Falar que não é objetivo reviver o debate, mas tomá-lo como dado e como ponto de partida retomar brevemente o debate sobre



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Do homem smithiano ao homo economicus: egoísmo e dissolução da moral1


Área 1 - Escolas do pensamento econômico, metodologia e economia política


Nome: Róber Iturriet Avila

Titulação: Bacharel em ciências econômicas, aluno do mestrado em economia do desenvolvimento.

Afiliação Institucional: Aluno do Programa de Pós Graduação em Economia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e professor substituto da Universidade Federal do Rio Grande – FURG.

RESUMO: Este artigo se propõe a remontar a dissolução ocorrida no tempo em que a Economia Política buscava limitar seu campo de estudo. Centrando-se ao que toca a percepção sobre a conduta humana e suas conexões com a economia. Para tanto, é desenvolvida a visão de Adam Smith sobre o comportamento dos homens e também as modificações subsequentes originadas nas diferentes concepções dos autores da escola clássica e da neoclássica. Neste intento, é retraçado o caminho da consolidação do postulado do egoísmo, assim como os percalços e controvérsias deste percurso. São explorados os elementos que auxiliaram na transformação do homem smithiano em homo economicus. Adicionalmente, é verificado que a confusão de conceitos traz referência de apologia ao egoísmo, advindo do desenlace da economia com as questões morais.

Palavras-chave: Postulado do egoísmo, homo economicus, moral, simpatia, positivismo.

ABSTRACT: This paper is proposed to reassemble the dissolution occurred when the Political Economy sought to limit their field of study. Focussing regarding the perception about human conduct and its connections with the economy. To do that, it is developed the perception of Adam Smith about human behavior, and the subsequent changes resulting from different conceptions of classical and the neoclassical authors. In this attempt, is showed the way of the consolidating of self-interest premise, the mishaps and controversies of this path. It is explored the elements that collaborated in the transformation of Smithian man into homo economicus. Additionally, it is observed that the confusion of concepts suggests defense of egoism, as a result of the distinction between moral and economic aspects.

Key-words: Self-interest premise, homo economicus, moral, sympathy, positivism.


JEL: B49 , B00

1. Introdução
No intuito de investigar os efeitos da ação humana na economia e de padronizar tal relação, constituiu-se, ao longo do tempo, uma concepção específica sobre o comportamento do homem. Ele foi concebido como sendo movido pelos seus interesses, sem preocupar-se com os efeitos de seu comportamento sobre a coletividade e sobre a sua imagem perante os demais.

No entanto, o pesquisador que se debruça sobre as construções teóricas e metodológicas de Adam Smith, John Stuart Mill, John Neville Keynes entre outros autores que solidificaram o campo de pesquisa da economia, observa que há uma ruptura durante este percurso do pensamento econômico. Mais do que isso, a conduta humana passou por uma metamorfose deste o homem smithiano até o homo economicus.

É nítido, adicionalmente, que esta cisão ocorreu enquanto os temas ligados à filosofia moral foram sendo excluídos dos limites da economia, ao tempo em que a Economia Política se transformava em Ciência Econômica. Este passo fez a economia não mais questionar como a conduta humana é, ignorando suas facetas morais que limitam o egoísmo e que influenciam nas decisões dos agentes econômicos.

Sob este preâmbulo, este trabalho se propõe a demonstrar como se deu tal transformação e apontar, adicionalmente, quais são as contradições e as dificuldades advindas deste percurso. Neste intento, torna-se necessário expor a conduta humana do ponto de vista do filósofo moral Adam Smith, não apenas no que toca às relações econômicas, mas também de uma forma mais ampla, na sociabilização em geral. Conveniente também é apresentar as interpretações2 sobre a existência de uma ruptura ou de uma continuidade na obra de Smith, assumindo, entretanto a visão majoritária de que houve continuidade. Tema este explorado na seção 2.

Ao se observar esta mudança, são notáveis as influências de correntes filosóficas e metodológicas. Deste modo, a seção 3 visa demonstrar como se deu esta transformação sob o ângulo dos elementos que explicam este nexo, ao tempo em que busca reconstruir o caminho trilhado por notáveis autores clássicos e neoclássicos que penetraram neste tema.

Já a seção 4 procura abordar as motivações presentes no agente econômico, as quais foram isoladas no homo economicus, assim como as dificuldades e contradições desta construção metodológica. O instrumento utilizado não ficará restrito às interpretações do rumo tomado, são valiosas também para exprimir suas concepções as próprias palavras dos principais autores que determinaram esta construção metodológica, dentre eles John Stuart Mill, John Neville Keynes e Lionel Charles Robbins.

Convém apresentar também as diferentes interpretações de “egoísmo” e as confusões efetuadas em torno dos termos que qualificam o agente econômico, as quais sugerem que a ciência econômica faz apologia ao egoísmo. Tema este desenvolvido na seção 5. Por fim, estão registradas as conclusões no ponto 6.

2. A percepção smithiana sobre a conduta humana
A publicação de Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (RN) por Adam Smith em 1776 é convencionalmente referida como o nascimento da economia enquanto disciplina autônoma. Apesar deste trabalho ser o mais conhecido do autor, ele próprio intitulou Teoria dos Sentimentos Morais (TSM) como seu livro mais importante3. Diversas interpretações4 compreendem que em TSM Smith se centrou na moral, sob influência de Francis Hutcheson e David Hume, explorando o desejo humano de ser aprovado através do autocontrole, atingindo, assim, a simpatia5.

Inversamente, em a RN, Smith teria explorado um outro universo separado, a economia, tendo influência de Thomas Hobbes e Claude Adrien Helvétius. Neste caso, haveria uma ruptura com a metafísica e com a moralidade, o que significa uma dissociação do mundo do egoísmo (economia) ao mundo da simpatia (moralidade), as quais poderiam ser analisadas em diversos prismas sem conflitos. Sob tal contexto, o homem na economia age de maneira egoísta. Esta separação marcaria a emancipação da economia em relação à filosofia. Percepção referendada pela célebre frase:


Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua auto-estima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles (SMITH, 1996, p.74).
Embora o debate em torno da percepção do homem por Adam Smith seja extenso e propenso a diversas controvérsias, a visão6 de que há continuidade ao longo da obra de Smith é presentemente majoritária. Este entendimento se funda em elementos factuais7 e também nos argumentos interpretativos. Smith, em TSM, apresenta um homem preocupado em obter aprovação da sociedade. Em busca desta, ele se assenta no autodomínio.

Lux aponta duas doutrinas éticas que influenciaram Smith: a “sentimental” e a “egoísta”. A primeira reconhece na natureza humana a capacidade de ter compaixão e uma benevolência desinteressada. Tal habilidade é oriunda da possibilidade de colocar-se no lugar do interlocutor. As evidências para tais proposições estariam nas recompensas naturais com que os homens respondem às virtudes e as punições que impõem aos vícios. Sob estas bases, o homem descrito por Smith tem sua natureza sociável. De forma que ele se empenha para obter um comportamento virtuoso e isso faz ele emanar simpatia. Ela é adquirida a partir do compartilhamento das paixões, ou seja, da confluência de emoções. Ao mesmo tempo, há nele um espectador imparcial, o juiz da conduta. Este espectador autoavalia-se8, controlando suas ações.

Esta perspectiva conduz à moralidade e permite, ainda que o homem seja apto a agir acima de seu interesse. Smith expõe ainda que as virtudes morais variam de acordo com a conveniência. Em assim procedendo, o sujeito egoísta está submetido à sociabilização (aprovação de terceiros) e ao espectador imparcial dele mesmo –autodomínio, que permite o ajuste do egoísmo ao desejo de ser sociável e conveniente, desencadeando em redução de paixões egoístas (LUX, 1993).

O homem smithiano analisa também se o comportamento é decente ou deselegante, passível de recompensa ou de punição. Todo este processo de investigação própria e alheia encoraja a moderar os sentimentos. Quando o espectador imparcial se aprova, há simpatia consigo, ou amor-próprio9. Desta forma, o amor-próprio está vinculado com o julgamento do “terceiro”, mas que neste caso, é de si, ou seja, o julgamento dos nossos próprios atos deriva do julgamento feito a outrem (TORRES, 1998).

Além da simpatia como chave da sociabilidade, que regula a conduta humana, Smith considera ainda outras paixões como a bondade, a generosidade, a compaixão, a amizade, a beneficência e a justiça. Nesta busca, a paciência, a probidade, a prudência e a franqueza são desejáveis. Cabe ainda “[...] o amor ao que é honrado, nobre, à grandeza, dignidade e superioridade de nossos próprios caráteres” (SMITH, 1999, p. 167).

Smith entende ainda que o homem não pode exagerar na estima por si, evitando a desaprovação. Assim, mesmo que haja o interesse próprio, este está sob o controle do espectador imparcial que investiga o interesse pessoal, ou seja, há conciliação do interesse próprio com o dos outros. O indivíduo virtuoso “age de acordo com as regras da perfeita prudência, da justiça estrita e da benevolência adequada” (SMITH, 1999, p. 297).

Presente está também o amor por si: “a preocupação com a nossa própria felicidade nos recomenda a virtude da prudência, a preocupação com as outras pessoas, as virtudes da justiça e da benevolência” (SMITH, 1999, p. 327, grifos acrescentados).

Contudo, este mesmo homem que se vigia, procura a virtude e a aceitação, também efetua trocas. Justo o ponto de controvérsias. Entretanto, trata-se de um caso particular de sociabilização: a econômica. Esta se dá pela troca de trabalho, que é a cooperação para a sobrevivência. Cada fragmento da sociedade efetua uma parcela de trabalho e troca pelo trabalho dos demais. O padeiro faz uma parte e contribui para a harmonia social, evitando que o trabalho necessário para a subsistência seja implementado isoladamente.

Smith acrescenta que o homem, na sociabilidade econômica, busca o seu interesse, a riqueza, mas sem violar a lei da justiça10, mesmo que esta relação seja a mais impessoal. Deste modo, o egoísmo em Smith significa a meta do ganho, escolher o melhor para si. Sujeito, no entanto, à sociabilidade geral que exige moderação de vícios para não ser desaprovado e manter a simpatia, um comportamento econômico que observa a conduta moral nos limites da prudência.

Há no homem também o prazer no benefício alheio:


Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros, e considera a felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada extraia disso senão o prazer de assistir a ela (SMITH, 1999, p.5).
O egoísmo em Smith está, portanto, restrito à busca da riqueza de forma digna, mas ele é socialmente aceito, já que é polido pela moralidade. Desta maneira, as relações econômicas estão submersas nas relações sociais (morais) e não se separam. Sendo a convivência adequada à sociabilização.

Quintana (2001) pontua que Smith parte da filosofia moral para compreender todas as esferas das relações interpessoais, assim como seu caso particular: a economia política. Explicando a sociedade a partir da interação moral.

Do ponto de vista smithiano, a economia política (RN) requeria uma explicação prévia das questões morais (TMS). Assim, há interpenetração entre o comportamento moral e o econômico à medida que a busca do ganho privado não elimina os laços entre os homens (TORRES, 1998).

Calcadas nas bases do egoísmo em Smith, pensadores elaboraram proposições que buscam no comportamento humano a fundamentação das leis econômicas. Embora Smith estivesse assentado nas premissas que vislumbram a iniciativa individual e a propriedade privada como motivações para o ganho, o progresso da ciência econômica deixou o homem mais individualista na busca de seu lucro.

David Ricardo (1771-1823) torna a economia mais objetiva, com leis universais, eliminando parte do subjetivismo11 de TSM. Mesmo que ele não foque no indivíduo, também entendia que a dimensão máxima do homem residia no autointeresse (FONSECA, 2003). Deste modo, há um equívoco ao se considerar que o rumo tomado pela ciência econômica, que será esmiuçado na seção seguinte, está referendado pelas considerações de Smith no que toca o egoísmo humano.
Seja pour convicção ou ironia o resultado aponta para um destino onde o indivíduo, fechado em si próprio, constrói um mundo regido pela lei da selva. O homo oeconomicus da economia ortodoxa moderna encontra nele muito mais motivos de inspiração do que na obra de Smith [...] Certas interpretações da obra de Smith estão, à partida, mutiladas pela leitura parcelar do seu trabalho, circunscrita à Riqueza das Nações. Este livro, sem dúvida, extraordinário, revela-se todavia insuficiente para apreender o sentido amplo da mensagem do seu autor (TORRES, 1998, p. 119-120, grifos no original).
Smith considera ser a interação do agente com o grupo a fonte de transformação do homem em ser moral. Desta maneira, o individualismo firmado ao longo do caminho da ciência econômica é diferente da concepção deste pensador. Como destaca Torres (1998), a economia se emancipou da filosofia moral com “mutilações” do pensamento smithiano, de tal forma que foi se separando das ciências sociais.

Logo, a interpretação da frase célebre antes citada é parcial e descontextualizada do resto da obra de Smith, já que a busca do interesse próprio está em consonância com a adequação do convívio social. No capítulo em que ela se encontra, Smith intenta demonstrar como as pessoas são mutuamente dependentes, de forma a delinear a divisão do trabalho (LUX, 1993). Deste feito, Ganem acentua que “[...] o nascimento da economia em Adam Smith não se faz rompendo com a moralidade” (Ganem, 2000, p. 31, grifos no original). Ao que parece, entender a economia exige compreensão da filosofia moral, ao menos em Smith.


Desde modo, se é verdade que emprega o conceito de self-love como necessário à actividade e ao progresso económico, não é no sentido individualista e egoísta do homo oeconomicus fechado sobre si próprio, cujas “virtudes” fariam pretensamente obstáculo ao contágio das paixões. É antes no sentido de “amor-próprio” ou mesmo de “auto-estima” que precisa do aval social (simpatia) para se desenvolver. Com vantagem para o próprio indivíduo, evidentemente, mas sem que este se corte da sociedade. O self-love só é individualista e egoísta nessa medida [...] se subordinarmos as análises da RN ao sistema da TMS, somos conduzidos a inverter as conclusões individualistas da economia convencional (TORRES, 1998, p. 118, grifos no original).
Assim sendo, Smith foi mal interpretado.Contudo, a mudança ocorrida no que tange a postura egoísta do homem teve outros motivadores que não apenas a descontextualização da obra de Smith. Desta maneira, faz-se necessário estudar como se deu esta ruptura e quais são os nexos que a explicam.

3. Elementos que influenciam na ênfase do egoísmo
Entre a concepção que Smith tinha sobre o egoísmo humano e a transformação subsequente deste comportamento, há uma larga distância. Não apenas porque parte da obra de Smith ficou esquecida, mas muito fundamentalmente por outras influências que penetraram na ciência econômica. Desde de conceitos filosóficos, passando por questões da própria metodologia da ciência, até a necessidade de limitar o escopo de estudo da ciência econômica. Estas mudanças, não se deram, no entanto, sem contradições e confusões de conceitos. Houve ainda fragmentos da análise smithiana que foram ignorados. Impõe-se, portanto, a desconstrução deste caminho, ou seja, analisar as principais influências sobre este rumo de forma segmentada, nos elementos que explicam esta variação.

3.1. Influência do positivismo
À medida que o positivismo12 passou a obter influência na economia política, objetos de pesquisa a que Smith se dedicou formam mutilados do escopo da ciência. Os economistas passaram a interpretar que a ciência econômica não deveria discutir a conduta humana, e sim se apegar a fatos econômicos: “a Senior devemos a primeira exposição da agora familiar distinção entre uma pura e estritamente positiva ciência e uma impura e inerentemente normativa arte da economia” (BLAUG, 1994, p.101, grifos no original). William Nassau Senior (1790-1864) entende que o economista não está autorizado a proferir orientações. Ele acentua ainda que não está no escopo da economia política o estudo do bem-estar (SCHUMPETER, 1964).

Na esteira destas posições, John Stuart Mill (1806-1873) detalha esta divisão de verdades materiais e regras normativas na preocupação de demarcar os limites da ciência: “[...] uma negocia com fatos [...] a outra com preceitos. A ciência é uma coleção de verdades; a arte, um corpo de regras ou direções de conduta” (MILL, 1974, p. 293). Mas não necessariamente ela está proibida de se relacionar com a ciência “a Arte se propõe um fim a ser atingido, o define e entrega à ciência. A ciência o recebe considerando-o como um fenômeno ou efeito a ser estudado e , tendo investigado suas causas e condições, envia-o à Arte” (MILL, 1999, p. 146-147). Mesmo assim, Smith, de acordo com o autor, haveria misturado a ciência com a arte.

Posição esta defendida também por Marie-Esprit-Léon Walras (1834-1910). O autor critica Smith alegando que ele confundiu a justiça com o interesse, entende ainda que é impossível a ciência ser natural e moral ao mesmo tempo (VALENTIN, 2003). A concepção que Smith tem da economia política está, para ele, predominantemente composta por “arte” e não pela “ciência” (WALRAS, 1988, p.12).

Walras, entretanto, faz uma distinção tripartite13: há “ciência”, “arte” e “moral”. A primeira observa relações, as expõe e as explica. A segunda aconselha e prescreve. Já a moral estuda “o que deve ser” do ponto de vista da justiça. Assim, a arte se refere a relação entre “coisas e pessoas” e a moral apenas entre “pessoas”.

No caso da economia, Walras chama a “arte” de economia política aplicada e a “ciência” de economia política pura”. Ou seja, Walras define ciência como Senior, mas divide a “arte” em duas. Mais precisamente: “aquilo que deve ser, do ponto de vista do interesse, é o objeto da ciência aplicada ou arte, aquilo que deve ser, do ponto de vista da justiça, é o objeto da ciência moral ou da moral” (WALRAS, 1988, p.19).

Walras acentua que “[...] o caráter da ciência propriamente dita é o completo desinteresse por qualquer conseqüência vantajosa ou prejudicial quando se dedica à busca da verdade pura” (WALRAS, 1988, p.12). Se as decisões são boas ou más não compete à economia discutir. Em assim procedendo, o autor afastou com maior ênfase questões morais do campo de estudo da economia. Em sua perspectiva, ela estudaria no máximo arte, embora, em suas pesquisas, tenha se dedicado à ciência.

Logo, a economia deve abster-se de julgamentos de valor na busca da verdade, vendo a realidade como ela é. Já nos estudos com proposições não testáveis como ideologia, cultura e fé, a metafísica passa a ser admitida (FONSECA, 2003).

Ainda que Walras, resgatando Mill e Senior, sublinhe que a ciência tem seu interesse na teoria, ele considera que a arte pode e deve utilizar a ciência. Ou seja, ele reconhece que existem pontos de contato entre a ciência e a arte. Mais do que isso, ele assume que a arte valoriza as descobertas feitas pela ciência, pois as tornam úteis à sociedade. Mas mesmo que ela aplauda o bem e a justiça, as mantém fora dos limites da economia política (WALRAS, 1988).

A este ponto, se torna patente a dissociação ocorrida na ciência econômica, enquanto esta se distanciou da filosofia moral e deixou de avaliar relevantes fatores da conduta humana. Alfred Marshall (1842-1924) destaca que “[...] ela [a Economia] é, portanto, uma ciência ao mesmo tempo pura e aplicada, mais do que uma ciência e uma arte. E é melhor, para designá-la, servir-se da expressão lata de ‘Economia’, do que da mais restrita ‘Economia Política’” (MARSHALL, 1982, p.54). Obedecendo a sua própria sugestão, Marshall intitula seu principal livro de Princípios de Economia.

Ramos (1993) acentua que Lionel Charles Robbins (1898 - 1984), inicialmente, compreendia que o economista não deveria escolher o fim de seus estudos, mas restringir-se aos aspectos técnicos, ou, dito de outra maneira, às implicações do comportamento humano. Contudo, tal posição não foi bem recebida. Deste modo, Robbins separou dois segmentos de estudo: a economia (positiva) e a economia política. Esta última admite juízos de valor, avalia os benefícios e os prejuízos, assim como recomenda políticas. Ou seja, Robbins a classifica como normativa. Sob esta distinção, a RN estaria relacionada às duas facetas da economia, já que há a prescrição de políticas. A ciência econômica, neste caso, desconsidera fragmentos morais do comportamento humano. Robbins vê, então, que o papel do economista (positivo) não deve se ater aos fins, e sim nos meios para atingir os fins dados. Mesmo assim, ele achava ser conveniente o estudo de questões éticas pelos economistas, de forma a ponderar os fins da sociedade (RAMOS, 1993). Ramos (1993), por outro lado, entende que a economia está subordinada à filosofia moral, já que ela estuda um aspecto do comportamento humano. Assim, a realidade humana está vinculada às suas finalidades éticas ou morais. Deste modo, o autor pontua que há integração entre as das vertentes normativa e positiva.

Mas de fato o termo “economia” ganhou mais projeção a partir de Marshall. Após isto, o termo “Economia Política” caiu em desuso e ficou à margem. Ou, sobre este ângulo, os aspectos normativos perderam espaço para a economia positiva, de modo que o estudo dos fins da sociedade ficou relegado (RAMOS, 1993).

Importa ressaltar que Mill, Walras, Robbins e Marshall consideram importante a face normativa da economia. Não achavam pouco relevante o estudo sobre valores humanos e sua conexão com a economia. Ainda assim, acabaram por não se deter em tais estudos, mesmo que aconselhassem que devessem ser feitos. O percurso por eles dado que solidificou esta fragmentação, acabou por determinar que estes temas ficassem à margem dos estudos da ciência econômica.



3.2 Influência do utilitarismo e do individualismo metodológico
Jeremy Bentham (1748-1832) difunde a filosofia utilitarista14 que penetra na economia. O utilitarismo hedonista entende que os homens são movidos para satisfazer os seus desejos, ou seja, cada um faz o que é melhor para si em busca de seus fins. Trata-se, portanto, de uma explicação individualista para a ação, de modo que a sensação de prazer não está relacionada com as relações sociais (AUGUSTO, 2009).

Senior elabora a máxima, em forma de axioma, de que todas as pessoas desejam maximizar a riqueza com o mínimo de sacrifício. Passa a ser assumido de forma mais intensa, portanto, a premissa de que as ações dos homens são determinadas pelos seus interesses. Assim como o conceito de que as motivações intrínsecas da natureza humana refletem o ser humano em geral. Na construção deste postulado, há uma excessiva ênfase no egoísmo, tido como a exteriorização da essência humana eterna e previamente existente (GERMER, 2003)

Neste desencadear, ao tempo que se separam as questões morais da economia e que se assume que a natureza humana é egoísta, o individualismo metodológico15 instala-se para explicar as relações econômicas. Sob esta visão, os agentes autônomos e isolados, proporcionam o bem-estar social, haja vista que cada um fará o que é melhor para si, o que, dito em outras palavras, significa que a sociedade como um todo terá o melhor possível (GANEM, 2003).

Desta forma, tendo um agente econômico que faz o melhor para si, pesando seus fins e seus meios e tomando este agente como o ponto de partida para os fenômenos sociais, há a junção do interesse próprio do utilitarismo hedonista, que, somado ao não questionamento dos aspectos morais ou normativos, desencadeia na distorção do egoísmo encontrado em Smith.

Após tomar-se de base a interpretação parcial de Smith, vendo o egoísmo separado dos aspectos morais e não mais questionando o comportamento humano, o hedonismo ganha força juntamente com o individualismo. Assim, as intenções individuais, base do individualismo metodológico, são resumidas ao interesse próprio, tido como o objetivo do homem. Solidificando, portanto, o postulado do egoísmo na teoria econômica.

É particularmente Mill quem faz aumentar o papel do indivíduo na construção metodológica da análise econômica. Ainda assim, após a obra deste autor, se acentuou o individualismo metodológico, já que ele ainda via o homem submerso numa rede de outras motivações. Os neoclássicos, entretanto, analisam o homem de forma a não questionar outros valores que não o seu egoísmo (PAULANI, 1998). Ainda que Mill tenha percebido que, de acordo com Schumpeter (1964, p.189), o esquema utilitarista é inadequado, assim como que tais máximas são de pouca aplicabilidade, ele auxiliou na penetração do utilitarismo na economia. Deste modo, o postulado do egoísmo ganhou um aliado para se firmar.

A análise no nível individual passa a desconsiderar que o agente avalie algo que não é de seu interesse nas decisões. A racionalidade16 se torna “[...] preferir mais a menos, escolher a mais alta taxa de rendibilidade, minimizar os custos unitários e, sobretudo, prosseguir o interesse próprio sem qualquer atenção explícita para o bem-estar dos outros” (BLAUG, 1994, p. 323-324, grifos acrescidos).

Além de não se encontrar esta proposição em Smith, ela é diametralmente oposta à já citada sentença deste, a qual é pertinente refrisar:


Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros, e considera a felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada extraia disso senão o prazer de assistir a ela (SMITH, 1999, p.5).


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