Fahrenheit 11 de Setembro



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MICHAEL MOORE
O Livro Oficial do Filme
FAHRENHEIT

- 11 de setembro -

2004

Para Elmer Bernstein




Sumário
Prefácio: A obra de um patriota, John Berger 9
Introdução 13
Parte I: Fahrenheit 11 de setembro - Roteiro 19
Parte II: Fahrenheit 11 de setembro - Provas e evidências 129

Parte III: A opinião do público sobre



Fahrenheit 11 de setembro 183
Parte IV: Ensaios e críticas sobre

Fahrenheit 11 de setembro 223
Parte V: Além de Fahrenheit 11 de setembro - ­

Mais escritos sobre as questões do filme 255


Parte VI: Charges e fotografias 341

Prefácio
A Obra de um Patriota

John Berger
Fahrenheit 11 de setembro é estarrecedor.

O filme de Michael Moore tocou profundamente os artistas que integraram o júri do Festival de Cannes, e a votação que lhe deu a Palma de Ouro foi unânime. Desde então vem comovendo milhões e milhões de pessoas. Arrecadou mais de 100 milhões de dólares nas seis primeiras semanas de exibição nos Estados Unidos. Essa soma, assombrosa, é aproximadamente a metade do que Harry Potter e a Pedra Filosofal arrecadou em período equivalente.

As pessoas nunca viram um filme como Fahrenheit 11 de setembro. Só os chamados formadores de opinião, na imprensa e em outros meios de comunicação, parecem ter ficado aborrecidos com ele.

O filme, considerado como ato político, talvez seja um marco histórico. Mas, para perceber isso, é necessário ter certa perspectiva de futuro. Quem vive com os olhos pregados exclusivamente nas "últimas notícias", caso da maioria dos formadores de opinião, perde um pouco essa perspectiva: qualquer coisa é uma complicação, nada mais. O filme, contrapondo-se a isso, acha que pode dar uma pequena contribuição para mudar a história do mundo. É uma obra inspirada pela esperança.

O que converte o filme em evento é o fato de ser uma intervenção eficaz e independente na política mundial imediata. Nos dias de hoje, é muito raro que um artista (e Moore é um artista) consiga fazer uma intervenção desse tipo e contestar declarações pré-fabricadas e mentirosas de políticos. Seu objetivo imediato é reduzir a probabilidade de reeleição do presidente Bush em novembro. Do começo ao fim, o filme propõe um debate político e social.

A tentativa de denegrir o filme como propaganda é ingênua ou perversa, porque esquece (deliberadamente?) o que o século passado nos ensinou. A propaganda exige uma rede de comunicação permanente, capaz de asfixiar de modo sistemático, com palavras de ordem emotivas ou utópicas, toda reflexão. Seu ritmo é em geral acelerado. A propaganda invariavelmente está a serviço dos interesses de longo prazo de alguma elite.

Este filme único e não-conformista é freqüentemente lento, reflexivo, e não tem medo do silêncio. Convoca os espectadores a pensar por si mesmos e a relacionar as coisas depois de refletir. E as pessoas com as quais se identifica, e que defende, são aquelas cuja voz raramente é ouvida.

Defender um argumento com vigor não é a mesma coisa que saturar com propaganda. A FOX TV faz a segunda coisa. Michael Moore faz a primeira.

Desde a tragédia grega, artistas se perguntaram de tempos em tempos como poderiam influir nos acontecimentos políticos de sua época. Uma questão delicada, já que envolve dois tipos bem distintos de poder. Numerosas teorias éticas e estéticas giram em torno desse problema. Para os que vivem sob tiranias políticas, a arte é com freqüência uma forma de resistência secreta, e os tiranos habitualmente buscam maneiras de controlá-la. Tudo isso, porém, em termos gerais e em território amplo. Fahrenheit 11 de setembro é diferente. Conseguiu interferir em um programa político no território específico desse programa.

Para que isso ocorresse, houve uma necessária convergência de fatores. O prêmio em Cannes e a tentativa desastrada de impedir a distribuição do filme foram fundamentais para a criação do acontecimento.

Ressaltar isso não quer dizer, de modo algum, que o filme como filme não merece toda a atenção que vem recebendo. É só um lembrete de que, no âmbito dos meios de comunicação, uma ruptura (a derrubada do muro cotidiano de mentiras e meias verdades) é uma coisa muito rara. E esse caráter de raridade é o que torna o filme exemplar. Ele é um exemplo para milhões de pessoas - como se estivessem à espera dele.

O filme sugere que, no primeiro ano deste milênio, a Casa Branca e o Pentágono foram tomados de assalto por uma quadrilha violenta - e por seu Líder Cristão Renascido - para que o poder dos Estados Unidos dali em diante estivesse a serviço, prioritariamente, dos interesses globais das grandes empresas. Uma proposição dura, que se aproxima mais da realidade do que muitos editoriais cheios de sutilezas. E ainda mais importante do que a proposição é a clareza com que o filme se expressa. Ele demonstra que, apesar do poder de manipulação dos especialistas em comunicação, dos discursos presidenciais mentirosos e das entrevistas coletivas insípidas, uma única voz independente que chame a atenção para certas verdades que incontáveis americanos já estão descobrindo por conta própria é capaz de romper a conspiração do silêncio, a atmosfera artificial de medo e a solidão de sentir-se politicamente impotente.

É um filme que trata de desejos remotos e obstinados em uma época de desilusão. Um filme que faz piada enquanto a orquestra toca o Apocalipse. Um filme no qual milhões de americanos se reconhecem e enxergam com precisão os métodos concretos que são usados para enganá-los. Um filme que fala de muitas surpresas discutidas juntas - a maioria é ruim, mas algumas são boas. Fahrenheit 11 de setembro recorda ao espectador que, com coragem compartilhada, é possível lutar contra tudo.

Em mais de mil salas de cinema por todo o país, Michael Moore se converte, com este filme, em tribuno do povo. E o que vemos? Que Bush é claramente um cretino político, tão ignorante sobre o mundo quanto indiferente a ele. Enquanto o tribuno, educado pela experiência popular, ganha credibilidade política não como político profissional, mas como a voz que expressa a ira de uma multidão e sua vontade de resistir.

Existe ainda outra coisa estarrecedora. O objetivo de Fahrenheit 11 de setembro é impedir que Bush manipule as coisas para vencer a próxima eleição, tal como fez com a anterior. Seu foco é a guerra totalmente injustificada contra o Iraque. Mas suas conclusões vão além desses dois temas. O filme declara que uma economia política que gera incessantemente uma riqueza colossal, cercada de uma pobreza que também cresce de maneira desastrosa, necessita - para sobreviver - de uma guerra contínua contra algum inimigo estrangeiro inventado. Para manter sua própria ordem e sua segurança interna, necessita de uma guerra sem fim.

Assim é que, quinze anos depois da derrocada do comunismo, décadas depois do suposto Fim da História, uma das principais teses da interpretação marxista da história volta a ser tema de debate e possível explicação para as catástrofes que vivemos.

São sempre os pobres os que fazem os maiores sacrifícios, é o que declara Fahrenheit 11 de setembro em seus minutos finais. Até quando?

Não existe futuro para nenhuma civilização de qualquer parte do mundo que ignore essa pergunta. É por isso que este filme foi feito e é por isso que se converteu no que se converteu. É um filme que deseja intensamente a sobrevivência dos Estados Unidos.


Introdução
Enquanto escrevo esta introdução, meu filme Fahrenheit 11 de setembro continua a ser exibido em centenas de cinemas nos Estados Unidos. "Estar no olho no furacão" é um velho clichê que escutei muitas vezes na vida. Mas, na verdade, nunca entendi muito bem o que queria dizer - até fazer este filme.

E ainda é muito cedo para que eu mesmo consiga entender e explicar a febre em torno de Fahrenheit 11 de setembro. Os recordes começaram a pipocar nas primeiras horas de lançamento:


Maior bilheteria de estréia de qualquer filme nos dois cinemas em Nova York em que estava sendo exibido.
Primeiro documentário a ficar em primeiro lugar nas bilheterias.
Maior bilheteria para um documentário em todos os tempos, superando o recordista anterior (Tiros em Columbine) em 600%.
Uma pesquisa Gallup mostrou que mais da metade do público americano pretendia assistir ao filme, fosse nos cinemas, em vídeo ou DVD. Ninguém se lembra de outro filme que tenha apresentado tais números.

Esse extraordinário interesse por Fahrenheit 11 de setembro é fruto de uma série de acontecimentos que teve início no fim de abril de 2004, quando nossa distribuidora foi informada pela controladora, a Walt Disney Company, de que não poderia distribuir o filme. Michael Eisner, o presidente da Disney, declarou que não queria que seu estúdio lançasse um filme político partidário que poderia ofender as famílias que freqüentam seus parques de diversão. Lógico, ele não mencionou nenhum desconforto quanto ao fato de a Disney distribuir o programa de rádio de Sean Hannity [apresentador de direita] (o que eles fazem) ou apresentar Rush Limbaugh [ultra-conservador e ultra-moralista] nas estações da rede ABC que pertencem à Disney (o que eles fazem) ou transmitir o programa 700 Club de Pat Robertson [pastor-apresentador, racista e reacionário] no Disney Family Channel (o que... bom, você entendeu. O que Eisner quis dizer é que, se meu filme fosse uma peça de propaganda de direita cheia de ódio e de aprovação a cada movimento da administração Bush, então não haveria problema em distribuí-lo.).

Quando a notícia estourou, a Disney fez o melhor que pôde para abafá-la, mas não conseguiu. Só deixou as pessoas com mais vontade de ver o filme.

Assim, partimos para o Festival de Cinema de Cannes sem distribuidor. Até então, só dois documentários haviam participado da competição oficial (O mundo silencioso, de Louis Malle e Jacques Cousteau [em 1956], e Tiros em Columbine). Fahrenheit 11 de setembro conquistou o maior prêmio do festival, a Palma de Ouro.

Mas voltamos para casa sem distribuidor. A Casa Branca começou a jogar pesado. Do escritório de Karl Rove [principal estrategista e conselheiro político de Bush] partiam telefonemas incitando jornalistas a detonar um filme que nem sequer tinham visto. Um grupo republicano iniciou uma campanha de ameaças contra todos os proprietários de cinemas que haviam manifestado interesse em exibir Fahrenheit 11 de setembro. Pelo menos três redes exibidoras e muitos outros cinemas independentes se assustaram e anunciaram que o filme não seria exibido em nenhuma de suas salas. Um outro grupo apresentou um recurso à comissão eleitoral federal dos Estados Unidos (FEC) [órgão regulador independente, encarregado da administração e do cumprimento da lei federal de financiamento de campanhas] pedindo que fôssemos proibidos de anunciar o filme na TV; sob o argumento de que as inserções eram "anúncios políticos" que violavam a lei. Quando a FEC decidiu o caso em nosso favor, nosso distribuidor já havia tirado todos do ar.

Rove soltou seus cães de guerra para atacar nosso filme - a declaração oficial da Casa Branca foi: "Nós não precisamos ver para saber que não presta". O pai de Bush me chamou de um monte de coisas, e seus sábios porta-vozes na mídia apareceram em todos os programas de entrevistas para me achincalhar e para achincalhar o meu filme.

Mas nada disso funcionou. As pessoas só ficaram com mais vontade de ver o filme. E, quando esses milhões de americanos saíram das salas de exibição, saíram profundamente abalados. Gerentes de cinemas em todo o país relataram ter visto multidões em lágrimas, platéias em pé aplaudindo a tela vazia ao final da exibição. Depois das sessões, tanta gente ficava nas salas conversando com os desconhecidos sentados nas cadeiras ao lado que os cinemas foram obrigados a se reprogramar e ampliar os intervalos entre as exibições.

Nosso website recebeu uma enxurrada de e-mails, em média 6 mil por dia. Houve dias em que mais de 20 milhões de pessoas acessaram nossa página na Internet. Uma após outra, as pessoas contavam suas experiências ao ver o filme. Uma infinidade de mensagens começava com uma destas duas frases: "Nunca votei, mas neste ano vou votar" ou "Sou republicano e simplesmente não sei o que fazer".

Num ano eleitoral em que a presidência pode ser decidida por uns poucos milhares de votos, são comentários que tocam fundo - e assustadores para a Casa Branca. De acordo com uma pesquisa Harris, cerca de 10% dos que viram o filme eram republicanos. Destes, 44% disseram que recomendariam o filme a outros republicanos. Para 30%, o tratamento que o filme dá a Bush é "imparcial".

Outra pesquisa mostrou que mais de 13 % dos eleitores indecisos haviam assistido ao filme. Um pesquisador republicano, depois de fazer sua própria pesquisa informal assistindo ao filme com platéias de três cidades diferentes, me disse o seguinte: "Uns 80% dos que entram no cinema são eleitores de Kerry - mas 100% dos que saem são eleitores de Kerry. Não consegui encontrar ninguém que dissesse 'meu voto é do Bush' depois de passar duas horas assistindo ao seu filme".

Na Pensilvânia, estado que pode ser fundamental na definição da eleição, uma pesquisa do instituto Keystone mostrou que 4% dos votos declarados para Kerry tinham sido influenciados por Fahrenheit 11 de setembro (outros 2% foram creditados aos incessantes ataques lançados contra Bush por Howard Stern [polêmico radialista], que também defendeu vigorosamente o nosso filme).

Enquanto escrevo, falta pouco para o dia da eleição, e ninguém sabe em que é que tudo isso vai dar. O que sabemos é que Fahrenheit 11 de setembro sacudiu o país de um jeito que um filme raramente é capaz. Por esse privilégio, todos nós, os envolvidos em sua produção, somos extremamente gratos. Cinqüenta por cento desta nação não vota. Se esse percentual cair só uns pontinhos e isso tiver a ver conosco, então tudo terá valido a pena.

Por fim, enquanto esperamos que Fahrenheit 11 de setembro dê sua contribuição, nós somos, antes de tudo e sobretudo, cineastas e artistas. Trabalhamos duro para criar uma obra cinematográfica capaz de tocar as pessoas não só politicamente, mas também de um modo emocional, visceral. Espero que tenhamos dado uma contribuição a essa forma de arte que amamos tanto. Quem não gosta de ir ao cinema e rolar de rir, se surpreender, se estarrecer, cair no choro, se emocionar profundamente, experimentar o extraordinário, sair do cinema com vontade de entrar lá outra vez? Nós, que fazemos filmes, os fazemos por isso. É o que esperamos ter feito aqui.

Como tantos de vocês nos pediram o roteiro do filme - e todas as provas que sustentam o que dizemos nele -, decidimos publicar este livro. A palavra "roteiro" pode soar meio estranha quando se fala em documentário, mas a não-ficção também pode ser uma forma de escrever para cinema, tal como a ficção (a Writers Guild destacou isso pela primeira vez em 2002, ao conceder o prêmio de melhor roteiro original do ano a Tiros em Columbine). Documentários, além de geralmente não utilizar atores, também são diferentes dos filmes de ficção porque são escritos depois que o filme é rodado. Você entra na sala de edição com centenas de horas de filmagem e então precisa decidir qual é a sua história e construí-Ia – escrevê-la. Definitivamente é um sistema "carro-na-frente-dos-bois", o que de certa maneira implica um desafio maior que os filmes de ficção, nos quais o roteirista simplesmente diz a todo mundo o que cada um deve fazer. Nós não podemos mandar George W. Bush dizer uma coisa ou decidir o que John Ashcroft [procurador-geral que, depois de 11 de setembro, resolveu inspirar seus funcionários do Departamento de Justiça, começando cada dia com uma música] vai cantar. Mas é preciso quebrar muito a cabeça para decidir o que fazer com as coisas que são ditas - para determinar como se encaixam na história básica que queremos contar. E tudo isso vai sendo entrelaçado com a narração que eu escrevo. É um processo trabalhoso que leva meses, às vezes anos.

Publico o roteiro nestas páginas para que vocês possam ler o filme e redescobrir a montanha de informações e fatos que Fahrenheit 11 de setembro apresenta. É difícil absorver tudo em uma sessão. Espero que o roteiro os ajudem a descobrir pérolas que podem ter passado despercebidas, "enterradas" por cenas como a da chuva de ovos atingindo a limusine presidencial.

Para aqueles que andam sendo azucrinados pelo cunhado conservador que repete tudo o que escuta na FOX NEWS acerca de Fahrenheit 11 de setembro, este livro fornece toda a munição necessária para refutar todo e qualquer comentário louco dele sobre o filme. Os conservadores acham difícil acreditar que seu líder possa estar na cama com os caras errados, portanto em anexo estão todas as provas de que você precisa para ajudá-los a curar o porre. Afinal de contas, amigo não deixa amigo votar em republicano.

Também republico alguns dos melhores ensaios e críticas sobre o filme, escritos por gente mais esperta que eu, que decifrou o que eu pretendia antes que eu mesmo o fizesse. Os textos darão a vocês algumas boas sacadas sobre o significado do filme e seu lugar na história do cinema.

Um outro capítulo traz vários textos sobre alguns assuntos que são abordados no filme. Eu mesmo os escolhi. Quero que a discussão vá além do filme e passe a tratar das coisas que devemos fazer a partir de agora. Os textos trazem visões mais aprofundadas sobre a conexão Bush-sauditas (incluindo novas informações sobre os vôos da família Bin Laden após o 11 de setembro), sobre os motivos pelos quais nos enganaram para invadir o Iraque e também sobre o fracasso da imprensa, que não conseguiu fazer seu trabalho. Um artigo do Los Angeles Times de dez anos atrás fornece, possivelmente, a verdadeira história por trás da decisão da Disney de não distribuir Fahrenheit 11 de setembro.

Para terminar, quero compartilhar com vocês alguns daqueles e­-mails que recebi do público. Eles ainda me comovem, e acho que vão comover vocês. Incluímos também algumas de nossas charges favoritas publicadas em grandes jornais diários.

Acho que nenhum de nós, da turma que trabalhou em Fahrenheit 11 de setembro, tinha a menor noção de que o filme iria se transformar em um acontecimento central neste ano eleitoral histórico. A gente só queria fazer um bom filme. Acho que conseguimos. E espero que vocês apreciem este livro que agora o acompanha. Algum dia, depois que tudo isso passar e eu tiver tempo de refletir sobre seu significado, dividirei a história com vocês. Mas isso não pode ser feito neste momento. Neste momento, embora concluído, o filme de certo modo ainda está sendo feito. O verdadeiro final só vai ser escrito em 2 de novembro [data oficial das eleições, embora a votação tenha começado em 18 de outubro na Flórida e em outros estados] de 2004 e nos meses seguintes. Isso transforma todos vocês em meus co-autores.


MICHAEL MOORE

Nova York

Agosto de 2004

PARTE I
Fahrenheit 11 de setembro

Roteiro
Narração de Michael Moore
Fogos de artifício explodem no ar enquanto um triunfante AI Gore comemora no palanque. Ao fundo, num grande painel luminoso, está escrito: "Vitória na Flórida". Gore está cercado de celebridades.
NARRADOR

Será que tudo não passou de um sonho?


AL GORE

Deus abençoe a Flórida! Obrigado.


NARRADOR

Será que os quatro últimos anos não aconteceram? Olha lá, Ben Affleck estava lá, ele sempre aparece nos meus sonhos. O cara de Taxi Driver [o ator Robert De Niro, astro do filme dirigido por Martin Scorsese em 1976] estava lá também. E o pequeno Stevie Wonder, tão feliz... como se tivesse presenciado um milagre.

Será que foi tudo um sonho?

Ou aconteceu de verdade?

Era a noite da eleição de 2000, e tudo parecia sair conforme o planejado.
Montagem: trechos de vários noticiários
TOM BROKAW (NBC NEWS)

Em Nova York, nossas projeções indicam vitória de AI Gore.


DAN RATHER (CBS NEWS)

Em Nova Jersey, vence AI Gore.

Nossas projeções indicam a vitória do Sr. Gore em Delaware. Esse estado votou com o vencedor.

Desculpe interromper por um segundo, Mike, mas a notícia é muito importante. AI Gore venceu na Flórida.


JUDY WOODRUFF (CNN NEWS)

A CNN anuncia vitória de AI Gore na Flórida.


NARRADOR

Foi então que uma coisa chamada FOX NEWS CHANNELL declarou que o vencedor era o outro cara.


BRIT HUME (FOX NEWS)

Interrompendo: a FOX NEWS agora projeta vitória de Bush na Flórida. Com isso, Bush deve ser o vencedor da eleição presidencial americana.


NARRADOR

De repente, todas as outras redes de TV disseram: "Ei! Se a FOX está dizendo, deve ser verdade!".


TOM BROKAW (NBC NEWS)

Todos nós, das redes de notícias, cometemos um erro ao projetar a vitória de AI Gore na Flórida. Foi um erro nosso.


Cena: John Ellis trabalhando na FOX NEWS, entre telefones e monitores, na noite da eleição
NARRADOR

Bem, o que a maioria das pessoas não sabe é que o homem que tomava as decisões na FOX naquela noite - o homem que declarou que a vitória era de Bush - era ninguém menos que John Ellis, primo de Bush. Como é que um cara como o Bush consegue se dar bem com uma coisa dessas?!


Cena: Bush às gargalhadas
NARRADOR

Os irmãos Bush [George e Jeb, governador da Flórida] no avião.

Para começar, ajuda muito se o seu irmão é o governador do estado em questão.


GEORGE W. BUSH

Sabe de uma coisa? Nós vamos ganhar na Flórida. Estou dizendo.

Pode escrever aí.
NARRADOR

Cenas de Katherine Harris, da Database Technologies, e de eleitores nas urnas
Em segundo lugar, você precisa garantir que a sua chefe de campanha seja também a responsável pela contagem nos votos no estado. E que o estado tenha contratado uma empresa que elimine das listas de votação os eleitores que provavelmente não votariam em você. Em geral, dá para saber pela cor da pele quem são esses caras. Depois, certifique-se de que a turma do seu lado lute como se fosse questão de vida ou morte.
JAMES BAKER (EX-SECRETÁRIO DE ESTADO, ADVOGADO DE BUSH)

Acho que toda essa conversa sobre legitimidade é um enorme exagero.


MULTIDÃO PROTESTA CONTRA A RECONTAGEM DE VOTOS NA FLÓRIDA

Presidente Bush! Presidente Bush!


NARRADOR

Cena: os líderes democratas no Congresso, deputado Richard Gephardt e senador Tom Daschle, no gabinete olhando para os telefones.
Então, torça para que a turma do outro lado fique de braços cruzados, aguardando o telefone tocar.

E ainda que várias investigações independentes comprovem que Gore recebeu mais votos...


JEFF TOOBIN (CONSULTOR DA CNN NEWS)

Se houvesse uma recontagem geral de votos no estado, em qualquer

cenário Gore seria o vencedor.
NARRADOR

... Isso não tem importância. Basta que todos os amigos do seu pai na Suprema Corte votem direitinho.


AL GORE

No discurso em que concedeu a vitória a Bush.
Apesar de discordar "firmemente da decisão da Suprema Corte, eu a aceito.
SENADOR TOM DASCHLE

Anuncia à imprensa a posição dos democratas diante da decisão da Suprema Corte.
O que é preciso fazer agora é aceitar. Temos um novo presidente eleito.

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