Este texto pretende tratar do conceito de civilização antes dele existir



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Civil, civilidade, civilizar, civilização: usos, significados e tensões nos dicionários de língua portuguesa (1562-1831).*

Luís Filipe Silvério Lima

Departamento de História, EFLCH, Unifesp

Resumo: O artigo pretende traçar a dicionarização e usos do termo “civilização” e correlatos, identificando sinônimos e antônimos que constituíram os seus diversos significados na língua portuguesa. Para tanto, busca-se mapear o aparecimento e utilização desses vocábulos nos dicionários e vocabulários portugueses (cotejando com o trajeto em inglês, francês e espanhol), do século XVI até inícios do séc. XIX. A proposta é reconstituir os campos semânticos construídos pelos dicionários em torno da ideia de civilidade/civilização (e seus opostos) no Império Português.

Palavras-chave: civilização, dicionários, rústico, Império Português.
Abstract: The article intends to trace the dictionarization and uses of "civilization" and related terms, identifying synonyms and antonyms which constituted their various meanings in the Portuguese language. The paper seeks to map the emergence and utilization of these words in Portuguese dictionaries (comparing with English, French and Spanish works), from mid-sixteenth century to the early nineteenth century. The main goal resides on reconstruct the semantic fields built by the dictionaries around the idea of civility / civilization (and their opposites) within the Portuguese Empire.

Keywords: civilization, dictionaries, rustic, Portuguese Empire.

Não pedem as palavras antiquadas, que usemos dellas, porque o discurso, como o corpo, sempre se há de vestir segundo o uso do tempo.



Raphael Bluteau

Decisoens academicas de palavras portuguezas”


Nas últimas décadas, manifestou-se um interesse em repensar e investigar a história do conceito de Civilização1. Seja influenciado pela retomada reflexiva do termo nas Ciências Sociais (em contraposição ao uso de Cultura)2, seja motivado pelo debate em torno do “choque de civilizações”3, seja procedendo uma revisão crítica da influência marcante da obra de Norbert Elias na historiografia das décadas de 1970 e 80 (especialmente sobre a Época Moderna)4, há uma produção significativa que re-equaciona a importância da trajetória da ideia de civilização para a construção ou como marco identificador/identitário dos mundos moderno e contemporâneo ocidental.

Muito tem se feito no sentido de investigar o surgimento e, mais do que isso, a popularização do termo e seus correlatos. Nessa senda, historiadores têm se dedicado a: por um lado, aprimorar e retificar a história da palavra nas línguas inglesa e francesa (e, por contraposição, também a alemã) traçada já na década de 1930 por autores como Lucien Febvre (1930) e Elias (1939)5; por outro, ampliar o escopo do debate analisando (comparativamente) esse processo em línguas que ficaram marginais ou ausentes nesses traçados inaugurais, como o holandês6, espanhol7, etc. Alguns desses trabalhos, inclusive, questionam a centralidade do termo como chave explicativa dos modos de comportamento e sociabilidade que teriam marcado a chamada civilização ocidental, supondo nuances nos processos de contenção, repressão e ordenação que teriam construído a racionalidade europeia8 ou nas diferenças passíveis de serem traçadas pelo uso ou não da ideia de civilização entre as diversas nações do Velho Continente9. Outros refletiram sobre a tessitura do termo: se pensável somente para as dinâmicas de comportamento e diferenciação social internas às sociedades europeias (num momento de ascensão burguesa e redesenho das estruturas cortesãs e nobiliárquicas), como indicaria uma primeira leitura dos trabalhos de Elias e Febvre, ou se necessário ter também em vista as situações e embates nos espaços ultramarinos com os “bárbaros”10. Parte desse esforço se dá numa abordagem ligada à “História dos Conceitos”, retomando e revendo o ambicioso projeto de Reinhardt Koselleck de um mapeamento do vocabulário político que significaria a construção do Estado ocidental11. É parcialmente inspirado nessa abordagem que pretendo traçar uma rota por meio dessas diversas discussões que recolocam os significados da palavra em questão.

Proponho aqui fazer alguns primeiros apontamentos nessa direção relacionados aos caminhos do termo civilização e correlatos, como civilidade, civilizar, civil, rústico, bárbaro, selvagem, entre outros, identificando sinônimos e antônimos que constituíram seus diversos significados na língua portuguesa, sem perder de vista, entretanto, uma dimensão comparativa com a história mais geral do(s) termo(s). Para tanto, pretendo mapear o aparecimento e utilização desses vocábulos nos dicionários e vocabulários portugueses (cotejando com o trajeto em inglês, francês e espanhol), do século XVI (a partir de 1562, quando apareceram os primeiros repertórios lexicográficos) até inícios do séc. XIX (quando a palavra foi dicionarizada, em 1831, e houve o estabelecimento do padrão contemporâneo de dicionários)12. A ideia, menos do que buscar verificar o quanto as culturas e sociedades de língua portuguesa estavam ou não em sintonia com o desenvolvimento das “civilizações” francesa e inglesa, é identificar os campos semânticos construídos pelos dicionários em torno da ideia de civilidade/civilização (e seus opostos).

Dentro dos seus limites “lexicográficos”, esta primeira aproximação pretende, assim, servir como subsídio inicial para reflexões posteriores e mais precisas sobre como os termos civilização, civilidade, civilizar, etc. foram ou não empregados (e como o foram) ao longo da colonização portuguesa em seus domínios ultramarinos. Em um momento futuro, seria particularmente importante abordar essa questão ao se pensar a conversão dos índios e o projeto missionário lusitano na América, entendido, por muitos, como dentro de um “plano civilizador” já desde os quinhentos.13


***
Os dicionários não devem ser lidos simplesmente como “retratos da língua”. Não refletem o uso tal e qual do emprego vocabular nem, até o séc. XVIII, pautavam exclusivamente a norma da língua, esta mesma muito fluida. Representam repertórios elegidos que obedeciam critérios muitas vezes não “lexicográficos” - e como tal podem nos dar pistas para pensar os conceitos em seu contexto linguístico e em sua historicidade14. Nos séc. XVI e XVII os dicionários serviam como um instrumento, ao mesmo tempo, de afirmação da importância e variedade do vernáculo no concerto dos reinos, e também de erudição para uso dos letrados, especialmente no caso português, já que eram dicionários latim-português.

Nessa percepção do vocabulário, alguns dos primeiros repertórios lexicográficos15 existentes para o português foram os produzidos pelo jesuíta Jerônimo Cardoso. Em 1562, saiu impresso o seu Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem, vertendo os vocábulos portugueses para seus correspondentes latinos, e, em 1570, postumamente, o Dictionarium latino lusitanicum que trazia também a tradução do latim para o português. A versão de 1570, até finais do séc. XVII, teve mais de uma dezena de edições que pouco diferiam entre si16 e participava de um esforço de codificar e criar um repertório das línguas vernáculas que se observa nos reinos europeus ao longo dos séc. XVI e XVII. Consistia, assim, menos em um dicionário monolíngue de significados dados em português, e mais numa compilação do vocabulário em português e sua tradução para o latim, e vice-versa. Um modelo que foi predominante no séc. XVI nos círculos humanistas da Europa marcados pela autoridade do latim como matriz gramatical, retórica e poética e que, para a língua portuguesa, manteve-se até inícios do séc. XVIII17.

Entre as entradas não podia constar a palavra civilização, “neologismo” do século XVIII, mas apareciam vocábulos que remetiam ao latino civitas (cidade). Do latim para o português, “Ciuiliter” era traduzido como “cortesmente”, “ciuilis”, como “cousa da cidade, ou cortes”, “ciuicus”, “cousa de cidadão”18. Ao fazer o caminho inverso, português-latim, “ciuil cousa” aparecia vertido para “ciuiles”; “ciuilmente”, “ciuiliter”, e “cidadão ou cidadã” como “civis” e “cidade”, “civitas”.

Fugindo do radical “civi” e distanciando-se da transposição direta latim-português, “cousa de cidade” era vertido para “vrbicus, a, am” ou “vrbanus”. A tradução de “Vrbanus”, “vrbanitas” e “vrbaniter” não remetia à cidade, civil ou civilmente em português, mas, respectivamente, a “cortes”, “cortesia” e “cortesmente”, enquanto “Vrbs” era “cidade”. Era “politicus, a, um”, em latim, que remetia ao lusitânico “cousa da cidade”. Por sua vez, o atributo cortês (“cortes cousa”) e derivados congregavam todas as correspondências de civil e urbano: “cortesmente” podia ser vertido para “civiliter, comiter”; “cortesia” para “vrbanitas”; “cortesaãmente”, “Aulice, ciuiliter”; “cortesão”, “aulicus, a, um”; e finalmente “cortes cousa”, que podia ser “vrbanus, a, um, comis, & e, ciuilis, &, e”. Ser cortês (um adjetivo) diferenciava-se de cortesão (um substantivo), ainda que “cortesaãmente” reunisse tanto o atributo de cortesão (“Aulice”) quanto de cortês (“ciuiliter”)19.

Menos do que aquele pertencente à corte (o cortesão), cortês era o atributo de quem tinha urbanidade (cortesia), agia civilmente (cortesmente), localizando-o no ambiente urbano, entendido aqui talvez mais como o local da civitas metafórica, da res publica, do que o das cidades e vilas lusitanas concretas do séc. XVI. Traçava-se um campo semântico comum, ligado à cidade, à urbes. Entretanto, havia nuances entre os termos, que se sobrepunham ou distanciavam conforme o uso e as tentativas de tradução entre latim e português. Revelava-se uma gama de significações que poderiam, talvez, apontar para uma necessidade de dar conta de qualificar as partes de um tecido social composto tanto do espaço urbano quanto do político, contidos ambos na “civitas” ou nas “cousas da cidade”. Nesse vocabulário formado entre o Urbano, o Civil e o Cortês, o espaço republicano e citadino era próximo ao lugar de corte, pois afinal a corte, como sede ou cabeça do reino (pois lugar onde estava o rei), era, por metonímia, a parte preponderante que subsumia o corpo geral do reino, da coisa pública. Ser cortês era assim ser citadino, em um duplo significado, ser da cidade e da corte, como condensação dos atributos do reino.

Nos dicionários de Cardoso, não aparecia ao que se contrapunha o atributo cortês. Nos vocabulários que lhe seguiram no século XVII, o Dictionarium Lusitanico Latinum de Agostinho Barbosa (1611) e particularmente o Thesouro da Lingoa Portuguesa do jesuíta Bento Pereira (1647), delineava-se, por meios indiretos, o antônimo preferencial dos termos latinos civilis e civiliter: rusticus e rustice. Rústico e rusticamente (traduzidos para o português) eram os atributos de quem vivia no campo, construindo assim uma antinomia entre o citadino ou cidadão cortês e o campônes rústico.

Nesse sentido, poderíamos assumir que os antônimos de civil e civilmente fossem rústico e rusticamente. Entretanto, se “cousa civil” e “civilmente” aparecem sim como “civilis” e “civiliter”20, tal qual no dicionário de Jerônimo Cardoso, ambos acrescentaram, logo em seguida, uma outra acepção: a de “rusticus” e “rusticè”. Isto é, os vocábulos derivados de civil assumem significa contrário à sua acepção latina. Civil é o rústico. Ou como aparece no dicionário português-latim de Barbosa: “cousa ciuil, aliàs rustica. Rusticus, a, um” ou “ciuilmente, i. como rustico. Rusticè”21. Acrescentou ainda mais uma entrada (que não existia em Cardoso), o vocábulo “ciuilidade” que vertia somente para “Rusticitas” ou “rusticitatis”, sem qualquer remissão ao sentido citadino ou cortesão do termo. No Thesouro da Lingoa Portuguesa, que integrava um esforço pedagógico e lexicográfico dos jesuítas de Évora, ampliam-se as possibilidades de significados correlatos, não só pelo maior número de sinônimos latinos, mas também porque continha mais vocábulos, já que desde o título anunciava pretender superar, por muito, os vocábulos reunidos por Cardoso e Barbosa.

De um lado, “Civil cousa” seria o correspondente aos termos latinos também “civilis” e, aqui uma acepção nova e importante, “politicus”. “Politica cousa”, por sua vez, seria o latino “politicus”, enquanto “politicamente” viraria “civiliter, urbanè”. Na mesma página, aparecia “policia”, vertido para “civilitas” (que não seria civilidade em português, pois esta significaria o exato oposto, rusticidade) e também para “urbanitas, atis” e “Elegantia”. “Eleganter”, advérbio derivado de “Elegantia”, definia “polidamente”, também concebido como “Politè. Ornati”, aproximando agir de modo polido (elegante) e de modo político ou com polícia (urbanidade)22. As coisas civis (por que não republicanas, da res publica) eram políticas, urbanas (remetendo à cidade, à civilidade) mas também polidas, elegantes, ornadas (remetendo à etiqueta e ao refinamento da corte), identificando a polícia com a polidez.

Por outro, “Civel cousa” viraria “sordidus” e “rusticus”. Uma “Rustica cousa” é “Agrestis” e “Rusticus”, mas o interessante é que “Rusticamente” se verte também para “inurbané” e “Rusticidade”, para “Inciuilitatis”. Para além de ser do campo (agreste), age como rústico aquele que tem incivilidade e se porta “inurbanamente”. Sinônimos de “rusticus” em português estariam nas entradas “Barbara Cousa” e “Villã cousa”, respectivamente vertidas para “Barbarus (…). Rusticus” e “Rusticus (…) villicus. As entradas ligadas a “villã cousa” chamam atenção. Após a primeira entrada “Villã cousa” segue outra que adenda “Villã cousa, i. descortez” vertendo para o latino “Inciuilis”. Por sua vez, “Villãmente” seria “Rusticè, inciviliter”. Vilão era aquele ou aquilo que vivia no campo (rústico) mas também o descortês e incivil. Mais do que isso, se não havia uma entrada para o substantivo rústico (só para o adjetico rústico, “Rustica cousa”), aparece uma para o nome “Villão”, vertido pura e simplesmente para “Rusticus”23. O vilão era a personificação do rústico, caracterizado também como descortês e incivil. Entretanto, o termo civil qualificaria, paradoxalmente, as coisas rústicas.

Para o castelhano, desde o século XVI, era notada esta ambiguidade e destacada a duplicidade do uso “civil” no âmbito dos círculos humanistas espanhóis, preocupados, entre outras coisas, com a precisão e definição dos termos. Em Dialogo de la Lengua, manuscrito redigido por volta de 1533, Juan de Valdés escreveu que em espanhol: “Usamos tambien civil, en contraria sinificazion, que lo usa el Latin, diziendo en un refran, caséme con la zevil, por el florin: adondo zevil esta por vil, i baja.”.24 Mais ou menos a mesma altura, a diferença é notada por Diego Lopez Zuñiga em uma carta por conta de uma disputa com Erasmo (citado também como um dos interlocutores do diálogo de Valdés): “Y cuanto a lo que toca a la Apologia del señor Erasmo, si yo no me engaño, él me respondió ‘satis civiliter’ no como él entendió, sino según suena en buen romance castellano.”25. Interessante notar que foi uma obra de Erasmo, De civilitate morum puerilium, de 1530 que, segundo Elias26, teria sido um dos marcos iniciais do processo civilizador e da própria gestação da ideia de civilidade na Europa Moderna. Obra esta que teve pelo menos três edições do texto em latim na Espanha quinhentista, ainda que não tenha sido traduzida para um idioma espanhol27, fazendo assim circular o termo latino para civilidade na acepção de bons modos28.

Havia no mundo ibérico, portanto, uma tensão semântica em torno dos termos civil, civilidade, que ora representavam atributos baixos, mundanos, dos vilões e rústicos (e que, curiosamente, era dito como de uso mais corriqueiro, no “romance” vulgar, civil talvez), ora ao exato oposto, remetendo à origem latina e significando aquilo que é relativo tanto à corte e à polidez quanto ao urbano e político (e que ressoava assim um sentido mais afeito ao meio europeu humanista). Ambiguidade que podia resultar em problemas de tradução e compreensão dos vernáculos das Espanhas, como notaram esses letrados castelhanos quinhentistas, mas que, curiosamente, não foi anotada pelo extenso e abrangente Tesoro de la lengua española, de Covarrubias. Em Covarrubias, não constava entrada para civilidade, e civil sequer merecera um verbete à parte, aparecendo quase que uma derivação de “civdadano” (o habitante da cidade) ligado a tudo que se refere ao direito da cidade, entendida também como sinônimo de república, i.e., “multitud de hombres ciudadanos, que se há congregado a vivir em un mesmo lugar, debaxo de unas leyes y un govierno”29.

No Vocabulário Latino-Português (1712-1728), escrito pelo Pe. Raphael Bluteau, explicitava-se essa contradição para o português um século mais tarde. Primeiro dicionário que trazia explicações dos significados dos termos e vários sinônimos em português, além da correspondência – indicada desde o título – em latim (tal qual seus predecessores), o Vocabulário ficava no meio do caminho entre os repertórios latim-português dos séculos XVI e XVII e um dicionário monolíngue nos termos mais contemporâneos.30 Por isso e pela sua dimensão monumental (8 volumes in-folio, 2 tomos de suplemento, perfazendo mais de 7.000 páginas, diferindo da economia dos repertórios lexicográficos anteriores), a obra de Bluteau tornou-se referência para os letrados eruditos do período e ponto de partida para os dicionários que o seguiram. Foi esse teatino inglês de família francesa, educado e ordenado em Paris, mas radicado em Lisboa desde 1668, quando aprendera a língua portuguesa depois dos 30 anos, que obteve apoio da coroa para realizar um tal dicionário que suplantasse qualquer outro de qualquer reino europeu31. Bluteau fazia parte dos círculos das academias lusitanas que se formavam desde finais do séc. XVII, e, nas discussões acadêmicas, manifestava-se a preocupação com o estabelecimento da língua portuguesa. O padre e letrado conduziu e participou desses debates sobre gramática, retórica, ortografia, etimologia, ao mesmo tempo que elaborava o plano do Vocabulário. Nessas tertúlias e sessões, proferiu inúmeras orações, discursos e relatou discussões, depois reunidas nas suas Prosas portuguesas, como as “Decisoens academicas de palavras portuguezas”, de 1696, da qual retirei a epígrafe deste texto32. Essa preocupação com a língua portuguesa era traduzida nos verbetes do Vocabulário na busca por repertoriar os diversos sentidos e possíveis etimologias, no suporte por abonações constantes, nos comentários que, por vezes, ganhavam caráter quase “enciclopédico”. Isso se vê, em certa medida, nos verbetes “Civil” e “Civilidade”, transcritos parcialmente abaixo:

CIVIL. Cousa concernente Cidadaõs, à Sociedade, & vida humana. Civilis, le, is. (…)

Civil. Às vezes pôr antiphrasis se toma por Descortez grosseiro, rustico &c. Como a gente ba[i]xa, de sua natureza he, Civil, & inclinada a mal. Chron. Del Rey D. João I. fol. 19 col. 2 Por serem estes homens muyto Cives, & que elle, por outros delitos, &c. Barros Dec. 3. fol. 217 col I.

CIVILIDADE. Descortezia, Grosseria, Rusticidade. Parece derivado do Latim Civilitas, mas em sentido contrario, & por Antiphrasis, como Bellum, quia minimè bellum: & assi Civilidade, & Civel em Portuguez he contraditorio de Civilitas, & de Civilis no Latim. V. Descortezia, Grosseria, &c. Civilidade, parece, que possa dizer hum homem de bem.33
Na entrada “Civilidade”, o termo constava como “descortezia, grosseria, rusticidade”, muito próximo à segunda definição de civil dada por Bluteau, que, por antífrase, “se tóma por Descortez, grosseiro, rustico &c.”, dando como abonações dois trechos de crônicas, uma de Fernão Lopes, outra de João de Barros, exemplos máximos entre os historiógrafos portugueses. No verbete “Civilidade”, por sua vez, Bluteau mandava ver “Rustico, Camponez, Agreste”. Acepções que seriam, segundo o próprio Bluteau, contrárias aos vocábulos latinos dos quais derivavam (civilitas e civilis), do mesmo modo que belo em relação a bellum (guerra em latim). Mais, que seriam mesmo contraditórias com o primeiro sentido do termo português “civil” (mais próximo à sua origem latina) que exprimia “as coisas concernentes a Cidadãos [aquele que mora na cidade], à Sociedade & vida humana”. Bluteau ainda permitiu, no fim do verberte, que houvesse um uso positivo, dizendo que “Civilidade, parece, que se possa dizer hum homem de bem”, remetendo a um texto de Francisco de Portugal, Prisão e soltura da alma, impresso postumamente em 1652.34

Ainda que associemos, atualmente, “civilidade” e “civil” a ser civilizado e polido (como presente atualmente na sexta definição de civil no dicionário Houaiss), a acepção dicionarizada até inícios do século XVIII não era exclusivamente essa. Podia ser também próxima a de descortesia – o que indicava o caráter não cortesão, pouco “político” (polido e civil, ao mesmo tempo) do povo, dos que não eram fidalgos –, e de vilania e rusticidade – o que apontava para o aspecto camponês, dos rústicos (ou vilões) que viviam próximos à natureza, e, portanto, dir-se-ia mais tarde, não civilizados. Parafraseando Bluteau, qualificariam a natureza da gente baixa de inclinação para o mal. É interessante notar que, seguindo a definição do Vocabulário, civilidade estava ligado à rusticidade, quando, em Roma, como nota Starobinski35, rusticitas era o oposto complementar de urbanitas (e próximo a ela, civilitas) – tal qual na Grécia, bárbaro seria inseparável do seu antônimo, grego. Assim, mesmo que “civil” pudesse significar, aderente à sua raiz latina, coisas referentes à cidade, “civilidade” e outra acepção de “civil” diziam respeito ao mundo do campo (rústico) e ao mundo fora da corte (descortez), i.e., fora dos limites da cidade política e polida. “Incivil”, em suma, como o próprio Bluteau classificou, contraditório ao primeiro significado, era o “villão ruim”: “Homem rústico, incivil”36.


***
Esse campo semântico mudou ao longo do século XVIII. Impresso em Lisboa no ano da eclosão da Revolução Francesa, o Diccionário da lingua portugueza de Antonio de Morais Silva apontava que a acepção presente no Bluteau (e nos vocabulários latim-português anteriores) não fazia mais sentido no final do séc. XVIII37. O Dicionário de Morais propunha-se como uma atualização do Vocabulário, lançado seis décadas antes, como expresso em seu título integral: Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. Entretanto, significou a inauguração de um novo padrão de dicionário, monolíngues, com verbetes mais condensados e lançando mão de abreviaturas, seguido, em grande parte, até hoje38.

Morais sintetizava e explicitava as implicações sociais do verbete “civilidáde” de Bluteau, indicando-o como acepção arcaica e antiga, para então emendar o significado utilizado à época: “CIVILIDADE, s.f. antiq. Acção de homem do povo, de mecanino (…) ‘soffrer civilidades’, i.é, villanias. § Civilidade hoje significa, cortezia, urbanidade, opp. a rusticidade, grosseria.”39. Em resumo, num intervalo de 60, 70 anos, segundo Morais, ter-se-ia eliminado em português qualquer ambiguidade no uso do termo “civilidade”, ficando próximo no fim do séc. XVIII ao sentido utilizado nos dias de hoje.

De certa maneira, isso refletia o uso de civilidade em alguns textos portugueses já na primeira metade do séc. XVIII, como no sexto volume da Historia Genealogica da Casa Real Portugueza40. Redigida por António Caetano de Sousa e impressa entre 1739 e 1748, era obra bastante conhecida e muito referida à época, inclusive por gramáticos e dicionaristas. Civilidade também aparecia em textos legais, gerados e impressos pela Coroa, como no Diretório dos Índios, de 1758. O Diretório definia a atuação do poder civil sobre os nativos do Maranhão e Pará (após a saída dos jesuítas) que devia complementar a ação religiosa de cristianizá-los, agindo para “a civilidade dos índios”, por meio da “educação pública”, do ensino da língua portuguesa, dos “bons costumes”, das “Leys da honestidade, e da policia” (e da “liberdade do commercio”!), que os ajudaria a serem polidos, decentes e os tiraria do estado de “incivil rusticidade” que atrapalhava não só sua conversão mas também os negócios do reino na região41.

Se formos, porém, olhar as acepções de rusticidade em Morais, ainda não estava incorporada completamente a antinomia com civilidade, indicada no verbete atualizado em relação a Bluteau (e presente de modo explícito no Diretório). Rusticidade é definido pelo seus opostos (“RUSTICIDADE, s.f. Opposto a urbanidade, policia, cortezania”) e rústico, como camponês, mas caracterizado em seguida pela negação das quase mesmas qualidades (“Inurbano, descortez”)42. Ainda que enunciado civilidade como o oposto a rusticidade no verbete renovado de Morais, rústico e rusticidade eram definidas pelos vocábulos de acepção antiga ligados ao campos semântico da cortesia, urbanidade.

Mais do que isso, havia resquícios da ideia de civil como algo de baixa condição. Tentava-se distinguir “civilidade” de “civeldade”, no qual civeldade seria uma “acção vil” e indigna. Contudo, entre “civíl” e “cível”, a distinção era mais tênue, tal qual a entonação. Civil era, historicamente e como primeiro significado, relativo à gente que morava na cidade, “no sentido de cível” (como consta no início da entrada), epíteto dos “mecânicos, que moravão em cidades cercadas, e não nos campos, em castellos, como a gente nobre e guerreira, alias villões”. Porém se “civíl” encaminhava, na segunda acepção, para aquele ou aquilo “Que pertence à Cidade, ou sociedade de homens, que vivem debaixo de certas Leis” que constituem o Direito Civil - e se opõem ao Canônico, que rege as coisas do espírito – e “dirigem as acções do homem em quanto cidadão, ou membro do Estado Secular, e regulado pelo Soberano”, terminando, no sétimo sentido, com a expressão “Homem civil; urbano, cortez: e assim modo, maneiras civis, &cc.”; o verbete “Cível” ia por outra direção. Se naquele referia-se à “cível” logo no início, não se mencionava em nenhum momento uma relação próxima a “cívil” neste. Cível era sim atributo dos mecânicos, mas mais diretamente era o “opposto à Corte”; gente cível era “não cortezã”, “não nobre, vil”. “Gente vil, de más manhas”, i.e., sem qualidade, sem aptidão43. Só ao fim, a menção ao aspecto jurídico, para diferenciar uma ação cível de uma criminal, tal qual hoje, mas sem se referir a nenhum aspecto do sentido urbano (e de civilidade) mais amplo de “cívil”. Distinções que estariam presentes ainda em dicionários do início do séc. XIX, como no Novo diccionario da língua portugueza, de 180644, e que se manteriam pelo menos até a quarta edição do Morais45.

“Cívil” significava no início uma divisão social entre os citadinos (que moravam em cidades, vilas: gente civíl/cível ou vilões) dos nobres (mas também dos camponeses); depois abarcou tudo aquilo referente à cidade, entendida, reforçando a origem latina, como espaço público regido por leis e por consequência a república (o Estado). As pessoas que vivessem sob a polícia desse regime civil tornavam-se pessoas de modos, de boas maneiras, civis e com civilidade. Urbanos e corteses. Contudo, “cível” restringiu-se a marca negativa dada na distinção social, pela qual a “gente cível” (ou seja, o povo, a arraia miúda, seja na cidade seja no campo) não podia ter hábitos nem urbanos nem corteses. Encaixavam-se no que definia tanto rústico como rusticidade, ou seja, a ausência de urbanidade, cortesia e polícia, qualidades que misturavam, ao mesmo tempo, a vida em cidade e os hábitos de corte, os bons modos e o governo de si (ajudado pelas leis e pelo Estado)46. Qualidades condensadas na ideia de civilidade, mas que carregava ainda na raiz uma ambiguidade que a jogava para o campo semântico oposto pretendido. Era como se tentassem indicar na superposição dos verbetes que a civilidade não era para todos os civis, não era para todos que habitassem a cidade política, mas somente aos da corte dessa cidade.

Essa dimensão negativa de civil também se explicita na entrada “Villão” - termo que fora antes remetido, entretanto, pelo mais positivo verbete “cívil”. O vocábulo é definido como adjetivo daquele “que mora em villa, camponez. § Homem cível, não nobre” dando como abonação as Miscelâneas de Resende. Completava a definição os exemplos do cavaleiro definido como “villão”, pois não era de linhagem, bem como servir de sinônimo aos adjetivos rústico e descortês, existindo a expressão “acção villãa” e “villão feito”. Mais fortemente, era também “Homem baixo injuriosamente”47. Vilão era tanto o que morava em vila (povoação intermédia entre a cidade e a aldeia) quanto qualificava o camponês, mas também servia para designar qualquer um que não fosse nobre e, portanto, baixo, vil. O adjetivo, aliado à cível, qualificava as ações e a condição do homem do campo, das aldeias, inicialmente não civil porque habitava fora do muro da cidade; do interiorano das pequenas vilas também aparte do mundo urbano; do cidadão de baixa condição, presente no espaço citadino mas aparte dele por sua condição vil. Campo, Vila, Cidade, espaços constitutivos do reino – mas separados da Corte; espaços dos atributos Camponês, Vilão, Cível – contrapostos a Cortesão; qualificativos esses sem Civilidade mas também sem Cortesia. A entrada “Villa”, além de definir as características da povoação, referia-se a “Moça ou pessoa da villa,



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