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Faculdade Cásper Líbero

Centro Interdisciplinar de Pesquisa – CIP



Relatório das pesquisas desenvolvidas no Centro Interdisciplinar de pesquisa – CIP da Faculdade de Comunicação social Cásper Líbero - CIP entre 2003 e 2006.
Pesquisa: A repercussão dos discursos de Fernando Henrique Cardoso sobre a globalização nos editoriais da Folha de S. Paulo durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Pesquisa: Os discursos sobre globalização e a abertura da economia brasileira nos editoriais da Folha de S. Paulo, durante 1999 a 2006.

Maria Goreti Juvencio Sobrinho Frizzarini



Sumário


Faculdade Cásper Líbero 1

Centro Interdisciplinar de Pesquisa – CIP 1

Introdução 2

A imprensa no Brasil, a reinserção internacional brasileira e a problemática da globalização 3

1 Análise dos editoriais da Folha de S. Paulo na ERA FHC 17

1.1 Cobertura editorialística da globalização e da reinserção brasileira 26

1.2 O front interno 33

1.3 Arrefecimento da apologética a globalização 44

1.4 Sobre o exercício da diplomacia presidencial 54

2 A cobertura da Folha de S. Paulo sobre a política externa do primeiro mandato do governo de Luis Inácio Lula da Silva 73

Conclusão 91

A globalização e os meios de comunicação 98

Apêndice 1 108

Algumas análises sobre a globalização no campo do marxismo 108

As aquisições de J. Chasin acerca da globalização 127

147


Bibliografia............................................................................................................148

Introdução


O presente trabalho resulta de duas pesquisas realizadas no Centro Interdisciplinar de Pesquisa, entre 2004-2005 e 2006-2007.

A primeira consiste na análise interligada da cobertura editorialística do jornal Folha de S. Paulo dos discursos de Fernando Henrique Cardoso sobre a globalização (tanto aqueles proferidos no Brasil quanto no exterior, por ocasião de encontros, debates e aulas magnas), bem como das principais medidas efetivas de seu governo no que concerne à inserção do Brasil na economia mundial, durante o primeiro mandato do governo de FHC.

A segunda pesquisa complementa a primeira ao avançar na investigação sobre a cobertura editorialística da FSP sobre os mesmos temas: globalização e reinserção do Brasil na economia mundial durante o período de 1995 a 2006, abarcando, portanto, o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e o primeiro mandato do governo Luis Inácio Lula da Silva.

Ao final do percurso foi possível comparar a posição do jornal paulistano em relação aos dois governos e deslindar a concepção do jornal acerca da globalização, da reinserção internacional da economia brasileira e do papel dos meios de comunicação durante esse processo.



A imprensa no Brasil, a reinserção internacional brasileira e a problemática da globalização

Desnecessário enfatizar a importância dos meios de comunicação no contexto da globalização, especialmente no tocante ao tratamento dispensado às relações internacionais, aos pronunciamentos de autoridades governamentais e aos inúmeros Encontros de Cúpula necessários à integração regional e à consolidação do novo arcabouço político-institucional do comércio mundial1. Tudo isso evidencia que a análise da cobertura jornalística destas questões tornou-se fundamental para a compreensão das últimas transformações que o Brasil e os demais países da América Latina atravessam, e dos principais desafios que devem enfrentar para pleitear uma nova inserção no mercado mundial.

A temática globalização e imprensa é candente, uma vez que as relações entre mídia e poder mostram-se cada dia mais estreitas. Em meio a este cenário, os meios de comunicação se expandem economicamente e ampliam seu potencial de propulsor da globalização e, nessa medida, de difusor de ideias, quase sempre voltadas à manutenção do status quo.

Nessa linha interpretativa, Marcondes Filho observa que o jornalismo atua conjuntamente a grandes forças econômicas e sociais, tornando-se porta-voz de outros conglomerados econômicos ou grupos políticos que intentam dar às suas “opiniões subjetivas e particularistas o foro de objetividade”. Numa realidade marcada pela distribuição desigual de poder, a imprensa procura aparecer como palco da “multiplicidade de opiniões”, porém, “as únicas opiniões diversificadas que têm livre acesso aos grandes monopólios de comunicação são as dos próprios membros dos poderes a ela associados e dos que em torno deles circulam”2.

É um exercício interessante comparar esta visão da estrutura econômica da imprensa brasileira com as observações, bastante diversas, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:

“No passado, o dono do jornal mandava no jornal. Hoje não manda tanto. Há hoje no Brasil uma outra oligarquia, que não é a dos donos. É a dos editores. Claro que, no limite, o dono pode mandar o editor embora. Tem esse poder, e o exerce. É curioso porque é um pouco como o presidente da República (...). Não pertencemos necessariamente à classe dominante, nem os jornalistas nem o presidente da República. (...) Na imprensa, quem exerce o mando, no dia-a-dia, é o jornalista. O poder dos donos é estrutural, é limitante. Eles dão o limite do poder, mas não têm seu exercício”3.

Mas as discussões de Marcondes têm o mérito de ressaltar as ligações da imprensa com a sociedade civil e o estado, destacando os interesses contraditórios que aparecem na primeira. Dessa forma, busca-se ultrapassar o fosso falsamente existente entre a imprensa e as disputas no interior da sociedade civil.

A esse respeito, vale observar como alguns editoriais da Folha de S. Paulo procuram destacar a suposta postura isenta e apartidária do jornal. Por ocasião da campanha presidencial de 1989, em que este jornal denunciara improbidades administrativas envolvendo dois dos candidatos da época – Collor de Mello e Leonel Brizola, afirma-se:

“A isenção e o apartidarismo não excluem (ao contrário, fundamentam-no) o ímpeto crítico e a procura intransigente da verdade. Que cada eleitor deposite suas esperanças no candidato que preferir; a função do jornalismo não é justificá-las nem fazer a sua escolha, mas doa a quem doer,4 contribuir para que os mitos se dissipem”5.

Embora esteja dito explicitamente no Manual Geral da Redação que “A opinião da Folha se expressa em seus editoriais”, cabe, na visão de alguns analistas, considerar as “relações de propriedade”6 da organização, na medida em que seus tentáculos financeiros extrapolam a si própria. Conforme Marques de Melo, o editorial não expõe um juízo monolítico, mas um bloco de opiniões e interesses diversos, isto é, “afigura-se como um espaço de contradições. Seu discurso constitui uma teia de articulações políticas e, por isso, representa um exercício permanente de equilíbrio semântico. Sua vocação é a de apreender e conciliar os diferentes interesses que perpassam sua operação cotidiana”7. Não custa perceber aí a base explicativa para a edição de determinadas teses incoerentes e contraditórias num mesmo espaço.

Sabe-se que os editoriais da FSP não são escritos pelas mesmas pessoas. Figuras com perfis distintos, como Clovis Rossi, Marcelo Coelho, Gilson Schwartz, Demian Fiocca, Luiz Paulo Labriola, entre outros, tiveram a sua parcela nos escritos, entretanto, todos os editoriais passam pelo crivo do patrão. De acordo com o editorialista Hélio Schwartsman, “quando terminamos [de escrever], passamos para ele [Octávio Frias de Oliveira, publisher da Folha], e depois ele vem com observações, ou passa direto. Ou tem de refazer alguma coisa, ou então a gente começa a brigar, até sair o editorial aprovado”8.

Arbex, que analisa os editoriais, sugere que o processo decisório nessa empresa é “extremamente centralizado”, dada a “opção político-mercadológica que a Folha adotou como sua linha editorial”, haja vista que a sensibilidade do jornal às movimentações da opinião pública fazem parte da estratégia de mercado da empresa. Nesse sentido, a Folha é um jornal do “establishment, mantendo em relação a ele uma postura ‘crítica e apartidária’”, no dizer de Frias, e, pois, assumidamente liberal-burguesa9. Porém, nessa linha interpretativa, o principal interlocutor dos editoriais da FSP é o Estado, uma vez que, na condição de porta-voz dos interesses empresariais, o jornal se vê na contingência de pressioná-lo para que atenda aos interesses dos grupos privados10.

Embora essa interpretação possa suscitar alguma polêmica em torno da relação entre estado e sociedade civil11 no Brasil, ela tem o mérito de reconhecer a interconexão estado–sociedade civil–imprensa. A política brasileira é rica em exemplos dessa articulação. O governo Vargas cria o bem-sucedido Departamento de Imprensa e Propaganda, que ajudou a difundir a ideia entre as camadas populares de que Getúlio Vargas seria o “pai dos pobres”.

Continua pela história a estreita ligação entre as instituições citadas. Nos idos de 1945-64, os meios de comunicação foram decisivos para mobilização da opinião pública nos processos de golpes e contragolpes. O mesmo pode ser dito em relação ao II PND de Geisel, contra o qual muitos editoriais da época se insurgiram como porta-vozes das insatisfações (econômicas) de determinados setores empresariais, o que acabou contribuindo para a derrocada do projeto. Alertara o sociólogo Cardoso, à época, “não se faz editoriais à toa, isso mostra que, pelo menos, existem interesses querendo se acautelar frente a um possível desdobramento do crescimento das empresas estatais”12.

E sobre a participação da imprensa no processo de ascensão e queda fenômeno Collor, vale lembrar que os principais meios de comunicação no país aderiram ao ideário que aquele político se dizia portador – a versão liberal da modernização do estado e da sociedade –; e quando, por fim, o processo de impeachment tornou-se inevitável, os jornais Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo se viram na condição de preservar as ideias de liberalização, competitividade e modernização defendidas pelo então presidente e, ao mesmo tempo, desvencilhá-las da figura pessoal de Collor de Mello, que não teria honrado o compromisso com uma agenda que estava correta.

Nesse sentido, avaliara O Estado de São Paulo que a sociedade “não errou ao escolher (...) alguém que prometia a reforma do estado e a modernização da sociedade”13. Foi nessa direção que esses jornais declararam não apenas apoio ao impeachment, como conclamaram uma anuência do Congresso a este. Não deixaram de expressar, no fundo, o “mal-estar provocado pelo sentimento mais ou menos explícito, mais ou menos autoconsciente, de cumplicidade entre o bem-sucedido produto de marketing eleitoral Collor/modernidade e seus veiculadores”14. Afora as razões de fundo da déblacle do efêmero governo Collor, que trataremos noutro capítulo, vale registrar a conclusão de LATTMAN-WELTMAN de que o importante não é avaliar “o comprometimento dos grandes jornais com uma ideologia liberal, ou conservadora”, mas admitir a importância de fato do papel da imprensa “e a assunção clara da sua posição privilegiada de ator legitimamente interessado, influente e corresponsável pela vida pública, sem o recurso aos subterfúgios de uma suposta neutralidade na avaliação dos programas e projeto de governo”15.

De acordo com a interpretação de Kucinski, o Collorgate foi liderado por Isto é (a primeira revista a se posicionar criticamente em relação ao governo Collor), e por Veja (que publicou a famosa entrevista com Pedro Collor), resultado da crise econômica perpetrada pelo governo e pelo descontentamento da classe média. Assim, ante as denúncias de corrupção e “com sua circulação caindo e receitas de publicidade também minguando, devido à estagnação econômica e ao confisco da poupança, formou-se um novo pacto entre parte da imprensa e a opinião pública. /.../ A imprensa descobriu que lealdade para com seu público, e não ao palácio do governo, especialmente em tempos de agruras econômicas, poderia ser comercialmente vantajosa, além de moralmente gratificante”16. Entretanto, este episódio significou apenas uma ruptura, temporária, no padrão complacente da mídia. Logo depois, seguiu-se o rolo compressor, a onda de demissões em massa nos principais jornais do país e a retomada do padrão subserviente da mídia, especialmente durante a “Era FHC”.

Talvez o fato que mais evidencia tal comportamento seja a denúncia feita por Expedito Filho, na Veja, em 07 de outubro de 1998, em que Fernando Henrique, em maio do mesmo ano, convocou os barões da mídia para reclamar dos noticiários e ameaçou renunciar ao segundo mandato, “queixou-se das televisões, que no seu entender; vinham maltratando o governo com ênfase exagerada em notícias ruins, que acabavam azedando a avaliação popular do governo. Procurou os donos da rede Globo, reclamou que o Jornal Nacional tinha ampliado a cobertura de temas como a seca no Nordeste, os saques e o arrocho de salários, o incêndio de Roraima”. A conversa surtiu efeito: logo depois, “A seca desapareceu do noticiário, o aumento do salário foi esquecido e os pajés apareceram para apagar o incêndio de Roraima”17. A questão que levanta suspeita sobre a própria revista é por que a Veja não publicou essa matéria antes do escrutínio de 1998?

Vê-se, assim, que atuar no jornalismo significa fazer constantemente opções ideológicas de seleção e de exclusão: definir o que vai ser publicado, como, com que destaque e com que favorecimento, o que torna o jornal um veículo de reprodução parcial da realidade, ou seja, conforme Marcondes Filho, “os jornais são as manifestações das grandes correntes de opinião, conduzidos pelas classes em conflito, classes essas que carregam, cada qual, grupos em constante disputa pelo poder”18.

Segundo avaliação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mais na condição de sociólogo que de presidente, a mídia ainda não aprendeu a contextualizar as informações, uma solução para o que considera um dos maiores problemas do mundo da comunicação: a informação que é publicada “fora de contexto”, problema que atinge de uma forma ou de outra as distintas classes sociais, pois mesmo “pessoas bem-informadas muitas vezes não são capazes de entender o significado de informações que lhes chegam fragmentadas”. O famigerado “Esqueçam o que escrevi” – que é, segundo Cardoso, uma frase “plantada” pela imprensa, é, a seu ver, um exemplo concreto do mundo mediático e da descontextualização de informações19. Nessa direção, vale lembrar a assertiva de Perseu Abramo sobre uma das dimensões dos padrões de manipulação: “O padrão de fragmentação implica duas operações básicas: a seleção de aspectos, ou particularidades, do fato e a descontextualização”20.

Fernando Henrique Cardoso considera que, no que tange ao uso do poder no dia-a-dia, a imprensa se democratizou – mas “Não com relação à responsabilidade social. Isso não é fácil solucionar”. O fato de haver competição entre os diversos periódicos e entre os jornalistas, “os jornais não têm mais uma linha política definida”, com a possível exceção do O Estado de São Paulo. “A Folha definiu como sua linha não ter linha, e os outros acabaram indo por esse mesmo caminho”21.

Por fim, Cardoso acredita que a mídia é parte do poder, em cujo jogo acaba por disputar com o Executivo, com o Congresso e os setores econômico-produtivos. “A mídia não fez sua autoanálise ainda, mas ela é, sim, parte do poder. Por isso acho que essa neutralidade é um engano. Ela está brigando também por um pedaço do poder” – ou, como tem grande influência nos mercados, “quase se instituindo em árbitro do bem e do mal”22.

Essa discussão pode ser longa, vale reter que os jornais são formadores de opinião e, ao mesmo tempo, veículos catalisadores e difusores de interesses de diversos grupos econômicos e sociais. Nesse sentido, a cobertura jornalística das questões acerca da globalização e dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva encerra, evidentemente, o jogo de interesses, conflitos e rivalidades existentes interna e externamente. Desse modo, uma vez que a imprensa não é um segmento social à parte dos diversos grupos econômicos, mas um elemento constitutivo das frações de classes que representa, a análise que desenvolvemos acerca dos editoriais da Folha de S. Paulo23 - que expõe as manifestações de anuência e crítica às políticas dos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Luis Inácio Lula da Silva ajuda a desvendar a teia de interesses que perpassa o jornal. Isso não significa, todavia, como veremos ao longo do exame dos editoriais, que não existam interesses diversos - e mesmo contraditórios – não apenas no seio dos meios de comunicação, como também entre os segmentos sociais que estes jornais representam de maneira que se reconhece, aqui, o campo de divergências latentes no cotidiano das empresas jornalísticas24, que de resto faz parte da pugna inerente ao capital.

Por outro lado, o presente trabalho remeteu a reflexão sobre a globalização, questão que ocupa lugar de destaque em vários setores da sociedade – meios de comunicação, política, universidades, empresas –, que o veem por um prisma ideológico próprio. Contudo, sabe-se como é intensa a vulgarização do fenômeno da globalização, que é utilizado como conceito que parece explicar e justificar tudo ao mesmo tempo. Além do que, a globalização também remete a uma multiplicidade de problemas, como as novas configurações que assumem o estado, a nação, a cultura, a política, os meios de comunicação; a problemática do desemprego; o desenvolvimento nacional, entre outras. No entanto, longe de uma perspectiva que busque a totalidade, essas questões aparecem sempre de forma fragmentada, especialmente nos meios de comunicação. Diversas discussões sobre globalização parecem, muitas vezes, desvincular o fenômeno da sua base social, isto é, da sociedade capitalista.

Evidente que a aceleração da globalização nas últimas décadas e a busca de reinserção do Brasil no processo de internacionalização do capital suscita polêmicas tanto entre os teóricos como para o grande público, para o qual a imprensa é um importante “tradutor” das discussões realizadas em nível acadêmico ou institucional. No entanto, entre a polêmica e a vulgarização do fenômeno existe uma enorme diferença, de modo que enfrentar a primeira requer uma boa dose de esforço analítico para não cair nas malhas da segunda.

Os discursos sobre a globalização foram um dos recursos mais utilizados pela diplomacia presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Sua condição de intelectual respeitado internacionalmente facilitou sua dedicação a estes expedientes e a repercussão que eles alcançaram, tanto interna, quanto externamente. Mostra disso é a ampla cobertura jornalística dada a esses discursos, especialmente nos primeiros anos da ERA FHC. Nesse sentido, o tratamento privilegiado que receberam as alocuções cardosianas evidencia, ao menos, o quanto o Presidente foi bem-sucedido em se utilizar desse instrumento.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo governo logrou um tratamento complacente da mídia brasileira, afirmara que vivemos num mundo “midiatizado” no qual a política passa necessariamente pelos meios de comunicação de massa, mas onde “A versão vale mais que o fato” de modo que “não basta fazer uma coisa, digamos, boa. É preciso que essa coisa seja transmitida e percebida como boa”25. No mundo mediático, diz ele, tem-se antes de tudo de saber convencer. Este é um dos motivos pelos quais confere grande importância aos discursos e até certa arrogância argumentativa, que considera que as discordâncias são fruto da má-compreensão.

O seu ministro das relações exteriores, Celso Lafer também era cônscio de que o sucesso da política externa também depende da imagem do país no cenário internacional, para a qual a mídia é um ator fundamental:

O tempo da mídia é também um tempo on-line [...] O foco nos acontecimentos e a falta de foco nos processos, provenientes da natureza do tempo da mídia, é um desafio constante para a construção do soft-power da credibilidade internacional do país26.
De qualquer modo, a dedicação de Cardoso aos discursos sobre a globalização e temas correlatos decorre da necessidade de permanentemente referendar as medidas tomadas pelo seu governo no tocante a reinserção do Brasil na globalização, e a FSP por seu turno, como podemos observar nos seus editoriais, teve um claro posicionamento de classe interessada na problemática da globalização.

O encerramento da “Era FHC” e o do primeiro mandato do Presidente Lula, bem como as mudanças no mercado jornalístico e de radiodifusão, a partir de 2002, - já que a tão propalada mudança do artigo 222 da Constituição, - que versa sobre a natureza da propriedade jornalística e de radiodifusão -, feita no final do governo FHC, repercute somente no atual governo - certamente suscitam um balanço acerca da reinserção da economia brasileira nos marcos da globalização, processo que perpassa o período em tela, todavia os propósitos da presente pesquisa foram mais modestos. Procuraram evidenciar aspectos qualitativos da opinião do jornal FSP acerca da globalização, comparando o ideário manifesto nos seus editoriais sobre o tema globalização e o posicionamento acerca das medidas tomadas pelos governos FHC e Lula, notadamente no que diz respeito à abertura da economia e à estratégia de política externa. Para tanto, foram analisados quatrocentos e cinquenta editoriais do período 1995-2006.


Metodologia27
Para finalizar esta introdução restam breves comentários sobre o critério de investigação adotado. Este consistiu na análise imanente dos editoriais da Folha de S. Paulo e da bibliografia selecionada sobre o tema. Trata-se de um modo de investigação que busca, segundo Chasin, a “articulação e identidade pela condução ininterrupta de uma analítica matrizada pelo respeito radical à estrutura e à lógica inerente do texto examinado, ou seja, que tem como mérito a sustentação de que antes de interpretar ou criticar é incontornavelmente necessário compreender e fazer prova de ter compreendido”28. Nesta direção, a realização da análise imanente ou estrutural corresponde ao trabalho de investigação que “encara o texto - a formação ideal - em sua consistência autossignificativa, aí compreendida toda a grade de vetores que o conformam, tanto positivos quanto negativos: o conjunto de suas afirmações, conexões e suficiências, como também as eventuais lacunas e incongruências que o perfaçam”29. Tal procedimento, que não pressupõe a construção de modelos a priori e, portanto, descarta a imputação de traços e características exteriores e estranhos ao objeto em questão, procura respeitar a lógica interna dos discursos e apreender o seu conteúdo – já que em ambos os casos: editoriais e textos da bibliografia selecionada estamos diante de discursos. Tal procedimento de análise apóia-se nas indicações de Marx, segundo as quais a atividade intelectiva rigorosa significa a reprodução no pensamento da própria lógica do objeto examinado. Ou seja, o processo do conhecimento deve apreender a “síntese de múltiplas determinações”, que é o concreto real, isto é, a totalidade das determinações de um objeto, em toda a sua riqueza, não importando a sua natureza, seja ela material, social ou ideal30.

De modo que o procedimento aqui adotado para exame da formação ideal – no caso em questão, dos discursos acima referidos – não se prende a prévias orientações metodológicas, de cunho epistemológico, ou a problemas extrínsecos ao objeto, e absolutamente oposta a orientações irracionalistas que postulam a negação da própria possibilidade do conhecimento. Contrariamente, não parte de imputações de significados ao objeto, mas busca desvelar a sua natureza intrínseca e, para isso, submete-se analiticamente à própria lógica deste e por ele se orienta – em “subsunção da qual o pensamento se realiza, no empenho de capturar o ente enquanto ente, vale dizer, sem contaminar a coisa com exterioridades de qualquer origem ou natureza, incluídas as do próprio pensamento /.../ pois para a analítica marxiana a questão da possibilidade do saber é, desde logo, resolvida nesta esfera, ou seja, onto-praticamente, de modo positivo e categórico”31. O que não significa assumir alguma postura de natureza passiva ou a-crítica, mas um procedimento, com rigorosa honestidade intelectual, simultaneamente ativo e crítico, que se subsume à lógica do próprio objeto, único modo de desvelar sua natureza. Trata-se, portanto, do reconhecimento da possibilidade de apreender aquilo que de fato existe a partir do que está concretamente configurado, no caso, uma dada formação ideal, ao contrário de um procedimento de atribuição de significados. Aqui, pois, a orientação metodológica não teve seu percurso norteado por modelos gnosiológicos que instrumentalizassem o processo de investigação, e sim por uma conduta básica e decisiva: o ponto de partida para a análise científica é o próprio objeto, de modo que o processo de investigação implica uma subordinação à lógica interna deste.

Optou-se, assim, pela análise imanente das ideias expostas nos materiais, isto é, a apreensão da sua coerência e lógica internas – “o conjunto de suas afirmações, conexões e suficiências, como também as eventuais lacunas e incongruências que o perfaçam”32 –, buscando relacioná-las ao chão social que lhes deu origem e que justificaram a sua difusão, e às teorias que dão conta da relação entre o processo de globalização e os meios de comunicação, e entre mídia e poder.

Os editoriais foram resgatados pelo método de busca por palavras-chave, como por exemplo, globalização, política externa, política internacional e abertura da economia e dos meios de comunicação, no sítio virtual da FSP. Temporalmente, a busca abarca o período 1995-2002 e 2003-2006, resultando em cerca de quatrocentos e cinquenta editoriais que foram objeto de investigação. Para uma adequada compreensão da posição da FSP fez-se uma comparação entre os discursos dos editoriais e as fontes bibliográficas secundárias – artigos e livros que analisam mais especialmente as questões atinentes a globalização, em especial a política externa e ao papel dos meios de comunicação nesse processo.

Isto posto, articulamos os capítulos deste trabalho da seguinte maneira,

No capítulo 1, a análise dos editoriais da Folha de S. Paulo na ERA FHC é precedida por uma breve exposição do ideário cardosiano acerca da globalização, da alteração do modelo econômico, da reforma do estado e da estratégia de reinserção internacional do Brasil, bem como do contexto no qual ocorre a adesão do jornal ao projeto apresentado por FHC na campanha presidencial de 1994. A avaliação da cobertura editorialistica da globalização, dos discursos de Cardoso acerca da globalização, da política externa brasileira durante a Era FHC e da reinserção brasileira é entrecortada pelos editoriais que tratam das questões relativas ao front interno, especialmente no tocante as taxas de importação, protecionismo setorial, a repercussão das crises externas de 1997 e 1998, e análise específica sobre o exercício da diplomacia presidencial.

O Capítulo 2 trata da cobertura editorialística da Folha de S. Paulo sobre a política externa do primeiro mandato do governo de Luis Inácio Lula da Silva, destacando a coerência argumentativa com o período anterior.

Na Conclusão deste trabalho é feita uma análise comparativa entre os governos Cardoso e Lula, procurando mostrar que as razões da adesão dos meios de comunicação ao projeto de reinserção internacional do Brasil em curso, desde meados dos anos noventa, é de tal natureza que impede uma ruptura com o padrão complacente da mídia, apesar de suas críticas pontuais ao governo de plantão.

Após a Conclusão seguem dois apêndices que fazem parte de incursões investigativas feitas simultaneamente a este trabalho, que, embora não tenham uma vinculação orgânica com os capítulos, ajudam a elucidar algumas questões de ordem conjuntural e outras de natureza teórica relacionadas ao tema da pesquisa.

No apêndice intitulado “Algumas análises sobre a globalização no campo do marxismo”, resgata-se algumas contribuições de François Chesnay e J. Chasin acerca da mundialização do capital.

O segundo apêndice, intitulado “Balanço da economia nos anos 90”, fizemos pequenas resenhas sobre relatórios de pesquisas produzidas, na maior parte, por pesquisadores do BNDES acerca do processo de modernização da economia brasileira nos anos noventa.




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