Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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Em parte era esse o motivo pelo qual Wendy prendera os cabelos e vestira sua blusa abotoada até em cima, com uma calça jeans relativamente larga e os óculos “de velha”. Com os casados ela nunca estendia a conversa. Nunca, jamais. Tudo bem se as pessoas a chamassem de metida ou arrogante. Melhor do que “oferecida”, “assanhada” ou coisa pior. Já bastava a desconfiança das mulheres da cidade. Em encontros como aquele, sua vontade era aparecer vestindo uma camiseta com uma frase do tipo JURO QUE NÃO QUERO ROUBAR O MARIDO DE NINGUÉM.

O assunto que os pais mais discutiam era universidade. Mais especificamente, qual filho havia conseguido entrar para qual curso em qual lugar. Alguns contavam vantagem, outros faziam piada e outros tantos, os preferidos de Wendy, elogiavam a obscura faculdade para a qual o filho entrara, como se ela fosse bem melhor que a outra, a que não havia aceitado seus respectivos rebentos. Talvez fosse crueldade dela se divertir com isso. Eles estavam apenas fazendo uma limonada com o limão que tinham.

Finalmente o sinal tocou e todos se dirigiram para o ginásio da escola. Havia estandes distribuindo adesivos: DIRIJA COM CUIDADO, NÓS NOSSOS FILHOS, SEJA FELIZ SEM DROGAS. Uma barraquinha divulgava a campanha Na Nossa Casa, Não, aconselhando os pais a não permitirem bebidas alcoólicas nas festinhas dos filhos. A poucos metros de distância, alguém distribuía contratos simbólicos em que os adolescentes se comprometiam a não dirigir depois de beber e os pais, a buscá-los em qualquer lugar e a qualquer hora.

Wendy se acomodou numa cadeira nos fundos da quadra. Um dos pais encolheu a barriga, forçou um sorriso de galã e sentou ao lado dela. Apontando para os estandes, disse:

– Uma overdose de segurança, não acha? Somos protetores demais.

Wendy não deu papo. A mulher do sujeito, com cara de poucos amigos, sentou ao lado dele. Mais que depressa, Wendy a cumprimentou e se apresentou, dizendo que era mãe de Charlie e cuidando para não cruzar o olhar do galã sorridente.

Pete Zecher, o diretor da escola, subiu ao tablado e agradeceu a todos por terem comparecido naquela “semana tão difícil”. Seguiu-se um minuto de silêncio em homenagem a Haley. Alguns se perguntavam por que o encontro não havia sido adiado, mas o calendário da escola era tão cheio de atividades que simplesmente não havia outra data disponível. Além disso, quanto tempo esperar? Um dia? Uma semana?

Depois de alguns instantes de constrangimento geral, Pete passou a palavra a Millie Hanover, que, empolgada, anunciou que o tema do Projeto Formatura daquele ano seria o universo dos super-heróis. O ginásio seria decorado de modo a lembrar diferentes cenários de histórias em quadrinhos: a Batcaverna, a Fortaleza da Solidão do Super-homem, a mansão dos X-Men, o prédio da Liga da Justiça.

A ideia por trás do Projeto Formatura era propiciar aos formandos um lugar seguro para festejar depois das cerimônias oficiais. Os alunos seriam trazidos de ônibus e os pais ficariam do lado de fora. Nada de bebidas alcoólicas ou drogas, claro, embora nos últimos anos alguns garotos tivessem conseguido furar esse bloqueio. Mesmo assim, com os pais por perto e ônibus na porta, o Projeto Formatura parecia uma boa alternativa para as farras tradicionais.

– Eu gostaria de agradecer o esforço e a dedicação de todos os chefes de comitê – disse Millie. – Por favor, fiquem de pé. – Ela apresentou os chefes de cada comitê (decoração, bebida, comida, transporte, divulgação), todos recebidos com ruidosos aplausos. – Quanto aos demais aqui presentes, ainda contamos com sua participação. O sucesso do nosso projeto depende de vocês. Esta é uma ótima maneira de fazer com que nossos filhos tenham uma experiência positiva neste momento tão importante de suas vidas. Lembrem-se: tudo isto é para eles, os nossos filhos, então não devemos deixar a responsabilidade nos ombros dos outros.

Wendy dificilmente imaginaria uma forma mais condescendente para alguém fazer aquele convite.

– Estamos passando as listas de adesão de novos voluntários. Muito obrigada a todos pela atenção.

Em seguida Peter Zecher apresentou Dave Pecora, um oficial da polícia de Kasselton, que discursou longamente sobre os perigos associados às festas de formatura. Falou sobre heroína, cujo consumo vinha aumentando, e sobre os adolescentes estarem roubando remédios controlados dos pais para depois dividi-los com os amigos nas festas. No ano anterior, Wendy pensara em fazer uma matéria sobre o assunto, mas não havia encontrado nenhum caso real para usar como exemplo. Segundo alguns órgãos públicos, essas festas não passavam de lenda urbana.

– Quatro mil jovens morrem todos os anos devido à ingestão excessiva de álcool – Pecora agora falava dos perigos da bebida, deixando de informar se aqueles dados se referiam ao país ou ao mundo inteiro e em que faixa etária se enquadravam os “jovens” de suas estatísticas. – Os pais prestam um desserviço aos filhos quando permitem o consumo de álcool em suas festas particulares.

Com um tom bastante sério, o policial então narrou casos em que pais foram condenados e presos por homicídio culposo em situações semelhantes. Foi além: deu detalhes sobre o cotidiano de alguns deles na prisão.

Wendy conferiu discretamente as horas no relógio: nove e meia.

Três pensamentos não saíam de sua cabeça. O primeiro: ela queria sair logo dali e descobrir por que Phil Turnball havia ficado tão enigmático de uma hora para outra. O segundo: ela deveria se voluntariar para um dos tais comitês. Embora não fosse a mais empolgada com o Projeto Formatura (por um lado, aquilo lhe parecia mais uma forma de ceder aos caprichos dos filhos e, por outro, talvez os caprichos em questão fossem sobretudo os dos pais), seria mesmo injusto deixar que outros pais se incumbissem sozinhos de uma festa que também era para Charlie. E o terceiro, talvez o mais insistente de todos: ela não conseguia deixar de pensar em Ariana Nasbro, a motorista alcoolizada que matara John. Se os pais de Ariana tivessem comparecido a uma daquelas orientações tão exageradas, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Esperava que aquela overdose de noções de segurança pudesse realmente salvar vidas, para que outras famílias não tivessem de passar por tudo o que ela e Charlie haviam passado.

Zecher estava de volta ao tablado, agradecendo a presença de todos antes de dar por encerrada a reunião. Wendy olhava ao redor à procura de algum rosto familiar, censurando-se por conhecer tão poucos pais dos colegas de Charlie. Como era de esperar, os McWaid não estavam lá. Tampouco os Wheeler. A defesa que Jenna fizera do ex-marido havia lhe custado preciosos pontos no ranking social e a morte de Haley só piorara as coisas, tornando sua vida em Kasselton praticamente insustentável.

Alguns pais se dirigiram aos lugares designados para adesão aos diversos comitês. Wendy lembrou que Brenda Traynor, chefe do comitê de divulgação, era não só amiga de Jenna Wheeler, como também uma grande fofoqueira: uma combinação explosiva diante das circunstâncias. Wendy foi ao encontro dela.

– Oi, Brenda.

– Que bom vê-la aqui, Wendy. Veio se inscrever em algum comitê?

– Humm, claro. Pensei que talvez eu pudesse ajudar na divulgação.

– Mas isso seria ótimo! Afinal, quem melhor para divulgar uma festa que uma renomada repórter de TV?

– Eu não diria “renomada”.

– Pois eu digo.

Wendy forçou um sorriso.

– Onde é que eu assino?

Brenda lhe passou a lista, depois disse:

– Nosso comitê se reúne às terças e quintas. Será que podemos marcar um dos nossos encontros na sua casa?

– Claro – disse Wendy, curvando-se para assinar a lista. – Então – ela emendou, querendo ser sutil, mas nem sequer chegando perto. – Acha que Jenna Wheeler pode dar alguma contribuição ao nosso comitê?

– Você só pode estar brincando.

– Acho que ela já trabalhou na área de jornalismo – devolveu Wendy, tirando aquilo do nada.

– E daí? Depois do que ela fez… Trazer aquele monstro para a nossa vizinhança… De qualquer modo, daqui a pouco os Wheeler já estarão longe.

– Longe? Como assim?

Brenda se inclinou na direção de Wendy.

– Colocaram uma placa de VENDE-SE na casa – confidenciou.

– Eu não sabia.

– Amanda nem vai participar da formatura. Uma pena, porque ela não tem culpa de nada. Mas acho que foi a decisão certa. Seria constrangedor para todo mundo.

– E para onde eles vão?

– Ouvi dizer que Noel conseguiu emprego num hospital em Ohio. Não sei se em Columbus ou Canton. Talvez Cleveland. Tem tanta cidade com C em Ohio que acabo me atrapalhando. Pensando bem, acho que é Cincinnati. Como eu disse, mais um C.

– É mesmo. Mas eles já se mudaram?

– Não, acho que não. Sabe a Talia? Talia Norwich, mãe da Allie? Uma mulher simpática, meio gordinha… Pois bem. Talia me contou que ouviu dizer que eles estão hospedados em um Marriott até poderem se mudar.

Bingo.


Wendy se lembrou do que Jenna tinha dito sobre Dan e o lado inacessível de sua personalidade. Sobretudo, pensou no que poderia ter acontecido a ele na faculdade. Talvez fosse o caso de procurá-la para mais um papinho.

Então ela se despediu e foi ao encontro de Phil Turnball.


28

PHIL A ESPERAVA EM UMA PARTE relativamente tranquila nos fundos do bar. Relativamente porque aquele era um bar temático e o tema eram os esportes: nem de longe o lugar ideal para introspecções ou conversas íntimas. Ali não se viam marmanjos de nariz vermelho e ombros murchos junto ao balcão, porque o sem-número de TVs transmitindo um sem-número de jogos e programas esportivos não permitia que os clientes ficassem afogando as mágoas nos copos.

O lugar cheirava mais a asinhas de frango e molho do que a cerveja. Duas equipes de softball de empresas confraternizavam ali depois de uma partida e, como era dia de jogo dos Yankees, dezenas de garotas circulavam com a camisa do time, volta e meia se deixando levar pelo entusiasmo e levantando a roupa, para infelicidade de seus acompanhantes. O barulho era enorme.

Wendy foi ao encontro de Phil. Ele usava uma camisa polo verde-limão desabotoada, deixando à mostra tufos de pelos grisalhos. Tinha o olhar distante e um meio sorriso no rosto.

– Também tivemos uma equipe de softball na empresa – disse. – Anos atrás. Logo quando entrei. Íamos para lugares como este depois dos jogos. Sherry sempre ia junto. Ela colocava aquelas camisas bem sexy de softball. Sabe quais? Umas brancas, bem justas e com mangas escuras que vão até o cotovelo.

Wendy fez que sim com a cabeça. Notou que Phil enrolava um pouco a língua.

– Meu Deus, como ela era linda…

Ela esperou que ele continuasse falando. Quase sempre o truque funcionava. O segredo de qualquer entrevista era resistir à tentação de quebrar o silêncio. O tempo foi passando. Bem, às vezes era preciso estimular o entrevistado.

– Sherry ainda é muito bonita – disse Wendy.

– É, sim.

O meio sorriso permanecia congelado no rosto de Phil. Os olhos estavam vidrados e o rosto, enrubescido pelo álcool da garrafa de cerveja já vazia.

– Mas ela já não olha para mim do jeito que olhava antes. Não entenda mal. Sherry me dá todo o apoio, ainda me ama. Sempre diz e faz a coisa certa. Mas dá para ver que não sou mais o mesmo homem para ela.

“Tenho certeza de que isso não é verdade” ou “Sinto muito” simplesmente não caberiam ali. Portanto, mais uma vez Wendy optou pelo silêncio.

– Quer beber alguma coisa? – ofereceu Phil.

– Claro.

– Já tomei algumas cervejas.

– Então acho que vou acompanhar você.

– Quer uma porção de nachos?

– Você já comeu?

– Não.


Tudo bem, então – disse. – Uma porção de nachos.

Phil acenou para a garçonete: Ariel, segundo informava o crachá. Ela vestia uma camisa de árbitro listrada e com um decote bastante revelador (o nome do bar era uma referência aos juízes do futebol americano, também conhecidos como “zebras”). Para completar o look, a moça trazia um apito pendurado ao pescoço e usava tinta preta sob os olhos. Wendy, claro, jamais tinha visto um juiz com o rosto pintado, mas e daí?

Eles fizeram seus pedidos.

– Quer saber de uma coisa? – disse Phil, observando a garçonete se afastar. – Já trabalhei em um lugar como este. Não exatamente igual, mas em um dessas redes de restaurantes que têm paredes decoradas, um bar no meio e estofados verdes, acho que para refletir uma época de maior pureza… Sabe quais?

Wendy meneou a cabeça. Ela sabia.

– Foi lá que conheci Sherry. Eu trabalhava como barman e ela era garçonete, dessas sempre alegres que chegam à mesa imediatamente e oferecem o tira-gosto que a empresa está tentando empurrar na clientela.

– Achei que você fosse um filhinho de papai.

Phil deu um risinho curto e levou a garrafa de cerveja à boca para extrair dela uma última gota. Só faltou dar um tapinha no fundo do vidro.

– Meus pais achavam que eu devia trabalhar. Onde você estava antes de vir para cá?

– Na escola do meu filho.

– Fazendo o quê?

– Reunião de formatura.

– Seu filho já foi aceito por alguma universidade?

– Já.


– Qual?

– Por que você me chamou aqui, Phil? – disse ela, ajeitando-se na cadeira.

– A pergunta foi pessoal demais? Desculpe.

– Só queria ir direto ao assunto. Já está tarde.

– Fico olhando para esses garotos de hoje e vejo que ainda tentam vender a eles o mesmo sonho estúpido que tentavam vender para nós: estude direitinho, tire boas notas, se prepare bem para as provas de admissão e, se possível, pratique algum esporte, porque as universidades adoram isso. E não se esqueça das atividades extracurriculares. Muitas. Quanto mais, melhor. Faça tudo isso e com certeza vai conseguir entrar para uma boa faculdade. É como se os primeiros 17 anos das nossas vidas não passassem de uma longa preparação para as universidades de elite.

O que era verdade, Wendy sabia. Bastava morar num bairro de classe média para que os anos de colégio se transformassem numa linha de montagem de universitários, às vezes bem-sucedida, outras vezes não.

– Pois veja só o que aconteceu a meus colegas – continuou Phil, engrolando as palavras bem mais do que antes. – Princeton. O crème de la crème. Kelvin era negro. Dan, órfão. Steve não tinha um tostão no bolso. Farley tinha mais sete irmãos e era filho de operários católicos. Todos nós chegamos lá, mas todos fomos infelizes. O garoto mais sorridente que conheci no colégio só conseguiu entrar para a Montclair State. Abandonou o curso no segundo ano e até hoje trabalha como barman. Ainda é o cara mais feliz que eu conheço.

– Os nachos vão demorar um pouquinho – anunciou a garçonete curvilínea.

– Tudo bem, meu anjo – disse Phil com um sorriso. Um sorriso simpático que, alguns anos antes, certamente teria sido retribuído. Phil demorou os olhos na garota, que pareceu não notar.

Tão logo a garçonete se afastou, ele ergueu sua garrafa para um brinde. Wendy ergueu a sua, fez o brinde e decidiu dar um basta à lenga-lenga.

– Phil, o que as palavras “cara cortada” significam para você?

Ele fez o que pôde para não se trair. Franziu a testa e, para ganhar tempo, chegou ao ponto de perguntar:

– Hein?

– Cara cortada.



– O que é que tem?

– O que isso significa para você?

– Nada.

– Está mentindo.



– Cara cortada? A única coisa que me vem à cabeça é Al Pacino naquele filme, Scarface – ele respondeu. Depois tentou imitar o sotaque do personagem de Al Pacino e começou a rir, na esperança de encerrar o assunto.

– E “caçada”, o que pode significar?

– De onde você tirou essas coisas, Wendy?

– De Kelvin.

Silêncio.

– Estive com ele hoje – completou Wendy.

O que Phil disse a seguir tomou-a de surpresa.

– É, eu sei.

– Sabe como?

Atrás deles, torcedores vibravam com um home run dos Yankees. Phil se inclinou para a frente e disse:

– Ainda não entendi direito qual é a sua.

– Como assim?

– A pobre daquela garota está morta. Dan também.

– E daí?


– E daí que acabou.

Wendy não falou nada.

– O que você ainda está procurando?

– Phil, você desviou aquele dinheiro?

– Que diferença isso faz?

– Sim ou não?

– É isso o que você está tentando fazer? Provar que sou inocente?

– Em parte.

– Não tente me ajudar, Wendy. Pelo meu bem. Pelo seu bem. Pelo bem de todo mundo. Por favor, deixe essa história de lado.

Phil desviou o olhar. Suas mãos encontraram a garrafa e rapidamente a levaram aos lábios. Ele tomou um gole demorado.

Wendy o encarava. Por um instante viu o que talvez Sherry visse também. Algo dentro dele (uma luz, uma chama, fosse lá o que fosse) havia se apagado. Pensou no que Pops dissera sobre como perder o emprego afetava os homens.

– Por favor – insistiu Phil, quase sussurrando. – Preciso que você deixe essa história de lado.

– Não quer descobrir a verdade?

Ele começou a descascar o rótulo da garrafa, os olhos atentos à tarefa como se ele fosse um artista trabalhando o mármore.

– Você acha que estão nos prejudicando – disse, ainda num sussurro. – Que nada. Tudo isso que aconteceu foi só um corretivo. Se a gente ficar na nossa, vão parar. Mas se continuarmos cutucando a onça… Se você continuar cutucando a onça, aí, sim, o caldo vai engrossar.

Phil observou o rótulo se soltar, escorregar pela mesa e cair no chão.

– Phil?

Ele ergueu os olhos para Wendy.



– Não entendi nada do que você falou – disse ela.

– Por favor, me escute. Preste bem atenção. As coisas vão piorar.

– Quem vai fazer as coisas piorarem?

– Não importa.

– Claro que importa.

A garçonete voltou trazendo uma pilha de nachos tão grande que parecia uma criança em seus braços. Largou-a sobre a mesa e disse:

– Mais alguma coisa?

Ambos disseram que não. A garçonete deu meia-volta e se afastou

– Quem está por trás disso, Phil? – ela perguntou, inclinando-se sobre a mesa.

– Não é bem assim.

– Assim como? É possível que eles tenham matado uma garota.

Phil balançou a cabeça.

– Foi o Dan quem a matou.

– Tem certeza?

– Tenho – ele disse apenas. Depois voltou a erguer os olhos para Wendy. – Você tem de acreditar em mim. Esse pesadelo vai acabar se você ficar na sua.

Ela não disse nada.

– Wendy?

– Me diga o que está acontecendo – implorou ela. – Não vou contar para ninguém. Prometo. Fica só entre nós.

– Deixe isso para lá.

– Pelo menos me diga quem está por trás disso tudo.

– Eu não sei.

– Como não? – rebateu Wendy, empertigada na cadeira.

Phil jogou duas notas de 20 dólares sobre a mesa e fez menção de se levantar.

– Aonde você vai?

– Para casa.

– Não está em condições de dirigir.

– Estou bem.

– Não, Phil, você não está nada bem.

– Só me faltava essa! – ele berrou, assustando-a. – Não vá dizer que agora você também está interessada na minha integridade física.

Phil irrompeu numa crise de choro. Em outro bar qualquer talvez isso tivesse atraído o olhar dos curiosos, mas com o barulho das televisões e a atenção geral voltada para os jogos, ninguém sequer virou o rosto.

– O que, diabos, está acontecendo? – perguntou Wendy.

– Fique na sua, está me ouvindo? Não estou falando isso só pelo nosso bem. Mas pelo seu também.

– O meu?

– Você está se colocando em perigo, Wendy. Seu filho também.

Ela o agarrou pelo braço.

– Phil!


Ele tentou ficar de pé, mas as pernas fraquejaram por causa do álcool.

– Você está ameaçando meu filho, é isso?

– Não, Wendy, você entendeu errado. É você quem está colocando os meus em perigo.

Wendy enfim o soltou.

– Mas como?

– Você precisa esquecer isso tudo – ele insistiu. – Todos nós precisamos. Desista de tentar localizar Farley e Steve, porque eles não vão falar com você. E deixe Kelvin em paz. Esse assunto já deu o que tinha de dar. Dan está morto. Acabou. Mas se você continuar pressionando, outras pessoas vão morrer.


29

WENDY AINDA TENTOU ARRANCAR mais informações de Phil, mas a certa altura ele simplesmente apagou e ela acabou tendo de levá-lo para casa. De volta a sua própria casa, encontrou Pops e Charlie diante da TV.

– Hora de dormir – disse.

– Ahhh… – resmungou Pops. – Deixa eu ver só mais um pouquinho, deixa?

– Muito engraçado.

– Já fiz melhor. Mas tem razão, é tarde.

– Charlie?

– Também achei muito engraçado – ele disse, sem tirar os olhos da TV.

Ótimo, ela pensou. Uma dupla de comediantes.

– Cama.


– Sabe que filme é esse?

Wendy olhou.

– Parece Madrugada muito louca, aquele filminho nada educativo.

– Exatamente – disse Pops. – E, na nossa família, ninguém para no meio de Madrugada muito louca. É falta de respeito.

Também gostava do filme, então se juntou a eles e, entre uma risada e outra, tentou não pensar em adolescentes mortas, pedófilos, ex-colegas de Princeton e ameaças a seu filho. Mas essa última parte ela não conseguia ignorar.

Talvez Phil estivesse certo. Sua história tinha a ver com Dan Mercer e, possivelmente, Haley McWaid. Essa questão estava encerrada. Além disso, ela havia conseguido o emprego de volta. No final, acabara se saindo muito bem daquilo tudo: a repórter que havia denunciado não só o pedófilo mas o assassino. Talvez o melhor fosse continuar daquele ponto, trabalhar com a polícia para ver se havia outras vítimas.

Ela olhou para Charlie: esparramado no sofá, ele ria de algo que Neil Patrick Harris no papel de Neil Patrick Harris tinha dito. Wendy adorava as risadas do filho. Que pai não adora? Ainda admirando sua cria, ela pensou em Ted e Marcia McWaid, que jamais voltariam a ouvir as risadas de Haley.

♦ ♦ ♦


Quando o despertador tocou na manhã seguinte, aparentemente depois de apenas alguns minutos de sono, ela se arrastou da cama e chamou por Charlie. Nenhuma resposta. Chamou de novo. Nada. Ela correu até a porta.

– Charlie!

De novo, silêncio.

Wendy mal conseguia respirar. Ela disparou corredor afora sentindo o coração martelar a caixa torácica e, sem bater, abriu a porta do quarto do filho.

Lá estava ele, claro, ainda na cama, as cobertas puxadas sobre a cabeça.

– Charlie!

– Vá embora! – ele rosnou.

– Levante, ande.

– Me deixe dormir…

– Eu avisei ontem. Agora levante.

– A primeira aula é de educação sexual. Não quero ir.

– Le-van-te.

– Educação sexual… – ele repetiu. – Eles ficam ensinando um monte de indecências e eu sou muito impressionável. Vou acabar virando um cara promíscuo. Olhe, pela integridade moral do seu filho, você deveria me deixar dormir mais um pouquinho.

Wendy tentou não sorrir.

– Não enrole, garoto. De pé, ande.

– Só mais cinco minutos, por favor…

– Tudo bem. Cinco minutos. E só.

Uma hora e meia depois, a aula de educação sexual já terminada, Wendy o levou para a escola. Que problema haveria nisso, afinal? Ele estava no último ano, já havia sido aceito por uma universidade. Tudo bem.

Chegando em casa, ela conferiu os e-mails. Havia uma mensagem de Lawrence Cherston, o administrador da página dos ex-alunos de Princeton. Ele ficaria “encantado” em recebê-la “o mais cedo que lhe aprouvesse”. O endereço: Princeton, Nova Jersey. Wendy ligou e perguntou se eles poderiam se encontrar ainda naquela tarde, às três. Lawrence Cherston novamente disse que ficaria “encantado”.

Em seguida, Wendy achou que não faria mal dar uma olhada no falso perfil que ela havia criado no Facebook. Kirby Sennett com certeza não tinha nada a ver com o que quer que estivesse assustando Phil Turnball.

Abrindo a página, ficou satisfeita ao ver que o garoto a tinha adicionado como amiga. Kirby também havia mandado um convite para uma festa Red Bull. Ela clicou no link e se deparou com uma foto do próprio Kirby, que sorria com uma latinha de Red Bull na mão. Um texto informava o local e o horário da festa e terminava com uma frase curta: “Oi, Sharon, espero você lá!” Aparen temente, ele já havia saído do luto pela morte de Haley.



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