Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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Encontro10.08.2018
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Wendy engravidara em seu segundo ano na Tufts University. Depois de uma festinha no campus em que bebera demais, ela acabara se envolvendo com John Morrow, um zagueiro de futebol americano em início de carreira – logo com quem, um atleta! No dicionário dela, John Morrow poderia ser sucintamente definido como “nem de longe o meu tipo”. Wendy via a si mesma como uma universitária liberal: jornalista do underground, se embalava a vácuo em roupas pretas, só ouvia rock alternativo, frequentava saraus de poesia e não perdia um evento cult.

Mas o coração tem lá seus motivos e ela acabou se interessando pelo bonitão do futebol. Vá entender. De início aquilo parecia algo sem grande importância. Eles haviam ficado juntos, vinham se encontrando casualmente, mas nenhum dos dois pensava ou falava em namoro. Até que, depois de mais ou menos um mês, Wendy descobriu que estava grávida.

Ela era uma mulher moderna. O rumo daquela gravidez seria decisão exclusivamente sua. Com mais dois anos de faculdade pela frente e uma carreira a construir no jornalismo, o timing, claro, não poderia ter sido pior, mas isso só tornava as coisas ainda mais claras. Ela ligou para John e disse que precisavam conversar.

Recebeu-o no quarto entulhado do dormitório, pediu que ele se sentasse e riu por dentro quando o rapaz de quase dois metros tentou se acomodar, ou melhor, se equilibrar no minúsculo pufe. Antevendo que a conversa seria importante, John procurava manter a seriedade enquanto se remexia para não cair, dando a impressão de que era um garotinho querendo se fazer passar por adulto.

Wendy foi logo disparando o discurso que vinha preparando nos últimos dois dias: “Estou grávida. O que vai acontecer agora é decisão minha, só minha. Espero que você respeite a minha vontade.”

Wendy prosseguiu, andando de um lado para o outro no quarto minúsculo, sem jamais olhar para o pufe, fazendo o possível para manter o tom casual. Chegou ao ponto de encerrar seu monólogo agradecendo a presença de John e lhe desejando boa sorte na vida. Só então arriscou uma olhadela na direção do rapaz.

E ele, chorando, ergueu os olhos mais azuis que ela já tinha visto: “Mas eu te amo, Wendy.”

Ela quis rir, mas em vez disso começou a chorar. John deslizou do maldito pufe para ficar de joelhos e ali mesmo a pediu em casamento. Rindo e chorando ao mesmo tempo, Wendy aceitou o pedido e, contra a opinião de todo mundo, eles enfim se casaram.

Ninguém levava fé naquele casamento, mas os nove anos seguintes seriam de pura felicidade. John Morrow era um homem carinhoso, lindo, engraçado, inteligente e atencioso – a cara-metade de Wendy, em tudo o que isso implicava. Charlie nasceu quando ambos estavam no terceiro ano da faculdade. Dois anos depois, eles já haviam economizado o bastante para dar entrada numa pequena casa em uma rua movimentada de Kasselton. Wendy trabalhava em uma emissora de TV local enquanto John fazia seu doutorado em psicologia. Tudo ia bem.

Até que, de uma hora para outra, John morreu. Agora a casinha em Kasselton abrigava apenas Charlie, Wendy e um buraco enorme no coração dela.

Wendy bateu à porta do chefe, abriu uma fresta e disse:

– Você chamou?

– Ouvi dizer que você foi enrabada hoje naquele tribunal – disse Vic.

– É por isso que gosto de trabalhar aqui – disse Wendy. – Por causa de todo o suporte que sempre recebo.

– Quer suporte? Compre um sutiã.

– Péssima essa! – brincou Wendy. – Mas tudo bem.

– Recebi seu memorando. Quer dizer, a saraivada de memorandos que você mandou. A ladainha de sempre, reclamando sobre suas matérias.

– Que matérias? Nas últimas duas semanas você me despachou para cobrir a inauguração de uma loja de chás e um desfile de cachecóis masculinos. Será que não dá para arrumar algo menos surreal?

– Espere.

Vic levou a mão até a orelha como se quisesse ouvir melhor. Era um homem pequeno, exceto pela barriga, que parecia uma bola. Seu rosto poderia ser descrito como “cara de fuinha”, mas só se a fuinha fosse muito feia.

– Que foi? – perguntou Wendy.

– É agora que você vai começar a desfiar aquele rosário sobre as agruras de ser uma mulher bonita em uma profissão dominada por homens e a reclamar de que trato você apenas como um corpinho bonito?

– Se eu desfiar esse rosário, você vai me dar matérias mais decentes?

– Não. Mas sabe o que você pode fazer?

– Aumentar meu decote?

– A ideia até que é boa, mas não é disso que estou falando. Estou falando de Dan Mercer. Da condenação de Dan Mercer. Você precisa sair dessa história como a heroína que mandou o pedófilo para o xadrez, não como a repórter ambiciosa que ajudou na absolvição dele.

– Na absolvição dele?

Vic deu de ombros.

– A polícia nem ficaria sabendo de Dan Mercer se não fosse por mim.

Vic ergueu um violino imaginário até o ombro, fechou os olhos e começou a tocar.

– Pare com essa babaquice – disse Wendy.

– Prefere que eu chame o pessoal para um abraço coletivo? Ou então fazer uma roda e cantar “Kumbaya” de mãos dadas?

– Mais tarde, talvez. Depois que vocês tocarem uma punheta grupal.

– Uuuu.


– Alguém sabe onde Mercer está escondido?

– Não. Faz duas semanas que ninguém o vê.

Wendy não sabia o que pensar sobre isso. Dan havia saído da cidade por causa das ameaças de morte, mas era estranho que ele não tivesse comparecido ao tribunal naquela manhã. Ia pedir a Vic que a mantivesse informada quando o interfone tocou.

Vic pediu silêncio e apertou o botão. A voz baixa da recepcionista informou:

– Marcia McWaid está aqui e quer falar com o senhor.

A notícia os tomou de surpresa. Marcia McWaid morava a menos de dois quilômetros de Wendy. Três meses antes, Haley, a filha adolescente dela, colega de escola de Charlie, supostamente havia pulado a janela de casa para nunca mais voltar.

– Alguma novidade no caso da filha dela? – perguntou Wendy.

Vic fez que não com a cabeça.

– Pelo contrário – disse, o que era muito pior.

Por duas ou três semanas o sumiço de Haley McWaid havia causado um grande furor na mídia. Sequestro? Fuga? O circo havia sido completo: chamadas de urgência a todo instante, boletins informativos ao pé da tela, “especialistas” convocados para reconstituir o que possivelmente teria acontecido. Mas nenhuma matéria, nem mesmo a mais sensacionalista, sobrevive sem combustível extra. E as emissoras de TV realmente haviam procurado esse combustível, Deus era testemunha. Tinham levantado as hipóteses mais absurdas, que iam de escravidão branca a cultos satânicos, mas naquele ramo nada se sustentava sem novas informações. Talvez a própria mídia fosse culpada por os espectadores perderem tão rápido o interesse em um assunto, mas era assim que as coisas funcionavam: a audiência ditava o que ia ao ar. Enquanto as pessoas quisessem acompanhar uma história, ela continuaria sendo contada. Quando o interesse acabava, as emissoras corriam atrás de uma nova isca para atrair o público.

– Quer que eu fale com ela? – ofereceu Wendy.

– Não, eu falo. É por isso que meu salário é muito maior que o seu.

Vic tocou-a para fora. Wendy seguiu pelo corredor, mas antes de entrar em sua sala, pôde ver Marcia McWaid diante da porta de Vic. Não a conhecia pessoalmente, mas, como é comum acontecer, já havia esbarrado com ela algumas vezes na cidade: ora na Starbucks, ora numa videolocadora, ora na fila de carros diante da escola. Seria lugar-comum dizer que Marcia, antes tão radiante, sempre com um filho a tiracolo, agora parecia 10 anos mais velha. Não era bem assim. Ela ainda era uma mulher bonita, aparentava a idade que tinha, mas era como se os movimentos dela tivessem ficado mais lentos, como se até os músculos que controlam a expressão facial tivessem sido parcialmente paralisados. Antes de entrar na sala de Vic, Marcia virou o rosto em direção a Wendy, que acenou com a cabeça e esboçou um sorriso. A mulher não respondeu, apenas entrou na sala.

Wendy voltou para sua mesa e tirou o fone do gancho. Ainda pensava em Marcia, a mãe perfeita com um marido bacana e uma bela família, e na rapidez e na facilidade com que tudo isso havia sido roubado dela, na rapidez e na facilidade com que tudo isso pode ser roubado de qualquer pessoa. Discou o número do celular de Charlie.

– Fala.

A impaciência do garoto na verdade a reconfortou.



– Já fez os deveres de casa?

– Daqui a pouco.

– Tudo bem – disse Wendy. – Ainda quer que eu leve comida chinesa?

– A gente já não falou sobre isso?

Eles desligaram. Wendy se recostou na cadeira e pôs os pés sobre a mesa. Esticou o pescoço e correu os olhos pela paisagem horrenda do outro lado da janela. O telefone tocou.

– Alô.


– Wendy Tynes?

Seus pés voltaram imediatamente ao chão quando ela reconheceu a voz.

– Aqui é Dan Mercer. Preciso me encontrar com você.
3

POR UM MOMENTO, Wendy não disse nada.

– Preciso me encontrar com você – repetiu Mercer.

– Não acha que sou um pouco velha demais para você? Quero dizer, eu já menstruo e tenho peitos.

Ela pensou ter ouvido um suspiro do outro lado da linha.

– Você é muito cínica, Wendy.

– O que você quer?

– Você precisa saber de certas coisas.

– Tipo o quê?

– Nada é o que parece.

– Você é um doente, um tarado, um pervertido, um maníaco que tem um advogado muito bom. É isso que parece.

Apesar do sarcasmo, havia uma leve hesitação em sua voz. O bastante para dar a Mercer o benefício da dúvida? Ela acreditava que não. As provas não mentem, o trabalho e a vida haviam lhe ensinado isso. No caso dela, a tal intuição feminina quase sempre não passava de uma canoa furada.

– Wendy?

Ela permaneceu calada.

– Fui vítima de uma armação.

– Sei. Essa é nova. Espere só um pouquinho que vou anotar e pedir ao meu produtor um boletim de urgência. “Furo de reportagem: maníaco diz que foi vítima de uma armação.”

Silêncio. Wendy chegou a pensar que ele havia desligado. Que estupidez, se deixar levar daquele jeito pela emoção. Calma, Wendy. Seja gentil com o cara. Converse com ele. Fique amiga dele. Arranque dele alguma informação. Se necessário, prenda-o numa armadilha.

– Dan?


– Eu não devia ter ligado.

– Pode falar, estou ouvindo. Você disse algo sobre uma armação.

– Acho melhor desligar.

Wendy pensou em tentar fazê-lo mudar de ideia, em se desculpar pela overdose de sarcasmo, mas algo ali cheirava a manipulação. Ela não era marinheira de primeira viagem. Sabia onde estava pisando desde que tentara entrevistá-lo pela primeira vez, no ano anterior, sobre o trabalho dele com os adolescentes órfãos. Quase um ano antes de flagrá-lo com suas câmeras. Não queria ceder, mas também não queria que ele desligasse.

– Foi você quem ligou.

– Eu sei.

– Então diga o que tem a dizer. Estou disposta a ouvir.

– Preciso me encontrar com você. A sós.

– A ideia não me parece das melhores.

– Então esqueça.

– Tudo bem, Dan, como quiser. A gente se vê no tribunal.

Silêncio.

– Dan?

– Você não faz a menor ideia, faz? – ele perguntou, num sussurro que a fez gelar.



– Do que você está falando?

Do outro lado da linha, ela ouviu um ruído que poderia ser um soluço, talvez uma risada. Difícil saber pelo telefone. Apertou os dedos em torno do aparelho e esperou.

– Se quiser me encontrar – disse Dan –, vou lhe mandar um e-mail com as instruções. Amanhã, às duas da tarde. Venha sozinha. Se não aparecer… Bem, foi um prazer conhecê-la.

E então ele desligou.

♦ ♦ ♦

A porta da sala de Vic estava aberta. Enfiando a cabeça pela fresta, Wendy viu que ele falava ao telefone. Vic acenou para que ela esperasse um segundo, se despediu rispidamente da pessoa do outro lado da linha e desligou.



– Acabei de receber uma ligação de Dan Mercer – ela disse.

– Ele ligou para você?

– Ligou.

– Quando?

– Agora mesmo.

Vic se recostou na cadeira e cruzou as mãos sobre a barriga.

– E o que foi que ele disse?

– Que foi vítima de uma armação e que quer se encontrar comigo – respondeu ela. Depois, estranhando a expressão no rosto do chefe, perguntou. – O que foi? Aconteceu alguma coisa?

Vic suspirou e disse:

– Sente-se um instante.

– Xiiiii… – disse Wendy.

– Xiiiii e meio.

Wendy se sentou.

– A juíza já divulgou a sentença. Descartou todas as provas encontradas na casa de Dan e, alegando a natureza tendenciosa da imprensa em geral e do nosso programa em particular, livrou o sujeito de todas as acusações.

– Está brincando… – suspirou Wendy, sentindo-se fraquejar.

Vic permaneceu mudo.

Wendy fechou os olhos e sentiu o mundo desabar sobre a própria cabeça. Por isso Dan havia demonstrado tanta certeza de que ela compareceria ao tal encontro, concluiu.

– E agora? – ela perguntou ao chefe.

Vic não fez mais que erguer os olhos.

– Estou na rua?

– Está.

– Assim, sem mais nem menos?



– Infelizmente, sim. Tempos de crise. Os cartolas lá de cima já vinham falando em apertar o cinto. – Ele sacudiu os ombros. – Já que é para cortar a cabeça de alguém, quem melhor do que você?

– Posso sugerir vários outros nomes.

– Eu também. Mas foi você quem pisou na bola. Sinto muito, coração, mas é assim que a banda toca. O pessoal do RH vai cuidar da sua indenização. Arrume suas coisas ainda hoje. Eles não querem mais ver você por aqui.

Em estado de choque, Wendy precisou reunir forças para se levantar.

– Pelo menos você brigou em minha defesa?

– Só compro uma briga quando tenho alguma chance de ganhar. De outra forma, brigar para quê?

Wendy esperou um segundo antes de sair. Vic baixou o rosto e fingiu estar ocupado.

– Está esperando o quê? – perguntou, sem erguer os olhos. – Um momento de ternura?

– Não – respondeu Wendy. E depois: – Talvez.

– Vai se encontrar com Mercer?

– Vou – respondeu ela, já a caminho da porta.

– Vai tomar cuidado, não vai?

Wendy forçou um sorriso.

– Puxa, acabei de ter um flashback: minha mãe dizendo a mesma coisa quando fui para a universidade.

– E, pelo que sei, você não seguiu o conselho dela.

– É, não segui.

– Olhe, oficialmente falando, você não trabalha mais aqui e não vai poder contar com as facilidades de ser uma repórter da TV. Então eu diria que o melhor é você ficar longe de Dan Mercer.

– E extraoficialmente?

– Se você der um jeito de fisgar o cara… Bem, é mais fácil recontratar uma heroína do que um rostinho bonito.

♦ ♦ ♦


A casa estava no mais absoluto silêncio quando Wendy chegou, mas isso não significava nada. Na sua juventude, os pais sabiam que ela estava em casa por conta da música que ouvia, sempre no volume máximo, em seu quarto. Na época, os adolescentes ainda não tinham o hábito de usar fones de ouvido 24 horas por dia. Ela podia apostar que Charlie estava no computador, com os ouvidos devidamente plugados. A casa podia pegar fogo que ele nem perceberia.

Mesmo assim ela berrou a plenos pulmões:

– Charlie!

Como nos últimos três anos, nenhuma resposta.

Ela se serviu uma bebida (vodca de romã com um pouco de limão-galego) e se jogou na poltrona, agora surrada, que tinha sido a favorita de John. Talvez fosse meio sinistro mantê-la ali e se refestelar nela com um drinque ao fim de um dia difícil, mas aquilo era reconfortante para Wendy, então, paciência.

Até então ela vinha se perguntando como conseguiria pagar a faculdade do filho com o salário que ganhava. Agora não havia mais o que se perguntar: seria impossível mandá-lo para a universidade. Wendy bebeu outro gole de vodca e, olhando pela janela, começou a pensar no que deveria ou poderia fazer. Não sabia de qualquer vaga em nenhuma emissora e, como Vic observara com tanta diplomacia, ela havia pisado na bola, estava com o nome sujo na praça. Imaginou que outros empregos poderia tentar, mas a verdade era que ela não possuía nenhuma outra habilidade que o mercado valorizasse. Era desorganizada, mal-humorada e não sabia trabalhar em equipe. Se existisse um relatório de desempenho profissional, no dela viria escrito “Não sabe trabalhar com os outros”, o que não atrapalhava em nada uma repórter à procura de matérias, mas seria um problemão em quase todas as outras profissões.

Examinando a correspondência, ela se deparou com uma terceira carta de Ariana Nasbro. Sentiu o estômago embrulhar e as mãos começarem a tremer. Não seria necessário abri-la. Cerca de dois meses antes, ela havia lido a primeira delas e quase vomitara. Pegando o envelope com a ponta dos dedos como se ele cheirasse muito mal (e, pensando bem, cheirava mesmo), levou-o para a cozinha e o enfiou bem no fundo do cesto de lixo.

Por sorte, Charlie nunca olhava a correspondência. Ele sabia quem era Ariana Nasbro, claro. Doze anos antes, aquela mulher havia assassinado o pai dele.

Subiu as escadas e bateu à porta do filho. Como de hábito, não houve resposta, então ela entrou.

Charlie ergueu os olhos e tirou os fones de ouvido, irritado.

– Fala.

– Já fez seus deveres?



– Daqui a pouco.

Percebendo o estado da mãe, ele enfim abriu um sorriso, tão parecido com o de John que chegava a doer.

Wendy já ia reclamar, perguntar ao filho quantas vezes já lhe dissera que fizesse os deveres primeiro, mas depois pensou: para quê? Que sentido fazia ficar pegando no pé do garoto por causa dessas bobagens, quando o tempo que eles ainda tinham juntos parecia voar e muito em breve ele sairia de casa?

– Já deu comida ao Jersey? – ela perguntou.

– Humm…

Wendy revirou os olhos.



– Deixa para lá. Eu mesma dou.

– Mãe?


– Sim?

– Trouxe a comida chinesa?

O jantar. Ela havia esquecido.

Charlie revirou os olhos, imitando a mãe.

– Deixe de gracinha – ela disse. Já havia decidido que não daria ao filho a má notícia, que esperaria pelo momento certo, mas por algum motivo se viu dizendo: – Fui demitida.

Charlie não fez mais que olhar para ela.

– Você ouviu o que eu disse?

– Ouvi – ele respondeu. – Merda.

– É. Merda.

– Quer que eu vá buscar o jantar?

– Quero.

– Mas é você quem vai pagar, né?

– Tudo bem. Por enquanto, ainda dá.
4

MARCIA E TED MCWAID CHEGARAM ao auditório da escola às seis horas. Naquela noite, o chavão “a vida continua” não poderia ser mais apropriado, pois, embora fizesse 93 dias que Haley havia sumido, seria a estreia da produção de Os miseráveis da Kasselton High e Patricia, a segunda filha do casal, atuaria nos papéis de Observadora nº 4, Estudante nº 6 e o mais cobiçado de todos, Prostituta nº 2. Antes do sumiço de Haley, Ted volta e meia fazia piadas sobre o assunto, falando do orgulho que sentia por ter uma filha de 14 anos interpretando o papel de Prostituta nº 2. Aqueles dias já não existiam mais, eram um mundo e um tempo vividos por outras pessoas numa terra desconhecida.

Um zum-zum se espalhou pelo auditório quando eles entraram. Ninguém sabia ao certo como se comportar na presença deles. Marcia percebia o incômodo geral, mas nem sequer tinha ânimo para se importar.

– Preciso de um pouco d’água – ela disse.

– Vou guardando nossos lugares – disse Ted.

Marcia saiu pelo corredor, parou um instante no bebedouro e seguiu em frente. Mais adiante, dobrou à esquerda e se deparou com o zelador, que passava o esfregão no assoalho a alguns metros de distância. O homem usava fones de ouvido e sacudia a cabeça ao ritmo da música que só ele ouvia. Aparentemente, não havia notado a presença dela.

Marcia subiu a escada que levava ao segundo andar. A iluminação estava mais fraca ali e seus passos ecoavam no silêncio do prédio, sempre tão cheio de vida durante o dia. Nada é mais surreal, mais oco e vazio, que o corredor de uma escola à noite.

Olhando ao redor, viu que estava sozinha. Apertou o passo. Tinha um destino em mente.

A Kasselton High era uma escola grande, com cerca de 2 mil alunos. O prédio tinha quatro andares e, como tantas escolas em cidades que não param de crescer, mais parecia uma colmeia de anexos e expansões que um projeto arquitetônico coerente. Os últimos acréscimos à simpática estrutura original de tijolinhos revelavam que, para os administradores, a quantidade de salas importava mais que a estética. O resultado final era uma mistura de estilos e acabamentos, algo semelhante ao que as crianças costumam fazer com peças de Lego e blocos de madeira.

Na noite anterior, quebrando o funesto silêncio da casa dos McWaid, Ted, o extraordinário marido de Marcia, tinha dado uma gargalhada, uma gargalhada enorme, pela primeira vez em 93 dias. Uma obscenidade aos seus ouvidos. Ele se conteve quase imediatamente, sufocando a risada até transformá-la em soluços de choro. Marcia quis dizer ou fazer algo para consolar aquele homem torturado que ela tanto amava, mas simplesmente não conseguiu.

Os dois outros filhos, Patricia e Ryan, vinham lidando razoavelmente bem com o sumiço da irmã, pelo menos por fora. Mas os jovens têm mais facilidade de se adaptar que os adultos. Marcia tentava se concentrar neles, cobri-los de atenção e carinho, mas também não conseguia. Alguns supunham que ela ainda estava paralisada pela dor. E até certo ponto estava, mas não era apenas isso. Marcia vinha negligenciando os filhos mais novos porque, naquele momento, seu foco era um só: trazer Haley de volta para casa. Ela poderia recompensar o resto da família depois.

Até mesmo sua própria irmã, Merilee, a sabichona de Great Neck, tivera o desplante de dizer: “Você precisa se concentrar no seu marido e nos dois outros filhos em vez de ficar se lamentando por aí!” Marcia precisara se conter para não dar um soco na irmã e dizer a ela que calasse a boca e cuidasse da própria vida, do filho, Greg, que estava usando drogas, e do marido, Hal, que com certeza pulava a cerca.

O que Ryan e Patricia precisavam não era de uma mãe zelosa, que se desdobrava para manter o melhor trançado nas cordas da rede de lacrosse do filho mais novo ou para encontrar o tom de cinza perfeito para o figurino de uma peça da filha do meio. Eles precisavam da irmã e só ficariam realmente bem quando ela voltasse para casa.

Só então, quando Haley estivesse novamente com eles, aquela família poderia ter alguma chance de ser feliz.

Mas a triste verdade era que Marcia não passava seus dias à procura de Haley. Ela bem que tentava, mas um cansaço horrível insistia em abatê-la. Havia dias em que suas pernas pareciam feitas de chumbo e ela precisava se forçar a sair da cama de manhã. Mesmo ali, para caminhar pelos corredores da Kasselton High, era preciso um grande esforço.

Noventa e três dias.

Agora já conseguia avistar, adiante, o armário da filha. Alguns dias após o sumiço de Haley, amigos dela começaram a decorar a porta de metal do mesmo modo que as pessoas costumam fazer no local de um acidente de carro, construindo uma espécie de santuário. Fotos, flores, crucifixos e bilhetinhos: “Volte, Haley!”, “Estamos com saudades!”, “Esperamos por você”, “Nós te amamos”.

Marcia parou diante do armário, correu os dedos pelo cadeado e pensou nas tantas vezes que a filha havia passado por ali, retirando livros, deixando a mochila, pendurando o casaco, papeando com uma amiga sobre lacrosse ou talvez algum namoradinho.

Um barulho veio do fundo do corredor. Virando-se, ela viu Pete Zecher saindo de sua sala. Pete crescera em Kasselton, estudara naquela mesma escola e sempre sonhara em ser diretor. Agora que chegara ao cargo, mostrava que era realmente bom naquele trabalho, sempre muito acessível e disposto a chamar a atenção de um professor se isso fosse necessário para o bem do aluno.

Atrás de Pete vinha um casal, provavelmente pais de alunos, ambos desconhecidos. Os três estavam mudos. Zecher estendeu a mão, mas nenhum dos pais a apertou. Em vez disso, lhe deram as costas e saíram apressados rumo à escada. Zecher ficou olhando enquanto eles se afastavam, depois balançou a cabeça e se virou para os armários.



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