Facilidade que os fazedores de verso encontraram na sua poética, mais de técnica



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Introdução

A partir de 1890, o Simbolismo vai superar o Parnasianismo. O realismo

classicizante do Parnasianismo teve grande fortuna no Brasil, graças certamente à

facilidade que os fazedores de verso encontraram na sua poética, mais de técnica

e forma que de inspiração e essência. Penetrou, assim, muito além de seus limites

cronológicos , paralelamente ao Simbolismo e mesmo ao Modernismo.

.O prestígio de seus adeptos ao final do século fez com que a escola

se tornasse a escola oficial das letras durante muito tempo; e a tal ponto

que na constituição da Academia Brasileira de Letras (1896) os simbolistas

foram excluídos pelos parnasianos, que dominavam a vida literária, as

revistas e os jornais.

O movimento não morreu, mas, no contato com o Simbolismo, deu

lugar, nas duas primeiras décadas do séc. XX, a manifestações de poesia

sincretista e de transição.

PARNASIANISMO

Origem: França

A poesia que segue os princípios da estética realista chama-se parnasiana. O

Parnasianismo recebe esse nome por causa de uma antologia, Parnasse Contemporain, publicada a partir de 1866, na França, essa incluía poema de T.

Gautier, de Lecomte de Lisle e outros. Esses poemas revelavam gosto da

descrição nítida, metrificação tradicional, preocupação formal e um ideal de

impessoalidade.

Limites

Embora acompanhe cronologicamente a prosa realista, a poesia parnasiana



apresenta dificuldades na definição de seu marco inicial. Há quem sugira a data

de 1880, quando da publicação de Sonetos e Rimas de Luís Guimarães Júnior

(1845/1898). Outros, no entanto, preferem assinalar a de 1882, quando Teófilo

Dias publicou Fanfarras. Mas o movimento só se definiu realmente a partir de Sinfonias (1883) de Raimundo Correia, seguida de Meridionais (1884), de Alberto

de Oliveira e de Poesias (1888) de Olavo Bilac. Quanto à data que marca o fim de

seu domínio absoluto, parece não haver polêmicas: 1893, com a publicação de Missal e de Broquéis de Cruz e Souza é bastante aceita. Mas a morte do

Parnasianismo não acontece, tanto que em declarações de Murilo Araújo na sua

"Confidência de Poeta", diz: "E entreguei ao público "Carrilhões" no início do ano

de 1917. Nesse tempo, escolhiam-se as letras do Brasil às palmatoadas do

carrancismo e do atraso. O próprio Simbolismo quase desaparecera. Dominava na

poesia um estéril e abominável parnasianismo." (Murilo Araújo - Meus Poemas Diletos - Edições de Ouro, RJ, 1967, pág. s/nº )

Características

"Arte pela arte", forma rigorosa e clássica;

Cuidado formal através de verso bem ritmado;

Efeitos plásticos capazes de impressionar os sentidos;

Objetividade e positivismo filosófico;

Poesia descritiva, com preferência por incidentes históricos

e fenômenos naturais, assim como pela pormenorização de objetos;

Preferência pelos versos graves, pelos alexandrinos e pelos sonetos;

Poesia formal, técnica, objetiva e impessoal;

Reação anti-romântica.

A preocupação exagerada com o poema, tratando-o como produto concreto, final,

acabado em que se deposita toda a importância; o afã na construção do objeto,

deixando de lado o conteúdo, o sentimento poético, tudo isso parece um reflexo

do processo de produção mecânica acelerada em que a época vivia,

transformando até o próprio homem em mais um objeto de consumo. Portanto,

não é de se estranhar que a poesia sofra o mesmo tratamento. O poeta é um

ourives, um escultor, um carpinteiro, e a sua obra, o seu poema é também um

produto material, como qualquer outro, onde o que importa não é o sentimento,

mas sim a técnica, a capacidade artesanal do criador devidamente associada a

seu esforço.

Olavo Bilac

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu em 1865, no Rio e aí faleceu, em

1918.


Cursou a Faculdade de Medicina até o 4º ano e a de Direito até o 2º, mas não

terminou nenhum dos cursos. Foi inspetor escolar e propagandista da instrução

primária e da cultura física. Defendeu o serviço militar obrigatório, como fator de

civismo e alfabetização. Foi um patriota convicto; é dele a letra do Hino à

Bandeira. Foi defensor do abolicionismo e da República e colocou-se contra a

ditadura de Floriano Peixoto. Foi contra a neutralidade do Brasil na guerra de

1914. Sempre escreveu para a imprensa, tendo colaborado no jornal A Gazeta de Notícias e em revistas: A Semana, A Cigarra etc. Bilac foi um dos fundadores da

A.B.I.; foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Obras

Poesia


Poesias: Panóplias= armadura de um cavaleiro medieval; Via-Láctea; Sarças de Fogo,( l888). Poesias Infantis (1904). Tarde (1919).

Prosa


Crônicas e Novelas (1894). Crítica e Fantasia (1904). Contos Pátrios (1905, em colaboração). Teatro Infantil (1905). Tratado de Versificação (1905, em colaboração com Guimarães Passos). Conferências Literárias (1906). A Defesa Nacional (1917, discursos). Ironia e Piedade (1916). Bocage (1917). Últimas Conferências e Discursos (1927). Livro de Leitura (1899).

Comentários:

A mulher e a pátria são temas constantes na obra de Bilac.

Coerente com sua postura estética, sua forma é perfeita, demonstrando habilidade

de versificação e pureza da língua. Sua poesia é superficial como visão do

homem, pois se detém na camada superficial das cores, dos sons, das

combinações plásticas sem mergulhar nas angústias e prazeres do ser humano.

Merece um destaque especial O Caçador de Esmeraldas, pelo seu caráter

patriótico de cunho épico.

Alberto de Oliveira

Antônio Mariano Alberto de Oliveira nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em

1857, e morreu em Niterói, em 1937. Iniciou o curso de Medicina, mas abandonouo,

formando-se depois em Farmácia. Foi Diretor-Geral da Instrução, lecionou

Português e Literatura Brasileira. Foi também eleito Príncipe dos Poetas após a

morte de Bilac.

Obras


Estreou em 1878 com as Canções Românticas de inspiração romântica, como

bem demonstra o título, mas em 1884 publica o seu segundo livro, Meridionais,

em que se confessa adepto do Parnasianismo.

Suas obras principais são: Sonetos e Poemas (1885). Versos e Rimas (1895). Poesias Completas (1900). Poesias (quatro séries até 1927). Poesias Escolhidas (1913).

Comentários

Sua obra revela uma gradativa evolução, passando de uma linguagem difícil,

vinculada aos temas exóticos de mitologia greco-latina para uma linguagem mais

clara e ligada aos temas brasileiros. Revela um gosto especial pela descrição,

como vemos nos poemas O Muro, A Estátua, O Vaso Grego etc. Em sua obra, a

mulher e a natureza são vistas a partir de uma concepção estética muito rígida.

Raimundo Correia

Raimundo da Mota de Azevedo Correia nasceu em 1860. Cursou Direito em São

Paulo, lecionou em quase toda sua vida. Era tímido e triste, sua saúde era

debilitada, tendo viajado para a França, à procura de tratamento, quando lá

encontrou a morte. Epíteto: Poema das Pombas.

Obras:


Em 1879, estreou com um livro de inspiração romântica, Primeiros Sonhos.

Firmando-se como parnasiano a partir de Sinfonias(1883). Outras obras: Versos e Versões (1887). Aleluias (1891). Poesias (1898). Luciano Filho (1898), Ensaio.

Comentários:

Afirmam que Raimundo Correia versejava com tanta facilidade que chegava a

escrever em verso as cartas aos familiares.

Seus poemas revelam influência do pessimismo de Schopenhauer. A sua

percepção negativa do mundo pode ser vista principalmente em Nirvana, Imagem da Dor, Desiludido.

Vicente de Carvalho

Vicente Augusto de Carvalho nasceu em 1866, na cidade de Santos e morreu em

São Paulo, em 1924. Formou-se em Direito. Era republicano e abolicionista. Foi

político, advogado e magistrado. Além disso, dedicou-se à agricultura e ao

comércio. Ficou sendo conhecido como "O poeta do mar".

Obras e comentários:

Com muitos outros, estreou com a obra romântica Ardentias, em 1885. A partir de Relicário (1888), revela-se um parnasiano não muito escravo das limitações da

escola. Essa postura independente livra-o das tendências para a arqueologia e

curiosidades históricas, e lhe confere um sentimento vivo da natureza e um senso

amoroso que faz lembrar o exemplo tradicional português.

Rosa, Rosa de Amor (1902).

Poemas e Canções (1908).

Em prosa, escreveu ainda Páginas Soltas (1911) e Luizinha, comédia (seguida de

contos), 1924.

Olavo Bilac, em "Profissão de fé", sintetizou os valores máximos do

Parnasianismo:

Profissão de fé

Invejo o ourives quando escrevo:

Imito o amor

Com que ele, em ouro, o alto-relevo

Faz da uma flor.

Por isso, corre, por servir-me,

Sobre o papel

A pena, como em prata firme

Corre o cinzel.

Torce, aprimora, alteia, lima

A frase; e, enfim,

No verso de ouro engasta a rima,

Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina,

Dobrada ao jeito

Do ourives, saia da oficina

Sem um defeito:

Assim procedo. Minha pena

Segue esta norma,

Por servir, Deusa serena,

Serena Forma!

Raimundo Correia

O vinho de Hebe

Quando do Olimpo nos festins surgia

Hebe risonha, os deuses majestosos

Os corpos estendiam-lhe, ruidosos,

E ela, passando, os corpos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia

Da vida, alegre e pródiga de gozos,

Passa por nós, e nós também, sequiosos,

Nossa taça estendemo-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça

Verte-nos ela, verte-nos e passa...

Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios

Restam apenas tímidos ressábios,

Como recordações daquele vinho.

Correia, Raimundo. Poesias; Sinfonias. Rio de Janeiro, Agir,

1958. p. 22-3. (Col. Nossos Clássicos, 20.)

Alberto de Oliveira

A rigidez da métrica de seus versos e as rimas raras traduzem seu

apego aos princípios da escola parnasiana.

Horas mortas

Breve momento, após comprido dia

De incômodos, de penas, de cansaço,

Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,

Posso a ti me entregar, doce Poesia!

Desta janela aberta à luz tardia

Do luar em cheio a clarear o espaço,

Vejo-te vir, ouço-te o leve passo

Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica.

Mas é tão tarde! Rápido flutuas,

Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa a que escrevo apenas fica,

Sobre o papel - rastro das asas tuas -

Um verso, um pensamento, uma saudade.

Oliveira, Alberto de. Poesia. Rio de Janeiro, Agir, 1959.

p. 65. (Col. Nossos Clássicos, 32.)

SIMBOLISMO

O Simbolismo, movimento literário

que antecedeu a Primeira Guerra

Mundial (1913-1918), surge como

reação às correntes materialistas e

cientificistas da sociedade industrial

do início do século XX. A palavra

simbolismo é originária do grego, e

significa colocar junto. Os

simbolistas, negando os parnasianos,

aboliram o culto à forma de suas

composições. Resgatando um ideal

romântico, os poetas desse período mergulharam no inconsciente, na

introspecção do eu; entretanto o fizeram de maneira bem mais profunda que

Garret, Camilo Castelo Branco e outros românticos.

Cronologia:

Século XIX

Portugal: Publicação de Oaristo (1890) de Eugênio de Castro.

1915: Ano da Proclamação da República, com a publicação da Revista Orpheu.

Brasil:


1893, com a publicação de Missal e de Broquéis de Cruz e Sousa. Cabe lembrar

que a poesia simbolista não teve no Brasil a mesma aceitação que na Europa. A

divulgação dessa estética ocorreu paralela ao Parnasianismo.

1902, com a publicação de Canaã, de Graça Aranha.

Origem:

Em 1857, na França, Charles Baudelaire (1821-1867) publicou As Flores do Mal e



em 1866 saiu o primeiro número da antologia Le Parnasse Contemporain. Nesta,

foram expostas tanto composições simbolistas quanto produções parnasianas. A

poesia simbolista está ligada à idéia de decadência, daí seu primeiro nome ter

sido Decadentismo; só mais tarde essa nova estética passou a chamar-se

Simbolismo. Jean Moréas, teórico do grupo, em 1886 publicou um artigo chamado O século XX, que definia o movimento como "não tanto em seu tom decadente

quanto em seu caráter simbólico"; essa publicação colocou um ponto final na

nomeação da nova estética, que passou a chamar-se Simbolismo. Tendo por base

as idéias de Moréas, Eugênio de Castro lançou o movimento em Portugal com Oaristo; o nome dessa obra, em grego, significa "Diálogo intímo". No Brasil, o

movimento chegou, sem influências portuguesas, com a publicação de Missal e de Broqueis, ambas de Cruz e Souza.

Características:

O Simbolismo representa uma espécie de volta ao Romantismo, especificamente

ao "mal do século", que marcou a segunda fase romântica. Mas o mergulho

simbolista no universo metafísico foi mais profundo que a imersão no movimento

anterior. Os simbolistas buscavam integrar a poesia na vida cósmica, usando uma

linguagem indireta e figurada. Cabe ainda ressaltar que a diferença entre o

Simbolismo e o Parnasianismo não está primeiramente na forma, já que ambos

empregam certos formalismos (uso do soneto, da métrica tradicional, das rimas

ricas e raras e de vocabulário rico), mas no conteúdo e na visão de mundo do

artista. Apesar de seguir alguns efeitos estéticos do Parnaso, esse movimento

desrespeitou a gramática tradicional com o intuito de não limitar a arte ao objeto,

trabalhando conteúdos místicos e sentimentais, usando para tanto a sinestesia

(mistura de sensações: tato, visão, olfato...). Essa corrente literária deu atenção

exclusiva à matéria submersa do"eu", explorando-a por meio de uma linguagem

pessimista e musical, na qual a carga emotiva das palavras é ressaltada; a poesia

aproxima-se da música usando aliterações.

Autores portugueses

Eugênio de Castro (1869/1944)

Motivado pela influência recebida em sua estada na França, Castro, formado em

Letras na Universidade de Coimbra, inaugura o Simbolismo português com Oaristo, cuja técnica é baseada na poesia de Paul Verlaine. Massaud Moisés,

estudioso da Literatura, assinala que, apesar de fazer uso de prefácios polêmicos

e agressivos para inserir os pressupostos da estética simbolista em seus livros,

esse artista revela uma tendência inata para o equilíbrio clássico, para a

contenção e para o formalismo de tradição. Essa tendência vai substituindo de

forma gradativa a postura simbolista.

Características

A produção literária de Eugênio de Castro apresenta versos livres, vocabulário

erudito, pessimismo e ambigüidade nos temas trabalhados(blasfêmias-liturgia;

ocultismo-catolicismo).

Obras: Oaristo (1890), Horas (1891), Silva e Interlúdio (1894).

Antônio Nobre (1867/1900)

Em 1892, Nobre, advogado formado em Paris, publica sua obra mais importante: Só, uma coletânea de poemas em que utiliza uma linguagem coloquial, para

voltar ao passado, à infância. Sua produção revela uma hipersensibilidade, um

forte sentimento de tristeza e de completa inadaptação ao mundo. Suas

descrições são preenchidas por ambientes vagos ou nebulosos; por esses

motivos, o poeta é chamado de crepuscular, ou seja, um artista voltado para as

horas de recolhimento.

Características:

A produção literária de Antônio Nobre apresenta vocabulário simples, temas

coloquiais, apego à terra, às raízes populares; descrição de seu exílio parisiense

e egocentrismo.

Obras: Só (1892), Despedidas (1902), Primeiros Versos (1921) e Alicerces (1983).

Camilo Pessanha (1871/1926)

Pessanha, estudioso da civilização chinesa, morreu em Macau. É considerado o

maior simbolista português. Alguns de seus poemas foram publicados na revista Centauro em 1916, graças ao interesse e esforço de João de Castro Osório. Mais

tarde, em 1920, conseguindo outras composições às quais reuniu as já

publicadas, publicou Clepsidra. O nome da obra significa relógio movido a água.

Características:

Suas composições trabalham temas sentimentais, apresentam uma musicalidade

marcante e uma postura de resignação diante da adversidade. Esse quadro

compõe imagens fugidias, carregadas de pessimismo, e transitoriedade da vida.

Obra: Clepsidra (1920).

Autores brasileiros

Cruz e Souza

Nasceu em Santa Catarina, no ano de 1861 e faleceu em Minas Gerais, em 1898.

Apesar de ser filho de negros escravos, teve uma excelente educação, falava

francês, latim e grego. Foi nomeado promotor em Laguna, SC, mas não assumiu

seu posto, devido a preconceitos raciais. Em 1886, mudou-se para o Rio de

Janeiro, trabalhando como arquivista da Central do Brasil e secretário e ponto de

uma companhia dramática. Em 1885, publicou um volume intitulado Tropos e Fantasias, em colaboração com Virgílio Várzea, com quem já tinha dirigido um

jornal abolicionista, o Tribuna Popular. Em 1893, lançou Missal e Broquéis.

O poeta teve quatro filhos; destes, morreram dois. Sua mulher enlouqueceu; além

disso, a família tinha uma péssima situação econômica. Todos esses

acontecimentos afetaram profundamente a vida desse artista, que morreu

tuberculoso em 1898.

Características:

Sua produção literária é carregada ora de erotismo e satanismo, ora sde

misticismo. As composições apresentam uma visão trágica da vida e busca de

transcedência (eu x mundo). O poeta, usando um vocabulário litúrgico e

apresentando obsessão pela cor branca, cria analogias e correspondências entre

o concreto e o abstrato.

Obras: Tropos e Fantasias Missal e Broquéis, 1893 (poesia) Evocações, 1898 (prosa) Faróis, 1900 (poesia) Últimos Sonetos, 1905 (poesia)

Alphonsus de Guimaraens

(O solitário de Mariana ou O Poeta Lunar)

Nasceu em Ouro Preto (1870) e faleceu em Mariana, Minas Gerais, em 1921.

Formou-se em Direito, tendo sido promotor e juiz. A noiva morreu quando ambos

tinham dezoito anos; ele nunca superou este ocorrido, apesar de ter-se casado e

ter tido quatorze filhos. Viveu isolado do mundo literário de sua época, o que lhe

valeu o apelido de "O solitário de Mariana".

Características:

Sua obra revela um apelo constante à memória e à imaginação, os versos são

melancólicos, dotados de uma musicalidade marcante. Religião, Natureza e Arte

servem de apoio para a exploração de seu tema preferido: a morte da amada.

Obras: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899) Câmara Ardente (1899) Dona Mística (1899) Kyriale (1902) Pauvre Lyre (1921) Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923)

Ó formas alvas, brancas, Formas claras

de luares; de neves, de neblinas!... Ó formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,

de Virgens e de Santas vaporosas...

Brilhos errantes, mádidas frescuras

e dolência de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,

harmonias da Cor e do Perfume...

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Réquiem do Sol que a Dor da luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,

surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...

Dormências de volúpicos venenos

sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,

inefáveis, edênicos, aéreos,

fecundai o Mistério destes versos

com a chama ideal de todos os mistérios.

(...)

(Cruz e Sousa – Antífona)



A CATEDRAL

Entre brumas, ao longe, surge a aurora.

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu risonho,

Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro, glorioso segue a eterna estrada.

Uma áurea seta lhe cintila em cada

Refulgente raio de luz.

A catedral ebúrnea do meu sonho,

Onde os meus olhos tão cansados ponho,

Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce

A tarde esquiva: amargurada prece

Põe-se a lua a rezar.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu tristonho,

Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.

Do relâmpago a cabeleira ruiva

Vem açoitar o rosto meu.

E a catedral ebúrnea do meu sonho

Afunda-se no caos do céu medonho

Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

GUIMARÃES, Alphonsus de. Obra Completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960,

p. 289.

Bibliografia



MARTINS, Wilson. Introdução ao Estado do Simbolismo no Brasil. Separata de Letras, 1. Curitiba, 1953.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira – O Simbolismo. São Paulo: Cultrix,

1966. v. IV.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira – O Simbolismo. São Paulo: Cultrix,

1966. V. 4

MOISÉS, Massaud. O Simbolismo (1893-1902) . São Paulo: Cultrix, 1966.

MURICY, Andrade. Da crítica do Simbolismo pelos Simbolistas. In: Crítica e História Literária, Anais do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literário.

Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1964.

JORGE, Fernando. Vida e Poesia de Olavo Bilac. São Paulo: Exp. do Livro, 1963.

SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da. Panorama da Poesia Brasileira III - Parnasianismo. São Paulo: Civilização Brasileira, 1959.

SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da. Poesia Parnasiana. São Paulo:

Melhoramentos, 1967.


SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da. O Verso Romântico.In: Do Barroco ao Modernismo. São Paulo: Cons.Estadual de Cultura, 1967.

Conclusão

O PARNASIANISMO floresceu no Brasil a partir de 1880, constituindo uma “tendência acadêmica ou academicista, ligada ao processo de consolidação da

vida literária brasileira”. Nesta mesma época, a oficialização do escritor foi

fortalecida por uma geração de intelectuais influenciados por filosofias de cunho

materialista.

Quando se refere a uma “literatura academicista”, na verdade isto quer dizer uma

literatura “oficial”, comprometida com a ordem vigente. Assim foi o movimento

parnasiano, um movimento que tem em comum com o Realismo-Naturalismo

unicamente a preocupação formal. Centralizado na poesia, influenciou, entretanto,

alguns prosadores, como por exemplo Coelho Neto.

OLAVO BILAC, principal representante da poesia parnasiana brasileira, mostra,

como se deve escrever um poema parnasiano e como se deve colocar diante do

texto o poeta: primeiro, o caráter racionalista do ato de criar, a preocupação com

as minúcias, os detalhes, a perfeição enfim, dentro dos pressupostos da tradição

clássica, segundo a qual arte é mimese, imitação.

A obsessão pela forma constitui, portanto, o principal traço do Parnasianismo, por

isso chamado de “arte pela arte”. Em segundo lugar, há a posição do poeta como

um artesão. Polir, aperfeiçoar, “limar” o verso de modo a torná-lo “claro como o

cristal” e perfeito “como a pedra do ourives”, transformam, enfim, a poesia num

produto de precisão técnica e o poeta no técnico que a executa.

“Em linhas gerais, são estas as preocupações básicas da poesia parnasiana: uma

poesia que ao desprezar o assunto em prol da forma, ao separar sujeito e objeto,

assume um objetivismo sem precedentes em toda a história da literatura e assim

aliena-se da vida, encastela-se no mundo clássico que pretende imitar, fazendo do

academicismo elitista, e portanto conservador, o seu principal atributo, a sua

principal aliança com o racionalismo burguês, tão criticados pelos poetas

modernistas”.

Em contraposição ao Parnasianismo, O SIMBOLISMO procura reatar as

relações entre vida e poesia, sujeito e objeto. E o faz elaborando textos que não

desdenham a preocupação formal e a precisão vocabular parnasianas, mas que

ambas acrescentam a negação da postura racional, objetiva, substituída pelo

desejo de transcendência, pela busca de completude espiritual só vislumbrada

num mundo metafísico, místico, inconsciente.

As palavras, então, não precisam ter significados exatos neste tipo de poesia. Ao

invés disso, elas constituem “símbolos”, imagens sensoriais, especialmente

auditivas, musicais, que, combinadas com imagens visuais, olfativas, expressam a

tentativa de unir um só, todos os sentidos, e de, através deles, penetrar na

essência de nossa humanidade, de nossa alma violentada por um racionalismo,

um objetivismo que oprime, muitas vezes sem se perceber.

Trata-se, na verdade, de um apelo ao inconsciente, às camadas mais profundas

da mente humana – do “eu profundo” – com a finalidade de resgatar o homem do

materialismo desenfreado em que vive. Neste sentido a poesia simbolista anuncia

a decadência, a falência dos valores burgueses e a busca de novas realidades,



invisíveis e interiores, que vão configurar, dentre outros elementos, a

Modernidade.

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