Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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Encontro10.08.2018
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– Marcia?

– Oi, Pete.

Caminhando ao encontro dela, Pete perguntou:

– Estou interrompendo alguma coisa?

– Não, claro que não – respondeu ela, forçando um sorriso. – Eu só queria me refugiar dos olhares um pouquinho.

– Vi o ensaio geral – disse Pete. – Sua filha está ótima.

– Bom saber.

Ambos olharam para o armário de Haley. Marcia viu um adesivo com as palavras “Kasselton Lacrosse” e dois bastões cruzados, igual ao que ela tinha num dos vidros traseiros do carro.

– Então, o que foi que houve com aqueles dois? – ela perguntou.

Pete abriu um sorriso discreto.

– Assunto confidencial.

– Ah.


– Mas posso falar hipoteticamente.

Ela esperou.

– Por acaso você consumia bebidas alcoólicas na época da escola? – perguntou Pete.

– Eu era uma garota certinha – disse Marcia, quase acrescentando “como Haley”. – Mas, sim, de vez em quando a gente conseguia uma cerveja.

– E como conseguiam?

– As cervejas? O tio de uma vizinha era dono de uma loja de bebidas. E você, fazia como?

– Um amigo nosso, Michel Wind, parecia bem mais velho do que era – respondeu Pete. – Desses que começam a se barbear com 12 anos, sabe? Pois é. Era ele quem comprava as bebidas. Hoje em dia isso não funcionaria. Todo mundo tem de mostrar a identidade.

– E o que isso tem a ver com o casal de pais hipotéticos?

– As pessoas hoje tendem a achar que os garotos compram bebida usando identidades falsas. Até acontece, mas, desde que me tornei diretor devo ter confiscado no máximo umas cinco carteiras falsas. Apesar disso, os adolescentes estão bebendo mais do que nunca.

– E como conseguem a bebida?

Pete olhou na direção da escada por onde o casal havia descido.

– Os pais.

– Os garotos roubam bebida dos pais?

– Quem dera. Sabe esse casal com que eu estava conversando… quer dizer, hipoteticamente conversando? Eram os Milner. São pessoas legais. Ele é corretor de seguros. Ela é dona de uma butique em Glen Rock. Têm quatro filhos, dois estudam aqui. O mais velho é da equipe de beisebol.

– E daí?

– E daí que na noite de sexta-feira essas duas pessoas legais compraram um barril de chope e deram uma festinha para o time de beisebol no porão de casa. Dois dos garotos ficaram tão bêbados que saíram para atirar ovos na casa de um vizinho. Outro por pouco não precisou de uma lavagem estomacal.

– Foram os pais que compraram o chope?

Pete fez que sim com a cabeça.

– Era sobre isso que vocês estavam falando?

– Era.


– E o que foi que eles disseram?

– O de sempre: “Mais dia, menos dia, os garotos vão começar a beber, então é melhor que seja com a gente por perto.” Os Milner não querem que os filhos façam alguma besteira, como dirigir bêbado ou ir para Nova York e encher a cara, sei lá. Então deixaram que os garotos bebessem no porão de casa, para que não fizessem uma bobagem maior.

– Até certo ponto, faz sentido.

– Você faria uma coisa dessas?

Marcia refletiu um instante.

– Não. Mas ano passado levamos Haley e uma amiga à Toscana. Deixamos que elas tomassem vinho nas vinícolas. Acha que fizemos mal?

– Vocês não estavam quebrando nenhuma lei italiana.

– Mas uma coisa não é muito diferente da outra.

– Então você acha que aqueles pais agiram certo?

– Pelo contrário. Acho que agiram muito mal – disse Marcia. – E a desculpa deles me parece meio furada. Quer dizer, comprar chope para menores de idade? Sei lá, acho que o motivo deles era outro, não tinha nada a ver com segurança. Alguns pais gostam de dar uma de moderninhos. Preferem dar uma de amigão a assumir a responsabilidade pelos filhos.

– Concordo.

– Por outro lado – disse Marcia, novamente se virando para o armário da filha –, quem sou eu para dar conselhos sobre como criar os filhos?

Silêncio.

– Pete?


– Diga.

– Qual é o ti-ti-ti?

– Como assim? Não entendi.

– Entendeu, sim. Os professores, alunos, ou seja lá quem for, o que as pessoas têm falado? Acham que a Haley foi sequestrada ou que fugiu de casa? E você, o que acha?

Mais silêncio. Marcia percebeu que ele estava tentando formular uma resposta.

– A verdade, Pete. Não precisa dourar a pílula.

– Tudo bem.

– Então?


– O que eu vou dizer se baseia somente na minha intuição.

– Entendo.

Pôsteres se espalhavam por toda parte nos corredores da escola. Faltava pouco para a formatura e a festa dos formandos. Os olhos de Pete Zecher vagaram para o armário de Haley. O olhar de Marcia o acompanhou, parando em uma fotografia que ela própria havia tirado com o iPhone de Haley, um aparelho com capinha cor-de-rosa decorado com adesivos de flores roxas: toda a sua família – Ted, Haley, Patricia e Ryan – ao lado do Mickey na Disney.

A foto havia sido tirada por sorte. Geralmente, uma fila enorme se formava diante do Mickey, crianças e mais crianças em busca de um autógrafo, mas Haley havia notado que, para aquele Mickey em particular, no Epcot Center, não havia fila nenhuma. Rindo de orelha a orelha, ela havia puxado os irmãos, dizendo: “Andem, vamos tirar uma foto rapidinho!” Marcia se lembrava de como a filha estava feliz naquele dia, sem nenhuma cobrança, todos eles se permitindo voltar à infância. A mãe insistira em ser a fotógrafa e ainda se lembrava da emoção que sentira ao ver sua família, seu maior tesouro, reunida ali, em torno do Mickey, na mais perfeita harmonia. Agora, olhando para aquela imagem, relembrando o breve momento de perfeição, não conseguia tirar os olhos do sorriso da filha.

A viagem fora três semanas antes do sumiço de Haley. A polícia chegara a fazer perguntas a respeito, supondo que a garota pudesse ter sido seguida por alguém que conhecera por lá, mas a hipótese não levara a lugar nenhum.

– Os pais sempre acham que conhecem os filhos, mas todo mundo tem seus segredos – disse Pete.

– Até Haley?

– Dê uma olhada nestes armários. – Pete estendeu o braço para mostrá-los. – Sei que é óbvio, mas cada um deles pertence a um jovem com sonhos e expectativas, todos eles passando por uma fase muito difícil da vida. A adolescência é uma guerra, com todo tipo de pressões, reais e imaginárias. Pressões sociais, acadêmicas, esportivas… E tudo isso enquanto os hormônios ficam fora de controle e o corpo muda completamente. Cada armário é uma pessoa atormentada que fica presa aqui sete horas por dia. Sou um cientista, meu parâmetro é a ciência. Sempre que passo por aqui, fico pensando em partículas submetidas a um calor intenso em laboratório. Elas precisam escapar para algum lugar.

– Então você acha que Haley fugiu?

Pete Zecher ainda olhava para a fotografia tirada na Disney. Também parecia focar no sorriso de Haley. Quando enfim se virou, Marcia viu lágrimas nos olhos dele.

– Não, Marcia, não acho que sua filha tenha fugido. Acho que alguma coisa aconteceu a ela. Algo muito ruim.
5

A PRIMEIRA COISA QUE WENDY fez ao acordar foi ligar a grelha de panini, um nome pomposo para a boa e velha sanduicheira elétrica. Em pouco tempo aquele se tornara o eletrodoméstico mais importante da casa, com o filho e ela praticamente vivendo de sanduíches. Colocou queijo e bacon entre duas fatias de pão integral e baixou a tampa aquecida.

Como em todas as manhãs, Charlie desceu as escadas como se fosse um cavalo gordo com bigornas nas patas. Na cozinha, deixou o corpo cair sobre uma das cadeiras e devorou o sanduíche.

– Que horas você vai trabalhar? – ele perguntou à mãe.

– Fui demitida ontem.

– Ah, é. Esqueci.

Às vezes, como agora, o egoísmo dos adolescentes podia ter seu lado bom.

– Pode me dar uma carona até a escola?

– Claro.

O trânsito diante da Kasselton High estava absurdamente congestionado. Às vezes essa demora enlouquecia Wendy, mas outras vezes era a oportunidade que tinha para conversar com o filho. Ele não costumava se abrir para ela com riquezas de detalhes, claro, mas bastava ouvi-lo com atenção para saber o suficiente. Hoje, no entanto, Charlie não parava de digitar mensagens no celular, mudo e de cabeça baixa, os dedos dançando rapidamente sobre as teclas minúsculas.

Quando Wendy parou diante da escola, ele ainda digitava. Desceu do carro sem se despedir.

– Obrigado, mãe! – ela mesma berrou.

– Foi mal. Valeu.

Chegando em casa, Wendy se deparou com um carro estacionado à sua porta. Antes de descer, pegou o celular, digitou os três números da polícia e manteve o polegar sobre o botão de enviar. Não que esperasse algum problema, mas não custava nada se precaver. Só então desceu.

O homem agora se agachava junto ao carro dela, próximo a uma das rodas traseiras.

– O pneu está baixo – ele disse.

– Posso ajudá-lo em alguma coisa, Sr. Grayson?

Ed Grayson ficou de pé, limpou as mãos e franziu os olhos por causa do sol.

– Fui até o estúdio hoje. Disseram que a senhora foi demitida.

Wendy não disse nada.

– Suponho que tenha sido por causa da decisão da juíza.

– O senhor precisa de alguma coisa?

– Gostaria de me desculpar pelo que disse ontem, logo depois da audiência.

– Muita gentileza sua.

– Se a senhora tiver um minutinho – prosseguiu Grayson –, acho que precisamos conversar.

♦ ♦ ♦


Ed Grayson recusou a água. Wendy se sentou à mesa da cozinha e esperou. Grayson andava de um lado para o outro até que, sem mais nem menos, puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ela, a menos de um metro de distância.

– Em primeiro lugar – disse –, eu gostaria de me desculpar novamente.

– Não precisa. Entendo como o senhor se sente.

– Entende mesmo?

Wendy permaneceu calada.

– Meu filho se chama E. J. Ed Junior. Era um garoto feliz. Adorava esportes, principalmente hóquei. Eu jogava basquete quando era jovem, não entendo nada de hóquei, mas minha mulher, Maggie, nasceu em Québec. Todo mundo na família dela joga. Está no sangue. Então aprendi a gostar também. Pelo garoto. Mas agora… Bem, agora E. J. perdeu todo o interesse pelo esporte. Quase entra em parafuso quando a gente passa perto de um rinque. Só quer saber de ficar em casa.

Ele se calou e desviou o olhar. Wendy disse:

– Sinto muito.

Silêncio.

Wendy achou por bem ir direto ao assunto:

– Sobre o que o senhor estava falando com Flair Hickory?

– Faz duas semanas que ninguém vê o cliente dele.

– E daí?

– Eu queria saber onde o sujeito estava, mas Hickory não quis dizer.

– E o senhor esperava o quê?

Mais silêncio.

– Então, Sr. Grayson, em que posso ajudá-lo?

Grayson começou a remexer no próprio relógio, um Timex simples, desses com pulseira de metal elástica. O pai de Wendy tinha um igual. Sempre ficava com uma mancha vermelha na pele quando o tirava do pulso. Engraçado, tantos anos já haviam se passado desde a morte dele e ela ainda se lembrava disso.

– Seu programa de TV – disse Grayson. – Você passou um ano caçando pedófilos. Por quê?

– Por que o quê?

– Por que pedófilos?

– Que diferença faz?

Grayson tentou sorrir, sem grande sucesso.

– Por favor, responda.

– Porque a audiência era boa, eu acho.

– Claro, mas não era só por isso, era?

– Sr. Grayson…

– Pode me chamar de Ed.

– Sr. Grayson – ela insistiu –, gostaria que o senhor fosse direto ao ponto.

– Sei o que aconteceu com seu marido – ele disse. Assim, à queima-roupa.

Wendy sentiu o estômago arder, mas não disse nada.

– Ela foi solta, sabia? Ariana Nasbro.

Só de ouvir o nome, Wendy ficou arrepiada.

– Eu sei.

– Acha que ela já está totalmente curada? – perguntou Grayson.

Wendy pensou nas cartas de Ariana, em como se sentia ao recebê-las.

– Pode ser que esteja – ele mesmo respondeu. – Sei de muita gente que ficou boa nesse estágio. Mas isso não importa para você, não é, Wendy?

– Não é da sua conta.

– Tem razão. Mas Dan Mercer é. Você tem um filho, não tem?

– Também não é da sua conta.

– Pessoas como esse Dan… – prosseguiu Grayson. – Pode ter certeza: no caso delas não existe cura. – Ele se aproximou ainda mais, inclinando a cabeça. – Mas isso faz parte, não faz, Wendy?

– Faz parte de quê?

– Do motivo de você ir atrás de pedófilos. Os alcoólatras… bem, esses podem parar de beber se quiserem. Mas os pedófilos, não. Esses não têm conserto. Nem perdão.

– Tenha dó, Sr. Grayson, não vá querer dar uma de psicanalista para cima de mim. O senhor não sabe nada a meu respeito.

– Tudo bem – ele disse, sacudindo a cabeça.

– Então desembuche.

– É muito simples. Se ninguém pegar esse Dan Mercer, ele vai acabar moles-tando outras crianças. E você sabe disso tanto quanto eu.

– O senhor está falando com a pessoa errada. Deveria ter procurado a juíza Howard.

– Ela não ia poder me ajudar.

– E eu posso?

– É uma repórter. Uma ótima repórter.

– Uma repórter desempregada.

– Mais um motivo.

– Mais um motivo para quê?

Ed Grayson se inclinou para a frente.

– Para me ajudar a encontrar Dan Mercer.

– Para o senhor matá-lo em seguida, é isso?

– Ele não vai parar.

– É o senhor que está dizendo.

– Mas?


– Acontece que não quero participar dos seus planos de vingança.

– Acha que é isso que tenho em mente?

Wendy deu de ombros.

– Não é uma questão de vingança – disse Grayson, quase sussurrando. – Na verdade, é o oposto disso.

– Não entendi.

– Só tomei essa decisão depois de pensar bastante. E a questão aqui é muito prática: não correr o risco. Preciso ter certeza de que Dan Mercer nunca mais vai machucar outra pessoa.

– Matando o cara?

– E tem outro jeito? Não é vingança, nem sede de sangue ou violência, nada disso. Somos todos seres humanos, mas se uma pessoa faz uma coisa dessas, se a sua genética ou a sua história de vida são tão ruins que ela precisa molestar uma criança, bem, nesse caso, o mais humano a fazer é… matá-la.

– E é bom ser juiz e júri ao mesmo tempo?

Ed Grayson pareceu esboçar um sorriso.

– Acha que a juíza Howard tomou a decisão certa? – perguntou ele.

– Não.


– Então, quem melhor do que nós, que estamos por dentro da verdade?

Wendy refletiu um instante.

– Ontem, depois da audiência, por que você disse que eu menti?

– Porque mentiu mesmo. Você não estava nem um pouco preocupada com Mercer, se ele ia se matar ou não. Entrou naquela casa porque temia que ele destruísse as provas.

Silêncio.

Ed Grayson ficou de pé, atravessou a cozinha e parou diante da pia.

– Posso pegar um pouco d’água?

– Fique à vontade. Os copos estão à sua esquerda.

Grayson pegou um copo e abriu a torneira.

– Tenho um amigo… – ele foi dizendo enquanto observava a água encher o copo. – Um bom sujeito, um advogado muito bem-sucedido. Anos atrás ele me disse que era totalmente a favor da guerra no Iraque. Deu um milhão de motivos, falando que o povo iraquiano merecia uma chance de liberdade, coisa e tal. Eu disse a ele: “Você tem um filho, não tem?” Ele respondeu: “Tenho, está indo para a faculdade: Wake Forest.” Então perguntei: “E você sacrificaria a vida dele em nome dessa guerra?” Pedi que ele respondesse com toda a honestidade. Peguei pesado. Falei: “Suponhamos que Deus aparecesse para você e dissesse: ‘O negócio é o seguinte: os Estados Unidos ganham a guerra, seja lá o que isso signifique, mas em troca seu filho leva uma bala na cabeça e morre. Só ele e mais ninguém. Todos os outros voltam para casa, sãos e salvos, mas seu filho morre.’ Então, você toparia a troca?”

Grayson deu um demorado gole na água.

– O que foi que seu amigo disse?

– E você, Wendy, diria o quê?

– Não sou o seu amigo advogado que apoiava a guerra.

– Que resposta mais evasiva! – disse Grayson com um sorriso. – Quer saber? No fundo, no fundo, nenhum de nós toparia uma coisa dessas. Nenhum de nós sacrificaria um filho em nome de uma guerra.

– Todo dia alguém manda um filho para a guerra.

– Para a guerra, sim, mas nenhum pai quer mandar o filho para a morte. É diferente, ainda que esses pais estejam querendo tapar o sol com a peneira. Eles aceitam correr o risco só porque acham que não será o filho deles quem vai morrer. É diferente. Não é uma escolha, como eu propus ao meu amigo.

Grayson se calou e ficou olhando para Wendy.

– Está esperando que eu aplauda? – ela perguntou.

– Não concorda comigo?

– Sua hipótese não dá o devido valor ao sacrifício. E não faz o menor sentido.

– Tudo bem, talvez eu tenha sido injusto com meu amigo advogado. Mas no nosso caso, Wendy, existe um elemento que é bastante real. Dan Mercer não vai molestar meu filho outra vez e o seu já está velho demais para ele. Você vai se omitir só porque seu filho está fora de perigo? Será que temos esse direito, será que podemos lavar as mãos só porque nossos filhos estão seguros?

Wendy não disse nada.

– Não podemos ficar só torcendo para que as coisas deem certo, Wendy – arrematou ele.

– Não tenho vocação para justiceira, Sr. Grayson.

– Não se trata disso.

– É o que parece.

– Então pense nisso. – Grayson encarou-a até que ela o encarasse de volta, dando-lhe total atenção. – Se você pudesse voltar no tempo e encontrar Ariana Nasbro…

– Pare – ela disse.

– Se pudesse voltar até a primeira vez em que ela foi pega bêbada ao volante, ou a segunda, ou a terceira…

– Cale essa boca agora!

Ed Grayson assentiu, aparentemente satisfeito por ter conseguido colocar o dedo na ferida que tinha em mente.

– Acho que já posso ir – disse, caminhando rumo à porta. – Pense no assunto, o.k.? É só o que peço. Você e eu estamos do mesmo lado, Wendy. Você sabe disso, não sabe?

♦ ♦ ♦


Ariana Nasbro.

Assim que Grayson saiu, Wendy fez o que pôde para não pensar na maldita carta que havia jogado no lixo.

Ficou ouvindo música em seu iPod por um tempo, de olhos fechados, tentando deixar que isso a acalmasse. Escolhera a pasta que incluía Thriving Ivory cantando “Angels on the Moon”, William Fitzsimmons e sua “Please Forgive Me” e David Berkeley com “High Heels and All”. Mas aquilo não estava ajudando, eram todas canções que falavam de perdão. Então tentou outro caminho: vestiu roupas de ginástica e mudou o repertório, indo desde músicas de sua infância, como “Shout”, do Tears for Fears, e “First Night”, com Hold Steady, até “Lose Yourself”, do Eminem.

Também não estava funcionando. As palavras de Ed Grayson não saíam de sua cabeça: “Se você pudesse voltar no tempo e encontrar Ariana Nasbro…”

Ela voltaria, sem dúvida alguma. Voltaria no tempo, pegaria aquela filha da puta, arrancaria a cabeça dela e dançaria em volta do corpo ainda trêmulo.

Uma ótima ideia, mas só isso, uma ideia.

Wendy abriu seu e-mail. Como prometido, Dan Mercer havia enviado uma mensagem com o endereço onde encontrá-lo em um lugar em Wykertown, Nova Jersey. Ela não sabia onde ficava, então pesquisou no Google. Levaria uma hora para chegar até lá. Tudo bem. Ainda eram pouco mais de dez da manhã. Faltavam quase quatro horas para o encontro.

Tomou um banho e se vestiu. A carta. A droga da carta. Wendy correu de volta à cozinha, vasculhou o lixo e encontrou o envelope branco. Por um instante ficou examinando a caligrafia, como se pudesse tirar dela alguma pista. Em vão. Por fim pegou uma faca, abriu o envelope e puxou as duas folhas de papel pautado do mesmo tipo que ela usava na escola quando criança.

Ainda de pé diante da pia, ela leu a carta de Ariana Nasbro. Nenhuma surpresa, nada que lhe desse uma nova compreensão das coisas, apenas o egoísmo que nos alimenta desde o dia em que nascemos. Um monte de clichês, frases sentimentaloides e desculpas esfarrapadas. Cada palavra parecia abrir uma nova ferida em Wendy. Ariana Nasbro falava de coisas como “as sementes da minha própria autoimagem”, “me redimir” e “chegar ao fundo do poço”. Patético. Tivera o atrevimento de escrever “as agressões em minha vida e como aprendi a perdoar”, “as bênçãos do perdão” e sobre sua vontade de “levar essas bênçãos a outras pessoas, como você e Charlie”.

A fúria que Wendy sentiu ao ver o nome do filho escrito por aquela mulher foi maior do que a ira que qualquer outra coisa poderia despertar.

“Serei uma alcoólatra para sempre”, Ariana dizia lá pelo final de sua lenga-lenga. Mais um verbo na primeira pessoa: sou isso, quero aquilo, farei aquilo outro. Eu, eu, eu. O pronome também estava por toda parte.

“Hoje sei que sou um ser imperfeito, digno de perdão.”

Wendy estava a ponto de vomitar.

E a carta terminava assim:

“Esta é a terceira vez que escrevo. Por favor, responda, para que minha cura possa começar. Que Deus a abençoe.”

Se você faz tanta questão de uma resposta, pensou Wendy, então vai ter. E é agora.

Ela pegou as chaves e irrompeu na direção do carro. Digitou no GPS o endereço que estava no envelope e saiu para a clínica onde Ariana Nasbro estava em tratamento.

A clínica ficava em New Brunswick, a uma hora da casa de Wendy, mas ela chegou lá em menos de 45 minutos. Estacionou o carro e correu para a recepção, onde deu seu nome e pediu para falar com Ariana Nasbro. A recepcionista a convidou a se sentar, mas ela agradeceu e disse que esperaria em pé.

Ariana Nasbro chegou alguns minutos depois. Wendy não a via desde o julgamento por homicídio culposo, sete anos antes. Ainda se lembrava da imagem dela na época, uma mulher digna de pena, acuada, de ombros caídos e cabelos de um marrom acinzentado. Seus olhos piscavam incessantemente, como se ela esperasse um tapa a qualquer momento.

A mulher que ela via agora, a Ariana pós-prisão, era diferente. Os cabelos estavam curtos e brancos. Ela ergueu a cabeça e, sustentando o olhar de Wendy, disse:

– Obrigada por ter vindo.

Wendy ignorou a mão que ela lhe estendia.

– Não foi por sua causa que eu vim – disse.

Ariana forçou um sorriso.

– Quer dar uma caminhada enquanto conversamos?

– Não, Ariana, não quero dar caminhada nenhuma. Nas suas cartas… quer dizer, as duas primeiras eu simplesmente ignorei, mas parece que você não tem desconfiômetro. De qualquer forma, na terceira você pergunta o que pode fazer para se redimir.

– Sim.

– Pois vim aqui para responder: pare de ficar mandando essas porcarias de cartas com essa ladainha egocêntrica que você aprendeu no AA. Não dou a mínima para você. Não tenho a menor intenção de perdoá-la para que você possa se reerguer, se curar, ou seja lá o que for. Não tenho nenhum interesse em ajudar você. E esta não é a primeira vez que você se interna numa clínica, é?



– Não, não é – respondeu Ariana, de cabeça erguida.

– Já tinha se internado duas vezes antes de matar meu marido, não tinha?

– Sim – ela disse calmamente.

– Já chegou ao Oitavo Passo alguma vez antes?

– Já, mas desta vez é diferente, porque…

Wendy ergueu a mão para interrompê-la.

– Não interessa. Para mim não faz a menor diferença o fato de esta vez ser igual ou não às outras. Não estou nem aí para você, para a sua recuperação ou para o seu Oitavo Passo. Mas se quiser mesmo se redimir, é só ir lá fora e se jogar embaixo do primeiro ônibus que passar. Parece cruel, não é? Mas se, na última vez que você chegou ao Oitavo Passo, o pobre-coitado que recebeu essas suas cartas cheias de ladainha egocêntrica tivesse lhe dito isso em vez de perdoá-la, talvez, quem sabe, você tivesse seguido o conselho. Aí eu teria meu marido e Charlie, o pai. É isso o que me interessa. Não você. Não a sua festinha comemorando seis meses sóbria. Não a sua jornada espiritual rumo à sobriedade. Portanto, se quer mesmo se redimir, Ariana, tente, pelo menos uma vez na vida, não se colocar em primeiro lugar. Por acaso você está curada? Totalmente, 100% curada? Tem certeza absoluta de que nunca mais vai beber?



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