Estrutura fônica do provérbio portuguêS



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ESTRUTURA FÔNICA DO PROVÉRBIO PORTUGUÊS
Provérbios existem em quase todas as línguas naturais. Pode-se defini-los como "expressões constituídas pela união de várias palavras, formando unidade sintática e lexicológica"1. Estão à margem do uso normal da língua por suas características de forma e som, pelo afastamento das normas lexicais e gramaticais e por seus valores metafóricos particulares. O aspecto arcaizado, na construção e no léxico, constitui exatamente o seu aval. O povo neles acredita, pois são assim repetidos há várias gerações.

No presente estudo, abordaremos a estrutura fônica, o significante, das chamadas expressões populares. Inicialmente mostraremos possuírem tais expressões uma entonação própria somada à linha melódica presente às sentenças de qualquer língua. A seguir, delinearemos suas características de ritmo, métrica e rima, como pequenos poemas que são. Quanto à estrofação, mostraremos ser a estrutura binária, o dístico, a mais comum, com algumas exceções.

Os exemplos aqui apresentados foram extraídos das coletâneas mencionadas na bibliografia, onde são, em geral, indexados pelos substantivos que neles aparecem, com evidente valor metafórico. Por exemplo, no verbete peixe, pode-se encontrar: pela boca morre o peixe, filho de peixe peixinho é etc

Os provérbios distinguem-se facilmente na cadeia sintagmática pela mudança de entonação. Ocorre uma elevação da voz na introdução do provérbio, depois uma pausa para romper a linha de entonação e poder recomeçar em tom mais grave, para novamente ascender. Isso acontece também nas citações e no uso de locuções estrangeiras. Por outro lado, nessa mudança de entonação, exime-se o falante da responsabilidade sobre a possível veracidade do provérbio, deixando claro que se trata de uma opinião tomada de empréstimo. Podem ocorrer, também, fórmulas de introdução: como diz o outro, como dizia a minha avó, como diz a Madre Superiora etc. Mesmo não tendo o locutor conhecido sua avó, ou qualquer Madre Superiora, transfere-se simbolicamente, a autoria do provérbio a um ser distante, mais credenciado pela idade e pela experiência.

Com fórmulas de introdução, explícitas ou não, constitui o provérbio, segundo A. J. Greimas2, um mini-texto e um discurso, podendo ser estudado isoladamente.

Como qualquer outra sentença, extrai o provérbio a sua significação e a sua condição de sentença não só do conjunto de monemas3 que o compõem, como também de uma linha prosódica, ou melódica, que o caracteriza pela

Asserção:

- tal pai, tal filho

- dinheiro emprestaste, inimigo ganhaste

- cão que ladra não morde

- Deus dá nozes a quem não tem dentes

Interrogação: (com resposta explícita ou não)

- Por que o diabo sabe muito? Porque é velho

_ cágado porque queres botas, se tens as pernas tortas?

- para que quer espelho quem nasceu cego?

Desejo:


- os anjos digam amém

-ande eu quente e ria-se a gente

- cada um por si e Deus por todos(faça ou esteja

Ordem (em geral negativa):

- os anjos digam amém

-ande eu quente e ria-se a gente

- cada um por si e Deus por todos(faça ou esteja

_ ajuda-te e Deus te ajudará


É a sonoridade agradável do provérbio fator essencial na sua difusão e sua memorização. Se a sonoridade é resultado do polimento dos anos e de muito uso, ou se já está no nascedouro das expressões, ainda não se pode comprovar, a não ser em alguns casos. Baseia-se essa sonoridade no ritmo, que , de acordo com E. Buyssens4, consiste na alternância de dois fatos. No discurso, o ritmo é dado pela alternância de segmentos fortemente acentuados e segmentos fracamente acentuados. Tais segmentos são as chamadas sílabas ou pés (unidades rítmicas). Quanto à quantidade de sílabas, os provérbios variam muitíssimo, observando-se que as construções em seis e menos sílabas são em número superior às construções em sete e mais sílabas, já que a tendência predominante é de o provérbio se comprimir com o passar do tempo. Os ditos mais longos encontram-se, em geral, nas coletâneas mais antigas.
A rima é um aspecto importante, pois se usa com muita freqüência para marcar a cesura. É geralmente pobre, rimando palavras da mesma categoria gramatical e, por vezes, imperfeita, com coincidência apenas parcial dos traços fônicos nos sons finais das palavras, ou correspondência entre uma vogal simples e um ditongo:

- não há melhor espelho que amigo velho

_ amor, amor, princípio mau e fim pior

_ não queiras potro nem mulher doutro

_ não o louves sem que o proves

_ quem se excusa, se acusa

_ quem tem filhos tem cadilhos, quem não os tem, cadilhos tem.
Para manter a rima e/ou o ritmo é comum conservar-se o arcaísmo lexical:

- a mulher e a galinha, por andar se perde asinha(depressa)

_ palavras loucas, orelhas moucas(surdas)

_ não se muda de cavalo no meio do banhado (rio que se passa a vau)

_ do mal que fizeres, não tenhas testigo, ainda que seja mui teu amigo ( testemunha ; muito )

_ não há boda sem tornaboda (sem briga).


Por vezes, a rima provém da pronúncia arcaica ou popular:

_ Santa Marinha, vai ver tua vinha (Marina)

- ao minguar a lu’a, não comeces coisa algu’a (lua; alguma)

_ pescador da cana mais come que gana (ganha)


Fazem-se referências a costumes e valores não mais adotados, mantidos pela eufonia do significante:

_ à boda de ferreiro, cada um com seu dinheiro (hábito de os convidados presentearem aos nubentes em dinheiro)

_ quem poupa seu mouro, poupa seu ouro ( referência à escravidão de árabes por cristãos)

_ nem em mar tratar nem em muitos fiar (não fazer acordos em viagens marítimas que, provavelmente, não se manterão, quando em terra firme).

_ galo onde canta janta ( o frade ía às cerimônias e aí lhe era dado de comer; galo por frade é deturpação).
Acontece de as palavras serem reunidas mais pela rima e pela métrica que pelo nexo:

_ não fazer de um argueiro um cavaleiro

_ não confundir alhos com bugalhos5

_ ave por ave, o carneiro se voasse.


A rima pode ser formada com a mesma palavra:

_ o que é demais é demais

_ guerra é guerra.

ou por homônimos:

_ quem casa quer casa.
As elisões como espr’ nça, c’a, p’lo, observam-se, freqüentemente, em função da métrica, mas, em geral, não se registram na modalidade escrita.

Além do ritmo, da métrica e da rima, a eufonia pode ser também reforçada pela aliteração:

_ onde há fumo há fogo

_ quem com ferro fere, com ferro será ferido

_ cesteiro que faz um cesto, faz um cento
Tendo os provérbios as características de um pequeno poema, o número de versos que o compõem é muito diversificado, indo do dístico monolexical:

_ tradutor/ traidor,

ao quarteto bissilábico:

_ mais vale/ calar/ que mal/ falar,

até o alexandrino isolado:

_ por debaixo dos pés se levantam trabalhos.


A maioria dos provérbios, observados nas coletâneas mencionadas, apresentam-se em estrutura binária, em forma de dístico, realçada pelo ritmo, pela rima, pela aliteração e até pela repetição do mesmo elemento lexical. Os ditos populares, especialmente os rimados, compõem-se, então, de uma dupla de versos, iguais ou não em número de sílabas, mas com certa cadência que os caracteriza e facilita-lhes a memorização.

A. J. Greimas6 menciona a estrutura binária como significante de um mundo acabado, equilibrado, em repouso, como o querem os provérbios, sendo ao mesmo tempo clara e fechada. Seria, assim, a estrutura binária mais afeita a um espírito clássico, impassível e a estrutura ternária, a um espírito mutante inovador. “Os sentidos do tato e do gosto não tem nenhum efeito ético e o da vista muito pouco, a melodia exprime um ethos”7.


Além dos recursos mencionados, a estrutura binária pode ser realçada pela repetição de palavras no início dos versos:

_ Deus dá, Deus tira

_ quem tudo quer, tudo perde

_ tal pai, tal filho

_ maior o coqueiro, maior o tombo do coco
É comum que o provérbio seja modificado, ampliado, ou comprimido em favor da composição de um dístico. As formas antiquadas apresentam versão moderna:

_ pão comeste, companhia desfeita - almente: comida feita, companhia desfeita

_ quem caminha por atalhos nunca sai de sobressaltos

atualmente: a quem caminha por atalhos não faltam trabalhos

_ onde há muito riso, há pouco siso

atualmente: muito riso, pouco siso

- cada terra com seu uso8

atualmente: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.


Por essas observações, somos levados a crer que a forma fônica comanda a escolha da metáfora. Dominam a eufonia, a harmonia do ritmo e da rima. O uso de nomes próprios, quer locativos, quer personativos, só pode ser justificado pela sonoridade:

_ antes que jantes, não passes de Abrantes

_ quem tem boca vai a Roma

_ bem canta Marta depois de farta

_ tal é Maria, tal filha cria
Toma-se como provérbio qualquer expressão de uso corrente numa comunidade, que soe bem e que passe uma receita de comportamento, embora os elementos que a compõem não sejam explicáveis, ao menos sincronicamente:

_ lé com lé, cré com cré.


Admite-se, por outro lado, que muitos provérbios foram alterados pelos copistas, habituados a escrever em versos ou desejosos de achar uma forma que pudesse ser facilmente retida. O mesmo acontece com outras expressões petrificadas: adivinhas, réplicas, parlendas, alcunhas, comparações. Assim os provérbios rimados e/ou ritmados podem ser, formas secundárias, isto é, remanescentes ou desenvolvidas de provérbios desprovidos de rima e de ritmo.

Sendo o provérbio um tipo específico de texto, podemos considerar suas propriedades estruturais nos vários níveis de descrição lingüística. Na descrição fonética - objeto do presente estudo - observamos, primeiramente, destacar-se o provérbio na linha melódica do discurso que o envolve, pelo seu contorno entonacional. O locutor tem consciência e quer chamar a atenção para o fato de que não é ele que fala, mas que está apenas citando. Essa função de citação está ligada ao caráter metalingüístico do provérbio: o que é alheio, o que se diz em língua estrangeira, é evidenciado, pela entonação, no texto, como num meta-nível.9

Consideramos, ainda, em nosso estudo, a presença de uma certa regularidade de ritmo (secundada pela rima e pela aliteração ) como suporte às propriedades mnemônicas do provérbio e como razões de eufonia, que justificam particularidades como elisões, ordem inversa, arcaísmo e uso de nomes próprios.

Com o presente levantamento de dados, apresentamos uma contribuição à descrição sistemática dos provérbios, podendo ainda fornecer subsídios para o estudo de outros estereótipos lingüísticos do domínio de uma coletividade.

Leia mais:
BATALHA,Ladislau. História geral dos adágios portugueses. Paris/Lisboa: Aillaud e Bertrand, 1984. 326 p.

BUYSSENS, Eric. Semiologia e comunicação lingüística. Tradução, apresentação e notas de Isidoro Blikstein, 3a ed., S. Paulo, Cultrix, s/d. 217 p.

CUNHA, Alfredo Carneiro da. Ditames e ditérios: glosas em versos de ditados ou dizeres comuns. Lisboa: Empr. Nac. De Publicidade,1929. 3 v.

GOTTSCHALK, Walter. Die bildhaften Sprichwörter der Romanen Heidelberg: Carl Winters Universitätsbuchhandlung, 1935-1938. 3 v.

GREIMAS, Algirdas Julien. “Idiotismes, proverbes et dictons”. Cahiers de lexicologie. v. 2: p. 41-62.

______ “ Os provérbios e os ditados”. Sobre o sentido, ensaios semióticos. Tradução de Ana Cristina Cruz et alii. Petrópolis: Vozes, 1975. p. 288-295.

MAGALHÃES Jr., Raimundo. Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos. Rio de Janeiro: Documentário, 1977. 330 p.

MELLO, Fernando Ribeiro de. Nova recolha de provérbios e outros lugares comuns portugueses. Lisboa: Afrodite, 1974. 385 p.

MOTA, Leonardo. Adagiário brasileiro. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará/ Rio: José Olympio, 1982. 433 p.

RIBEIRO, João. Frases feitas. Rio: Francisco Alves, 1960. 432 p.

SCHMIDT- RADEFELDT, Jürgen. “Descrição semântica e funções semanfóricas do provérbio”. Estudos de lingüística portuguesa. v. 1: p. 213-235.

______ “Structure argumentative, reference et contextualité du proverbe”. Stylistique, rhétorique et poétique dans les langues romanes. Actes du XVII Congrès Internacionale de Linguistique et Philologie Romanes. Aix-en - Provence, 1983: p. 88-102.

SILVA, Helena Maria Quintão Duarte e QUINTÃO, José Luís. Pequeno dicionário de provérbios. Lisboa: Moraes Editores, 1983. 163 p.

SIMON, Maria Lucia Mexias. “Para uma estrutura dos provérbios nas línguas românicas”. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Rio de Janeiro, 1989. Inédita. 130 p.



STEINBERG, Martha. 1001 provérbios em contraste. S. Paulo: Ática, 1985. 127 p.

1 GUIRAUD, P., 1962:5

2  - GREIMAS, A. J. , 1975:288

3 Ao falarmos em monema, temos em vista a terminologia de A. Martinet: “unidade significativa de primeira articulação, comportando uma significação e uma forma fônica.” In: POTTIER, B., 1973: 331

4BUYSSENS, E., s/d: 120

5Alhar tem o mesmo significado de confundir, baralhar. Veja-se o exemplo - a contas velhas, baralhas novas - cobrar contas antigas é reiniciar brigas. In: RIBEIRO, J., 1960:161

6GREIMAS, A. J., 1960:41-62

7HUIZINGA, J., 1980:181

8Encontram-se na coletânea do Pe. Antônio Delicado. In: RIBEIRO,J., 1960: 386-389

9 SCHMIDT- RADEFELDT, J., 1984: 214-215


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