Eu sei que tu me sondas



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WALDO LUÍS VIANA

EU SEI QUE TU ME SONDAS...


Depoimento pessoal e intimista

sobre uma caminhada espiritual

RIO DE JANEIRO
2008

DEDICATÓRIAS



Nos três meses em que escrevi este livro sofri de uma cruel solidão. Embora não tenha sido interrompido pelas chatices cotidianas que habitualmente incomodam os escritores, e fazem parte do folclore literário, para mim, como autêntico libriano, sempre foi difícil suportar esse estado em que ficamos condenados a nos suportar a nós mesmos. No entanto, mesmo sob protesto, consegui dirigir os pensamentos mais doces para três pessoas: minha filha, Alana, que afinal tanto amo; minha mãe, Ângela, cujo padecimento em virtude do câncer no pâncreas (que finalmente a levou deste plano) me reensinou a viver e minha mulher, Rosana, em cujos olhos cheios de amor e mãos, repletas de perdão, pude me espelhar para, após grave acidente, voltar a crer na vida. A elas, minhas queridas, a mensagem irresistível e agradecida de um grande afeto...
Também não posso esquecer de agradecer também a Ângela Gerber, amiga evangélica que, certo dia, ao me sentir perdido, me ofereceu uma Bíblia...

SUMÁRIO –


Introdução: O Desastre... .......................................................................
1 – Retornando ao Sagrado .....................................................................

1º Intervalo – Oração ao Senhor .............................................................
2 – Anjos ou Macacos? .............................................................................
3 – As Contradições da Bíblia ..................................................................

2º Intervalo – A Contabilidade Sideral .....................................................
4 – O Problema da Fé ...............................................................................

3º Intervalo – O Rondó da Criatura .........................................................
5 – Jesus vivo ou mito? .............................................................................
6 – A solução protestante ..........................................................................

4º Intervalo – O desmonte das lágrimas ...................................................
7 – Templo é Dinheiro! ............................................................................

5º Intervalo – A Separação ......................................................................
8 – A Alternativa Espírita ..........................................................................
9 – A Reencarnação .................................................................................

6º Intervalo – A Promessa ........................................................................
10 – A História da Luz .............................................................................
11 – Os Doces Mistérios Cristãos ............................................................
12 – Os Véus da Trindade .........................................................................

7º Intervalo – O Ombro Estraçalhado .......................................................

13 – Um Muro de Virtudes .......................................................................



8º Intervalo – A Recuperação ....................................................................

Um Desamor à Igreja Católica ...................................................................

O Óbolo de São Pedro ..............................................................................

14 – Os Extraterrestres e as Moradas do Pai..............................................

9º Intervalo – “Quem São os Extraterrestres?” .........................................

A Regra Áurea” ........................................................................................

15 – A Reconciliação dos Cristãos .............................................................

10º Intervalo – Um Anjo Salvou Minha Vida .............................................

Os Sinais ......................................................................................................

Epílogo: Uma Caminhada Espiritual ...........................................................

SUMÁRIO DAS ILUSTRAÇÕES

Quadro 1 – A Bíblia e a Teoria da Prosperidade ........................................

Quadro 2 – A Bíblia e a Reencarnação ........................................................

Quadro 3 – A História da Luz ......................................................................

Quadro 4 – A Bíblia e a Trindade ................................................................

Quadro 5 – A Bíblia e o Livre Exame ..........................................................

Quadro 6 – A Bíblia e as Imagens ................................................................

– INTRODUÇÃO:

O DESASTRE...

Se você não teve dificuldade para encontrar Deus,



talvez não tenha sido Deus o que você encontrou.”
Thomas Merton

Comecei a me interessar por escrever sobre pontos de vista religiosos a partir de um drama pessoal: fui agredido miseravelmente no Rio de Janeiro, sem possibilidade de defesa, tendo feito uma operação delicadíssima no braço direito. Hoje tenho uma prótese de titânio, de vinte centímetros e quatro parafusos, tendo sofrido demais após a cirurgia, que foi realizada em hospital público. O meu período de recuperação fez-me repensar a vida e me aproximar da religião de meus pais e avós. Era uma espécie de ovelha desgarrada, um boêmio de vida desregrada, que passou a desejar a volta ao rebanho, não só por causa do sofrimento, mas pela consciência de que aquele grave acontecimento separou minha existência em duas partes.


Por que o sofrimento nos faz pensar de novo em Deus e refletir sobre a necessidade de sua existência em nossa vida? Que miseráveis criaturas somos nós que, quando vivemos o júbilo da alegria e do sucesso só pensamos em nós, esquecendo-nos do Pai. E com que rapidez, deitamos no chão os joelhos para lembrar na desgraça e na tragédia que somos filhos do mesmo Senhor e clamamos por sua misericórdia?
Esse depoimento é pessoal e muito simples. Não é um tratado de teologia nem uma tentativa de provar qualquer coisa em matéria de religião. Aliás, o senso comum sempre nos aconselhou a não discutir religião, futebol e política, o que, somado a meia-dúzia de outros temas polêmicos, condenaria a humanidade a não sair do lugar e a não experimentar nenhuma inovação ou progresso históricos. Quem não aprofunda nada em termos de discussão, nem tenciona buscar a verdade, pelo menos como meta, acaba sob o domínio da ditadura da opinião, do “achismo”.
O medo de falar sobre assuntos controversos aponta sempre para os espíritos secos, descarnados de criatividade, afeitos à omissão e ao dar de ombros. Não é o caso aqui. Vou ousar e me expor, mesmo que digam que exagerei, de que fui além do esperado pelos conservadores de plantão.
Jamais fui conservador. Sempre enfrentei, de peito aberto, as polêmicas, os assuntos que dividem e ganhei muita incompreensão e alguns inimigos. Escrevi vários livros e eles sempre tocaram em temas difíceis, como política, drogas, alcoolismo, religiões comparadas e costumes. Percorri vários caminhos, como se não soubesse nem o que queria, mas não me arrependo dos resultados.
O indivíduo que é comumente apontado como intelectual e poeta fica geralmente muito vaidoso. A desgraça é que acaba por deixar de perceber a linha comum que o liga aos demais mortais no sentido social ou de cidadania. O intelectual quer ficar numa espécie de céu inatingível, numa redoma, em que os demais lhe prestem várias homenagens e, como no Brasil existe uma tendência à valorização da mediocridade principalmente na mídia, acaba frustrado com as incompreensões e praguejando contra os outros, como se os brasileiros fossem realmente uns despreparados. Isso é outro exagero que cai por terra quando olhamos uma nação com quase 200 milhões de habitantes, que detém quantidade enorme de homens e mulheres notáveis.
Alguns livros meus ficaram encalhados, não por total incompetência, mas porque as editoras, com o sentido de comércio, preferem apostar em livros de grande apelo popular, deixando para trás aquilo que consideram que não ficará na lista dos mais vendidos. É o espírito do capitalismo, para elas muito natural e que não se pode lamentar. Nesse país, paradoxalmente, existem mais escritores do que leitores e esse fosso estranho é difícil de cobrir, a não ser com educação e incentivo governamental à leitura.
Ouso dizer que vou falar sobre religião e Cristianismo, assuntos que me despertam bastante curiosidade e que não domino plenamente, o que não me inibe e até estimula. Não me furtei a convidar para o ensaio diversos autores que compartilharam comigo o debate e gravaram informalmente as suas opiniões. Não tive vergonha de utilizar amplamente a Internet, porque ela veio para ficar e transformar nossa cultura, queimando etapas com a sua velocidade. Agora, neste momento de outono, a vida convida-me a uma suma, a um resumo espiritual necessário, mas jamais suficiente. Os espaços vazios naturalmente serão ocupados, depois, pela reflexão do leitor...
Estudei em colégio de padres. Tive educação bastante satisfatória, não só pela erudição dos professores, como pela companhia dos colegas, alguns hoje muito famosos na sociedade. Eram filhos de gente rica e eu, um rapaz de classe média, num tempo em que se dizia que se houvesse muito estudo e aplicação os empregos seriam garantidos. No entanto, quando terminei a faculdade de Economia, o mercado já não oferecia esse automatismo. Nem sempre quem terminava a graduação conseguia lugar ao sol, especialmente no setor em que havia terminado o curso.
No período de formação escolar e acadêmica, reli a Bíblia umas quatro vezes, pelo menos nos trechos mais importantes: o Pentateuco, os cinco livros de Moisés, os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas e João), os salmos, os profetas Isaías e Daniel, os Atos dos Apóstolos, também escritos por Lucas, as epístolas de Paulo e o Apocalipse de João. Alguns amigos que encontrei pela vida achavam muito chato ler a Bíblia. Os nomes e localidades hebraicos, a linguagem às vezes cifrada, afugentavam muitas pessoas, embora se saiba que o Livro Sagrado seja o mais lido e comentado do mundo.
Apesar disso, sabemos que o Cristianismo, quando dividido pelas inúmeras confissões e seitas, não é mais a religião majoritária, vez que superada pelo islamismo e acompanhada de perto pelo hinduísmo1, o que demonstra que a Casa do Pai tem realmente várias moradas e os buscadores do bem podem ser encontrados inclusive entre aqueles que não reconhecem Jesus como o único Salvador.
A esse propósito, quando estudamos religiões comparadas, descobrimos vários princípios comuns, porque não se concebe um ser religioso que pretenda a destruição de um irmão pela violência ou pela opressão. Aliás, a tese deste livro é bastante simples: as religiões são parecidas e propõem, todas elas, uma linguagem de amor, tolerância e compaixão. No entanto, quando crescem e se solidificam na elegância do tempo, transformam-se em instituições e se tornam exigentes e dogmáticas na sociedade. Para manter e defender seus princípios, usam de violência, intolerância e perseguem os não seguidores, chamando-os de “ímpios”, “iníquos” ou infiéis, desfigurando totalmente o que disseram, de início, os chamados “mestres-fundadores”. Quanto mais institucionalizada, mais uma religião reivindica ser “a melhor” e “a única” que deva ser seguida. E ai daqueles que se aventurarem a pensar diferente...
As idas e vindas dessa história é o que me comprometo a contar – mercê da paciência do leitor –, frisando que vou escoimar toda a complicação que poderia exibir num livro com temas religiosos e bíblicos, inclusive o verbo escoimar.
E que Deus me ajude e que os homens não muito afeitos a aceitar novas interpretações me perdoem. Porque o perdão, este sim, é uma ciência e aqueles que são capazes de exercê-lo os realmente vencedores.

Teresópolis, 1º de novembro de 2008.

O autor.

– 1 –


RETORNANDO AO SAGRADO

Muitos sabem falar de Deus. Alguns sabem falar



com Deus. Mas quase ninguém sabe calar perante

Deus para que Deus lhe possa falar.”
Huberto Rohden

Como já disse, estudei em colégio de padres. A maioria era constituída de eruditos que me despertaram a atenção para a cultura e o valor da catolicidade, uma coleção de informações profundas, transmitida por diversos autores por quase dois milênios.


Ao lado da chatíssima educação tradicional, exigida pelos currículos do Ministério da Educação e Cultura, aprendíamos a raciocinar e a criticar, apesar de meu aprendizado no curso secundário ter sido reprimido pelas normas do período de ditadura militar (1964-1985). Até a aterradora disciplina “Moral e Cívica” era servida com molho especial, preparando os jovens tenros e atentos naquelas carteiras enfileiradas a virarem futuros e decididos cidadãos.
Ocorreu, porém, fato curioso: quase todos aqueles padres eruditos deixaram o celibato para resolver casar. Havia um professor de matemática, velho sacerdote cheio de manias, que arranjou uma namorada e sumiu! Muitos de meus colegas e até meu irmão, que também estudava em outro colégio católico tradicional, me confessavam que para virar bons ateus bastava freqüentar aqueles grandes colégios, controlados por salazaristas, beneditinos e jesuítas.
Por meu turno, resolvi desconfiar da desconfiança. Apesar de tudo, a Igreja mantinha-se de pé, ensinando-me e com ótimos resultados. Passei brincando em dois vestibulares e comecei a fazer duas faculdades: Economia e História. O primeiro curso era em universidade particular, pela manhã; o segundo, em estabelecimento público estadual, à noite.
Deixei o curso de história, porque precisava trabalhar e lamento muito ter preferido continuar e concluir o curso de Ciências Econômicas, porque na época era moda ser economista. Deixei de ser historiador, operador de história (ou qualquer nome que se lhe dê) para tentar seguir os passos de quem acreditava no milagre econômico dos denominados “anos de chumbo”.
A Economia é fascinante e quando ajuntamos a ela o adjetivo “Política”, passa a ser objeto de grande interesse para um jovem estudante que vivia enfurnado na biblioteca da faculdade. Só muito mais tarde, soube que a freqüência às bibliotecas é hábito muito comum no estrangeiro, em países desenvolvidos, mas num subúrbio do Rio de Janeiro, em 1972, tal conduta era vista como cometida por um ET...
Formei-me com 23 anos, sem a menor noção da importância do instrumental que tinha nas mãos. À época, já estava afastado de Deus, preocupado com outros interesses de juventude: namorar, passear no fim-de-semana e fazer todas as bobagens que eram permitidas a um jovem de classe média.
Havia lido a Bíblia no colégio, obrigado pelas aulas de religião, mas a minha posição era de completa alienação e desligamento. Li o Livro Sagrado como as misses percorriam o livrinho de Saint-Exupéry “O Pequeno Príncipe”, aquele com a frase célebre e sempre lembrada: “tu te tornas responsável por aquilo que cativas...”
A Bíblia para um adolescente é uma fábula, na medida em que lhe fervem os hormônios e ele se aproxima do sexo, pé ante pé, como se estivesse rasgando com coragem os véus do pecado. Se um religião lhe proibisse o sexo, pior para a religião. E não fugi à regra, não sem uma pontinha desafinada de complexo de culpa!


O Pequeno Príncipe
Sempre gostei de ler, depois que desisti de ser jogador de futebol, por insistência de minha família, porque, na época, não era profissão digna da classe média. Jogava até bem, mas era menino de 15 anos obediente e passei a me dirigir para a biblioteca do colégio. Passei a gostar do silêncio e da companhia dos livros, que não brigavam nem gritavam comigo.
Dentre tantos livros “lidos”, passei as retinas pelo “O Pequeno Príncipe” do célebre autor francês Saint-Exupéry, embora tenha absorvido muito pouco de seu significado. Pareceu-me uma estória bonita quanto tantas outras e até pensei que poderia virar mero desenho animado. Esse dado é muito importante para o que falarei a seguir. O cérebro humano, na adolescência, tende à fabulação e ao sonho, repudiando inconscientemente as mais elaboradas categorias racionais. A própria concentração, tão necessária a estudos mais refinados, é uma conquista da maturidade, sendo o jovem um ser naturalmente desatento e realmente preocupado com assuntos particulares, que, não raro, nada tem a ver com temas eruditos ou cultos. O jovem quer conquistar o dia a dia, divertir-se, que em latim significa “desviar-se de”, quer fazer tudo o que não seja obrigação, mas lhe lembre festejos e festas (hoje chamam “baladas”). E isso é muito natural. Comigo acontecia a mesma coisa.
A leitura do best-seller francês não me despertou qualquer entusiasmo e li aquelas páginas como se fossem uma esquecível estória em quadrinhos. Nada mais que isso. O principezinho representava apenas um menino solitário a fazer observações sobre a vida de maneira nobre e completamente distante da minha realidade brasileira. Anos depois, ao reler o livro, é que percebi a grandeza daquela obra universal, que canta a relação de abandono do homem em relação ao universo, muito maior do que consegue entender a pobre compreensão mortal.
Anos além, tornei-me amigo e assistente de um juiz, no Rio de Janeiro, que me ensinou uma regra de ouro, que jamais deixei de recordar: o importante não são os livros lidos, mas os “relidos”. A princípio não entendi o que aquilo significava, mas o reforço dos anos, com os inevitáveis sofrimentos da experiência, conduziu-me a lhe dar inteira razão. Assim como não podemos desprezar os grandes filmes, vendo-os apenas uma vez, os livros são inúmeros e não dá para ler todos no pequeno espaço de uma existência. Então, o que resta a nós, pobres mortais, senão tão somente fixar a atenção nos melhores autores, voltando sempre a eles, como se necessitássemos de uma cintilação de luz abaixo de um disfarçado e escondido véu de ignorância?


Um reencontro digital...
Imediatamente o espírito voltou-se para os livros que jaziam na minha pequena biblioteca, a maioria deles lidos, sublinhados, riscados e com observações nas margens. Sempre cultivei o hábito de estragar os livros que passavam por minhas mãos, discutindo por escrito com os autores, ressaltando os pensamentos mais importantes, sublinhando-os com régua ou sem régua, sempre à caneta, de sorte que quando a leitura era concluída, eles estavam completamente ultrajados em sua pureza. Mal ficavam de pé as páginas, em que colocava um molho de opiniões, às vezes descabidas (perceberia posteriormente), mas para mim seria tortura deixar as folhas impressas totalmente passivas, sem ser incomodadas ou remexidas. Um hábito meio mórbido, meio necessidade visceral da qual não conseguiria nunca mais fugir. Era um vício desses que nos permitimos na solidão diante de páginas silenciosas, apenas nossas...
Assim estavam os livros nas prateleiras e voltei a olhá-los com simpatia, ao invés de percorrer apressadamente livrarias e sebos em busca de títulos novos. Quem sabe eu já tivesse tudo ali...
Com o advento do computador, então, minhas entranhas ficaram ainda mais calmas, porque a possibilidade de pesquisa ficou ao alcance de um clique, sem demoras ou problemas. A velocidade substituiu a procura e hoje a juventude, tendo nas mãos a selva eletrônica, não precisa mais se preocupar com a acumulação do conhecimento, mas com o treinamento em buscar informações, saber onde estão e como combiná-las. Os professores e pedagogos que se revoltarem contra essa inevitável realidade estarão em menos de dez anos completamente superados.
Meu reencontro com a Bíblia deu-se digitalmente. Desloquei um programa para o computador com todo o texto e adaptei o desktop para receber passagens bíblicas todas as vezes que voltava à área de trabalho. Aí aconteceu dentro de mim grande transformação.
Já havia casado e tinha uma filha, separei-me e vivia sozinho – a Bíblia passou, então, num passe de mágica, a ter sentido, a princípio como suave tônico moral, que acalmava como água fresca a fronte, depois como depósito de grande conhecimento e reflexão espiritual à disposição, mas que antes, por imaturidade, não dera a menor atenção.
Casei-me na Igreja católica, com tudo o que tinha direito: noiva de branco, grávida, festa em clube e lua-de-mel. Separei-me e me informaram que, pelo direito canônico, já não poderia receber a comunhão. Tive outras esposas e, por conseguinte, era uma católico muito triste, expulso da comunidade pela porta dos fundos!
Infelizmente ou não, um escritor e poeta gosta muito de sexo e de mulher (sou um homem primitivo!). Isso parece não ser bem compreendido pelas autoridades eclesiásticas que recomendam o casamento eterno e monogâmico, o que escapa um pouco da gravidade nesses tempos conturbados.
Isso, todavia, não me impediu nem me censurou quanto à leitura dos textos bíblicos. Meu trabalho, como jornalista, função que exercia desde 1979, portanto antes da exigência de diploma, no Brasil, levou-me a escrever sobre religiões comparadas e história mística, ou seja, aquela que vem sendo pesquisada antes de Menés, que fundou o Egito aos 3200 a.C. (antes de Cristo) e iniciou a história ocidental consentida. A pergunta que me impulsionava, à época, era: de onde veio aquele negro, que inaugurou a história do jeito que a conhecemos?
Minha curiosidade não aceitava as respostas prontas da arqueologia e da etnologia. Eu queria ir além. Comecei a estudar o chamado realismo fantástico e autores como Robert Charroux, Erich Von Daniken, Louis Pauwels e Jacques Bergier, que direcionavam suas pesquisas para respostas menos caretas sobre os problemas de origem da humanidade. Nem é preciso dizer que, em tempos de ditadura militar, pesquisar assuntos como o desaparecimento da Atlântida ou a Teoria da Terra Oca não gerava complicações com a censura ou com o temido Departamento de Ordem Política e Social. Para complicar ainda mais, recebia monografias da Ordem Rosacruz, que discutia e aprofundava esses assuntos de maneira sistemática, dando inclusive um tratamento todo especial ao papel de Jesus no mundo. Cheguei ao décimo grau da Ordem e depois desisti, até hoje nem sei mesmo o motivo, embora mantenha comigo o material, que, de vez em quando, consulto.
Partindo dessa barafunda espiritual, num salto no tempo, vi-me com 45 anos de idade (nasci em 1955) num reencontro inesperado e computacional com a chamada “Palavra de Deus”, que Daniken, na década de 70, tentou provar que era manifestação de seres extra-terrestres soprada nos ouvidos de pastores semi-analfabetos e machistas, que constituíam então as tribos de Israel.
Os cometas seriam uma espécie de espermatozóides celestes que polinizariam a terra em tempos imemoriais, depositando o sêmen da vida nas águas de nosso planeta, cuja evolução, através de milhões de anos, foi conduzindo a vida para a terra firme. Como prova, o autor normalmente se reportava aos relatos bíblicos sobre carruagens de fogo e o célebre primeiro capítulo do livro de Ezequiel – que seriam indícios da visita e interferência de discos voadores na história humana. Não seria a sarça ardente de Moisés somente a manifestação mecânica de extra-terrestres, transferindo conhecimento moral a tribos despreparadas para uma transformação revolucionária em tempos de disseminado paganismo2?


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