Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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Ela deu as costas e saiu, deixando a frase no ar. Wendy esperou que ela partisse. Já ia entrando em casa quando algo lhe ocorreu.

O pneu. O pneu traseiro de seu carro estava baixo. Não era isso o que Ed Grayson tinha dito?

Ela correu até o carro. O pneu estava cheio. Ela se inclinou e correu a mão pelo para-choque traseiro, então se deu conta de que talvez houvesse impressões digitais. Na confusão, não havia pensado nessa possibilidade. Afastou a mão rapidamente e se agachou para procurar melhor.

Nada.


Só lhe restava uma coisa a fazer. As luzes externas da casa seriam fortes o bastante. Deitou-se no chão e se arrastou sob o chassi como um mecânico. Não precisou entrar muito. Logo ela viu: uma caixinha, pouco maior que uma caixa de fósforos, fixada com um ímã. Agora tudo fazia sentido.

Ed Grayson não havia se abaixado para examinar o pneu, mas para instalar um aparelho de GPS sob o para-choque.


9

– SEU CLIENTE GOSTARIA DE prestar depoimento?

Sentada numa sala de interrogatório da delegacia de Sussex com Ed Grayson, o gigantesco delegado Mickey Walker e um jovem policial chamado Tom Stanton, a advogada Hester Crimstein retrucou:

– Não me leve a mal, mas… puxa, isso tudo é muito engraçado.

– Que bom que você esteja se divertindo.

– Estou. Muito. Esta prisão é absolutamente risível.

– Seu cliente não está preso – disse Walker. – Só queremos bater um papinho.

– Um papinho entre amigos? Muito simpático da sua parte. Ainda assim, vocês emitiram mandados de busca para a casa e o carro dele, certo?

– Emitimos.

– Ótimo. Perfeito. Antes de começarmos, no entanto, tenha a bondade.

Hester passou papel e caneta ao delegado.

– O que é isto? – perguntou Walker.

– Gostaria que vocês escrevessem aqui os dados de cada um: nome, cargo, endereço comercial, endereço residencial, telefone, preferências sexuais… enfim, tudo o que puder ajudar o oficial de justiça a encontrá-los quando processarmos os dois por esta prisão indevida.

– Já disse. Ninguém está sendo preso aqui.

– E eu também já disse, bonitão: mesmo assim vocês emitiram mandados de busca.

– Suponho que seu cliente queira prestar depoimento.

– O senhor supõe.

– Uma testemunha viu seu cliente executar um homem – disse Walker.

Ed Grayson abriu a boca para dizer algo, mas Hester Crimstein o segurou pelo antebraço, silenciando-o.

– Não diga nada.

– Uma testemunha confiável.

– E sua testemunha confiável viu meu cliente executar um homem? Não “matar”, “assassinar” ou “atirar em”, mas “executar”?

– Exato.

Hester abriu um sorriso de falsa doçura.

– O senhor se importaria, delegado, se fôssemos mais devagar, um passo de cada vez?

– Pois não.

– Em primeiro lugar, quem é esse homem? A vítima da tal… execução.

– Dan Mercer.

– O pedófilo?

– Não importa quem ele era. Além disso, essa acusação foi retirada.

– Bem, isso é verdade. Os seus colegas da Promotoria fizeram uma bela cagada. Mas deixe para lá. Um passo de cada vez. Primeiro passo: o senhor afirma que Dan Mercer foi executado.

– Correto.

– Então, onde está o corpo?

Silêncio.

Ficou surdo, rapaz? O corpo. Quero que meu perito o examine.

– Deixe de gracinhas, Hester. Você sabe muito bem que o corpo ainda não foi localizado.

– Não foi localizado? – disse Hester, agora com uma expressão de falso espanto. – Então me diga: que prova você pode me dar de que Dan Mercer está morto? Bem, deixe para lá. Estou com um pouquinho de pressa. Nenhum corpo até agora, certo?

– Até agora, não.

– Tudo bem. Próximo passo. Embora não tenhamos um corpo, vocês afirmam que Dan Mercer foi executado.

– Certo.


– Suponho, portanto, que uma arma tenha sido usada. Uma arma qualquer. Posso dar uma olhada nela?

Mais silêncio.

Hester levou uma das mãos à orelha:

– Alôô?


– Ainda não localizamos a arma – disse Walker.

– Nenhuma arma?

– Nenhuma arma – ele confirmou.

– Nenhum corpo, nenhuma arma.

Hester espalmou as mãos e, rindo, completou:

– Agora você vê por que acho tudo isso muito engraçado?

– Esperávamos que seu cliente quisesse depor.

– Sobre o quê? A energia solar e seu papel no século XXI? Devagar aí, delegado, ainda não terminei. Já falamos sobre o corpo e a arma… Será que estou esquecendo alguma coisa? Ah, sim, a testemunha.

Silêncio.

– Sua testemunha viu meu cliente executar Dan Mercer, certo?

– Certo.

– Viu o rosto dele?

Outra pausa.

Hester novamente levou a mão à orelha.

– Ande, rapaz. Responda.

– Ele estava usando uma máscara.

– Como?

– Ele estava usando uma máscara – repetiu Walker.



– Uma máscara… dessas que cobrem o rosto da pessoa?

– Foi o que a testemunha disse.

– E mesmo assim ela identificou meu cliente. Posso saber como?

– Pelo relógio.

– O relógio?

Walker pigarreou antes de dizer:

– Pela altura e o porte também.

– Ah, claro: um metro e oitenta, 90 quilos e um raríssimo Timex. Sabe por que não estou mais me divertindo, delegado Walker?

– Tenho certeza de que você vai me contar.

– Não estou me divertindo porque agora ficou fácil demais. Pela grana que me pagam por hora, acho que mereço no mínimo um desafio. Isto aqui chega a ser um insulto. Este caso, se é que é um caso, é mais fácil que pescar num barril. Não quero mais ouvir o que vocês não têm. Só o que vocês têm.

Hester esperou. Até então, Walker só havia revelado o que ela já sabia. Por isso ela ainda estava lá: queria saber que provas a polícia tinha.

– Gostaríamos que seu cliente prestasse depoimento – insistiu Walker.

– Não se isso for tudo o que vocês têm.

– Não é.


Pausa.

– Está esperando o quê? – disse Hester. – O rufar dos tambores?

– Temos provas materiais que ligam seu cliente tanto a Dan Mercer quanto à cena do crime.

– Ah, agora sim. Vamos lá.

– Os resultados dos testes ainda são preliminares. Nas próximas semanas vamos receber mais detalhes. Mas já temos uma boa ideia do que eles mostrarão. Por isso trouxemos seu cliente até aqui. Para que ele explique qual é sua participação nisso tudo. Para agilizar as coisas.

– Certo.


– Encontramos sangue no trailer. Também encontramos alguns respingos no Acura MDX do Sr. Grayson. Os testes de DNA demoram um pouco, mas os resultados preliminares mostram que o sangue é o mesmo. Isto é, o sangue encontrado no local onde nossa testemunha afirma que o Sr. Mercer foi morto é o mesmo que encontramos no carro do seu cliente. Sangue O negativo. O mesmo tipo de Dan Mercer. Além disso, encontramos fibras de um tapete. Deixando de lado os detalhes, as mesmas fibras foram encontradas no trailer alugado pelo Sr. Mercer e no Acura MDX do seu cliente. No Acura e nos tênis. Por fim, havia resíduos de pólvora nas mãos do seu cliente. Ele disparou uma arma.

Hester ficou ali, encarando o delegado, que a encarava de volta.

– Sra. Crimstein? – chamou ele depois de um tempo.

– Estou esperando que termine. Não é possível que vocês só tenham isso.

Walker não disse nada.

Hester se virou para Grayson e disse:

– Venha. Vamos embora.

– Assim? – perguntou Walker. – Sem nenhuma explicação?

– Explicação para quê? Meu cliente é um agente federal aposentado que obteve inúmeras condecorações. Chefe de família, respeitado em sua comunidade, nenhum antecedente criminal. Mesmo assim vocês perdem tempo com uma insensatez dessas. Na melhor das hipóteses, se todos os testes confirmarem suas suspeitas, se meus especialistas, interrogatórios e acusações de corrupção e incompetência não destruírem uma a uma todas as suas “provas materiais”, se tudo correr perfeitamente como vocês pretendem, o que acho difícil, talvez, talvez, vocês possam demonstrar um vínculo distante, quando muito, entre meu cliente e Dan Mercer. E fim de papo. Tudo isso é risível. Nenhum corpo, nenhuma arma, nenhuma testemunha capaz de identificar meu cliente. Vocês nem sequer têm provas de que houve um crime, muito menos de que meu cliente está envolvido nele.

Walker se recostou na cadeira, fazendo-a ranger.

– Quer dizer então que você pode explicar o sangue e as fibras de tapete.

– Não preciso explicar nada, preciso?

– Achei apenas que pudesse nos ajudar. Inocentar seu cliente logo de uma vez.

– Vou dizer o que posso fazer.

Hester anotou um número de telefone e passou ao delegado.

– O que é isto?

– Um número de telefone.

– Estou vendo. De onde?

– Um clube de tiro. Gun-O-Rama.

Walker simplesmente olhou para ela, agora um tanto pálido.

– Pode ligar – disse Hester. – Meu cliente esteve lá esta tarde. Uma hora antes de vocês o deterem. Praticando um pouquinho – continuou. Então, acenando para o delegado, zombou: – Bye-bye, teste de resíduo de pólvora.

Walker ficou de queixo caído. Olhou para Stanton e tentou se recompor.

– Muito conveniente.

– Nem tanto. Meu cliente é um agente federal aposentado que obteve inúmeras condecorações, lembra? Ele usa armas com frequência. Então acabamos, não?

– Ele não vai mesmo prestar depoimento?

– “Não compre gato por lebre”, este é o nosso depoimento. Vamos, Ed.

Hester e Ed Grayson ficaram de pé.

– Vamos continuar investigando, Sra. Crimstein. Pode ter certeza. Temos uma linha do tempo. Vamos reconstituir cada passo do Sr. Grayson. Vamos encontrar o corpo e a arma. Posso entender os motivos do seu cliente, mas não nos cabe julgar. Portanto, o caso será levado a juízo. Quanto a isso, a senhora pode ficar tranquila.

– Posso falar com franqueza, delegado?

– Claro.


Hester olhou para a câmera acima da cabeça dele.

– Desligue aquilo ali.

Walker olhou para trás e assentiu com a cabeça. A luzinha da câmera se apagou.

Hester plantou os punhos na mesa e se debruçou sobre ela. Não precisou ir longe. Mesmo sentado, Walker era quase da sua altura.

– Tanto faz se vocês encontrarem o corpo, a arma, até mesmo um vídeo do meu cliente passando fogo nesse estuprador de criancinhas diante de 80 mil pessoas num estádio de futebol. Ainda assim posso livrar a cara dele em 10 minutos.

Ela deu as costas para Walker. Grayson já havia aberto a porta da sala.

– Tenha um bom dia, delegado.

♦ ♦ ♦


Às 10 da noite, Charlie mandou uma mensagem para o celular da mãe:

POPS QUER SAER ONDE FICA O INFERNINHO MAIS PRÓXIMO.

Wendy sorriu. Sabia que aquilo era o filho dizendo que estava bem. Charlie era bastante disciplinado quanto a isso, sempre dava sinal de vida. Ela respondeu:

NÃO SEI. E NINGUÉM DIZ INFERNINHO MAIS. AGORA É CLUBE PRIVÉ.

Charlie: POPS DIZ QUE ESTÁ CAG… PRA ESSE NEGÓCIO DE SER POLITICAMENTE CORRETO.

Wendy ainda sorria quando o telefone fixo tocou. Era o delegado Walker, retornando sua ligação.

– Encontrei uma coisa no meu carro – ela disse.

– O quê?


– Um GPS. Acho que foi Grayson quem colocou.

– Estou na esquina da sua casa – disse Walker. – Sei que é tarde, mas você se importa se eu der uma olhada?

– Não, pode vir.

– Chego em cinco minutos.

Wendy encontrou o delegado do lado de fora, junto do carro. Walker se abaixou para examiná-lo assim que Wendy o lembrou da visita de Grayson, agora acrescentando o detalhe aparentemente desimportante do pneu. Walker localizou o GPS e, à custa de certo esforço, se reergueu.

– Vou chamar uma equipe para fotografar e retirar o aparelho.

– Fiquei sabendo que vocês prenderam Grayson.

– Ficou sabendo por meio de quem?

– Jenna Wheeler, a ex-mulher de Dan Mercer.

– Ela se enganou. Não prendemos ninguém. Foi apenas um interrogatório.

– Ele ainda está detido?

– Não, tinha toda liberdade para ir embora.

– E agora?

Walker limpou a garganta.

– Agora continuamos a investigar.

– Uau. Não precisava de tantos detalhes.

– A senhora é repórter.

– Não sou mais, fui demitida. Pode falar. Extraoficialmente.

– Extraoficialmente, não há provas para instaurar um processo. Não temos um corpo. Não temos uma arma. Apenas uma testemunha, você, que não viu o rosto do agressor e, portanto, não pode identificá-lo.

– Bobagem.

– Bobagem por quê?

– Se Dan Mercer fosse um cidadão respeitável em vez de um suspeito de pedofilia…

– E se eu perdesse 50 quilos, ficasse branco e bonito, alguém poderia me confundir com Hugh Jackman. Mas a verdade é que, enquanto não encontrarmos o corpo e a arma, não poderemos fazer nada.

– Parece que você está jogando a toalha.

– Não estou. Mas o alto escalão não tem nenhum interesse em levar esse caso adiante. Duas pessoas, meu chefe e a advogada de Grayson, me lembraram disso hoje: na melhor das hipóteses, registramos uma queixa contra um ex-agente federal cujo filho foi molestado pela vítima.

– E isso seria péssimo para qualquer um com pretensões políticas.

– Esse é o ponto de vista cético – disse Walker.

E o outro, qual é?

– O do mundo real. Nossos recursos são bastante limitados. Um colega meu, um veterano chamado Frank Tremont, ainda está procurando aquela garota que sumiu, Haley McWaid, mas depois de tanto tempo… Bem, tudo se resume aos recursos que temos, certo? Quem concordaria em tirar recursos de Tremont, por exemplo, para fazer justiça pelo assassinato de um pedófilo num processo em que júri nenhum estaria disposto a condenar o réu?

– Repito: você está jogando a toalha.

– Ainda não. Vou reconstituir os passos de Grayson, tentar descobrir onde Mercer estava morando.

– Não era no trailer?

– Não. Falei com o advogado dele e com a ex-mulher. Mercer vivia mudando de endereço. Acho que era difícil para ele se estabelecer em algum lugar. De qualquer modo, tinha acabado de alugar aquele trailer. Não havia nada dele por lá, nem sequer uma muda de roupa.

Wendy contorceu o rosto numa careta.

– E o que você espera descobrir depois que souber onde ele vivia?

– Não faço a menor ideia.

– O que mais você pretende fazer?

– Posso tentar rastrear esse GPS no seu carro, mas não sei aonde isso pode levar. Mesmo que a sorte esteja do nosso lado e consigamos provar que ele pertencia a Grayson, bem, isso prova que ele a seguia, mas e daí? Ainda teríamos um longo caminho a percorrer.

– Vocês precisam encontrar o corpo – disse Wendy.

– Essa é a prioridade. Preciso reconstituir o caminho percorrido por Grayson. Acho que não vai ser muito difícil. Sabemos que ele esteve num clube de tiro depois que saiu do trailer.

– Está brincando.

– Também tive a mesma reação. Na verdade, foi bem esperto da parte dele. Testemunhas o viram atirando em alvos, o que invalida o teste de resíduos de pólvora que fizemos. Examinamos a arma que ele levou para o campo, mas, como era de esperar, as cápsulas não batiam com as que encontramos perto do trailer.

– Uau. Grayson fez tudo isso só para invalidar um teste?

– Ele é ex-agente federal. Sabe o que faz. Pense bem: ele usou uma máscara, se livrou do corpo e da arma, anulou o teste de resíduos… e contratou Hester Crimstein. Entende o que eu estou dizendo?

– Entendo.

– Sabemos que ele desovou o cadáver em algum ponto de seu caminho, mas parte desse caminho, uma parte grande, ainda não sabemos qual é. Além disso, há muitas áreas abandonadas por aquelas bandas.

– E vocês não têm pessoal suficiente para procurar?

– Como eu disse, não é uma adolescente que estamos procurando, mas o corpo de um pedófilo. E se Grayson planejou bem o que fez, o que parece ser o caso, é possível que tenha aberto uma cova muito antes de matar Mercer. Dificilmente encontraremos o corpo.

Wendy desviou o olhar e balançou a cabeça.

– O que foi?

– Ele me usou. Tentou me convencer a cooperar, viu que não conseguiria, então me seguiu. Fui eu quem o levou até Mercer.

– Você não teve culpa nenhuma.

– Não importa se tive ou não. Não gosto de ser manipulada assim.

Walker não disse nada.

– Um desfecho desses… Merda.

– Um desfecho ideal para muita gente.

– Como assim?

– O pedófilo escapa da lei, mas alguém faz justiça. Pensando bem, é quase bíblico.

– Não parece certo – disse Wendy.

– Que parte?

Ela guardou sua resposta para si. Na verdade, nada parecia estar certo. Talvez a ex-mulher de Mercer tivesse razão. Talvez houvesse algo de errado naquilo tudo desde o início. Talvez ela devesse ter confiado nos próprios instintos.

De repente, Wendy teve a impressão de que ajudara a matar um inocente.

– Encontre Mercer – ela disse ao delegado. – Não importa o que ele era ou deixava de ser. Você deve isso a ele.

– Vou tentar. Mas entenda: este caso não é prioridade.


10

O DELEGADO WALKER ESTAVA PRESTES a descobrir que havia se enganado.

Ele tinha trabalhado com afinco para reconstituir as duas últimas semanas da vida de Dan Mercer. As pistas eram poucas. Dan Mercer havia ligado do celular para apenas três pessoas: Flair Hickory, seu advogado; Jenna Wheeler, sua ex-mulher; e, na véspera, Wendy Tynes. Flair em nenhum momento perguntara onde seu cliente estava: quanto menos soubesse, melhor. Jenna também não sabia. Wendy, bem, ela só havia falado com Mercer no dia anterior.

Ainda assim, não fora difícil seguir seus rastros. Dan Mercer vinha se escondendo, tudo bem, mas segundo o advogado e a ex-mulher, não era da polícia, e sim daqueles cidadãos mais zelosos da “ordem pública”, os justiceiros de plantão. Ninguém queria um predador sexual na vizinhança. Por causa do processo em andamento, Mercer não podia deixar o estado, então ele se mudava de motel para motel, geralmente pagando em dinheiro, que costumava sacar do caixa eletrônico mais próximo.

Dezesseis dias antes, ele havia se hospedado no Motel 6, em Wildwood. Depois passara três dias no Court Manor Inn, em Fort Lee. De lá fora para o Fair Motel, em Ramsey, e, desde a véspera, vinha se hospedando no quarto 204 do Freddy’s Deluxe Luxury Suites, no centro de Newark.

Agora, no exato momento em que Wendy entrava numa Starbucks em Englewood, o delegado Walker e seu jovem assistente, Tom Stanton, se encontravam a 40 quilômetros de lá, examinando o quarto 204 do Freddy’s Deluxe Luxury Suites. O tal Freddy decerto tinha senso de humor, ria-se Walker, porque o lugar não era Deluxe, passava longe de qualquer Luxury e não tinha nada que lembrasse, ainda que vagamente, uma suíte.

A janela do quarto dava para um abrigo apelidado de Resort, onde Mercer havia trabalhado. Interessante ele ter passado seus últimos dias ali. O gerente não o via há dois dias, mas, como ele mesmo observara, as pessoas não se hospedavam ali para serem vistas.

– Vamos ver o que conseguimos descobrir aqui – disse Walker.

Stanton só concordou, balançando a cabeça.

– Stanton, posso perguntar uma coisa?

– O quê?

– Ninguém quis trabalhar comigo neste caso. Devem ter pensado que não valia a pena.

– Mas eu me ofereci.

– Pois é.

– E você quer saber por quê.

– Quero.


Stanton fechou a gaveta de cima da cômoda e abriu a de baixo.

– Talvez porque eu ainda esteja começando, minha casca ainda não engrossou. Mas a lei inocentou o cara. Fim de papo. Quem não está satisfeito que mude a lei. A polícia tem de ser imparcial. Se o limite de velocidade é 80 km/h, então a polícia multa quem está a 81. Se você acha “pô, sacanagem, esperem o cara chegar a 90, daí a gente multa”, então vá lá e mude o limite para 90. E o raciocínio é o mesmo no sentido inverso. A justiça inocentou Dan Mercer. Se você não concorda com isso, mude as leis, não adianta burlar o sistema.

Walker sorriu:

– É, sua casca ainda não engrossou.

Stanton deu de ombros, ainda vasculhando as roupas.

– Mas não é só isso – disse.

– Eu já imaginava que não. Diga, sou todo ouvidos.

– Tenho um irmão mais velho. Pete. Um cara bacana, um tremendo atleta. Foi reserva no Buffalo Bills durante dois anos depois que terminou a faculdade. Jogava no ataque.

– Sei.

– Ele já estava no começo da terceira temporada, pensando “agora é tudo ou nada”. Vinha malhando e treinando feito um doido, acreditava que podia entrar para o time principal. Vinte e seis anos, morando em Buffalo, aí uma noite ele sai e conhece uma garota no Bennigan’s. Sabe o Bennigan’s? Um desses restaurantes de franquia?



– Sei.

– Pois bem. Meu irmão está lá no Bennigan’s e pede uma porção de asinhas de frango. De repente a tal garota se aproxima da mesa dele, uma gata, e pergunta se pode sentar. Claro que pode, né? Ela pega uma asinha e começa a comer. Mas dando o maior mole, sabe como? Lambendo os dedos, fazendo caras e bocas. E usando um top bastante convidativo. Então, conversa vai, con-versa vem… Você sabe. Dali a pouco meu irmão leva a garota para o apartamento dele e dá o que ela estava pedindo.

Stanton fechou a mão e ergueu o antebraço para ilustrar “o que ela estava pedindo”. Como se isso fosse necessário.

– Acontece que a garota era menor de idade. Quinze anos. Nem tinha terminado o colégio ainda, mas, caramba… parecia muito mais velha. Você sabe como essas meninas de hoje se vestem, né? Sabe essas garçonetes que trabalham no Hooters? Pois é. Era assim que ela estava vestida. Só não estava servindo cerveja. Estava servindo outra coisa, se é que você me entende.

Ele olhou para Walker, à espera de um comentário qualquer. Para não cortar o assunto, Walker disse:

– Entendo.

– Pois então. Mas aí o pai da garota fica sabendo da história toda. Entra em parafuso, diz que Pete seduziu a filhinha dele. Mesmo que o mais provável seja que ela tenha seduzido meu irmão só para atormentar o velho. No fim das contas, Pete é indiciado. Cai nas mãos do sistema. Esse sistema que eu tanto venero. Tudo bem. É a lei. Mas agora ele está carimbado como sedutor de menores, pedófilo, o diabo a quatro, o que é um absurdo. Meu irmão é um cara bacana, correto, só que nenhum time quer mais saber dele. Talvez esse sujeito, Dan Mercer… bem, de certa forma ele foi vítima de uma armação, não foi? Talvez ele mereça o benefício da dúvida. Talvez seja inocente até que se prove o contrário.

Walker virou as costas para o parceiro porque não queria admitir que talvez ele tivesse razão. Muitas vezes na vida somos obrigados a fazer julgamentos que não gostaríamos de fazer. E queremos que eles sejam fáceis. Queremos confinar as pessoas em categorias bem definidas, anjos ou monstros, mas quase sempre o buraco é mais embaixo: a verdade está em algum lugar entre os dois extremos. E esse é o problema. Os extremos são bem mais fáceis.

Tom Stanton agora olhava debaixo da cama e Walker aproveitou a oportuni-dade para organizar os pensamentos. Por ora o mais aconselhável talvez fosse deixar de lado o julgamento moral e ficar apenas com os extremos. Um homem estava desaparecido, provavelmente morto. Não importava quem ele era, nem o que havia feito. O importante era encontrá-lo. E pronto.

Ele foi até o banheiro e abriu o armário. Pasta de dente, escova, aparelho de barbear, creme, desodorante. Nada que ajudasse. De repente ele ouviu Stanton berrar do quarto:

– Bingo!

– O que foi?

– Debaixo da cama! O celular dele!

Walker estava prestes a berrar “Ótimo!”, mas se conteve.

Eles já haviam rastreado o sinal do celular de Mercer. A última ligação havia sido feita pouco antes do assassinato, em algum lugar da Rota 15, a uns cinco quilômetros do estacionamento de trailers e pelo menos a uma hora de distância daquele quarto de motel. Como o aparelho poderia estar ali? Não teve tempo de concluir o pensamento porque, quase num sussurro, Stanton o interrompeu:



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