Experimentar deus



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EXPERIMENTAR DEUS

A Transparência de Todas as Coisas

Leonardo Boff

Digitalizado por BlacKnight

INTRODUÇÃO

O presente texto retoma um escrito produzido em 1974. Muitas coisas mudaram na vida do autor e mui­tas outras temáticas ocuparam seu interesse, especialmente o alargamento da Teologia da Libertação para dentro da preo­cupação ecológica. Pobres e Terra gritam porque estão sen­do oprimidos. Pobres e Terra devem ser libertados juntos, pois constituem uma única e complexa realidade. O que não mudou, entretanto, foi a busca da experiência de Deus. Ela é o cerne da fé viva e pessoal e o conteúdo principal da teolo­gia, independente de suas tendências e correntes.

Experimentar Deus não é pensar sobre Deus, mas sen­tir Deus com a totalidade de nosso ser. Experimentar Deus não é falar de Deus aos outros, mas falar a Deus junto com os outros.

O texto atual foi profundamente revisto, modificado e completado. Praticamente representa uma obra nova. O interesse dele reside em criar espaço para que cada um possa fazer sua experiência de Deus.

Para encontrarmos o Deus vivo e verdadeiro a quem podemos entregar o coração, precisamos negar aquele Deus construído pelo imaginário religioso e aprisionado nas ma­lhas das doutrinas. Depois de termos mergulhado em Deus e de tê-lo sentido nascendo de dentro de nosso coração, poderemos, livremente, re-assumir o imaginário e as dou­trinas. Elas se despem de sua pretensão de definir Deus e se transfiguram em metáforas com as quais nos acercamos do Mistério para não sermos queimados por ele.

Embora sem nome adequado, Deus arde em nosso coração e ilumina nossa vida. Então não precisamos mais crer em Deus. Simplesmente sabemos dele porque o ex­perimentamos.

Petrópolis, Festa de São João Batista, 2002.

Como aparece Deus

no processo de

vida-morte-ressurreição

da linguagem

Partimos da constatação de que vigora uma vasta cri­se das imagens de Deus nas religiões, nas igrejas e nas sociedades contemporâneas. Alguns apressados pro­clamaram logo a morte de Deus. Outros tentam superar a crise elaborando imagens mais modernas e adequadas à nossa percepção atual da realidade. Não representa tal procedimento mero trabalho substitutivo, mantendo a es­trutura da crise, pois não rompe com o mundo das ima­gens? Mas há os que procuram pensar a partir de uma instância mais originária do que as imagens: a existência humana, histórica, aberta e dinâmica, onde, de fato, transparece o Mistério, a dimensão de imanência e a de transcendência, isto é, aquilo que chamamos Deus. No início de tudo está o encontro com Deus, não ao lado, dentro ou acima do mundo, mas juntamente com o mun­do, no mundo e através do mundo. Deus somente é real e significativo para o ser humano se emergir das pro­fundezas de sua própria experiência no mundo com os outros. Por ser real e significativo, apesar de ser Mistério, ganha um nome; projetamos imagens dele; construímos representações. E a forma como concretizamos nossa ex­periência. Mas é nesse processo que se arma um grave problema: Que valor dar às imagens? Como se relacio­nam com Deus? Podemos dispensar as imagens? Os ho­mens religiosos que acumularam experiências com a in­timidade de Deus poderão nos ajudar. Ao testemunha­rem Deus, usando o recurso da linguagem e do imaginá­rio, eles afirmam, negam c voltam a afirmar.1 Traçaram-nos um caminho de três passos, que queremos também percorrer.



A) A MONTANHA É MONTANHA:

SABER-IMANÊNCIA-IDENTlFICAÇÃO

Num primeiro momento da experiência de Deus, sob o impacto do encontro, damos nomes a Deus: chamamo-lo de Senhor, de Pai, de Mãe, de Pedra, de Santo. A palavra está a serviço do que experimentamos de Deus. Fixamos uma representação. Inicialmente não temos ainda consciên­cia de que se trata apenas de uma representação daquilo que não pode ser representado. Deus é Pai bondoso ou Mãe de infinita ternura; em nível de experiência, temos a ver com uma realidade compacta e não meramente figurativa. Sabemos sobre Deus por uma ciência experimental, possí­vel de ser traduzida por um discurso já sofisticado da argu­mentação filosófico-teológica. Aqui se elaboram conceitos e uma lógica minuciosa dos meandros do mistério divino e de sua comunicação ao universo e aos seres humanos. Deus é identificado com os conceitos que dele fazemos. Ele habita nossos conceitos e nossas linguagens. Elaboramos doutrinas sobre Deus e sobre o mundo divino, doutrinas que se en­contram nos vários credos e nos catecismos. Com tal proce­dimento tentamos encher de sentido último e pleno nossa vida. Deus pode ser encontrado na intimidade do coração. Com ele podemos falar, rezar, cair de joelhos, levar nossos queixumes e esperar sua graça e salvação. A montanha é mon­tanha, Deus-Pai-e-Mãe de infinita ternura.



b) A montanha não é montanha:

NÃO-SABER-TRANSCENDÊNCIA-DESIDENTIFICAÇÃO

Num segundo momento da experiência de Deus, damo-nos conta da insuficiência de todas as imagens de Deus. Tudo o que dele dizemos é figurativo e simbólico. Ele está para além de todo nome e desborda de todo o conceito. Deus é simplesmente transcendente. Vale dizer, ele rompe todos os limites e está para além de todos os confins. Sempre e sem­pre. Talvez tenhamos passado por uma profunda crise. Os marcos referenciais de nosso agir religioso começaram a vaci­lar. Como compreender Deus-Pai ao lado da violência cósmi­ca das galáxias que se engolem, das devastações que dizimam grande parte do capital biótico da Terra ou simplesmente face ao drama de nossos amigos inocentes que foram presos e torturados barbaramente por causa de suas convicções libertárias? Como conciliar a bondade de Deus-Mãe com a esposa amada que foi seviciada, diante do marido preso, até ser morta? Deus é Pai materno ou Mãe paterna, mas um ou­tro Pai e uma outra Mãe. Não é um maior, mas um diferente.

Começamos a questionar todas as nossas representações. Pode surgir uma teologia da morte de Deus: decreta a morte de todas as palavras referidas ao Divino, porque elas mais escon­dem do que comunicam Deus. Não sabemos mais nada; desidentificamos Deus das coisas que dizemos dele. Por aí entendemos o lema dos mestres zen: Se encontrares o buda mata-o." Se encontrares o buda, não é o Buda - é apenas sua imagem. Mata a imagem para estares livre para o encontro com o verdadeiro Buda. Algo semelhante notamos nos grandes mestres espirituais do cristianismo, especialmente em São João da Cruz, que se mostrava hostil às visões, aos êxtases e a todas as formas de experiências especiais.2 Deus não é encontradiço entre e ao lado das coisas deste mundo. Se o encontrarmos aí, então encontramos um ídolo e não o Deus vivo e verdadeiro que está sempre para além dos senti­dos corporais e espirituais. A montanha não é montanha: Deus-Pai não é Deus-Pai como nossos pais terrestres o são.

C) A MONTANHA É MONTANHA:



SABOR-TRANSPARÊNCIA - IDENTIDADE

Num terceiro momento da experiência de Deus, rea­bilitamos as imagens de Deus. Após tê-las afirmado (A), tê-las negado (B), agora criticamente nos reconciliamos com elas. Assumimo-las como imagens e não mais como a pró­pria identificação de Deus. Compreendemos que nosso acesso a Deus só pode ser feito através das imagens. Come­çamos a saboreá-las porque estamos livres diante delas. Elas são os andaimes, não a construção, e as acolhemos como andaimes. Não pretendemos nenhuma ciência sobre Deus; saboreamos a sabedoria de Deus que se revela através de todas as coisas. Tudo pode se tornar transparente a ele, porque tudo é figurativo. Figurativo de quê? De Deus, de sua sabedoria, de seu amor, de sua bondade e de sua mise­ricórdia, etc. Mas isso só é possível se tivermos passado pelo primeiro e segundo momentos, quando nos tivermos li­bertado da simples "sabedoria da linguagem"(I Cor 1,17) e quando tivermos já passado pela "doutrina da cruz" que destrói a ciência dos cientistas (I Cor 1,18-23). Então não nos preocupamos mais com os antropomorfismos, porque sa­bemos que tudo o que dissermos de Deus é antropomorfo. Mas Deus pode ser antropomorfo (à imagem do homem) porque o homem é teomorfo (à imagem de Deus).3 Tudo é simples. Nada há para se refletir. Basta ver, mas ver em profundidade. Deus, sem se confundir com as coisas, está presente nelas, porque as coisas são - para quem vê em profundidade - trans-parentes. É a verdade do panenteísmo. Por essa palavra queremos dizer: tudo está em Deus, embora nem tudo seja Deus; bem como Deus está em tudo, embora Deus não seja tudo. Junto com o Criador está a criatura, vinda dele, mas diferente dele.

Quem chegou a este terceiro momento não deixa na­da fora; assume tudo, porque tudo é revelação de Deus. "Quem é o Tao?", perguntou certa vez um discípulo ao mestre zen. E este respondeu: "É a mente diária de cada um." "Que é a mente diária de cada um?", tornou o discí­pulo. Ao que o mestre concluiu: "Quando fatigados, dor­mimos; quando temos fome, comemos."' Para quem per­cebe que Deus está em todas as coisas, tudo é manifestação do dom que é Deus, da gratuidade que é seu amor. Essa simplicidade reconduz todas as coisas, boas e más, para a sua unidade em Deus. A partir disso Paulo podia admoes­tar os romanos que oferecessem a vida como hóstia viva, santa e agradável a Deus, pois nisso consiste o verdadeiro sacrifício (cf. Rm 12,1); quem dá, dê com simplicidade; quem preside, presida com solicitude; quem pratica a misericór­dia, faça-o com alegria (cf. Rm 12,8); quer comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer coisa, que seja feito tudo para a glória de Deus (cf. I Cor 10,31). Quem experimentou o mistério de Deus não pergunta mais: vive simplesmente

A transparência de todas as coisas e celebra o advento de Deus em cada situação.

A experiência de Deus não se dá apenas neste tercei­ro momento do sabor. Ela é uma experiência total que inclui o saber, o não-saber e o sabor. Importa não fixar-se em nenhum deles. O terceiro momento torna-se novamen­te primeiro e inicia o processo onde os nomes de Deus são afirmados, negados e reassumidos. Todo esse percurso constitui a experiência concreta, dolorosa e gratificante de Deus. Ele se dá e se retrai continuamente; se re-vela e se vela em cada momento porque ele será sempre o Mistério e o nosso eterno Futuro.

Mate as imagens, e Deus aparecerá

A partir das reflexões que fizemos sobre os três passos ao acercamento de Deus pelo caminho das imagens, de sua crítica e seu resgate, ficou claro que falar em expe­riência de Deus hoje é já assumir uma postura crítica den­tro da crise geral de nossas representações sobre o mistério de Deus. Épocas houve em que os homens faziam uma verdadeira experiência de Deus simplesmente colocando-se em contato vital com as doutrinas tradicionais formuladas pela religião e sancionadas pela sociedade. Nessa me­diação viviam o imediato do mistério de Deus e enchiam de sentido a existência.

Nossa época se caracteriza por uma suspeita geral con­tra todos os discursos que tentam traduzir o definitivamen­te importante e o radicalmente decisivo da vida humana. A crítica colocou em xeque todas as nossas idéias sobre Deus. Ela ganhou corpo nas famosas críticas feitas pelos mestres da suspeita - Freud, Marx e Nietzsche -, pela secularização, pela desmitologização, pela tentativa de tradução se­cular dos conceitos religiosos, pela teologia da morte de Deus, pelo esforço de desmascaramento da função ideoló­gica assumida pelas religiões, a fim de justificar o status quo social ou para preservar, nos países mantidos no subdesen­volvimento, um tipo de sociedade injusta e discriminatória da urgência da revolução; ganhou corpo também na críti­ca às Igrejas carismáticas e populares que obedecem à lógi­ca do mercado e veiculam uma religião mais como entre­tenimento que apelo à conversão e à interiorização.

Face a esta crise generalizada, não são poucas as vozes que admoestam: "Paremos um pouco. No âmbito do pensamento-raiz, façamos economia da palavra Deus. Guarde­mos silêncio. Experimentemos aquele Mistério que circunda e penetra nossa existência. Só a partir disso tentemos balbuciar-lhe um nome que não será o seu nome, mas o nome de nosso amor e de nossa reverência Aquele que é o Sem-Nome e o Inefável." Não era outra coisa que pedia um fino poeta e místico cristão italiano, David Turodlo, em seu poe­ma "Para além da floresta": "Irmão ateu, nobremente em­penhado na busca de um Deus que eu não sei te dar, atra­vessemos juntos o deserto! De deserto em deserto, ande­mos para além da floresta das diferentes fés, livres e nus rumo ao Ser nu. Ali onde a palavra morre, encontrará nos­so caminho seu fim."

O esforço do nosso ensaio sobre a experiência de Deus se orienta na busca do sentido originário da palavra Deus, encoberto sob muitos nomes e fossilizado nas doutrinas so­bre Deus. Para nos situarmos na via da experiência de Deus, precisamos conscientizar o trabalho desconstruitivo já ope­rado em nossa civilização concernente a todas as idéias e representações sobre Deus. Não superamos a crise das ima­gens de Deus criando novas e, pretensamente, mais ade­quadas ao espírito do tempo. Isso apenas perpetua a crise porque, ingenuamente, se assume aquela estrutura gera­dora de imagens de Deus que a crise precisamente quer questionar. Essa estrutura é a vontade de sempre procurar imagens melhores sem sair desta lógica de substituição de umas imagens por outras. Não devemos identificar aquela força originária que está aquém e além das imagens, força que nos coloca no encontro vivo com Deus e que está sem­pre na origem de todas as imagens? Essa é a questão funda­mental. Portanto, não é fugindo da crise para o mundo anterior a ela que superaremos a crise, mas entrando den­tro dela e radicalizando-a ainda mais até identificarmos a experiência originária de Deus. Entretanto, tenhamos des­de o início uma perspectiva correta: como não se comba­tem imagens de Deus com outras imagens, assim também não se processa a experiência de Deus negando sistemati­camente todas as representações de Deus. Devemos atraves­sá-las e assim superá-las. Em outras palavras, importa mais falar a Deus do que falar sobre Deus. Mais que pensar Deus com a cabeça é preciso sentir Deus com o coração. É o que significa experimentar Deus. Como se fará isso? Eis o desa­fio que pretendemos abordar em nosso texto.

a) Deus totalmente outro: transcendência

As pessoas que verdadeiramente experimentam Deus sempre testemunharam: Ele é superior summo meo, Deus é superior a tudo o que podemos imaginar. E o Totalmente

rio e o mistério de Deus. Deus transcendente é represen­tado como o Deus acima do mundo e, o que é pior, fora do mundo. E um Deus sem o mundo. O mistério vem repre­sentado como um enigma a ser decifrado. Para o místico, o mistério é um acontecimento a ser acolhido com total disponibilidade. E como tal não está em oposição à inteli­gência. Como dizíamos, pertence ao mistério ser conheci­do mais e mais. Mistério que vem representado como enig­ma começa a significar aquilo que não pode ser alcançado pela razão. Então se envia Deus ao exílio da razão. Aparece como o limite da razão, quando, na verdade, ele é o ilimita­do da razão.

Representado como totalmente fora do mundo, Deus de fato não seria experimentável. Ele é feito objeto da re­velação, a irrupção dentro do mundo daquele que está fora do mundo. Então ele revela verdades e representações de si. Segundo tal compreensão, crer é crer em verdades so­bre Deus. Deus se transforma em puro objeto da fé inte­lectual, fé que nada sente de Deus, mas que adere a ele num total despojamento e na assunção de doutrinas e re­presentações acerca de Deus.

Esse Deus está muito próximo do Deus do deísta. "O deísta é um homem que não teve ainda tempo de se tornar ateu"-, porque separou o mundo de Deus. Deus é an­tes uma projeção do homem do que o nome do Mistério que tudo penetra. Diante de um Deus representado como distante, acima e fora do mundo, ninguém cai de joelhos, não junta as mãos, não abre o coração para a intimidade amorosa, não chora, não canta nem dança.

Essa representação da Transcendência nos impede de valorizar a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Não é um Deus que se abaixa com profunda simpatia para com o ser humano. Não assume a nadidade humana. Mas conserva, contrariamente ao que diz São Paulo (d'. Fl 2,6-7), sua majestática e transcendente divindade. Então representamos Jesus Cristo, Deus-encarnado, como aquele que sabe tudo desde o ventre materno, que sabia de sua morte desde o início da vida e que sabia cada passo de seu caminho. Destarte, a encarnação como os evangelhos no-la apresen­tam vem pulverizada de sua densidade profundamente humana. Não se entende então por que Jesus Cristo pôde ser verdadeiramente tentado, porque "embora fosse Filho teve de aprender a obedecer pelo sofrimento"(Hb 5,8).

Esta representação da transcendência divina como distância do mundo tem conseqüências desastrosas para a vida de fé. Por um lado estão as experiências da vida e do

cia de Deus. Ele habita em nossas representações, mas está, também e sempre, para além e aquém delas.



b) Deus radicalmente íntimo: imanència

A fé vivenciada sempre expressou Deus como Aquele que está mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos: inlimior intimo mieo. Deus está de tal maneira no coração de todas as coisas que, em tudo o que pensamos, em tudo o que vemos e tocamos, tocamos, vemos e pensamos atemática c irreflexamente a Deus. Nada, nem o próprio inferno, é obstáculo à sua inefável presença.

O problema surge quando tentamos representar a imanência de Deus e identificamos a representação com a presença de Deus. Deus está verdadeiramente presente em tudo, mas não aniquila nem substitui o mundo com suas coisas. Cada qual possui sua legítima autonomia e con­sistência. Entretanto, há uma forma de imaginar a atuação de Deus no mundo como se Deus fora uma causa segunda como as demais causas imanentes deste mundo. Concebe­mos a Palavra de Deus ao modo das palavras humanas. A vontade de Deus como a vontade humana, o amor e a jus­tiça de Deus como o amor e a justiça humanas. E uma concepção epifânica de Deus pela qual pensamos ver Deus diretamente, em tudo. Nessa representação não se deixa o mundo ser mundo. Não há lugar para uma história humana. Tudo é assumido diretamente por Deus. Deus se trans­forma num fenômeno do mundo. Ele vem representado como o Ente supremo, infinito, criador do céu e da terra. E um Ente ao lado, dentro e no coração dos demais entes, embora seja infinito e onipotente. Possui todos os atributos positivos dos entes, mas em grau infinito. Porque é um Ente, acredita-se, pode ser experimentado em termos de visões, audições c consolações interiores. Mas estamos diante de uma ilusão. O que experimentamos não é Deus, mas nos­sas imagens de Deus.

Essa compreensão antropomórfica de Deus teve con­seqüências eclesiológicas e políticas profundas. A lei divina vem entendida no mesmo nível que a lei humana. A dou­trina revelada e as instituições divinas são compreendidas no mesmo horizonte das doutrinas c instituições humanas. Essas identificações se prestaram à manipulação, por parte dos detentores do poder e da interpretação ortodoxa, em favor da situação estabelecida. O único Mistério de Deus se desdobrou em muitos mistérios de fé. A única Palavra de Deus foi fracionada em muitas palavras divinas das Escrituras. Certo tipo de teologia apresentou a Vontade de Deus parcelada com inúmeras leis, dogmas, qualificações, cânones, ordenações, preceitos cada vez mais minuciosos consoante as necessidades da vida.

De repente, porém, o fiel começou a perguntar: Será que Deus e sua salvação são tão complicados? Tudo isso não é apenas linguagem humana para traduzir o único Misté­rio de Deus que não pode ser identificado com os antropomorfismos de nossa linguagem? Deus está realmente por todas as partes, mas não é um fenômeno captável como os demais fenômenos intra-mundanos. Deus é Mistério que sempre se dá, mas também se retrai; sempre se revela, e ao mesmo tempo se vela; sempre se comunica, mas não se confunde com o mundo. À concepção epifânica (manifes­tação direta), que colocava Deus como um fenômeno no mundo, devemos opor uma concepção teológica que usa mediações, sinais e símbolos. Deus está no mundo, mas tam­bém para além dele. A razão (logos) vê Deus através da realidade do mundo e não diretamente nele mesmo. Daí necessitar-se de reflexão, da séria afirmação do mundo, visto então como itinerário da mente para dentro de Deus, título de um livro místico de São Boaventura: Itinerarium rnentis in Deum.

A diluição de Deus dentro das categorias do mundo trouxe como resultado uma negação nova de Deus. Deus não é uma categoria do poder, da justiça e do amor huma­nos que pode ser manipulada para manter a situação privi­legiada de alguns ou para revolucionar essa situação. A reli­gião pode se tornar de fato ópio do povo quando confunde Deus e as coisas divinas com as instituições e verdades reli­giosas. "Ó Deus! Vós não sois senão o amor - mas vós sois um outro amor! Vós não sois senão a justiça - mas vós sois uma outra justiça", rezava um dos maiores teólogos católicos fran­ceses do século XX. A negação do Deus antropomorfo cria a condição da possibilidade da experiência do Deus vivo e verdadeiro que está no mundo, mas não se esgota no mun­do. No transcendentalismo se afirmava a Deus e se negava o mundo; no imanentismo se nega a Deus e se afirma o mundo. Podemos afirmar tanto a Deus quanto o mundo? Esse é o desafio que nos cabe enfrentar e resolver.



c) Deus através de todas as coisas:

TRANSPARÊNCIA

As reflexões acima deixaram claro: a afirmação exclu­siva da transcendência de Deus levou a negar o mundo imanente. A afirmação exclusiva da imanência de Deus no mundo conduziu à negação de Deus transcendente. É que imanência e transcendência são feitas categorias opostas e excludentes. Aplicadas a Deus, deviam levar à negação ou do mundo ou de Deus. Como sair desse impasse?

Deus não é só transcendente nem é só imanente. Ele é também transparente. Como diz São Paulo: "Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de tudo [transcendente], por tudo [transparente] e cm tudo [imanente]" (Ef 4,6).

Existe uma categoria intermédia entre a transcendên­cia e a imanência: a transparência. Ela não exclui, mas inclui. Ela participa de ambas e se comunica com ambas. Transpa­rência significa a presença da transcendência dentro da imanência. Em outras palavras, significa a presença de Deus dentro do mundo e do mundo dentro de Deus.1 Essa pre­sença transforma o mundo de meramente imanente em trans-parente para a transcendência presente dentro dele. O mundo não é negado, mas afirmado. Contudo ele não é apenas mundo; é o lugar e a própria manifestação emergen­te daquilo que é mais do que mundo, isto é, do Transcendente, de Deus. Bem o disse Teilhard de Chardin: "O gran­de mistério do cristianismo não é exatamente a Aparição, mas a Transparência de Deus no Universo. Oh! sim, Senhor, não só o raio de luz que passa roçando, mas o raio que pene­tra. Não vossa Epifania, Jesus, mas vossa Diafania."

Deus emerge, aparece através do homem e do mun­do. Estes se tornam então trans-parentes para Deus. Deus é real e concreto, porque não vive acima e fora do mundo, mas no coração do mundo para além dele; dentro, mas sem se exaurir aí e se tornar uma peça do mundo. Porque Deus deixou de ser vivido dentro do mundo é que foi fossilizado numa representação que o situava fora do mundo. O pró­prio mundo não está abandonado a si mesmo nos espaços infinitos que se expandem na medida em que o universo se auto-cria e se distende. Ele é ancorado em Deus. É, pode­ríamos com certa ousadia dizer, o corpo visível de Deus.

De que forma todas as coisas são transparentes para Deus? Como se dá a união do mundo e de Deus, sem con­fundir Deus com o mundo e o mundo com Deus e sem se negarem mutuamente? Qual é a dimensão originária que nos impede de criarmos objetivações negadoras de Deus e negadoras do mundo?

Já acenamos anteriormente que é pelo panenteísmo. O panenteísmo (filologicamente significa "tudo com Deus e Deus em tudo"), que não dever ser confundido com o panteísmo, afirma a autonomia de ambos os pólos - Deus e mundo -, mas os coloca um em presença do outro, numa completa inter-retro-relação (semelhante ao que ocorre entre as três divinas Pessoas da Santíssima Trindade, cha­mada pela teologia técnica de pericórese ou circuminseção). Aqui reside, exatamente, o fundamento da transparência.

Mas como aparece, em termos de experiência concre­ta, a verdade do panenteísmo, da mútua presença Deus-mundo? A dimensão originária que abre esse espaço e que nos impede de objetivarmos Deus para um além distante ou de um aquém opaco e mundano é a historicidade do ser humano. Importa entender bem o que seja historicidade, pois embutido nela se encontra aquilo que chamamos de imanência e transcendência. A historicidade surge quando entendemos o processo que passaremos a descrever.

O ser humano se descobre numa situação histórica, datada, pessoal, social e ecologicamente definida, sempre junto com outros no mundo, situação face à qual se sente desafiado a tomar posição e a assumir decisões e destarte a constituir-se como pessoa. Ele é o único ser da criação que não nasce pronto. Tem que se construir e plasmar seu des­tino interferindo no mundo c se relacionando com os ou­tros. Ao assumir radicalmente essa situação concreta, ex­perimenta de fato quem ele é: um ser mergulhado no mundo e nas várias estruturas e conjunturas, mas também um ser capaz de elevar-se permanentemente acima delas, de rebelar-se contra elas, de questioná-las, de elaborar al­ternativas a elas e de fazer opções que o definem definiti­vamente. Ele pode ser uma galinha que cisca o chão de seu cercado como pode ser uma águia que ergue vôo e ganha as alturas. Essa sua decisão significa existencialmente realização ou frustração, felicidade ou desgraça, salva­ção ou perdição. A imanência é a situação dada. A transcendência é a ultrapassagem dela. Elas se encontram unidas no mesmo ser humano concreto. A imanência que aí emerge e a transcendência que aí se anuncia não são entidades existentes em si mesmas, como coisas que estão aí. Absolutamente. Imanência e transcendência são di­mensões da realidade humana concreta e histórica. A esse processo unitário e complexo chamamos de historicidade.

Deus só possui um significado real se Ele emergir de dentro dessa situação histórica concreta do ser humano; se Ele se manifestar como o Sentido radical de sua vida e a Luz pela qual vê a luz.

O Deus do qual testemunham as Escrituras judaico-cristãs é o Deus que irrompe dentro da história humana, com as características delineadas acima. Não podemos, a rigor, fazer sobre Ele uma ciência, como se Ele fosse um objeto fixo, cujo comportamento podemos descrever. A função mais importante da ciência é prever o comportamento futuro dos objetos que são estudados. Se as previsões não se cum­prem consoante a teoria científica, é sinal de que a teoria estava equivocada e assim não havia ciência certa.

Não podemos prever a intervenção de Deus. Daí não podermos enquadrar Deus nos moldes de nosso paradigma científico. A rigor não se poderia fazer nenhuma teologia. Se ainda assim ousamos fazer teologia, que pretende ser o logos sobre Deus, é porque nos sentimos empurrados pela nossa sede de saber que não exclui nada e ninguém de nos­sa curiosidade. Mas o fazemos na consciência de que nossas palavras são simbólicas e metafóricas. Mais negamos do que afirmamos, quando tentamos balbuciar algo consistente acerca de Deus. Ademais, nos damos conta - e isso o mos­tra a história da humanidade desde os seus primórdios há milhões de anos - de que um mistério cerca a nossa exis­tência. Esse mistério que se dá na história foi chamado por mil nomes e resumido no nome Deus. O Deus testemu­nhado, por exemplo, pelas Escrituras do Primeiro e do Segundo Testamento, é apresentado como um Deus his­tórico. Ele acompanhava as vicissitudes do povo, em pátria ou no exílio. E aí surgia como a Presença concretíssima (é o que significa em hebraico Javé), o Caminho, a Pedra, a Luz, a Força, o Companheiro de caminhada, o Santo, o Futuro absoluto, etc.1 À luz dessa leitura de Deus como re­velação na história, podemos compreender os velhos textos da fé, escritos durante mais de dois mil anos por aquele povo que tentou sempre descobrir a Deus escondido sob todos os eventos que vivia: o povo de Israel. Só assim a vida e a história se tornam para ele transparentes.

Um Deus vivido assim não é uma idéia que paira sobre a história, o termo de um raciocínio teórico que pudesse ser alcançado independentemente da vida concreta do ser hu­mano ou do povo. Pensar assim seria recair na problemática das representações estáticas, seja de transcendência, seja de imanência que criticamos antes. Deus é a Suprema Reali­dade que surge quando a pessoa radicaliza, quer dizer, vai até à raiz da realidade histórica que vive. História aqui não é a recitação dos fatos passados, mas a dimensão na qual a pes­soa ou toda uma coletividade vive, luta, se confronta, se deci­de e constrói um caminho pessoal ou coletivo. Na radicalidade dessa dimensão emerge Deus como Vida da vida e For­ça na caminhada. Quem é esse Deus? Isso só sabemos quan­do nos abrimos a Ele e nos arriscamos a experimentá-lo.

Tais afirmações não soam como uma bela teoria ao lado de outras? Para deixar de soar como teoria, deve ser reconduzida àquela dimensão na qual se vive: a experiên­cia. Na experiência, teoria e práxis se casam e vivem juntas numa unidade fundamental. A teoria não é mais abstração e idéia vazia. Ela é explicitação da práxis e a comunicação dela. A práxis não é movimentação irracional, mas busca a realização de sentido. É na experiência radical da realida­de que Deus emerge na consciência do ser humano. É pela experiência de Deus buscado e encontrado no cora­ção da experiência do real que este se torna transparente e se transfigura num grande sacramento comunicador de Deus. Como articular essa experiência?7




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