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A CHANTAGEM

HAROLD ROBBINS

Titulo original: "Where Love Has Gone"

Tradução de Maria de Lourdes Medeiros

1962 by Harald Robbins
A FINALIDADE DA LEI DO TRIBUNAL DE MENORES
"Garantir a cada menor que se encontre sob a jurisdição do Tribunal de Menores os cuidados e orientação, de preferência na sua própria casa, que melhor possam servir o bem-estar espiritual, emocional, mental e físico do menor e os melhores interesses do Estado; preservar e fortalecer, sempre que possível, os laços familiares do menor, apenas o afastando da tutela dos pais quando o seu bem-estar e a segurança, ou proteção do público não possam ser salvaguardados sem esse afastamento; e, quando o menor é afastado da família, garantir-lhe uma tutela, cuidados e disciplina, tanto quanto possível, equivalentes àqueles que lhe deveriam ter sido dados pelos pais."

Secção 502, capitulo 2, do Código do Bem-estar e das Instituições do Estado da Califórnia.


ÍNDICE
Primeira Parte
A História de Luke ─ Sexta-feira à noite
Segunda Parte
A Parte do Livro acerca de Nora
Terceira Parte

A História de Luke ─ O fim-de-semana


Quarta Parte

A Parte do Livro acerca de Dani


Quinta Parte

A História de Luke ─ O julgamento


PRIMEIRA PARTE
A História de Luke
Sexta-feira à noite
Era um daqueles dias, feitos para quem nasceu para perder. De manhã, atirei com o meu emprego ao ar. à tarde, Maris bateu em cheio na bola e, quando as câmaras de televisão se puseram a segui-lo pelo campo, as pessoas viram, de relance, as expressões nos rostos dos Reds de Cincinnati e, de certa maneira, sentiram, que a série estava acabada, embora houvesse mais quatro jogos por jogar. E, nessa noite, o telefone tocou, arrancando-me à minha cama de insônia, onde estava estendido a olhar para o teto cinzento - escuro, tentando ficar muito quieto, ao mesmo tempo que ouvia Elizabeth, que fingia dormir, na cama ao lado.

A voz impessoal da telefonista da interurbana cantarolou num tom vazio.

─ Sr. Luke Carey, por favor. Tem uma chamada interurbana.

─ É o próprio ─ respondi.

Entretanto, já Elizabeth tinha acendido a luz. Estava sentada na cama, com os longos cabelos louros a caírem-lhe pelos ombros nus.

─ Quem é? ─ tartamudeou em voz baixa.

Tapei o bocal com a mão. ─ Não sei - disse rapidamente. ─ É uma chamada interurbana. ─ Se calhar é aquele emprego em Daytona ─ disse cheia de esperança. ─ Para onde tu escreveste.

Uma voz de homem fez-se ouvir pelo telefone. Tinha um vago sotaque do Oeste. ─ Sr. Carey?

─ Sim.

─ O Sr. Luke Carey?



─ Exatamente ─ respondi. Estava a começar a ficar um bocado irritado. Se alguém achava que isto tinha muita graça, eu não compartilhava da idéia.

─ Aqui fala o sargento Joe Flynn da Polícia de São Francisco. ─ O sotaque era, agora, ainda mais evidente. ─ Tem uma filha chamada Danielle?

Uma súbita sensação de medo comprimiu-me as entranhas.

─ Tenho, sim ─ respondi rapidamente. ─ Há algum problema?

─ Parece-me que sim ─ disse, lentamente. ─ Ela acaba de cometer um homicídio!

As reações são qualquer coisa de cômico. Por momentos, quase larguei às gargalhadas. Tinha tido a visão do corpo de Danielle, mutilado, a sangrar, estendido, meio desfeito, numa estrada solitária. Mordi a língua para não dizer "Foi só isso?". Em voz alta, perguntei:

─ Ela está bem?

─ Está ótima ─ respondeu o sargento.

─ Posso falar com ela?

─ Só de manhã ─ respondeu. ─ Vai a caminho do Tribunal de Menores.

─ A mãe dela está por aí? ─ perguntei. ─ Posso falar com ela?

─ Não ─ disse. ─ Está lá em cima, no quarto, com um ataque de histerismo. Parece-me que médico lhe está a dar uma injeção.

─ Está aí alguém com quem eu possa falar?

─ o Sr. Gordon vai a caminho do Tribunal de Menores com a sua filha.

─ Harris Gordon? ─ perguntei.

─ Isso mesmo ─ respondeu. ─ O advogado em pessoa. Foi ele que me pediu para lhe telefonar.

Harris Gordon. O advogado. Era assim que o tratavam. Era o melhor de todos. E o mais caro. Eu tinha obrigação de saber. Ele é que tinha representado Nora no nosso divórcio e tinha feito do meu advogado um autêntico palhaço. Comecei a sentir-me melhor. Pelo menos Nora não estava assim tão histérica, se ainda tinha pensado em o chamar.

A voz do polícia tomou um tom curioso. ─ Não quer saber quem foi que a sua filha matou? ─ Da maneira como ele disse, parecia mais "montou".

─ Ainda nem consigo acreditar ─ respondi. ─ Como é que Danielle podia fazer mal a alguém. Ainda nem tem quinze anos.

─ Mas não há dúvida de que o matou ─ disse o homem, numa voz inexpressiva.

─ Quem? ─ perguntei.

Tony Riccio ─ respondeu. A voz dele tomou um tom desagradável. ─ O amiguinho da sua mulher.

─ Ela não é minha mulher ─ respondi. ─ Há onze anos que nos divorciamos.

─ Acertou-lhe no estômago com um daqueles cinzéis de escultor que a sua mulher tem no estúdio. Afiado como uma navalha. Rasgou-o como se fosse uma baioneta. Havia sangue por todo o lado.

Não creio que ele tivesse chegado a ouvir o que eu tinha dito. ─ Parece assim um daqueles casos em que o tipo andou a fazer-se com as duas e a miúda teve um ataque de ciúmes.

Senti a náusea subir-me à garganta. Engoli com força para a empurrar novamente para baixo.

─ Eu conheço a minha filha, sargento ─ respondi. ─ Não sei porque é que ela o matou ou mesmo se o matou, mas, se o fez, era capaz de apostar a minha vida em como não foi por isso.

─ Há mais de seis anos que o senhor não a vê ─ insistiu. ─ As crianças mudam muito em seis anos. Crescem.

─ Mas não para o crime ─ disse. ─ A Danielle não. ─ Desliguei antes que ele dissesse mais uma palavra e voltei para a cama.

Elizabeth estava parada a olhar para mim, com os olhos azuis muito abertos.

─ Ouviste?

Fez que sim com a cabeça. Saltou rapidamente da cama e enfiou o roupão. ─ Mas não posso acreditar.

─ Nem eu ─ disse com voz melancólica. ─ A Dani é uma criança. Tem catorze anos e meio.

Elizabeth pegou-me na mão.

─ Vem até à cozinha. Vou fazer café.

Fiquei sentado, como que perdido na neblina, até que ela me meteu na mão a chávena de café quente. Era uma dessas ocasiões em que uma pessoa pensa em tudo e, no entanto, não pensa verdadeiramente em nada. Nada de que se possa lembrar, pelo menos. Talvez coisas pequenas. Talvez a primeira visita de uma garotinha ao jardim zoológico. Ou talvez os risos por causa do jato que vinha do mar, em La Jolla. É uma vozinha fraca de criança.

─ É tão divertido viver num barco, papá! Porque é que a mamãe não vem para aqui viver num barco contigo, em vez de viver naquela casa grande e velha lá no alto da colina, em São Francisco?

Sentia uma espécie de sorriso dentro de mim quando me lembrava da maneira como Danielle costumava dizer São Francisco ─ São Francisco. Nora costumava irritar-se com isso. Nora falava sempre tão bem. Nora fazia sempre tudo tão bem. Tudo aquilo que as pessoas podiam ver. No exterior, traz uma senhora.

Nora Marguerite Cecelia Hayden. Corria-lhe nas veias o sangue orgulhoso dos senhores espanhóis da antiga Califórnia, o quente sangue irlandês que lançara os trilhos dos caminhos-de-ferro do Oeste e a água gelada que circulava nas veias dos banqueiros da Nova Inglaterra, Misturando tudo, o resultado era uma senhora. Com riqueza, poder e terras. E uma estranha espécie de talento bravio que a erguia bem alto acima de todas as outras pessoas.

Porque tudo aquilo em que Nora tocava, pedra, metal ou madeira, tomava uma forma, uma vida própria. E tudo aquilo em que ela tocava, que, tivesse uma forma, uma vida própria, ficava destruído. Eu sabia-o. Porque também sabia aquilo que ela me tinha feito.

─ Bebe o café enquanto está quente. Levantei os olhos. Elizabeth olhava fixamente para mim. Levei o café à boca. Sentia-lhe o calor penetrar no frio que era a minha barriga. ─ Obrigado.

Ficou sentada à minha frente.

─ Estavas longe daqui. ─ Forcei o meu espírito a voltar para junto dela. ─ Estavas a pensar em Danielle?

Acenei-lhe com a cabeça, silenciosamente, ao mesmo tempo que um sentimento de culpa crescia dentro de mim. Era outra coisa que a Nora tinha. Uma maneira de se instalar no nosso espírito e de pré-esvaziar pensamentos que deviam pertencer a outra pessoa.

─ O que é que vais fazer? ─ perguntou Elizabeth.

─ Não sei. Não sei o que vou fazer.

A voz dela era quente e suave. ─ Pobre miúda.

Não respondi.

─ Ao menos, a mãe está com ela.

Tive um riso amargo. A Nora nunca estava com ninguém. Só consigo própria. ─ A Nora está com um ataque de histeria. O médico estava a pô-la a dormir para o resto da noite.

Elizabeth ficou a olhar para mim.

─ Quer dizer que a Danielle está sozinha?

─ O advogado delas acompanhou-a ao Tribunal de Menores ─ respondi.

Elizabeth olhou para mim durante um momento, depois, pôs-se de pé e dirigiu-se ao armário. Tirou outra chávena e pegou numa colher que estava a escorrer ao lado do lava-louça. Tinha a mão a tremer. A colher tilintou no chão de oleado. Ia apanhá-la e, então, parou. ─ Que raio! ─ praguejou. ─ Estou tão desajeitada.

Apanhei a colher, enquanto foi buscar outra. Encheu a chávena de café e sentou-se de novo.

─ Que raio de altura para estar grávida. ─ Sorri-lhe.

─ A culpa não é só tua. Também tenho alguma coisa a ver com o caso.

Os olhos dela não se afastaram dos meus.

─ Sinto-me tão estúpida e inútil. Uma matação. Especialmente agora.

─ Não sejas parva.

─ Não estou a ser parva ─ disse. ─ Tu não querias esta criança. Eu é que quis.

─ Agora estás mesmo a ser parva.

─ Tu já tinhas uma filha ─ disse. ─ Chegava-te. Mas eu também te queria dar um filho. Acho que, tinha ciúmes dela. Tinha de provar que, pelo menos numa coisa, não ficava atrás da Nora.

Dei a volta à mesa e sentei-me ao lado dela. Continuava a olhar para mim. Tomei-lhe a cara nas mãos.

─ Não tens de provar nada. Amo-te.

Os olhos dela continuavam fixos nos meus.

─ Eu via a expressão do teu rosto quando falavas em Danielle. Sentias-lhe a falta. Por isso, pensei eu, se tivéssemos um filho, já não terias tantas saudades dela. De repente, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Pegou na minha mão e pô-la em cima da barriga cheia e dura.

─ Vais gostar muito do nosso filho, não vais, Luke? Tanto como da Danielle?

Inclinei-me e comprimi a face de encontro à vida que havia dentro dela.

─ Sim, eu sei que sim ─ respondi. ─ Já a amo agora.

─ Ela pode vir a ser um rapaz.

─ Não tem importância ─ murmurei. ─ Amo a ti e ao bebê.

Com as mãos, puxou a minha cabeça de encontro aos seios. Apertou-me muito de encontro a ela.

─ Tens de ir lá.

Afastei-a de mim.

─ Estás doida? Agora que tu estás a duas semanas de ires para o hospital?

─ Eu cá me arranjo ─ disse calmamente.

─ E com que dinheiro? Fiquei desempregado esta manhã, lembras-te?

─ Temos quase quatrocentos no banco ─ disse. ─ E tu ainda tens na algibeira o ordenado da última semana.

─ Cento e sessenta "dele"! Precisamos disso para viver. Posso levar semanas a arranjar outro emprego.

─ Num avião a jato são só três horas e meia de Chicago a São Francisco ─ disse. ─ Uma ida e volta em classe turística não chega a custar cento e cinqüenta dólares.

─ Não, não faço isso. Não posso. Precisamos desse dinheiro para o hospital.

─ A minha decisão está tomada ─ disse. ─ Tens de ir. Eu sei como é que queria que as coisas se passassem se Danielle fosse nossa filha.

Estendeu a mão para o telefone de parede.

─ Vai lá para cima fazer as malas enquanto eu telefono para o aeroporto. E veste o terno de flanela antracite. É a única roupa decente que tens.

Estava a olhar fixamente para a mala aberta que pusera em cima da cama, quando Elizabeth entrou no quarto.

─ Há um avião que sai do O'Hara às duas e meia ─ disse. ─ Faz uma escala e vai chegar a São Francisco às duas da manhã. Hora local.

Fiquei onde estava, a olhar para o pequeno saco de lona. Sentia-me entorpecido. A notícia ainda não me tinha entrado bem na cabeça.

─ Vai tomar um banho, num instante ─ disse. ─ Eu faço-te a mala.

Olhei-a, agradecido. Nunca era preciso dizer as coisas a Elizabeth. Ela sabia sempre como era. Dirigi-me para o banheiro. Olhei para a minha cara no espelho. Tinha os olhos rodeados por umas olheiras fundas e como que enterrados nas órbitas. Peguei na máquina de barbear. A mão ainda me tremia.

"Havia sangue por todos os lados." As palavras do sargento vieram-me à idéia. "A barba que fosse para o diabo. Podia muito bem barbear-me de manhã." Meti-me no chuveiro e abri a água com toda a força.

Quando saí, o saco já estava preparado e fechado. Dirigi-me para o armário.

─ Meti o teu terno na mala ─ disse Elizabeth. ─ Leva as outras calças e o casaco de sport na viagem. Não vale a pena amassares a roupa no avião.

─ Ok ─ respondi. Mal acabei de fazer o nó da gravata, o telefone tocou. Elizabeth foi atender.

─ É para ti ─ disse, estendendo-me o auscultador.

─ Alô.


Não precisei que me dissessem quem é que estava do outro lado da linha. Seria capaz de reconhecer aquela voz calma, onde quer que fosse. A minha ex-sogra. Como de costume, não perdeu tempo com exórdios.

─ O Sr. Gordon, o nosso advogado, acha que seria boa idéia vir até cá.

─ Como é que está Danielle?

─ Ela está bem ─ respondeu. - Tomei a liberdade de reservar uma suíte para si e para a sua mulher no Mark Hopkins. Quando levantar os bilhetes no aeroporto, mande-me um telegrama com o número do vôo, para eu mandar uma limusine esperá-lo ao aeroporto.

─ Não, muito obrigado.

─ Não é a altura de estar com orgulhos ─ disse teimosa. ─ Conheço a tua situação financeira, mas quer-me parecer que o bem-estar da sua filha é mais importante.

─ O bem-estar da Dani tem sido sempre o mais importante.

─ Então, porque é que não vem?

─ Eu não disse que não ia. Apenas me limitei a dizer não à sua oferta. Eu posso pagar, à minha maneira.

─ Sempre o mesmo, não é? ─ perguntou. ─ será que alguma vez vai mudar?

─ Faço-lhe a mesma pergunta ─ ripostei. Houve um momento de silêncio e, depois,

novamente a voz dela ─ um pouco mais fria e um pouco mais clara.

─ o Sr. Gordon quer falar consigo.

A voz dele era quente e efusiva. Seria capaz de enganar quem não o conhecesse. Por detrás daquele som amigável, havia um espírito que era como uma armadilha de aço.

─ Como está, coronel Carey? Há muito tempo que não falava consigo.

─ É verdade ─ disse. ─ Há onze anos, no tribunal, num caso de divórcio. ─ Não precisava de lhe avivar a memória. Provavelmente lembrava-se até das horas e dos minutos. ─ Como está a Dani?

─ Ela está ótima, coronel Carey ─ disse, num tom tranqüilizador. ─ Quando o juiz viu o estado de choque em que a pobre criança se encontrava, encarregou-me de tomar conta dela. Neste momento, está lá em cima, aqui em casa da avó, a dormir. O médico deu-lhe um sedativo.

Independentemente de gostar dele ou não, fiquei contente por o termos ao nosso lado.

─ Temos de a entregar novamente ao Tribunal de Menores, amanhã de manhã, às dez ─ disse. ─ Acho que seria boa idéia que o senhor a acompanhasse.

─ Lá estarei.

─ Ótimo. Ser-lhe-ia possível estar aqui às sete para tomar o pequeno-almoço conosco? Há certas coisas que devíamos discutir e preferia não o fazer pelo telefone.

─ Ok ─ respondi. ─ Vou aí tomar o pequeno-almoço, às sete.

Houve uma pausa. Depois, a Sra. Hayden apareceu novamente em linha. Pareceu-me que a velha senhora estava a fazer um esforço para ser amável.

─ Quero tanto conhecer a sua mulher, Luke.

─ Ela não vai.

Ouvi o tom de surpresa na voz dela.

─ Por que?

─ Porque está à espera de bebê ─ respondi. ─ A qualquer momento.

Depois disso, não havia mais nada a dizer e despedimo-nos. Mas logo que pousei o telefone, ele tocou. Era outra vez Harris Gordon.

─ Só mais uma coisa, Sr. Carey. Por favor não fale com nenhum repórter. É importante que não faça quaisquer declarações antes da nossa conversa.

─ Compreendo, Sr. Gordon. ─ E desliguei. Elizabeth encaminhou-se para o banheiro. ─ Vou-me vestir e vamos juntos até o O'Hara.

─ Achas que não te faz mal? Posso chamar um táxi.

─ Não sejas pateta ─ riu-se. ─ Apesar de tudo o que disseste à outra senhora ainda faltam umas duas semanas, pelo menos.

Gosto de guiar à noite. O mundo acaba onde pára o raio luminoso dos faróis. Não vemos para onde vamos, por isso está tudo bem, pelo menos, até onde conseguimos ver, o que já é uma vantagem em relação a tudo o mais nesta vida. Vi o velocímetro chegar aos oitenta, depois, baixar lentamente para sessenta. Não havia pressa. Ainda nem sequer era meia-noite. Mas não nos apeteceu ficar em casa, sentados, à espera. No aeroporto havia movimento, pessoas. Teríamos a impressão de estar a fazer alguma coisa, mesmo que não tivéssemos nada que fazer.

Pelo canto do olho, vi brilhar o fósforo que iluminou, por breves instantes, o rosto de Elizabeth. Depois, levantou o braço e pôs-me o cigarro entre os lábios. Inalei profundamente.

─ Como é que te sentes?

─ Ok ─ respondi.

─ Queres falar?

─ O que é que se pode dizer? A Dani está com um problema e eu vou ter com ela.

─ Falas como se já esperasses uma coisa destas ─ disse. Olhei-a com uma espécie de surpresa. às vezes era espantosa. Mergulhava mesmo dentro de mim e saía-se com pensamentos que eu não queria admitir nem mesmo perante mim próprio.

─ Eu nunca esperei uma coisa destas ─ respondi num tom inexpressivo.

O cigarro dela brilhou. ─ O que é que esperavas?

─ Não sei. Mas isso também não era inteiramente verdade, Sabia muito bem aquilo que tinha esperado. Que um dia Danielle me telefonasse e me dissesse que queria estar comigo. Não com a mãe. Mas onze anos já tinham feito com que esse sonho parecesse um bocado remoto.

─ Achas que havia alguma coisa de verdadeiro no que aquele polícia sugeriu?

─ Não creio ─ respondi. Fiquei um momento a pensar. ─ Não, tenho a certeza de que não havia. Se assim fosse, a Nora tê-lo-ia morto. Ela nunca seria capaz de compartilhar uma coisa que achasse que lhe pertencia.

Elizabeth ficou silenciosa e eu continuei com os meus pensamentos. Nora era assim. A única coisa importante para ela era conservar aquilo que queria. Lembrava-me daquele último dia no tribunal.

Naquela altura, já estava tudo decidido. Ela conseguia o divórcio. Eu estava sem dinheiro, vencido, mal podendo manter-me, enquanto ela tinha tudo o que queria. A única coisa que faltava decidir era quem ficava com Danielle.

Fomos para o gabinete do juiz para decidir essa questão. Em principio, devia ser apenas uma formalidade. Já tínhamos acordado que Danielle passaria doze fins-de-semana, por ano, comigo, e metade do Verão, no barco, em La Jolla.

Sentei-me na cadeira em frente do juiz, enquanto o meu advogado explicava o acordo. O juiz acenou com a cabeça e voltou-se para Harris Gordon.

─ Parece-me um acordo equilibrado, Sr. Gordon.

Lembro-me de que, nesse momento, Danielle, que estava a brincar com uma bola na outra ponta do gabinete, se voltou de repente e gritou:

─ Agarra, papai! ─ A bola rolou pelo chão e, no momento em que ajoelhei para a apanhar, ouvi Harris Gordon responder:

─ Mas a verdade é que não é, Excelência.

Fiquei a olhar para ele, ainda com a bola na mão, sem conseguir acreditar. Era um ponto sobre o qual tínhamos acordado na véspera. Olhei para Nora. Os olhos de um azul-violeta pareciam olhar através dos meus.

Fiz rolar a bola novamente na direcção de Dani. Harris Gordon continuou:

─ o argumento da minha cliente é que o coronel Carey não tem quaisquer direitos paternais.

─ O que é que quer dizer com isso? ─ gritei, endireitando-me. ─ Eu sou o pai dela!

Os olhos escuros de Gordon eram imperscrutáveis.

─ Nunca lhe pareceu estranho que a criança tivesse nascido apenas sete meses depois do seu regresso do Japão?

Tentei controlar a fúria.

─ Tanto a Sra. Carey como o médico dela me garantiram que Dani era prematura.

─ Para um indivíduo adulto, o senhor foi um bocado ingênuo, coronel Carey.

Gordon voltou-se novamente para o juiz.

─ A Sra. Carey deseja informar o tribunal de que essa criança foi concebida seis a sete semanas antes de o coronel Carey regressar da sua comissão de serviço. Considerando este fato, que ela tem a certeza de que o coronel Carey já há muito tempo admitiu para si próprio, reclama a custódia total da filha.

Voltei-me para o meu advogado.

─ Vai deixá-los levar isto por diante?

O meu advogado voltou-se para o juiz.

─ Estou profundamente chocado com a ação deles.

O Sr. Gordon disse:

─ Vossa Excelência deve compreender que isto é contrário ao acordo que fiz com ele ontem.

Vi pela maneira como falou que o juiz também tinha ficado chocado, embora as suas palavras fossem cuidadosamente imparciais.

─ Lamento muito, mas espero que compreenda que o tribunal não pode impor qualquer acordo que não tenha sido feito na sua presença.

Nesse momento, toda a minha fúria irrompeu cá para fora.

─ Pois então o acordo que vá para o diabo ─ gritei. ─ Voltamos ao principio e lutamos pelo que é de direito!

O meu advogado agarrou-me pelo braço e olhou para o juiz.

─ Posso falar um momento com o meu cliente, Excelência?

O juiz fez que sim com a cabeça e nós fomos para junto da janela. Ficamos de costas para a sala, a olhar para fora.

─ Já pensou no que isso significaria? ─ sussurrou. ─ Teria de admitir publicamente que a sua mulher o enganou enquanto esteve ausente!

─ E daí? Toda a cidade sabe que ela andou enrolada com São Francisco em peso, desde Chinatown ao Presidio!

─ Pare de pensar só em si, Luke. Pense na sua filha. O que isto há de significar para ela, se vier a lume? A própria mãe a apresentá-la como bastarda?

Fiquei a olhar para ele. ─ Ela não seria capaz. ─ Já o fez. A resposta era irrefutável. Não disse nada. Depois, uma vozinha veio do outro lado da sala.

─ Apanha, papai! Quase automaticamente, inclinei-me outra vez para apanhar a bola. Danielle atravessou a sala a correr e atirou-se para os meus braços. Levantei-a no ar. Ria-se, com os olhos pretos, a brilhar.

De repente, senti vontade de a apertar muito de encontro ao peito. Nora estava a mentir. Tinha de estar. Fosse como fosse, eu sabia, dentro de mim, que Dani era minha filha.

Olhei para o outro lado da sala. Para o juiz, para o escrivão, para Harris Gordon, para Nora. Estavam todos a olhar para nós. Todos, exceto Nora, que estava a olhar para um ponto, algures Por cima da minha cabeça.

Pus-me a estudar o rostinho sorridente em frente do meu. Uma sensação de agonia, de derrota cresceu dentro de mim. O advogado tinha razão. Não podia fazer isso. Não podia correr o risco de fazer mal à minha própria filha.

─ O que é que nós podemos fazer? ─ murmurei.

Vi uma expressão de simpatia nos olhos do meu advogado. ─ Deixe-me falar com o juiz.

Fiquei parado, com Danielle nos braços, enquanto ele se aproximava da mesa. Passados momentos, voltou.

─ Pode ter quatro fins-de-semana por ano, E duas horas aos domingos à tarde, se vier a São Francisco. Acha bem?

─ Tenho alguma alternativa? ─ perguntei, amargamente.

Sacudiu a cabeça, de forma quase imperceptível.



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