Faris michaele: trajetória intelectual e concepçÃo de educaçÃO



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FARIS MICHAELE: TRAJETÓRIA INTELECTUAL E CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO
Névio de Campos¹ (UEPG – ndoutorado@yahoo.com.br)

Elisa Marchese² (UEPG – elisamarchese@bol.com.br)



Palavras-chave: Faris Michaele. Trajetória intelectual. Educação.

Introdução
Este artigo objetiva analisar alguns aspectos da trajetória intelectual de Faris Antônio Salomão Michaele (1911-1977) e problematizar sua concepção educativa. Tal análise apoia-se nos conceitos de campo, habitus, intelectual e trajetória de Pierre Bourdieu.

O conceito de campo refere-se a certos espaços de posições sociais onde se produzem, consomem e classificam-se determinados tipos de bens. O interior desse espaço de força e luta é caracterizado pela incessante busca do controle da produção, do direito de legitimidade da classificação e hierarquização dos bens produzidos pelos indivíduos. (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009). Isto é, “campo é um espaço de relações objetivas entre indivíduos, coletividades ou instituições, que competem pela dominação de um cabedal específico” (BOURDIEU, 1983, p.197).

Atrelado ao conceito de campo está o habitus. Nessa interrelação, o segundo é constituído e constituinte do primeiro. Habitus é compreendido como um sistema de disposições duráveis, estruturados conforme o meio social dos indivíduos, que funcionam como estruturas estruturantes. Dito de outra forma, é o princípio gerador e estruturador das práticas e representações. (BOURDIEU, 1983).

Os conceitos de intelectual e trajetória encontram-se em destaque nesta pesquisa, pois, a escrita da história intelectual da educação a partir da análise do funcionamento de uma sociedade intelectual das “suas práticas, suas estratégias e seus habitus” (Silva, 2002, p.12), evoca a necessidade do entendimento das contradições e do papel social desses mediadores entre as estruturas e os estruturantes.

Para Bourdieu (1996a), o intelectual é um ser paradoxal, um personagem bidimensional pertencente ao campo intelectual autônomo manifestando perícia e autoridade específica nas atividades políticas e culturais exteriores ao campo que integra.
O intelectual é uma personagem bidimensional que só existe e subsiste como tal se (e apenas se) for investido de uma autoridade específica, conferida por um mundo cultural autónomo (quer dizer, independente dos poderes religiosos, políticos, económicos) cujas leis específicas respeita, e se (apenas se) cometer essa autoridade específica em lutas políticas. Longe de existir, como correntemente se pensa, uma antinomia entre a busca da autonomia (que caracteriza a arte, a ciência ou a literatura ditas “puras”) e a busca da eficácia política, é aumentando a sua autonomia (e, por isso, entre outra coisas, a sua liberdade crítica perante os poderes) que os intelectuais podem aumentar a eficácia de uma acção política cujos fins e meios encontram o seu princípio na lógica específica dos campos de produção intelectual (ibidem, p. 380).
Desse modo, a trajetória intelectual mostra-se como um meio de compreensão dos inúmeros papéis, posições e eventuais contradições na carreira intelectual, pois diferentemente das biografias comuns, a trajetória descreve os

estados sucessivos da estrutura da distribuição dos diferentes tipos de capital que estão em jogo no campo considerado. É evidente que o sentido dos movimentos que levam de uma posição a outra (de um editor a outro, de uma revista a outra, de um bispo a outro etc.) define-se na relação objetiva entre o sentido dessas posições no momento considerado, no interior de um espaço orientado. Isto é, não podemos compreender uma trajetória, a menos que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou; logo, o conjunto de relações objetivas que vinculam o agente considerado – pelo menos em certo número de estados pertinentes do campo – ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e que se defrontaram no mesmo espaço de possíveis. (BOURDIEU, 1996b, p. 82).

Diante dessa opção teórica, procura-se ao longo do texto compreender a vida de Faris Michaele, entendendo as contradições e transformações incessantes que compõem sua trajetória.

Com o intuito de reconstituir determinados aspectos da trajetória da personalidade estudada, foram selecionados e analisados alguns documentos impressos, como: correspondências do Centro Cultural Euclides da Cunha e do próprio Faris Michaele³; obras que tratam da educação que compõem o acervo da biblioteca pessoal do intelectual pontagrossense e artigos escritos por ele e sobre ele. Tal documentação é entendida como construção da própria memória de Michaele, já que


Documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa. (LE GOFF, 1990, p.545).
Assim, a partir de Bourdieu e do corpus documental pretende-se contextualizar a trajetória intelectual de Faris Michaele. Nesse aspecto, serão discutidos elementos referentes ao processo de escolarização e profissionalização desse personagem. Além disso, problematizar-se-á a concepção educativa, estabelecendo relação entre Faris Michaele e autores brasileiros e estrangeiros da Pedagogia Moderna.
Trajetória escolar e profissional de Faris Michaele
Natural do município de Mococa, interior do estado de São Paulo, Faris Michaele nasceu em 03 de setembro de 1911, filho de Antônio Salomão Michaele e Hada Michaele.

Aos seis anos de idade, Faris Michaele, veio junto a sua família residir na cidade de Ponta Grossa, interior do estado do Paraná. A família Michaele, oriunda do Líbano, instala-se no município dedicando-se ao comércio como a maioria dos imigrantes na época, visto que a cidade enfrentava um período de crescimento econômico e social significativo. “Ponta Grossa respirava um ‘clima urbano’, havia bandas musicais que disputam o espaço para apresentações, cinema, luz elétrica, associações beneficentes e hospital” (DITZEL, 2007, p. 49). Desse modo, “a região de Ponta Grossa passou a configurar um centro de atração não só para aqueles advindos do meio rural, como para outros migrantes, nacionais e estrangeiros” (ZULIAN, 1998, p. 42).

Nesse contexto, Faris Michaele trabalhava eventualmente no comércio da família, pois “foi poupado e destinado a estudar” (WANKE, 1998, p. 26). E a dedicação do menino é revelada desde a infância, pois a exemplo de seu progenitor, também, poliglota, dominava três línguas completamente diferentes: o árabe, o alemão e o português.

O domínio fluente de diferentes línguas era motivo de admiração de muitos, inclusive de Enrique de Gandía, amigo de Faris Michaele residente em Buenos Aires, que em carta enviada no dia 17 de junho de 1948 escreve: “estoy asombrado de su domínio del portugués, español, francés y inglês. [...] Es en verdad extraordinario este ‘poliglotismo’ suyo y es hermoso su sentido altamente poético y panamericanista”.

Valfrido Piloto, no jornal Diário do Paraná, na edição do dia 07 de março do ano de 1974, sintetiza a trajetória escolar e os anos de magistério de Faris Michaele ao mencionar que:
Vindo com seis anos para Ponta Grossa, o piá nascido em Mococa (SP) passou pelas aulas do padre Lux, no <>, cujos rigores eu também aguentara noutros tempos. Criado no Ginasio <>, foi logo da primeira turma, e ali institui o Gremio Literario <>>, e mais a biblioteca e ainda o inevitável <>. Bacharelado em direito, vai lecionar naquele ginásio, até se aposentar. Nesse meio tempo, coopera na Fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ponta Grossa, onde assume durante etapas diversas, Antropologia, Lingua Tupi, Literatura Hispano-Americana, Etnografia, Portugues, Ingles e Castelhano, e na Fundação da Faculdade de Direito, com a cátedra de Introdução à Ciencia do Direito.
Faris Michaele foi aluno da primeira turma no Ginásio Regente Feijó em 1927. Sua passagem pela instituição revelou vocação e pioneiro cultural, pois fundou o Grêmio Literário Visconde de Taunay e o jornal escolar denominado “O Fanal” (WANKE, 19998).

Após se formar em humanidades no ano de 1931, Faris Michaele ingressou no ano seguinte na Faculdade de Direito do Paraná, em Curitiba. O estudante universitário “filiou-se ao movimento integralista de Plínio Salgado” (DITZEL, 1998. p. 172); e continuou sua atividade política como integrante do Partido Social Democrático (PSD), em Ponta Grossa.

A partir do exposto nota-se que a trajetória escolar de Faris Michaele foi marcada por instituições escolares de renome como, por exemplo, o Colégio São Luiz e o Ginásio Regente Feijó.

O Colégio São Luiz da Congregação Verbo Divino, no qual Faris Michaele iniciou seus estudos, foi fundado pelo Padre João Lux em 1906. A instituição atendia, exclusivamente, meninos e ofertava o ensino primário norteado pelo seguinte currículo: álgebra, francês, alemão, português, ciências naturais e história da civilização. (WANKE, 1998, p. 25-26).

A continuação dos estudos de Faris Michaele inaugura o Colégio Regente Feijó, fundado em 28 de março de 1927, após três anos de funcionamento da primeira Escola Normal Primária de Ponta Grossa. A criação do Colégio revela a preocupação da sociedade moderna com a educação, já que esta era elemento definidor no status da cidade. (MARÇAL, 2006).

Entretanto, apesar dos longos anos dedicados a formação, o bacharel em Direito exerceu a profissão de advogado por pouco tempo, pois “já demonstrara não ter inclinação para o comércio, não se sentiu tampouco atraído pelo dia-a-dia da advocacia. Assim, restava-lhe o magistério, para o qual realmente tinha pendor.” (WANKE, 1998, p. 36).

Faris Michaele dedicou-se ao magistério no Ginásio Regente Feijó no período de 1937 até 1967. Também lecionou nos cursos de Letras e História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e da de Direito de Ponta Grossa.

Porém, a ação de Faris Michaele extrapolava os muros escolares. Essa extrapolação é notável devido à preocupação com a cultura, que resultou na criação do Centro Cultural Euclides da Cunha e, nos longos anos de colaboração nos jornais “Diário dos Campos” e “Jornal do Paraná” publicando as aulas proferidas na universidade e sua extensa obra literária.

Diante dos fatos, fica evidente que a trajetória profissional de Faris Michaele esteve marcada pela ação educativa de diferentes modos e enfoques, tanto no sentido lato quanto no sentido strito. Pois, o intelectual esteve envolvido em múltiplos espaços de sistematização e difusão de visões de mundo e exerceu funções educativas diretas como professor, coordenador de atividades pedagógico-administrativas.

A extensiva produção e participação desse personagem nos principais espaços e meios de difusão cultural de Ponta Grossa, do Paraná, do Brasil e em diversos lugares estrangeiros, deve-se ao acúmulo de capital cultural sob seus três estados: incorporado, objetivado e institucionalizado postulados por Pierre Bourdieu.

O estado incorporado do capital cultural “exige uma incorporação que, enquanto pressupõe um trabalho de inculcação e de assimilação, custa tempo que se deve ser investido pessoalmente pelo investidor.” (BOURDIEU, 2007, p. 74). Esse estado revela-se desde o início da formação de Faris Michaele quando o menino é poupado do trabalho para estudar. Já o estado objetivado do capital cultural são os bens culturais (livros, quadros, dicionários, instrumentos, máquinas e etc.), os quais foram estudados nessa pesquisa, em especial, o acervo pessoal de Faris Michaele composto por aproximadamente 8 mil obras.

Por fim, o capital cultural institucionalizado refere-se aos certificados escolares, os diplomas que fizeram parte da trajetória escolar e profissional de Faris Michaele como forma de reconhecimento e certificação da competência cultural e intelectual desse personagem.

A seguir, discutir-se-á os usos desse capital cultural para atuação de Faris Michaele em ambientes culturais diversos.
Presença de Faris Michaele em ambientes culturais
A vinculação de Faris Michaele aos espaços culturais de Ponta Grossa é exaltada de tal forma em sua biografia que o autor Eno Theodoro Wanke (1998) utiliza a expressão: “Ponta Grossa ‘antes de Faris’ e ‘depois de Faris’”, a fim de demonstrar a grandiosidade dos feitos do intelectual. Segundo o autor, antes de Faris Michaele, Ponta Grossa era voltada para as atividades comerciais, industriais e agrícolas. Entretanto, depois de Faris Michaele se inicia a época de fastígio cultural, os “anos de ouro”.

Porém, Souza (2010, p.61) aponta que


Os imigrantes preservavam alguns dos seus traços culturais, como religião, hábitos alimentares, festas e clubes sociais. Essas características somadas, às da população local, garantiram à Ponta Grossa uma relativa riqueza cultural. [...] Portanto, o desenvolvimento cultural pontagrossense já tomava forma em fins do século XIX.
Diferentemente da afirmação de Wanke (1998) a respeito da biblioteca do Centro Cultural Euclides da Cunha apontada como a primeira da cidade, Ditzel (2007, p.49) sustenta que Ponta Grossa tinha um desenvolvimento cultural significativo, “um teatro (1873) e uma biblioteca (1876)” antes mesmo do nascimento de Faris Michaele.

Diante dessas passagens, percebe-se a exaltação de Faris Michaele em sua biografia escrita por Eno Theodoro Wanke, atitude típica que faz com que “certas categorias de escritores sejam propensas a escrever suas memórias e que outras se prestem como objetos de um culto póstumo através de biografias.” (MICELI, 2001, p. 83). Em nossa avaliação, a assertiva de Miceli mostra-se pertinente para relativizar as afirmações de Wanke, pois “as biografias tratam quase sempre de escritores que se consagraram ainda em vida ou, então, de autores relegados em vida e que são repostos em circulação por conta de estratégias de combate a que recorrem certas igrejas literárias em conjunturas posteriores da vida intelectual” (MICELI, 2001, p. 84). Faris Michaele se consagrou em vida, o que explica a razão de ter sido objeto de biografia póstuma, escrita por seus antigos amigos.

Todavia, apesar das contradições e exageros é fato que Faris Michaele teve seu nome ligado a criação, direção e participação em várias instituições pontagrossenses, como: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e Direito, Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico de Ponta Grossa, União Brasileira de Trovadores de Ponta Grossa, Centro Cultural Brasil – Estados Unidos, Centro Cultural Euclides da Cunha e Museu Campos Gerais. (DITZEL, 1998).

Entre seus feitos o mais lembrado é o Centro Cultural Euclides da Cunha (CCEC) que iniciou suas atividades no mês de março do ano de 1948. O CCEC foi


Uma sociedade civil destinada a congregar intelectuais, prestando-lhes apoio cultural e moral, cooperando, assim, para o desenvolvimento da literatura, das ciências e das artes, bem como estimular o intercambio de idéias com o resto do país e das Américas. (ESTATUTO DO CCEC, 1948 apud DITZEL, 1998, p. 63).
O Centro dispunha de uma biblioteca aberta à comunidade e publicava trimestralmente o jornal “Tapejara”. A sociedade civil declarava-se uma instituição apolítica, neutra e imparcial. Entretanto, é preciso contraditar tal declaração, pois não há posição apolítica, neutra e imparcial.

Para além do CCEC e de Ponta Grossa, Faris Michaele esteve presente, também, em instituições paranaenses. Ocupou a 12º cadeira da Academia Paranaense de Letras como sucessor do Prof. Dr. José de Sá Nunes. Em 25 de março de 1968, esse intelectual pontagrossense foi recepcionado por Osvaldo Pilotto, que no discurso de recepção publicado na Revista Minerva (1968), enaltece Michaele parafraseando Fernando de Azevedo


Satisfação de se ter posto em contacto com o seu alto espírito através desses estudos, lidos com o mais vivo interesse e com a expressão de sua simpatia, a esperança de aproveitar novas oportunidades para tão amável convívio. (PILOTTO, 1968, p. 6).
No mesmo discurso, Osvaldo Pilotto rememora os feitos de Faris Michaele e afirma “brilhante, pela sua cultura e pelas suas qualidades didáticas, na sua vida de professor. É escritor de alto mérito.” (ibidem, p. 6).

Esse intelectual também teve seu nome ligado a entidades e associações nacionais e estrangeiras. Ditzel (1998) elenca 60 principais, entre elas: Academía Universal de Humanidades, de Buenos Aires, Instituto Argentino de Críticos Literarios, Instituto de Cultura Americana de La Plata, Asociación de Escritores de la Provincia de Buenos Aires, Instituto de Etnología, Historia y Folklore de Tucumán, Academia de Cultura de Asunción, Asociación Internacional de la Prensa de Montevideo, Asociación de Escritores y Artistas Americanos, de La Habana, American International Academy, Nova York, Confraternité Balzacienne de Paris, Acadímie Ansaldi de Paris, Accademia Letteraria Araldica Scientifica, Treviso, Itália, Accademia Letteraria Scientifica Internazionale, Nápoles, Internatinal Council of Musems, de Londres. Para Osvaldo Piloto (1968, p. 7) “isto é fruto de uma atividade intelectual intensiva”.

A comunicação de Faris Michaele com esses diversos espaços culturais dava-se através de correspondências, envio de obras e publicações em periódicos. E o conteúdo das correspondências revela a admiração do trabalho intelectual do personagem pontagrossense e, até mesmo, questionamentos sobre sua permanência na cidade interiorana.

Para ilustrar os apontamentos citados acima, transcreve-se um trecho de uma carta escrita por Alcantara Nogueira em 22 de janeiro 1949: “vejo que sua atividade intelectual é imensa; é uma ventura encontrar-se neste Brasil, homens com esse idealismo, concorrendo, objetivamente, para o levantamento do nosso nível cultural”. Entre os interlocutores de Faris Michaele estão: Gilberto Freyre, Érico Veríssimo, Roquete Pinto, Cândido Rondon, Luís da Câmara Cascudo, Roger Bastide, Valfrido Piloto, Raul Gomes entre outros. As correspondências, assim como o acervo da biblioteca pessoal de Faris Michaele, encontram-se arquivadas no Centro de Pesquisa em História pertencente ao Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa desde 1998, ano em que a esposa desse intelectual, Amélia Oberg, efetuou a doação.

O vínculo entre Faris Michaele e diferentes instituições culturais, mantido por meio de cartas, publicações e obras, fortalecia sua ação intelectual instigando a criação de instituições, mobilização, formação de grupos, organização de projetos educativos e outros. Desse modo, esse personagem acumulava capital e poder simbólico permitindo reconhecimento e credibilidade no campo intelectual e cultural.

Diante do exposto, nota-se que Faris Michaele tem sua trajetória intelectual sustentada por 4 características marcantes aos intelectuais citadas por Vieira (2007): a) sentimento de pertencimento a um grupo; b) sentimento de missão social; c) possibilidade de mudança e reorganização social por meio da educação; d) entendimento do Estado como agente político responsável pela efetivação do projeto moderno.

O sentimento de pertencimento permeia todos os feitos de Faris Michaele já que este, embora tenha sido questionado muitas vezes, nunca deixou a cidade interiorana e preocupou-se com projetos locais unindo-se aos pares.

Quanto ao sentimento de missão social, pode-se dizer que o intelectual dedicou-se ao progresso e a reorganização da sociedade pontagrossense. Nesse sentido, Faris Michaele foi um agente criador e participante de instituições culturais e formativas que objetivavam conformar novas visões de mundo entre os habitantes de Ponta Grossa.

Por fim, entendimento do Estado como agente político responsável pela efetivação do projeto moderno pautado na “educação como salvadora da pátria”, Faris Michaele lutou junto a outros intelectuais pela criação da Universidade Estadual de Ponta Grossa e tantas outras instituições que necessitavam de custeio e incentivo dos governantes.

O que se fez até aqui foi uma contextualização histórica da trajetória escolar e profissional de Faris Michaele e o mapeamento dos ambientes culturais aos quais ele esteve ligado. Então, o próximo e último item discorrerá sobre as ideias do intelectual e a hipótese de que ele era simpatizante ao Movimento da Escola Nova.


Faris Michaele e os ideais da Pedagogia Moderna
Em meados da década de 1920, o regime republicano passa a ganhar forças no Brasil marcando a passagem da vida rural para a vida urbana e industrial. O discurso da modernidade era fundamentado num projeto moderno de educação com a finalidade da moralização do povo, criando os sentimentos de indivíduos ávidos ao trabalho e pertencentes a uma nação.

Nesse contexto, “a pedagogia e os pedagogos ilustrados procuram atualizar às instituições escolares à modernidade capitalista” (MONARCHA, 1989, p. 12), surgindo assim um movimento organizado e pensado por um grupo de intelectuais preocupados com os rumos da educação brasileira, o Movimento da Escola Nova.

Esse “novo” saber pedagógico prezava, principalmente, por uma educação pública, gratuita, laica e de dever do Estado para todos. Com esses princípios, intelectuais como Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira e tantos outros assinam o Manifesto dos Pioneiros da Educação de 1932, documento que reflete os ideais do movimento e apontava caminhos para uma reconstrução social por meio de uma reconstrução educacional.

Tal movimento teve repercussão e adeptos pelo Brasil inteiro, pois os centros urbanos estavam sintonizados ao ideal de modernidade e, também, precisavam se preparar para as novas exigências do novo mundo capitalista. No Paraná, o novo saber pedagógico chegou por intermédio de intelectuais envolvidos ao movimento renovador: Dario Vellozo e Erasmo Pilotto, os quais tiveram laços de amizade com Faris Michaele.

Maria Lucia de Andrade (2007) em estudo sobre a trajetória de Dario Vellozo apresenta-o como o precursor da corrente laica da educação em Curitiba.
Vellozo propôs e estimulou a implantação da escola moderna no estado paranaense, pautada em um programa que buscava a laicização, a publicização, a moralização, a higienização e a universalização do ensino, a partir das reformas de conduta que adaptassem e corroborassem para uma prática de desenvolvimento tanto material quanto cultural, e de fomento à produção agrícola e na organização do trabalho para a vida: disciplinado, produtivo e solidário. (ANDRADE, 2007, p.199 – 200).
A preocupação de Dario Vellozo com a educação encoraja a primeira proposta sistematizada de reforma do ensino em Curitiba, o Plano e Programa de Estudos. Esse projeto foi elaborado aos moldes dos ideais modernos, mas sofreu recusa no congresso legislativo do estado do Paraná. O grupo renovador paranaense criou, também, o Instituto Neo-Pitagórico (1909), composto por um grupo de intelectuais e estudantes do Ginásio Paranaense e da Escola Normal, cujo objetivo era a liberdade das mentes das travas da religião, em especial, da igreja católica. Faris Michaele foi integrante do Instituto Neo-Pitagórico.

Outro renovador que se destacou de maneira singular na defesa dos princípios do Movimento pela Escola Nova no Paraná foi Erasmo Pilotto em sua atuação como professor, organizador de escolas, administrador público e produtor de uma vasta obra pedagógica (VIEIRA; MARACH, 2007).


Pilotto colaborou com Cecília Meireles, signatária do celebre Manifesto de 1932, nas paginas do Diário de Noticias. Atuou, também, na V Conferencia Nacional de Educação como delegado do Paraná. Ao lado das propostas do MEN, Pilotto participou dos debates que preparavam as teses da ABE para o anteprojeto da Constituinte de 1934. (ibidem, p. 272).
Esses dois importantes nomes citados e comentados tiveram laços de amizade com Faris Michaele, particularmente Erasmo Pilotto nos tempos da Escola Normal de Ponta Grossa e através de obras e correspondências.

A partir da análise da rede de sociabilidade e das evidências trazidas pelas correspondências e o conjunto de autores que compõem o acervo pessoal de Faris Michaele, percebe-se o envolvimento desse intelectual com os ideais do Movimento da Escola Nova.

O acervo da biblioteca pessoal de Faris Michaele, composto de aproximadamente 7 mil livros, possui 101 livros que tratam da temática educacional. Desse conjunto, destacam-se os seguintes autores: Fernando de Azevedo, Rui Barbosa, Anísio Teixeira, Emile Durkheim, Gustave Flaubert, Leonel França, William Heard Kilpatrick, John Dewey, Lourenço Filho, Karl Manhheim, Jean Piaget, Valfrido Piloto, Erasmo Pilotto, Osvaldo Pilotto, Jacques Barzun, José Maria Belo, Paulo Bonavides, Raul Briquet, Roger Cousinet, Frederik Gruber, Geoger Gusdorf, René Hubert, Claude Levi-Strauss, Jean-Jacques Rousseau e Karl Marx.

A partir da análise da relação das obras do acervo foram organizados três quadros que retratam as principais bibliografias de autores estrangeiros, nacionais e paranaenses da Pedagogia Moderna.




Autores

Obras

Emile Durkheim

As regras do método sociológico (1960);

Educação e sociologia.



Jean Jacques Rousseau

Discurso sobre el origen de La desigualdad entre los hombres (1923);

Émile ou de l’éducation (I, II).



Jean Piaget

Psicologia da inteligência (1961);

Psicologia da inteligência (1967);

Intoduction a l’epistemologie genétique I, II, III (1950);

O nascimento da inteligência na criança (1970);

Estudos de psicologia (1964);

A linguagem e o pensamento da criança (1959).



Karl Marx

O capital (1956);

A origem do capital;

Los fundamentos del marxismo.


Karl Mannheim

Ideologia e utopia: introdução à sociologia do conhecimento (1956);

Sociologia do conhecimento (1967).



John Dewey

El hombre y sus problemas (1952);

Human nature and conduct (1930;

Reconstruction in philosophy (1951);

Liberdade e cultura (1953);

Como pensamos (1953).


Willian Heard Kilpatrick

Educação para uma civilização em mudança.

QUADRO 1- Relação de obras de autores estrangeiros que compõem o acervo da Biblioteca Pessoal de Faris Michaele

Fonte: Acervo Professor Faris Michaele.

Nota: Os autores.
Em termos gerais, as matrizes teóricas e filosóficas do pensamento moderno que mobilizaram o debate educativo contemporâneo faziam parte do horizonte intelectual de Faris Michaele. John Dewey (Filosofia), Emille Durkheim (Sociologia), Willian Kilpatrick (Psicologia) e Jean Piaget (Psicologia e Biologia), alguns dos principais interlocutores dos defensores da Pedagogia Moderna no Brasil, compunham o acervo da biblioteca pessoal de Faris Michaele.


Autores

Obras

Anísio Teixeira

Pensamento e ação (1960).

Fernando de Azevedo

As ciências no Brasil;

A cultura brasileira I, II, III (1958);

A educação e seus problemas (1946);

Canaviais e engenhos na vida política do Brasil;

Ensaios (1929);

Máscaras e retratos (1962);

Na batalha do humanismo (1952);

No tempo de Petrônio: ensaios sobre antiguidade latina (1962);

Princípios de sociologia (1935);

Sociologia educacional (1954).



Lourenço Filho

Introdução ao estudo da Escola Nova (1929).

QUADRO 2 – Relação de obras de autores brasileiros do Movimento da Escola Nova que compõem o acervo da Biblioteca Pessoal de Faris Michaele

Fonte: Acervo Professor Faris Michaele

Nota: Os autores.

Os principais personagens da Escola Nova no Brasil estavam entre os interlocutores de Faris Michaele, principalmente Fernando de Azevedo. A presença de Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Fernando de Azevedo indica que Michaele acompanhava a recepção no Brasil do projeto societário e educativo propugnado pelos defensores da Pedagogia Moderna.




Autores

Obras

Erasmo Pilotto

Ofélia (1973);

Problemas de educação (1966);

Obras completas de Emiliano Perneta (1945);

Direito à educação (1960);

Mallarmé (1973);

Obras I (1973);

Que se exalte em cada mestre um sonho (1973).


Valfrido Piloto

Beethoven (1977);

Cogitações e retratos (1975);

Construamos com a verdade a história do Paraná (1951);

Contra o entreguismo histórico (1958);

De um dia para sempre (1958);

Humanismo psicodinâmico (1967);

Imagens para meditação (1967);

Jornadas do redizer (1975);

Rocha Pombo (1953);

Universidade Federal do Paraná (1976).



QUADRO 3 – Relação de obras de autores paranaenses que compõem o acervo da Biblioteca Pessoal de Faris Michaele

Fonte: Acervo Professor Faris Michaele.

Nota: Os autores.
A presença significativa de obras de Erasmo Pilotto e Valfrido Piloto, personagens associados ao grupo da Pedagogia Moderna, evidencia a relação de Faris Michaele com o pensamento filosófico dessa tradição teórica. A vinculação de Erasmo Pilotto ao ideário da Pedagogia Moderna é narrada de forma precisa por Vieira e Marach (2007, p. 272): “Pilotto, partícipe dessa atmosfera intelectual, vinculou-se ao MEN ainda no seu tempo de aluno da Escola Norma. Fundou, nesse período, o Centro de Cultura Filosófica, o Centro de Cultura Pedagógica e o boletim O ideário da escola nova”. Além disso, observam os autores (p. 272), “No plano teórico, Tólstoi e Rousseau foram os interlocutores da juventude, enquanto na maturidade, sem abandonar essas fontes, incorporou criticamente as mais significativas idéias dos movimentos europeu, norte-americano e brasileiro”.

Em síntese, pela relação de tais obras e autores, percebe-se que as leituras e discussões de Faris Michaele iam ao encontro dos princípios da Pedagogia Moderna e, reafirmam a repercussão desse ideário nas principais cidades do território brasileiro, inclusive em Ponta Grossa. A ação de Faris Michaele, ao promover um intercâmbio cultural entre órgãos de Ponta Grossa com instituições da capital do Paraná e diversas cidades brasileiras e estrangeiras, contribuiu para o reconhecimento e o desenvolvimento cultural da cidade, particularmente ao buscar associar tais espaços ao ideário de modernidade enaltecido nas principais urbes da Europa e dos Estados Unidos da América.



Considerações Finais
A partir deste estudo da trajetória intelectual de Faris Michaele é possível perceber que, para além do eixo Rio-São Paulo, o restante do Brasil também discutia os rumos da sociedade e detinha uma intensa ação e produção intelectual.

Nesse sentido, os meios de comunicação, embora fossem precários, permitiam a difusão e a formação de visões de mundo. As cartas e periódicos que compõem o acervo do intelectual pontagrossense demonstram o intercâmbio de ideias, elogios e críticas a respeito das problemáticas do mundo moderno. Em linhas gerais, é possível afirmar que Michaele pactuava que “o desafio contemporâneo está em realizar a utopia na modernidade, tal como ela se apresenta a partir do século XIX. Isto é fazer da modernidade uma experiência baseada na ciência e na técnica, vivida a partir da Europa, não mais em ilhas ou terras distantes” (PAZ, 1994, p. 7).

Educação e cultura, elementos chaves para a modernidade, são temáticas recorrente nos escritos e na trajetória profissional de Faris Michaele. Desde a infância até o fim da sua vida, esse intelectual criou e participou de espaços culturais, além da dedicação ao magistério com importantes projetos educativos.

Enfim, Faris Michaele esteve vinculado a criação de diversos ambientes da vida cultural de Ponta Grossa, como por exemplo, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, os quais expressam sua preocupação em estabelecer na cidade os principais ícones da então denominada sociedade moderna, pois “mais do que sonhos insólitos, utopia e modernidade configuram o real oitocentista” (PAZ, 1994, p. 7).

Assim, procurou-se, ao longo deste texto, analisar a trajetória intelectual de Faris Michaele através de seu acervo bibliográfico, correspondências e artigos, buscando evidenciar suas impressões, expectativas e projetos sobre educação, cultura e sociedade.
Notas
¹ Doutor em Educação pela UFPR, na Linha de História e Historiografia da Educação. Professor do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

² Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC – CNPq) da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

³ As correspondências analisadas compreenderam o período de 1936 a 1952.
Fontes
MANUSCRITOS. Enrique de Gandía. Buenos Aires, 1948.

MANUSCRITOS. Alcantara Nogueira. Rio de Janeiro, 1949.


PILOTO, V. Tupi e grego, do professor Michaele e a Universidade Estadual de Ponta Grossa. Diário do Paraná, Ponta Grossa, p.2, 7 mar. 1974.
Referências
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