Estudo de laboratório da deformabilidade de enrocamentos considerando o efeito de escala



Baixar 88.8 Kb.
Encontro29.11.2017
Tamanho88.8 Kb.

Comitê Brasileiro de Barragens

XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens

Goiânia – GO, 11 a 15 de Abril de 2005

T.97 A22


estudo de laboratório da deformabilidade de enrocamentos CONSIDERANDO o efeito de escala
Alexandre Cristino Corrêa dos SANTOS
Doutorando/Engenheiro – Universidade de Brasília
Sérgio Veiga FLEURY
MSc/Engenheiro – Furnas Centrais Elétricas S.A.
André Pacheco de ASSIS
PhD/Professor – Universidade de Brasília

RESUMO
O estudo dos diversos fatores que influenciam o comportamento tensão x deformação dos enrocamentos tem por objetivo permitir a previsão de seu comportamento mecânico. Contudo, as dimensões dos ensaios de laboratório não conseguem representar a granulometria real, o que torna os parâmetros de projeto não representativos do comportamento da estrutura acabada. Aliado a este fato, os resultados de retroanálises de instrumentação de campo não podem ser aplicados indiscriminadamente em outras obras. Neste artigo pretende-se avaliar os parâmetros que melhor representam o efeito de escala dos ensaios de laboratório, com o intuito de melhorar as previsões de projeto.

ABSTRACT
The study of the factors that affect the stress-strain behavior of rockfills aims to allow a more precise prediction of their mechanical behavior. However, laboratory scale is unable to test the actual in-situ grain sizes, which may lead to design parameters not representative of the site structure. Besides that, back analysis parameters obtained from monitoring data cannot be applied widely to other works. This paper presents an evaluation of the parameters that better control the scale effects of laboratory tests, aiming at improving design parameters and behavior forecast.


  1. INTRODUÇÃO

As primeiras aplicações do enrocamento como material de construção de barragens ocorreram durante a segunda metade do século XIX. A princípio, os aterros de enrocamento não eram compactados e sua granulometria se caracterizava por um baixo coeficiente de uniformidade e pela utilização de blocos de grandes dimensões de rocha sã. Devido ao elevado índice de vazios deste material, ocorriam grandes deslocamentos no aterro, incompatíveis com aqueles admissíveis nos elementos de vedação utilizados na face, levando a fuga excessiva de água. Os inúmeros problemas reportados neste período levaram a uma utilização tímida deste material na construção de barragens.


O avanço tecnológico experimentado nos últimos 50 anos, principalmente em relação aos equipamentos de compactação (por exemplo técnicas mistas de compactação por pressão e vibração), propiciou melhora substancial nas características mecânicas dos enrocamentos, diminuindo os índices de vazios e proporcionando a redução drástica dos níveis de deformação. Este desenvolvimento tornou os processos construtivos tecnicamente viáveis e economicamente atrativos, principalmente nos casos em que o regime intenso de chuvas é um condicionante do projeto, quando esta solução possibilita o tratamento mais simples das fundações e o volume de material proveniente das escavações obrigatórias justifica o método adotado.
Neste contexto, o Brasil e o restante do mundo vem experimentando nos últimos anos um surto de utilização de barragens de enrocamento com as mais variadas finalidades. Estas barragens, a cada dia com maiores alturas (mais de 150 m), além de impulsionar o estudo de métodos e materiais de impermeabilização mais atrativos do ponto de vista técnico-econômico, reacenderam o antigo problema dos deslocamentos admissíveis em virtude dos elevados níveis de tensões desenvolvidos nestas obras e de fenômenos como colapso e fluência, ainda não equacionados em muitos casos práticos.
O problema dos deslocamentos admissíveis em barragens de enrocamento com núcleo impermeável se traduz na tentativa de compatibilizar as deformações ocorridas no elemento resistente (enrocamento) com as ocorridas no elemento impermeabilizante (núcleo), evitando concentrações elevadas de tensões e eventual fissuração do núcleo, o que compromete a funcionalidade da obra. Contudo, são nos casos de barragens de enrocamento com face de concreto que surgem os maiores problemas quanto aos deslocamentos admissíveis, devido à incompatibilidade de deformações entre o enrocamento e a laje, podendo induzir o aparecimento de trincas na laje e comprometer a estanqueidade do reservatório.
Portanto, a utilização de barragens de enrocamento pressupõe uma excelente previsão do comportamento da obra quanto as suas características de resistência mecânica e principalmente de deformabilidade. Com esta finalidade, tem-se observado um grande avanço no estudo do comportamento mecânico de enrocamentos, tanto os relacionados a retroanálises de instrumentação de campo, como os relacionados com os ensaios de laboratório, que buscam avaliar a influência dos diversos fatores que regem o comportamento deste material; reportados para o caso de barragens brasileiras por Caproni & Armelin [1], Caproni et al. [2], Maia [3], Dias [4] e Fleury et al. [5].

A este respeito Maia [3] e Caproni & Armelin [1] comentam que os resultados de retroanálises de instrumentação de campo não podem ser aplicados indiscriminadamente em outras obras, a menos que haja similaridade dos materiais de enrocamento, da geometria da estrutura e do procedimento construtivo, o que não é nada corriqueiro. O custo proibitivo dos ensaios de campo, aliado ao fato de que as dimensões dos ensaios de laboratório não conseguem representar a granulometria real, torna a previsão dos parâmetros de projeto não representativa do comportamento real da estrutura acabada (Maranha das Neves [6]). Essas são as principais razões para os critérios de projeto e construção adotados na engenharia de barragens de enrocamento serem ainda predominantemente empíricos.


A dificuldade em se prever os parâmetros que irão ditar o comportamento quanto à resistência e a deformabilidade de aterros de enrocamento, a partir de ensaios de laboratório (que trabalham com uma escala reduzida), motivou o Centro Tecnológico de Engenharia Civil de Furnas Centrais Elétricas S.A, em parceria com a Universidade de Brasília, a desenvolver pesquisas com o objetivo de identificar e dimensionar os principais fatores que condicionam o comportamento dos enrocamentos. Este trabalho apresenta resultados preliminares de pesquisas, ainda em andamento, que abordam os aspectos relacionados à representatividade dos ensaios de laboratório.



  1. EMBASAMENTO TEÓRICO E OBJETIVO

O estudo dos diversos fatores que influenciam o comportamento tensão x deformação dos materiais de enrocamento tem por objetivo permitir previsões de seu comportamento mecânico e definir procedimentos para modelagem de amostras a uma escala reduzida, mas cujos resultados de ensaios sejam extrapoláveis para as condições de campo. Torna-se então adequada a apresentação dos principais fatores que condicionam as características mecânicas desses materiais, segundo classificação de Veiga Pinto [7]. Maia [3] apresentou uma divisão destes fatores de forma que representassem as tensões atuantes, as características das partículas constituintes do enrocamento, o enrocamento como meio granular e os procedimentos de ensaio, como se segue:




    1. Tensões atuantes: estado de tensão, tempo;

    2. Partículas constituintes do enrocamento: resistência ao fraturamento das partículas, forma das partículas, dimensão das partículas, atrito entre partículas, mineralogia, estado de alteração da rocha;

    3. Enrocamento como meio granular: estado de compacidade, distribuição granulométrica, adição de água, inclusão de finos, dimensão da amostra (efeito de escala);

    4. Procedimentos de ensaio: trajetória de tensões, trajetória das deformações aplicada à amostra, velocidade de deformação ao cisalhamento.

Com relação aos fatores apresentados, a maioria são passíveis de serem simulados em escala de laboratório. A principal exceção fica por conta da dimensão máxima das partículas, que por sua vez altera a distribuição granulométrica, afetando o imbricamento e fraturamento das partículas, que é diretamente responsável pelo estado de compacidade do material (efeito de escala).


De fato, é observada uma grande influência do índice de vazios no comportamento quanto à deformabilidade dos enrocamentos. A bibliografia mostra que enrocamentos de mesma mineralogia e distribuição granulométrica, submetidos à compressão unidimensional com índices de vazios diferentes, apresentam comportamentos distintos. Nota-se que a compressibilidade aumenta significativamente com o aumento do índice de vazios inicial.
Porém ao serem ensaiadas duas amostras com distribuições granulométricas paralelas, com o mesmo material e índice de vazios inicial, estas não apresentam comportamento semelhante [5]. Isto pode ser explicado fazendo uma analogia com o comportamento das areias, onde o mesmo índice de vazios pode representar um material fofo para uma dada distribuição granulométrica e compacto para outra, apresentando comportamento mecânico completamente distintos. Este fato tem sido apontado como principal responsável pela falta de representatividade dos ensaios em escala de laboratório.
Diversos autores afirmam que o parâmetro mais indicado para representar o grau de compacidade do enrocamento é a densidade relativa (DR). Esta afirmativa está embasada no estudo do comportamento mecânico das areias, onde a densidade relativa é um parâmetro bastante difundido. Lopes [8], estudando as propriedades de rejeitos de minério de ferro (material granular), mostrou que para uma mesma mineralogia e forma dos grãos, os parâmetros de resistência seguem uma curva característica em função da densidade relativa. Ou seja, desde que ensaiados na mesma densidade relativa, ensaios com grãos menores gerariam os mesmos resultados que aqueles que seriam feitos com grãos maiores. No entanto, devido ao tamanho das partículas do enrocamento, existem dificuldades experimentais na determinação das densidades máximas e mínimas destes materiais [3].
Além disso, para os enrocamentos existem duas dificuldades práticas que impedem a perfeita analogia com os estudos desenvolvidos para as areias. Primeiro, a falta de um ensaio padronizado para determinação das densidades máximas e mínimas. Ensaios diferentes apresentam valores distintos para estas densidades, pois são vários os fatores que interferem nestes resultados como: método de compactação (por impacto, pressão ou vibração), formato do molde e a relação entre o diâmetro máximo das partículas e o tamanho do molde. Segundo, a quebra das partículas durante o processo, que é agravada pelo aumento do diâmetro das mesmas, por distribuições granulométricas uniformes ou descontínuas e pela resistência das partículas.
A falta de padronização destes ensaios talvez tenha sido o principal obstáculo ao desenvolvimento das técnicas de laboratório para previsão do comportamento mecânico dos enrocamentos.
Neste trabalho avalia-se a influência do índice de vazios no comportamento quanto a deformabilidade de duas amostras com curvas granulométricas distintas, uma com diâmetro máximo de 75 mm e outra com 25 mm. Procura-se também obter a representatividade de ensaios numa granulometria menor (dmax=25 mm) em relação a uma granulometria maior (dmax=75 mm). Outro objetivo é estabelecer uma metodologia para determinação das densidades máximas e mínimas de enrocamentos, que seja simples, permita a repetitividade dos resultados e seja compatível com as técnicas adotadas em campo. Desta forma, pretende-se avaliar a densidade relativa (DR) como parâmetro representativo do efeito de escala.



  1. CARACTERIZAÇÃO DO MATERIAL UTILIZADO

O material selecionado para esta etapa da pesquisa é o granito proveniente das pedreiras da obra da barragem de Serra da Mesa. Foram dois os fatores determinantes na escolha deste material. O primeiro está relacionado à facilidade de aquisição do material, por se tratar de um empreendimento gerenciado por Furnas, que possui junto às pedreiras da obra material depositado em quantidade suficiente para uma ampla campanha de ensaios. O segundo está relacionado às características mecânicas do material, que de acordo com Caproni & Armelin [1] e Caproni et al. [2] pode ser classificado como uma rocha sã, muito resistente e maciça. Estes autores afirmam ainda que as excelentes propriedades mecânicas deste granito, apresentadas na Tabela 1, são responsáveis pelo baixo índice de quebra nos ensaios. Outra característica importante é o fato deste material não apresentar perda de resistência significativa quando saturado, o que proporcionou sua compactação na obra sem proceder a “molhagem”. Observou-se ainda que, passados alguns anos do término da obra, o material não sofreu alteração, preservando as mesmas características determinadas anteriormente. Assim, diversos fatores causadores de dificuldades na interpretação dos resultados de ensaios são minimizados, tornando este material ideal para uma primeira análise.




Características da rocha

Unidade

Resultados

Peso específico aparente seco

kN/m3

25,8

Absorção

%

0,28

Porosidade aparente

%

0,74

Abrasão Los Angeles

%

45

Módulo de Elasticidade

GPa

51 – 63

Resistência à compressão

MPa

100 – 200

Resistência à tração em compressão diametral

MPa

9,2 – 11,5

TABELA 1: Ensaios de caracterização do granito de Serra da Mesa

(modificado de Caproni & Armelin [1])





  1. EQUIPAMENTOS DE ENSAIO

Os ensaios para determinação das densidades máximas e mínimas foram realizados em uma câmara cilíndrica rígida com diâmetro interno de 1,0 m e altura igual a 0,5 m (Figura 1). As amostras para os ensaios de determinação das densidades máximas foram compactadas com uma placa vibratória com diâmetro de 0,96 m e peso estático de 3,88 kN.



FIGURA 1: Câmara cilíndrica para determinação das densidades máximas e mínimas.


Os ensaios de compressão unidimensional foram realizados em câmara cilíndrica com diâmetro interno e altura iguais a 1,0 m (Figura 2). A câmara é constituída de anéis de alumínio e borracha, alternados e justapostos. Esta configuração minimiza o atrito entre as partículas de enrocamento e a parede interna da câmara, quando da aplicação da força vertical, assegurando a condição de deformação horizontal praticamente nula no corpo-de-prova [1]. A câmara cilíndrica é similar à confeccionada no LNEC, em Lisboa (Veiga Pinto [9] e [10]).

FIGURA 2: Equipamento de compressão unidimensional.


A força vertical é aplicada em estágios por meio de um cilindro hidráulico e controlada com uma célula de carga. O deslocamento vertical é obtido pelas leituras de extensômetros mecânicos diametralmente dispostos na tampa superior. A tensão confinante é determinada pela média das leituras de 32 extensômetros elétricos (resistivos) posicionados nos anéis centrais de alumínio. O equipamento permite que a razão entre o diâmetro da câmara e o diâmetro máximo das partículas rochosas (D/d máx) seja igual ou maior que 5,0, quando da utilização de amostras de enrocamento com partículas de até 200 mm. Detalhes sobre o equipamento e a sua calibração são apresentados por Caproni & Armelin [1].



  1. PROGRAMA DE ENSAIOS

Foram adotadas duas distribuições granulométricas, a primeira com diâmetro máximo de 75 mm (denominada curva 3”) e a segunda com diâmetro máximo de


25 mm (denominada curva 1”). Por praticidade, todo o material passante na peneira #10 (abertura de 2 mm) foi denominado de finos. Como a quantidade de finos em um enrocamento não deve exceder um valor para o qual esta passa a dominar o comportamento mecânico e principalmente o comportamento quanto a permeabilidade, ela foi limitada a 10% para ambas as curvas. Desta forma, não foram adotadas curvas paralelas e nem truncadas, mas com limites superiores e inferiores resultando em curvas com a melhor distribuição possível (Figura 3).

FIGURA 3: Curvas granulométricas utilizadas nos ensaios.


Para execução dos ensaios de determinação das densidades máximas e mínimas foi estipulado, com base em ensaio teste, um peso de 680 kg de material para cada curva a ser dividido em duas camadas. Este procedimento teve a finalidade de garantir que o somatório das duas camadas forneceria uma altura total de material compactado de aproximadamente 40 cm.
A determinação da densidade mínima para cada curva granulométrica foi resultado da média de três ensaios, que consistiu no lançamento do material previamente misturado, praticamente sem altura de queda, dentro da câmara cilíndrica (Figura 1).
A determinação da densidade máxima para cada curva granulométrica foi resultado da média de três ensaios, que consistiu na compactação de duas camadas com aproximadamente 20 cm. O material de cada camada (340 kg) foi misturado previamente e lançado na câmara, tomando o cuidado de proceder o ajuste manual das partículas maiores em busca do arranjo mais denso. Ao final do lançamento de cada camada, foi executada a compactação com placa vibratória por um período de 20 min, tempo a partir do qual não foram observadas mudanças significativas no estado de compacidade deste enrocamento.
Os corpos-de-prova dos ensaios de compressão unidimensional foram moldados com 5 camadas de 20 cm, sendo a relação D/dmax= 13 e 40 (diâmetro da câmara / diâmetro máximo das partículas). Para cada distribuição granulométrica foram definidos 3 pesos específicos a serem ensaiados, tomando como referência as densidades máximas e mínimas definidas nos ensaios de compactação.
Não foi considerado o efeito da água no processo de compactação e no decorrer do ensaio de compressão unidimensional, tendo em vista que este material não sofre perda de resistência quando saturado [1], conforme afirmado anteriormente.



  1. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Os resultados dos ensaios de determinação das densidades máximas e mínimas estão apresentados na Tabela 2, juntamente com o índice de quebra Bg (Marsal [11]). A análise dos dados mostrou que a utilização de um procedimento padronizado forneceu resultados coerentes tanto no que diz respeito à repetitividade (+/- desvio aceitável) dos dados encontrados para uma mesma distribuição granulométrica, quanto a comparação dos dados entre duas distribuições diferentes, sendo que a distribuição com diâmetro máximo maior (curva 3”) apresentou as maiores densidades máximas e mínimas.




Curva

Densidades

Ensaio 1

Ensaio 2

Ensaio 3

Média

(kN/m3)

Bg (%)

(kN/m3)

Bg (%)

(kN/m3)

Bg (%)

(kN/m3)

Bg (%)

3”

máxima

20,58

2,0

20,82

1,4

20,95

1,2

20,79

1,5

mínima

17,48

*

17,25

*

17,76

*

17,50

*

1”

máxima

18,77

2,3

19,44

5,0

19,06

**

19,09

3,6

mínima

16,27

*

16,25

*

16,37

*

16,30

*

* Não apresentou quebra

** Não foi determinado o índice de quebra

TABELA 2: Ensaios de determinação das densidades máximas e mínimas.
Os pesos específicos utilizados nos ensaios de compressão unidimensional foram definidos fixando as densidades relativas, conforme Tabela 3. A densidade relativa pode ser definida pela Equação 1.
(1)
Onde:
DR é a densidade relativa em %,

max é o peso específico aparente seco máximo em kN/m3,

min é o peso específico aparente seco mínimo em kN/m3, e

n é o peso específico aparente seco da amostra em kN/m3.





Compressão Unidimensional

Curvas

Peso Específico Seco (kN/m3)

Densidade Relativa (%)

3”

18,71

41

19,17

55

20,82

101

1”

17,33

41

17,67

53

19,09

100

TABELA 3: Condições de moldagem dos ensaios de compressão unidimensional.
Os resultados dos ensaios de compressão unidimensional para a curva 3” são apresentados na Figura 4. Nesta figura pode-se observar a influência do índice de vazios no comportamento quanto à deformabilidade do material. Quanto maior o peso específico, ou seja, quanto menor o índice de vazios, menor a deformabilidade do material para uma mesma tensão vertical.

FIGURA 4: Ensaios de compressão unidimensional para a curva 3”.


A Figura 5 apresenta os resultados dos ensaios para as curvas 3” e 1” com pesos específicos praticamente iguais, ou seja, com o mesmo índice de vazios. Nesta figura pode-se notar a diferença significativa do comportamento quanto a deformabilidade das duas curvas. Este fato pode ser explicado pelas densidades relativas obtidas nos ensaios de compactação, onde a curva 3” com n=19,17 kN/m3 possui DR=55 % e a curva 1” com n=19,09 kN/m3 possui DR=100 %.

FIGURA 5: Ensaios de compressão unidimensional para as curva 3” e 1”, com pesos específicos iguais e diferentes densidades relativas.


A Figura 6 apresenta o resumo dos ensaios de compressão unidimensional realizados para as duas distribuições granulométricas (curvas 3” e 1”). Observa-se que para uma mesma granulometria o índice de vazios inicial é um parâmetro marcante do comportamento. Contudo, comparando as diferentes curvas o índice de vazios deixa de ser o parâmetro que melhor representa o efeito da mudança de escala das partículas destas distribuições. Nota-se, na Figura 6, a excelente correlação entre ensaios com pesos específicos diferentes, mas com a mesma densidade relativa. Logo, a densidade relativa passa a ser o parâmetro mais adequado na avaliação e correlação do comportamento quanto à deformabilidade das amostras para as duas curvas ensaiadas.

FIGURA 6: Resumo dos ensaios de compressão unidimensional (curvas 3” e 1”).


As Figuras 7 e 8 apresentam a evolução do módulo tangente (Dt) para as fases de carregamento dos ensaios. Pode-se notar o aumento do módulo Dt com o nível de tensão vertical ao longo do carregamento, isto pode ser explicado pela diminuição do índice de vazios da amostra (aumento do imbricamento das partículas). Observa-se nestas figuras que a densidade inicial tem influência marcante nas características tensão x deformação do enrocamento. Nota-se ainda que para 100 % de densidade relativa a curva 3” desenvolveu módulos mais elevados, para as maiores tensões verticais, do que a curva 1”.

FIGURA 7: Variação do módulo de compressibilidade com a tensão vertical para a curva 1”.


FIGURA 8: Variação do módulo de compressibilidade com a tensão vertical para a curva 3”.





  1. CONCLUSÃO

Pela apresentação dos resultados, conclui-se que para as amostras ensaiadas com uma mesma mineralogia e distribuição granulométrica o comportamento quanto à deformabilidade é ditado pelo seu índice de vazios inicial. Porém, ao serem ensaiadas amostras com distribuições granulométricas diferentes, mesmo material e índice de vazios inicial, seus comportamentos são bastante distintos. Nota-se que a razão entre o diâmetro máximo das duas curvas (dmax=75 mm / dmax=25 mm) é de apenas 3, não sendo incomum esta razão entre o diâmetro máximo na escala real de campo e o ensaiado em laboratório ser maior do que 10.


Com os resultados dos ensaios de compactação é observado que, para uma curva bem distribuída, quanto maior o diâmetro máximo dos grãos maiores as densidades máximas e mínimas. Ou seja, ensaios de amostras em laboratório com o mesmo índice de vazios de campo fornecem resultados quanto a deformabilidade contrários a segurança, isto é, superestimando o módulo de deformabilidade. Tal fato pode ser explicado analisando a densidade relativa, onde um mesmo peso específico pode significar um material mediamente compacto na granulometria de campo e um material muito denso na granulometria de laboratório. Como é prática comum adotar em laboratório o mesmo índice de vazios de campo, esta pode ser uma das principais razões da falta de representatividade dos parâmetros mecânicos obtidos em ensaios em relação aos enrocamentos de obras reais.
Diversos autores afirmam que o melhor parâmetro para representar este efeito de escala é a densidade relativa (DR). Dificuldades práticas na determinação deste parâmetro dificultaram o desenvolvimento de técnicas de ensaios em enrocamentos. Na bibliografia não é raro encontrar resultados de ensaios que utilizam densidades relativas obtidas por metodologias diferentes e que apresentam incoerência na tentativa de comparar estes resultados. Com o objetivo de padronizar os ensaios de determinação das densidades máximas e mínimas de enrocamentos, este artigo apresentou uma metodologia simples, que proporcionou repetitividade dos resultados utilizando uma técnica de compactação compatível com as adotadas em campo, além de trabalhar com uma amostra de volume representativo da escala do material adotado.
O material utilizado, granito de Serra da Mesa, possui grande resistência mecânica, o que proporcionou baixo índice de quebra no processo de compactação, garantindo que o material ensaiado na compressão unidimensional não apresentasse diferenças significativas quanto à distribuição granulométrica inicialmente definida.
As curvas granulométricas utilizadas nos ensaios (curvas 3” e 1”), bem distribuídas entre os dois limites estabelecidos, proporcionaram o bom imbricamento das partículas o que diminui as forças de contato, contribuindo também para o baixo índice de quebra (Bg) do material. A tentativa de representar uma curva com maiores diâmetros máximos (curva 3”) utilizando uma curva com menores diâmetro máximos (curva 1”), que não fosse paralela e nem truncada, mostrou-se adequada, pois a última (curva 1”) conseguiu representar o imbricamento das partículas da primeira (curva 3”), fato este comprovado pelos ensaios de compressão unidimensional na mesma densidade relativa.
Conforme os resultados dos ensaios, a densidade relativa (DR) provou ser o parâmetro mais representativo do efeito de escala. Nota-se, a excelente aproximação do comportamento tensão x deformação das duas curvas obtidas com amostras de mesma densidade relativa, ou seja, uma curva com granulometria menor (dmax=25 mm) consegue representar o comportamento quanto à deformabilidade de uma curva com granulometria maior (dmax=75 mm), desde que ensaiadas na mesma densidade relativa. A este respeito, presume-se que ensaios de laboratório, com a mesma mineralogia e densidade relativa de campo, podem representar o comportamento do enrocamento numa escala real de obra.



  1. AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à FURNAS Centrais Elétricas S.A por possibilitar a realização do programa experimental e aos laboratoristas do laboratório de Mecânica das Rochas de FURNAS pelo auxílio nos ensaios.





  1. PALAVRAS-CHAVE

Enrocamento, compactação, efeito escala, densidade relativa.





  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] CAPRONI JR., N. & ARMELIN, J.L. (1998). “Deformabilidade de um Enrocamento Obtida em Ensaios de Compressão Unidimensional”. 11o. Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica, ABMS, Brasília, Brasil, vol. II, p. 705-712.


[2] CAPRONI JR., N., ARMELIN, J.L., CASTRO, C.H., SHIMABUKURO, M. (1999). “Um Estudo de Deformabilidade em Laboratório. Enrocamento da UHE Serra da Mesa”. II Simpósio sobre Barragens de Enrocamento com Face de Concreto, CBDB, Florianópolis, Brasil.
[3] MAIA, P.C.A. (2001). “Avaliação do Comportamento Geomecânico e de Alterabilidade de Enrocamentos”. Tese de Doutorado, Departamento de Engenharia Civil, PUC-Rio, Brasil.
[4] DIAS, A.C. (2001). “Caracterização Mecânica de Enrocamentos Através de Ensaios de Grande Escala Visando Barragens com Face de Concreto”. Dissertação de Mestrado, Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, Universidade de Brasília, Brasil, 114 p.
[5] FLEURY, S.V, SAYÃO, A.S.F.J., ASSIS, A.P., LIMA, F.O., DIAS, A.C. (2004). “Estudo em Laboratório da Deformabilidade e Resistência do Enrocamento da Barragem de Itapebi”. II Congresso Luso-Brasileiro de Geotecnia, Lisboa, Portugal.
[6] NEVES, E.M. (2002). “Algumas Considerações Sobre a Mecânica de Enrocamentos”. Solos e Rochas, Revista Latino-Americana de Geotecnia, ABMS/ABGE, v.25, no.3, pp.161-203
[7] Veiga Pinto, A.A. (1979) “Características de Resistência e Deformabilidade dos Materiais de Enrocamento” – Geotecnia, no 27, Lisboa, pp. 03-41.
[8] LOPES, M.C.O. (2000). “Disposição Hidráulica de Rejeitos Arenosos e Influência nos Parâmetros de Resistência”. Dissertação de Mestrado, Publicação G.DM-068ª/2000, Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, Universidade de Brasília, Brasília-DF, 157p.
[9] VEIGA PINTO, A. (1983). “Previsão do Comportamento Estrutural de Barragens de Enrocamento”, Tese de Especialização, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 157 p.
[10] Veiga Pinto, A.A. (1982) “Modelação de Enrocamentos” - Dissertação de Mestrado da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal, 76 p.
[11] MARSAL, R.J. & RESENDIZ, D. (1975). “Earth and Earth-Rock Dams (in Spanish)”. Limusa, Mexico City, Mexico; 546 p.



XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens







©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal