Estrutura do Texto Dissertativo



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Oficina: Desenvolvendo a habilidade de produzir bons textos

Profª.: Carla Queiroz Pereira – Mestre em Linguística/Unicamp

carla@aescritanasentrelinhas.com.br

www.aescritanasentrelinhas.com.br




Estrutura do Texto Dissertativo



Em uma dissertação, deve-se defender uma tese, ou seja, organizar dados, fatos, ideias*, enfim, argumentos em torno de um ponto de vista definido sobre o assunto em questão. Uma dissertação deve, na medida do possível, concluir algo. Portanto, não tem cabimento ficar simplesmente elencando argumentos favoráveis ou contrários a determinada ideia*.
Comissão de Vestibular da Unicamp

Há várias maneiras de organizar o texto dissertativo para que esse resultado seja atingido. Mas desde a Antiguidade* uma forma de estruturação vem se impondo: a que se convencionou chamar de estrutura ortodoxa da dissertação. Trata-se da organização do texto em três partes bem definidas, cada uma delas desempenhando um papel específico: introdução, desenvolvimento e conclusão.


Espera-se que uma dissertação comece com uma introdução em que se apresente o tema posto em debate, já procurando conseguir adesão do interlocutor à posição do enunciador; prossiga com o desenvolvimento em que as concepções sugeridas na introdução sejam expandidas e comentadas; encerre-se com uma conclusão em que as informações apresentadas no desenvolvimento sejam reunidas em torno da tese prenunciada na introdução.


Introdução
A introdução, como o próprio nome sugere, tem como finalidade conduzir o leitor para dentro do texto, situá-lo, apresentando-lhe as intenções daquela dissertação. Para isso, espera-se que uma introdução tenha pelo menos dois elementos:

  • a explicitação do tema – o que significa dizer que, ao ler a introdução, o interlocutor deve inteirar-se do assunto que será abordado no texto;

  • a especificação da visão de mundo do enunciador ou pelo menos uma pista de qual será sua posição, isto é, a tese a ser defendida.

O leitor deve ser capaz de, a partir da introdução, deduzir qual é o tema do texto (estar por dentro dele) e qual é a opinião do enunciador sobre a questão posta em debate. Por isso, a introdução, quando bem construída, produz uma expectativa: permite imaginar, de antemão, qual será o percurso argumentativo do texto, pois expõe o tema e dá pistas da visão de mundo com que o enunciador se identifica.


Como exemplo, vejamos a introdução de dois textos dissertativos sobre um mesmo tema (“redução da maioridade penal”), porém divergentes em relação à posição ocupada pelos seus autores.
O ponto de vista de uma advogada e uma antropóloga:

“(...) Abre-se o debate sobre uma mudança legislativa como solução mágica e suficiente para transformar práticas institucionais que há muito não se alteram.

Definitivamente, não será um tratamento mais rigoroso aos menores de 18 anos (mais do que o já existente e instituído) que trará aos brasileiros a paz e segurança tão almejadas. A simples mudança de lei se apresenta como solução (...), mas pouco se traduz em garantias de que um novo crime trágico (...), não ocorrerá novamente”.
O ponto de vista de um professor de Direito:

A sociedade espera e merece a atuação conjunta dos poderes constituídos para imediata realização das necessárias alterações na legislação sobre delinqüência juvenil. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é uma das leis mais avançadas na proteção da infância e da juventude, bem como na preservação do bem-estar da família, mas o fenômeno da criminalidade é mutável, e a aplicação prática de toda lei exige aperfeiçoamento e adaptações”.


Tais introduções explicitam o tema posto em discussão (o aumento do rigor das leis como meio de se solucionar a criminalidade) e oferece indícios para identificarmos as posições dos enunciadores.
Uma boa introdução, dentro da estrutura ortodoxa, pode ser assim: precisa, sintética e clara. Convém ressaltar, entretanto, que a tese deve ser sempre defensável. Antes de propô-la, é importante pensar nos argumentos que se têm para defendê-la. Uma introdução que não seja sustentada por argumentos convincentes não serve para nada. É péssimo criar, na introdução do texto, a expectativa de que uma visão de mundo será transmitida com propriedade e, no desenvolvimento e na conclusão, essa expectativa não se confirmar.

O que uma introdução deve esconder?
A introdução deve esconder pelo menos algum argumento significativo, garantindo que o leitor, à medida que prossegue na leitura, perceba um acréscimo na carga de informação transmitida. Se todas as ideias* importantes forem apresentadas na introdução, o texto tenderá à redundância, traindo a expectativa do leitor. Assim como um filme deve revelar algo de surpreendente, evitando criar a impressão de que tudo era previsível, o texto precisa surpreender o leitor, oferecendo-lhe informações novas.


Desenvolvimento
Depois da introdução, a tarefa do enunciador é fundamentar as afirmações iniciais, procurando persuadir os interlocutores de que a tese apresentada realmente merece crédito. Essa parte do texto dissertativo – a maior em extensão – é chamada de desenvolvimento.
As diversas teses que circulam na sociedade a respeito de um mesmo problema têm origem em conceitos formados a partir de dados da experiência e do repertório cultural dos indivíduos e grupos sociais, em sua relação com os valores morais. Existe polêmica em alguns campos do conhecimento justamente porque as vivências e os princípios éticos que sustentam visões de mundo e julgamentos variam de pessoa para pessoa, de acordo com os grupos sociais a que pertençam e com seus interesses.

No desenvolvimento o enunciador compartilha com seus leitores dados de seu repertório de conhecimentos, sempre procurando articulá-los à tese. É isso que é comentar: pensar junto com o outro, sintonizando as mentes em torno de um conjunto de dados e de princípios, para enriquecer o universo cultural do leitor e conduzi-lo a compartilhar uma determinada tese.


Como o próprio nome sugere, no desenvolvimento a dissertação se desenvolve, “cresce”, amplia seu foco, abarcando aquelas dimensões da experiência humana que possam ser relevantes para a sustentação da tese. Quanto maior o repertório cultural do enunciador, maior sua capacidade de comentar, explorando com mais profundidade, pertinência e originalidade, os diversos pormenores implicados em uma questão.
O comentário, então, tem efeito argumentativo, já que é uma estratégia para convencer o interlocutor da consistência de uma tese. É por isso que alguns chamam o desenvolvimento de argumentação. Na verdade, isso é uma imprecisão, pois o texto dissertativo inteiro é argumentativo: é importante não esquecer que a introdução e a conclusão também têm características argumentativas, pois estão orientadas para a persuasão do leitor.

Vejamos o seguinte texto (Editorial da Folha de S. Paulo, 01/10/2003, p. A-2):







I NTRODUÇÃO

DESENVOLV IMENTO

A vista de Jahangir, que ocupa o posto de relatora especial das Nações Unidas para Execuções Arbitrárias, Sumárias e Extrajudiciais, é um desses raros fatos positivos. Ela está no Brasil a pedido do governo federal e deverá apresentar relatório à Comissão de Direitos Humanos da ONU.

Os mais cínicos poderão se perguntar por que o governo traz um estrangeiro que inevitavelmente fará críticas ao país num foro internacional. É justamente sob essa aparente incoerência que se encerra algo alentador no campo dos direitos humanos: o poder central ao menos sinaliza que está disposto a tocar na questão das torturas e ações de extermínio com a participação de policiais.

Infelizmente, tal disposição parece mais reduzida em esferas estaduais. Asma Jahangir, que goza da mais sólida reputação internacional, tentou, mas não conseguiu, ser recebida pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Pior, ela teve seu pedido para visitar a UAI (Unidade de Atendimento Inicial) do complexo da Febem no Brás inicialmente negado.

Nesse desenvolvimento o articulista nos leva a pensar. Ele articula sua tese a um fato jornalístico recente na época, a visita da relatora especial da ONU a duas unidades da Febem de São Paulo.


Nos dois parágrafos iniciais, ele nos faz ver que, segundo a sua perspectiva, a visita já representa algum avanço na luta pelos direitos humanos, pois revela a disposição do governo federal de enfrentar a questão. Ao mesmo tempo, entretanto, o contundente julgamento da inspetora revela o quão longe estamos do aceitável.
No terceiro parágrafo do desenvolvimento, o articulista comenta o desinteresse do governo estadual pelo problema: Asma Jahangir sequer foi recebida pelo governador e ainda teve seu trabalho de inspeção dificultado.
Isso tudo reforça a tese: os avanços na garantia dos direitos humanos são tímidos; as resistências, poderosas. No mais, predomina o horror.
Em resumo, o desenvolvimento é o estágio da dissertação em que o enunciador faz seus comentários para confirmar as ideias* na introdução, buscando, com isso, conferir mais credibilidade à sua visão de mundo.

Conclusão
O encerramento da dissertação se dá com a conclusão. De maneira simplificada, podemos dizer que uma boa conclusão é aquela que confirma a tese prenunciada na introdução e comentada no desenvolvimento, isto é, que realmente decorre do raciocínio apresentado. Em outras palavras: ela não nasce do nada, mas sim de tudo aquilo que se afirmou na introdução e no desenvolvimento.

Numa conclusão, portanto, não é comum acrescentar informações novas sobre o tema em questão. Embora isso não seja “proibido”, se a conclusão é uma amarração do restante do texto que a origina, não há motivos para veicular novas ideias. Observe como se encerra o editorial que analisamos:



CONCLUSÃO


Eliminar a chaga da tortura e da violência policial não é tarefa simples. Ela torna-se ainda mais difícil quando altas vozes de comando da polícia paulista parecem preferir a linguagem da força e do confronto e tratar o respeito aos direitos humanos como um empecilho, e não como uma norma inegociável.



Na conclusão, a tese é reiterada: os direitos humanos no Brasil não são vistos como norma inegociável por boa parte dos órgãos do Estado mais diretamente implicados no assunto. Para essas instituições, eles ainda são um estorvo, o que dificulta qualquer alteração no indigno quadro atual.

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