Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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– Não há cura para o alcoolismo – disse Ariana.

– Ah, claro, mais uma pérola da cartilha do AA. Um dia de cada vez, não é isso? Pois bem, se quer se redimir, pare de mandar cartas, pare de ficar falando sobre si mesma numa rodinha de estranhos, pare de ignorar o futuro. E se não quer correr o risco de matar o pai de outra criança, se jogue na frente de um ônibus e pronto. Fora isso, a única coisa que você pode fazer é deixar a mim e ao meu filho em paz. Nunca vamos perdoar você. Nunca. Quanta pretensão da sua parte, quanto egoísmo, achar que faríamos isso só para que você, logo quem, se sentisse curada!

Então Wendy virou as costas e voltou para o carro.

Já havia acertado as contas com Ariana Nasbro. Agora era a vez de Dan Mercer.
6

MARCIA MCWAID SENTOU-SE ao lado de Ted no sofá. À sua frente, Frank Tremont, investigador da polícia do condado de Essex, estava prestes a dar seu relatório semanal sobre o caso de Haley. Marcia já sabia o que ele tinha a dizer.

Tremont usava um terno marrom-escuro e uma gravata que parecia ter passado meses embolada em uma gaveta. Tinha por volta de 60 anos, beirando a aposentaria, e trazia no rosto aquela expressão de quem já viu de tudo na vida, típica de pessoas que trabalham muitos anos na mesma coisa.

Marcia ouvira rumores de que talvez o homem já estivesse longe do seu auge, empurrando com a barriga os últimos meses de serviço. Mas não era isso o que ela via e Tremont ainda estava lá, fazendo suas visitas regulares, mantendo contato. No início aparecia acompanhado de outras pessoas (agentes federais, especialistas em desaparecimentos, colegas de diversas áreas), mas, ao longo daqueles 94 dias, o contingente fora minguando até se reduzir apenas ao velho investigador e seu terno medonho.

Antes Marcia se dava o trabalho de oferecer café e biscoitos aos visitantes. Mas já não se preocupava em manter essa aparência de normalidade. Agora, naquela bela casa de um bairro agradável, sabia que Frank Tremont estava encarando um casal de pais visivelmente dilacerados e se perguntando como dizer a eles, mais uma vez, que não havia novidade alguma no caso da menina desaparecida.

– Sinto muito – disse ele afinal, como se obedecendo à deixa de um ponto.

Ted se recostou no sofá e jogou a cabeça para trás, piscando para afugentar as lágrimas. Marcia sabia que o marido era um homem maravilhoso, ótimo pai e provedor, mas descobrira que ele não era dos mais fortes.

Sem tirar os olhos do investigador, ela perguntou:

– Então, e agora?

– Agora continuamos a busca – ele disse.

– Como? – devolveu Marcia. – Quer dizer… o que mais vocês podem fazer?

Tremont abriu a boca para dar uma resposta qualquer, mas, vendo que não a encontraria, disse apenas:

– Não sei, Marcia.

Ted enfim deixou que as lágrimas corressem.

– Eu não entendo – ele disse, como havia feito tantas vezes antes. – Como é possível que vocês não tenham novidade nenhuma?

Tremont apenas esperou.

– Com toda essa tecnologia, todos esses avanços e a internet…

Ted balançou a cabeça, sem conseguir terminar a frase. Não entendia como aquilo era possível.

Mas Marcia sabia que as coisas não eram tão simples. Antes do sumiço de Haley, eles eram uma típica família americana que só conhecia a polícia pelos programas de televisão (nos quais os casos são sempre resolvidos) e era nisso que baseavam sua fé na instituição. Os atores bonitões encontravam um fio de cabelo, uma digital ou uma casquinha de pele no chão, botavam aquilo sob as lentes de um microscópio e o mistério era solucionado em menos de uma hora.

Mas a realidade era bem diferente. A realidade estava nos jornais. A polícia do Colorado, por exemplo, ainda não havia encontrado o assassino de JonBenét Ramsey, a garotinha dos concursos de beleza. E Marcia ainda se lembrava das manchetes sobre Elizabeth Smart, uma bela moça de 14 anos levada de seu quarto durante a noite. A mídia não falara de outra coisa, o mundo inteiro ficara perplexo com esse sequestro, todos os olhos voltados para o batalhão de policiais, agentes do FBI e especialistas, enquanto eles vasculhavam Salt Lake City em busca de pistas. E no entanto, por mais de nove meses ninguém se dera o trabalho de investigar o maluco com complexo de Deus que havia trabalhado para a família, muito embora a irmã de Elizabeth o tivesse visto na noite do desaparecimento. Qualquer um que assistisse a uma história semelhante em CSI ou Law & Order com certeza atiraria longe o controle remoto. Aquilo não podia ser verdade. No entanto, por mais que as pessoas fingissem não ver, histórias assim aconteciam o tempo todo.

A realidade, Marcia agora sabia, era que mesmo os bandidos mais idiotas conseguiam escapar ilesos depois de cometerem os crimes mais hediondos.

A realidade era: ninguém estava seguro.

– Vocês não têm nenhum fato novo para relatar? – arriscou Tremont. – Nada?

– Já contamos tudo que tínhamos para contar – disse Ted.

Tremont meneou a cabeça, mais constrangido do que nunca.

– Já tivemos outros casos como este. Às vezes a pessoa desaparecida, geralmente uma adolescente, acaba dando as caras de uma hora para outra. São garotas que precisavam se isolar por algum motivo ou que tinham um namorado secreto.

Ele já havia tentado convencê-los disso antes. Frank Tremont, como todos os demais, inclusive Ted e Marcia, queria acreditar que se tratava de uma fuga.

– Uma garota de Connecticut, por exemplo – prosseguiu o investigador –, se envolveu com o cara errado e fugiu com ele. Mas voltou para casa três semanas depois.

Ted olhou para a mulher em busca de combustível para a própria esperança. Marcia, por sua vez, fez o que pôde para fabricar uma expressão mais otimista, mas não conseguiu. Ted se desculpou e virou o rosto, como se tivesse sido repreendido.

Para Marcia era estranho que fosse ela, logo ela, quem enxergava as coisas com maior clareza. É claro que nenhum pai quer admitir não ter percebido que uma adolescente estava tão infeliz ou confusa a ponto de precisar sumir por três meses. A polícia os havia inquirido sobre todos os problemas e decepções da adolescência de Haley. Sim, ela havia sido recusada pela Universidade da Virgínia. Sim, ela não havia ganhado o prêmio de melhor redação da turma e não fora selecionada para o programa de estudos avançados da Kasselton High. E sim, talvez tivesse terminado com um namoradinho recentemente. Mas e daí? Todo adolescente passa por coisas semelhantes.

Marcia sabia a verdade desde o primeiro dia. Sabia que, tal como dissera Pete Zecher, algo havia acontecido à sua filha. Algo de muito ruim.

Tremont permanecia ali, sem saber ao certo o que fazer.

– Frank – disse Marcia, fazendo com que ele erguesse os olhos –, quero lhe mostrar uma coisa.

Ela tirou da bolsa a fotografia com Mickey Mouse que havia encontrado no armário de Haley e a entregou ao inspetor. Tremont a examinou com atenção, sem nenhuma pressa. No silêncio, Marcia podia ouvir a respiração dele.

– Essa foto foi tirada três semanas antes do desaparecimento de Haley.

Tremont redobrou a atenção na esperança de encontrar ali alguma pista adicional.

– Eu me lembro – ele disse. – A viagem que vocês fizeram à Disney.

Olhe bem para o rosto dela, Frank. Você acha que essa garota da foto, com esse sorriso, estava prestes a fugir de casa? Acha mesmo que ela seria capaz de se mandar sozinha por aí e que seria esperta o bastante para nunca usar o celular, um caixa eletrônico ou os cartões de crédito?

– Não – disse Tremont. – Não acho.

Por favor, Frank, continue procurando.

– Vou continuar, Marcia. Prometo que vou.

♦ ♦ ♦


A primeira imagem que deve surgir na cabeça das pessoas quando pensam nas autoestradas de Nova Jersey deve ser a mistura de galpões abandonados, cemitérios malcuidados e casebres apinhados da Garden State Parkway. Talvez alguém se lembre das fábricas, chaminés e gigantescos complexos industriais que fazem a New Jersey Turnpike parecer um cenário de O exterminador do futuro. Mas ninguém pensaria na Rota 15 do condado de Sussex, cercada de fazendas, lagos, celeiros antigos, feiras comunitárias e antigos campos de beisebol.

Seguindo as instruções do Google, Wendy seguiu pela Rota 15 até ela acabar na 206, virou à direita numa estradinha de cascalho, passou pelos depósitos da U-Store-It e chegou ao estacionamento de trailers de Wykertown. O lugar, pequeno e silencioso, tinha aquele aspecto fantasmagórico em que esperamos topar a qualquer instante com um balanço enferrujado rangendo ao sabor do vento. O trailer de Mercer ficava numa das extremidades, Fila D, Coluna 7, não muito longe da cerca de arame.

Wendy desceu do carro. Nenhum barulho. Aquela calmaria era estranha. Não havia montes de feno seco rolando ao vento, mas era só o que faltava. Tudo ali lembrava uma cena pós-apocalíptica, os dias que se seguem à explosão de uma bomba que fez as pessoas evaporarem. Os varais estavam lá, mas sem nenhuma roupa neles. Cadeiras dobráveis com o forro rasgado entulhavam o chão. Churrasqueiras e brinquedos de praia davam a impressão de terem sido abandonados às pressas.

Wendy conferiu o celular para ver se havia sinal. Nem um pontinho. Que ótimo! Ela subiu os dois degraus de tijolos e parou diante da porta do trailer. Uma parte dela (a parte racional, que sabia que ela era a mãe de um adolescente, não uma super-heroína de histórias em quadrinhos) lhe dizia para dar meia-volta e desistir daquela idiotice. Wendy teria ponderado melhor a ideia, mas subitamente a porta de tela se abriu e Dan Mercer apareceu.

Ao ver o rosto à sua frente, ela recuou assustada.

– O que foi que aconteceu?

– Entre – Mercer conseguiu dizer, movimentando os maxilares inchados.

O nariz estava afundado e havia hematomas por toda parte, mas isso não era o pior. O pior eram as marcas de queimadura que se espalhavam pelo rosto e pelos braços dele.

Apontando para uma delas, Wendy perguntou:

– Foi com cigarro que fizeram isso?

À custa de certo esforço, Dan sacudiu os ombros e disse:

– Eu disse que era proibido fumar no meu trailer. Parece que eles não gostaram.

– Eles quem?

– Só estava brincando.

– Eu sei, eu sei. Mas quem foi que atacou você?

Dan Mercer não respondeu. Apenas disse:

– Vamos, entre.

– Acho melhor conversarmos aqui.

– Puxa, Wendy, não confia em mim? Como você mesma disse, aliás, de forma tão direta, você não faz o meu tipo.

– Mesmo assim – ela disse.

– Não estou muito a fim de ficar aqui fora.

– Eu insisto.

– Então, tchau. Sinto muito ter feito você vir de tão longe para nada.

Dan deixou a porta se fechar e sumiu no interior do trailer. Wendy esperou um segundo, pensando ser um blefe. Não era. Então, contrariando seus alarmes internos (de qualquer maneira, Dan não chegava a oferecer grande risco na condição em que estava), ela abriu a porta e entrou. Ele se encontrava nos fundos do trailer.

– Seu cabelo – ela disse.

– O que é que tem?

Os cabelos de Dan, antes castanhos, agora apresentavam um tom horrível de amarelo que alguns poderiam chamar de louro.

– Foi você mesmo que o tingiu?

– Não. Foi a Dionne, minha hair stylist.

Wendy quase sorriu.

– É, assim fica mais fácil passar despercebido – ela disse.

– Eu sei. Parece que saí de um vídeo de glam rock dos anos 1980.

Dan se afastou ainda mais rumo à traseira do trailer, como se não quisesse ser visto com tantos ferimentos. Wendy deixou a porta bater atrás de si e correu os olhos pelo ambiente. Raios de sol rasgavam a penumbra através das janelas. O chão à sua frente era de linóleo gasto. Um tapete laranja de franjas compridas, tão berrante quanto vagabundo, cobria o espaço nos fundos.

Encurvado e ferido, Dan parecia um homem pequeno no canto onde estava. O que mais irritava Wendy era que, um ano antes de preparar sua armadilha e descobrir as verdadeiras predileções desse mesmo homem, ela havia tentado fazer uma matéria sobre o trabalho dele. Na época, Dan parecia ser a mais rara das criaturas: uma pessoa realmente altruísta, alguém que de fato queria fazer a diferença no mundo e que, para surpresa geral, não usava esse desejo para se promover.

Wendy dificilmente admitiria isso, mas a verdade era que havia ficado encantada. Dan era um homem bonito de cabelos castanhos desalinhados e olhos azul-escuros. Tinha o dom de olhar para uma pessoa como se não houvesse mais ninguém no mundo. Era simpático, charmoso e gostava de fazer piada de si mesmo. Wendy agora via por que aquelas pobres crianças haviam caído na conversa dele.

Mas como era possível que ela própria, uma repórter cética até os ossos, não tivesse enxergado a verdade?

Wendy havia chegado ao ponto (mas, de novo, jamais o admitiria) de esperar que ele a convidasse para sair. Sentira uma espécie de corrente elétrica quando ele a encarara e tinha certeza de que mandara alguns íons na direção dele também.

Era mais do que assustador pensar numa coisa dessas agora.

No fundo do trailer, Dan tentou encará-la com a mesma intensidade de antes, mas a corrente elétrica não estava mais lá. Nenhum resquício daquela limpidez que tanto a havia seduzido. No lugar dela, o que se via naquele olhar era algo que inspirava pena. Mesmo agora, mesmo sabendo de tudo, os instintos de Wendy diziam que aquele homem simplesmente não podia ser o monstro que de fato era.

Bobagem. Ela havia sido enganada por um vigarista. Simples assim. A modéstia dele não passava de fachada. Instintos, faro, intuição feminina, seja lá o que for: Wendy metia os pés pelas mãos sempre que se deixava levar por algo semelhante.

– Eu não fiz aquilo, Wendy.

Mais um “eu”. Que dia.

– Isso você já disse pelo telefone – ela rebateu. – Dá para elaborar um pouquinho?

Dan parecia perdido, sem saber como prosseguir.

– Desde que fui preso, você tem investigado minha vida, não tem?

– Tenho, e daí?

– Conversou com os garotos do meu centro comunitário, não conversou? Com quantos você falou?

– Que diferença faz?

– Com quantos, Wendy?

Ela sabia muito bem aonde ele queria chegar.

– Quarenta e sete – respondeu.

– E quantos disseram que foram molestados por mim?

– Nenhum. Pelo menos publicamente. Mas tive acesso a certas pistas anônimas.

– Pistas anônimas – ele repetiu. – Você está falando desses blogs anônimos que qualquer um pode ter escrito, inclusive você.

– Ou uma criança assustada.

– Mas você não acreditou muito no que leu, não é? Caso contrário teria mostrado esses blogs no seu programa.

– Isso não prova sua inocência, Dan.

– Engraçado.

– O quê?

– Achei que fosse o inverso, que uma pessoa fosse inocente até que se provasse o contrário.

Wendy tentou não revirar os olhos. Não estava com a menor disposição para aquele tipo de jogo. Achava que já era hora de virar a mesa.

– Sabe o que mais encontrei na minha investigação? – perguntou.

Dan Mercer pareceu recuar ainda mais, quase chegando ao fim do trailer.

– O quê?


– Nada. Nenhum amigo, nenhum parente, nenhum vínculo real. Não fosse por sua ex-mulher e pelo centro comunitário, você bem que poderia ser um fantasma.

– Meus pais morreram quando eu era pequeno.

– Eu sei. Você cresceu num orfanato no Oregon.

– E daí?


– E daí que há muitas lacunas no seu histórico.

– Armaram para cima de mim, Wendy.

– Certo. Mesmo assim, foi você quem apareceu naquela casa na hora marcada.

– Achei que estava indo ajudar uma menina em apuros.

– Meu herói. E foi entrando na casa. Assim, sem mais nem menos.

– Chynna chamou meu nome.

– A menina se chamava Deborah, não Chynna. É estagiária lá na emissora. Quanta coincidência, a voz dela parecer com a dessa misteriosa Chynna.

– Ela estava longe – ele argumentou. – Foi você que armou isso, não foi? Fazendo parecer que ela estava saindo do banho.

– Então você achou que era uma moça chamada Chynna, uma moça do centro comunitário, é isso?

– É.


– Claro que investiguei sobre essa tal de Chynna, Dan. Só para colocar os devidos pingos nos is. Pedi que fizessem um retrato falado dela.

– Eu sei.

– Mostrei esse retrato a todo mundo naquela área. Inclusive, claro, a todos os funcionários e residentes do seu centro comunitário. Ninguém conhece a garota. Ninguém nunca a viu. Ninguém.

– Já disse. Ela me procurou em segredo.

– Muito conveniente. E alguém usou seu laptop, na sua casa, para mandar aquelas mensagens nojentas, certo?

Dan não disse nada, então Wendy prosseguiu:

– E alguém baixou aquelas fotos também, certo? Ah, e alguém, talvez eu, segundo seu advogado, escondeu aquelas fotos revoltantes na sua garagem.

Dan Mercer baixou os olhos, vencido.

– Sabe o que você devia fazer, Dan? Agora que está livre e a salvo dos braços da lei, você devia se tratar. Buscar uma terapia.

Ele balançou a cabeça e abriu um sorriso.

– O que foi? – ela perguntou.

– Você caça pedófilos há dois anos, Wendy. Ainda não aprendeu?

– Aprendi o quê?

Do fundo do trailer veio quase um sussurro:

– Não existe cura para a pedofilia.

Wendy sentiu um frio na espinha.

E por pouco não foi atropelada quando a porta atrás dela se abriu com um estrondo e um homem irrompeu no trailer. Um homem armado e com o rosto coberto por um gorro de esqui.

Nenhuma advertência, nenhuma ordem para que Dan ficasse onde estava ou levantasse os braços. Nada. Apenas o estalido seco da arma.

Dan girou e caiu, batendo o rosto no chão.

Wendy gritou e se jogou atrás do sofá, como se ele pudesse protegê-la. Dali pôde ver o corpo inerte de Dan: uma poça de sangue se formava ao redor da cabeça, manchando o tapete. O mascarado se adiantou na direção dele. Sem nenhuma pressa. Displicente. Um passeio no parque. Parou diante do corpo e apontou a arma para baixo, em direção à cabeça de Dan.

Foi então que Wendy notou o relógio.

Um Timex, desses com pulseira de metal elástica. Igual ao que seu pai usava. Tudo foi se encaixando aos poucos. A altura era a mesma. O porte também. Somando-se o relógio…

O homem com a máscara era Ed Grayson.

Ele disparou mais duas vezes contra a cabeça de Dan, dois baques curtos. O impacto fez o corpo tremer. O pânico tomou conta de Wendy, mas ela lutou para controlá-lo. Precisava pensar objetivamente.

Havia duas opções.

A primeira seria conversar com Grayson e convencê-lo de que estava do lado dele.

A segunda, fugir. Correr para o carro e desaparecer dali.

No entanto, as duas opções tinham lá seus problemas. Na primeira, por exemplo, será que Ed Grayson acreditaria nela? Horas antes ela o havia enxotado de casa, mais que isso, havia mentido para ele. E agora ali estava ela, encontrando-se secretamente com Dan Mercer e sendo testemunha de seu assassinato.

A primeira opção não parecia muito animadora, portanto…

Wendy saiu correndo em direção à porta.

– Pare!

Curvando o tronco, ela atravessou a porta mais tropeçando que correndo.



– Espere!

De jeito nenhum. Ela já estava rolando do lado de fora. Levantou-se depressa e seguiu correndo. Sabia que não podia parar.

– Socorro! – berrou.

Nenhuma resposta. O lugar ainda estava abandonado.

Ed Grayson surgiu à porta, arma em punho. Wendy acelerou a corrida. Ainda estava longe dos outros trailers.

– Socorro! Alguém me ajude!

Disparos.

O carro estacionado era a única barricada possível. Wendy correu na direção dele. Mais tiros. Ela se jogou atrás da lataria.

Valeria a pena arriscar? O que mais ela poderia fazer? Ficar ali até que Grayson a alcançasse e lhe metesse uma bala na testa?

Wendy pescou do bolso o controle e destrancou a porta. Charlie havia insistido, logo depois de tirar a carteira de motorista, que eles instalassem um sistema de ignição remota de modo que, nas manhãs de inverno, eles pudessem ligar o motor pela janela da cozinha e esperar que ele esquentasse. À época, claro, Wendy acusara o filho de ser mimado demais. Afinal, que mal havia em esperar alguns segundos no frio? Mas agora sua vontade era beijar seus pés.

O carro ligou.

Wendy abriu a porta do motorista e, baixando a cabeça, entrou. Vendo que Grayson apontava sua arma diretamente contra o carro, se jogou no banco para se proteger.

Mais disparos.

Esperou pelos estilhaços do vidro, mas eles não vieram. Não tinha tempo para pensar nisso. Ainda deitada no banco, engatou o DRIVE no câmbio automático e, com a mão esquerda, apertou o pedal, dirigindo às cegas e rezando para não bater.

Dez segundos se passaram. Já teria se distanciado o bastante?

Wendy endireitou o tronco e tentou sentar no banco. Pelo retrovisor, viu que Grayson ainda a perseguia, a arma apontada para ela. Então pisou fundo, fazendo a cabeça ser jogada para trás, e continuou acelerando até perdê-lo de vista. Só então conferiu o celular. Ainda nenhum sinal. Mesmo assim, digitou o número da polícia e apertou o “enviar”, apenas para ouvir dali a pouco o bipe da chamada malsucedida. Dois quilômetros à frente, tentou de novo. Nada de sinal. Entrou na Rota 206 e tentou novamente. Em vão.

Cinco quilômetros depois, conseguiu enfim completar a chamada.

– Emergência – atendeu uma voz.

– Preciso denunciar um assassinato.
7

QUANDO WENDY VOLTOU PARA O estacionamento de trailers, três carros da polícia do condado de Sussex já estavam no local. Um policial vigiava o perímetro.

– Foi a senhora quem nos chamou? – ele perguntou.

– Foi.


– A senhora está bem?

– Estou.


– Precisa de atendimento médico?

– Não, não, estou bem.

– Ao telefone a senhora disse que o agressor estava armado.

– Disse.


– Havia mais alguém com ele?

– Não.


– Por favor, venha comigo.

Ele a conduziu para um dos carros da polícia e abriu a porta de trás. Wendy hesitou.

– É para a sua própria segurança – disse o policial. – A senhora não está sendo detida.

Por fim ela entrou. O policial fechou a porta e se acomodou no banco do motorista. Sem dar partida no carro, prosseguiu com o interrogatório, erguendo a mão de vez em quando para silenciá-la e transmitir pelo rádio o que ouvira, provavelmente para outro policial. Wendy contou tudo o que sabia, inclusive que suspeitava que Ed Grayson fosse o agressor.

Mais de meia hora já havia se passado quando outro policial, um negro alto de uns 150 quilos, veio até o carro. Usava uma camisa havaiana para fora da calça, praticamente um vestido para uma pessoa de tamanho normal. Ele abriu a porta de trás.

– Sra. Tynes, sou o delegado Mickey Walker, do Departamento de Polícia do condado de Sussex. A senhora poderia sair do carro, por favor?

– Vocês o pegaram?

Walker não respondeu, apenas saiu marchando rumo ao trailer de Mercer. Wendy se apressou no encalço dele. Viu que outro policial interrogava um sujeito de camiseta regata e cueca boxer.

– Delegado?

Walker não diminuiu o passo.

– A senhora disse que o homem mascarado talvez seja Ed Grayson.

– Sim, disse.

– E que ele chegou depois, correto?

– Sim.


– Sabe dizer qual era o carro dele?

Wendy pensou um instante.

– Não. Não cheguei a vê-lo.

Walker meneou a cabeça como se já esperasse aquela resposta. Eles chegaram ao trailer. Walker empurrou a porta de tela e se encolheu para entrar. Wendy o seguiu. Dois outros policiais uniformizados já se encontravam lá. Wendy olhou para o local onde Dan havia caído.

Nada.

– Vocês já removeram o corpo? – ela perguntou ao delegado, mesmo já sabendo a resposta. Não vira nenhuma ambulância, nenhuma van da polícia, nenhum rabecão no caminho de volta para o estacionamento.



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