Família e casal



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FAMÍLIA E CASAL:

efeitos da contemporaneidade



Reitor

Pe. Jesus Hortal Sánchez SJ



Vice-Reitor

Pe. Josafá Carlos de Siqueira SJ



Vice-Reitor para Assuntos Acadêmicos

Prof. José Ricardo Bergmann



Vice-Reitor para Assuntos Administrativos

Prof. Luiz Carlos Scavarda do Carmo



Vice-Reitor para Assuntos Comunitários

Prof. Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio



Vice-Reitor para Assuntos de Desenvolvimento

Pe. Francisco Ivern Simó SJ



Decanos

Profª Maria Clara Lucchetti Bingemer (CTCH)

Prof. Luiz Roberto A. Cunha (CCS)

Prof. Reinaldo Calixto de Campos (CTC)

Prof. Hilton Augusto Koch (CCBM)

FAMÍLIA E CASAL:

efeitos da contemporaneidade

Terezinha Féres-Carneiro

Organizadora

© Editora PUC-Rio

Rua Marquês de S. Vicente, 225 – Projeto Comunicar

Praça Alceu Amoroso Lima, casa da Editora (atrás da DAR)

Gávea – Rio de Janeiro – RJ – CEP 22453-900

Telefax: (21)3527-1838/3527-1760

Site: www.puc-rio.br/editorapucrio

E-mail: edpucrio@puc-rio.br



Conselho Editorial

Augusto Sampaio, Cesar Romero Jacob, Fernando Sá, José Ricardo Bergmann,

Luiz Roberto A. Cunha, Maria Clara Lucchetti Bingemer, Miguel Pereira e

Reinaldo Calixto de Campos.



Projeto Gráfico do Miolo

José Antonio de Oliveira



Revisão de originais

Débora de Castro Barros

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou

transmitida por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e

gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão

escrita da Editora.

ISBN 978-85-87926-74-6

©Editora PUC-Rio, Rio de Janeiro, Brasil, 2009.

Família e casal: efeitos da contemporaneidade /organização:

Terezinha Feres-Carneiro. – Rio de Janeiro : Ed. PUC-Rio, 2005.

320 p. ; 21 cm

Inclui bibliografia.

1.Família. 2. Família – Aspectos psicológicos. 3. Casamento.

4. Casamento – Aspectos psicológicos. I. Carneiro, Terezinha Féres.

CDD: 306.8

Sumário

Apresentação........................................................................................... 7



Terezinha Féres-Carneiro – PUC-Rio

Nem tudo que muda, muda tudo:

um estudo sobre as funções da família.................................................... 11

Maria Consuêlo Passos – PUC-SP e UNIMARCO

Conquistando a herança:

sobre o papel da transmissão psíquica familiar

no processo de subjetivação.................................................................... 24



Andrea Seixas Magalhães e Terezinha Féres-Carneiro – PUC-Rio

Família e educação: aspectos relativos a diferentes gerações..................... 33



Adriana Wagner – PUC-RS

Famílias monoparentais adotivas:

a importância de uma rede de apoio....................................................... 50

Lidia Levy – PUC-Rio

Sintaxe subjacente a atitudes e percepções entre cônjuges....................... 58



Cílio Ziviani – PUC-Rio

Atitudes de jovens solteiros frente à família e ao casamento:

novas tendências?................................................................................... 93

Bernardo Jablonski – PUC-Rio

Conjugalidade dos pais e projeto dos filhos

frente ao laço conjugal......................................................................... 111

Terezinha Féres-Carneiro e Andrea Seixas Magalhães – PUC-Rio

Variações sobre um antigo tema:

a maternidade para mulheres

com uma carreira profissional bem-sucedida......................................... 122



Maria Lúcia Rocha-Coutinho – UFRJ

A História e as histórias de mulheres sobre o casamento e a família....... 138



Gláucia Diniz e Vera Coelho – UnB

Avós que criam seus netos: circunstâncias e consequências.................... 158



Cristina Maria de Souza Brito Dias, Juliana Monteiro da Costa e

Verônica Alves Rangel – UNICAP

Da solidão à solidariedade:

grupos de familiares de idosos com demência....................................... 177

Vera Coelho e Gláucia Diniz – UnB

“O excesso de alguma coisa é a falta de alguma coisa.”

Mas o que estará faltando? A obesidade mórbida em questão................ 200

Maria do Carmo Cintra de Almeida Prado – UERJ

Uma crítica epistemológica da clínica e

da pesquisa familiar da esquizofrenia..................................................... 223

Ileno Izídio da Costa – UnB

Famílias na rede de saúde mental e esquizoanálise:

uma aproximação possível.................................................................... 251

Roberta Romagnoli – PUC-Minas

Violência simbólica e organizações familiares....................................... 266



Paulo Roberto Ceccarelli – PUC-Minas

A difícil arte da convivência conjugal:

a dialética do amor e da violência......................................................... 278

Maria de Fátima Araújo – UNESP

Perspectivas da clínica ampliada face a uma morte anunciada................ 294



Teresa Cristina Carreteiro – UFF

A formação clínica do estagiário de psicologia

em atendimento a casais e famílias na abordagem psicanalítica.............. 304

Isabel Cristina Gomes – USP

Sobre os autores................................................................................... 317

7

Família e casal: efeitos da contemporaneidade divulga o conjunto de

pesquisas debatidas pelos membros do Grupo de Trabalho “Casal e

família: estudos psicossociais e psicoterapia”, reunido no X Simpósio

Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP – Associação

Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia, em Aracruz,

Espírito Santo, em maio de 2004. Participaram do referido GT

19 pesquisadores de sete Estados brasileiros, filiados a 12 universidades,

e cujas publicações compõem uma parte significativa da produção brasileira

na área. A metodologia de trabalho do grupo foi muito produtiva

e instigante: os textos a serem discutidos foram disponibilizados

com mais de um mês de antecedência e lidos antes do Simpósio pelos

membros do grupo, havendo para cada texto um relator cuja principal

função consistia em fazer uma síntese e pontuar as questões que eram,

em seguida, discutidas com o autor e os demais participantes.

Dos 18 trabalhos de pesquisa discutidos e apresentados nesta coletânea,

13 fazem referência a dados empíricos da família e/ou do

casal, provenientes da clínica ou do contexto psicossocial, variando de

estudos de caso único a estudos quantitativos com grandes amostras.

Os cinco trabalhos teóricos apresentam uma trama conceitual bastante

relevante para a discussão da estrutura e da dinâmica da família e do



Apresentação1

Terezinha Féres-Carneiro

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

1 Participaram da organização deste livro as bolsistas de Iniciação Científica: Bianka Andrade

Bruno, Clara Duarte Guimarães, Paula Jardim, Rebeca Nonato Machado, Renata

Stellmann de S. Lima, Suliane Porto e a bolsista de Apoio Técnico Renata Mello.

8 Família e Casal

casal. Assim, dentre as modalidades de pesquisa desenvolvidas, destacam-

se pesquisas teóricas, pesquisas clínicas, pesquisas-intervenção e

pesquisas em abordagens quantitativa e qualitativa.

As discussões do GT basearam-se em um eixo central, tendo

como ponto de partida uma tentativa de correlacionar pesquisas nas

áreas clínica e social. Os trabalhos discutidos e aqui apresentados cobrem

todo o ciclo de vida da família – crianças, adolescentes, adultos

e idosos –, abordando múltiplas temáticas. Nos trabalhos empíricos

destacam-se as seguintes questões: práticas educativas, educação de

crianças pelos avós, atitudes e expectativas quanto ao casamento, conjugalidade

dos pais e projeto de casamento dos filhos, intersubjetividade

dos cônjuges, maternidade e paternidade, saúde e família, relação

entre trabalho e família, tendo como foco os adolescentes. Nos trabalhos

teóricos são analisados temas como: transmissão psíquica geracional,

família e esquizofrenia, interação conjugal, violência simbólica,

diferentes abordagens na terapia de família. Na pesquisa-intervenção

abordam-se questões relacionadas à busca de adoção e à prática clínica

em hospitais universitários e em clínicas-escola.

A pluralidade das pesquisas apresentadas, tanto no que se refere

aos referenciais teóricos adotados quanto aos métodos de investigação,

favoreceu um intercâmbio produtivo entre os participantes do grupo,

aguçando o posicionamento crítico dos pesquisadores, acrescentando

inúmeras contribuições. Em vários trabalhos são ressaltadas as questões

de gênero, a contextualização das populações investigadas e as

novas configurações familiares e conjugais da contemporaneidade. Na

discussão sobre a contextualização das populações investigadas, destacaram-

se a necessidade de considerarmos a diversidade dos modelos

de família e de casal encontrados nas diferentes regiões brasileiras e de

remapear historicamente as influências que contribuem para nossa realidade

plural. Uma das grandes contribuições das pesquisas realizadas

pelo GT é a produção de uma literatura nacional sobre família e casal

que considera a singularidade de cada população investigada.

As questões de gênero estão presentes em quase todas as pesquisas,

apontando algumas semelhanças, notadamente no que diz respeito

ao importante papel da mulher na organização familiar, na transmissão

de modelos e na educação dos filhos. Os dados das pesquisas revelam

que as mulheres continuam sentindo-se oprimidas pelo modelo

patriarcal e pela ditadura da maternidade, principalmente nas classes

sociais mais desfavorecidas.

Nos vários trabalhos em que as novas configurações familiares

são alvo de investigação, discute-se o quanto podemos considerar que

esses modelos são inéditos ou são reproduções camufladas de arranjos

Apresentação 9

tradicionais com uma roupagem discursiva pós-moderna. Fica evidente

que demandas modernas coexistem com padrões clássicos de funcionamento

do sistema familiar, o que aumenta a complexidade do

trabalho de pesquisa sobre os diferentes fenômenos que dizem respeito

à família. Constata-se ainda que, quaisquer que sejam os novos arranjos,

as funções do modelo tradicional permanecem, não importando

se desempenhadas por distintos membros da família. Pode-se dizer que

a questão relacionada às transformações atuais da contemporaneidade

e seus efeitos sobre a família e seus membros perpassa o conjunto

dos trabalhos discutidos. De modo geral, o debate travado entre os

membros do GT e refletido nos textos divulgados em Família e casal:



efeitos da contemporaneidade teve como linha de demarcação o que

pode ser considerado como novo ou antigo nas relações familiares, ou

seja, o que apresenta ou não transformações. As discussões levaram os

membros do grupo a postularem a importância da investigação sobre

a questão das “microdiferenças”, que podem ser consideradas “não só

novas” e “não unicamente antigas”. É a análise prolongada de tais diferenças

que poderá evidenciar os significados das mesmas junto às

famílias e seus efeitos na sociedade.


11

O debate sobre as metamorfoses da família continua. A cada momento

surgem novas questões, outras ressurgem, enquanto muitas deixam

de fazer sentido no quadro geral das mudanças processadas no

contexto familiar. Em todo esse movimento, dois aspectos mostram-se

muito evidentes. Em primeiro lugar, a constatação de que por mais

inusitadas que possam parecer certas expressões do indivíduo no grupo,

ou mesmo do grupo em sua totalidade, elas certamente evidenciam

novas roupagens ou diferentes arranjos e atualizações de experiências

já vividas por outras gerações.

O segundo aspecto, colado ao primeiro, diz respeito ao fato de

que o novo e o velho estão sempre engendrados nas experiências de

um sujeito ou de uma família, sem que necessariamente essa situação

seja visível. Dito de outro modo, se a contradição novo/velho se faz

dentro de uma dimensão subjetiva, é preciso considerar tanto os aspectos

intersubjetivos quanto os intra-subjetivos e transubjetivos, o que

torna essa relação imensamente complexa.

Esses dois aspectos estão sempre presentes quando pensamos nas

metamorfoses da família, sendo, portanto, indispensável considerá-los

quando se trata de investigar as funções do grupo familiar. Seriam essas

funções semelhantes àquelas das gerações dos nossos pais e avós? Parece

evidente que não. Mas será tão evidente assim? O que se transforma

e o que permanece nas funções internas do grupo familiar? Seria mais

prudente pensarmos em funções diferentes em modelos de família di-



Nem tudo que muda, muda tudo:

um estudo sobre as funções da família

Maria Consuêlo Passos

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Universidade São Marcos

12 Família e Casal

ferentes? Afinal, existiria algo que é comum a todas as famílias? Adiantamos,

desde já, que o desenvolvimento deste trabalho será atravessado

por essas questões, o que não significa necessariamente que todas serão

respondidas. Convidamos o leitor a nos acompanhar.



1. Por uma questão subjetiva do tempo

Para os propósitos de nossa discussão aqui, é indispensável desde

já tornar claro o ponto de vista de que o estudo das funções familiares

pressupõe a convivência íntima, e não sem conflito, entre as noções de

velho e novo, bem como de visível e invisível. Trata-se de um ponto de

vista caro, sobretudo aos cientistas sociais que refletem a respeito das

mudanças da sociedade e dos sujeitos como personagens centrais dessas

transformações. Os psicanalistas, por sua vez, nem sempre revelam preocupação

em expandir a compreensão dos fenômenos psíquicos até as

adjacências que os circunscrevem. Pois bem, no que concerne ao funcionamento

da família, isso é impossível, pois há movimentos que sempre

existirão, enquanto outros são transformados permanentemente.

A concepção que sustenta as reflexões deste trabalho baseia-se

na pressuposição de que há sempre uma relação de implicação entre

o sujeito e o ambiente, seja este o contexto micro ou macrossocial.

Pressupõe, portanto, o que não é nenhuma novidade, que as mudanças

sociais se entrelaçam na constituição da subjetividade e vice-versa,

embora – é preciso ressaltar – a dimensão subjetiva seja aquela que

apresenta mais resistências às transformações. Aquilo que se processa

no plano do imaginário, dos desejos, das fantasias, adquire sentidos do

ponto de vista intrapsíquico e só se expressa de forma latente nas relações

intersubjetivas. Lembremos que há sempre uma tensão ou uma

recusa impedindo a expressão das nossas verdades mais íntimas.

É preciso ainda afirmar que as metamorfoses processadas pelo sujeito

ou pelo grupo familiar dependem sempre de um entrecruzamento

de fatores, aos quais temos acesso limitado. Por isso mesmo o sujeito

constitui o aspecto mais complexo e também mais fundamental das

transformações, sejam elas da família ou das demais instituições sociais.

Quando se trata da família, a compreensão dos seus processos

internos passa inevitavelmente pelas noções de intra-subjetividade, intersubjetividade

e transubjetividade como referências que permitem o

discernimento daquilo que é próprio ao sujeito, ao outro e ao campo

social. Em outros termos, essas noções permitem, simultaneamente,

conceber o sujeito em seu contexto histórico e cultural, o grupo

como sujeito coletivo e a sociedade como contorno para ambos: sujeito

e grupo.


Nem tudo que muda, muda tudo: um estudo sobre as funções da família 13

Em conjunto, essas três referências constituem o eixo central que

organiza a família e, como tal, balizam suas transformações. Cada uma

delas possui particularidades que revelam, seja individual ou entrelaçadamente,

as distintas formas pelas quais os sujeitos se movimentam

no grupo. A intra-subjetividade diz respeito àquilo que é próprio à

realidade interna, à relação que o sujeito mantém com instâncias da

ordem do intrapsiquismo, como desejos, sonhos, fantasias etc. A intersubjetividade

dimensiona, mais especificamente, as relações entre

os sujeitos quase sempre inscritos em algum espaço grupal, seja de

família, de amigos, de trabalho etc. A transubjetividade, por sua vez,

se refere àquilo que é próprio a uma dimensão social, em seu sentido

mais amplo, e tem uma profunda repercussão no sujeito e nas relações

entre os sujeitos inseridos nas distintas modalidades institucionais.

Neste caso, poderíamos pensar nas implicações que têm determinadas

incidências do contexto social na família ou mesmo em seus membros.

No Brasil, por exemplo, a violência tem sido um agente desestabilizador,

na medida em que gera insegurança e tensão entre os sujeitos, que

estão sempre criando estratégias de defesa e reformulando seus mais

elementares hábitos cotidianos. Pois bem, essas instâncias, integradamente,

nos dão a dimensão das profundas tensões geradas no interior

do grupo, quando se trata de definir suas funções.

Assim, partimos do princípio de que cada tipo de família cria suas

próprias demandas, não inteiramente novas, produzidas por um complexo

entrecruzamento entre o novo e o velho, o individual e o coletivo, o

visível e o invisível. A esse respeito, afirma Figueira (1989, p. 21):

A modernização da família é, portanto, um processo complexo que

resulta da modernização dos ideais e das identificações, da dissolução

e da criação de categorias classificatórias, da plurificação das aparências

e da psicologização dos discursos. Quase não é preciso repetir que este

processo está longe de ser linear e que seus resultantes são, portanto,

complexos.

Se esse princípio dialético entre o velho e o novo já é consenso

entre os estudiosos, ainda há muitos aspectos obscuros no que concerne

à forma, ao ritmo e à velocidade das transformações vividas

pelos sujeitos, seja individualmente ou em grupo. Na tentativa de fazer

avançar essa discussão, Figueira (1989) sugere a existência de uma

“modernização reativa” ou “falsa modernização”, que dizem respeito

a certas performances dos sujeitos na tentativa de encontrar saídas para

os conflitos e desestabilizações gerados pela velocidade com a qual se

transforma a sociedade. Ainda segundo esse autor:

14 Família e Casal

A modernização reativa se deve, em última instância, ao fato de que a

sucessão de ideais no processo de modernização, ao ser extremamente

rápida, não dá ao sujeito a oportunidade de se modernizar realmente

no seu funcionamento, nos seus conteúdos e na sua identidade. Preso

no descompasso entre a grande velocidade da modernização e a grande

inércia da subjetividade, o único modo do sujeito conseguir ser moderno,

tentar acompanhar as transformações, é através da modernização do

conteúdo do comportamento, através da modernização reativa. (p. 29)

Esse descompasso entre mudanças sociais e mudanças subjetivas

nos leva de imediato a pensar no ritmo e na velocidade com os quais a

família processa suas metamorfoses, já que ela medeia essas duas instâncias

que, por natureza, se movimentam em velocidades distintas. Não

se trata de dimensionar quantitativamente seus movimentos, mas de

tentar verificar as implicações destes na permanência e/ou mudanças

das funções do grupo familiar. Isso porque, se diferentes facetas sociais

imprimem novos delineamentos a esse grupo, em que medida esses

delineamentos estão sincronizados com as demandas de cada sujeito

em relação à família? Estamos aqui tratando de demandas intrapsíquicas,

aquelas que são estruturantes do psiquismo e, como tais, inerentes

à constituição da subjetividade. Tal debate pressupõe algumas reflexões

dirigidas, mais exatamente, para uma concepção das funções do grupo

familiar.



2. Afinal, para que família?

Essa questão nos remete de imediato aos sentidos implícitos às

funções do grupo familiar, tanto no que diz respeito às incidências do

grupo em relação a cada um dos seus membros, como no sentido inverso,

ou seja, de cada membro em relação ao grupo, e também dos

membros entre si. Esses três movimentos se integram e constituem uma

rede por meio da qual emergem os sentidos e as funções da família. Significa,

portanto, dizer que não só a família tem suas funções em relação

aos sujeitos, mas estes também têm uma instrumentalidade em relação

ao grupo e, além disso, que os subsistemas interagem delineando suas

funções recíprocas, ou seja, os filhos em relação aos pais e vice-versa.

Quando falamos em funções da família, quase sempre nos reportamos

às atribuições do grupo em relação aos membros que o

compõem e, mais particularmente, aos efeitos da parentalidade na

constituição dos “seus” sujeitos. Entretanto, essa forma, de certo modo

linear, de tratar a questão não responde jamais à profusão de laços

que enredam o grupo familiar e seus desdobramentos. Portanto, para

Nem tudo que muda, muda tudo: um estudo sobre as funções da família 15

compreender suas funções internas, é necessário um olhar sobre suas

diferentes formas de laço, ou seja, as relações entre os sujeitos, os sujeitos

em relação ao todo e, ainda, o grupo em relação à rede social

mais ampla. Esses fundamentos tornam impossível pensar a família sem

antes circunscrever o campo que se quer observar, ainda que não seja

possível isolar totalmente este ou aquele lugar.

Para o propósito deste trabalho, interessa-nos particularmente verificar,

na relação sujeito/família, quais as demandas recíprocas dessa parceria

e como ela se constitui em uma total interdependência. Essa relação,

tão cara à psicanálise, apresenta hoje múltiplas formas de expressão,

e nossa hipótese é a de que há nelas uma tensão entre o que é novo e o

que se mantém com o tempo. Ambos, de forma dialeticamente integrada,

formam os elementos constitutivos de um universal familiar.

Não podemos deixar de sublinhar que essa estreita relação sujeito/

família surge somente quando há o recolhimento da família em um

espaço privado, isso pelos idos do século XVIII. Até então, o mundo

público era dominante, e as crianças e os adultos de uma família se

relacionavam entre si do mesmo modo que transitavam com as outras

pessoas da sociedade. Em outros termos, não havia distinção entre os

investimentos afetivos dos membros de uma família e os outros membros

da comunidade. O palco para as relações eram espaços abertos,

ruas, praças, palácios, nos quais a intimidade entre as pessoas não tinha

lugar. Foi só com o recolhimento dos membros de uma família com

laços biológicos a uma casa com espaços de convivência delimitados

que passou a existir privacidade, troca entre os sujeitos e, creio, o surgimento

da noção de família. Ela surge, então, da possibilidade de reconhecimento

mútuo entre os sujeitos, da troca de afetos entre eles,

e isso só foi possível a partir de um espaço físico que possibilitava a

aproximação entre as pessoas.

Esses dados históricos são importantes para pensarmos a base sobre

a qual Freud construiu seu arcabouço teórico, sobretudo no que

concerne às relações parentais, de um modo geral, e ao complexo de

Édipo, em particular. Eles são também fundamentais para uma explicitação

dos sentidos não só aparentes, mas também latentes, de um

grupo familiar. É a história, o passado, que mais uma vez nos auxilia a

reconhecer o presente.

Para Ariès (1981):

Essa família antiga tinha por missão – sentida por todos – a conservação

dos bens, a prática comum de um ofício, a ajuda mútua cotidiana num

mundo em que um homem, e mais ainda uma mulher isolados não

podiam sobreviver, e ainda, nos casos de crise, a proteção da honra e

16 Família e Casal

das vidas. Ela não tinha função afetiva. Isso não quer dizer que o amor

estivesse sempre ausente: ao contrário, ele é muitas vezes reconhecível,

em alguns casos desde o noivado, mas geralmente depois do casamento,

criado e alimentado pela vida em comum. Mas (e é isso o que importa),

o sentimento entre os cônjuges, entre os pais e os filhos, não era necessário

à existência nem ao equilíbrio da família: se ele existisse, tanto

melhor. (p. 10)

Fica evidente nessa enunciação que o grande “pulo do gato” nas

transformações da família se deu quando a privatização dos espaços

aproximou os membros, levando-os a uma convivência íntima, a um

reconhecimento mútuo e, conseqüentemente, a uma experiência dos

impasses, dos conflitos e, por que não, dos prazeres que esse tipo de intimidade

impõe. Como dissemos, foi exatamente esse espaço familiar privado

que deu a Freud bases para que ele construísse suas noções teóricas

sobre as relações parentais primárias e estruturantes do psiquismo.

Desde então, a família permaneceu envolta por uma rede na qual

prevalece uma dinâmica interna de reflexos subjetivos mútuos. Evidentemente,

as famílias se estruturam de formas diversas em função do

lugar, tempo, heranças etc., e é desse emaranhado de fios que emergem

as funções do grupo familiar. Hoje, vemos nesse grupo tantas formas

de expressão quantas são as unidades analisadas. Algumas delas nos remetem

a esse tempo em que as fronteiras eram abertas e os membros

familiares tinham no cidadão da rua ou da comunidade um outro com

quem compartilhavam a vida, da mesma forma que o faziam com um

parente na família.

Desses recortes históricos nos interessa ainda observar que, desde

essa época, as funções do grupo permanecem reguladas pelos investimentos

afetivos dos sujeitos, embora, evidentemente, esses investimentos

revelem hoje distintas formas de expressão. Isso significa dizer que

os sentidos que circunscrevem o familiar, tanto no plano individual

quanto no grupal, dependem da economia de afetos do grupo; economia

que revela performances diferentes em cada desenho familiar, mas

que, em configurações semelhantes, apresenta também particularidades,

tendo em vista as dinâmicas intra-subjetiva e intersubjetiva que

se estabelecem entre os membros do grupo. Dada a importância dessa

economia libidinal, poderíamos dizer que é a qualidade e a intensidade

dos investimentos afetivos que nos servem de balizas para uma definição

do grupo familiar. São essas referências que nos permitem diferenciar

um grupo de amizade, ou um grupo profissional, por exemplo,

de um grupo familiar. Nessa medida, elas se tornam indispensáveis

ao delineamento das funções inerentes à família, sobretudo em uma

Nem tudo que muda, muda tudo: um estudo sobre as funções da família 17

época na qual as relações intersubjetivas revelam grande plasticidade

e, às vezes, falta de contornos. Assim, a título de síntese, vamos chamar

ao debate algumas inscrições que podem contribuir para sistematizar

as funções familiares.

Para Leprince e Ramirez (2000), essas inscrições são entendidas

como instituintes que regulam o funcionamento da família, tanto em

suas relações internas quanto no que concerne ao mundo externo.

Cada um desses instituintes teria uma natureza distinta, porém um

funcionamento em cadeia. O primeiro deles diz respeito a uma ordem

social responsável pela instituição das regras e das proibições, dos

direitos e dos deveres que, impostos pela sociedade, encontram ressonância

nas leis internas da família e possibilitam a coexistência entre

os sujeitos. Um outro instituinte seria de natureza psicológica e teria

como fundamento a relação edipiana, que estrutura a parentalidade

no grupo, por meio das identificações, das projeções e, sobretudo, da

interdição do incesto, que introduz a lei e a diferenciação sexual. O

terceiro seria de ordem estrutural, e teria como perspectiva a organização

da parentalidade e da consangüinidade, com seus desdobramentos:

filiação, afiliação e complexo fraterno. O quarto e último instituinte é

pouco explorado pela psicanálise, e diz respeito a uma ordem cosmogônica,

que consiste em rituais, crenças, lendas. Em outros termos, envolve

construções míticas que sustentam as concepções sobre a origem

do universo, do homem etc.

De acordo com os autores citados:

O instituinte cosmogônico pode ser definido como o conjunto das

construções correspondentes ao esforço que faz uma cultura para que

cada um dos seus membros possa ter uma crença, um ritual, uma lenda,

uma organização suscetível de constituir uma resposta não conflitual à

questão das origens. O instituinte cosmogônico preenche também uma

dupla função de continência e de estruturação. (p. 148)

Continência no sentido de que possibilita a inclusão dos mitos

de uma família em uma rede que organiza a comunidade, ou mesmo

a sociedade. A estruturação, por sua vez, diz respeito à criação de um

espaço no qual as pulsões familiares se exprimem por meio de ficções

socializadas.

Esses instituintes só adquirem sentidos e efeitos na grupalidade

familiar se funcionam entrelaçadamente. Assim, a ordem estrutural seria

a responsável pela sustentação dos laços de afeto que, criados no

âmbito dos três outros instituintes, vão se expressar de forma integrada.

Um exemplo disso são as dificuldades vividas por algumas famílias atu18

Família e Casal

ais, nas quais os mitos e os rituais se enfraquecem, dadas as freqüentes

rupturas conjugais, as recomposições etc. Nessas famílias, muitas vezes

torna-se difícil a elaboração das fantasias de origem do grupo, além de

existirem complicadores no processo de transmissão geracional.

Se o delineamento dos instituintes serve, em linhas gerais, para

nos mostrar de que modo é engendrada a sustentação da grupalidade

familiar, no varejo é necessário explicitar a estrutura das relações internas

que compõem a família e, sobretudo, a dinâmica dos investimentos

que organiza a intersubjetividade nesse grupo. Em outros termos, as

funções familiares servem, notadamente, à configuração das relações

que são, por sua vez, constituintes dos sujeitos. Assim, a parentalidade

de modo geral, bem como as diferentes formas de filiação e de conjugalidade

são modalidades de relações internas do grupo familiar, produzidas

a partir dos investimentos libidinais que se configuram de formas

distintas, em função das idiossincrasias de cada parceria familiar.

Essas relações fundamentam a constituição do psiquismo do

grupo, ao mesmo tempo que alicerçam a estruturação psíquica dos

membros. Nesse sentido, ainda que seja possível estabelecermos uma

fronteira entre o que venham a ser funções/atribuições do grupo em

relação ao sujeito e do sujeito em relação ao grupo, em regra as funções

familiares são pensadas apenas na primeira formação. Trata-se,

portanto, de um raciocínio que define a priori a família como sendo

um lugar fundamentalmente de concepção de filhos. Essa posição segue,

de certo modo, na contramão das configurações vinculares atuais,

que têm revelado múltiplas formas de conjunções amorosas, não necessariamente

com filhos.

Interessa-nos, no entanto, prosseguir debatendo os sentidos das

suas expansões e, particularmente, as repercussões destas nos processos

de subjetivação, seja no plano individual ou relacional. Nesse sentido

é que consideramos fundamental refletir sobre suas funções, independentemente

dos contornos que diferenciam os grupos. Para isso, é

necessário explicitar como essas funções são engendradas dentro de

uma cadeia relacional que, por sua vez, depende delas.

Em primeiro lugar, é preciso pensar a conjugalidade como um

espaço relacional no qual o desejo de conceber o filho se faz a partir

de inscrições intrapsíquicas originadas nas relações mais primitivas de

cada parceiro, com sua família de origem. Pensamos, portanto, a relação

conjugal como aquela na qual o filho é concebido originariamente,

sendo essa concepção a primeira inscrição da criança no mundo.

Essa inscrição simbólica será uma matriz para que a criança construa

seu lugar e suas posições no universo das relações familiares e sociais.

Nem tudo que muda, muda tudo: um estudo sobre as funções da família 19

Além dessa função de criar imaginariamente uma criança, a conjugalidade

é entendida como o lugar de investimento amoroso dos dois

parceiros que aí se reconhecem mutuamente e partilham seus desejos

mais íntimos. Espaço de circulação e, também, de contenção dos excessos

pulsionais, a conjugalidade se constitui ainda em matriz de uma

transmissão psíquica, por meio da qual os filhos recebem heranças dos

seus ancestrais e atualizam os conteúdos herdados.

A noção de filiação, por sua vez, traz alguns sentidos genéricos

que indicam sua aplicabilidade em um âmbito mais social e abrangente,

mas também uma dimensão estrita que expressa mais diretamente

os ditames da relação de filiação no interior da família.

Para Eiguer (2000), o laço de filiação, por ser grupal, supõe

que os sentimentos de comunidade, fusionais, se estabelecem entre os

membros do laço (eles se vêem e se tratam como próximos ou idênticos);

que os membros do laço o vivem como um sonho, quer dizer que

eles colocam à disposição de sua relação seus processos primários; que

eles trazem em comum, inconscientemente, os mitos familiares – que

concernem a seu laço – dos modelos de funcionamento e de outras

representações coletivas, como os ideais, por exemplo. Estas formações

têm sua origem no entorno do laço, ou seja, no universo familiar e

cultural, mesmo se elas são introjetadas pelo pai e pela criança. Por fim,

a filiação depende das leis que são próprias a seu funcionamento, elas

são específicas e, portanto, diferentes das leis que regem os outros laços

de parentalidade. (p. 14)

No processo de filiação, estão implicados os laços primários dos

pais com suas famílias de origem, a história da união desses pais e

dos investimentos dos mesmos no momento da concepção da criança

e, evidentemente, a reciprocidade e o reconhecimento dos lugares e

posições dos pais e dos filhos no interior do grupo. É esse reconhecimento

que dá origem aos investimentos afetivos como recurso fundamental

para a constituição dos laços de filiação.

No que concerne à função fraterna, é preciso desde já assinalar

que, embora ela tenha sido pouco explorada como força importante

nos processos de subjetivação da família, hoje, à medida que se redimensionam

as posições hierárquicas do grupo, a horizontalidade passa

a ser um vetor primordial nas relações grupais e, com isso, as relações

fraternas começam a ser valorizadas. É no plano horizontal que circulam

os traços identificatórios entre os membros de um mesmo grupo,

suscitando o compartilhamento entre os semelhantes, o que será, por

sua vez, base e sustentação para o reconhecimento dos pais.

20 Família e Casal

Os jogos especular e narcísico entre os irmãos têm tido agora seu

valor reconhecido na constituição do sujeito, não só por o que esse

movimento possibilita em termos de constituição das posições e lugares

de cada um, mas também porque as trocas identificatórias entre os

semelhantes contribuem para a criação das referências de emancipação

dos sujeitos.

De acordo com Kehl (2000), a função fraterna precisa ser entendida

a partir de três eixos:

Primeiro, a constatação para a criança, da semelhança na diferença

introduzida pelo irmão em seu campo narcísico, que o força a uma

reelaboração da relação especular com o eu ideal e constitui para o

eu um objeto ao mesmo tempo de ciúme, de interesse, de ódio e de

identificação. Segundo, as experiências compartilhadas pela fratria na

adolescência, que confirmam e simultaneamente relativizam o poder

de verdade absoluta da palavra paterna... Finalmente, a abertura de um

campo anônimo de circulação e transmissão de saberes. A circulação da

palavra em sua multiplicidade de sentidos, em sua plasticidade criadora,

em relação à qual o sujeito está simultaneamente desamparado – nada

lhe fornece garantias de verdade quanto às suas escolhas – e aliado aos

semelhantes. (p. 44)

Temos aí uma síntese dos constituintes psíquicos da conjugalidade,

da filiação e das relações fraternas. Evidentemente, há muito

mais desdobramentos em cada uma dessas relações, mas não é nossa

intenção explorá-los, e sim circunscrevê-los para daí retirarmos o que

consideramos funções do grupo familiar.

É importante lembrar que, embora examinemos as paridades relacionais

isoladamente, e que cada uma delas tenha sua função diferenciada

no grupo, quando tratamos do funcionamento interno da

família, devemos considerar o movimento integrado dos sujeitos e das

parcerias. Isso significa dizer que as funções do grupo familiar só podem

ser pensadas dentro de uma circulação pulsional, que permite

a formação dos laços recíprocos no grupo. Quando dizemos função,

queremos, portanto, nos referir aos sentidos instrumentais que a família

tem em sua perspectiva de grupalidade para cada um dos sujeitos e

vice-versa ao longo de todo seu processo de constituição psíquica.



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