Experimentações com técnicas de levantamento de dados



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Experimentações com técnicas de levantamento de dados

com foco na visão do design centrado no humano

Resumo

Este trabalho comunica resultados obtidos por meio de experimentações com diversas técnicas de levantamento de dados – entrevistas em profundidade, storytelling e sondas. Foram também testadas diferentes maneiras de aplicá-las em trabalhos de campo onde variaram, por exemplo, as formas de registro utilizadas (anotação manual, fotografia, gravação em áudio ou vídeo) e o local dos procedimentos (dentro ou fora da casa dos participantes). O objetivo deste estudo piloto foi o de fundamentar a seleção das técnicas de levantamento de dados mais adequadas a integrar uma pesquisa qualitativa de maior envergadura em curso, principalmente em termos da eficiência e do conforto dos respondentes.


Palavras-chave: metodologia de pesquisa, pesquisa qualitativa, levantamento de dados, design centrado no humano, design empático


Introdução
Contexto deste estudo

O planejamento de uma pesquisa qualitativa de maior amplitude, que se propõe conhecer a percepção dos usuários na apropriação de móveis residenciais industrializados de padrão popular existentes em suas moradias, previu uma etapa preliminar de experimentações de técnicas e ferramentas possíveis de utilização para selecionar as que melhores se adequariam à coleta de dados primários necessários. Considerou-se essencial, para o sucesso do empreendimento, que as técnicas empregadas fossem escolhidas com particular atenção e resultassem as mais amigáveis possíveis, permitindo aos respondentes sentirem-se confortáveis em participar e em oferecer colaboração ampla na verbalização de informações aprofundadas, sem constrangimentos. O design centrado no humano e o design empático se valem de técnicas para pesquisa qualitativa que se propõem a aprofundar o conhecimento sobre usuários. Isto, em princípio, poderia possibilitar melhores projetos de design. Algumas dessas técnicas de coleta de dados, tais como: entrevistas em profundidade estruturadas, semiestruturadas e livres, storytelling e sondas, foram objeto de testes neste estudo para avaliação de sua eficácia e possibilidade de aplicação no âmbito da pesquisa de maior envergadura em curso.


Design centrado no humano

Buscar conhecer o ser humano para poder projetar adequadamente é pressuposto do design. Mas muitas distorções podem ocorrer, de acordo com Iida (2005, p. 65), quando dispõe que existem “diferenças significativas entre as necessidades e desejos reais dos consumidores e aquelas que os especialistas supõem ou imaginam”. Design centrado no humano implica descobrir as necessidades dos atuais ou futuros usuários de objetos existentes ou a serem projetados, o que não é tarefa fácil, segundo Norman (2008, p. 94). Este afirma que as pessoas têm dificuldade de descrever com palavras seus problemas reais (NORMAN, 2008, p. 97) “[...] o verdadeiro desafio do design de produto é compreender as necessidades do usuário final ainda não manifestadas e que não estão sendo atendidas [...] descobrir as verdadeiras necessidades que mesmo as pessoas que as têm ainda não conseguem formular nem manifestar. Como a maioria das pessoas não tem consciência de suas verdadeiras necessidades, descobri-las exige observações cuidadosas em seu ambiente natural.”

Lobäch (2001, p. 55) observa que informações sobre necessidades dos futuros grupos de usuários não são obtidas de primeira mão, além de serem, muitas vezes, parciais. Acrescenta que “o designer industrial, hoje em dia, está pouco informado sobre os futuros usuários de seus produtos e não têm informação segura sobre suas necessidades”. Lobäch ainda complementa que, por este motivo, evidencia-se a necessidade de “investigá-las diretamente por meio de entrevistas ou testes, [...]” (LOBÄCH, 2001, p. 56).

Dijon de Moraes (1999, p. 105) observa, criticamente, que existe uma inversão na situação em que “o produto não mais se adapta às pessoas, e sim os usuários é que devem se adaptar aos produtos”. Bezerra (2008, p. 75) conclui que “o human centred design, – design centrado no humano –, talvez seja a abordagem mais avançada que a área conseguiu produzir até agora. Esta abordagem tira o foco da tecnologia e do designer e o coloca no usuário”.

Portanto, como a coleta de dados para a pesquisa mais ampla em curso será pautada, em grande parte, em depoimentos dos usuários de determinados produtos, evidencia-se a necessidade de uma abordagem mais humanizada e rica no contato com os respondentes.
Design empático

O conceito de empatia difere do de simpatia, pois, enquanto este, segundo o Dicionário Houaiss, significa uma “tendência instintiva que atrai uma pessoa para outra ou inclinação recíproca entre duas pessoas...”, o primeiro vai além por significar, entre outras definições, segundo o mesmo dicionário, a “capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.” e também o processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”.

Para buscar sentir o que o outro sente e colocar-se no lugar do outro para identificar suas necessidades e desejos reais, o design empático fundamenta-se na observação de campo para apreender como os usuários interagem com produtos e serviços nas situações reais de uso. Para tanto, utilizam-se de instrumentos visuais, auditivos e sensoriais, buscando capturar dados para posterior análise, braintorming e desenvolvimento de modelos de possíveis soluções.

Muitas técnicas de coleta de dados utilizam-se dos mesmos instrumentos do design empático. Mas este preconiza a necessidade de estabelecer-se compreensão empática do ser humano (usuário, participante ou respondente), procurando se colocar no lugar do outro para sentir o que o outro sente e tentar ver o mundo pelos olhos do outro. Segundo o psicólogo social Carl Rogers (1985, p. 64) “A compreensão empática é um processo dinâmico que significa a capacidade de penetrar no universo perceptivo do outro, sem julgamento, tomando consciência dos seus sentimentos, […] e a pessoa sente-se não apenas aceita, mas também compreendida enquanto pessoa na sua globalidade.”

Em outras palavras, ser empático é possuir a capacidade da escuta, ouvindo sem ideias pré-concebidas, para tentar entender como o outro percebe as coisas ao seu redor.

Desenvolvimento deste estudo
Problema deste estudo

Baseada nas premissas do design, acima expostas, que apontam a necessidade do estabelecimento de compreensão empática entre pesquisador e respondente, para haver maior possibilidade de se penetrar no universo perceptivo dos usuários dos produtos, a proposta deste estudo foi a de testar, preliminarmente, várias técnicas de coleta de dados e maneiras diferentes de aplicá-las em trabalhos de campo para selecionar as mais empáticas e adequadas a integrar uma pesquisa qualitativa acadêmica de maior envergadura em andamento que busca conhecer em profundidade os usuários de móveis industrializados residenciais de padrão popular.



Método de investigação adotado
Aspectos gerais

O método utilizado neste estudo foi o exploratório, no sentido de buscar discernir, comparativamente, que técnicas ou ferramentas de coleta de dados teriam o potencial de proporcionar maior riqueza de dados pertinentes, aliado ao maior conforto dos participantes no oferecimento de informações.

O objeto do estudo foi o comportamento dos usuários selecionados de móveis residenciais industrializados de padrão popular em resposta à exposição a diversas técnicas de coleta de dados e abordagens.

A pesquisa de campo foi efetuada com moradores dos municípios de Barueri, Carapicuíba, Jandira, Osasco e Santo André, todos pertencentes à região da Grande São Paulo. Os respondentes selecionados são de média e baixa renda, classificados informalmente pela apreciação de suas moradias – presença de eletrodomésticos, grau de instrução e ocupação profissional do respondente e de seus familiares –, não tendo sido aplicado o Critério de Classificação Econômica Brasil 1 na íntegra.


Técnicas de coleta de dados selecionadas para este estudo comparativo

As técnicas de coleta de dados selecionadas para serem testadas neste estudo foram: entrevista longa em profundidade (estruturada, semiestruturada e livre), storytelling e sonda (entregue e enviada).


Técnica de entrevistas

Para as entrevistas estruturadas, um questionário, composto por trinta perguntas, abertas e fechadas, foi elaborado e aplicado pessoalmente pelo pesquisador. Para as entrevistas semiestruturadas, um roteiro memorizado pelo pesquisador serviu de apoio e fio condutor da entrevista. Como a entrevista livre ou aberta não se pauta em questionário ou roteiro, foi apenas apresentado o tema de interesse, permitindo ao participante falar sobre o assunto e conduzir a conversa livremente.


Técnica de storytelling

Para o storytelling, os participantes foram solicitados a redigir um texto sobre suas experiências com móveis residenciais industrializados com o tema “O meu armário e eu”, com liberdade para substituírem o tipo de móvel. Os textos foram enviados ao pesquisador, por e-mail ou outra forma. Após o recebimento destas redações, foi realizada, pelo pesquisador, uma entrevista livre nas residências dos participantes, com os que assim o permitiram, para aprofundamento do assunto.


Técnica de sondas

Quanto às sondas, foram utilizadas duas maneiras de obtenção de dados. A primeira, denominada, neste trabalho, como “sonda entregue”, previa o envio de um documento ao participante, solicitando um relato sobre como seriam executadas algumas atividades diárias, envolvendo um ou outro móvel presente em sua residência. Haveria a necessidade de o participante executar as tarefas solicitadas e ficar atento aos procedimentos, muitas vezes automatizados, para poder responder ao que estava sendo questionado. Se possível, o registro de imagens desses móveis e dos procedimentos seria bem vindo.

Como houve a preocupação de que algumas pessoas pudessem sentir-se pouco à vontade para fazer registros escritos ou visuais, principalmente pelo fato de o público de interesse da pesquisa pertencer a camadas menos privilegiadas da população, utilizou-se também a técnica denominada, neste trabalho, como “sonda delegada”. Tratou-se de delegar ao participante a missão de observar e questionar algum parente na execução de tarefas domésticas em sua própria residência, fazendo registros escritos e visuais das situações de uso de seus móveis, orientado por um roteiro. Esperava-se, desta forma, alcançar pessoas desconhecidas que teriam, potencialmente, informações de interesse, mas que não seriam coletadas por não se sentirem confortáveis em participar de uma entrevista.

Objetivos de cada parâmetro testado
Tipo de técnica de coleta de dados

Neste quesito, o objetivo era o de testar o tipo de técnica – entrevista em profundidade estruturada, semiestruturada e livre entre si – e, também, versus storytelling e versus sonda entregue e delegada, quanto à fluência, duração do evento, riqueza de informações, facilidade de anuência, tranquilidade e conforto do usuário e da própria pesquisadora, buscando reconhecer as que pudessem propiciar maior empatia e eficiência na produção mais abundante de dados pertinentes à pesquisa.


Forma de registro do evento

Buscou-se utilizar diversas formas de registro dos eventos (anotar e fotografar versus gravar em áudio e fotografar versus filmar), avaliando a aceitação do usuário quanto ao seu conforto, tranquilidade e fluência na conversação. A intenção também foi de o pesquisador verificar o grau de dificuldade encontrado na operação de cada tipo de registro e a facilidade de resgate das ocorrências nos eventos em análises posteriores.


Familiaridade da pesquisadora com o participante

Quanto a este parâmetro, a proposta era de avaliar a maior ou menor facilidade de anuência dos participantes aos eventos propostos, em função de serem conhecidos ou não do pesquisador.


Número de eventos necessários por participante

Procurou-se verificar a necessidade de se proceder a um ou a mais eventos com cada participante, para a coleta de informações suficientes, em função da técnica empregada e da maneira de se conduzir os trabalhos de campo em cada caso.


Forma de apresentação do pesquisador

A intenção, neste parâmetro, foi a de apreciar a aceitação do participante ao receber o pesquisador sozinho, ou acompanhado por mais uma pessoa, em sua residência para responder à pesquisa. Foi, também, considerada a percepção do próprio pesquisador sobre a necessidade, ou não, de apoio, para realização dos trabalhos na casa do participante.


Local do evento

Quanto ao cenário em que se deu a interação com os respondentes, também foi considerado desejável estimar se o melhor local para a realização da pesquisa seria dentro ou fora de suas casas, principalmente quanto ao conforto do participante e da exuberância dos dados obtidos.


Abrangência da amostra2

Participaram da pesquisa dezesseis usuários selecionados – dez conhecidos e seis desconhecidos –, sendo treze mulheres e três homens, distribuídos em doze casos com seus procedimentos específicos, determinados pelo protocolo dos contatos mencionados no item a seguir.


Protocolo dos contatos

Os eventos foram nomeados de “caso 1” a “caso 12”. Para cada caso, foi elaborado um protocolo, que identifica os participantes, registra a data e a hora da ocorrência do evento, indica os parâmetros a serem testados e dispõe sobre os procedimentos adotados na condução dos trabalhos. Os casos “8a” e “9a” desdobraram-se em duas sessões cada, sendo a primeira identificada pelo número do caso, seguida da letra “a” e a segunda sessão (complementar à primeira e realizada com os mesmos participantes), seguida da letra “b”.


Análise dos dados obtidos

A análise dos dados obtidos sobre o mobiliário não foi relevante neste trabalho, pois o objetivo era, além de promover a iniciação do pesquisador nas várias ferramentas de coleta de informações, o de melhor fundamentar a seleção das técnicas de levantamento de dados mais adequadas a integrar pesquisa qualitativa de maior amplitude em andamento, por meio da apreciação do potencial de exuberância dos dados coletados. Esta exuberância foi sugerida pela quantidade de dados pertinentes coletados, fluxo das conversas, ausência ou minimização de nervosismo, conforto do respondente e do pesquisador durante os procedimentos, adesão do participante ao tema e aos eventos propostos, percepção da confiabilidade das respostas, riqueza de imagens quanto às informações nelas contidas, recuperação de dados após aplicação da técnica e pelo estabelecimento de empatia entre participantes e pesquisador.



Resultados
Discussão dos resultados obtidos

Comparando-se os resultados alcançados nos diversos casos propostos, foi possível sentir que técnicas e ferramentas utilizadas proporcionaram desempenho mais alinhado com os objetivos deste estudo, segundo os parâmetros disponibilizados na sessão de métodos e discutidos a seguir.


Tipo de técnica de obtenção de dados

Os resultados sugerem que a entrevista semiestruturada permite maior liberdade ao participante de expor opiniões e apreciações sobre seus móveis do que a entrevista estruturada, pois esta última parece levá-lo a responder mais especificamente ao que foi perguntado, sem grande incentivo para excursionar por variações do assunto, que poderiam enriquecer as informações.

Ressalva-se que, dependendo do perfil do participante, perguntas estruturadas insinuam surtir mais efeito, principalmente com pessoas de menor grau de instrução. Estes, quando solicitados a acrescentar informações livremente no final do questionário aplicado, não se sentiam confortáveis, demonstrando preferência por responderem questões mais diretas e fechadas.

A entrevista livre afigurou-se não muito eficiente, pois o assunto proposto extinguia-se rapidamente, sendo necessário introduzirem-se perguntas, para obtenção de mais dados, aproximando-a, desta forma, da entrevista semiestruturada.

A técnica storytelling, por seu caráter menos invasivo e também desafiador de contar uma história, parece ter encontrado grande receptividade junto ao público mais instruído e adepto da internet. Como ocorreu neste estudo, uma pessoa convidada a integrar-se à pesquisa, de própria vontade angariou outros participantes, repassando-lhes as instruções fornecidas pelo pesquisador. O storytelling sozinho não resultou em informações com o grau de profundidade necessário à pesquisa, mas pareceu ser um bom aliado como captador de participantes e mesmo como propiciador de conhecimento preliminar a respeito dos mesmos. Esta técnica indicou a necessidade de complementação com outro evento, composto por uma entrevista realizada na casa do respondente, para aprofundar o assunto e proceder a registros fotográficos ou filmagem.

A técnica de sonda, assim como a de storytelling, também não gerou resultados aprofundados a respeito dos participantes, mas poderia ser um bom instrumento de abordagem para agregar mais pessoas à pesquisa. A sonda, denominada, neste estudo, de “delegada”, propiciou, ainda, com a cooperação de um familiar, que a pesquisa adentrasse a casa e que fosse efetuado um registro do participante em seu estado natural, fazendo uso de seus móveis na execução de tarefas costumeiras, sem inibições, que poderiam ocorrer se estivesse sendo observado por pessoas estranhas.


Formas de registro do evento

A comparação dos resultados obtidos, por meio da utilização de diferentes ferramentas de registro da aplicação das técnicas de levantamento de dados, sugere que a gravação em áudio, seguida de registros fotográficos ou a gravação em vídeo, propiciaram melhores resultados, facilitaram o resgate das situações das conversas para análises posteriores, promoveram a produção de riqueza de material visual e a liberação do pesquisador para proceder a anotações durante o evento. Isto permitiu-lhe acompanhar o fluxo da conversa sem perda de conteúdo.

Ressalve-se que o registro dos eventos, por meio de vídeos, inibiu um ou outro participante, que solicitou para não ser gravado, não se verificando nada semelhante em nenhum caso com gravação em áudio e registros fotográficos.

O registro das entrevistas semiestruturadas e livres, por meio de anotações, foi dificultado pela velocidade da conversação. Mas, mesmo nas entrevistas estruturadas, a facilidade de o pesquisador anotar as respostas ao questionário na íntegra não foi muito maior, o que prejudicou a recuperação de parte dos dados após a entrevista.

Os registros dos procedimentos por meio de gravações em áudio ou vídeo parecem resultar como os mais eficientes. Porém, as gravações em vídeo sugerem rendimento ainda superior, por oferecerem possibilidade de resgate total dos acontecimentos, podendo a posterior análise dos dados pautar-se, até mesmo, em linguagens corporais.
Familiaridade do pesquisador com o participante

Dos dezesseis participantes desta investigação, dez eram familiares ao pesquisador e seis não, mas indicados por pessoas conhecidas. Todos aderiram à proposta do estudo, o que facilitou a condução dos trabalhos e a aplicação das técnicas e ferramentas selecionadas.


Quantidade de eventos demandados no caso de cada participante

Neste estudo, incluíram-se quatorze eventos, identificados como casos “1” a “12”, sendo que os casos “8b” e “9b” foram eventos complementares aos já aplicados anteriormente, aos mesmos participantes nos casos “8a” e “9a”. As técnicas storytelling e sondas solicitaram eventos complementares à obtenção de dados (no caso, entrevistas livres ou semiestruturadas para aprofundamento das informações coletadas no primeiro evento). Uma visita a cada um dos demais casos, quando já procedidas nas casas dos participantes, mostrou-se suficiente para a coleta dos dados necessários a esta investigação. Quando efetuadas fora de casa, houve necessidade de proceder-se a uma segunda visita à casa do participante, para aprofundamento dos dados coletados e obtenção de registros visuais.


Forma de apresentação do pesquisador

As pesquisas procedidas com a presença apenas do pesquisador ocorreram sem dificuldades, conseguindo este operar com confiança as ferramentas de registro dos eventos. A presença de um acompanhante em dois eventos, que se ateve à operação de gravação em vídeo, parece também não haver influenciado na tranquilidade interior do participante. Percebeu-se que, apesar de não contraindicada à condução dos trabalhos e à obtenção dos dados, não era necessária a presença de um acompanhante no desenvolvimento dos eventos.


Local dos procedimentos

Os testes com entrevistas, procedidos dentro das casas dos participantes, resultaram, ao que se depreendeu, mais eficientes, talvez por permitirem que, na primeira visita, fossem obtidos, além das informações orais, disponibilizadas por eles, também registros visuais dos móveis e ambientes. Com usuários já conhecidos do pesquisador, houve maior possibilidade de que a primeira conversa ocorresse no lar do entrevistado, em função da familiaridade existente. Os eventos procedidos fora das casas dos mesmos indicaram necessidade de realização de mais um evento dentro das residências para efetuarem-se registros visuais.


Considerações finais

Em síntese, os resultados obtidos sugerem que o emprego de várias técnicas, combinadas entre si, proporcionaram uma coleta de informações mais rica e pertinente, principalmente quando conformadas ao perfil de cada respondente. A técnica do storytelling e a das sondas afiguram-se interessantes para recrutar participantes, estabelecendo o primeiro contato e revelando alguma informação sobre eles. A utilização destas duas técnicas parece implicar a necessidade de se proceder, em sequência, a entrevistas em profundidade, preferencialmente, semiestruturadas, para obtenção de dados mais aprofundados e de registros visuais.

A necessidade de reformular-se, por vezes, no momento da entrevista, perguntas do questionário da entrevista estruturada, para que alguns respondentes entendessem o que estava sendo perguntado, indica a necessidade de elaborá-lo com sensibilidade e bastante cuidado para conseguir ser acessível à linguagem e ao entendimento do público-alvo da pesquisa (usuários de móveis industrializados de padrão popular de média e baixa renda), não operando com a visão de que os respondentes é que devam adequar-se aos interesses da pesquisa.

Por respeito ao bem-estar e às idiossincrasias dos participantes, recomenda-se que o pesquisador procure estabelecer compreensão empática com eles e esteja sempre preparado para mudar, de imediato, a técnica ou a ferramenta previamente selecionada, para a realização da entrevista, caso não esteja surtindo o efeito esperado ou, então, implicando algum constrangimento ao respondente. Vídeos ou gravações em áudio, acompanhados de imagens fotográficas, apresentaram-se como os registros mais eficientes, deixando-se a definição de qual utilizar sujeita ao assentimento do participante.

O aspecto da familiaridade do pesquisador com os respondentes facilitou, aparentemente, a condução dos eventos, contribuindo para a tranquilidade deles e para a melhor disposição em oferecer informações. Como os participantes desconhecidos foram indicados por pessoas conhecidas, não houve, tampouco, constrangimento ou inibição por parte desses ou do pesquisador, durante a realização das entrevistas.

Quanto ao número de eventos necessários por participante, para obtenção dos dados pretendidos, percebeu-se que, quando o primeiro evento já for procedido na casa do participante, há grande possibilidade de levantar-se quantidade de informações suficiente. Será preciso realizar-se um evento complementar, caso o primeiro tenha se dado fora da casa do participante, o que não teria possibilitado registros visuais do mobiliário, ou caso surgisse alguma necessidade de aprofundamento das informações coletadas. Este estudo exploratório também indicou ser possível ao pesquisador conduzir os eventos, sem necessidade de acompanhante para qualquer técnica ou ferramenta utilizada.

Para conhecer mais profundamente o gosto dos participantes, sugere-se que, na entrevista, possa ser apresentado, por exemplo, um quadro com amostras visuais evocativas da temática do estudo em curso, com características bem diferentes entre elas, mas alinhadas às informações a serem exploradas. Outra possibilidade, para se adquirir mais informações sobre os usuários, seria solicitar que estes executassem tarefas cotidianas, para que tais situações de uso pudessem ser mais autenticamente registradas, à semelhança do ocorrido na técnica de sondas.

Como benefício adicional, destaca-se a preparação do pesquisador, adquirida por meio deste ensaio piloto, que possibilitou sua familiarização com as técnicas e as ferramentas testadas, o que, certamente, contribuirá para que este conduza com maior proficiência pesquisa de campo mais ampla a ser iniciada proximamente.

Cabe, ainda, como recomendação de caráter mais geral, mencionar que, sejam quais forem as técnicas e ferramentas empregadas na condução das coletas de dados, o sucesso do empreendimento dependerá, em grande parte, do estabelecimento de compreensão empática entre pesquisador e respondentes, possível apenas quando o pesquisador buscar, com humildade, se colocar no lugar do outro, ver com os olhos do outro e sentir o que o outro sente.
Notas

1. <http://www.abep.org/novo/FileGenerate.ashx?id=285>, acessado em dezembro de 2013.

2. Em estudos qualitativos, amostragem é orientada intencionalmente (e não aleatória).

Referências bibliográficas

ANGROSINO, Michael.(2009). Etnografia e observação participante. Porto Alegre: Artmed.

BAUER, Martin W.; GASKELL, George (orgs.). (2012). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático (10ª ed.). Petrópolis, RJ: Vozes.

BEZERRA, Charles. (2008). O designer humilde. São Paulo: Rosari.

LOBÄCH, B. (2001). Design Industrial: bases para a configuração dos produtos industriais. São Paulo: Blücher.

MORAES, Dijon de. (1999). Limites do design. São Paulo: Studio Nobel.

ROGERS, Carl. (1985). Tornar-se Pessoa (7ª ed.). Lisboa: Moraes.

Abstract

This paper reports preliminary results obtained in experimentation of various techniques of data collection – in-depth interviews, storytelling and probes. Different ways of applying them in the working field were also tested, which varied, for example, the mode of recording used (manual annotation, photography, audio or video recording) and the location of procedures (inside or outside the home). The aim of this comparative pilot study was to justify the most suitable data collection techniques to integrate a qualitative research more comprehensive in progress, especially in terms of efficiency and in terms of the comfort of the respondents themselves.


Keywords: research methodology, qualitative research, data collection procedures, human-centered design, empathic design

Resumen

Este trabajo comunica los resultados preliminares, obtenidos por medio de experimentos con diferentes técnicas de recolección de datos – entrevistas en profundidad, storytelling y sondas. Fueran también probadas diferentes maneras de aplicación em trabajos de campo donde hubo variaciones, por ejemplo, de las maneras de registro utilizadas (anotación manual, foto, grabación en áudio o vídeo) y la ubicación de los procedimientos (dentro o fuera de la casa de los participantes). El objetivo de este estudio fue lo de fundamentar la selección de las técnicas de recolección de datos más adecuadas para integrar uma investigación cualitativa de más amplia envergadura en curso, sobre todo en términos de la eficiencia y de la comodidad de los encuestados.



Palabras clave: metodología de la investigación, investigación cualitativa, recolección de datos, design centrado en el humano, design empatico

Currículo do pesquisador

Graduou-se em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, em 1981. Pela mesma instituição, em 2010, obteve o título de mestre e, atualmente, cursa o doutorado, com o projeto de pesquisa: Perspectivas de usuários de móveis de consumo popular. Atuou em diversas empresas no desenvolvimento e gerenciamento de projetos de grande porte e a partir de 1992, como autônoma, elaborou e executou projetos de arquitetura residencial, de interiores e de mobiliário. Ministrou aulas na Escola Panamericana de Arte, em São Paulo, e tem participado, na FAU-USP, como monitora, de disciplinas de projeto e de metodologia na área de design.






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