Eu sabia que minha vida seria destruída se abrisse aquela porta vermelha



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Win.

Wendy se lembrou de algo. Blend… Era esse o nome da casa noturna, não era? Tinha assistido a um show lá uma vez. Entrando no site da casa, ela conferiu o calendário de eventos. Exatamente como pensara: microfone aberto naquela noite. E com “participação especial de Ten-A-Fly, a nova sensação do rap”.

Alguém bateu à porta.

– Pode entrar – ela berrou.

– Tudo bem aí? – disse Pops, enfiando a cabeça por uma fresta.

– Claro. Você gosta de rap, Pops?

– Prefiro ouvir um gato sendo estrangulado.

– Então vai sair comigo hoje à noite. Você precisa ampliar seus horizontes.

♦ ♦ ♦

Ted McWaid estava assistindo a seu filho de 9 anos, Ryan, jogar no campo de lacrosse da Kasselton High. O sol já começava a baixar, mas o campo de grama sintética de última geração tinha luzes tão fortes quanto as de um estádio oficial. Ele estava ali porque… o que mais poderia fazer? Ficar em casa chorando o dia todo? Os ex-amigos (“ex” talvez fosse pouco gentil, mas Ted não andava lá muito propenso a gentilezas) acenavam educadamente sem fazer nenhum contato visual. Pareciam evitá-lo, como se ter uma filha desaparecida fosse contagioso.



Ryan integrava a equipe do terceiro ano. As habilidades dos garotos ainda oscilavam entre “em desenvolvimento” e “inexistentes”. Ninguém conseguia manter a bola na rede do bastão por muito tempo e os jogadores se amontoavam como se estivessem em uma luta livre. Os garotos usavam capacetes grandes demais, que pareciam melancias em suas cabeças, e era quase impossível diferenciá-los uns dos outros. Em certa partida, Ted havia torcido animadamente por Ryan, admirado com o progresso dele, até que o garoto retirou o capacete e ele viu que vibrara pela criança errada.

Sentado a certa distância dos outros pais, Ted quase sorriu ao se lembrar daquele dia. Mas a realidade se impôs de súbito e lhe roubou o ânimo. Era sempre assim. Por vezes ele até resvalava em uma espécie de normalidade, mas quando o fazia, pagava um preço alto por isso.

E o preço agora foi pensar em Haley. Ela frequentara aquele mesmo campo desde o dia da inauguração. Passava horas ali treinando as jogadas de esquerda. Ia para uma das extremidades do campo e ficava treinando, porque precisava melhorar a esquerda, porque seu ponto fraco era a maldita esquerda, porque os olheiros reparariam na esquerda dela, porque a Universidade da Virgínia jamais a aceitaria caso não conseguisse cair para a esquerda. Portanto ela trabalhava incessantemente a esquerda, não só ali, mas em casa também. Começara a tentar não usar a mão direita em tarefas como escovar os dentes, escrever, o que desse.

Todos os pais da cidade pegavam pesado com os filhos, cobrando deles notas mais altas e um desempenho melhor nos esportes, na esperança de vê-los admitidos por uma boa universidade. Com Haley, no entanto, nada disso era preciso. Porque ela mesma se cobrava. Talvez um tanto além do limite. No fim das contas ela não havia sido admitida pela Universidade da Virgínia. Ela era rápida para uma equipe colegial, talvez até para uma equipe de Primeira Divisão, suas jogadas com a mão esquerda ficaram ótimas, mas não conseguira entrar para a Universidade da Virgínia. Haley ficara arrasada, inconsolável. Mas que importância isso poderia ter? Que diferença isso faria?

Ted morria de saudades da filha.

Nem tanto dos jogos de lacrosse, mas sobretudo daquelas noites em que eles viam TV juntos, da insistência dela em que ele tentasse “sacar” de música moderna, de quando ela encontrava um vídeo engraçado no YouTube e o chamava para assistir. Ted sentia falta das coisas mais bobas, como das vezes em que caprichava no moonwalk na cozinha e Haley revirava os olhos ou de quando ele, só para implicar, cobria a mulher de beijos até que a filha berrasse: “Ei, tem criança no recinto!”

Fazia três meses que ele e Marcia não se tocavam. Não haviam decidido isso, nem sequer conversado a respeito. Simplesmente não havia clima para sexo ou qualquer tipo de carícia mais íntima. Esse distanciamento não vinha causando tensão, mas começava a formar um abismo entre eles e Ted já havia percebido. Apesar disso, não achava que seria importante tocar no assunto, pelo menos por ora.

A ausência total de informações. O não saber o que aconteceu. Tudo isso pesava demais sobre ele. Ted queria uma resposta, qualquer que fosse, o que o fazia se sentir ainda mais culpado. E essa culpa o consumia, roubava-lhe o sono todas as noites. Ted não era exatamente talhado para confrontos. Eles o deixavam nervoso. No ano anterior, tivera de medir forças com um vizinho por conta de uma demarcação de terreno. Passara semanas sem dormir, remoendo a questão.

A culpa era toda sua.

Regra número um para chefes de família: sua casa é o lugar mais seguro do mundo para sua filha. Cabe ao homem cuidar da segurança da família. Por mais que se quisesse tapar o sol com a peneira, a verdade era uma só: Ted não havia cumprido seu papel. Se alguém havia entrado em sua casa e sequestrado Haley, de quem era a culpa? Dele e de mais ninguém. Um pai deve proteger seus filhos, é sua maior missão. E se Haley tinha fugido, de quem seria a culpa? Dele também, porque não havia sido um pai presente ou acessível o bastante para que a filha o procurasse para dividir seus problemas.

Não conseguia parar de se martirizar. Queria voltar atrás, mudar alguma coisa, curvar o espaço-tempo ou fosse lá o que fosse. Haley não se cansava de surpreendê-lo com suas habilidades, que seguramente havia herdado da mãe. Sempre fora a filha mais forte, a mais independente, a mais desenvolta. Talvez esse tivesse sido o problema. Talvez ele houvesse pensado: “Bem, Haley não precisa de tantos cuidados ou tanta supervisão quanto Patricia e Ryan.”

Um martírio sem descanso, inútil.

Ted não fazia o tipo depressivo, longe disso, mas havia dias, dias sombrios e tristes, em que ele pensava na arma que o pai guardava em casa. E imaginava a cena toda: ele entrando na casa onde passara a infância, certificando-se de que ninguém estava lá, retirando o revólver da caixa de sapatos na prateleira superior do armário. Depois, descendo ao mesmo porão em que havia beijado Amy Stein quando garoto, indo para a área onde ficavam as máquinas de lavar e de secar roupa – porque ali o chão não era acarpetado e seria mais fácil de limpar –, sentando no piso frio, recostando-se numa das máquinas e colocando a arma na boca. Pronto, fim do sofrimento.

Ele jamais faria algo semelhante. Jamais sobrecarregaria a família com mais uma tragédia. Um pai não faz isso. Mas nos momentos de maior vulnerabilidade, ou de maior franqueza consigo mesmo, ele imaginava por que pensar naquela libertação, naquele fim, lhe dava tanto alívio.

Ryan agora estava jogando. Ted tentou se concentrar no que se passava do outro lado da cerca de arame, no rostinho do filho, distorcido pelo protetor bucal. Procurou encontrar alguma alegria naquele momento de pureza infantil. Ainda não entendia muito bem as regras do lacrosse masculino, muito diferentes das do feminino, mas sabia que Ryan estava no ataque, com chances de marcar.

Afunilando as mãos em torno da boca, berrou:

– Vai, Ryan!

Sua voz ecoou um som que ele não reconheceu. Ao longo da última hora outros pais vinham berrando sem parar, claro, mas Ted estranhou o próprio grito, que por algum motivo lhe pareceu deslocado. Decidiu aplaudir em vez de berrar, mas também estranhou os movimentos das mãos, como se elas fossem do tamanho errado. Virou o rosto por menos de um segundo e foi então que o viu.

Frank Tremont caminhava na direção dele como se pisasse em neve espessa. Estava acompanhado de um homem negro enorme, na certa outro policial. Por um instante a esperança abriu suas asas e alçou voo. Mas só por um instante.

Os sinais da linguagem corporal de Frank eram razoavelmente claros: sua cabeça estava baixa, a notícia não seria boa. Ted sentiu as pernas tremerem. Um joelho falhou, mas ele conseguiu se manter de pé e foi andando pela lateral do campo ao encontro do investigador.

Quando já estavam suficientemente próximos, foi Frank quem falou primeiro:

– Onde está Marcia?

– Na casa da mãe.

– Precisamos encontrá-la. Agora.


14

UM GIGANTESCO SORRISO SE ABRIU no rosto de Pops assim que eles entraram no Blend Bar.

– Que foi? – perguntou Wendy, curiosa.

– Tem mais lobas naquele balcão do que no Discovery Channel.

O bar era escuro e esfumaçado e todos os clientes usavam roupas pretas. De certo modo, Pops tinha razão quanto aos frequentadores.

– Mas, quando uma loba vem a uma casa noturna dessas, é para caçar homens mais jovens.

Pops arqueou as sobrancelhas e disse:

– Ah, com certeza algumas delas ainda têm problemas a resolver com o papai.

Na sua idade, Pops, é melhor que elas tenham muitos problemas a resolver com o papai. Ou, quem sabe, com o vovô!

Pops olhou decepcionado para ela. O comentário havia sido mais que inoportuno. Ela acenou com a cabeça, num gesto de mea-culpa.

– Vou circular sozinho por aí, você se importa? – ele disse.

– Por quê? Minha companhia está atrapalhando?

– Você é a loba mais gostosa deste lugar. Portanto, sim. Apesar de muitas gatas curtirem isso. É como se roubassem o namorado de outra.

– Só não leve nenhuma delas lá para casa, hein? Tenho um filhinho inocente.

– Sempre sou eu quem vai para a casa delas – disse Pops. – Não gosto que elas saibam onde moro. Além disso, poupo as coitadinhas do mico de se esgueirar porta afora na manhã seguinte.

– Muito gentil da sua parte.

O lugar tinha um bar logo na entrada, um restaurante ao centro e um clube nos fundos. Naquela noite o microfone estaria aberto para quem quisesse se apresentar. Wendy pagou o couvert (cinco dólares para homens e um dólar para mulheres, com um drinque incluído) e entrou. Deparou-se com Norm, também conhecido como Ten-A-Fly, rapeando:

E aí, mina, saca só,

Você pode não estar em Tenafly

Mas Ten-A-Fly está dentro de você…

Ui, pensou ela. Umas 50 pessoas acompanhavam o show em frente ao palco. Ten-A-Fly usava um boné de aba reta inclinado a um ângulo de 45 graus e uma quantidade de correntes de ouro que mataria qualquer bicheiro de inveja. Segurava o microfone com uma das mãos e, com a outra, firmava a calça que insistia em cair (talvez porque fosse grande demais, talvez porque o sujeito não tivesse bunda).

Assim que ele terminou sua pérola romântica fazendo um trocadilho com o nome de outra cidade, a plateia, cuja faixa etária girava em torno dos 40 anos, explodiu num estrondoso aplauso. Uma mulher de cabelos vermelhos – uma possível fã – arremessou algo no palco e Wendy, com espanto, viu que se tratava de uma calcinha.

Ten-A-Fly a pegou do chão, cheirou-a com uma longa fungada e disse:

– Beijo pra todas as minas, pra todas as gostosas que vieram aqui hoje. Ten-A-Fly e o CP estão na área!

A possível fã jogou os braços para o alto diante do palco. Usava – Deus do Céu! – uma camiseta com os dizeres MINA OFICIAL DO TEN-A-FLY.

Pops se aproximou dela por trás. Parecia atordoado.

– Pelo amor de tudo o que é sagrado…

Wendy correu os olhos pelo salão e localizou os outros membros do Clube dos Pais (seria este o CP?) nas imediações do palco. Phil estava entre eles. Todos assobiavam freneticamente para o amigo. Virando o rosto, Wendy avistou uma mulher sozinha nos fundos do salão. Era loura e miúda e tinha os olhos volta-dos para o próprio drinque. Sherry Turnball, a esposa de Phil.

Abrindo caminho através da multidão, Wendy foi ao encontro dela.

– Sra. Turnball?

Sherry lentamente ergueu os olhos.

– Sou Wendy Tynes. Nós nos falamos pelo telefone.

– A repórter.

– Sim.


– Eu não sabia que foi você quem fez aquela matéria sobre Dan Mercer.

– Vocês se conheciam?

– Só nos vimos uma vez.

– Quando?

– Ele e Phil dividiram o quarto em Princeton. Mas só conheci Dan no ano passado, em um evento que organizamos para levantar fundos para a campanha do Farley.

– Farley?

– Outro colega de faculdade deles.

Ela tomou um gole do drinque. No palco, Ten-A-Fly pediu silêncio e foi prontamente atendido.

– Quero contar uma coisa sobre meu próximo número – disse, tirando os óculos com raiva, como se eles o incomodassem. Tentou pôr no rosto uma expressão intimidadora, mas ela mais pareceu uma careta causada por prisão de ventre. – Um dia lá estou eu na Starbucks, tomando um latte, um café, um sei-lá-o-quê, com meus irmãos do CP. – Os irmãos uivaram com a menção. – De repente vejo uma mina na pista, não uma gata qualquer, mas dessas de parar o trânsito. Com tudo em cima e uma comissão de frente de responsa, se é que vocês me entendem.

Os assobios diziam: “Sim, nós entendemos.”

– Eu lá, precisando de inspiração pra uma música nova, coisa e tal, e aparece uma princesa sacudindo os melões na minha frente… Aí vem um verso na minha cabeça: “Vai, gata, pega no bico.” Assim, do nada. Ela vai passando, toda empinadinha, exibindo o que tem de melhor, e eu lá, pensando: “Vai, gata, pega no bico.”

Ten-A-Fly fez uma pausa de efeito. Silêncio. E de repente alguém gritou:

– Genial!

– Valeu, brother, de coração. – Ele apontou para o “fã” de um jeito complicado, como se os dedos fossem o cano empenado de um revólver. – Então… Meus irmãos do CP chegaram junto e me deram a maior moral pra compor este rap. É isso aí, irmãos, valeu a força. A próxima música é pra vocês. E claro, pra todas as princesas de peitão que vieram me ver hoje. Vocês são a minha inspiração.

Aplausos.

Sherry Turnball disse:

– Aposto que você acha tudo isso uma palhaçada, não acha?

– Não estou aqui para julgar ninguém.

Ten-A-Fly começou a executar uma espécie de coreografia que qualquer médico poderia diagnosticar como ataque epiléptico.

Vai, gata, pega no bico

Vai e vem

E pega no bico

Rebola e balança

Mama, mama

Vai e vem

E pega no bico

Mia aqui, na minha cama …

Wendy mal conseguia acreditar no que estava ouvindo.

A essa altura os demais membros do Clube dos Pais berravam o refrão em coro, “Vai e vem e pega no bico”, deixando que Ten-A-Fly solasse os versos intermediários.

Dou seu leitinho

E você me ama

Vai e vem

E pega no bico

Wendy fez uma careta. Os homens subiram no palco. O tenista da Starbucks agora reluzia numa camisa polo verde-limão. Phil estava de calça cáqui e camisa social azul e batia palmas totalmente fora do ritmo.

Sherry Turnball desviou o olhar.

– Tudo bem com você? – perguntou Wendy.

– É bom ver Phil sorrindo.

Enquanto o rap continuava por mais alguns versos, Wendy avistou Pops conversando com duas mulheres num canto afastado. Tipos como seu sogro não eram muito comuns por aquela vizinhança e sempre havia alguma madame disposta a levar um bad boy para casa.

– Está vendo aquela mulher ali na frente? – perguntou Sherry.

– A que jogou a calcinha no palco?

– Ela mesma. É a esposa do Norm, quer dizer, do Ten-A-Fly. Eles têm três filhos, vão ter de vender a casa e ir morar com os pais dela. Mas ela dá todo apoio ao marido.

– Que bom – disse Wendy. No entanto, olhando melhor, achou que a empolgação da mulher de Norm parecia um tanto forçada, menos um entusiasmo real que uma compensação psicológica inconsciente.

– Por que você está aqui? – perguntou Sherry.

– Estou tentando descobrir a verdade sobre Dan Mercer.

– Tarde demais, não acha?

– Talvez. Phil me disse uma coisa estranha hoje. Falou que sabia o que era ser acusado injustamente.

Sherry não disse nada, apenas continuou brincando com o copo.

– Sherry?

Os olhos dela se ergueram para encontrar os de Wendy.

– Não quero que ele sofra mais do que já está sofrendo.

– Essa não é minha intenção.

– Phil levanta todos os dias às seis e veste terno e gravata, como se fosse trabalhar. Depois compra os jornais e vai para o Suburban Diner da Rota 17. Fica lá, tomando seu café e vasculhando os classificados. Sozinho, de terno e gravata. Todas as manhãs, sozinho. A mesma coisa dia após dia.

Wendy novamente pensou no pai. Entendia o que a mulher estava dizendo.

– Eu digo a ele que vai ficar tudo bem – prosseguiu Sherry –, mas se eu falo alguma coisa sobre a gente se mudar para uma casa menor, por exemplo, ele toma isso como um fracasso pessoal. Coisa de homem, sabe?

– O que aconteceu com ele, Sherry?

– Phil adorava o que fazia. Ele costumava dizer: “As pessoas confiam em mim, colocam as economias de uma vida inteira nas minhas mãos.” Ele se importa de verdade com os outros. Tem consciência do que está em jogo: a universidade dos filhos, a aposentadoria… Ele dizia que era uma grande responsabilidade, mas também uma grande honra. Era assim que ele era no trabalho. Honesto. Confiável.

Ela se deteve e Wendy esperou. Vendo que ela não ia continuar, disse:

– Andei fazendo uma pesquisa…

– Vou voltar a trabalhar. Phil é contra, mas eu vou.

– Sherry, escute. Sei da acusação de desvio.

– Sabe? – ela perguntou assustada, como se tivesse levado um tapa. – Como?

– Não importa. Era disso que Phil estava falando quando disse que sabia o que era ser acusado injustamente?

– Tudo não passou de uma grande armação, um pretexto para mandarem embora os funcionários mais caros. Se Phil fosse mesmo culpado, por que eles não teriam entrado na Justiça?

– Gostaria de conversar com ele sobre o assunto.

– Por quê?

Wendy abriu a boca para dizer algo, mas desistiu.

– Isso não tem nada a ver com Dan – disse Sherry.

– Talvez tenha.

– De que maneira?

Boa pergunta.

– Você conversaria com o Phil por mim? – perguntou Wendy.

– Mas vou dizer o quê?

– Diga que quero ajudá-lo.

Então uma ideia ocorreu a Wendy. Algo que Jenna tinha dito, que Phil e Sherry também tinham, coisas sobre o passado, sobre Princeton, sobre o tal Farley. Ela precisava voltar para casa e pesquisar na internet.

– Por favor, fale com ele.

Ten-A-Fly começou outra canção, um tributo a uma quarentona chamada Charisma. Plagiando a si mesmo, a letra dizia que ele não tinha carisma, mas que ia estar dentro de Charisma.

Wendy foi até onde Pops estava.

– Vamos?


Pops apontou para a mulher com sorriso convidativo e decote profundo a seu lado.

– Estou ocupado.

– Anote o telefone dela e marque um dia para pegar no bico. Precisamos ir.
15

PARA FRANK TREMONT E O DELEGADO MICKEY WALKER, a prioridade agora era encontrar um vínculo entre Dan Mercer e Haley McWaid.

Até então o telefone de Haley havia contribuído com poucas pistas (nenhum torpedo, e-mail ou telefonema novos), embora ainda estivesse sendo examinado por Tom Stanton, que tinha certo conhecimento técnico. Apesar disso, com a ajuda do dilacerado Ted e da obstinada Marcia, não demorou muito para que se encontrasse um vínculo entre Haley e Dan Mercer. Haley estava cursando o último ano do ensino médio na Kasselton High. Uma de suas colegas era uma garota chamada Amanda Wheeler, enteada de Jenna Wheeler, a ex de Dan. Mercer tinha uma relação amigável com a ex-mulher e, como já era sabido, costumava frequentar a casa dela.

Frank Tremont se sentou no sofá em frente a Jenna e Noel Wheeler em sua típica casa de classe média. Os olhos de Jenna estavam inchados por causa das lágrimas recentes. Era uma mulher pequena, o corpo rígido de quem malhava, provavelmente linda em circunstâncias normais. O marido, Noel, era chefe do setor de cardiologia do Valley Medical Center. Seus cabelos eram escuros e desalinhados, talvez compridos demais.

Mais um sofá macio, pensou Frank, em mais uma adorável casa de subúrbio. Igual ao dos McWaid. Ambos muito confortáveis, provavelmente muito caros. Este era de um amarelo vivo com flores azuis. Primaveril. Frank os imaginou, Noel e Jenna Wheeler, ou Ted e Marcia McWaid, indo até uma loja, testando diferentes sofás, procurando o mais adequado para suas belas casas, aquele que, combinando conforto e durabilidade, mais se adequaria ao estilo de vida da família e ao resto da decoração: o papel de parede, os tapetes orientais, os objetos comprados nesta ou naquela viagem à Europa. Uma vez entregue o sofá, eles o haveriam arrastado de lá para cá até encontrar o local perfeito, desabado em cima dele, chamado os filhos para testá-lo e, quem sabe, numa madrugada qualquer, namorado ali para estreá-lo.

Mickey Walker, o delegado de Sussex, estava de pé atrás dele, como num eclipse solar. Agora que os dois casos se entrelaçavam, eles trabalhariam em conjunto e já haviam decidido que caberia a Frank comandar aquele interrogatório.

– Obrigado por concordarem em nos receber – Tremont começou.

– Alguma novidade sobre o assassinato de Dan? – perguntou Jenna.

– Eu gostaria de fazer algumas perguntas a vocês dois sobre o relacionamento de ambos com Dan Mercer.

Jenna ficou confusa. Noel Wheeler não disse nada, apenas se inclinou para a frente, apoiou os antebraços nas coxas e cruzou as mãos entre os joelhos.

– O que o senhor quer saber? – perguntou Jenna.

– Vocês eram próximos?

– Sim.

Frank olhou para Noel.



– Vocês dois também? Quer dizer… ele era o ex-marido da sua mulher.

Novamente foi Jenna quem respondeu:

– Sim, também. Dan é… era… padrinho da nossa filha, Kari.

– Que idade ela tem?

– Que importância isso pode ter?

Frank engrossou um pouco a voz.

– Por favor, responda, Sra. Wheeler.

– Kari está com 6 anos.

– Ela costumava ficar sozinha com Dan Mercer?

– Se o senhor está insinuando que…

– Estou fazendo uma pergunta – interrompeu Frank. – Sua filha de 6 anos ficava sozinha com Dan Mercer?

– Sim, ficava – disse Jenna, a cabeça erguida. – E era louca por ele. Ela o chamava de tio Dan.

– Vocês têm outra filha, não têm?

– Tenho uma filha do meu primeiro casamento. – Agora foi Noel quem respondeu. – O nome dela é Amanda.

– Ela está em casa? – perguntou Frank, embora já soubesse a resposta.

– Está lá em cima.

Jenna olhou para o silencioso Walker, depois disse:

– Não vejo que relação isso possa ter com o fato de Ed Grayson ter assassinado Dan.

Walker simplesmente a fitou de volta, os braços cruzados em frente ao corpo.

– Com que frequência Dan vinha aqui? – perguntou Frank.

– Que diferença faz?

– Sra. Wheeler, por acaso tem algo a esconder?

Boquiaberta, Jenna disse:

– Como é que é?

– Por que a senhora insiste tanto em dificultar nosso trabalho?

– Não estou dificultando nada. Só quero saber…

– Por quê? Que diferença a motivação das minhas perguntas pode fazer para a senhora?

Noel Wheeler pousou a mão sobre o joelho da mulher e tomou a palavra:

– Dan nos visitava com bastante frequência. Mais ou menos uma vez por semana até que… – Ele se deteve um instante. – Até que aquela história sobre ele foi ao ar.

– E depois disso?

– Raramente. Talvez tenha aparecido uma ou duas vezes.

Frank olhou fundo nos olhos de Noel.

– Por quê? O senhor acreditou naquelas acusações?

Noel Wheeler não respondeu de imediato. Jenna o encarava, o corpo subitamente tenso. Por fim ele disse:

– Não, não acreditei.

– Mas?


Noel não disse nada. Tampouco olhou para a mulher.

– Melhor prevenir do que remediar, não é? – aventou Frank.

– Foi o próprio Dan que preferiu se afastar – disse Jenna. – Para evitar o falatório dos vizinhos.

Os olhos de Noel encaravam firmes o tapete.

– Mas ainda quero saber o que tudo isso tem a ver com a morte dele – insistiu Jenna.

– Gostaríamos de conversar com sua filha Amanda – disse Frank.

O pedido pegou os dois de surpresa. Jenna já ia dizer algo, mas se conteve e olhou para o marido. Tremont ficou se perguntando por quê. Síndrome da madrasta, ele supôs. Afinal, o responsável pela garota era Noel Wheeler.



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