

Na Itália, a Liga Nacional Anticâncer, Lega Italiana per la Lotta contro i Tumori, endossou Anticâncer, colocou seu logo na capa do livro e organizou o lançamento junto à imprensa em Roma, em outubro de 2008. A Liga enfati­zou a importância da mensagem do livro em termos de como melhor prevenir o câncer, reforçar os benefícios do tratamento convencional e minimizar as recaídas.

E nos Estados Unidos, o professor John Mendelsohn, presidente do M.


  1. Anderson Cancer Center — o maior centro de tratamento e pesquisa de câncer do país —, escreveu: “Achei Anticâncer um livro muito claro e bem pesquisado. Ele fornece a compreensão necessária para a prática da prevenção do câncer baseada em evidências e da redução de riscos. Ele também preenche uma lacuna importante no nosso conhecimento de como os pacientes podem contribuir com o cuidado deles mesmos suplementando o tratamento médico convencional.”

Perdi alguns amigos desde que este livro foi publicado pela primeira vez. Alguns eram pessoas que aplicavam os princípios dele em suas próprias vidas. Infelizmente, os métodos e princípios destacados aqui não garantem o suces­so contra o câncer. Mesmo assim, fiquei profundamente emocionado quando ouvi deles ou dos seus familiares que eles nunca se arrependeram de terem ex­perimentado todas as sugestões do livro. Um familiar me escreveu: “Até o final, o livro deu a ela a sensação de que ela ainda tinha a vida nas próprias mãos.” Tem sido um alívio para mim saber que não encorajei falsas esperanças, e isso confirmou minha convicção de que mesmo o programa Anticâncer não poden­do (como realmente não faz) alegar que neutraliza o câncer para todo mundo, ele ajuda a prolongar a vida, seja lá qual for o resultado.

Um número impressionante de pacientes e familiares me mandou men­sagens — em pessoa, por e-mail ou pelo meu blog — dando testemunhos dos benefícios que conquistaram por ler Anticâncer e seguir os conselhos. Um vendedor de 50 anos que não tem câncer me contou o quanto sua vida mudou desde que ele começou a tomar chá verde, a adicionar açafrão à comida todo dia (com pimenta-do-reino!) e a controlar o estresse com coerência cardíaca.

Uma mulher sofrendo de linfoma escreveu que leu e releu Anticâncer, aos pou­quinhos, antes de ir dormir, como um livro que se lê para acalmar uma criança. Um engenheiro com câncer de próstata me mandou um gráfico dos exames de sangue dele dos últimos três anos: o marcador sanguíneo de atividade do câncer (PSA) dele começou a cair regularmente desde que ele começou a apli­car os princípios de Anticâncer, e o oncologista dele tem sido repetidamente persuadido a adiár a cirurgia que estava inicialmente marcada há dois anos. Uma mulher de 32 anos, que estava fazendo quimioterapia por uma recaída do câncer de mama — tão jovem! —, me escreveu para contar sobre os efeitos positivos dos exercícios aeróbicos que vem fazendo desde que leu a história de Jacqueline, que começou a praticar caratê durante o tratamento (capítulo 11).

Por fim, e uma fonte muito especial de satisfação para mim, dois dos oncologistas que consultei ao longo dos anos do meu tratamento fizeram con­tato comigo depois de ler Anticâncer. Eles me perguntaram como desacelerar melhor o desenvolvimento do câncer deles fazendo melhorias no “terreno”. Foi um grande prazer poder me basear nas minhas pesquisas e devolver uma parte da compaixão que esses médicos tiveram comigo quando mais precisei.

Estou feliz e orgulhoso em apresentar esta segunda edição. A tarefa de reler o manuscrito e melhorá-lo foi tranquila. Várias vezes reparei com surpresa que tinha esquecido os detalhes de algum estudo em particular ou de alguma história. Ler todas essas coisas de novo me encorajou a guiar o rumo em direção ao que espero continuar a ser uma saúde completa. E desejo o mesmo a você.

Introdução

Todos temos um câncer dormindo em nós. Como todo organismo vivo, nosso corpo fabrica células defeituosas permanentemente. É assim que nascem os tumores. Mas nosso corpo é também equipado com múltiplos mecanismos que lhe permitem detectá-los e contê-los. No Ocidente, uma pessoa em cada quatro vai morrer de câncer, mas três em cada quatro não morrerão. Para estas últimas, os mecanismos de defesa terão derrotado o câncer.1 2

Eu tive um câncer. Diagnosticado uma primeira vez há 15 anos, fui trata­do pelos métodos convencionais, depois tive uma recaída. Foi então que decidi pesquisar, para além dos métodos habituais, tudo que podia ajudar meu corpo a se defender. Eu tive a sorte, na qualidade de médico, pesquisador e diretor do Centro de Medicina Integrada da Universidade de Pittsburgh, de ter acesso a informações preciosas sobre as abordagens naturais que podem contribuir para prevenir ou tratar o câncer. Hoje eu vivo em plena saúde há sete anos. Neste livro, gostaria de fazer-lhes o relato de tudo que aprendi.

Depois da cirurgia e da quimioterapia, pedi ao meu oncologista, que tanto me ajudara, conselhos sobre a vida a levar, sobre precauções a tomar para evitar uma recaída. “Não há nada de especial a fazer. Viva sua vida normalmen­te. Faremos ressonâncias a intervalos regulares, e se esse tumor reaparecer, nós o detectaremos muito cedo”, respondeu o expoente da oncologia americana.

“Mas não há exercícios que eu possa fazer, alimentos para me aconselhar ou me desaconselhar, eu não deveria cuidar da minha mente?” A resposta do médico me deixou perplexo: “Neste domínio, faça o que você quiser, não vai lhe fazer mal. Mas nós não temos dados científicos que nos permitam afirmar que se pode prevenir uma recaída graças a esse gênero de precauções.”

O que esse oncologista queria dizer, na realidade, é que a oncologia é um domínio extraordinariamente complexo e que muda a uma velocidade inaudita. Ele cumpria sua obrigação de se manter a par dos procedimentos diagnósticos mais recentes e dos novos tratamentos pela quimioterapia e ou­tros. Nós utilizáramos todos os medicamentos e todas as intervenções médicas conhecidas apropriadas ao meu caso. No estado atual dos conhecimentos, não existiam outros. Quanto ao resto, quer fosse a alimentação ou as abordagens corpo-mente, tratava-se de domínios sobre os quais estava claro que ele não tinha tempo para se informar.

Conheço esse problema, por ser eu mesmo um médico universitário. Cada um no seu setor, raramente estamos a par das descobertas fundamentais recentemente publicadas em revistas tão prestigiosas quanto Science ou Nature, enquanto não tiverem sido testadas em estudos humanos de grande escala. Contudo, tais descobertas importantíssimas permitem por vezes que comece­mos a nos proteger por nossa conta, bem antes de elas resultarem nos remédios e nos protocolos que serão os métodos de tratamento de amanhã.

Precisei de meses de pesquisa para começar a compreender como poderia ajudar meu próprio corpo a se armar contra o câncer. Participei de conferências nos Estados Unidos e na Europa que reuniram pesquisadores que desbravam a medicina de “terreno”, percorri bases de dados médicos e dissequei publicações científicas. Rapidamente percebi que as informações disponíveis eram com fre­quência parciais e dispersas, e que não adquiriam a totalidade de seu sentido senão quando reunidas.

O que a massa de dados científicos revela é o papel central desempenhado por nossos próprios mecanismos de defesa contra o câncer. Graças a encontros essenciais com outros médicos ou profissionais que já trabalhavam dessa manei­ra, pus em prática todas essas informações para acompanhar meu tratamento.

Eis o que aprendi: se todos temos células cancerosas dentro de nós, temos também um corpo preparado para frustrar o processo de formação de tumores. Compete a cada um de nós utilizá-lo. Outras culturas que não a nossa conse­guem fazê-lo muito melhor.

Na Ásia, os cânceres que afligem o Ocidente — como o câncer de mama,

o câncer do cólon ou da próstata — são de sete a sessenta vezes menos fre­quentes.3 No entanto, as estatísticas indicam que entre os homens asiáticos que morrem de outras causas que não sejam o câncer encontram-se tantos microtumores pré-cancerosos na próstata quanto entre os ocidentais.4 Alguma coisa na maneira de viver deles impede que os tumores se desenvolvam. Em compensação, entre os japoneses instalados no Ocidente, a taxa de câncer alcançou a nossa em uma ou duas gerações.5 Alguma coisa na nossa maneira de viver impede nosso corpo de se defender eficazmente contra essa doença.

Nós todos vivemos com mitos que impedem nossa capacidade de de­sarmar o câncer. Por exemplo, somos frequentemente levados a acreditar que o câncer é antes de tudo uma questão de genes, não de estilo de vida. Porém o inverso é que é verdade.

Se o câncer se transmitisse sobretudo geneticamente, as crianças adotadas teriam a taxa de câncer de seus pais biológicos e não a de seus pais adotivos. Na Dinamarca, onde existe um registro genético detalhado que traça as origens de cada indivíduo, os pesquisadores encontraram os pais biológicos de mais de mil crianças adotadas ao nascer. Sua conclusão, publicada na maior revista de referência em medicina, a New England Journal of Medicine, nos obriga a modificar todas as nossas perspectivas sobre o câncer: herdar genes de pais bio­lógicos mortos de câncer antes dos 50 anos não tem nenhuma influência sobre risco de a própria pessoa desenvolver um câncer. Por outro lado, a morte por câncer de um pai adotivo (que não transmite nenhum gene, mas transfere seus hábitos de vida) multiplica por cinco o risco de a pessoa adotada morrer de câncer também.6 Esse estudo mostra que são exatamente os hábitos de vida, e não os genes, os principais implicados na suscetibilidade ao câncer. Todas as pesquisas sobre o câncer concordam: os genes contribuem no máximo com


  1. 5% para a mortalidade do câncer. Em suma, não há nenhum destino fechado e todos nós podemos aprender a nos proteger.*1

É preciso afirmar desde logo: não existe até hoje nenhuma abordagem alternativa capaz de curar o câncer. No presente, é impensável pretender tratar o câncer sem recorrer às excepcionais técnicas desenvolvidas pela medicina oci­dental: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e, dentro em breve, genética molecular.

Entretanto, é igualmente absurdo remeter-se apenas a essas abordagens convencionais e negligenciar a capacidade natural de nosso corpo de se pro­teger contra os tumores, seja para prevenir a doença, seja para acompanhar os tratamentos.

Nas páginas que se seguem, conto como fui levado a modificar minha perspectiva de médico-pesquisador ignorante de todas as capacidades naturais do corpo de se defender. Eu me tornei um médico que conta antes de tudo com esses mecanismos naturais. Meu câncer me empurrou para essa evolução. Durante 1 5 anos, protegi ferozmente o segredo da minha doença. Amo meu trabalho de psiquiatra e nunca quis que meus pacientes se sentissem obrigados a se preocupar comigo, em vez de me deixar ajudá-los. Na qualidade de pes­quisador e professor, também não queria que atribuíssem minhas ideias e mi­nhas tomadas de posição à minha experiência pessoal em vez do procedimento científico que sempre me guiou. No âmbito pessoal, como todas as pessoas que tiveram um câncer compreendem, eu queria poder continuar a viver entre os vivos, como um vivo. Hoje, não é sem apreensão que decidi falar sobre ele. Mas estou agora convencido de que é essencial colocar as informações de que me beneficiei a serviço de todos os que poderiam se servir delas.

A primeira parte apresenta uma nova visão dos mecanismos do câncer, que permite agir para se proteger. Ela é fundada no papel essencial e ainda pouco conhecido do sistema imunológico, na descoberta dos mecanismos inflamatórios que pressupõem o crescimento dos tumores e na possibilidade de bloquear o desenvolvimento deles, impedindo sua realimentação através de novos vasos sanguíneos.

Desse fato decorrem quatro abordagens que todas as pessoas podem ado­tar para construir para si uma biologia anticâncer, simultaneamente do corpo e da mente: como se prevenir contra os desequilíbrios do meio ambiente ocorri­dos a partir de 1940 e que alimentam a epidemia atual de câncer; como ajustar a própria alimentação para reduzir os promotores do câncer e para incluir o maior número possível de compostos fitoquímicos que lutam ativamente con­tra os tumores; como compreender — e curar — as feridas psicológicas que alimentam os mecanismos biológicos que agem sobre o câncer; e, finalmente, como se aproveitar de uma relação com o próprio corpo, a fim de agir sobre o sistema imunológico e de acalmar a inflamação que faz crescer os tumores.

Mas este livro não é um manual de biologia. O confronto com a doença é uma árdua aventura interior. Eu não poderia ter escrito estas páginas sem ter me voltado também para as alegrias e os sofrimentos, as descobertas e os fracassos que hoje fazem de mim um homem consideravelmente mais cheio de vida do que há 15 anos. E, ao compartilhá-los com vocês, espero ajudá-los a encontrar pistas para sua própria aventura. E que ela seja bela.


1

Uma história
Eu estava em Pittsburgh havia sete anos, tendo deixado a França havia dez. Fazia meu internato em psiquiatria ao mesmo tempo em que continuava pesquisas começadas durante o doutorado de ciências. Com meu amigo Jona­than Cohen, dirigia um laboratório de imagens cerebrais funcionais para o qual obtivéramos o financiamento do National Institute of Health — o Instituto Nacional de Saúde americano. Nosso objetivo era compreender os mecanismos do pensamento observando o que se passava dentro do cérebro. Nunca poderia imaginar o que essas pesquisas iriam me fazer descobrir: minha própria doença.

Jonathan e eu éramos muito próximos. Ambos médicos que se especia­lizavam em psiquiatria, juntos nos inscrevêramos no doutorado de ciências em Pittsburgh. Ele vinha do universo cosmopolita de São Francisco, eu de Paris via Montreal, e tínhamos nos encontrado de repente em Pittsburgh, no coração de uma América profunda, estrangeira tanto para um quanto para o outro. Recentemente, publicáramos na prestigiosa revista Psychological Review um artigo sobre o papel do córtex pré-frontal, uma zona ainda pouco conhe­cida do cérebro que permite o elo entre o passado e o futuro. Apresentávamos uma nova teoria na psicologia, graças às nossas simulações do funcionamento cerebral em computador. Os artigos tinham causado um certo alvoroço, o que nos permitira, enquanto éramos simples estudantes, conseguir recursos e criar aquele laboratório de pesquisa.

Para Jonathan, se quiséssemos avançar nesse campo, as simulações em computador não bastavam mais. Precisávamos testar nossas teorias observando diretamente a atividade cerebral por intermédio de uma técnica de ponta, a imagem funcional por ressonância magnética (IRM). Na época, essa técnica estava começando a ser usada. Somente centros de pesquisa muito avançados possuíam aparelhos de ressonância magnética de alta precisão. Muito mais di­fundidos, os aparelhos RM de hospital eram também claramente menos efi­cientes. Especificamente, ninguém tinha conseguido avaliar com um aparelho de hospital a atividade do córtex pré-frontal — o objeto de nossas pesquisas. De fato, ao contrário de outras regiões do cérebro cujas variações são muito fáceis de medir, o córtex pré-frontal não se ativa com muita intensidade. É preciso “empurrá-lo”, inventando tarefas complexas, para que ele se manifeste minimamente nas imagens IRM. Paralelamente, Doug, um jovem físico da nossa idade especialista em técnicas de IRM, teve a ideia de um novo méto­do de gravação de imagens que talvez permitisse contornar a dificuldade. O hospital onde trabalhávamos concordou em nos emprestar seu aparelho RM à noite, entre as oito e as onze horas, uma vez terminadas as consultas. E nós começamos a testar a nova abordagem.

Doug, o físico, modificava continuamente seu método, enquanto Jona- than e eu inventávamos tarefas mentais para estimular ao máximo essa zona do cérebro. Após vários fracassos, conseguimos perceber em nossas telas a ativação do famoso córtex pré-frontal. Foi um momento excepcional, o resultado de uma fase de pesquisa intensa, tornada mais emocionante ainda pelo fato de ter sido vivida entre colegas.

Nós éramos um pouco arrogantes, eu devo confessar. Estávamos com 30 anos, acabáramos de concluir nossos doutorados, já tínhamos um laborató­rio. Com nossa nova teoria que interessava a todo mundo, éramos estrelas em ascensão na psiquiatria americana. Dominávamos tecnologias de ponta que ninguém praticava. As simulações em computador das redes de neurônios e as imagens cerebrais funcionais por IRM ainda eram quase desconhecidas dos psiquiatras universitários. Naquele ano, Jonathan e eu chegamos até a ser con­vidados pelo professor Widlöcher, o luminar da psiquiatria francesa da época, para fazer um seminário no Pitié-Salpêtrière, o hospital parisiense onde Freud estudou com Charcot. Durante dois dias, diante de um público de psiquia­tras e neurocientistas franceses, nós explicamos como a simulação das redes de neurônios em computador podia ajudar na compreensão dos mecanismos psicológicos e patológicos. Aos 30 anos, havia razão para sentir orgulho.

Eu era um entusiasmado com a vida, um tipo de vida que agora me parece um tanto estranho: eu estava cheio da certeza do sucesso, confiante em uma ciência sem concessões, e não sentia muita atração pelo contato com os pacientes. Como trabalhava ao mesmo tempo com o internato de psiquiatria e o laboratório de pesquisa, tentava fazer o menos possível na área clínica. Eu me lembro de um pedido que me fizeram, para que me inscrevesse em um certo estágio. Como a maior parte dos internos, não me sentia muito animado: a carga de trabalho era muito pesada e, além do mais, não era de psiquiatria pro­priamente dita. Tratava-se de passar seis meses em um hospital geral, tratando de problemas psicológicos de doentes hospitalizados por problemas físicos — gente que tinha sido operada, passado por um transplante hepático, que sofria de câncer, de lúpus, de esclerose múltipla... Eu não tinha nenhuma vontade de fazer um estágio que ia me impedir de dirigir o laboratório; além disso, toda aquela gente sofrendo, não era exatamente o que me interessava. Queria sobretudo fazer pesquisa, escrever artigos, participar de congressos e difundir minhas ideias.

Um ano antes, eu tinha ido para o Iraque com os Médicos sem Frontei­ras. Fui confrontado com o horror e gostei de aliviar o sofrimento de tantas pessoas, dia após dia. Mas a experiência não me deu vontade de continuar no mesmo caminho, uma vez de volta ao hospital em Pittsburgh. Era como se houvesse dois mundos diferentes e fechados um ao outro. Eu era antes de tudo jovem e ambicioso.

O lugar que o trabalho ocupava na minha vida tinha, aliás, desempe­nhado um papel importante no divórcio penoso do qual eu emergia naquele momento. Entre outras causas de desacordo, minha mulher não tinha supor­tado, por causa de sua carreira, o fato de eu querer continuar morando em Pittsburgh. Ela queria voltar para a França, ou pelo menos ir morar em uma cidade mais fun, como Nova York. Para mim, ao contrário, tudo estava se acelerando em Pittsburgh e eu não queria deixar meu laboratório e meus cola­boradores. Tudo terminou diante do juiz, e durante um ano eu vivi sozinho na minha minúscula casa, entre um quarto e um escritório.

E então, num dia em que o hospital estava quase deserto — era entre o Natal e o ano-novo, a semana mais vazia dos Estados Unidos —, eu vi aquela jovem no refeitório lendo Baudelaire. Alguém que lê Baudelaire na hora do almoço é um espetáculo raro nos Estados Unidos, e ainda mais em Pittsburgh. Sentei-me à mesma mesa que ela. Ela era russa, tinha as maçãs do rosto protu­berantes e grandes olhos negros, um ar ao mesmo tempo reservado e extrema­mente perspicaz. Às vezes ela parava completamente de falar, eu ficava descon­certado. Perguntei por que fazia aquilo e ela me respondeu: “Estou verificando interiormente a sinceridade do que você acabou de dizer.” Aquilo me fez rir. Eu estava gostando bastante do jeito dela de me colocar no meu lugar. Foi assim que nós começamos uma história que levou tempo para se desenvolver. Eu não tinha pressa, ela também não.

Seis meses mais tarde, fui trabalhar durante todo o verão na Universidade de São Francisco em um laboratório de psicofarmacologia. O dono do labora­tório estava em vias de se aposentar e gostaria que eu fosse seu sucessor. Eu me lembro de ter dito a Anna que, se eu encontrasse alguém em São Francisco, tal­vez fosse o fim de nosso relacionamento. Que eu compreenderia perfeitamente se ela fizesse o mesmo por seu lado. Acredito que ela tenha lamentado, mas eu queria ser absolutamente franco.

Mas, quando voltei em setembro para Pittsburgh, ela veio morar na mi­nha casa de boneca. Eu sentia que alguma coisa entre nós estava crescendo, o que me deixava contente. Não sabia bem aonde aquela história iria me levar e continuava me mantendo na defensiva — não esquecera meu divórcio. Mas minha vida estava caminhando bem. Eu me sentia feliz com Anna. No mês de outubro, nós tivemos duas semanas mágicas. O verão tinha voltado. Eu estava trabalhando no script de um filme que me pediram para escrever sobre minha experiência nos Médicos sem Fronteiras. Anna estava escrevendo poemas. Eu estava apaixonado. E depois tudo mudou inesperadamente.

Eu me lembro da gloriosa noite de outubro em Pittsburgh. De moto pelas avenidas ladeadas de flamboyants em direção ao centro de IRM, eu ia me en­contrar com Jonathan e Doug para uma de nossas sessões de experiências com os estudantes que nos serviam de “cobaias”. Eles entravam no aparelho e nós lhes pedíamos para fazer tarefas mentais por um salário mínimo. Nossas pesquisas os animavam, sobretudo a perspectiva de receber no final da sessão uma imagem numérica de seus cérebros, que eles corriam para exibir em seus computadores. O primeiro estudante veio por volta das oito horas. O segundo, previsto para nove ou dez horas, não apareceu. Jonathan e Doug me perguntaram se eu não queria me fazer de cobaia. Claro que eu aceitei, eu era o menos técnico dos três. Me deitei dentro do aparelho, um tubo extremamente apertado onde se fica com os braços colados no corpo, um pouco como em um caixão. Muita gente não suporta os aparelhos de ressonância magnética: 10% a 15% dos pacientes são excessivamente claustrofóbicos e não conseguem fazer IRM.

Eu estava dentro do aparelho, e começamos como sempre por uma série de imagens cujo objetivo é destacar a estrutura do cérebro da pessoa exami­nada. Os cérebros, como os rostos, são todos diferentes. É preciso, portanto, antes de qualquer avaliação, fazer uma espécie de cartografia do cérebro em repouso (o que se chama de imagem anatômica), com a qual serão comparadas as vistas tomadas no momento em que o paciente estiver executando atividades mentais (nós as chamamos de imagens funcionais). Durante todo o processo, o aparelho produz um batimento muito alto, como o barulho de um bastão batendo em um assoalho de madeira, correspondente aos movimentos do ima eletrônico que se engata e desengata muito depressa para induzir variações do campo magnético no cérebro. O ritmo dessas batidas varia, caso essas imagens sejam anatômicas ou funcionais. Pelo que eu conseguia ouvir, Jonathan e Doug estavam fazendo imagens anatômicas do meu cérebro.

Ao final de uns dez minutos, a fase anatômica terminou. Eu esperava ver aparecer em um pequeno espelho colado bem em cima dos meus olhos a “tarefa mental” programada por nós a fim de estimular a atividade do córtex pré-frontal — era o objetivo da experiência. É para apertar um botão cada vez que se identifiquem letras idênticas dentre as que desfilam rapidamente na tela (o córtex pré-frontal permite memorizar as letras que desapareceram e fazer as operações de comparação). Aguardo, pois, que Jonathan envie a tarefa e que se desencadeie o ruído próprio do aparelho registrando a atividade funcional do cérebro. Mas a pausa se prolonga. Não compreendo o que está acontecendo. Jonathan e Doug estão ao lado, na sala de controle, só se pode falar com eles por interfone. Então eu ouço nos fones de ouvido: “David, há um problema. Há alguma coisa errada com as imagens. Vamos ter que recomeçar.” Tudo bem.

Recomeçamos. Fazemos outra vez dez minutos de imagens anatômicas. Chega o momento em que a tarefa mental devia começar. Eu aguardo. A voz de Jonathan me diz: “Não vai dar para fazer. Temos um problema. Espere um pouco.” Eles vêm para a sala do aparelho e fazem deslizar a mesa sobre a qual estou deitado, e eu vejo, ao sair do tubo, que eles estão com uma expressão estranha. Jonathan coloca uma das mãos sobre o meu braço e me diz: “Não po­demos fazer a experiência. Tem um negócio no seu cérebro.” Eu peço que me mostrem na tela as imagens que eles gravaram por duas vezes no computador.

Eu não era nem radiologista nem neurologista, mas tinha visto muitas imagens de cérebro, era nosso trabalho cotidiano: havia, sem nenhuma ambi­guidade, na região do córtex pré-frontal direito, uma bola redonda do tama­nho de uma noz. Pela sua localização, não se tratava de um desses tumores be­nignos do cérebro que se veem por vezes, operáveis, ou que não estão entre os mais virulentos — como os meningiomas, os adenomas da hipófise. Às vezes, trata-se de um cisto, de um abscesso infeccioso, provocado por certas doenças como a aids. Mas minha saúde era excelente, eu fazia muito esporte, chegava até a ser capitão do meu time de squash. Essa hipótese estava, pois, descartada.

Impossível me iludir sobre a gravidade do que acabáramos de descobrir. Em estágio avançado, um câncer no cérebro sem tratamento geralmente mata em seis semanas; com tratamento, em seis meses. Eu não sabia em que estágio me encontrava, mas conhecia as estatísticas. Permanecemos os três silenciosos, não sabendo o que dizer. Jonathan mandou os filmes para o departamento de radiologia a fim de que fossem avaliados logo no dia seguinte por um especia­lista, e nós nos despedimos.

Fui embora na minha moto, em direção à minha casinha na outra ponta da cidade. Eram onze horas, a lua estava muito bonita num céu luminoso. No quarto, Anna dormia. Eu me deitei e olhei para o teto. Era de fato muito estra­nho que a minha vida acabasse daquele jeito. Era inconcebível. Havia um tal fosso entre o que eu acabara de descobrir e o que eu construíra durante tantos anos, a disposição que eu acumulara para o que prometia ser um percurso lon­go e que devia resultar em realizações cheias de sentido. Tinha a impressão de estar só começando a contribuir com coisas úteis. Ao investir em meu estudo e em minha carreira, eu tinha feito tantos sacrifícios, investido tanto no futuro! E, de repente, me via diante da possibilidade de não haver futuro nenhum.



  1. além do mais, estava sozinho. Meus irmãos estudaram um tempo em Pittsburgh, mas já tinham ido embora. Não tinha mais mulher. Minha relação com Anna era muito recente, e ela iria certamente me deixar: quem quer saber de um tipo que aos 31 anos está condenado à morte? Eu me via como um pedaço de madeira boiando dentro de um rio e que subitamente encalha na margem, preso. O destino dele era contudo fazer todo o caminho até o oceano. Ficara preso naquele lugar, ao acaso, onde não tinha verdadeiros elos. Eu ia morrer sozinho em Pittsburgh.

Lembro-me de um acontecimento extraordinário que se produziu en­quanto eu estava deitado na cama contemplando a fumaça do meu cigarro indiano. Na verdade, eu nao estava com vontade de dormir. Estava imerso nos meus pensamentos quando, de repente, ouvi minha própria voz falando na minha cabeça, com uma suavidade, uma segurança, uma convicção, uma clareza, uma certeza que eu não conhecia. Não era eu, e contudo era de fato a minha voz. No momento em que eu repetia a mim mesmo que “não é possível que isso tenha acontecido a mim, é impossível”, a voz disse: “Sabe de uma coisa, David? É perfeitamente possível, e não é assim tão grave.” E então se passou algo extraordinário e incompreensível, pois, naquele segundo, deixei de ficar paralisado. Era uma evidência: sim, era possível, faz parte da experiência humana, muitas outras pessoas a viveram antes de mim, eu não era diferente. Não era grave ser simplesmente humano, plenamente humano. Meu cérebro encontrara sozinho a via da tranquilidade. Depois, quando senti medo nova­mente, tive que aprender a controlar minhas emoções. Mas naquela noite eu adormeci e no dia seguinte pude trabalhar e fazer o necessário para começar a enfrentar a doença, e encarar a minha vida.

2

Fugir das estatísticas
Stephen Jay Gould era professor de zoologia, especialista em teoria da evolução, na Universidade de Harvard. Era também um dos cientistas mais influentes de sua geração, considerado por muitos como o “segundo Darwin” por ter apresentado uma visão mais completa da evolução das espécies.

Em julho de 1982, com 40 anos, ficou sabendo que sofria de um meso­telioma do abdome — um câncer grave e raro, que é atribuído à exposição ao amianto. Depois da operação, pediu à sua médica para lhe indicar os melhores artigos técnicos sobre o mesotelioma. Embora tivesse sido até então sempre muito direta, a oncologista lhe respondeu evasivamente que a literatura médica não tinha nada de verdadeiramente valioso sobre o assunto. Mas impedir um universitário de vasculhar a documentação sobre um tema que o preocupa é um pouco, como escreve Gould, “recomendar a castidade ao Homo sapiens, de todos os primatas o mais interessado em sexo”.

Saindo do hospital, ele foi direto para a biblioteca médica do campus e se instalou em uma mesa com uma pilha de revistas recentes. Uma hora mais tarde, compreendeu apavorado a causa da atitude de sua médica. Os estudos científicos não deixavam pairar nenhuma dúvida: o mesotelioma era “incurá­vel”, com uma sobrevida média de oito meses depois de confirmado o diag­nóstico! Como um animal preso de repente nas garras de um predador, Gould sentiu o pânico invadi-lo, ficando com o corpo e a mente inertes durante uns bons 15 minutos.

Mas seu treinamento acadêmico terminou vencendo — e salvou-o do desespero. Tinha de fato passado a vida estudando os fenômenos naturais, colocando-os em números. Se havia uma lição a tirar disso, é que não existe na natureza nenhuma regra fixa que se aplique igualmente a todos. A varia­ção é a própria essência da natureza. Na natureza, a mediana é uma abstra­ção, uma “lei” que o espírito humano procura aplicar sobre a abundância dos casos individuais. Para o indivíduo Gould, a questão era saber o seu lugar específico, distinto de todos os outros, no leque das variações em torno da mediana.

O fato de que a sobrevida mediana fosse de oito meses, refletiu Gould, significava que a metade das pessoas acometidas de mesotelioma sobrevivia menos de oito meses. A outra metade sobrevivia portanto mais de oito meses. E ele, a qual metade pertencia? Como era jovem, não fumava, tinha boa saúde (fora o câncer) — seu tumor fora diagnosticado em um estágio precoce e po­dia contar com os melhores tratamentos disponíveis —, tinha todas as razões para achar que estava na “boa” metade, concluiu Gould aliviado. Já se ganhava alguma coisa.

Depois tomou consciência de um aspecto mais fundamental. Todas as curvas de sobrevida têm a mesma forma assimétrica: por definição, a metade dos casos se concentra na parte esquerda da curva, entre zero e oito meses.

Mas a outra metade, à direita, está disposta necessariamente além dos oito meses, e a curva — a “distribuição”, como se chama em estatística — tem sempre uma “longa cauda direita” que pode até se prolongar consideravelmen­te. Exaltado, Gould começou a procurar nos artigos uma curva de sobrevida do mesotelioma. Quando finalmente a encontrou, pôde constatar que efetiva­mente a ala direita da distribuição se estendia por vários anos. Assim, mesmo que a mediana fosse de apenas oito meses, ao longo da parte direita do gráfico um pequeno número de pessoas sobrevivia anos a essa doença. Gould não via nenhuma razão para ele mesmo não estar na ponta daquela extensa cauda di­reita e soltou um suspiro de alívio.

Fortalecida por essas descobertas, sua mente de biólogo o pôs então dian­te de uma terceira evidência tão importante quanto as duas primeiras: a curva de sobrevida que ele tinha diante dos olhos era de pessoas que tinham sido tratadas dez ou vinte anos antes. Elas haviam tido acesso aos tratamentos da época, dentro das circunstâncias da época. Em uma área como a da oncologia, duas coisas evoluem continuamente: de um lado, os tratamentos convencio­nais, e de outro, nosso conhecimento do que cada um pode fazer individual­mente para reforçar a ação desses tratamentos. Se as circunstâncias mudam, a curva de sobrevida muda também. Talvez, com o novo tratamento que ia receber e com um pouco de sorte, ele passasse a fazer parte de uma nova curva, com uma mediana mais alta e uma cauda direita mais longa, que iria longe, muito longe, até uma morte natural em uma idade avançada.



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Stephen Jay Gould morreu vinte anos depois, de outra doença. Teve tem­po de concluir uma das mais admiráveis carreiras científicas de seu tempo. Dois meses antes de morrer, ainda assistiu à publicação de sua obra máxima, A Estrutura da Teoria da Evolução. Sua sobrevida foi trinta vezes maior do que os oncologistas haviam previsto.*

A lição que nos oferece este grande biólogo é límpida: as estatísticas são uma informação, não uma condenação. O objetivo, quando se é portador de um câncer e se quer lutar contra a fatalidade, é criar para si todas as condições para se posicionar na extremidade da cauda direita da curva.

Além disso, ninguém pode prever o curso de um câncer com precisão. O professor David Spiegel, da Universidade de Stanford, organiza há trinta anos grupos de apoio psicológico para mulheres portadoras de câncer de mama metastático. Durante uma conferência pronunciada em Harvard diante de um público de oncologistas (e publicada no Journal of the American Association), ele confessou sua perturbação: “O câncer é uma doença muito desconcertante. Nós temos pacientes que tiveram metástases no cérebro [N. do A.: um dos desenvolvimentos mais alarmantes do câncer de mama] há oito anos e que vão muito bem hoje. Qual a razão? Ninguém sabe. Um dos grandes mistérios da quimioterapia é que ela às vezes consegue ‘fundir’ um tumor sem no entanto provocar uma melhora notável na sobrevida. A relação entre a resistência somá­tica e a progressão da doença, mesmo do ponto de vista puramente oncológico, continua sendo muito difícil de elucidar.”1

Todos nós ouvimos falar de curas milagrosas, de pessoas que não tinham mais do que alguns meses de vida e que no entanto sobreviveram anos, até décadas. Mas, atenção, dizem-nos que são casos muito raros. Ou então a ex­plicação é a incerteza de que se trate de câncer, de que mais provavelmente são erros de diagnóstico. Para ter certeza, nos anos 1980, dois pesquisadores da Universidade Erasmo de Roterdã analisaram sistematicamente os casos de remissão espontânea de câncer que não podiam suscitar tais dúvidas. Para a grande surpresa deles, foram contados sete, tão indiscutíveis quanto inexplicá­veis, em um ano e meio de pesquisa apenas em sua região.2 Fica claro que esses casos são muito mais frequentes do que geralmente se admite.

Os pacientes que participam de certos programas de conscientização do próprio câncer, como o do Centro Commonweal na Califórnia, do qual volta­remos a falar, aprendem a viver melhor com seus corpos e com seus passados, a acalmar suas mentes por meio da yoga e da meditação, a se nutrir com alimen­tos que lutam contra o câncer e a evitar os que favorecem seu desenvolvimen­to. O acompanhamento dessas pessoas revela que elas vivem claramente mais tempo do que a média das pessoas acometidas do mesmo câncer no mesmo estágio de adiantamento.*

*Um amigo oncologista da Universidade de Pittsburgh, com quem eu falei sobre esses números, discordou: “Não são pacientes como os outros: eles são mais informados, mais motivados e estão em melhor condição de saúde. O fato de viverem por mais tempo não prova nada!” Mas essa é precisamente a questão: se os pacientes estiverem bem-informados sobre a doença, se cuida­rem do corpo e da mente e se receberem a alimentação de que têm necessidade para estar em melhor condição de saúde, então as funções vitais do corpo vão se mobilizar para melhor lutar contra o câncer. Eles viverão melhor e por mais tempo.

Algum tempo depois, a prova foi trazida pelo dr. Dean Ornish, pro­fessor de medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco e grande precursor da medicina complementar. Em setembro de 2005, ele publicou os resultados de um estudo sem precedente na oncologia.4 Noventa e três porta­dores de câncer de próstata em estágio precoce — confirmado por uma biópsia



  • fizeram a opção, sob o controle de seus oncologistas, de não passar pela intervenção cirúrgica, mas simplesmente acompanhar a evolução do tumor. Para tanto, avaliou-se a intervalos regulares o nível de PSA (sigla em inglês para Antígeno Prostático Específico) — um antígeno secretado pela próstata e pelo tumor — presente no sangue. Um aumento de PSA sugere que as células cancerosas se multiplicam e que o tumor está aumentando.

Como esses homens tinham recusado qualquer tratamento médico clás­sico durante a observação, era possível propor-lhes outras formas de cuidado e avaliar seus benefícios independentemente de qualquer medicação ou cirurgia convencionais. Dois grupos de pacientes foram então formados por sorteio, a fim de torná-los rigorosamente comparáveis. O grupo “de controle” conti­nuou simplesmente sendo monitorado por medições regulares de PSA. Para o outro grupo, o dr. Ornish estabeleceu um programa completo de saúde física e mental. Esses homens tiveram que seguir durante um ano um regime vege­tariano, complementado com suplementos (antioxidantes vitaminas E e C e selênio, e um grama de ômega-3 por dia), exercícios físicos (trinta minutos de caminhada, seis dias por semana), práticas de gestão do estresse (movimentos de yoga, exercícios de respiração que aumentam a frequência cardíaca, visuali­zação mental ou relaxamento progressivo) e a participação durante uma hora por semana em um grupo de apoio com outros pacientes do mesmo programa.

Tratava-se de uma modificação radical de estilo de vida, especialmente para os executivos estressados ou pais de família sobrecarregados por múlti­plas responsabilidades. Eram sobretudo métodos por muito tempo taxados de bizarros, supersticiosos ou irracionais. Doze meses mais tarde, os resultados contudo não deixaram subsistir nenhuma dúvida: dos 49 pacientes que não tinham mudado em nada o estilo de vida e se contentaram em observar a evo­lução da doença, seis viram seu câncer se agravar e precisaram sofrer ablação da próstata, quimioterapia ou radioterapia. Em compensação, nenhum dos 41 pacientes que tinham seguido o programa de saúde física e mental teve necessi­dade de recorrer a tais tratamentos. Para o primeiro grupo, o PSA (que assinala a progressão do tumor) aumentara em média 6%, sem contar os que tiveram que parar a experiência por causa da aceleração da doença (e que apresentavam uma taxa de PSA ainda mais preocupante). Esse crescimento sugere que os tumores progrediam lenta mas seguramente. Quanto ao segundo grupo, o que havia mudado os hábitos de vida, o PSA baixara em média 4%, indicando uma regressão dos tumores na maior parte dos pacientes.

Mas o mais impressionante é o que estava se produzindo dentro do or­ganismo dos homens que modificaram os hábitos de vida. O sangue deles, posto em presença de células prostáticas cancerosas típicas (células da linhagem LNCaP utilizada para testar diferentes agentes de quimioterapia), era sete vezes mais capaz de inibir o crescimento das células cancerosas do que o sangue dos homens que não tinham mudado nada em seu estilo de vida.

A melhor prova da existência de uma relação entre as mudanças de estilo de vida e a parada da progressão do câncer é o fato de que quanto mais os homens assimilaram os conselhos do dr. Ornish e os aplicaram assiduamente em suas existências cotidianas, mais seu sangue ficou ativo contra as células cancerosas!

Em termos científicos, isso é o que chamamos de “efeito dose-resposta”, um importante argumento em favor de uma ligação causal entre estilo de vida e câncer.

Para entender os mecanismos moleculares por trás desses dados, o dr. Ornish decidiu investigar como as mudanças no comportamento influenciam na expressão de genes dentro das próprias células da próstata. Ele colheu amos­tras de RNA das próstatas dos pacientes do estudo antes do começo do pro­grama de modificação do estilo de vida e colheu de novo três meses depois. Os resultados desse estudo, publicado em 2008, alcançaram as expectativas: indicaram que o programa de estilo de vida de Ornish modificou o funcio­namento de mais de quinhentos genes na próstata.5 O programa estimulou os genes que tinham efeito preventivo contra o câncer e inibiu os que favoreciam o desenvolvimento da doença. Um dos pacientes, Jack McClure, tinha sido diagnosticado com câncer de próstata seis anos antes. Depois de três meses no programa, ele não mostrava mais nenhum sintoma da doença. “Em minha última biopsia, não conseguiram encontrar nenhuma célula cancerígena. Não estou pronto para dizer que estou curado do câncer. Mas eles não conseguem mais encontrá-lo.” Dean Ornish acha que esse estudo deve dar esperança aos que temem que a predisposição genética os condene a desenvolver a doença: “As pessoas dizem com frequência: ‘Tenho genes ruins, o que posso fazer?’ A verdade é que você pode fazer bem mais do que pensa.”



Os genes do câncer podem, na verdade, não ser partes defeituosas do nosso maquinário biológico que nos condenam a ficar doentes. Em 2009, dois grupos independentes, um em Quebec e outro na Califórnia, revolucionaram comple­tamente nossa compreensão sobre as causas genéticas dos cânceres de mama e da próstata e da própria ideia de que nossos genes condicionam nosso risco de morrer de câncer. Ao ler esses estudos, somos lembrados da noção tradicional de “ancestrais” da forma como é vista nas culturas asiáticas ou na Roma antiga. Nessas culturas, acreditavam que os fantasmas dos ancestrais habitavam os locais onde haviam vivido. Se não fossem continuamente homenageados com oferen­das de comidas, podiam infligir todos os tipos de males à família. Os genes do câncer podem agir um pouco como esses “fantasmas famintos”, aparecendo e causando o caos apenas quando nos esquecemos de cuidar deles adequadamente.

Na Universidade de Montreal, uma equipe liderada pelo dr. Parviz Ghadirian estudou mulheres que eram portadoras de genes do tipo BRCA-1 e BRCA-2 — genes que apavoram muitas mulheres, porque quase 80% das portadoras sofrem o risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida. Muitas mulheres que descobrem que são portadoras decidem amputar os dois seios em vez de viver com a quase certeza de que vão adoecer em algum momento. No entanto, Ghadirian e sua equipe observaram que o risco de desenvolver câncer diminuía severamente em algumas mulheres que portavam os genes BRCA. A grande descoberta deles? Quanto mais frutas, legumes e verduras essas mulheres que corriam risco genético comiam, menor era a chance de desenvolver câncer. Mulheres que consumiam até 27 frutas, legumes e verduras diferentes por semana (e a variedade parece ser muito importante aqui) viram seu risco diminuir em 73%.6

Na Universidade de São Francisco, a equipe do professor John Witte fez uma descoberta similar sobre o câncer da próstata.7 Certos genes desenca­deiam uma sensibilidade extrema a inflamações e estimulam a transformação de microtumores de crescimento lento da próstata em cânceres agressivos e metastáticos.* Entretanto, quando os homens que portavam tais genes consu­miam peixes gordurosos ricos em ômega-3 pelo menos duas vezes por semana, os genes perigosos permaneciam sob controle. Os cânceres deles tinham cinco vezes menos probabilidade de se tornarem agressivos do que os dos homens que não comiam peixes gordurosos.

Essas descobertas recentes apoiam a ideia de que os “genes do câncer” podem não ser tão perigosos se não forem desencadeados por estilos de vida não saudáveis. Eles se comportam um pouco como os irascíveis fantasmas dos ancestrais, que requeriam oferendas regulares para permanecerem calmos. Na verdade, eles podem apenas ser genes que responderam mal à transição das nossas formas ancestrais de nutrição, que eram perfeitamente adaptadas aos nossos organismos, para a dieta moderna industrializada e processada (veja o capítulo 6). Isso explicaria, por exemplo, por que as mulheres portadoras dos genes BRCA que nasceram antes da Segunda Guerra Mundial têm de duas a três vezes menos risco de desenvolver câncer de mama do que suas filhas e netas, nascidas na era do fast-food.8 Talvez esses genes tão temidos não sejam, afinal, “genes do câncer” em absoluto, mas sim “genes intolerantes a fast-food”. E o mesmo pode ser verdade para outras escolhas de estilo de vida além da dieta, como exercício físico e controle de estresse.

Em suma, as estatísticas a respeito da sobrevida do câncer a que temos acesso não mostram a diferença entre as pessoas que se contentam em aceitar passivamente o veredicto médico e as que põem em ação suas próprias defesas naturais. Na mesma “mediana” encontram-se os que continuam a fumar, a se expor a outras substâncias cancerígenas, a se alimentar de acordo com o regime ocidental típico — um verdadeiro adubo para o câncer —, que não param de solapar suas próprias defesas imunológicas com excesso de estresse e má gestão das emoções, que deixam seus corpos ao abandono, privando-os de atividade física. Há também os que vivem muito mais tempo, ou que veem seu tumor desaparecer, porque, paralelamente aos benefícios dos tratamentos clássicos que compartilham com todos os outros, suas defesas naturais são mobilizadas. Pode-se aprender a ativá-las sozinho, respeitando quatro regras simples: desin­toxicação das substâncias carcinogênicas, alimentação anticâncer, pacificação do espírito e atividade física. Nós falaremos de cada um desses pontos em detalhe.

Não existe abordagem natural capaz de, sozinha, curar o câncer. Mas também não existe destino fechado. Como Stephen Jay Gould, todos nós po­demos olhar as estatísticas em perspectiva e visar a “longa cauda direita da curva”. O melhor caminho, para quem quer alcançar este objetivo ou simples­mente se proteger contra o câncer, é aprender a melhor utilizar os recursos do corpo e a viver uma vida mais rica.

Nem todo mundo se engaja neste caminho devido a uma decisão refleti­da. Pode acontecer de a própria doença nos levar a ele. Em chinês, a noção de “crise” é obtida pela associação dos dois caracteres: “perigo” e “oportunidade”.

A ameaça que o câncer faz pesar nos cega tanto que temos dificuldade em perceber sua fecundidade. Quanto a mim, de muitas maneiras, a doença me transformou a vida. A um ponto que eu nunca poderia ter imaginado quan­do acreditei que estava condenado. Tudo começou muito depressa depois do diagnóstico inicial...



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