Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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– Essa não…

Walker sentiu um frio na espinha.

– O que foi? – perguntou.

– Ah, meu Deus…

Ele correu de volta ao quarto.

– O que foi? Qual o problema?

Pálido, Stanton examinava a tela do telefone. Walker viu que o aparelho tinha uma capinha rosa. Um iPhone. O modelo era igual ao dele.

– O que foi? – perguntou mais uma vez.

A tela escureceu. Stanton não disse nada. Ergueu o telefone e apertou o botão para trazer de volta a imagem. Walker se aproximou.

Seu coração parou.

O papel de parede do aparelho era uma fotografia de família, dessas que as pessoas tiram nas viagens de férias. Um adulto, três crianças… todos sorrindo. Ao centro estava Mickey Mouse. E à direta dele, estampando no rosto talvez o mais largo de todos os sorrisos, Haley McWaid, a adolescente desaparecida.


11

WENDY SÓ VIRIA A SABER DA TERRÍVEL descoberta na manhã seguinte, quando seria alardeada por todos os meios de comunicação. Agora, com Pops e Charlie ainda dormindo e o comentário de Jenna sobre Princeton ecoando em sua cabeça, ela decidiu que era hora de investigar por conta própria. Primeira parada: Phil Turnball, colega de quarto de Mercer na universidade. Precisava ir fundo no passado de Dan. Não haveria começo melhor.

Depois de se formar, Turnball havia tomado um trem expresso para Wall Street, indo direto para a estratosfera das finanças. Agora morava na área mais nobre de Englewood, em Nova Jersey.

Wendy havia tentado falar com ele na época em que apresentara o caso de Dan em seu programa, mas Turnball se recusara a fazer qualquer comentário e ela dera o assunto por encerrado. Mas agora que Mercer estava morto, talvez Phil fosse mais receptivo.

Wendy telefonou para a casa de Phil e a Sra. Turnball (Wendy não havia entendido direito o primeiro nome dela) atendeu. Wendy se apresentou e disse:

– Sei que seu marido tem evitado falar comigo, mas pode acreditar, é importante que ele me atenda agora.

– Ele não está em casa.

– Haveria algum outro modo de falar com ele?

A mulher hesitou.

– Isso é realmente importante, Sra. Turnball – insistiu Wendy.

– Phil está numa reunião.

– No escritório de Manhattan? Acho que ainda tenho o endereço nas minhas anotações…

– Na Starbucks.

– Como?


– A reunião. Não é bem o que você está pensando. É na Starbucks.

♦ ♦ ♦


Wendy encontrou uma vaga em frente ao Baumgart’s, um restaurante a que costumava ir sempre que possível, e andou quatro quarteirões até a Starbucks. Segundo a Sra. Turnball, Phil havia sido demitido por causa da crise econômica. A tal reunião, no fim das contas, era apenas um cafezinho entre ex-todo-poderosos do mundo corporativo, um grupo de amigos que Phil havia batizado de Clube dos Pais. Ainda segundo ela, o clube funcionava como uma espécie de válvula de escape para aqueles homens subitamente desempregados, uma maneira de “trocar ideias e se apoiarem mutuamente nesses tempos de tanta adversidade”.

O tom de voz da mulher parecera meio sarcástico, mas talvez Wendy estivesse apenas projetando seu próprio sarcasmo. Um bando de yuppies sanguessugas metidos a besta e com salários estratosféricos tomando cafezinhos de cinco dólares enquanto choramingavam por sua desgraça em uma crise que eles próprios haviam gerado.

Coitadinhos.

Assim que entrou na Starbucks, ela avistou Phil Turnball numa mesa dos fundos, à direita. Ele estava de terno, impecavelmente vestido, acompanhado de mais três homens. Um deles usava um uniforme de tênis e empunhava uma raquete como se esperasse pelo saque de Federer. Outro sacudia delicadamente um bebê num canguru pendurado ao tronco. O terceiro, ao qual todos ouviam com absoluta atenção, usava um boné de beisebol grande demais, com a aba meio de lado e puxada para cima.

– Então, não gostou? – perguntava o Boné Torto.

Agora que estava mais perto, Wendy pôde ver que ele lembrava Jay-Z – um Jay-Z branquelo, 10 anos mais velho e que nunca tinha puxado ferro em uma academia (mas que ainda assim queria dar uma de Jay-Z).

– Não, não, Fly, não me entenda mal – disse o Tenista. – Achei maneiro. Supermaneiro.

Wendy franziu o cenho. Maneiro?

– Mas… é só uma sugestão – prosseguiu o Tenista. – Esse colar, sei lá, não está funcionando. Com esses cachorrinhos balançando…

– Humm. Exagerado demais, né?

– Um pouco.

– Mas eu tenho que ser autêntico, cara. Hoje é noite de microfone aberto no Blend, tá ligado? Não posso chegar lá todo meia-boca.

– Tô ligado, Fly. E você vai arrasar, fique tranquilo. Mas… de colarzinho? – O tenista espalmou as mãos. – Não combina com seu tema. Você precisa de outra referência para “cachorrinhos”. Um cachorrão feito você não usa colar de cachorrinhos, usa?

Aprovação unânime em torno da mesa.

Foi então que o aspirante a Jay-Z notou que Wendy se aproximava. Baixou a cabeça e sussurrou:

– Filé na área. Saca só à minha direita.

Todos se viraram na direção dela. Com exceção de Phil, o grupo era bem diferente do que Wendy imaginara. Estranho que a Sra. Turnball não a tivesse alertado sobre a singularidade daquele clube.

– Espere aí – disse o Tenista. – Eu conheço você. NTC News. Wendy Alguma Coisa, certo?

– Isso mesmo – ela disse. – Wendy Tynes.

Todos sorriram, menos Phil.

– Veio fazer uma matéria sobre a apresentação do Fly hoje à noite?

Uma matéria sobre aquela fauna exótica até que não seria má ideia, pensou Wendy.

– Numa outra oportunidade, quem sabe? – respondeu ela. – Mas hoje vim só para falar com Phil.

– Não tenho nada para falar com você.

– Não precisa falar nada. Venha. Precisamos conversar a sós.

♦ ♦ ♦


Assim que eles saíram da Starbucks, Wendy perguntou:

– Então aquilo é o tal Clube dos Pais?

– Quem foi que contou?

– Sua mulher.

Phil não disse nada, então Wendy prosseguiu:

– E o Vanilla Ice de boné, o que é aquilo?

– O Norm. Bem, na verdade ele prefere ser chamado de Fly.

– Fly?


– Uma abreviação de Ten-A-Fly. É o nome artístico dele.

Wendy tentou não suspirar. Tenafly era uma cidadezinha de Nova Jersey, não muito longe dali.

– Norm, quer dizer, Fly era um executivo de marketing brilhante da Benevisti Vance. Está desempregado faz… sei lá, dois anos, mas acha que encontrou uma nova vocação.

– Qual?


– O rap.

– Você só pode estar brincando.

– É uma espécie de luto – disse Phil. – Cada um se consola de um jeito. Fly acha que tem um novo mercado nas mãos.

Chegaram ao carro de Wendy e ela destrancou as portas.

– Rap?

Phil fez que sim com a cabeça e explicou:



– Ele é o único rapper branco quarentão no circuito de Nova Jersey. Pelo menos é o que diz. – Eles entraram no carro. – Então, o que você quer de mim?

Não havia como dourar a pílula, então Wendy foi direto ao ponto.

– Dan Mercer foi assassinado ontem.

Phil emudeceu. Pálido, ficou olhando pelo para-brisa com os olhos marejados. Wendy notou que ele estava perfeitamente barbeado. Os cabelos, meticulosamente partidos e com uma mecha ondulada sobre a testa, a fizeram imaginar como ele teria sido quando criança. Esperou um tempo para que ele digerisse a notícia.

– Quer que eu vá buscar um copo d’água? – ofereceu.

Phil fez que não com a cabeça, depois disse:

– Conheci Dan logo nos primeiros dias em Princeton. Na reunião de orientação dos calouros. Era um sujeito engraçado. Todo mundo era muito sério, ficava querendo impressionar os outros. Ele não. Parecia completamente à vontade, tinha até uma atitude meio estranha.

– Estranha como?

– Como se já tivesse visto tudo na vida, como se não valesse a pena ficar nervoso à toa. Além disso, ele queria fazer a diferença no mundo. Sei que pode parecer um clichê, mas no caso dele era verdade. Dan adorava uma farra, como todos nós, mas também sempre falava em fazer o bem. Tinha planos, eu acho. Todos nós tínhamos. E agora…

– Sinto muito – disse Wendy.

– Mas você não veio atrás de mim só para dar essa má notícia.

– Não.


– Então?

– Estou investigando a vida d…

– Pelo que sei, você já fez isso. Agora só falta examinar o corpo.

– Não é essa a minha intenção.

– E qual é a sua intenção?

– Tentei falar com você antes. Quando fizemos o programa sobre Dan.

Phil não disse nada.

– Por que você não retornou minhas ligações?

– Para dizer o quê?

– Sei lá.

– Tenho mulher e dois filhos. Tinha que pensar neles. Eu não podia defender um pedófilo, mesmo sabendo que ele estava sendo acusado injustamente.

– Você acha que Dan era inocente?

Phil apertou os olhos, comovido. Wendy pensou em fazer alguma coisa para consolá-lo, mas então considerou que isso não seria adequado.

– Por que você põe terno para tomar um cafezinho na Starbucks? – perguntou.

Phil quase sorriu.

– Nunca apoiei essa história de usar roupa informal no trabalho.

Wendy ficou observando aquele homem bonito e visivelmente derrotado. Phil Turnball parecia exausto, sem nenhum sangue nas veias. Era como se os sapatos lustrosos e o terno impecável o sustentassem de pé. A imagem a fez se lembrar do pai. Aos 56 anos e depois de 28 de trabalho na mesma gráfica, fora demitido e nunca mais conseguira emprego.

– Você não vai me ajudar? – Wendy perguntou a Phil.

– Ajudar como? Dan está morto.

Phil já ia abrindo a porta do carro, mas Wendy o deteve:

– Só mais uma pergunta. Por que você tem tanta certeza de que Dan foi acusado injustamente?

Ele refletiu um pouco antes de responder:

– Sei lá. Acho que… quando já aconteceu com você, você simplesmente sabe.

– Não entendi.

– Não importa.

– Aconteceu com você também, é isso?

Phil esboçou um sorriso desanimado.

– Sem comentários, Wendy – disse, abrindo a porta do carro.

– Mas…

– Depois. Agora preciso andar um pouco e pensar no meu velho amigo Dan. Ele merece isso. Pelo menos isso.



Phil desceu do carro, ajeitou o paletó e seguiu caminhando para o norte, na direção contrária à dos amigos que o esperavam na Starbucks.
12

MAIS UMA PROSTITUTA MORTA.

O investigador Frank Tremont ajeitou a calça puxando-a pelo cinto, olhou para o corpo da moça e soltou um suspiro. A velha história de sempre. Área industrial no sul de Newark, não muito longe de um grande hospital, o Beth Israel, mas a quase uma galáxia de distância do restante do mundo. O cheiro ali era horrível, não apenas por causa do corpo estirado à sua frente. Ninguém se dava o trabalho de recolher seu lixo naquelas bandas. As pessoas, por mera preguiça, simplesmente afundavam em sujeira.

Pois bem. Mais uma prostituta morta.

O cafetão já estava sob custódia da polícia. A moça o havia “desrespeitado” de alguma forma e ele, para mostrar como era macho, achara por bem cortar a garganta dela. Ainda estava com a faca quando foi detido. Um poço de inteligência. Frank não precisou de mais que cinco segundos para arrancar uma confissão dele. Foi só provocar – “Ouvi dizer que você não tem colhões para bater numa mulher” – e o gênio entregou o ouro.

Frank olhava para o corpo da moça. Ela podia ter 15 ou 30 anos. Era difícil dizer naquelas condições, esparramada no chão entre latas de refrigerante amassadas, garrafas de cerveja vazias e embalagens do McDonald’s. Frank se lembrou da última vez em que trabalhara em um caso desses. Tudo dera errado. E a culpa tinha sido dele. Interpretara mal os fatos, se atrapalhara todo. Talvez seu erro pudesse ter custado mais vidas, mas agora não fazia sentido ficar remoendo aquilo. Ele havia metido os pés pelas mãos e posto o emprego a perder. Tanto a Promotoria do condado como a chefia do Departamento de Investigações o queriam fora da polícia.

Estava prestes a se aposentar quando o sumiço de Haley McWaid veio à tona.

Na época, ele procurara os chefes e pedira para ficar na corporação pelo menos até que solucionassem o caso. Eles concordaram. Mas já haviam se passado três meses desde então. Frank tinha se desdobrado atrás de pistas e arregimentado todo tipo de ajuda: agentes federais, policiais especializados em internet, em reconstituição de passos e em elaboração de perfis, qualquer pessoa que pudesse contribuir. Não queria reconhecimento, queria apenas encontrar a garota.

Mas não havia descoberto nada.

Baixou novamente os olhos para o corpo no chão. Aquela não era uma cena incomum em seu trabalho: mulheres se drogando e se prostituindo, jogando a vida pelo ralo, enchendo a cara, picando a veia e lambendo pó. Depois sendo espancadas e se enchendo de filhos de não sei quantos pais diferentes. Tudo era uma grande tristeza. Mas, de alguma forma, a maioria acabava se virando, se arrastando por vidas sem sentido. Elas eram praticamente invisíveis ao mundo e, quando notadas, só pelos motivos errados. Mas sobreviviam. Algumas, por obra de Deus, até a velhice. E aí esse mesmo Deus, com seus desígnios insondáveis, tira a vida da filha de Frank.

Um grupo de curiosos havia se formado atrás das fitas amarelas que isolavam a área. Não eram muitos. Uma rápida olhada de Frank foi bastante para dispersá-los.

– Já terminou? – perguntou o médico-legista.

Frank fez que sim com a cabeça:

– É todo seu.

Kasey. A filha de Frank. Dezessete anos. Uma garota linda, adorável, inteligente. Dizem que há sorrisos que iluminam uma casa inteira. O de Kasey era assim. Um feixe de luz que atravessava qualquer escuridão. A menina jamais magoara alguém ou causara o menor problema. Nem uma única vez. Nada de bebidas, drogas ou vadiagem. O oposto daquelas moças que vagavam pelas ruas feito animais. No entanto, ela havia morrido.

Dizer que era injustiça seria pouco.

Kasey tinha 16 anos quando um exame diagnosticou que sofria de sarcoma de Ewing. Câncer nos ossos. Os tumores começaram na pelve e se espalharam. Frank viu sua menina morrer em agonia. Ele continha as lágrimas e sentava-se ao lado da cama dela, agarrando-se tanto à mão frágil da filha quanto à tênue linha da própria sanidade. Via as cicatrizes das cirurgias e os olhos fundos da morte que se aproximava lentamente. Sentia o corpo da filha arder em febre. Lembrava que Kasey costumava ter pesadelos quando criança: ela corria para a cama dos pais e se enfiava entre ele e Maria. Sempre tivera um sono difícil, falava e se remexia o tempo todo. Mas, depois do diagnóstico, tudo isso parou. Talvez os temores noturnos não fossem nada quando comparados ao que ela enfrentava o dia todo. De qualquer modo, Kasey passara a ter um sono tranquilo, noites de total calmaria, quase como num ensaio para a morte.

Frank havia orado, mas suas preces tinham sido inúteis. E era exatamente assim que ele se sentia. Deus sabe o que faz, certo? Tem um plano. Ora, se é assim, o que uma mera súplica poderia fazer para mudar o que Ele decidiu? No hospital, Frank conhecera outra família que orava pelo filho, que tinha a mesma doença de Kasey. O garoto morrera ainda assim. Mais tarde, o irmão desse mesmo garoto foi mandado para o Iraque e morreu por lá. Era inacreditável que, diante de histórias como essas, as pessoas ainda tivessem fé na oração.

E as ruas continuavam lá, infestadas de pessoas vivas e inúteis, enquanto Kasey estava morta. Pois a verdade que ninguém tinha coragem de dizer era a seguinte: moças como Haley McWaid e a própria Kasey, moças que tinham uma família que as amava e uma vida inteira pela frente, uma vida real, com planos, importavam mais que as outras. Sempre haveria um hipócrita para dizer que aquela prostituta que agora era posta num saco preto merecia tanta consideração quanto Haley e Kasey. Mas todos sabem que isso é só conversa. É o tipo de coisa que se fala da boca para fora. Uma mentira que todo mundo sabe que é mentira, porque conhecemos a verdade.

Chega de fingimento. A prostituta morta iria ganhar, quando muito, dois parágrafos no pé da página de um jornal local, enquanto emissoras de TV do país inteiro haviam anunciado o desaparecimento de Haley. Então? Era óbvio, não era? Por que ninguém dizia?

As Haley McWaids do mundo importavam mais.

Provavelmente, ninguém sentiria falta daquela mulher que estava prestes a ser levada para o rabecão. Os pais, se é que ela os conhecia, já deviam ter desistido dela havia muito tempo. Marcia e Ted McWaid, no entanto, ainda sofriam com o sumiço da filha, ainda tinham esperança de que ela aparecesse. Talvez fosse essa a diferença entre as prostitutas mortas e as Haley McWaids. Não tinha nada a ver com a cor da pele ou o saldo bancário, mas com as pessoas que se importavam com elas: amigos e parentes que se sentiam devastados por seu destino trágico, pais e mães que jamais voltariam a ser os mesmos.

Frank não ia desistir até que descobrisse o que havia acontecido a Haley McWaid.

Novamente ele pensou em Kasey, tentando ressuscitar a menininha feliz que gostava mais de aquários que de zoológicos e de azul mais que de rosa. Mas essas imagens haviam desbotado, agora eram mais difíceis de trazer à mente, por mais absurdo que isso fosse. No lugar delas, havia a filha definhando no hospital, passando a mão pelos cabelos e trazendo tufos inteiros entre os dedos, chorando copiosamente enquanto ele olhava, impotente, sentado ao lado dela.

Os legistas terminaram seu trabalho. Dois homens ergueram o cadáver e o jogaram numa maca, como se aquilo fosse um saco de batatas.

– Cuidado – disse Frank.

– Ela não vai se machucar – retrucou um dos homens.

– Mas tome cuidado, mesmo assim.

O corpo já ia em direção ao rabecão quando Frank sentiu o celular vibrar no bolso. Piscando para afastar as lágrimas que ameaçavam surgir, ele atendeu:

– Tremont.

– Frank?

Era Mickey Walker, delegado no condado de Sussex. Já havia trabalhado com Frank em Newark. Era um homem correto e excelente investigador, um dos melhores. O departamento dele havia sido encarregado de investigar o assassi-nato do estuprador de criancinhas. Ao que tudo indicava, o pai de uma das vítimas havia feito justiça com as próprias mãos, e, para Frank, o defunto já ia tarde. Mas ele sabia que Walker faria seu trabalho com total imparcialidade.

– Sim, pode falar, Mickey.

– Conhece um motel chamado Freddy’s Deluxe Luxury Suites?

– O pulgueiro da Williams Street?

– Esse mesmo. Preciso que você venha para cá imediatamente.

Tremont sentiu um frio na espinha. Trocou o telefone de mão.

– Por quê? O que foi que houve?

– Encontrei algo no quarto de Mercer – disse Walker, a voz triste como uma lápide. – Acho que pertence a Haley McWaid.
13

POPS FAZIA OVOS MEXIDOS na cozinha quando Wendy chegou.

– Cadê o Charlie?

– Dormindo.

– Mas já é uma da tarde!

Pops olhou para o relógio.

– É mesmo. Está com fome?

– Não. Aonde foi que vocês foram ontem, afinal?

Pops apenas arqueou as sobrancelhas, continuando a manejar a frigideira com a destreza de quem vivia à base de comidas rápidas.

– Segredo, é?

– Mais ou menos – disse Pops. – E você, por onde andou?

– Dei uma passadinha no Clube dos Pais.

– Clube do quê?

Wendy explicou o que era o tal clube.

– Bem triste isso – disse Pops.

– Meio autocondescendente também.

Pops deu de ombros e disse:

– Para os homens, não conseguir sustentar a família é o mesmo que não ter as bolas. O cara fica se sentindo menos homem, sabe? Isso é muito triste. Perder o emprego devasta a vida de qualquer um, do assalariado pobre ao filho da puta de Wall Street. Os homens se definem pelo emprego que têm. É isso o que a sociedade ensina a eles.

– E quando eles ficam desempregados…

– Pois é.

– Talvez a saída não seja arrumar outro emprego – disse Wendy –, mas um jeito novo de definir a masculinidade.

– Uau. Muito profundo.

– Hipócrita também?

– Pode crer – disse Pops, ralando queijo sobre a frigideira. – Mas se você não puder ser hipócrita conversando comigo, vai poder com quem?

– Com ninguém, Pops – disse Wendy, sorrindo.

Ele desligou o fogo.

– Tem certeza de que não quer um pouquinho dos huevos de Pops? É minha especialidade. E fiz o bastante para dois.

– Hum, então eu quero.

Eles se sentaram à mesa e comeram. Wendy falou um pouco mais sobre o Clube dos Pais e Phil Turnball, sobre a impressão que tivera de que ele escondia algo. Dali a pouco um Charlie sonolento emergiu na cozinha usando uma cueca boxer e uma camisa de malha branca enorme, os cabelos totalmente desgrenhados. Wendy estava pensando em como o filho já parecia um homem feito quando ele começou a futucar os olhos.

– Cisco? – perguntou ela.

– Remela.

Wendy revirou os olhos e subiu para usar o computador. Havia muito pouco a respeito de Phil Turnball no Google. Algo sobre uma doação de campanha, uma foto em que ele aparecia ao lado da esposa, uma loura bonita e mignon, num evento filantrópico dois anos antes. Ele era citado como executivo de uma corretora de valores chamada Barry Brothers Trust. Rezando para que ainda não tivessem trocado a senha, ela acessou o banco de dados que sua emissora de TV costumava usar. Sabia que, embora quase tudo pudesse ser encontrado nos sites de busca gratuitos da internet, muitas vezes era preciso pagar para encontrar algo de real valor.

No entanto, mesmo ali não havia nada importante sobre Turnball. Mas “Barry Brothers” resultou em um bom número de artigos, nem todos muito lisonjeiros. A empresa estava deixando seu endereço de longa data na Park Avenue com a Rua 46. Wendy sabia que o Edifício Lock-Horne ficava ali. Sorrindo, sacou o celular. Sim, depois de dois anos, ainda tinha o número. Certificou-se de que a porta estava fechada e apertou o “enviar”.

A ligação foi atendida logo na primeira chamada.

– Articule.

O tom era arrogante, presunçoso e, por que não dizer, pedante.

– Oi, Win. Aqui é Wendy Tynes.

– É o que estava escrito no identificador de chamadas.

Silêncio.

Wendy quase podia vê-lo à sua frente, aquele rosto ridiculamente belo, os cabelos dourados, as mãos unidas apenas pelas pontas dos dedos em frente ao corpo, olhos azuis penetrantes, aparentemente sem nenhuma alma do outro lado deles.

– Preciso de um favor – ela disse. – Uma informação.

Silêncio. Win, ou Windsor Horne Lockwood III, não facilitaria as coisas.

– Você sabe alguma coisa sobre a Barry Brothers Trust? – ela perguntou.

– Sei. E você precisa de uma informação sobre eles.

– Direto como sempre.

– Tem gente que gosta.

– Eu sei. Já fiz parte desse grupo.

– Hum, eu me lembro.

Silêncio.

– A Barry Brothers demitiu um executivo chamado Phil Turnball. Preciso saber por quê. Acha que pode descobrir?

– Ligo de volta.

Clic.


Win. As colunas sociais o descreviam como playboy, uma palavra que certamente lhe cabia. Ele pertencia a uma família de ascendência nobre muito tradicional e riquíssima desde sempre. Eles haviam se conhecido num evento dois anos antes. Win havia sido direto. Queria fazer sexo com ela. Uma noite apenas. Sem compromissos ou cobranças.

De início Wendy ficara assustada, mas depois pensou: por que não? Nunca havia feito aquilo e lá estava um homem lindo e sedutor oferecendo a oportunidade perfeita. Ela era uma mulher moderna e desimpedida e, como Pops tinha dito, todo mundo precisa de sexo. Então, foram para o apartamento dele no edifício Dakota, a oeste do Central Park, em Manhattan. Win se revelara um homem gentil, atencioso e engraçado e, na manhã seguinte, já em casa, ela se debulhara em lágrimas por duas horas.

O telefone tocou. Conferindo o relógio, Wendy ficou pasma. Win havia retornado a ligação em menos de um minuto.

– Oi.


– Phil Turnball foi demitido por desviar dois milhões de dólares. Tenha um bom dia.

Clic.



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