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A POESIA EM FOCO NA ESCOLA

Zeila de Fátima Lucas

Escola Municipal Professor Faris Antonio Michaele – Ponta Grossa – PR
Este trabalho foi realizado numa escola municipal de periferia, envolvendo desde as classes de alfabetização até a 8ª série, num bairro onde os alunos convivem com a desestrutura familiar, que muitas vezes os levam à marginalidade; e onde têm pouco material de leitura em casa. Compreendendo isto e a necessidade de desenvolver uma maior sensibilidade nos alunos e porque não em nós professores, que muitas vezes sentimo-nos impotentes e desestimulados com os problemas que são sociais e que atingem a escola (a qual não está desvinculada dos problemas e das questões sociais), trazendo alunos desinteressados e revoltados, pensando nisto e despertados pela proposta da Secretaria Municipal de Educação, de realizar o “Poetando”, um trabalho com a poesia na escola, fomos levados a criar o 1º festival de poesia na nossa escola.

Começamos com a idéia de desenvolver a sensibilidade e fomos percebendo que poderíamos unir leitura e escrita neste projeto que poderia dar e deu bons frutos.

Muitos alunos, sobretudo os adolescentes masculinos, pensavam que poesia era coisa de menina, mas com o decorrer do trabalho foi perdendo-se o preconceito que os alunos adolescentes tinham da poesia, eles foram percebendo que a poesia trata de múltiplos temas.

Começamos o trabalho de leitura, discussões, análises e ensaios das poesias no início do ano de 2001 (neste ano eu estava desenvolvendo um projeto de leitura nessa escola, com todas as classes do período da tarde), sendo que realizamos o festival no mês de setembro. Esta foi a primeira edição, inclusive com apresentações para a comunidade. Em setembro de 2002 teve a segunda edição e estamos trabalhando para realizar a terceira este ano.

Os alunos já internalizaram a proposta e desde o início do ano ficam perguntando quando será o festival, pedindo livros novos de poesias e algumas professoras incentivam e levam propostas de produção de texto partindo de poemas. Na década de 80 houve produções acadêmicas que questionavam o uso da literatura como pretexto para a produção de texto. Conforme LAJOLO (1991, p. 52) : “O texto não é pretexto para nada. Ou melhor, não deve ser. Um texto existe apenas na medida em que se constitui ponto de encontro entre dois sujeitos: o que escreve e o que o lê; escritor e leitor, reunidos pelo ato radicalmente solitário da leitura, contrapartida do igualmente solitário ato de escritura.”

Ainda que a grande pesquisadora de leitura tivesse, naquele período, essa posição, podemos dizer que o texto, inclusive o texto literário, poético, pode e deve ser pretexto para a produção de texto. Desse modo, muitos alunos produzem as suas poesias que são colocadas em murais no saguão da escola, de forma que todos que circulam por ali tenham acesso à leitura, isto também estimula os alunos a escreverem porque vêem que seus textos são lidos, então cada vez mais querem escrever porque sabem que têm leitores para os seus textos.

Principalmente perto do festival, a escola fica respirando poesia, pelas paredes dos corredores podem ser vistas além das produções dos alunos, muitos poemas de autores renomados, os quais as professoras trabalham com os alunos e afixam os textos pelas paredes da escola, bem como trabalhos com pinturas e dobraduras feitos partindo de um poema. Vendo a escola enfeitada para o festival, uma professora que trabalhava com uma classe de aceleração (alunos fora da idade/série, desinteressados e indisciplinados, na grande maioria) fez com essas crianças um rap sobre a escola e o festival, a apresentação desta classe foi o rap que ficou muito criativo e onde as crianças fizeram e apresentaram com orgulho, porque foram elas que inventaram.

Em 2002 passei a trabalhar com uma classe de 6 anos no período da tarde e quarta série no período da manhã e dentro desta proposta de realizar o segundo festival de poesia na escola, comecei a trabalhar textos poéticos com estas crianças, desde o início do ano. Com a classe de 6 anos a leitura era feita sempre por mim, porque nesta fase as crianças ainda não estão alfabetizadas.

Neste ano de 2003, estou dando seqüência ao trabalho com as crianças da tarde, porque os mesmos alunos estão na classe de 7 anos, e com os quais eu continuo trabalhando como professora regente de classe. Os alunos, como já dissemos são de uma comunidade pobre, de periferia, onde praticamente não têm acesso a leitura literária, a textos poéticos. Sendo assim, a escola tem um papel importante em proporcionar o contato das crianças com esse tipo de texto.

Lia poemas para as crianças em sala de aula e nas reuniões com as mães pedía que elas também lessem para seus filhos em casa, numa atividade que chamamos de ciranda da poesia (são poemas xerocados que as crianças levavam uma vez por semana para as mães lerem com elas em casa). Assim as crianças já foram escolhendo dentre os poemas que iam conhecendo o qual elas iriam apresentar, declamar no festival.

Nesta fase trabalhei especialmente os poemas de Cecília Meirelles, do livro “Ou isto ou aquilo”, as crianças se interessaram muito pelos poemas, então propus que fizéssemos uma pesquisa sobre a autora. No festival de 2002, os meus alunos declamaram muitos poemas de Cecília Meirelles, sendo que os alunos (um menino e três meninas) que declamaram o poema “As meninas”, tiraram em primeiro lugar na sua categoria.

Pensamos (nós professoras, junto com a equipe técnico-pedagógica da escola) o festival de poesia em várias categorias, a primeira integrando os alunos de seis e sete anos, a segunda de oito anos e classe de aceleração, a terceira de terceiras e quartas séries e a quarta dos alunos das séries finais do ensino fundamental. O primeiro e segundo lugar de cada categoria ganhava um prêmio (um livro literário). Convidamos pessoas de fora da escola, da comunidade e da Secretaria Municipal de Educação para fazer parte como jurados. Muitos alunos da escola foram convidados para declamar poesias dentro de festividades envolvendo a Prefeitura Municipal, abertura de eventos, etc...

Com a classe de 7 anos, neste ano, o primeiro poema que levei para a sala de aula foi “Convite” de José Paulo Paes. Escrevi o poema num papelógrafo, coloquei num envelope grande escrito CONVITE e fixei no quadro antes das crianças entrarem para a sala de aula. Aí eles entraram e viram o envelope e disseram “olha professora tem um convite aqui, o que será que é?”
CONVITE

Poesia


é brincar com palavras

como se brinca

com bola, papagaio, pião.
Só que

bola, papagaio, pião

de tanto brincar

se gastam.


As palavras não:

quanto mais se brinca

com elas

mais novas ficam.


Como a água do rio

que é água sempre nova.

Como cada dia

que é sempre um novo dia.


Vamos brincar de Poesia?

(1990, p.1)


Ao que todos responderam: “Vamos”. Conversamos, então, sobre poesia, sobre a liberdade que ela dá ao autor de imprimir outros e novos significados as palavras já existentes, e o como é de bom brincar com as palavras. Apresentei em seguida o poema “A foca” de Vinicius de Moraes, estes poemas do livro ”A arca de Noé” são muito interessantes para as crianças pequenas porque aliam poesia e música. Bem, a partir desse poema, convidei as crianças a brincar de poesia e escrever uma estrofe (com quatro versos), trocando a foca por outro animal e que deveríamos pensar em combinação de palavras (rima).

Vejamos algumas produções das crianças:


Quer ver a vaca

Dar um leitinho?

É só ela ter

Um bezerrinho.


Quer ver o beija-flor

Beijar a flor?

É só olhar

Ele é mesmo um amor.


Quer ver o tatu

Entrar na toca?

É só ele ouvir o ronco

De uma motoca.


Quer ver a cabrita

Ficar bonita?

É só colocar na sua cabeça

Um laço de fita.


Em outra ocasião levei o poema “A casa e seu dono” de Elias José, do qual propus que cada criança pensasse uma combinação para o seu nome, criando assim uma estrofe de poema com dois versos com o seu próprio nome. Algumas produções das crianças:
Nesta casa tem janela

Quem mora nela é a Rafaela.


Nesta casa tem jardim

Quem mora nela é a Yasmin.


Nesta casa tem céu aberto

Quem mora nela é o Paulo Roberto.


Nesta casa tem poesia

Quem mora nela é a Maria.


Nesta casa tem uma árvore de maçã

Quem mora nela é o Ivan.


Esta casa é bem bacana

Quem mora nela é a Diowana.


Assim todas as crianças inventaram uma estrofe com o seu nome. Este trabalho levava em média uma semana com cada poema até chegar na produção, pois outros conteúdos eram trabalhados concomitantemente com o projeto de poesias, embora esta parte da aula era a preferida de todos.

Outro poema, ou melhor, livro de poesias que trabalhei, foi “Classificados Poéticos” de Roseana Murray. Antes de iniciar a leitura dos poemas, trabalhei com os alunos classificados de jornal, para que os mesmos aprendessem, formassem conceito do que é um classificado. Levei vários cadernos de classificados de jornais para a sala de aula, lemos com as crianças, recortamos, colamos, fizemos um mural. Só então comecei a ler o livro de Murray. O poema “Colecionador de cheiros troca”, resultou nas seguintes produções:


Colecionador de cheiros troca

Um cheiro de guerra

Por um cheiro de paz.
Colecionador de cheiros troca

Um cheiro de pássaro ferido

Por um cheiro de jardim florido.
Colecionador de cheiros troca

Um cheiro de festa

Por um cheiro de floresta.
Colecionador de cheiros troca

Um cheiro de tempestade

Por um cheiro de amizade.
Colecionador de cheiros troca

Um cheiro de poluição

Por um cheiro de paixão.
Cada uma das estrofes e outros que não coloquei aqui foram criados por um aluno.

Neste ano, as crianças já estão se apropriando da leitura e da escrita, assim elas mesmas já conseguem ler sozinhas e produzir os seus textos também sozinhas, com a mediação da professora. Os poemas criados pelos alunos são afixados no saguão da escola, num mural onde quem por ali passa pode ler. As crianças ficam contentes de ver que seus poemas são lidos e antes do início da aula sempre é possível encontrar algumas mostrando e lendo para as mães, irmãs e tias que os levam para a escola.

Fizemos também alguns poemas coletivamente partindo de outro, como por exemplo depois da leitura do poema “As tias” de Elias José, as crianças propuseram que fizéssemos um com os tios, que ficou assim:
Os tios

O tio Jucemar

Adora pescar.

O tio Joel

Come pão com mel.

O tio Paulinho

Ama os passarinhos.

O tio João

Só come arroz com feijão.

O tio Mário

Tem um grande armário.

O tio José

Tem chulé.

O tio Benedito

Chupa pirulito.

O tio Luis

Mora em Paris.

O tio Quima

Acaba esta rima.
Trabalhar com a poesia proporcionou não só o desenvolver da leitura, da escrita, da sensibilidade com o mundo que nos cerca, como um prazer maior em ir à escola, estudar e trabalhar nela.

BIBLIOGRAFIA


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FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

______, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 33ª Ed., São Paulo: Cortez, 1997.

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LAJOLO, Marisa. O texto não é pretexto. In: Zilberman, Regina (org.). Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.P.51-62.

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