Faculdade jesuita de filosofia e teologia



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FACULDADE JESUITA DE FILOSOFIA E TEOLOGIA

DEPARTAMENTO DE TEOLOGIA

KURIAN MELAYATHU JOSEPH



A EXPERIÊNCIA DE ENCONTRO COM JESUS RESSUSCITADO NA CRISTOLOGIA

LATINO-AMERICANA
Um estudo sobre a ressurreição de Jesus em algumas obras

de Leonardo Boff, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino

Dissertação de Mestrado

Orientador: Prof. Dr. Geraldo Luiz De Mori S.J.

BELO HORIZONTE

2006.

Este trabalho dedico aos meus pais

Joseph Melayathu

Bridgit Melayathu

Meus agradecimentos.

São muitos os que colaboraram de diversas maneiras na realização deste trabalho:

1) A Arquidiocese de Campo Grande-MS na pessoa de seu Arcebispo, Dom Vitório Pavanello, que me permitiu dois anos de ausência da diocese e me apoiou;

2) A ADVENIAT, que bancou uma parte das despesas decorridas;

3) A FDHC, que me hospedou durante dois anos;

4) Meu orientador Prof. Dr. Geraldo Luiz De Mori, que com muita paciência e muito carinho corrigiu as minhas múltiplas deficiências;

5) Os professores e a equipe do ISI-FAJE, que me ajudaram numa rápida atualização teológica, que veio depois de um quarto de século após completar meus estudos no seminário;

6) Colegas e amigos como Jesus Pedro, Mário Dwulatka, Érico Fumero, Denis Duarte e Jacinta Webler que dedicaram horas na leitura do meu trabalho e me ajudaram com várias sugestões.

A todos vocês MUITO OBRIGADO!

Sinopse.

Leonardo Boff, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, teólogos pioneiros entre muitos outros, representam uma época de criatividade e de produção teológica extraordinária no continente latino-americano. A Cristologia ocupa lugar especial na reflexão teológica deles. Nosso estudo procura identificar a compreensão da Ressurreição de Jesus e suas conseqüências nas obras cristológicas destes teólogos. A Ressurreição, que foi o evento fundante de processo cristológico, é compreendia como uma experiência de encontro com o Ressuscitado que originou mudanças radicais na vida dos discípulos. Por detrás da práxis eclesial libertadora, que marcou a segunda metade do século XX na AL, estes teólogos detectam uma experiência análoga de encontro com o Ressuscitado. Procuramos identificar algumas conseqüências desta experiência.


Palavras e conceitos chaves: ressurreição, hermenêutica, desidolatrização, esperança das vítimas, práxis, seguimento, missão, culto.



Overview.

Leonardo Boff, Juan Luis Segundo and Jon Sobrino are among the pioneering theologians who represent an extremely fertile period for Latin American Theology. Christology occupies the pride of place in their thinking. This study aims at analyzing their understanding of the resurrection of Jesus, ‘the foundational event’ as found in some of their books. Their understanding is that ‘the encounter experience’ that the resurrection is, caused fundamental changes in the lives of the followers of Jesus. The above mentioned authors detect an analogous ‘encounter experience’ in the liberation movement that the second half of the 20th century witnessed in Latin America. This study enumerates some of the results that followed this ‘encounter experience’ as they manifested themselves in the Latin American context according to these authors.


Key words and expressions: resurrection, hermeneutics, undoing idol worship, hope for the victimized, practice, following, mission, cult.


SUMÁRIO


SIGLAS

INTRODUÇÃO 09


Capítulo Primeiro: O CRISTIANISMO QUE CELEBRA UMA PRESENÇA:

A RESSURREIÇÃO NA CRISTOLOGIA DE LEONARDO BOFF


1.1. Considerações preliminares 13

1.2. A práxis de Jesus e sua conseqüência 17

1.3. O significado da cruz e da morte de Jesus 19

1.3.1. A compreensão neotestamentária da cruz e da morte de Jesus 20

1.3.2. A compreensão da cruz e da morte de Jesus na tradição teológica 23

1.3.3. A compreensão da cruz e da morte de Jesus na TdL 25

1.4. A ressurreição de Jesus 28

1.4.1. A ressurreição de Jesus no NT 28

1.4.2. O debate teológico sobre o Jesus Ressuscitado 32

1.4.3. O Cristianismo que celebra uma presença 36

1.5. Conclusão 39
Capítulo Segundo: A MANIFESTAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS:

A RESSURREIÇÃO NA CRISTOLOGIA DE JUAN LUIS SEGUNDO.


2.1. Considerações preliminares 40

2.2. Jesus de Nazaré, um político 43

2.2.1. Jesus, o profeta do Reino 43

2.2.2. Jesus e a opção (política) de Deus pelos pobres e pecadores 46

2.3. Jesus e o conflito que sua práxis política desencadeia 48

2.3.1. As tomadas da posição que a práxis de Jesus causa 48

2.3.1.1. Os de fora 49

2.3.1.2. Os que recebem como graça ‘os segredos do Reino’ 49

2.3.1.3. O povo 50

2.3.2. O projeto humanizador de Jesus 50

2.3.3. As prioridades do Reino e suas forças 50

2.3.4. Os limites das forças do Reino 51

2.3.5. A crise da Galiléia 52

2.3.6. Os anúncios da morte de Jesus 52

2.3.7. A morte sempre presente na vida de Jesus 53

2.4. A ressurreição de Jesus 54

2.4.1. A ressurreição de Jesus nos sinóticos 54

2.4.2. A manifestação dos filhos de Deus 57

2.4.2.1. A ressurreição de Jesus e o emergir da nova criatura 57

2.4.2.2. a manifestação da liberdade dos filhos 59

2.5. Conclusão 64
Capítulo Terceiro: A ESPERANÇA DAS VÍTIMAS:

A RESSURREIÇÃO NA CRISTOLOGIA DE JON SOBRINO


3.1. Considerações preliminares 66

3.2. A práxis libertadora de Jesus 67

3.2.1. Jesus e o anúncio da proximidade do Reino de Deus 67

3.2.2. Jesus e o Deus que Ele anuncia 70

3.2.3. Jesus, Deus e desidolatrização 73

3.3. O significado da cruz e da morte de Jesus 77

3.3.1. Jesus, um perseguido 78

3.3.2. Jesus que morre 80

3.3.3. Em Jesus o próprio Deus é crucificado 82

3.3.4. O Deus solidário presente no povo crucificado 84

3.4. A ressurreição de Jesus 85

3.4.1. A abordagem hermenêutica 85

3.4.1.1. A necessidade de hermenêutica 86

3.4.1.2. A compreensão neotestamentária da ressurreição de Jesus 88

3.4.1.3. A ressurreição de Jesus no querigma primitivo 90

3.4.1.4. A esperança como pressuposto hermenêutico 90

3.4.2. A ressurreição de Jesus considerada historicamente 93

3.4.3. A ressurreição de Jesus considerada teologicamente 98

3.5. Conclusão 101
Capítulo IV: UMA NOVA ABORDAGEM TEOLÓGICA DA

RESSURREIÇÃO DE JESUS – A EXPERIÊNCIA DE ENCONTRO

COM O RESSUSCITADO A PARTIR DE AMÉRICA LATINA.
4.1. Considerações preliminares 104

4.2. A ressurreição de Jesus causou uma mudança na vida e no

comportamento dos discípulos 105

4.2.1. A mudança na vida e no comportamento dos discípulos

segundo Leonardo Boff 106

4.2.2. A mudança na vida e no comportamento dos discípulos

segundo Juan Luis Segundo 108

4.2.3. A mudança na vida e no comportamento dos discípulos

segundo Jon Sobrino 110

4.3. O encontro com o Ressuscitado, um momento de revelação de Deus 112

4.3.1. A nova visão de Deus que surge do Encontro com o Ressuscitado

segundo Leonardo Boff 112

4.3.2. A nova visão de Deus que surge do Encontro com o Ressuscitado

segundo Juan Luis Segundo 114

4.3.3. A nova visão de Deus que surge do Encontro com o Ressuscitado

segundo Jon Sobrino 120

4.4. O Encontro com o Ressuscitado desencadeia a missão 123

4.4.1. O Encontro com o Ressuscitado e a missão

segundo Leonardo Boff 124

4.4.2. O Encontro com o Ressuscitado e a missão

segundo Juan Luis Segundo 126

4.4.3. O Encontro com o Ressuscitado e a missão

segundo Jon Sobrino 128

4.5. A práxis (seguimento) que surge como resultado do encontro

com o Ressuscitado 131

4.5.1. A práxis resultante do Encontro com o Ressuscitado

segundo Leonardo Boff 131

4.5.2. A práxis resultante do Encontro com o Ressuscitado

segundo Juan Luis Segundo 133

4.5.3. A práxis resultante do Encontro com o Ressuscitado

segundo Jon Sobrino 136

4.6. O momento litúrgico: um momento privilegiado de encontro

com o Ressuscitado. Os cristãos têm algo para celebrar 140

4.6.1. O Encontro com o Ressuscitado no culto segundo Leonardo Boff 140

4.6.2. O Encontro com o Ressuscitado no culto

segundo Juan Luis Segundo 142

4.6.3. O Encontro com o Ressuscitado no culto segundo Jon Sobrino 143

4.7. Algumas conclusões 144


Conclusão 151
Bibliografia 156

SIGLAS

AT....................Antigo Testamento

NT....................Novo Testamento

TdL..................Teologia da Libertação

AL....................América Latina



Introdução
Nosso estudo tem como objetivo examinar algumas obras cristológicas selecionadas de Leonardo Boff, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, três autores entre os pioneiros de um período de criatividade incomum na AL. Qual a compreensão da Ressurreição de Jesus na Cristologia deles? Qual foi o resultado desta compreensão? Ao longo deste estudo descobriremos que a Ressurreição é compreendida como uma experiência de encontro com o Ressuscitado e que desta experiência resultaram mudanças profundas que, mesmo depois de dois mil anos, continuam a nos surpreender.
A segunda metade do Século XX foi um momento especial na história humana. Depois da terrível devastação da “Segunda Guerra Mundial”, as nações européias se reconstruíram; a tecnologia avançava a largos passos, criando um otimismo e a crença de que a ciência e a tecnologia resolveriam os problemas humanos. Porém travou-se a guerra fria - a concorrência sanguinária entre capitalismo e comunismo como alternativas para a humanidade. A AL, sufocada pelos males do capitalismo, sonhou com um modelo socialista; o marxismo começou a exercer um fascínio sobre sua população e surgiram movimentos que visavam à libertação sócio-política e à mudança de sistema econômico. Contudo, estes movimentos foram reprimidos com mão de ferro e as mudanças estruturais foram evitadas a custo de milhares de vidas humanas.
Nesta situação sem sentido, surgiram uma práxis e uma reflexão teológica que conseguiram revelar algumas significações ocultas daquele momento histórico. O Concílio Vaticano II abriu uma nova perspectiva na vida eclesial e esta novidade chegou até a AL com a realização dos encontros da CELAM em Medellín e Puebla. Estes eventos marcaram a práxis eclesial latino-americana. O processo de teologização desta práxis teve o “humano” e o “histórico” como chaves hermenêuticas importantes. Os teólogos que estudaremos buscaram a fundamentação para suas reflexões nas ciências sociais, o que foi uma novidade para teologia latino-americana, mas suas obras se situaram bem dentro dos parâmetros da práxis teológica de sua época.
Nossos autores dialogam com a modernidade e adotam perspectivas hermenêuticas próprias, priorizando, como foi mencionado, o humano e o histórico, confrontando as fontes tradicionais da teologia com a realidade latino-americana. Começaremos a apresentação de cada um deles a partir do respectivo horizonte hermenêutico, mostrando como a práxis de Jesus e sua conseqüência, a morte na cruz, ocupa um lugar importante no esquema cristológico dos três. Em seguida, analisaremos a compreensão que eles têm da Ressurreição de Jesus. Como veremos, a Ressurreição é o sustentáculo da Cristologia destes teólogos. Isso aparece de modo especial na maneira como compreendem as conseqüências deste evento, percebido como encontro com o Ressuscitado. A experiência deste encontro causou mudanças radicais nos discípulos e os autores que estudaremos caracterizam a práxis eclesial latino-americana de sua época como uma experiência análoga à das testemunhas do Evangelho, práxis que se repete na história.
Nosso trabalho não pretende ser exaustivo. Examinaremos apenas algumas obras de cada autor. Nossos teólogos têm consciência de serem pioneiros. E de fato o foram. Nosso trabalho procura compreender um aspecto deste pioneirismo: a compreensão da Ressurreição de Jesus desde o contexto histórico latino-americano.
Em nosso primeiro capítulo apresentaremos os pressupostos hermenêuticos do Leonardo Boff. O teólogo brasileiro leva em consideração todo o debate da teologia moderna sobre a ressurreição. O Jesus histórico e sua práxis libertadora, juntamente com sua conseqüência: a morte de Jesus na cruz, são examinados desde a perspectiva da violência opressiva que, no Brasil e na AL, suscita a violência revolucionária. Boff não põe em questão a facticidade da Ressurreição, mas a linguagem para seu anúncio em realidades de opressão. A partir da experiência pascal, a práxis libertadora e a solidariedade com os injustiçados da história adquirem novo sentido. Isso porque a experiência do encontro com o Ressuscitado revela um Deus solidário com os injustiçados, solidariedade que possibilita a manifestação do “novo Adão”, revelado no “novo engajamento” histórico em curso na AL.
Em nosso segundo capítulo analisaremos a obra “A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré”, de Juan Luis Segundo. O Jesus histórico dos Sinóticos é interpretado pelo teólogo uruguaio a partir de uma chave hermenêutica política. Ele justifica a escolha desta chave hermenêutica baseando-se na práxis de Jesus e seu resultado – a morte na cruz. Jesus agiu como um bom político e seus adversários reagiram politicamente eliminando-o. Para Juan Luis Segundo, a experiência de encontro com o Ressuscitado foi um grande momento hermenêutico para a humanidade. O Deus que se revela nessa experiência é bem diferente d’Aquele que geralmente é usado para justificar o status quo opressivo. Para compreender esta diferença, examinaremos a análise que o teólogo uruguaio faz da carta aos Romanos.
No terceiro capítulo estudaremos a perspectiva de Jon Sobrino. Partindo da situação mortífera e sangrenta da guerra civil em El Salvador, o teólogo centro-americano tenta compreender o sentido da violência e da morte aparentemente desnecessárias, inspirando-se na práxis libertadora de Jesus. Para ele, a imagem bíblica do Deus da vida que luta contra os deuses da morte reaparece no evento pascal, onde Deus é Aquele que age em favor da vítima e assim gera esperança para as vítimas. Esta experiência de encontro com o Ressuscitado motiva muitos cristãos latino-americanos a caminharem na solidariedade junto com os injustiçados do continente latino-americano, entregando eles também suas próprias vidas.
No quarto capítulo reuniremos de modo sistemático os resultados de nossa pesquisa. A Ressurreição enquanto experiência de encontro com o Ressuscitado será então vista como algo que mudou radicalmente a vida dos discípulos, mas que analogamente continua mudando a vida dos cristãos latino-americanos. Analisaremos os diversos significados desta mudança bem como seu alcance teológico-pastoral.
O propósito deste trabalho é, sem dúvida, amplo demais. De fato a maneira como cada autor que estudaremos entende a Ressurreição mereceria uma análise mais aprofundada. Não foi, porém esta a nossa intenção ao escolhê-los como objeto de nossa pesquisa e reflexão. Não pretendemos ser exaustivos. O que buscamos é uma visão panorâmica e sintética, que nos permita ter os grandes eixos e intuições da reflexão latino-americana sobre a ressurreição desde a perspectiva de três de seus maiores teólogos.
O nosso método se desdobra em dois momentos. Em primeiro lugar, apresentamos a análise que cada um dos nossos autores faz, da atuação de Jesus de Nazaré, com suas conseqüências, isto é, a morte na cruz e a (inesperada) ressurreição. Referências bibliográficas completas, sobre as obras estudadas, serão dadas no início de cada capítulo. Em segundo lugar, apresentaremos, numa maneira sintetizada e panorâmica, o que cada um dos autores percebe como conseqüência do encontro com o Ressuscitado para os discípulos e suas implicações na práxis eclesial da AL.

Capítulo Primeiro



O Cristianismo que celebra uma Presença:

A ressurreição na Cristologia de

Leonardo Boff





    1. Considerações preliminares.

Leonardo Boff1, teólogo, renomado professor, autor e conferencista brasileiro, foi um dos primeiros teólogos da libertação a tentar pensar uma Cristologia a partir da AL. Ele situa seu projeto no cenário da teologia contemporânea. Para entender como a Ressurreição é pensada neste projeto, vamos apresentar brevemente os grandes eixos do mesmo, a saber: o que os relatos do NT dizem de Jesus e de sua práxis; as conseqüências desta práxis; a morte de Jesus; o significado da cruz; a ressurreição. Esta, como veremos, faz nosso autor afirmar que o cristianismo é uma religião que celebra a presença viva de seu Senhor Ressuscitado.


Para entender o projeto cristológico de Boff e a maneira como neste projeto é pensada a ressurreição, vamos analisar as seguintes obras: Jesus Cristo Libertador, Ensaio de Cristologia crítica para o nosso tempo2; Paixão de Cristo – Paixão do Mundo, O Fato, as Interpretações, e o significado ontem e hoje3; A ressurreição de Cristo. A nossa ressurreição na morte4. Como veremos, seu pensamento cristológico retoma em parte o resultado das pesquisas feitas no século XX sobre a cristologia, mas as lê com uma chave hermenêutica própria.
A questão “Quem é Jesus?” deve ser respondida por cada geração. Para Boff, no NT encontramos uma pluralidade de respostas a esta questão. O Evangelista Marcos, por exemplo, afirma que Jesus é o Messias (Cristo) escondido e o grande libertador. Já Mateus diz que Jesus é o novo Moisés, enquanto Lucas afirma que ele é o libertador dos pobres, doentes e marginalizados e João o apresenta a partir da figura hierática do Logos, o Filho Eterno de Deus.
Na pluralidade dos pontos de vista cristológicos contemporâneos percebe-se o cumprimento contínuo da tarefa de dar resposta à pergunta de Jesus. Boff mostra que nos últimos séculos a crítica nos oferece pistas e intuições valiosas que ajudam a formular respostas dentro do contexto contemporâneo.
Nos evangelhos encontramos uma figura de Jesus que causou a formação de uma comunidade de fé e a sustentou. No entanto, esta comunidade nos deixou um testemunho com dados biográficos que não satisfazem às exigências da historiografia positivista contemporânea. Autores como Bultmann renunciam à busca do Jesus histórico, enquanto outros, como Robinson, Käsemann, Bornkamm, Trilling e Pannenberg, afirmam a continuidade entre Jesus e o Cristo através de uma Cristologia indireta5. Segundo esses teólogos, as atitudes e comportamentos de Jesus só ganham sua natural compreensão e sua correspondente explicitação no horizonte da fé. Alguns seguidores de Bultmann radicalizaram, porém, de tal modo a posição do mestre que chegaram a proclamar a morte de Deus6.
Perante o impasse provocado pela historiografia contemporânea, Boff sustenta que é possível, a partir da análise das fontes da Cristologia, afirmar que o Deus que se identificou com nossa situação, com nossas trevas e angústias, é o Deus de Jesus de Nazaré, o Deus que ao ressuscitar seu Filho venceu a morte, o pecado e tudo o que aliena o ser humano7. É esse Deus que também diviniza a humanidade. Esta implicação de Deus na história confere a esta uma positividade e lhe dá um caráter universal e eterno, representando e antecipando o futuro dentro do tempo.
Assim, dialogando com a razão moderna, Boff afirma que a fé e a razão científica não estão em contradição uma com a outra. São duas dimensões diferentes e não dois modos de conhecer. Diante do problema da historicidade, o teólogo brasileiro diz que a fé é a atmosfera, o horizonte adequado para se compreender quem foi o Jesus histórico. A história vem sempre unida com a fé e por isso, qualquer docetismo, que reduz Jesus à mera palavra (querigma ou pregação) ou a um simples ser histórico que findou com sua morte, deve ser rejeitado a priori.
Para uma Cristologia feita desde a AL, Boff propõe uma hermenêutica própria, que é uma releitura do NT e de toda a literatura cristológica a partir do contexto sul-americano. Para realizar seu intento, ele faz um breve exame das teorias hermenêuticas presentes então no panorama teológico 8.
Na opinião de Boff, a hermenêutica não significa apenas a arte de entender textos antigos, mas também a busca de compreender todas as manifestações da vida articulando-as com a mensagem evangélica. Tais manifestações têm a ver com aqueles fatores que dizem respeito ao indivíduo e à coletividade. Eles devem ser captados à luz de temas neotestamentários, como o Reino de Deus, a justiça, a paz, a reconciliação etc.
Para Boff, nossa tarefa cristológica na América Latina de hoje, não é “definirmos a ele (Jesus Cristo), mas a nós mesmos”9. Esta definição se dá numa releitura a partir de uma ótica própria que deve conter os seguintes traços: 1) A primazia do elemento antropológico sobre o eclesiológico, ou seja, o ser humano “a quem a Igreja deve auxiliar, erguer, e humanizar” tem precedência sobre a estrutura eclesiástica10; 2) O acento determinante não pode ser o passado, mas o futuro, pelo fato de a história do homem sul-americano ter sido o que ela foi. Neste sentido, o aspecto utópico assume a primazia sobre o fatual11; 3) A prioridade “do elemento crítico sobre o dogmático”, dada a situação atual da América Latina12. Isto porque a crítica assume um caráter acrisolador da experiência cristã, fazendo com que a mesma seja encarnada criticamente nas diferentes situações em que vive naquele momento; 4) A primazia do social sobre o pessoal é um imperativo diante da “marginalização social de imensas porções da população”13. A Igreja “deve participar da arrancada global de libertação da sociedade sul-americana”, dando assim, como fez Jesus, especial atenção aos “sem-nome” e aos “sem-voz”; 5) A “primazia da ortopraxia sobre a ortodoxia”14, porque o seguimento de Cristo, tema fundamental dos evangelhos sinóticos, foi muito pouco tematizado e traduzido em atitudes concretas na vida da Igreja. Boff julga que o momento praxiológico da mensagem de Cristo é particularmente sensível na reflexão teológica feita na América Latina.

Com essas observações preliminares passaremos agora a examinar a imagem de Jesus que Boff nos propõe e que, segundo ele, corresponde às exigências de contextualização da sua teologia.




1.2. A práxis de Jesus e sua conseqüência.

Boff tenta responder à pergunta “quem é Jesus?” a partir da práxis do Nazareno. Um dos primeiros aspectos que ele destaca é o do horizonte no qual atuou Jesus. Os judeus viviam então uma época opressiva, pois estavam privados da sua liberdade há vários séculos. Isso provocou neles a convicção de que só Deus, com sua ação direta, poderia mudar a direção das coisas. “O senhorio de Deus sobre tudo tinha que se mostrar também politicamente. O Messias é aquele que instaurará o Reino de Deus”15. Várias tentativas de resgate da independência tinham surgido. Os Zelotas propunham a ação armada, enquanto os Essênios fugiam ao deserto, onde prepararam ritualmente a instauração do Reino de Deus. A literatura apocalíptica é fruto deste período e daquele que o antecede (os séculos da dominação dos Selêucidas).


Neste horizonte apocalíptico, Jesus vai inaugurar seu ministério. Não há, porém, nenhum indício de que tenha alimentado o nacionalismo judeu ou se identificado com as especulações apocalípticas. O episódio das tentações (Mc 1,22s; Lc 4,1-3; Mt 4,1-11), que os sinóticos colocam no início da vida pública de Jesus, pode ser visto como o resumo dos conflitos que ele enfrentou durante toda a sua vida e que têm a ver também com as expectativas messiânicas de seus contemporâneos. Seus discípulos, que eram judeus, comungavam certamente com essas expectativas, mas Jesus vai lentamente mostrando-lhes outra forma de ver o messias.
Os evangelhos resumem a ação de Jesus através da categoria Reino de Deus. No episódio da sinagoga de Nazaré (Lc 4,18-19.21), onde, ao sentar-se depois da leitura, Jesus diz que hoje se cumpriu a profecia que ele acabou de ler, recorda-se Ex 23, 1-12; 21,2-6 (ano sabático) e Lv 25,8-16 (ano jubileu). O que dizem esses textos tinha aos poucos se tornado uma promessa para os tempos messiânicos (Is 61,1s)16.
Uma utopia velha está se realizando hoje. Os milagres de Jesus mostram que o Reino já está presente dentro do velho mundo. Este Reino não é um território, mas uma nova ordem das coisas. É uma totalidade da realidade transformada seminalmente por Deus no presente e escatologicamente no futuro. Jesus anuncia que a instauração desta nova ordem é iminente e que a participação nela está condicionada à adesão de sua pessoa.
A presente ordem das coisas não pode salvar o ser humano de sua alienação fundamental. O comportamento do homem novo tem suas regras contidas nas fórmulas radicais do sermão da montanha17. O Reino de Deus implica uma revolução no mundo da pessoa. As atitudes de Jesus face às prescrições da lei buscam trazer uma liberdade responsável e indicam um novo modo de existir no reino já presente, que se esconde sob os véus da fraqueza.
Segundo Boff, os discursos de Jesus, especialmente o das parábolas, provocam uma tomada de posição. Elas desafiam a compreensão, porque Jesus não é mais um rabino que interpreta as Escrituras, mas alguém que lê a vontade de Deus18. O que Deus quer pode ser discernido pelo recurso à sua palavra, pela consulta dos sinais dos tempos e pelo imprevisto da situação.
A obediência é uma decisão firme diante daquilo que Deus exige numa situação concreta. Em Jesus ela se expressou radicalmente através de sua inquebrantável fidelidade até à morte. Nisso ele atingiu aquela profundidade humana que concerne todos os seres humanos. “Nele se revela o que há de mais divino no ser humano e o que há de humano em Deus”19.
A atuação de Jesus provocou um conflito radical entre ele e os que detinham o poder em Israel. Este conflito o levou a um processo religioso e político que o condenou à morte, o que mostra que ele era um perigo para a ordem estabelecida. No exercício de seu ministério, Jesus mostrou uma consciência que implica em participação na esfera divina20. Quando, porém foi preso e julgado, ele se apresentou fraco e sem meios adequados para cumprir sua missão.
No decorrer do processo de sua prisão, julgamento e morte, os discípulos de Jesus fugiram. Somente a partir da ressurreição foram decifrando, com crescente clareza, o sentido da morte e da ressurreição.
Jesus viveu, portanto, num período cheio de expectativas. Num primeiro momento sua práxis foi bem aceita. Posteriormente, quando esta mesma práxis começou a questionar as estruturas nas quais ele atuava, houve uma convergência de interesses para eliminá-lo. A história testemunha que isto continua se repetindo inúmeras vezes ao longo dos séculos.

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