Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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Encontro10.08.2018
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– Por falar nisso… – Flair se virou na direção de Wendy. – Como a senhora sabia que era meu cliente, Dan Mercer, quem estava no outro lado dessas conversas on-line?

– De início eu não sabia.

– Ah, não? E com quem a senhora pensava estar conversando?

– Com ninguém em particular. Era assim que a coisa funcionava. No come-ço eu sabia apenas que se tratava de um adulto jogando sua isca na internet em busca de sexo com menores de idade.

– E como a senhora poderia saber uma coisa dessas?

– Desculpe, saber o quê?

– Como poderia saber que seu interlocutor estava fazendo isso? – Flair abriu aspas com os dedos. – “Jogando sua isca na internet em busca de sexo”, como a senhora acabou de dizer.

– Como Sua Excelência acabou de sugerir, Sr. Hickory, leia as transcrições.

– Já li, Sra. Tynes. E sabe a que conclusão cheguei?

A pergunta levou Portnoi a se pronunciar:

Protesto, Meritíssima. Não nos interessam as conclusões do Sr. Hickory. Não é ele quem está dando seu testemunho.

– Protesto aceito.

Flair voltou à sua mesa e começou a examinar suas anotações. Wendy mais uma vez correu os olhos pela galeria. Sentiu-se mais confiante. Sabia que aquelas pessoas haviam passado por maus bocados e era seu dever ajudá-las a encontrar justiça. Por mais indiferente que quisesse ficar ou tentasse parecer, alegando que não fazia mais que seu trabalho, o bem que tinha feito significava muito para ela. Mas quando se deparou com o olhar de Ed Grayson, viu ali algo de que não gostou. Uma expressão de raiva, talvez de desafio.

Flair pôs seus papéis sobre a mesa.

– Bem, deixe-me reformular a pergunta, Sra. Tynes. Caso uma pessoa razoável lesse aquelas transcrições, poderia ela concluir, sem nenhuma sombra de dúvida, que uma das participantes da conversa transcrita era uma bela mulher de 36 anos, repórter de um programa de TV…

– Protesto!

– … ou que se tratava de uma garota de 13 anos?

Wendy abriu a boca para dizer algo, mas desistiu e esperou.

– Pode responder – disse a juíza.

– Eu estava me fazendo passar por uma garota de 13 anos.

– Ah – disse Flair. – Quem já não fez algo semelhante um dia na vida?

– Sr. Hickory! – advertiu a juíza.

– Desculpe, Meritíssima. Não resisti. Pois bem, Sra. Tynes. Caso estivesse apenas lendo aquela troca de mensagens, eu não poderia saber que a senhora estava se fazendo passar por outra pessoa, poderia? Acreditaria piamente se tratar de uma garota de 13 anos.

Lee Portnoi ergueu os braços e exclamou:

– Será que temos alguma pergunta em vista?

– Lá vai ela, meu bem, portanto escute. Aquelas mensagens foram escritas por uma garota de 13 anos?

– Pergunta já feita e já respondida, Excelência.

– Basta dizer “sim” ou “não”. A autora das tais mensagens era ou não uma garota de 13 anos?

A juíza acenou com o queixo para que Wendy respondesse.

– Não.


– Como já foi dito, a senhora estava se fazendo passar por uma garota de 13 anos, correto?

– Correto.

– E até onde a senhora podia saber, seu interlocutor era alguém que se fazia passar por um homem adulto em busca de sexo com menores de idade. Até onde a senhora podia saber, essa pessoa poderia ser uma freira albina com herpes, correto?

– Protesto!

Fitando Flair diretamente nos olhos, Wendy disse:

– Não foi uma freira albina com herpes quem foi até a casa daquela criança atrás de sexo.

Mas Flair a ignorou.

– De que casa a senhora estaria falando? Daquela em que a senhora plantou suas câmeras? Diga, alguma garota menor de idade morava lá?

Wendy permaneceu calada.

– Responda, por favor – disse a juíza.

– Não, não morava.

– Mas a senhora estava lá, não estava? É bem possível que quem estivesse do outro lado de suas conversas on-line, e a essa altura não podemos afirmar quem seria essa pessoa, mas é bem possível que ela já tivesse visto seu programa de notícias – ele pronunciou a palavra como se ela amargasse na boca – e resolvido compactuar com a encenação de modo que pudesse conhecer uma bela mulher de 36 anos, uma estrela da TV. Isso não seria possível?

Portnoi estava de pé.

– Protesto, Meritíssima. Cabe ao júri deliberar sobre essas conjecturas.

– É verdade – disse Flair. – Poderíamos também demonstrar aqui um caso óbvio de fraude.

Ele se virou para Wendy.

– Mas voltemos à noite de 17 de janeiro. O que aconteceu depois que a senhora confrontou meu cliente em sua arapuca?

Wendy esperou, em vão, que o promotor objetasse à palavra “arapuca”. A paciência do homem já devia ter se esgotado, ela deduziu. E respondeu:

– Seu cliente fugiu.

– Depois que a senhora o emboscou com câmeras, luzes e microfones?

Novamente ela esperou por uma objeção do promotor antes de responder:

– Sim.


– Diga-me, Sra. Tynes. É assim que a maioria dos homens que caem nas suas arapucas reage?

– Não. Quase sempre eles ficam onde estão e tentam se explicar.

– E a maioria desses homens é culpada?

– Sim.


– Todavia, meu cliente agiu de outra forma. Interessante.

Portnoi se levantou de novo.

– Talvez isso possa ser interessante para o Sr. Hickory. Mas para todos nós, essas tergiversações…

– Tudo bem, tudo bem – retrucou Flair, impassível. – Relaxe, promotor, não há júri nesta audiência. Porventura o senhor não confia na capacidade de nossa ilustre juíza para decidir por conta própria se estou ou não “tergiversando”?

Ele ajeitou uma das abotoaduras.

– Então, Sra. Tynes: as câmeras e luzes foram ligadas, a senhora irrompeu na sala com seu microfone e Dan Mercer fugiu. É esse o seu testemunho?

– Sim, é.

– O que a senhora fez em seguida?

– Disse a meus produtores que fossem atrás dele.

Flair novamente fingiu surpresa.

– Seus produtores são da polícia, Sra. Tynes?

– Não.


– E a senhora acha aceitável que cidadãos civis saiam por aí perseguindo suspeitos sem a ajuda de policiais?

– Havia um policial conosco.

– Ah, tenha dó – retrucou Hickory, carregando no ceticismo. – Esse seu programa é puro sensacionalismo. É a imprensa marrom na sua pior manif…

– Eu o conheço, Sr. Hickory – interrompeu Wendy, fazendo com que Flair pisasse no freio.

– A senhora me conhece?

– Eu era produtora-assistente de A Current Affair. Convidei o senhor como especialista quando Robert Blake foi julgado por assassinato.

Virando-se para a assistência, Flair se dobrou numa mesura e disse:

– Pois bem, senhoras e senhores, está provado que tenho um fraco pelos holofotes. Touché.

Outra onda de gargalhadas.

– Isso posto, o que a senhora estava dizendo? Que a polícia aprovava seu engodo jornalístico a ponto de colaborar com ele?

– Protesto!

– Protesto indeferido. Prossiga.

– Mas, Excelência…

– Indeferido, Sr. Portnoi. Sente-se.

Wendy enfim respondeu:

– Tínhamos uma relação com a polícia e com a Promotoria. Era importante para nós que tudo fosse feito dentro da lei.

– Entendo. Quer dizer então que a senhora atuava em parceria com os órgãos oficiais do Estado?

– Não exatamente.

– Se não tinha uma parceria com a polícia, posso concluir que a senhora armou tudo isso por conta própria, sem que ninguém nos órgãos oficiais do Estado tivesse qualquer conhecimento, correto?

– Não.


– Tudo bem. Então responda: a senhora entrou em contato com a polícia e com a Promotoria para alertá-los sobre meu cliente antes daquela noite de 17 de janeiro?

– Contatamos a Promotoria, sim.

– Ótimo. Muito obrigado. Agora, a senhora disse que instruiu seus produtores a perseguir Dan Mercer, correto?

– Não foi isso o que ela disse – interveio Portnoi. – Ela disse “ir atrás”.

Flair olhou para Portnoi como se jamais tivesse visto criatura mais maçante.

– Tudo bem, tudo bem, seja lá o que for: perseguir, ir atrás… Podemos discutir as diferenças em outra ocasião. Quando meu cliente fugiu, Sra. Tynes, para onde a senhora foi?

– Para a casa dele.

– Por quê?

– Achei que, cedo ou tarde, ele apareceria por lá.

– Então a senhora ficou esperando por Dan Mercer na residência dele, é isso?

– Sim.

– Ficou esperando onde? Do lado de fora?



Wendy se remexeu na cadeira. Era agora. Virou o rosto em direção às pessoas no tribunal. Avistou Ed Grayson e fixou os olhos nele. O filho de Grayson, de 9 anos, havia sido uma das primeiras vítimas de Dan Mercer. Ela ainda sentia o peso daquele olhar quando disse:

– Vi uma luz acesa.

– Na casa de Dan Mercer?

– Sim.


– Muito estranho – disse Flair, destilando sarcasmo. – Nunca, jamais, em toda a minha vida, soube de alguém que tivesse o hábito de deixar as luzes acesas quando não estava em casa.

– Protesto!

A juíza Howard suspirou e disse:

– Sr. Hickory…

Sem tirar os olhos de Wendy, Flair prosseguiu:

– Então o que a senhora fez?

– Bati à porta.

– Meu cliente respondeu?

– Não.

– Alguém respondeu?



– Não.

– E o que a senhora fez em seguida?

Wendy aprumou o corpo para dizer:

– Pensei ter tido a impressão de que havia algum movimento do outro lado da janela.

– A senhora pensou ter tido a impressão de que havia algum movimento – repetiu Flair. – Minha nossa, a senhora não poderia ser um pouquinho menos precisa?

– Protesto!

– Protesto indeferido. Prossiga, Sra. Tynes. O que foi que a senhora fez?

– Girei a maçaneta. A porta estava destrancada, então eu a abri.

– Abriu? E por que a senhora faria isso?

– Estava preocupada.

– Com quê?

– Há muitos casos em que os pedófilos fazem alguma besteira depois de serem pegos.

– Verdade? Então era essa a sua preocupação? Que sua armadilha talvez levasse meu cliente a tentar o suicídio?

– Mais ou menos isso, sim.

Flair levou a mão ao peito e disse:

– Muito comovente.

– Excelência! – exclamou Portnoi.

Flair novamente o ignorou.

– Sua intenção era salvar a vida do meu cliente, é isso?

– Se fosse o caso, sim, eu tentaria impedi-lo.

– No ar, em seu programa, a senhora costumava usar palavras como “pervertido”, “psicopata”, “depravado”, “monstro” e “lixo” para descrever aqueles que a senhora atraía para suas armadilhas, certo?

– Certo.


– No entanto, tal como disse há pouco, a senhora tentou invadir a casa do meu cliente, infringindo a lei, com a firme intenção de salvar a vida dele.

– Pode-se dizer que sim.

– Quanta nobreza… – disse Flair. A voz não só destilava sarcasmo como dava a impressão de ter ficado dias marinando nele.

– Protesto!

– Não se trata de nobreza – rebateu Wendy. – Prefiro que esses homens sejam levados à justiça para que as famílias possam ter um mínimo de consolo. O suicídio é fácil demais.

– Entendo. Mas o que aconteceu depois que a senhora invadiu a casa do meu cliente?

– Protesto! – disse Portnoi. – A Sra. Tynes disse que a porta estava destrancada…

– Tudo bem, entrou, invadiu, seja lá o que aprouver ao nobre promotor – disse Flair, as mãos fincadas nos quadris. – Mas basta de interrupções, por favor. O que aconteceu, Sra. Tynes, depois que a senhora entrou – novamente ele abusou da ênfase – na casa do meu cliente?

– Não aconteceu nada.

– Meu cliente não estava tentando se matar?

– Não.

– O que ele estava fazendo?



– Ele não estava lá.

– Havia outra pessoa em casa?

– Não.

– E o tal “movimento” que a senhora pensou ter visto?



– Não sei.

Flair meneou a cabeça e foi se afastando lentamente de Wendy.

– Segundo o testemunho que acabou de dar, a senhora foi de carro até a casa de Dan Mercer quase imediatamente após ele fugir e ser perseguido por seus produtores. Achou mesmo que meu cliente teria tido tempo suficiente para chegar em casa e tentar o suicídio?

– Com certeza ele conhecia um caminho mais rápido e, além disso, ele saiu um pouco antes de mim. Portanto, sim, achei que havia tempo suficiente.

– Sei. Mas a senhora se enganou, não?

– Sobre o quê?

– Meu cliente não foi direto para casa, foi?

– Não, não foi.

– Mesmo assim a senhora entrou na casa dele… antes que ele ou a polícia chegassem, correto?

– Apenas por um breve instante.

– Quanto tempo dura “um breve instante”?

– Não sei ao certo.

– Bem, a senhora teve de conferir todos os cômodos, não? Para ter certeza de que Dan Mercer não havia se enforcado com um cinto numa viga qualquer, correto?

– Conferi apenas o cômodo que estava com a luz acesa. A cozinha.

– Portanto teve de atravessar, pelo menos, a sala da casa. Diga, Sra. Tynes, o que a senhora fez depois de constatar que meu cliente não estava em casa?

– Voltei para fora e fiquei esperando.

– Esperando pelo quê?

– Pela polícia.

– E a polícia apareceu?

– Sim.


– E eles tinham um mandado de busca para entrar na casa do meu cliente?

– Tinham.

– E, por mais nobres que fossem suas intenções ao invadir a casa de Dan Mercer, naturalmente a senhora também se preocupava, por pouco que fosse, com o desfecho que sua armadilha teria, estou certo?

– Não.


– Desde aquele programa do dia 17, a senhora vem fazendo uma rigorosa pesquisa sobre o passado de Dan Mercer. Além do que foi encontrado pela polícia naquela noite, porventura a senhora descobriu alguma outra evidência irrefutável de atividades ilegais por parte do meu cliente?

– Ainda não.

– Tomarei isso por um “não” – disse Flair. – Em suma, na ausência das provas encontradas pela polícia durante aquela busca, não haveria nada que ligasse meu cliente a qualquer tipo de atividade ilegal, correto?

– Ele apareceu na casa naquela noite.

– Na falsa casa onde não residia nenhuma garota menor de idade. Portanto, Sra. Tynes, este caso e também sua, humm, reputação, se sustentam fundamentalmente sobre o material recolhido na casa do meu cliente. Sem ele, a senhora não teria nada. Indo direto ao ponto: a senhora tinha não só os meios como também um bom motivo para plantar aquele material. Tinha ou não tinha?

Lee Portnoi novamente ficou de pé.

– Excelência, isto é ridículo. Somente o júri pode concluir uma coisa dessas.

– A Sra. Tynes admitiu ter entrado ilegalmente na casa de Dan Mercer, sem um mandado – argumentou Flair.

– Nesse caso – disse Portnoi –, o senhor tem todo o direito de processá-la por invasão de domicílio, se acha que tem provas para tanto. Também tem todo o direito de apresentar suas teorias absurdas sobre freiras albinas e provas plantadas, mas para a deliberação de um júri, no devido curso legal. Então eu terei prazer em demonstrar a completa insensatez dessas teorias. Para isso existem processos e tribunais legalmente constituídos. A Sra. Tynes é uma cidadã civil e, portanto, não é investida de nenhuma autoridade oficial. A Excelentíssima juíza não pode simplesmente desconsiderar o computador e as fotos encontradas na residência de Dan Mercer. Esse material foi recolhido durante uma busca policial devidamente endossada por um mandado. Algumas dessas fotos, todas elas horrendas, se encontravam escondidas na garagem e numa estante de livros. A Sra. Tynes não teria como plantá-las ali nos poucos minutos que teve para entrar e sair da casa.

Flair sacudiu a cabeça.

– Os motivos alegados por Wendy Tynes para que invadisse aquela casa foram, no máximo, plausíveis. Uma luz acesa? Um movimento que pensou ter visto? Por favor. Além disso, tinha os meios e os motivos para plantar suas provas e sabia que a casa de Dan Mercer seria revistada muito em breve. Um estratagema vil. Qualquer evidência encontrada naquela casa deve ser desconsiderada.

– Wendy Tynes é uma cidadã civil.

– Mas nem por isso tem carta branca aqui. Ela poderia muito bem ter plan-tado aquele laptop e aquelas fotos.

– Um argumento que o senhor poderá apresentar ao júri.

– Meritíssima, o material encontrado é absurdamente tendencioso. Está claro que a Sra. Tynes, pelo próprio testemunho que deu, é muito mais que uma cidadã civil neste caso. Várias vezes perguntei sobre a relação dela com o gabinete da Promotoria e ela admitiu que era uma espécie de agente deles.

Dessa vez, Lee Portnoi só faltou soltar fumaça.

– Isto é ridículo, Excelência! Será que agora todo repórter que investiga um delito deve ser considerado agente da lei?

– Foi a própria Sra. Tynes quem afirmou ter um vínculo com seu gabinete, Sr. Portnoi. Se quiser, podemos pedir ao estenógrafo que leia o testemunho dela, sobretudo os trechos em que ela confirma a presença de um policial na cena e os contatos realizados com a Promotoria.

– Isso não faz dela uma agente nossa!

– Mera questão de semântica, o Sr. Portnoi sabe muito bem disso. Sem a ajuda de Wendy Tynes, a Promotoria não teria nenhum fundamento para mover uma ação contra meu cliente. Todos os crimes dos quais Dan Mercer está sendo acusado derivam unicamente da armadilha preparada pela Sra. Tynes. Sem o envolvimento dela, nenhum mandado de busca teria sido expedido.

Portnoi atravessou a sala.

– Excelência, a Sra. Tynes de fato trouxe o caso ao conhecimento da Promotoria, mas, se dermos crédito à argumentação da defesa, todas as testemunhas e todos os querelantes seriam considerados agentes da…

– Já ouvi o bastante – interrompeu a juíza. Bateu o martelo, ficou de pé e anunciou: – Minha sentença será dada amanhã de manhã.
2

– QUE FIASCO! – WENDY DISSE a Portnoi no corredor.

– A juíza não vai desconsiderar as provas.

Wendy não se deixou convencer.

– Acho até que foi relativamente bom – insistiu Portnoi.

– Como assim?

– O interesse público é grande demais para que as provas sejam descartadas – disse o promotor, apontando para o advogado de defesa. – A única coisa que Flair fez ali foi revelar qual será a estratégia dele no julgamento.

Mais adiante, Jenna Wheeler, ex-mulher de Dan Mercer, respondia às perguntas do repórter de uma emissora concorrente. Ainda que todas as evidências apontassem para a culpa de Mercer, Jenna o defendia com firmeza, alegando que tudo não passava de uma grande armação. Essa posição, que Wendy considerava ao mesmo tempo admirável e ingênua, a havia transformado em uma espécie de pária na cidade.

Alguns metros adiante, Flair Hickory confabulava com diversos jornalistas, que o adoravam, é claro. Wendy também costumava se deleitar quando cobria as defesas do extravagante advogado – no caso de Flair, “extravagante” talvez fosse pouco. Mas agora, vendo-o do outro lado do campo de batalha, se dava conta de que a extravagância andava lado a lado com a ferocidade.

– Flair Hickory não me parece o tipo de pessoa que dê ponto sem nó – ela disse preocupada.

Depois de arrancar gargalhadas de sua plateia, Flair distribuiu tapinhas nas costas de alguns e se afastou. Quando enfim ficou sozinho, Wendy se surpreendeu ao ver Ed Grayson se aproximar para falar com ele.

– Ih…


– O que foi?

Ela apontou o queixo para a dupla e Portnoi os avistou. Grayson, um homem corpulento e grisalho, de cabelos cortados rentes, ainda avançava na direção de Flair, já invadindo o espaço dele. Flair, no entanto, o encarava impassível.

Portnoi deu alguns passos na direção de ambos.

– Sr. Grayson?

Grayson já estava a poucos centímetros de Flair quando virou a cabeça em direção à voz que o havia chamado.

– Algum problema? – perguntou o promotor.

– Nenhum – disse Grayson.

– Sr. Hickory?

– Só estamos batendo um papinho amigável – disse Flair. – Nenhum problema.

Grayson cravou os olhos em Wendy. Ela, mais uma vez, não gostou do que viu.

– Bem, Sr. Grayson, se já tivermos terminado… – disse Hickory.

Grayson não respondeu. Hickory lhe deu as costas e saiu. Grayson se aproximou de Portnoi e Wendy.

– Posso ajudar em alguma coisa? – perguntou Portnoi.

– Não.


– Posso perguntar o que o senhor estava falando com Hickory?

– Perguntar, o senhor pode. – Grayson olhou para Wendy. – Acha que a juíza acreditou na sua história?

– Não era história – ela disse.

– Mas também não era a verdade, era?

Sem dizer mais nada, ele deu as costas para ambos e se afastou.

– O que, diabos, foi isso? – comentou Wendy.

– Não faço a menor ideia – disse Portnoi. – Mas não se preocupe com ele. Nem com Flair. Ele é muito bom, mas não vai levar a melhor desta vez. Vá pra casa, tome um drinque e relaxe, vai dar tudo certo.

Wendy não foi para casa. Foi para o estúdio de TV em Secaucus, em Nova Jersey, do outro lado do complexo esportivo de Meadowlands. A paisagem não era nada agradável: uma área pantanosa que parecia gemer sob o peso das incessantes construções. Wendy abriu seus e-mails e encontrou uma mensagem do chefe, o produtor executivo Vic Garrett. O texto, talvez o mais longo que Vic já tinha escrito num e-mail, dizia: ME PROCURE JÁ.

Eram três e meia da tarde. O filho dela, Charlie, que cursava o último ano na Kasselton High, já deveria estar em casa àquela altura. Wendy ligou para o celular dele, pois o garoto nunca atendia o fixo. Na quarta chamada, Charlie atendeu de seu modo habitual:

– Fala.


– Você está em casa?

– Tô.


– Fazendo o quê?

– Nada.


– Não tem que estudar?

– Um pouco.

– Já fez os deveres de casa?

– Vou fazer.

– Por que não faz de uma vez?

– Não é muita coisa. Faço em dez minutos.

– Se é pouca coisa, por que você não se livra disso logo?

– Mais tarde eu faço.

– Mas o que você está fazendo agora?

– Nada.


– Então para que esperar? Por que não faz esses deveres de uma vez?

Os dias mudavam, a conversa, não. Charlie por fim disse que faria os tais deveres “daqui a pouco”, o que no fundo significava: “Se eu disser ‘daqui a pouco’, quem sabe você não para de encher meu saco?”

– Devo chegar lá pelas sete – disse Wendy. – Quer que eu leve uma comidinha chinesa para você?

– Da Bamboo House.

– Tudo bem. Não esqueça de dar comida ao Jersey às quatro horas.

Jersey era o cachorro.

– Tudo bem.

– Não vá esquecer, hein?

– Tá bom.

– E anda logo com esses deveres.

– Tchau.

Clic.


Wendy respirou fundo. Charlie já estava com 17 anos, logo iria para a universidade, mas ainda era muito irresponsável. Com a chegada da carta de admissão enviada pela Franklin & Marshall, de Lancaster, a caçada pela melhor faculdade (atividade empreendida com tamanha virulência pelos pais que qualquer ditador de país subdesenvolvido coraria de inveja) havia chegado ao fim. Como todos os garotos de sua idade, Charlie andava nervoso por causa da mudança radical que estava por vir. Mas nem tanto quanto a mãe. Para Wendy, aquele sujeitinho boa-pinta e temperamental era tudo na vida. Fazia 12 anos que a família se resumia apenas aos dois, mãe e filho enfrentando sozinhos a vida num bairro de classe média alta.

Os anos pareciam ter voado, como sempre acontece aos pais, e Wendy não queria se afastar do filho. Todas as noites ela passava no quarto para espiar o garoto, via nele o mais lindo problema de sua vida e, como fazia desde que ele tinha 4 anos, pensava: “Ah, se eu pudesse parar o tempo para ele não crescer nem mais um dia… Como seria bom se eu pudesse ficar com ele para sempre…”

Mas logo ela estaria sozinha.

Outro e-mail chegou em sua caixa de entrada. Mais uma mensagem do chefe, Vic Garrett: QUE PARTE DE “ME PROCURE JÁ” ESTAVA ESCRITO EM GREGO?

Ela clicou em RESPONDER e enviou: ESTOU INDO.

A sala de Vic ficava do outro lado do corredor. Toda aquela troca de mensagens era desnecessária e irritante. Mas o mundo agora era assim. Muitas vezes ela e Charlie trocavam torpedos estando os dois em casa. Quando estava cansada demais, ela só digitava: HORA DE IR PRA CAMA ou PONHA O JERSEY PRA FORA ou o popularíssimo CHEGA DE COMPUTADOR, VÁ LER UM LIVRO.



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