Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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– A ordem deles estava errada – disse a repórter.

– Ah, isso mesmo. Ed Grayson atirou no cunhado antes de matar Mercer.

– Certo. Mas isso não muda muita coisa, muda?

Wendy pensou um pouco. Agora tinha tempo para repassar os fatos com mais cuidado.

Na verdade, aquilo mudava tudo.

Virando-se para Walker, ela notou a arma no coldre e por um instante ficou olhando para ela.

Walker viu o que ela estava fazendo.

– O que foi? – perguntou.

– Quantos cartuchos vocês encontraram perto do trailer?

– Como?

– Os peritos vasculharam o lugar onde Dan Mercer foi morto, não vasculharam?



– Claro que sim.

– Quantas cápsulas foram encontradas?

– Só uma, cravada em um tijolo.

– A que perfurou o trailer?

– Sim, por quê?

Wendy saiu apressadamente na direção de seu carro.

– Espere! – berrou Walker. – O que está acontecendo?

Ela não respondeu. Chegando ao carro, o examinou com cuidado. Nada. Nenhuma marca, nenhum arranhão. Num gesto quase involuntário, levou a mão à boca para abafar o grito.

Em seguida entrou no carro e foi para a casa de Ed Grayson. Encontrou-o no jardim, arrancando ervas daninhas.

– Wendy? – ele disse ao ver a visita inesperada.

– Seja lá quem matou Dan – ela disse –, atirou no meu carro.

– O quê?


– Você é um ótimo atirador. Todo mundo diz isso. Vi você mirar meu carro e atirar diversas vezes. Mas não há nenhuma marca na lataria. Na verdade, a única cápsula encontrada em toda a área foi a que atravessou a parede do trailer. O primeiro tiro que você deu. No lugar mais óbvio.

– Do que você está falando?

– Como é possível que um exímio atirador não tenha conseguido acertar Dan a uma distância tão pequena? Nem o meu carro? Nem a porcaria do chão? Resposta: não é possível. Tudo não passou de uma encenação.

– Wendy?


– O quê?

– Esqueça isso.

Por um tempo eles apenas se entreolharam.

– Sem chance. A morte de Dan ainda está pesando na minha consciência.

Grayson não disse nada.

– Pensando bem, é muito irônico – ela continuou. – Quando cheguei àquele trailer, Dan estava cheio de hematomas. A polícia achou que Hester Crimstein tinha sido muito esperta usando meu testemunho para dizer que você tinha dado uma surra em Dan e que, por isso, havia sangue no seu carro. Mas o que a polícia não percebeu foi o seguinte: ela estava dizendo a verdade. Você bateu em Dan porque queria arrancar uma confissão. Mas ele não confessou nada, confessou?

– Não – ele disse. – Não confessou.

– Na verdade, você começou a acreditar nele, a achar que talvez ele fosse inocente.

– Pode ser.

– Depois o quê? Você voltou para casa e pressionou seu filho para saber a verdade, foi isso?

– Esqueça isso, Wendy.

– Não insista, Ed. Você sabe que não dá. Mas o que foi que aconteceu? E. J. contou a verdade, falou que foi o tio quem tirou aquelas fotos?

– Não.

– Como foi que você soube então?



Minha mulher, está bem? Ela me viu todo sujo de sangue. Falou que eu tinha de parar com aquilo. Contou o que tinha acontecido, confessou que o irmão tinha tirado as fotos. Depois implorou para que eu desse o assunto por encerrado, disse que E. J. já tinha superado o trauma e que o irmão estava se tratando.

– Mas você não queria dar o assunto por encerrado.

– Não. Mas também não queria obrigar meu filho a testemunhar contra o tio.

– Então atirou nos joelhos de Lemaine, não foi?

– Não sou idiota para responder.

– Tanto faz. Nós dois sabemos que você atirou. Depois o quê? Você ligou para Dan e pediu desculpas? Alguma coisa assim?

Grayson não respondeu.

– Não importava que a juíza o tivesse inocentado – prosseguiu Wendy. – Meu programa tinha destruído a vida de Dan. Mesmo agora, mesmo depois de eu ter admitido publicamente que estava errada, as pessoas ainda acham que ele era pedófilo. Onde há fumaça há fogo, certo? Dan estava acabado, estava num beco sem saída. Você provavelmente se sentia culpado por tê-lo perseguido tanto, então quis reparar o erro.

– Esqueça isso, Wendy.

Melhor ainda, você era agente federal. Conhecia muito bem o programa de proteção a testemunhas, não é? Você sabia exatamente como fazer uma pessoa sumir.

Ele permaneceu calado.

– A solução, portanto, era bastante simples. Bastava forjar a morte dele. Mas você não tinha um corpo para colocar no lugar, nem podia falsificar um atestado de óbito. E sem um corpo, você precisava de uma testemunha confiável, alguém que jamais poderia ser visto como comparsa de Dan: eu. Além disso, você providenciou um número de pistas que seria o suficiente para que a polícia acreditasse na minha história mas não o bastante para incriminá-lo: a única cápsula, o sangue de Dan, a testemunha que o viu carregando o tapete, seu carro na cena do crime, o GPS no meu para-choque, até mesmo aquela visita ao clube de tiro. Sua arma só tinha uma bala de verdade, a que atravessou a parede. As outras eram de festim. O sangue que ficou para trás vocês prepararam antes. Ah, outra grande esperteza sua: você encontrou um estacionamento de trailers em que não havia sinal de celular. Sua testemunha não teria como chamar a polícia. Teria de fugir, o que lhe daria tempo suficiente para esconder Dan. Quando encontraram o iPhone naquele quarto de motel, você pirou, não foi? Por isso apareceu no parque estadual durante a busca. Precisava saber o que de fato estava acontecendo. Ficou achando, apenas por um instante, que tinha acobertado a fuga de um assassino.

Wendy esperou que Grayson dissesse algo. Por um tempo ele apenas a encarou, mas depois disse:

– Quanta imaginação, Wendy!

– Não posso provar nada disso, já que…

– Já que tudo não passa de um grande delírio seu – ele a interrompeu. Em seguida, quase sorrindo, emendou: – Ou será que você veio aqui com uma escuta, querendo arrancar algum tipo de confissão de mim?

– Não estou com escuta nenhuma.

Grayson balançou a cabeça e saiu caminhando rumo à casa. Wendy o seguiu.

– Você não está entendendo? Não quero provar nada disso!

– Então veio aqui fazer o quê?

Lágrimas surgiram nos olhos de Wendy.

– Eu sou responsável pelo que aconteceu a Dan. Fui eu quem armou aquela cilada para ele! É por minha causa que o mundo inteiro acha que ele é pedófilo!

– Isso é verdade.

– E se você o matou, a culpa também é minha. Vou carregar esse peso na consciência pelo resto da vida. Não dá para apagar o que fiz. Mas se você o ajudou a fugir… Nesse caso, sei lá, pode ser que ele esteja bem. Talvez até possa entender e…

Wendy se calou de repente. Eles já estavam dentro da casa.

– E o quê? – disse Grayson.

Ela não conseguia articular as palavras. As lágrimas agora corriam soltas.

– E o quê, Wendy?

– E talvez… Talvez possa me perdoar.

Então Ed Grayson pegou o telefone e discou uma longa sequência de números. Passou uma espécie de código à pessoa do outro lado da linha, ouviu um clique e, por fim, entregou o aparelho a Wendy.


EPÍLOGO

–SR. DAN?

Estou numa tenda que funciona como escola. Faço parte de um projeto chamado LitWorld, que ensina crianças a ler.

– Sim?


– O rádio. É para o senhor.

Não há telefone no povoado. Só por rádio é possível falar com esta parte da província de Cabinda, em Angola. Já trabalhei perto daqui, logo depois de me formar em Princeton, numa missão do Corpo de Paz. Todo mundo conhece o ditado que diz que, quando Deus fecha uma porta, abre outra. Mas quando abri aquela porta vermelha, eu não fazia ideia de que outra estava para se abrir.

Foi Ed Grayson quem salvou minha vida. Ele tem uma amiga, Terese Collins, que trabalha num povoado como este do outro lado da montanha. Ela e Ed são os únicos que sabem da verdade. Para o resto do mundo, Dan Mercer está morto.

O que não chega a ser mentira.

Já foi dito aqui que Dan Mercer estava acabado. Mas a vida de Dan Mayer (a mudança não é grande, mas serve) está só começando. Engraçado. Não sinto falta da minha vida antiga. Algo ao longo do caminho (talvez a crueldade de alguma família substituta com que fiquei, talvez o que fiz a Christa Stockwell, talvez o fato de eu ter deixado Phil Turnball assumir a culpa sozinho) me levou a querer este tipo de trabalho. Talvez seja algum tipo de reparação. Mas acho que também é genético, da mesma forma que certas pessoas nascem para exercer a medicina, para gostar de pescaria ou para arremessar uma bola de basquete melhor que os outros.

Lutei muito tempo contra essa vocação. Casei-me com Jenna. Mas, como disse no início, meu destino é ficar sozinho. Hoje eu aceito esse destino, porque – sei que corro o risco de parecer piegas – ninguém se sente realmente sozinho quando está cercado do sorriso de tantas crianças.

Não olho para trás. Se o mundo acha que Dan Mercer é pedófilo, paciência. Aqui não há internet, portanto não tenho como saber o que se passa nos Estados Unidos. Nem sei se gostaria de saber. Tenho saudades de Jenna, de Noel e das crianças, mas tudo bem. Fico tentado a contar a verdade a Jenna. Ela é a única pessoa que vai realmente sentir a minha falta.

Não sei. Talvez um dia eu conte.

Recebo a chamada do rádio, a primeira neste breve período desde minha chegada. Apenas Terese Collins e Ed Grayson conhecem o número, então fico surpreso ao ouvir outra voz conhecida dizer:

– Sinto muito, muito mesmo.

Em tese eu deveria odiar essa mulher e responder com irritação à chamada dela. Mas não. Chego a abrir um sorriso. No fim das contas, devo a ela uma felicidade que nunca senti antes.

Ela agora fala rápido, atropelando as palavras e chorando enquanto tenta se explicar. Não presto atenção. Não preciso saber de nada disso. Wendy quer apenas ouvir três palavras. E quando enfim a oportunidade se apresenta, tenho o maior prazer em dizê-las:


– Eu te perdoo.



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