Etnonologia dos bijagós da ilha de bubaque



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ETNOLOGIA DOS BIJAGÓS DA ILHA DE BUBAQUE

Luigi Scantamburlo

BIOGRAFIA

Luigi SCANTAMBURLO nasceu em 1944. Fez os seus estudos de História das Religiões na University of Detroit (M. A., 1976) e de Antropologia na Wayne State University, Detroit. U. S. A. (M. A., 1978). Depois de ter trabalhado como jornalista na revista italiana Mondo e Missione (Milão) durante três anos, foi enviado pela sua congregação (Pontificio Istituto Missioni Estere de Milano) à Guiné-Bissau. No ano de 1975 começou a viver junto com o povo das ilhas dos Bijagós, onde preparou o presente estudo etnográfico. Em 1981 publicou a gramática e dicionário da língua crioula da Guiné-Bissau (editora EMI - Bolonha, Itália). Presentemente está a preparar um estudo sobre a língua e a religião dos Bijagós.

Este texto é a Thesis de Master of Arts em Antropologia na Universidade Wayne State, de Detroit (Michigan, U. S. A.), no ano de 1978. A tradução do inglês foi feita pela Doutora Maria Fernanda Dâmaso.

ÍNDICE
Prefácio

Agradecimentos

Introdução

História origem

A situação geográfica e económica

As relações do parentesco tradicional e o sistema político

A cosmologia dos Bijagós

Conclusão

Bibliografia

Mapas e Figuras

Mapa 1 – A República da Guiné-Bissau

Mapa 2 – As Ilhas de Bubaque e de Rubane

Figura 1 – A tabanca de Ancadona

Figura 2 – Tipos de casas dos Bijagós

Figura 3 – Terminologia dos graus de parentesco em Bubaque

Fotografias

PREFÁCIO


Na busca contínua de equilíbrio e de segurança para a sobrevivência reside a explicação, fundamental e, por isso, a possibilidade de compreensão do pequeno «mosaico humano», da Guiné-Bissau.

Este rectângulo de terra africana levemente ondulada que se abre ao oceano Atlântico, rendilhada pelo mesmo numa sucessão de pequenas penínsulas e arquipélagos, permanece ainda hoje um dos pontos do globo onde a pesquisa cultural pode descobrir tesouros viventes de valores originais já esquecidos; ou destruídos em sociedades tecnologicamente mais evoluídas. É com a preocupação de descoberta desses valores que o autor deste estudo tenta, em primeiro lugar, introduzir-se no misterioso mundo cultural de um dos trinta grupos que habitam a Guiné-Bissau e que aí buscam uma convivência e uma integração gradual e pacífica iniciada com o processo moderno de libertação.

Outra das preocupações do autor, missionário e antropólogo sensível à problemática do desenvolvimento dos povos, é a descoberta de uma metodologia de desenvolvimento que provoque o encontro, o mais harmonioso possível, entre a cultura bijagó e as tecnologias modernas.

E por isso que o pe. Luigi Scantamburlo, ao terminar este seu estudo em versão inglesa em 1978 e baseando-se nele, se lançou decididamente na organização de numerosas cooperativas de pesca artesanal entre os bijagós de todo o arquipélago.

O complexo emaranhado das «Relações de parentesco», do «Sistema político» e da «Cosmologia» dos Bijagós explica-se à íuz da origem e sobretudo da longa e milenária migração deste povo a partir do Leste africano até chegar ao litoral atlântico e fixar-se no arquipélago. É esta uma longa história de agressões, fugas, secas e tentativas de assimilação enfrentadas com o instinto de conservação da grupo sempre em busca e defesa do espaço vital e de equilíbrio interno.

Na tentativa de penetrar e descodificar o complexo mundo cultural dos Bijagós reside a maior mérito desta obra, apresentada agora na sua versão portuguesa, realizada pela psicóloga M. Fernanda Dâmaso, que em colaboração com o autor não nos quis dar uma mera versão, mas sim uma verdadeira retranscrição actualizada do trabalho original.

LINO BICARI

AGRADECIMENTOS



Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, ao Governo e ao povo da Guiné-Bissau, recentemente independente, a sua amigável hospitalidade durante o meu trabalho de investigação no país, entre Maio de 1975 e Dezembro de 1976.

Entre os amigos bijagós gostaria de lembrar especialmente Mário Edicok e Manuel Banca, de Bijante, que vivem e nos observam do mundo dos ancestrais bijagós.

Na Universidade do Estado de Wayne. gostaria de agradecer ao Dr. James B. Christensen, à Dr.° Helen E. Hause e ao Dr. Leonard W. Moss, que me têm ajudado nos meus esforços antropológicos.

Estendo os meus agradecimentos especiais ao Sr. Joseph Shaheen, que leu o primeiro esboço da tese e deu sugestões para uma transcrição em melhor inglês, e à Sr.ª Sharon Repka, que fez os desenhos.

Finalmente é meu dever agradecer aos superioras do meu Instituto, o Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras (P. I. M. E.), e aos membros da Região Americana do P. I. M. E., que entenderam a necessidade de uma pesquisa antropológica como um aspecto necessário do trabalho missionário.

INTRODUÇÃO
A nova república independente da Guiné-Bissau é uma pequena e jovem nação localizada na costa ocidental da África, entre 12° 20' e 10° 56' de latitude norte, limitada a norte pelo Senegal, a sul e este pela Guiné-Conakri e a oeste pelo oceano Atlântico. Cobre aproximadamente uma área de 36 125 kmq e tem uma população de 1 300 000 habitantes, com uma densidade populacional de 35 habitantes por quilómetro quadrado.
Independente desde Setembro de 1973, depois de doze anos de guerra foi dividida em oito regiões, para além do sector autónomo de Bissau, a capital, de modo a permitir um desenvolvimento ordenado:

1) A Região de Biombo, com Quinhamel por capital e os sectores administrativos de Biombo, Prabis e Safim.

2) A Região de Cacheu, com Cacheu por capital e os sectores administrativos de Cacheu, Canchungo, Bula, Caió, S. Domingos e Bigene.



3) A Região de Oio, com Farim por capital e os sectores administrativos de Farim, Mansoa, Mansabà, Nhacra e Bissorá.

4) A Região de Bafatá, com. Bafatá por capital e os sectores administrativos de Bafatá, Contubuel, Cossé, Bambadinca e Gâ-Mamudo.

5) A Região de Gabú, com Gabú por capital e os sectores administrativos de Gabú, Sonaco, Piche, Pirada e Boé.

6) A Região de Tombali, com Catió por capital e os sectores administrativos de Catió, Bedanda, Cacine e Quebo.

7) A Região de Quínara, com Fulacunda por capital e os sectores administrativos de Fulacunda, Tite, Buba e Empada.

8) A Região de Balama-Bijagós, com Bolama por capital e os sectores administrativos de Bolama, Bubaque, Caravela e Uno.


Estas divisões foram feitas de acordo com as diferenças do meio e as tradições dos habitantes. Com excepção das poucas grandes cidades existentes (Bissau, a capital, tem à volta de 80 000 habitantes; Bafatá tem aproximadamente 10 000 e as outras menos de 5 000 cada uma), a unidade de base em todo o país é ainda a tabanca (aldeia), governada pelas autoridades tradicionais, que actuam sob a orientação de representantes políticos aprovados pelo Governo.

A economia, após doze anos de luta, estava ainda muito débil. há quatro anos atrás, aquando da independência, não havia muito mais do que uma fabrica de cerveja, uma outra apetrechada para a extracção do óleo de palma e algumas serrações. Não havia nenhum porto merecedor deste nome, as estradas eram poucas, as escolas primárias insuficientes e havia uma única escola de ensino secundário, com 400 estudantes, 60 % dos quais eram portugueses.

Os líderes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) começaram o melhor que puderam a ir ao encontro das necessidades do povo e não à procura de grandeza e poder. Como consequência foram empreendidos programas, através dos quais, em 1980, a quantidade de arroz produzido seria suficiente para satisfazer as necessidades da população. Até agora o resultado tem sido satisfatório. O arroz produzido dentro do país reduziu para metade a necessidade de importações, que se $84 000 em 1974 passou para $42 000 em. 1975. Desencorajada a urbanização, a população é ajudada a regressar às suas tabancas de origem.

Outra grande acção do Governo têm sido as facilidades concedidas a nível educacional, pois enquanto no tempo colonial o total de alunos matriculados em todo o país, e em todas as classes, era de 12 000, vamos encontrar em 1976-1977 cerca de 85 000 estudantes. Actualmente 10 % da população aperta-se nas escolas existentes, que despendem 23 % do orçamento do país. Embora a taxa de analfabetismo continue elevada (90 %), foi dado o primeiro passo e pela primeira vez na história da Guiné-Bissau todos os rapazes e raparigas têm a oportunidade de usufruir de pelo menos quatros anos de escolarização.


Uma nação com um mosaico de trinta grupos étnicos
No pequeno país que é a Guiné-Bissau há pelo menos trinta grupos étnicos diferentes, coabitando e possuindo cada um a sua própria língua e tradições.

Os cinco grupos mais numerosos são os Balantas (Balantas, Balantas Manés, Balantas de Naga, Balantas Bravos, Balantas de Fora e Cunantes); os Fulas (Fulas do Boé, Fulas Pretos, Fulas Forros e Futa Fulas); os Manjacos; os Mandingas e os Papéis. Os dois primeiros grupos contam com mais de 100 000 elementos, enquanto os outros três têm entre 50 000 a 100 000.

Outros grupos importantes são os Mancanhas (ou Brames); os Felupes; os Bijagós; os Baiotes; os Beafadas; os Nalús; os Cassangas, e os Banhuns.

A estes trinta grupos devemos juntar todos os outros que estão representados em minorias na Guiné-Bissau, distribuídos entre algumas centenas e poucos milhares. Por ordem alfabética são os Bagas; os Bambarás; os Cobianas; os Conhaguis; os Jacancas; os Jalancas; os Landumãs; os Padjadincas; os Quebuncas; os Quissincas; os Saracolés; os Sossos; os Tandas; os Timenés; os Tomás; os Torancas, e os Uassoloncas.

Apesar da grande diversidade de línguas e tradições, todos eles parecem viver em boa harmonia. Na sequência da criação de uma nova república assente no princípio da igualdade entre todos os cidadãos e no direito de todos a viver de acordo com a sua própria cultura, assiste-se ao aparecimento gradual de uma consciência nacional em que cada grupo étnico começa a sentir-se ele próprio como parte de um grupo maior, a nação. Este facto foi favorecido por doze anos de luta contra o colonialismo, que pôs em contacto pessoas de todos os diferentes grupos étnicos.

Segundo Amílcar Cabral, o fundador do PAIGC, morto em Conakri em 20 de Janeiro de 1973, a luta armada foi uma via poderosa, ainda que bastante dura, para o desenvolvimento duma cultura padrão mais acentuada quer para os líderes quer para o povo. Os chefes originários, na sua maioria da burguesia citadina, foram ajudados através da luta armada a compreender os valores do povo que vivia nas zonas rurais, conhecer as suas necessidades reais e esperanças e apreciarem ao mesmo tempo as suas capacidades dedutiva e dialéctica, a maior parte das vezes desprezadas pelos poderes coloniais.

Por outro lado, a luta armada ajudou os camponeses a superarem o seu sentimento de inferioridade perante os mais instruídos da cidade, a romperem as fronteiras limitadas da tabanca através de contactos diários com diferentes grupos étnicos e a adoptarem melhores tecnologias no seu trabalho. Mais importante ainda para a sua sobrevivência cultural foi o facto de terem sido admitidos como elementos válidos no novo processo nacional, sem precisarem de abandonar a sua tradicional visão do mundo e dos seus valores, contraria

mente à orientação imposta pela política portuguesa. Por conseguinte, a luta armada resultou não só num novo facto cultural mas também forneceu os meios para uma nova cultura popular.

O despertar da consciência nacional foi grandemente facilitado pela linguagem comum falada pela maioria do povo, o crioulo da Guiné-Bissau. Proibido e desprezado durante o período colonial, como um português mal falado, ascendeu ao estatuto de língua nacional na altura da independência. É já compreendido por quase todos, o que ajuda no desenvolvimento das relações amistosas entre os membros dos diferentes grupos étnicos.

O grande mérito do melhoramento desta situação de progresso deve-se atribuir a Amílcar Cabral, um dos maiores líderes da história africana contemporânea, e os seus escritos forneceram os princípios básicos aos autores dos estatutos da nova república. No dia-a-dia, durante a longa luta pela independência, ele ajudou a estabelecer os princípios de liberdade e igualdade em que se baseia a nova nação. Cabral acreditava que a liberdade e a igualdade poderiam ser dadas a todos e não se deveriam basear na raça, cor, riqueza ou nível educacional alcançado e também sentia que não só os oprimidos mas também os próprios opressores necessitavam de libertação. O PAIGC nunca combateu o povo português mas sim os líderes de Portugal, que desde há multo recusavam a liberdade aos cidadãos no seu próprio país. Quando a Guiné-Bissau alcançou a independência e o exército de 25 000 portugueses se retirou, em Setembro de 1974, não houve um só incidente.

Hoje, não só ao nível do Governo, mas por todo o país, os ideais de liberdade e respeito mútuo são discutidos e encorajados. Apesar das grandes dificuldades económicas, a nova república conseguiu fornecer ao povo alimentação suficiente para o dia-a-dia e assim parece que uma das esperanças de Amílcar Cabral tenha sido realizada.

São palavras suas, num dos seus famosos discursos durante a luta armada: «Nós pretendemos construir uma nação onde cada um, não importa de onde venha, possa viver, trabalhar e pensar livremente. A condição necessária é que respeite os direitos dos outros.»

Penso que isto é muito importante para a República da Guiné-Bissau, onde os diferentes grupos étnicos são desafiados todos os dias por tecnologias mais avançadas, instrução e relações sociais mais amplas introduzidas após a independência. A paz, a igualdade e uma certa liberdade de escolha oferecem um ambiente favorável onde interagem e se modificam os modos tradicionais de vida e a perspectiva do mundo (1).

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(1) O presente material etnográfico foi recolhido enquanto vivi entre o povo bijagó de Maio de 1976 a Novembro de 1977. Evitei cuidadosamente descrever alguns pormenores da cultura dos Bijagós, que os anciãos desejam manter secretos, o que entendo como uma boa táctica, pois entre a população da Guiné-Bissau o segredo dá significado e complementa muitos elementos da cultura.

O alfabeto português foi adoptado na escrita dos substantivos concretos e para os nomes bijagós foi necessário acrescentar três novos símbolos fonéticos: n, uma nasal velar, como ng da palavra sing; kp, uma consoante oclusiva bilabial surda, das línguas da África Ocidental; gb, uma consoante oclusiva bilabial sonora, das línguas da África Ocidental.

Quando o acento tónico não está indicado, é suposto a palavra ser acentuada na penúltima sílaba.

As três letras B C P precedendo um substantivo correspondem respectivamente às línguas bijagó, crioula e portuguesa.


HISTÓRIA E ORIGEM
O arquipélago dos Bijagós, composto por cinquenta e três ilhas, ilhéus e ilhotas, está situado entre 10° 45' e 11° 35' de latitude norte e 15° 35' e 16° 30' de longitude oeste, na costa ocidental da Guiné-Bissau, no oceano Atlântico (vê mapa 1). As dezanove ilhas - Bubaque, Canogo, Meneque, Orangozinho, Rubane, Soga, Orango, Uno, Uracane, Egobá, Canhabaque, Formosa, Ponta, Maio, Caravela, Caraxe, Unhocomo, Unhocomozinho e Galinhas - são habitadas por cerca de 15 000 pessoas, chamadas Bijagós em língua portuguesa. Após a independência, em 23 de Setembro de 1973, foi dividido em três sectores com funções administrativas: Bolama, Bubaque e Caravela (posteriormente o sector de Caravela foi dividido em dois - Uno e Caravela), pertencentes à Região de Bolama-Bijagós, com a capital em Bolama, na ilha do mesmo nome.

O primeiro registo escrito referente ao povo e ilhas Bijagós data da segunda metade do século XV. De facto, no mapa do italiano Gracioso Benincasa (1471) estão desenhadas algumas ilhas chamadas, nessa época, Usamansa, Buamo e Buauo, que tinham sido descobertas catorze anos atrás, em 1457, pelo navegador veneziano Alvise di Ca' da Mosto, durante a sua segunda viagem à costa ocidental de África, acompanhado pelo navegador genovês Uso de Mare. A descrição das ilhas foi pela primeira vez encontrada num manuscrito italiano do século XV:


“Partissimo dala bocha de questo gran fiume per tornarsene in Spagna e si tegenessimo la volta de mar verso quelle Ixole le qualle Iereno distante dala terra ferma circha milia 30/ a queste Ixole zonzessimo le qualle sono 2/ grande/ e algune altre pizole queste 2/ grande sono habitade da negri e sono Ixole molto basse ma sono ben fornide de albori grandi e alti qui ancho non hauessimo lengua perche lor non Intendeano nuj/ e nuj loro e de li partessimo e uegnemo verso le parte nostre de Christianj ale qual per nostra zornata nauigamo tanto che die per sua gratia quando el gie piase ne conduzo a bon porto”. (Academia Portuguesa de História, 1940: 73-74).
No Tratado Breve dos Rios da Guiné, escrito em 1594 pelo capitão de armada André Alvares d'Almada (Silveira, 1946), os Bijagós eram descritos como hostis e guerreiros, continuamente em luta não só em relação ao povo vizinho Beafada, mas também entre si, umas ilhas contra as outras. O autor avança com a hipótese de que estas ilhas, outrora chamadas ilhas de Boao ou ilhas do Infante, poderiam ter estado ligadas ao continente numa época remota. Para ele o isolamento deste povo em relação aos outros da costa da Guiné constituiria a principal causa das diferenças entre a língua falada no arquipélago, a língua dos Brames e a dos Beafadas.
Qual é a origem da povo bijagó?
A origem do povo bijagó é ainda uma questão em aberto. Ao longo dos séculos, diferentes autores tentaram formular várias hipóteses, registadas cronologicamente da seguinte forma:
1. Século XVII. - Entre os autores que durante este século mencionam o povo bijagó encontram-se frei André de Faro, em 1664 (Silveira, 1945), De La Croix (1668) e Francisco de Lemos Coelho.

Foi Coelho quem tentou encontrar uma resposta para a origem dos Bijagós (Academia Portuguesa de História, 1953). Segundo este mercador e viajante, que teve a oportunidade de se deslocar várias vezes ao arquipélago, os Bijagós teriam originalmente ocupado o continente, até que os Beafadas os expulsaram e forçaram a procurar refúgio nas ilhas. Seria esta a razão pela qual estes dois povos estariam continuamente em guerra um com o outro, tendo os Bijagós na altura tomado vantagem sobre os seus anteriores conquistadores. A ilha Roxa (Canhabaque) foi a primeira a ser habitada.


2. Século XVIII. - Durante este século, diferentes navegadores da Europa chegaram ao arquipélago, procurando estabelecer-se. Entre eles encontravam-se os navegadores franceses Mr. Brue, cuja viagem, no princípio do século, relatada pelo padre Jean Baptiste Labat, contêm muita informação sobre o povo «Bissagots» (Labat, 1728), e a de M. le Marechal de Castries, em 1784, relatada por Golberry (1802), que sugeria a ilha de Bolama como o melhor lugar para o estabelecimento dos Franceses. Foi contudo um navegador inglês, o capitão Philip, Beaver, quem primeiro tentou, em 1792, que os europeus se fixassem na parte nordeste da ilha de Bolama, com cerca de duas centenas de pessoas (Beaver, 1968). Tentou, com sucesso, negociar a posse da ilha, pelo Governo Britânico, com os chefes Jalorem e Bellchore, de Canhabaque. Após dezassete meses de domínio foi forçado a abandoná-la, devido ao alto índice de mortalidade entre os seus companheiros, provocado pelos contínuos combates com os «Bijuga de Canabac». Segundo o relato de Beaver, sabemos que os Bijagós estiveram sempre em guerra com os Beafadas. Segundo as suas palavras: «Diz-se que não houve entre estes ilhéus nenhum caso conhecido em que tenham guerreado entre si» (1968: 340).
3. Século XIX. - Depois da tentativa de Beaver em colonizar a ilha de Bolama, outros navegadores ingleses, incluindo o capitão Owen, visitaram o arquipélago no início do século (Owen, 1833), e segundo Edward Stallibrass (1899), entre 1826 e 1846, vários oficiais da armada britânica fizeram uma inspecção cuidadosa do arquipélago, com o intuito de se começarem a fixar. Contudo, em 1870 o interesse britânico pelas ilhas terminou, com o reconhecimento, por parte do presidente Grant dos Estados Unidos, dos anteriores direitos dos Portugueses sobre o arquipélago.

Nem através das descrições dos britânicos nem das dos franceses (Baguet, 1887) se pode descobrir a origem dos Bijagós, e é sim através dos autores portugueses que podemos encontrar mais informação sobre este assunto. Em 1882, M. M. Barros;, um padre nativo da Guiné, deu-nos uma nova explicação sobre a origem deste povo (Barros, 1882). Segundo ele os Bujagós ou Sinjàs, como lhes chamava, eram os escravos provenientes de diversas regiões, incluídos no tráfico de Guinala, que conseguiram libertar-se e procurar refúgio nas ilhas Bijagós. Perseguidos pelos seus donos até às mais longínquas ilhas de Orango e Caraxe, encontraram finalmente a coragem para combater os seus opressores, os Beafadas. Hoje em. dia os Bijagós são os descendentes de cruzamentos com os Papéis e a sua cultura foi influenciada por um tipo de vida guerreira, com uma fé profunda na transmigração das almas.

4. Século XX. - Os escritores modernos que estudaram o povo bijagó mostram um particular interesse pelas suas características invulgares e de índole mitológica. Estes estudos dizem-nos que o povo bijagó tem mulheres como chefes nalgumas das ilhas (Pereira, 1914) e que tiveram contactos, antigamente, com povos remotos da Etiópia, da Fenícia e do Egipto (Simões, 1935).

Vale a pena observar que aquilo que os primeiros autores atribuíam à crueldade e barbárie dos Bijagós, atribui-se agora a semelhanças mitológicas e pouco aprofundadas com outros povos antigos. E isto porquê? Porque abordando o povo bijagó segundo esta tendência comparativa, é muito mais fácil explicar a sua origem, alguns traços invulgares do seu comportamento e estrutura social. Para os autores que tiveram oportunidade de tratar directamente com eles, os Bijagós aparentam ser um povo original, inventivo, pacífico e independente, cuja crueldade para os negociantes estrangeiros era a maneira que tinham de se defender de invasões externas. Os aspectos da sua estrutura sócio-cultural, muitas vezes tão diferentes dos de outros povos da costa da Guiné, podiam ser melhor entendidos pela sua capacidade de adaptação no meio ambiente do arquipélago. Posteriormente, os Bijagós aprenderam como tirar partido dos diferentes acontecimentos históricos ocorridos na África Ocidental, nos últimos dez séculos, primeiro com os impérios africanos e depois, no século XVI, com o comércio dos escravos e com as actividades coloniais.


5. Escritos recentes sobre o povo bijagó.- O viajante Adolf Bernartzik, que visitou o arquipélago em 1928 (Bernartzik, 1959), observou que os habitantes de muitas ilhas diferentes apareciam como um único povo que tinha emigrado do continente para o arquipélago por razões desconhecidas. Hoje, uma teoria comum explica os movimentos do chamado grupo de povos atlântico-ocidental (Bijagós, Landumãs, Balantas, Diolas, Baiotes, Pepéis, Nalús, Tandas e Koniaguis) em direcção à costa da Guiné, pelas migrações para a parte ocidental da África do chamado grupo de povos sudaneses (Fulas, Mandingas e Soninkés) durante os séculos XIII e XV (Maclaud, 1906).

Nos últimos quarenta anos, três autores portugueses tentaram descrever alguns aspectos da vida e da cultura do povo bijagó: Carvalho Viegas (1937), José Mendes Moreira (1946) e Augusto Santos Lima (1947), que forneceram novas informações sobre as origens deste povo recolhidas principalmente da tradição oral. Segundo Viegas, que escreveu no interesse do chefe militar português Marques Duarte, os Bijagós são os descendentes dos Tandas da região de Conhagui, na Guiné-Conakri. Primeiro teriam fugido para a região de Cacine por causa da oposição e das ameaças dos Fu1as e posteriormente ter-se-iam encaminhado para o arquipélago devido à pressão dos Beafadas.

Mendes Moreira diz que os Bijagós são originários da Guiné-Bissau (como os Felupes, os Papéis, os Balantas e os Manjacos) e que chegaram ao arquipélago em tempos muito antigos.

Augusto Lima, outrora administrador português do arquipélago, propõe duas soluções para a origem dos Bijagós: em primeiro lugar pareceram-lhe ser um povo não muito diferente dos outros do grupo atlântico ocidental da Guiné-Bissau; em segundo lugar, lidando com eles era possível falar de sociedades diferentes com tradições diferentes, somente de ilha para ilha.

Este escritor coloca estas duas observações muito próximas da teoria do Carvalho Viegas, que considerava o povo bijagó dividido em quatro grupos distintos: o de Canhabaque, originário de Conhagui, da Guine-Conakri; o de Bubaque-Soga-Galinhas, originário de Quinara (ocupada agora pelos Beafadas); o de Orango Grande-Orangozinho-Canogo-Meneque-Uno-Uracane-Egubá-Formosa-Unhocomo-Unhocomozinho, originário do Bandim (ocupado agora pelos Papéis), e por fim o de Caraxe-Caravela-Ponta-Maio), originário do Biombo e Pecixe (ocupados actualmente por Papéis e Manjacos, respectivamente) (Viegas, 1936-1940).
6. Tradições orais recentes Segundo a opinião de Teixeira da Mota (1974), alguns grupos de povos, os Conhaguis, os Tendas, os Badjarancas, os Beafadas e os Bijagós estariam fixados na costa da Guiné antes da chegada dos Mandingas.

Um outro elemento importante a considerar, para tentar compreender melhor a origem dos Bijagós, é a sua crença, reconhecida já por Bernartzik, de que pertencem a um mesmo povo com os mesmos ancestrais mitológicos. As tradições diferentes e as diferenças que encontramos na sua linguagem normal são insuficientes para apoiarem a teoria de diferentes origens para os vários grupos. As variantes linguística e cultural podem ser melhor explicadas através dos diferentes contactos feitos pelas tabancas de uma ilha, durante os séculos passados. Segundo as investigações de Teixeira da Mota, na ilha de Bubaque descobriram-se algumas variações no léxico e na pronúncia entre Ancamona e Bijante, atribuídas aos contactos sócio-culturais escassos entre as duas tabancas. Os Bijagós, durante a sua longa história no arquipélago, mantiveram relações mais estreitas com umas ilhas do que com outras, o que pode explicar o motivo por que podemos considerar cinco grupos principais de ilhas de acordo com as semelhanças dos traços culturais e linguísticos: Canhabaque-Bubaque, Formosa, Orango-Uno, Soga- Ilha das Galinhas e Caravela, o que não implica necessariamente qualquer diferença primordial na sua origem.

Segundo muitos habitantes da ilha de Bubaque, ninguém sabe ao certo nem a altura em que apareceram nem de onde descendem todos os Bijagós. Um informador disse-me: «Eles já lá encontraram o assento sagrado e o espírito guardião» (B. Orébok). De igual modo, poucas informações fornecem sobre quando e come começou o mundo, sendo porém crença comum entre eles que foi Orébok, um intermediário entre o Ser Supremo (B. Nindo) e os Bijagós, o seu criador. O primeiro ser humano era uma mulher chamada Maria, cujo nome foi originado na primeira palavra que o seu filho lhe dirigiu enquanto jazia desesperado e nu à beira-mar: «Vem, leva-me» (B. Ma-Riá). Teve quatro filhos, Uracuma, Oraga, Onocá ou Ogubane e Ominca, que são os quatro ancestrais mitológicos de quatro clãs matrilineares (C. djorson). A maioria dos Bijagós pode frequentemente estar de acordo com estas tradições; mas quando se lhes pede que especifiquem mais pormenores, podem ouvir-se uma diversidade de opiniões, segundo a fonte de informação.

Em concordância com o que foi escrito por autores anteriores (sobretudo Barros), gostaria de acrescentar que segundo a tradição e história familiar os Bijagós são originários da Região da Buba, no continente, e as primeiras ilhas ocupadas foram, por ordem cronológica, Canhabaque, Orango, Uno, Bubaque, Formosa e Caravela. Inicialmente o arquipélago era ocupado só pelo povo bijagó e nessa altura Orébok estava permanentemente na cabana sagrada (B. kandjá kamotó), realizando coisas maravilhosas. Dizem que estes prodígios não mais acontecem porque vivem outros povos na sua terra, interferindo com as suas actividades e afectando adversamente as suas relações com o espírito.



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