Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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PRÓLOGO
EU SABIA QUE MINHA VIDA SERIA destruída se abrisse aquela porta vermelha.

Isso pode parecer melodramático e de mau agouro. Não sou lá muito chegado a nada disso. Além do mais, verdade seja dita: não havia nada de ameaçador naquela porta. Ela era absolutamente comum, dessas que a gente vê em quase todas as casas dos bairros de classe média, com a pintura já meio desbotada, quatro almofadas de madeira, maçaneta imitando bronze e, mais ou menos à altura do peito, uma aldrava sem qualquer utilidade.

No entanto, enquanto eu caminhava em direção a ela sob a luz débil de um poste distante, a escuridão parecia se abrir como uma boca prestes a me devorar inteiro. Era impossível afastar a sensação de perigo iminente. Cada passo me custava certo esforço, como se eu estivesse pisando não em uma calçada já um tanto gasta, mas em cimento fresco. O corpo dava todos os avisos: frio na espinha, pelos eriçados nos braços, arrepio na nuca e no couro cabeludo.

As luzes da casa estavam apagadas. Chynna havia me avisado que estariam. A casa em si era das mais comuns, talvez discreta demais, e por algum motivo isso me incomodava. Ficava isolada no fim de uma rua sem saída, misturando-se à escuridão como se quisesse manter os intrusos a distância.

Aquilo não me agradava.

Nada daquilo me agradava, mas o que eu podia fazer? Eu sou assim. Recebi a ligação de Chynna pouco depois do jogo de basquete dos Newark Biddy. Sou o técnico do time formado por alunos do quarto ano que, assim como eu, são órfãos de pai e mãe. Apesar da vantagem de seis pontos, conseguimos perder a partida a dois minutos do final. Nas quadras, como na vida, não nos saímos muito bem sob pressão.

O telefone tocou quando eu me reunia com a garotada para a preleção pós-jogo, que de modo geral consiste em mensagens profundas e inspiradoras do tipo “Belo trabalho!”, “No próximo a gente vai à forra” ou “Não esqueçam que quinta-feira tem mais” e que sempre terminam com todos os garotos formando um círculo, juntando as mãos no centro e gritando: “Defesa!”, talvez porque não tenhamos nenhuma.

– Dan?

– Quem é?



– É Chynna. Venha para cá, por favor.

Percebendo a agitação na voz dela, despachei os garotos e corri para o carro. Nem banho havia tido tempo de tomar e agora o suor do jogo se misturava ao de nervosismo.

Reduzi o ritmo das passadas e perguntei a meus botões onde é que eu estava com a cabeça. Para início de conversa, deveria ter tomado uma ducha. Não funciono direito quando me sinto sujo. Sempre fui assim. Mas Chynna havia pedido, mais do que isso, implorado que eu fosse rápido, antes que os outros chegassem. Portanto, segui caminhando rumo à porta, a camisa de malha cinza marcada pela transpiração e grudando no peito.

Como a maioria dos jovens com os quais trabalho, Chynna era uma garota problemática. Talvez por isso meu alarme interno tivesse disparado. Eu não havia gostado nem um pouco do tom de sua voz ao telefone, achara aquilo tudo muito estranho.

Respirei fundo e dei uma rápida conferida na retaguarda. Alguns sinais de vida surgiam ao longe: lâmpadas acesas nas casas, uma porta de garagem aberta, a cintilação de uma tela de TV ou de computador – mas naquela rua sem saída não havia nada, nenhum ruído ou movimento, apenas o silêncio da noite.

Meu celular vibrou e quase morri de susto. Deduzi que fosse Chynna, mas não, era Jenna, minha ex-mulher. Atendi e ela disse:

– Preciso de um favorzinho, pode ser?

– Estou meio ocupado agora – falei.

– Preciso de um baby-sitter amanhã à noite, só isso. Pode trazer a Shelly se quiser.

– Shelly e eu… bem, nós estamos com alguns problemas.

– De novo? Mas ela é perfeita para você!

– Esse é o problema. Eu sempre estrago tudo quando a mulher é perfeita.

– Disso eu já sabia.

Faz oito anos que Jenna, minha adorável ex, se casou de novo. O marido dela é um respeitado médico, Noel Wheeler, que trabalha como voluntário no meu centro de assistência a adolescentes. Gosto dele e ele gosta de mim. Ele tem uma filha de um casamento anterior, além de Kari, a menina de 6 anos que teve com Jenna e que é minha afilhada. As duas garotas me chamam de tio Dan e sou o baby-sitter oficial da família.

Sei que tudo isso pode parecer civilizado demais, Pollyanna demais, e talvez seja mesmo. De minha parte, talvez isso seja apenas uma questão de necessidade. Não tenho ninguém no mundo – nem pais, nem irmãos. Portanto, o mais próximo que tenho de uma família é minha ex-mulher. A garotada com a qual trabalho, ajudando e defendendo como posso, é o alicerce da minha vida, mas, no fim das contas, nem sei ao certo se minha ajuda faz mesmo alguma diferença.

– Terra chamando Dan – disse Jenna.

– Amanhã à noite – falei. – Pode contar comigo.

– Às seis e meia. Você é o máximo.

Jenna jogou um beijo do outro lado da linha e desligou. Encarando o celular por um instante, me lembrei do dia do nosso casamento. Casar foi um erro. É sempre um erro me aproximar demais das pessoas, mas, mesmo sabendo disso, não me contenho. Ponham um violino ao fundo, porque agora vou filosofar sobre o provérbio que diz que é melhor perder quem se ama do que nunca ter amado. Acho que isso não se aplica a mim. Repetir sempre os mesmos erros, ainda que tenhamos consciência deles, está no DNA de todos nós. Portanto aqui estou eu, o pobre órfão que conseguiu subir na vida, se formar com louvor em uma universidade de elite, mas que nem por isso conseguiu deixar de ser quem é. É uma pieguice, eu sei, mas quero ter alguém. Infelizmente esse não é meu destino. Sou um lobo solitário que não quer ficar sozinho.

“Somos o lixo da evolução, Dan…”

Aprendi isso com meu “pai” substituto favorito, um professor universitário que adorava um debate filosófico.

“Pense bem. Ao longo de toda a história da humanidade, os mais fortes e inteligentes fizeram o quê? Foram para a guerra. As coisas só mudaram no último século. Antes disso, mandávamos para as linhas de frente o que tínhamos de melhor. Quem ficava em casa fazendo filhos enquanto eles morriam nos campos de batalha? Os fracos, os doentes, os aleijados, os desonestos, os covardes… em suma, a escória. É dessa escória que nós viemos, Dan. Passamos séculos e séculos jogando fora o trigo e aproveitando o joio. Por isso eu digo: somos produto do lixo, todos nós – o excremento que restou depois de séculos de degradação genética.”

Ignorei a aldrava e bati de leve na porta, que rangeu e se abriu alguns centímetros. Não havia percebido que estava só encostada.

Também não gostei disso. Não gostei nada disso.

Quando garoto, eu via muitos filmes de terror, o que era estranho, porque os detestava. Odiava levar sustos, não suportava todo aquele sangue e, apesar disso, assistia aos filmes e adorava as protagonistas burrinhas e previsíveis. Pois agora as cenas se repetiam na minha cabeça, aquelas em que a tal mocinha burra bate à porta, a porta se abre lentamente e você grita: “Sai daí!”. Aí ela não sai e você não entende por que e, dois minutos depois, o assassino está triturando o cérebro dela.

Eu deveria cair fora imediatamente.

Era o que eu estava prestes a fazer, mas então pensei no telefonema de Chynna, nas palavras dela, na voz trêmula. Respirei fundo e enfiei a cabeça pela fresta.

Apenas escuridão.

Bem, chega de suspense barato

– Chynna? – arrisquei, minha voz ecoando pela casa.

Se eu estivesse certo, a sequência seria apenas silêncio, nenhuma resposta. Abri a porta mais um pouco, arrisquei um passo adiante e…

– Dan? Estou aqui nos fundos. Pode entrar.

A voz estava abafada, distante.

Mais uma vez, não gostei nada daquilo. Mas àquela altura não havia como voltar atrás. Recuar já havia me custado muito caro na vida. Minha hesitação sumiu de repente. Eu sabia o que precisava fazer.

Entrei no hall e fechei a porta.

Qualquer outra pessoa no meu lugar teria levado uma arma. Cheguei a pensar no assunto, mas não sou lá muito fã dessas coisas. De qualquer forma, era tarde demais para me arrepender. Não havia ninguém mais em casa, Chynna tinha dito. E caso houvesse, eu daria um jeito.

– Chynna?

– Me espere na saleta. Encontro você lá daqui a pouco.

A voz dela parecia… arredia.

Uma luz estava acesa no fim do corredor. Fui caminhando na direção dela. Agora havia ruídos. Parei para ouvir. Água. De um chuveiro, talvez.

– Chynna?

– Só mais um segundo. Estou trocando de roupa.

Fui até a saleta mal iluminada. Havia um interruptor com dimmer e pensei em aumentar a intensidade da luz, mas acabei desistindo. Logo meus olhos se adaptaram. O forro das paredes era de um material que mais parecia PVC que qualquer tipo de madeira. Havia dois quadros: imagens de palhaços tristes com flores enormes na lapela, do tipo que se encontraria em um hotel de beira de estrada. Uma enorme garrafa de vodca barata estava aberta sobre o bar.

Pensei ter ouvido um sussurro.

– Chynna? – chamei.

Nenhuma resposta. Agucei os ouvidos. Nada.

Já ia voltar ao corredor, para o ponto onde ouvira o som de água, quando a voz disse:

– Já estou indo.

Senti um frio na espinha. A voz estava mais perto agora, eu podia ouvi-la melhor. E isto era o mais estranho: não soava nem um pouco como a de Chynna.

Então três coisas me atingiram. Primeiro, o pânico. Não era Chynna quem estava ali e o mais sensato seria bater logo em retirada. Depois, a curiosidade. Se não era Chynna, quem seria, afinal? E o que, diabos, estaria acontecendo? Por fim, mais pânico. A ligação havia sido de Chynna. O que teria acontecido a ela?

Eu não podia simplesmente sair correndo.

Dei um passo em direção à porta da saleta. E foi então que tudo aconteceu. Uma luz forte me cegou. Cambaleei para trás, tapando os olhos com a mão.

– Dan Mercer?

Pisquei. Uma voz feminina. Profissional. Séria e estranhamente familiar.

– Quem é você?

Subitamente outras pessoas entraram na sala. Um homem com uma câmera sobre o ombro. Outro com uma haste que parecia ter um microfone na ponta. E a mulher de voz familiar, cabelos castanhos e terninho. Linda.

– Wendy Tynes, NTC News. O que você veio fazer aqui, Dan?

Abri a boca para falar, mas nada saiu. Reconheci a apresentadora da tal rede de TV…

– Por que você tem mantido conversas on-line de cunho sexual com uma garota de 13 anos? Temos todos os registros dessas conversas.

… aquela que atraía pedófilos para uma armadilha e os flagrava diante das câmeras para que o mundo inteiro pudesse ver.

– Veio aqui para ter relações sexuais com uma garota de 13 anos?

Quando enfim me dei conta do que realmente estava acontecendo, senti os ossos congelarem. Mais pessoas irromperam na sala. Produtores, na certa. Um segundo cameraman. Dois policiais. As lentes chegaram mais perto. As luzes se intensificaram. Gotículas de suor brotavam em minha testa. Comecei a tremer, a negar.

Tarde demais.

Dois dias depois, o programa estava no ar. O mundo inteiro viu.

E a vida de Dan Mercer, exatamente como eu havia pressentido diante daquela porta vermelha, foi destruída.

♦ ♦ ♦


Marcia McWaid não entrou em pânico quando viu a cama da filha vazia. Isso aconteceria depois.

Ela havia acordado às seis da manhã, cedo para um sábado, sentindo-se ótima. O marido, Ted, com quem estava casada fazia 20 anos, dormia de bruços a seu lado, o braço enlaçando sua cintura. Ted gostava de dormir apenas de camiseta, sem a calça do pijama ou qualquer outra peça de roupa, totalmente nu da cintura para baixo. “Meu amigo aqui precisa de espaço”, ele costumava dizer com um sorriso malicioso. E Marcia, imitando as filhas adolescentes, retrucava: “Nem me faaaaale!”

Marcia se desvencilhou do marido, desceu até a cozinha e preparou uma xícara de café com a nova máquina de espresso, dessas em que o pó vem em sachês. Ted adorava novidades tecnológicas (meninos e seus brinquedos), mas essa era de fato útil. Bastava pegar o sachê, encaixar na máquina e pronto: café. Nada de wireless, telas digitais ou touch pads. Marcia a adorara.

Haviam reformado a casa fazia pouco tempo: outro quarto, mais um banheiro e uma extensão da cozinha, um cantinho extra cercado por vidraças que deixavam o sol da manhã entrar sem nenhuma cerimônia. Esse agora era o lugar preferido de Marcia na casa. Foi para lá que ela levou seu café e o jornal. Acomodou-se junto a uma das janelas e cruzou os pés à sua frente.

Um pedacinho do paraíso.

Ela se deixou levar pela leitura regada a café. Dali a pouco precisaria come-çar a cumprir a agenda do dia. Às oito teria de levar Ryan, seu caçula, para o jogo de basquete dos alunos do terceiro ano. Ted era o técnico da equipe, que não vencia um jogo havia duas temporadas.

“Por que suas equipes nunca ganham?”, Marcia havia perguntado certa vez.

“Deve ser por causa dos meus dois critérios de seleção dos garotos.”

“Que são?…

“Pai gente boa… e mãe gostosa.”

Rindo, Marcia o cobrira de tapas. Teria até ficado preocupada, se já não conhecesse as mães em questão e tivesse certeza de que o marido estava brincando.

Na verdade, Ted era um excelente técnico, não por ser um bom estrategista, mas porque sabia lidar com os garotos. Todos o adoravam e ficavam felizes por ele não cobrar loucamente que vencessem, de modo que até mesmo os jogadores menos talentosos, os que geralmente perdiam a motivação e abandonavam o time no meio da temporada, compareciam religiosamente aos treinos semanais. Ted chegara a improvisar uma musiquinha: “Vocês dão à derrota uma ótima reputação.” Os garotos riam e vibravam a cada cesta marcada e, para uma criança de terceiro ano, era assim que devia ser.

Patricia, a filha de 14 anos do casal, teria de ir para o ensaio de uma peça, uma versão do musical Os miseráveis. Embora tivesse recebido apenas alguns papéis sem muito destaque, precisava ensaiar tanto quanto os colegas. E Haley, a filha mais velha, já no último ano do colégio, havia agendado um treino livre para a equipe feminina de lacrosse. “Treino livre” era a artimanha que usavam para burlar as rígidas normas dos esportes estudantis e se divertirem em uma partida organizada pelas capitãs de cada time, sem técnicos ou juízes.

Assim como a maioria dos pais e mães que moravam nos bairros mais nobres, Marcia tinha uma relação de amor e ódio com os esportes. Sabia que eles teriam relativamente pouca relevância a longo prazo, mas nem por isso conseguia refrear seu entusiasmo.

Uma meia horinha de paz para começar o dia. Era o que bastava.

Ela preparou uma segunda xícara de café e pegou o caderno “Estilo” do jornal. Percebendo o silêncio que ainda reinava na casa, voltou ao andar de cima para dar uma conferida em sua trupe. Ryan dormia de lado, virado para a porta, e mais uma vez ela se sentiu feliz por ver os traços de Ted no rosto do filho.

Em seguida foi até o quarto de Patricia, que também dormia ainda.

– Filha!… – chamou.

Patricia resmungou e se mexeu na cama. Seu quarto, assim como o de Ryan, dava a impressão de que alguém havia colocado dinamite nas gavetas: peças de roupa jaziam mortas no chão ou feridas a meio caminho dele, penduradas na cômoda feito combatentes das barricadas revolucionárias.

– Patricia, você tem ensaio daqui a uma hora.

– Já estou acordada – ela gemeu, numa voz que indicava o contrário.

Marcia passou ao quarto de Haley e, cuidando para não fazer barulho, espiou pela porta.

A cama estava vazia.

Também estava arrumada, mas isso não chegava a ser surpresa. Ao contrário dos quartos dos irmãos, o de Haley estava sempre em ordem, limpo e meticulosamente organizado. Poderia ser confundido com a vitrine de uma loja de móveis. Nenhuma roupa no chão, todas as gavetas fechadas. Os troféus – e havia muitos – alinhados com perfeição em quatro prateleiras. Ted havia acrescentado a última delas recentemente, após a vitória do time da filha no torneio de fim de ano em Franklin Lakes. Haley havia redistribuído todos os troféus, de modo que o mais recente não ficasse sozinho na prateleira nova. Marcia não sabia por quê. Parte do motivo era que Haley não queria dar a entender que esperava ganhar mais troféus para completar o espaço, mas a verdade era que a menina tinha horror a qualquer sintoma de desorganização. Gostava de manter a mesma distância entre cada troféu. Sempre que ganhava mais um, reorganizava todos. Haley era equilíbrio. Era a filha exemplar e, ainda que isso fosse bom – a garota tinha planos, estudava por iniciativa própria, detestava que os outros pensassem mal dela, era absurdamente competitiva –, seu comportamento tinha uma rigidez que beirava o TOC e preocupava a mãe.

Marcia se perguntou a que horas Haley havia chegado em casa. Não impunha mais horários à filha, simplesmente porque não havia necessidade. Haley era responsável, muito em breve iria para a universidade e jamais se aproveitava dos privilégios que tinha. Marcia estava cansada e fora dormir às 10 da noite. Ted, em seu constante estado de “cio”, subira logo depois.

Ela estava prestes a deixar o assunto de lado, quando algo, ela não sabia exatamente o quê, fez com que decidisse pôr roupa para bater na máquina. Foi em direção ao banheiro de Haley. Ryan e Patricia, os filhos mais novos, achavam que “cesto de roupa suja” não passava de um eufemismo para “chão”, ou melhor, para “qualquer outro lugar que não seja o cesto de roupa suja”. Mas Haley, é claro, obediente e religiosamente, todas as noites jogava no cesto do banheiro as roupas que havia usado durante o dia. Foi então que Marcia sentiu uma pequena pedra se formar no peito.

O cesto de Haley estava vazio.

Sentiu a pedra crescer quando examinou a escova de dentes, depois a pia e o boxe.

Tudo absolutamente seco.

Sentiu-a crescer um pouco mais quando chamou por Ted, tentando apagar da voz qualquer sinal de pânico. Mais ainda quando eles foram até o campo de lacrosse e descobriram que Haley não havia passado por lá. Mais ainda quando ela ligou para as amigas da filha enquanto Ted mandava e-mails a todos os conhecidos. Mais ainda quando eles ligaram para a polícia e foram obrigados a ouvir do delegado que Haley decerto havia saído de casa só para extravasar suas frustrações na rua. Mais ainda quando, 48 horas depois, o FBI foi chamado. Mais ainda quando uma semana inteira se passou sem que eles tivessem qualquer notícia da filha.

Era como se Haley tivesse sido tragada pela terra.

Um mês se passou. Nada. Depois dois. Nada também.

Já haviam se passado quase três meses quando enfim eles receberam a notícia – e a pedra que havia se formado no peito de Marcia, a pedra que não a deixava respirar ou dormir durante a noite, parou de crescer.
PARTE UM

Três meses depois
– JURA DIZER A VERDADE, TODA A VERDADE, nada mais que a verdade?

Wendy Tynes respondeu que sim, subiu ao banco das testemunhas e correu os olhos pela sala. Tinha a impressão de estar em um palco, algo com que ela até certo ponto estava acostumada, já que era repórter de um programa de televisão. Dessa vez, contudo, sentia-se um tanto incomodada. Avistou os pais das vítimas de Dan Mercer, quatro casais que haviam comparecido a todas as audiências. De início eles traziam fotografias dos filhos e as erguiam num gesto de protesto, mas a certa altura foram proibidos pela juíza de fazê-lo. Agora se achavam mudos, apenas observando, e de algum modo isso era ainda mais intimidante.

O banco era desconfortável. Wendy se acomodou melhor, cruzou e descruzou as pernas e esperou.

Flair Hickory, advogado de defesa e celebridade dos tribunais, ficou de pé. Como de costume, usava um terno cinza de listras rosa, camisa rosa e gravata da mesma cor. Atravessou a sala de um jeito que poderia sutilmente ser chamado de “teatral”, mas que na verdade lembrava um showman – se o showman fosse muitíssimo exibicionista. Wendy se perguntou, não pela primeira vez, de onde Dan Mercer teria tirado o dinheiro para pagar os honorários de Hickory.

– Sra. Tynes – ele começou, com um sorriso simpático. – Meu nome é Flair Hickory. Muito bom dia.

Esse era seu estilo. Sim, Flair era gay, mas nos tribunais ele gostava de exagerar nos trejeitos, praticamente um artista extravagante usando calça de couro e dublando Liza Minelli em um musical.

– Bom dia – respondeu ela.

– A senhora trabalha em um programa de TV sensacionalista chamado Flagrante, correto?

O promotor público, Lee Portnoi, objetou:

– Protesto! Não há evidências para corroborar a alegação de que o referido programa de TV seja “sensacionalista”.

Flair sorriu e disse:

– Quer que eu apresente as evidências, Sr. Portnoi?

– Não será necessário – interveio a juíza Lori Howard, já visivelmente aborrecida. Virando-se para Wendy, disse: – Pode responder à pergunta.

– Não trabalho mais no programa – disse Wendy.

Flair se fez de surpreso.

– Não? Mas trabalhava, não trabalhava?

– Sim, trabalhava.

– E o que aconteceu?

– O programa foi cancelado pela emissora.

– A audiência estava baixa, é isso?

– Não.

– Não mesmo? Então, por quê?



– Excelência – disse Portnoi –, todos nós sabemos por quê.

Lori Howard assentiu com a cabeça.

– Pode prosseguir, Sr. Hickory – ordenou.

– A senhora conhece Dan Mercer, meu cliente?

– Conheço.

– E invadiu a casa dele, correto?

Wendy tentou sustentar o olhar do advogado e não parecer culpada, fosse lá o que isso significasse.

– Não exatamente – disse.

– Não exatamente? Bem, querida, minha intenção é apenas zelar pela exatidão dos fatos, tanto quanto humanamente possível. Portanto, que tal recuarmos um pouco no tempo?

Flair caminhou pelo tribunal como se estivesse numa passarela de Milão. Chegou a sorrir para os parentes das vítimas. A maioria deles fez questão de desviar os olhos, mas um dos pais, Ed Grayson, o fulminou com o olhar. Flair não se intimidou.

– Como foi que a senhora conheceu meu cliente?

– Ele tentou me seduzir numa sala de bate-papo na internet.

As sobrancelhas de Flair se ergueram.

– Verdade? – ele exclamou, como se aquilo fosse a coisa mais extraordinária que alguém já tivesse dito. – Que espécie de sala de bate-papo?

– Uma sala frequentada por crianças.

– E a senhora estava nessa sala?

– Estava.

– Mas não é nenhuma criança, Sra. Tynes. Quer dizer, mesmo alguém com as minhas preferências é capaz de ver que a senhora é uma mulher adulta e, mais que isso, uma mulher, digamos, voluptuosa.

– Protesto!

A juíza exalou um suspiro.

– Sr. Hickory, por favor.

Flair sorriu e se desculpou com um aceno de cabeça. Esse era o tipo de coisa que ele, e mais ninguém, podia fazer sem grandes consequências.

– Pois bem, Sra. Tynes. Quando entrava nessa sala da internet, a senhora se fazia passar por uma moça menor de idade, correto?

– Sim.


– E começava conversas com o intuito de seduzir adultos do sexo masculino, isso também é correto?

– Não.


– Como assim?

– Eu sempre deixava que eles dessem o primeiro passo.

Flair sacudiu a cabeça enquanto deixava escapar um risinho de ironia.

– Ah, se eu tivesse ganhado um dólar cada vez que disse isso…

Risadas irromperam pelo tribunal.

– Temos as transcrições, Sr. Hickory – disse a juíza. – Podemos lê-las e chegar a uma conclusão por conta própria.

– Muito bem colocado, Excelência. Obrigado.

Wendy se perguntava por que Dan Mercer não estava presente, mas talvez o motivo fosse óbvio. Aquela era uma audiência preliminar, a presença do réu não era obrigatória. Flair Hickory esperava convencer a juíza a desconsiderar todo o material horrendo e nauseante que a polícia havia encontrado no computador de Dan Mercer e em diversos pontos da casa dele. Se conseguisse (e todos concordavam que as chances eram mínimas), o caso dificilmente seria levado a juízo e um psicopata permaneceria à solta.



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